Campo Geral
Campo Geral
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Pai estava chegando, seo Aristeu para ele explicava: — “Amigo meu Miguilim de repente estranhou a melhor saúde que ele tem. Isso isso-mesmo: ajustar as perninhas primeiro nos compassos…” Estipulava: que ali no Gerais não dava tísica, não, mas mesmo tísica ele sarava, com agrião e caldo de bicho caramujo — era: pá!-bosta! — e todos milagres aquilo fazia… Miguilim carecia de remédio nenhum, estava limpo de tudo. Siso de que exercício era bom: podia ir até na caçada… Porque seo Aristeu aparecia por ali era para prevenir os caçadores: uma anta enorme estava trançando, desdada, uma anta preta chapadense, seo Aristeu tinha batido atrás da treita do rastro, acertara com a picada mais principal, ela reviajava de chapada pra chapada, e em três veredas ela baixava: no Tipã, no Terentém e no Ranchório — burrinhando, sozinha, a fêmea decerto tinha ficado perdida dela, ou alguém mais já tinha matado. Carecia de se emprazar a boa caçada… — “E as abelhas, como vão, seo Aristeu?” “— De mel e mel, bem e mal, Nhô Berno, mas sempre elas diligencêiam, me respeitam como rei delas, elas sabem que eu sou o Rei-Bemol… Inda ôntem, sei, sabem, um cortiço deu enxame, enxame enorme: um vê — rolando uma nuvem preta, o diabo devia de querer estar no meio, rosnando… Ei, Miguilim, isto é p’ra você, você carece de saber das coisas: primeiro, foi num mato, onde eu achei uns macacos dormindo, aí acordaram e conversaram comigo… Depois, se a gente vê um ruivo espirrar três vezes seguidas, e ele estando com facão, e pedir água de beber, mas primeiro lavar a boca e cuspir — então, desse, nada não se queira, não!” Seo Aristeu sossegava para almoçar. Supria de aceitar cachaça. Oh homem! Ele tinha um ramozinho de ai-de-mim de f lôr espetado na copa do chapéu, as calças ele não arregaçava. Só dizia aquelas coisas dansadas no ar, a casa se espaceava muito mais, de alegrias, até Vovó Izidra tinha de se rir por ter boca. Miguilim desejava tudo de sair com ele passear — perto dele a gente sentia vontade de escutar as lindas estórias. Na hora de ir embora afinal, seo Aristeu abraçou Miguilim:
— “Escuta, meu Miguilim, você sarou foi assim, sabe:
…Eu vou e vou e vou e vou e volto!
Porque se eu for
Porque se eu for
Porque se eu for
hei de voltar…
E isto se canta bem ligeiro, em tirado de quadrilha.”
Depois e tanto, abraçou o Dito; falou: — “Tratem com os açúcras este homenzinho nosso, foi ele quem veio e quis me chamar…”
A caçada, a batida da anta, para um domingo, Deus quisesse, ficou marcada.
Agora Miguilim tinha tanta fome, comeu demais, até deu na fraqueza: depois de comer, ficou frio suado. Mas estava alevantado nas bôas cores. O barro secou. Pai disse: — “Miguilim carece de render exercício labutando, amanhã ele leva almoço meu na rocinha.” Miguilim gostou disso, por demais: Pai estava achando que ele tinha préstimo para ajudar, Pai tinha falado com ele sem ser ralhando. A alegria de Miguilim era a sús.
— Você me ensinazinho a dansar, Chica?
— Ensino, você não aprende.
— Aprendo sim, Chica…
— A Rosa quem disse: Dito aprende, Miguilim não aprende...
— Por que, Chica?
— Você nasceu em dia-de-sexta com os pés no sábado: quando está alegre por dentro é que está triste por fora… A Rosa é quem disse. Você tem pé de chacolateira…
No outro dia, dia-de-manhã bonito, o sol chamachando, estava dado lindo o grilgril das maitacas, no primeiro, segundo, terceiro passar delas, para os buritis das veredas. Por qualquer coisa, que não se sabe, as seriemas gritaram, morro abaixo, morro acima, quase bem uma hora inteira. Vaqueiro Salúz tirava leite, o Dito conseguia de ajudar. A bezerrinha da vaca Piúna era dele, bezerro da Trombeta era de Tomèzinho, o da Nobreza de Drelina, o da Mascaranha de Chica, dele Miguilim o da vaca Sereia. O Rio-Negro não saía de junto da Gadiada, que devia de estar em começo de calor. Touro em turvo, feio, a cara burra, tão de ruim. Vez em quando virava a cabeçona, por se lamber na charneira — estava cheio de bernes. — “Por causa que aqui é mato, pé-de-serra, aí no meio dos Gerais não dá…” — por ele punia o vaqueiro Salúz. O Dito perguntava continuação. O Dito de tudo queria aprender.
Mas depois Mãe e a Rosa arrumavam bem a comida, no tabuleirinho de pau com aqueles buracos diferentes — nem não se carecia de prato nenhum, nem travessa, nenhuma vasilha nenhuma —; ele Miguilim podia ir cauteloso, levar para o pai. Em mal que o Dito não acompanhava de vir junto, porque dois meninos nunca que dá certo, fazem arte. E o caminhozinho descia, beirava a grota. Põe os olhos pra diante, Miguilim! Em ia contente, levava um brio, levava destino, se ria do grosso grito dos papagaios voantes, nem esbarrou para merecer uma grande arara azul, pousada comendo grêlos de árvore, nem para ouvir mais o guaxe de rabo amarelo, que cantava distinto, de vezinha não cantava, um estádio: só piava, pra chamar fêmea. De daí, Miguilim tinha de traspassar um pedaço de mato. Não curtia medo, se estava tão perto de casa. Assim o mês era só meios de novembro, mas por si pulavam caindo no chão as frutinhas da gameleira. O joá-bravo em rôxo f lorescia — seus lenços rôxos, fuxicados. E ali nem tinha tamanduá nenhum, tamanduá reside nas grotas, gostam de lugar onde tem taboca, tamanduá arranha muito a casca das árvores. A bem que estúrdio ele tamanduá é, tem um ronco que é um arquêjo, parece de porco barrão, um arquêjo soluçado. Miguilim não tinha medo, mas medo nenhum, nenhum, não devia de. Miguilim saía do mato, destemido. Adiante, uma maria-faceira em cima do voo assoviava — ia ver as águas das lagôas. O curiol ainda recantava, em mesmo, na primeirinha árvore perto do mato. Miguilim não virava a cara para espiar, faltava prazo. Os passarinhos são assim, de propósito: bonitos não sendo da gente. A pra não se ter medo de tudo, carecia de se ter uma obrigação. Aí ele andava mais ligeiro, instantinho só, chegava na rocinha.
O pai estava lá, capinando, um sol batia na enxada, relumiava. Pai estava suado, gostava de ver Miguilim chegando com a comida do almoço. Tudo estava direitim direito, Pai não ralhava. Se sentava no toco, para principiar a comer. Miguilim sentava perto, no capim. Gostava do Pai, gostava até pelo barulhinho d’ele comendo o de-comer. Pai comia e não conversava. Miguilim olhava. A roça era um lugarzinho descansado bonito, cercado com uma cerquinha de varas, mò de os bichos que estragam. Mas muitas borboletas voavam. Afincada na cerca tinha uma caveira inteira de boi, os chifres grandes, branquela, por toda bôa-sorte. E espetados em outros paus da cerca, tinha outros chifres de boi, desparelhados, soltos —: que ali ninguém não botava mau-olhado! As feições daquela caveira grande de boi eram muito sérias. Aí uma nhambuzinha ia saindo, por embora, acautelada com as perninhas no meio do meloso, passou por debaixo da tranqueira. A nhambuzinha ainda quis remirar para trás, sobressaía aqueles olhos da cor de ferrugem. Pai tinha plantado milho, feijão, batata-dôce, e tinha uns pés de pimenteira. Mas, em outros lugares, também, de certo ele plantava arrozal, algodão, um mandiocal grande que tinha. Miguilim tirava os carrapichos presos na roupa. As folhas de batata-dôce estavam picadas: era um besourinho amarelo que tudo furava. Pai tinha uma lata d’água, e uma cabaça com rolha de sabuco, mais tinha um coité, pra beber. Mesmo muitos mosquitos, abêlhas e avêspas inçoavam sem assento, o barulhim deles zunia. Pai não falava.
— Pai, quando o senhor achar que eu posso, eu venho também, ajudar o senhor capinar roça…
Pai não respondia nada. Miguilim tinha medo ter falado bobagem faltando ao respeito.
— Estou comido, regalo do corpo e bondade de Deus. Agora volta p’ra casa, menino, caça jeito no caminho não fazer arte.
Miguilim pegava o tabuleirinho vazio, tomava a benção a Pai, vinha voltando. Chegasse em casa, uma estória ao Dito ele contava, mas estória toda nova, dele só, inventada de juízo: a nhá nhambuzinha, que tinha feito uma roça, despois vinha colher em sua roça, a Nhá Nhambuzinha, que era uma vez! Essas assim, uma estória — não podia? Podia, sim! — pensava em seo Aristeu… Sempre pensava em seo Aristeu — então vinha ideia de vontade de poder saber fazer uma estória, muitas, ele tinha! Nem não devia de ter medo de atravessar o mato outra vez, era só um matinho bobo, matinho pequeno trem-atôa. Mas ele estava nervoso, transparecia que tinha uma coisa, alguém, escondido por algum, mais esperando que ele passasse, uma pessôa? E era! Um vulto, um homem, saía de detrás do jacarandá-tã — sobrevinha para riba dele Miguilim — e era Tio Terêz!…
Miguilim não progredia de formar palavra, mas Tio Terêz o abraçava, decidido carinhoso. — “Tio Terêz, eu não vou morrer mais!” — Miguilim então também desexclamava, era que nem numa porção de anos ele não tivesse falado.
— “De certo que você não vai morrer, Miguilim, em de ouros! Te tive sempre meu amigo? Conta a notícia de todos de casa: a Mãe como é que vai passando?”
E Miguilim tudo falava, mas Tio Terêz estava de pressa muito apurado, vez em quando punha a cabeça para escutar. Miguilim sabia que Tio Terêz estava com medo de Pai. — “Escuta, Miguilim, você alembra um dia a gente jurou ser amigos, de lei, leal, amigos de verdade? Eu tenho uma confiança em você…” — e Tio Terêz pegou o queixo de Miguilim, endireitando a cara dele para se olharem. — “Você vai, Miguilim, você leva, entrega isto aqui à Mãe, bem escondido, você agarante?! Diz que ela pode dar a resposta a você, que mais amanhã estou aqui, te espero…” Miguilim nem paz, nem pôde, perguntou nada, nem teve tempo, Tio Terêz foi falando e exaparecendo nas árvores. Miguilim sumiu o bilhete na algibeira, saiu quase corre-corre, o quanto podia, não queria afrouxar ideia naquilo, só chegar em casa, descansar, beber água, estar já faz-tempo longe dali, de lá do mato.
— Miguilim, menino, credo que sucedeu? Que que está com a cara em ar?
— Mesmo nada não, Mãe. Gostei de ir na roça, demais. Pai comeu a comida…
O bilhete estava dobrado, na algibeira. O coração de Miguilim solava que rebatia. De cada vez que ele pensava, recomeçava aquela dúvida na respiração, e era como estivesse sem tempo. — “Miguilim está escondendo alguma arte que fez!” “— Foi não, Vovó Izidra…” “— Dito, quê que foi que o Miguilim arrumou?!” “— Nada não, Vovó Izidra. Só que teve de passar em matos, ficou com medo do capêta…”
Pois agora iam ajudar Mãitina a arrancar inhame p’ra os porcos. Buscavam os inhames na horta, Mãitina cavacava com o enxadão, eram uns inhames enormes. Mãitina esbarrava, pegava própria terra do chão com os dedos do pé dela, falava coisas demais de sérias. Quase nada do que falava, com a boca e com as duas mãos pretas, a gente bem não aproveitava. Ela mascava fumo e enfiava também mecha de fumo no nariz, era vício. — “Dito, por que foi que você falou aquilo com Vovó Izidra?” “— Em tempo que não te auxiliei, Miguilim?” “— Mas por quê que você inventou no capêta, Dito? Por que?!” “— É porque do capêta todos respeitam, direito, até Vovó Izidra.” O Dito suspendia um susto na gente — que sem ser, sem saber, ele atinava com tudo. Mas não podia contar nada a ninguém, nem ao Dito, para Tio Terêz tinha jurado. Nem ao Dito! Custava não ter o poder de dizer, chega desnorteava, até a cabeça da gente doía. Mas não podia entregar o bilhete à Mãe, nem passar palavra a ela, aquilo não podia, era pecado, era judiação com o Pai, nem não estava correto. Alguém podia matar alguém, sair briga medonha, Vovó Izidra tinha agourado aquelas coisas, ajoelhada diante do oratório — do demônio, de Caim e Abel, de sangue de homem derramado. Não falava. Rasgava o bilhete, jogava os pedacinhos dentro do rego, rasgava miúdo. E Tio Terêz? Ele tinha prometido ao Tio Terêz, então não podia rasgar. Podia estar escrito coisa importante exata, no bilhete, o bilhete não era dele. E Tio Terêz estava esperando lá, no outro dia, saindo de detrás das árvores. Tio Terêz tinha falado feito numa estória: — “… amigos de todo guerrear, Miguilim, e de não sujeitar as armas?!…” Então, então, não ia, no outro dia, não ia levar a comida do Pai na roça, falava que estava doente, não ia…
Mesmamente que acabavam a arrancação de inhames, aí Mãitina chamava a gente, puxava, resumindo uma conversa ligeira, resmungada, aquela feia fala, eles dois tinham de ir com ela até na porta do acrescente. Quê que queria? Pois, vai, mexia em seus guardados, vinha com rodelão de cobre-de-quarenta na palma-da-mão, demostrava aquele dinheiro sujoso, falava, falava, de ventas abertas, toda aprumada em sobres. — “Que ela quer é cachaça! Que está dizendo dá o cobre, a gente furtar pra ela um gole, um copo, do restilo que Pai tem…” O Dito espertava Miguilim para correrem, os dois escapuliam, Mãitina parava de lá, zurêta, sapateava, até levantava de ofensa a saia, presentava o sesso, aquelas pernas pretas, pernas magras, magras. — “O que é que vocês estão fazendo com a negra?” — a Rosa gritava. — “Olha, ela arruma em vocês malefício de ato, põe o que põe!” A Rosa temia toda qualidade de praga e de feitiçaria.
No curral, o vaqueiro Jé já tinha reunido todos os burros e cavalos, que estava tratando, o cavalinho pampa semelhava doente, sangrado na cia e desistido de sacudir os cabos. — “Aprende, Dito: pisadura que custa mais para sarar, é a no rim e a na charneira…” Miguilim gostava de esperar perto do cocho, perto deles — os cavalos que sopram quente. Nos mais mansos, o vaqueiro Jé deixava a gente montar, em pelo, um em um. — “Vocês me honrem, ãã!? Não facilitem…” Desde, desde, se ia até lá adiante, a porto nos coqueiros, se voltava. Devoava uma alegria. Era a coisa melhor. O Dito montava no Papavento, que era baio-amarelo, cor de terra de ivitinga; Miguilim montava no Preto, que era preto mesmo, mas Mãe queria mudar o nome dele para Diamante. O vaqueiro Jé dava a cada um um ramo verde, para bater. Tomèzinho se escaldava, burrando birra, por não poder montar, ele só. Miguilim todo o tempo quase não pensava no bilhete, resolvia deixar para pensar no outro dia, manhã cêdo. Um que outro gavião, quando pousavam gritavam. Alto, os altos, uns urubús. — “Vai fazer tua casa, arubú! Tempo de chuva envém, arubú!…” Esses iam. “— Êta, apostar quem corre mais, Miguilim?” — “Não, Dito, vaqueiro Jé disse que a gente deve de não correr…” Despois das piteiras, com aquelas verdes pontas, aquelas f lores amarelas, principiava o pasto, despois do jacarandá-violeta. Tinha aquelas árvores… De já, tinha um boi vermelho, boi laranjo, esbarrado debaixo do alto tamboril. Tantas cores! Atroado, grosso, o môo de algum outro boi. O Dito então aboiava. Miguilim queria ver mais coisas, todas, que o olhar dele não dava. — “Pai é dono, Dito, de mandar nisso tudo, ah os gados… Mas Pai desanima de galopar nunca, não vem vaquejar boiadas…” “— Pai é dono nenhum, Miguilim: o gadame é dum homem, Sô Sintra, só que Pai trabalha ajustado em tomar conta, em parte com o vaqueiro Salúz.” “— Sei e sei, Dito. Eu sabia… Mas então é ruim, é ruim…” “— Mais, mesmo, também, Pai não consegue de muito montar, ele não aguenta campeio. Pai padece de escandescência.” — “Eu sabia, Dito. Só a mal eu esqueci…” O Dito aboiava de endiabrado certo, que nem fosse um homem, estremecido. “— Dito, mesmo você acha, eu sou bôbo de verdade?” “— É não, Miguilim, de jeito nenhum. Isso mesmo que não é. Você tem juízo por outros lados…” Vinham voltando, cruzavam com o vaqueiro Jé, montado no cavalo Cidrão, carregando Tomèzinho adiante e com a Chica na garupa. A Chica punha os dedinhos na boca, os beijos ela jogava. — “Quem ensinou fazer isso, Chica?” “— Mãe mesma que ensinou, ah!” Amável que era tão engraçadinha, a Chica, todas as vezes, as feições de ser.
— “Dito, como é que a gente sabe certo como não deve de fazer alguma coisa, mesmo os outros não estando vendo?” “— A gente sabe, pronto.” Zerró e Julim perseguiam atrás das galinhas-d’angola. Tomèzinho jogou uma pedra na perna do Floresto, que saíu, saindo, cainhando. Tomèzinho teve de ir ficar de castigo. No castigo, em tamborete, ele não chorava, daí deixava de pirraçar: mais de repente virava sisudo, casmurro — tão pequetitinho assim, e assombrava a gente com uma cara sensata de criminoso. — “Rosa, quando é que a gente sabe que uma coisa que vai não fazer é malfeito?” “— É quando o diabo está por perto. Quando o diabo está perto, a gente sente cheiro de outras f lores…” A Rosa estava limpando açúcar, mexendo no tacho. Miguilim ganhava o ponto de puxa, numa cuia d’água; repartia com o Dito. “— Mãe, o que a gente faz, se é mal, se é bem, ver quando é que a gente sabe?” “— Ah, meu filhinho, tudo o que a gente acha muito bom mesmo fazer, se gosta demais, então já pode saber que é malfeito…” O vaqueiro Jé descascava um ananás branco, a eles dava pedaço. — “Vaqueiro Jé: malfeito como é, que a gente se sabe?” “— Menino não carece de saber, Miguilim. Menino, o todo quanto faz, tem de ser mesmo é malfeito…” O vaqueiro Salúz aparecia tangendo os bezerros, as vacas que berravam acompanhavam. Vaqueiro Salúz vinha cantando bonito, ele era valente geralista. A ele Miguilim perguntava. “— Sei se sei, Miguilim? Nisso nunca imaginei. Acho quando os olhos da gente estão querendo olhar para dentro só, quando a gente não tem dispor para encarar os outros, quando se tem medo das sabedorias… Então, é mal feito.” Mas o Dito, de ouvir, ouvir, já se invocava. “— Escuta, Miguilim, esbarra de estar perguntando, vão pensar você furtou qualquer trem de Pai.” “— Bestagem. O cão que eu furtei algum!” “— Olha: pois agora que eu sei, Miguilim. Tudo quanto há, antes de se fazer, às vezes é malfeito; mas depois que está feito e a gente fez, aí tudo é bem-feito…” O Dito, porque não era com ele. Fosse com ele, desse jeito não caçoava.
Desde estavam brincando de jogar malha, no pátio, meio de tardinha. Era com dois tocos, botados em pé, cada um de cada lado. A gente tinha de derrubar, acertando com uma ferradura velha, de distância. Duma banda o Dito, mais vaqueiro Salúz, da outra Miguilim mais o vaqueiro Jé. Mas Miguilim não dava para jogar direito, nunca que acertava de derribar. — “Faz mal não, Miguilim, hoje é dia de são-gambá: é de branco perder e preto ganhar…” — o vaqueiro Jé consolava. Mas Miguilim não enxergava bem o toco, de certo porque estava com o bilhete no bolso, constante que em Tio Terêz não queria pensar. Essa hora, Pai tinha voltado da roça, estava lá dentro, cansado, deitado na rede macia de buriti, perto de Mãe, como cochilava. Miguilim forcejava, não queria, mas a ideia da gente não tinha fecho. Aquilo, aquilo. Pensamentos todos desciam por ali a baixo. Então, ele não queria, não ia pensar — mas então carecia de torar volta: prestar muita atenção só nas outras coisas todas acontecendo, no que mais fosse bonito, e tudo tinha de ser bonito, para ele não pensar — então as horas daquele dia ficavam sendo o dia mais comprido de todos… O Gigão folgazando com Tomèzinho, os dois rolavam no chão, em riba da palha. Aquele fiar fino dos sanhaços e sabiás entorpecia, gaturamo já tinha ido dormir, vez em quando só um bem-te-vi que era que ainda gritava. Zerró, Julim e Seu-Nome estavam deitados, o tempo todo — conforme podia ser notícia de chuva: se diz que, chuva vesprando, cachorro soneja muito. Mas Caráter, Catita, Leal e Floresto corriam espaço, até muito por longe, querendo pegar as bobagens do vento. Miguilim pensava a conversa do Dito. Quando o Dito falou, aquilo devagar ainda podia parecer justo, o Dito sabia tanta coisa tirada de ideia, Miguilim se espantava. Menos agora. Agora, ele escogitava, cismava que não era só assim, o do Dito, achava que era o contrário. A coisa mais difícil que tinha era a gente poder saber fazer tudo certo, para os outros não ralharem, não quererem castigar. De primeiro, Miguilim tinha medo dos bois, das vacas costeadas. Pai bramava, falava: — “Se um sendo medroso, por isso o gado te estranha, rês sabe quando um está com pavor, qualquer receiozinho, então capaz mesmo que até a mansa vira brava, com vontades de bater…” Pois isso, outra vez, Miguilim sabia que a gente não tivesse medo não tinha perigo, não se importou mais, andou logo por dentro da boiada, duma boiada chegada, poeira de boi. Daí, foi um susto, veio Pai, os vaqueiros vieram, com as varas, carregaram com ele Miguilim pra o alpendre, passavam muito ralho. — “Menino, diabo, demonim! Tu entra no meio desse gado bruto, que é outro, tudo brabeza dos Gerais?! Sei como não sentaram chifre, não te espisaram!…” De em diante, Miguilim tudo temeu de atravessar um pasto, a tiro de qualquer rês, podia ser brava podia ser mansa, essas coisas. Mas agora Miguilim queria merecer paz dos passados, se rir seco sem razão. Ele bebia um golinho de velhice.
— “Você hoje está honrador, Miguilim, assoprado solerte!” Vaqueiro Salúz era que estava para vadiar, desusado de vaqueiro. Miguilim não queria ficar sozinho de coisa nenhuma. Agora jogavam peteca, atôa. Vaqueiro Salúz fez uma peteca de palha-de-milho, espetou penas de galinhas. A Chica e Tomèzinho divertiam com os bezerros, Tomèzinho apartava um mais sereno, montava, de primeiro Miguilim também gostava daquilo. Os bezerros também brincavam uns com os outros, de dar pinotes, os coices, e marradas — zupa que estralavam, os garrotinhos se escornando, chifreando — conforme fazem esse sistema. Tinha uma bezerrinha, tão nascida pequena, a filha da Atucã, e era aspra, zangosa, feito uma vaquinha brava: investia de lá, vinha na Chica. — “Nem, nem, nem, Tucaninha? Me quer-bem de me matar?!” A Chica nunca aceitava medo de nada. O Dito botava um milho para os cavalos. Sobreescurecia. Devoavam em az os morcegos, que rodopêiam. O vaqueiro Jé acendia um foguinho de sabucos, quase encostado na casa, o fôgo drala bonito, todos catavam mais sabucos, catavam lenha para se queimar. Um cavalo vinha perto, o Dito passava mão na crina dele. A gente nem esperando, via vagalume principiando pisca. — “Teu lume, vagalume?” Eram tantos. Sucedeu um vulto: de ser a coruja-branca, asas tão moles, passou para perto do paiol, o voo dela não se ouvia. — “Ri aqui, Xandoca velha, que eu te sento bala!…” De trás de lá, no mato da grota, mãe-da-lua cantava: — “Floriano, foi, foi, foi!…” Miguilim seguia o existir do cavalo, um cavalo rangendo seu milho. Aquele cavalo arreganhava. O vaqueiro Salúz contava duma caçada de veado, no Passo do Perau, em beiras. Estava na espera melhor, numa picada de samambaias, samambaia alta, onde algum roçado tinha tido. Veado claro do campo: um suassú-tinga, em éra. Vaqueiro Salúz produzia: — “O bicho abre — ele ganhou uma dianteira… Os cachorros maticavam, piando separados: — Piu, piu… Uão, uão, uão…” A cachorrada abre o eco, que ninguém tem mão… Veado foi acuado num capão-de-mato, não quis entrar no mato… Aí o veado tomou o chumbo, ajoelhou pulou de lado, por riba da samambaia… A gente abria o veado, esvaziava de tripas e miúdos, mò de ficar leve p’ra se carregar. Seo Aristeu estava lá, divertido. — “Você inda aprecêia de caçar, Miguilim. Quer vir junto?” Miguilim queria, não queria. — “Quem sabe um dia eu quero, Pai vai me levar…” O vaqueiro Jé, p’ra o pito, pegava um tição. Tomèzinho assanhava as sombras no nú da parede. A noite, de si, recebia mais, formava escurão feito. Daí, dos demais, deu tudo vagalume. — “Olha quanto mija-fôgo se desajuntando no ar, bruxolim deles parece festa!” Inçame. Miguilim se deslumbrava. — “Chica, vai chamar Mãe, ela ver quanta beleza…” Se trançavam, cada um como que se rachava, amadurecido quente, de olho de bago; e as linhas que riscavam, o comprido, naquele uauá verde, luzlino. Dito arranjava um vidro vazio, para guardar deles vivendo. Dito e Tomèzinho corriam no pátio, querendo pegar, chamavam: — “Vagalume, lume, lume, seu pai, sua mãe, estão aqui!…” Mãe minha Mãe. O vagalume. Mãe gostava, falava, afagando os cabelos de Miguilim: — “O lumêio deles é um acenado de amor…” Um cavalo se assustava, com medo que o vagalume pusesse fôgo na noite. Outro cavalo patalava, incomodado com seu corpo tão imóvel. Um vagalume se apaga, descendo ao fundo do mar. — “Mãe, que é que é o mar, Mãe?” Mar era longe, muito longe dali, espécie duma lagôa enorme, um mundo d’água sem fim, Mãe mesma nunca tinha avistado o mar, suspirava. — “Pois, Mãe, então mar é o que a gente tem saudade?” Miguilim parava. Drelina espiava em sonho, da janela. Maria Pretinha e a Rosa tinham vindo também.
Mas chegava a noite de dormir, Miguilim esperdiçava as coisas todas do dia. O Dito guardou debaixo da cama a garrafa cheia de vagalumes. — “Miguilim, você hoje não tirou calça.” “— Amola não, Dito. Tou cansado.” Mas antes tinha carecido de lavar os pés: quem vai se deitar em estado sujo, urubú vem leva. Também, tudo que se fazia transtornava preceito. Amanhã, Pai estava lá na roça… O Dito sabia não, deitado no canto. Todos outros pensamentos, menos esse, o Dito pensava. Ele ainda estava deitado de costas, vez em quando fungava um assopro brando, já devia de ter rezado suas três ave-marias sem rumor. Agora, o que era que ele pensava? Essas horas, bem em beira do sono, o Dito, mesmo irmão, mesmo ali encostado, na cama, e ficava parecendo quase que outra pessôa, um estranho, dividido da gente. O Dito era espertadozinho, mas acomodado. Nunca que ele falava por mal. — “Dito?” “— O quê, Miguilim?” “— Nú só é que a gente não deve de dormir, anjo-da-guarda vai s’embora… Mas calça a gente pode não se tirar…” “Eu sei, Miguilim.” O Dito resumia de nada. O Dito não brigava de verdade com ninguém, toda vez de brigar ele economizava. Miguilim sempre queria não brigar, mas brigava, derradeiramente, com todos. Tomara a gente ser, feito o Dito: capaz com todos horários das pessôas… — “Dito? Não tiro a calça hoje, pois porque foi uma promessa que eu fiz…” “— Uê, Miguilim…” Ele não acreditava? “— Miguilim? Foi pra as almas-do-purgatório que você fez?” O Dito se rebuçava. Miguilim também se rebuçava. O bilhete estava ali na algibeira, até medo de botar a mão, até não queria saber, amanhã cêdo ele via se estava. Rezava, rezava com força; pegava um tremor, até queria que brilhos doêssem, até queria que a cama pulasse. Conseguia era outro medo, diferente. O Dito já tinha adormecido. O que dormia primeiro, adormecia. O outro herdava os medos, e as coragens. Do mato do Mutúm. Mas não era toda vez: tinha dia de se ter medo, ocasião, assim como tinha dia de mão de tristeza, dia de sair tudo errado mesmo, — que esses e aqueles a gente tinha de atravessar, varar da outra banda. Cuidava de outros medos.
Das almas. Do lobishomem revirando a noite, correndo sete-portêlos, as sete-partidas. Do Lobo-Afonso, pior de tudo. Mal, um ente, Seo Dos-Matos Chimbamba, ele Miguilim algum dia tinha conhecido, desqual, relembrava metades dessa pessôa? Um homem grosso e baixo, debaixo de um feixe de capim seco, sapé? — homem de cara enorme demais, sem pescoço, rôxo escuro e os olhos-brancos… Pai soubesse que ele tinha conversado com Tio Terêz? Ai, mortes! —? Rezava. Do Pitôrro. Um tropeiro vinha viajado, sozinho, esbarrava no meio do campo, por pousar. Aí, ele enxergava, sentado no barranco, homenzinho velho, barbim em queixo, peludo, barrigudo, mais tinha um chapéu-de-couro grande na cabeça, homem esse assoviava. Parecia veredeiro em paz. Mas o Homem perguntava se o Tropeiro tinha fumo e palha; mas ele mesmo secundava da algibeira um cachimbo que tinha, socava de fumo, acendia esquentado. Soltava fumaceira, de dentro indagava, com aquela voz que ia esticando, cada ponto mais perguntadeira, desonrosa: — “Seor conhece o Pitôrro?” Botava outras fumaças: — “Seor conhece o Pitôrro?!” E ia crescendo, de desde, transformava um monstro Homem, despropósito. — “Não conheço Pitôrro, nem mãe, nem pai de Pitôrro, nem diabo que os carregue em nome de Se’ J’us Cristo amém!…” — o Tropeiro exclamava, riscava no chão o signo-salomão, o Pitôrro com enxofres breus desrebentava: ele era o “Menino”, era o Pé-de-Pato. — “Com Deus me deito, com Deus me levanto!” — jaculava Miguilim; e não pegava de ver a ponta do sono em que se adormecia.
Tanto que amanheceu, e que as poucas horas se agravaram, pobres pezinhos de Miguilim, no outro dia, caminhando pronto e vagaroso, passeiro para o curto do mato, arregalado em sua af lição. Se abobava? Deu ar: que Pai hoje estava capinando noutra roça — ah, que era bom! Mas, não, que nem não era bom, não remediava. A outra roça era mais adiante, mas o caminho sendo o mesmo, Miguilim tinha por-toda-a-lei de atravessar o matinho, lá Tio Terêz estava em pé esperando. Consoante que se sobreformava um céu chuvo, dia feio, bronho. Miguilim carregava à cabeça o tabuleirinho. E não chorava. Que ninguém visse, ninguém podia ver: por fora ele não chorava. Tinha pensado tudo que podia dizer e não fazer? Não tinha. — “Tio Terêz, eu entreguei o bilhete a Mãe, mas Mãe duvidou de me dar a resposta…” Ah, de jeito nenhum, podia não, era levantar falso à Mãe, não podia. Mas então não achava escape, prosseguia sem auxílio de desculpa, remissão nenhuma por suprir. Sem tempo mais, sem o solto do tempo, e o tamanho de tantas coisas não cabia em cabeça da gente… Ah, meu-deus, mas, e fosse em estória, numa estória contada, estoriazinha assim ele inventando estivesse — um menino indo levando o tabuleirinho com o almoço — e então o que era que o Menino do Tabuleirinho decifrava de fazer? Que palavras certas de falar?! — “… Tio Terêz, Vovó Izidra vinha, raivava, eu rasguei o bilhete com medo d’ela tomar, rasguei miudinhos, tive de jogar os pedacinhos no rego, foi de manhãzinha cedo, a Rosa estava dando comida às galinhas…” — “Tio Terêz, a gente foi a cavalo, costear o gado nesses pastos, passarinhos do campo muito cantavam, o Dito aboiava feito vaqueiro grande de toda-a-idade, um boi rajado de pretos e verdes investiu para bater, de debaixo do jacarandá-violeta, ái, o bilhetezinho de se ter e não perder eu perdi…” Mas, aí, Tio Terêz não era da estória, aí ele pega escrevia outro bilhete, dava a ele outra vez; tudo, pior de novo, recomeçava. — “Tio Terêz, eu principiei querer entregar a Mãe, não entreguei, inteirei coragem só por metade…” Ah, mas, se isso, Tio Terêz não desanimava de nada, recrescia naquela vontade estouvada de pessôa, agarrava no braço dele, falava, falava, falava, não desistia nenhum. Nenhum jeito! Agora Miguilim esbarrava, respirava mais um pouco, não queria chorar para não perder seu pensamento, sossegava os espantos do corpo. E não tinha outro caminho, para chegar lá na roça do Pai? Não tinha, não. Miguilim lá ia. Ia, não se importava. Tinha de ser lealdoso, obedecer com ele mesmo, obedecer com o almoço, ia andando. Que, se rezasse, sem esbarrar, o tempo todo, todo tempo, não ouvia nada do que Tio Terêz falasse, ia andando, rezava, escutava não, ia andando, ia andando… Entrava no mato. Era aquele um mato calado. Miguilim rezava, sem falar alto. Deus vigiava tudo, com traição maior, Deus vaquejava os pequenos e os grandes! E era na volta que o Tio Terêz ia aparecer? Mas não era.
Tio Terêz saía de suas árvores, ousoso macio como uma onça, vinha para cima de Miguilim. Miguilim agora rezava alto, que doideira era aquela? E nem não pôde mais, estremeceu num pranto. Sacudia o tabuleirinho na cabeça, as lágrimas esparramaram na cara, sufocavam o fôlego da boca, ele não encarava Tio Terêz e rezava. — “Mas, Miguilim, credo que isso, quieta!? Quê que você tem, que foi?!” “— Tio Terêz, eu não entreguei o bilhete, não falei nada com Mãe, não falei nada com ninguém!” “— Mas, por que, Miguilim? Você não tem confiança em mim?!” “— Não. Não. Não! O bilhete está aqui na algibeira de cá, o senhor pode tirar ele outra vez…” Tio Terêz duvidava um espaço, depois recolhia o bilhete do bolso de Miguilim, Miguilim sempre com os bracinhos levantados, segurando na cabeça o tabuleirinho com a comida, outra vez quase não soluçava. Tio Terêz espiava o bilhete, que relia, às tristes vezes, feito não fosse aquele que ele mesmo tinha fornecido. Daí olhou para Miguilim, de dado relance, tirou um lenço, limpou jeitoso as lágrimas de Miguilim. — “Miguilim, Miguilim, não chora, não te importa, você é um menino bom, menino direito, você é meu amigo!” Tio Terêz estava com a camisa de xadrezim, assim o tabuleiro na cabeça empatava de Tio Terêz poder dar abraço. — “Você é que está certo, Miguilim. Mais não queira mal ao seu Tio Terêz, nem fica pensando…” Tio Terêz falava tantas outras coisas; comida de Pai não estava por demais esfriando? Tio Terêz dizia só tinha vindo por perto para dar adeus, pois que ia executar viagem, por muito distante. Tio Terêz beijava Miguilim, de despedida, daí sumia por entre o escuro das árvores, conforme que mesmo tinha vindo.
Miguilim chorava um resto e ria, seguindo seu caminhinho, saía do mato, despois noutro mato entrava, maior, a outra rocinha de Pai devia de se ser mais adiante por ali, ao por pouco. E Miguilim andava aligeirado, desesfogueado, não carecia mais de pensar! Só um caxinguelê ruivo se azougueou, de repentemente, sem a gente esperar, e já de ah subindo p’la árvore de jequitibá, de reta, só assim esquilando até em cima, corisco, com o rabãozinho bem esticado para trás, pra baixo, até mais comprido que o corpo — meio que era um peso, para o donozinho dele não subir mais depressa do que a árvore… Miguilim por um seu instante se alegrou em si, um passarinho cantasse, dlim e dlom.
Mas o mato mudava bruto, no esconso, mais mato se fechando. Miguilim andara demais longe, devia de ter depassado o ponto da roça nova. Esbarrou. Tinham mexido em galho — mas não era outro serelepe, não.
Susto que uns estavam conversando cochicho, depressa, fervido, davam bicotas. Vulto de vaqueiro encourado, acompanhado de outro, escorregou pelas folhagens, de sonsagato, querendo mais escondido. Desordem de ameaça, que disse-disse, era lá em cima: um frito de toicinho, muitos olhos estalavam, no mioloso. E destravavam das árvores, repulando, vindo nele? — A cô! — Miguilim tinha não aguentado mais, tiçou tabuleiro no chão, e abriu correndo de volta, aos gritos de quero mãe, quero pai, foi — como que nem sabia como que — mais corria.
De supetão, o Pai — aparecido — segurava-o por debaixo dos braços, Miguilim gritava e as perninhas ainda queriam sempre correr, o Pai ele não tinha reconhecido. Mas Pai carregava Miguilim suspendido alto, chegava com ele na cabeceira da roça, dava água na cabaça, pra beber. Miguilim bebia, chorava e cuspia. — “Que foi que foi, Miguilim? Qu’é de o almoço?” Junto com o Pai, estava o outro homem, sem barba nenhuma, que pegava na mão de Miguilim, e ria para ele, com os olhos alumiados. Quando Miguilim contou o caso do mato, Pai e o outro espiaram o ar, todos sérios, tornaram a olhar para Miguilim. Com Pai ali, Miguilim tinha medo não, isto é tinha e não tinha. — “A gente vamos lá!” — o Pai disse. Eles estavam com as armas. Miguilim vinha caminhando, meio atrás deles dois.
Mas, que mal iam chegando lá onde tinha sido aquele lugar, e Pai e o outro homem desbandeiravam de rir, se descadeiravam, tomavam bom espanto: bicho macaco se escapuliam de pra toda banda, só guinchos e discussão de assovio, cererê de mão em mão no chão, assunga rabo, rabo que até enroscavam para dependurar, quando empoleiravam, mais aqueles pulos maciinhos, de árvore em árvore — tudo mesmo assim ainda queriam ver, e pouco fugiam. Mas, no alto meio, agarrado com as mãos em dois galhos, senhor um mandava, que folhassem e azulassem mostrando as costas com toda urgência. Capela de macacos! Miguilim entendia, juntou as pernas e baixou a cara, Pai agora o ia matar, por ter perdido o caráter, botado fora o almoço. Mas Pai, se rindo com o outro homem, disse, sem soltura de palavras, sem zanga verdadeira nenhuma: — “Miguilim, você é minhas vergonhas! Mono macaco pôde mais do que você, eles tomaram a comida de suas mãos…” E não quiseram matar macacos nenhuns. Também, não fazia grande mal, ia começar a chover, careciam mesmo de voltar para casa. Miguilim pegou o tabuleirinho — os macacos tinham comido o de-comer todo.
Sofria precisão de conversar com o Dito, assim que o Pai terminasse de contar tantas vezes a estória dos macacos, todos riam muito, mas ele Miguilim não se importava, até era bom que rissem e falassem, sem ralhar. — “Miguilim? Se encontrou com padrinho Simão, correu ensebado, veadal… Chorou a água de uns três cocos…” — Pai caçoava. Quando Pai caçoava, então era porque Pai gostava dele.
Mas carecia de ficar sozinho com o Dito. Tinha aprendido o segredo de uma coisa, valor de ouro, que aumentava para sempre seu coração. — “Dito, você sabe que quando a gente reza, reza, reza, mesmo no fogo do medo, o medo vai s’embora, se a gente rezar sem esbarrar?!” O Dito olhava para ele, desconvindo, só que não tinha pressa de se rir: — “Mas você não correu dos macacos, Miguilim, o que Pai disse?” Agora via que nisso não tinha pensado: não podia contar ao Dito tudo a respeito do Tio Terêz, nem que ele Miguilim tinha sido capaz de não entregar o bilhete, e o que Tio Terêz tinha falado depois, de louvor a ele, tudo. Ah, aí Miguilim nunca pensou que ia penar tanto, por não dizer, cão de que tinha de ficar calado! O Dito escorria no nariz, com um def luxo, ele repensava, muito sério. Tirou um pedaço de rapadurinha preta do bolso, repartiu com Miguilim. Depois, falou: — “Mas eu sei, que é mesmo. Aquilo que você perguntou.” “— Então, quando você está com medo, você também reza, Dito?” “— Rezo baixo, e aperto a mão fechada, aperto o pé no chão, até doer…” “— Por que será, Dito?” “— Eu rezo assim. Eu acho que é por causa que Deus é corajoso.”
O Dito, menor, muito mais menino, e sabia em adiantado as coisas, com uma certeza, descarecia de perguntar. Ele, Miguilim, mesmo quando sabia, espiava na dúvida, achava que podia ser errado. Até as coisas que ele pensava, precisava de contar ao Dito, para o Dito reproduzir, com aquela força séria, confirmada, para então ele acreditar mesmo que era verdade. De donde o Dito tirava aquilo? Dava até raiva, aquele juízo sisudo, o poder do Dito, de saber e entender, sem as necessidades. Tinha repente de judiar com o Dito: — “Mas eles não deixam você levar comida em roça, acham você não é capaz…” O Dito não se importava. Comia o restante de rapadura, com tanto gosto, depois limpou a mão na roupa. — “Miguilim — ele disse — você lembra que seo Aristeu falou, os macacos conversaram? Eu acho que foi de verdade.” Aí, começava a chover, chuva dura entortada, de chicote. Destampava que chovia, da banda de riba. O mato do morro do Mutúm em branco morava.
Pai ainda estava na sala, acabando almoço com o outro homem, o vaqueiro Salúz disse: topara com seo Deográcias. O Patorí, filho dele, tinha matado assassinado um rapaz, dez léguas de lá do Côcho, noutro lugar. Vaqueiro Salúz redondeava: — “Que faz dias, que foi…” Seo Deográcias estava revestido de preto, envelhecido com os cabelos duma hora para outra, percorrendo todas as veredas, e dando aviso às pessôas, dizendo que o Patorí não queria assassinar, só que estavam experimentando arma-de-fôgo, a garrucha disparou, o rapazinho morreu depressa demais. O Patorí esquipou no mundo, de si devia de estar vagando, campos. Seo Deográcias pedindo, a todos, para cercarem sem brutalidade. Seo Deográcias só perguntava, repetidas, se não achavam que o Patorí, sendo sem idade e sem culpa governada, não devia de escapar de cadeia, se não chegava ser mandado para a Marinha, em Pirapora, onde davam escola de dureza para meninos apoquentados.
O homem que tinha vindo junto, Pai dizia que ele era o Luisaltino. Conhecido bom amigo, deixado de trabalhar na Vereda do Quússo, meeiro, mas agora ia passar os tempos morando em casa, plantar roça com Pai. E era até bom, outro homem de respeito, mais garantido. Carecia de se pensar naqueles criminosos que andavam soltos no Gerais, feito, por um exemplo, o Brasilino Boca-de-Bagre. Mãe, Vovó Izidra, todas acho que concordavam.
Esse Luisaltino aceitou água para beber; mas primeiro bochechou, com um gole, e botou fora. Será que tinha facão? Miguilim espiou aberto para o Dito: do fim da conversa de seo Aristeu se lembrava. Será que tinha espirrado, três vezes? Miguilim não reparara. Mas não podia que ser? Devia. Assunto de Miguilim, se assustando: se devia de dar aviso ao Dito, aviso a todos — para ninguém não comer coisas nenhumas, o que o Luisaltino oferecesse. E bom que o Luisaltino ainda não dormia lá, naquela noite, mais primeiro tinha de ir buscar a trouxa e os trens, numa casa, na beira do Ranchório. Só retardava de beber o café, e que a chuva melhorasse.
A Chica também estava esperando: tinha tirado amolecido mais um dentinho de diante, quando estiasse careciam de jogar o dente no telhado, para ela, dizendo: — “Mourão, Mourão, toma este dente mau, me dá um dente são!…” A Chica agora ria tão engraçado; então dizia que, fosse menino-homem, batia no Dito e em Miguilim. Drelina mandava que ela tivesse modo. Drelina ficava olhando muito para Luisaltino, disse depois que ele era um moço muito bonito apessoado. Tomèzinho estava no alpendre, conversando com um menino chamado o Grivo, que tinha entrado para se esconder da chuva. Esse menino o Grivo era pouquinho maior que Miguilim, e meio estranhado, porque era pobre, muito pobre, quase que nem não tinha roupa, de tão remendada que estava. Ele não tinha pai, morava sozinho com a mãe, lá muito para trás do Nhangã, no outro pé do morro, a única coisa que era deles, por empréstimo, era um coqueiro buriti e um olho-d’água. Diziam que eles pediam até esmola. Mas o Grivo não era pidão. Mãe dava a ele um pouco de comer, ele aceitava. Ia de passagem, carregando um saco com cascas de árvores, encomendadas para vender. — “Você não tem medo? O Patorí matou algum outro, anda solto dôido por aí…” — Miguilim perguntava. O Grivo contava uma história comprida, diferente de todas, a gente ficava logo gostando daquele menino das palavras sozinhas. E disse que queria ter um cachorro, cachorrinho pequeno que fosse, para companhia com ele, mas a mãe não deixava, porque não tinham de comer para dar. Mas eles tinham galinhas. — “Sem cachorro pra tomar conta, raposinha não pega?” — o Dito perguntava. — “De tardinha, a gente põe as galinhas para dentro de casa…” “— Dentro de sua casa chove?” — perguntava Miguilim. “— Demais.” O Grivo tossia, muito. Será que ele não tinha medo de morrer?
Maria Pretinha trazia café para o vaqueiro Salúz. O que sobrava, o Grivo também bebia. Maria Pretinha sabia rir sem rumor nenhum, só aqueles dentes brancos se proseavam. Uma hora ela perguntou pelo vaqueiro Jé. — “Ei, campeando fundo nesse Gerais… Tem muito rancho por aí, pra ele de chuva se esconder!” Mas o vaqueiro Jé tinha levado capanga com paçoca, fome nenhuma não passava. Os cachorros gostavam do sistema do Grivo, vinham para perto, abanando rabo, as patas eles punham no joelho dele. Tomèzinho tinha furtado uma boneca da Chica, escondeu por debaixo duma cangalha. A Chica queria bater, Tomèzinho corria até lá na chuva. O Gigão corria junto, sabia conversar, com uns latidos mais fortes, de molhar o corpo ele mesmo não se importava. — “Dito, eu vou falar com Pai, pra não deixar esse moço morar aqui com a gente.” “— Fosse eu, não falava.” — “Pois por que, Dito? Você não tem medo de adivinhados?” “— Pai gosta que menino não fale nada desta vida!” Mas Miguilim mesmo não tinha certeza, cada hora tinha menos, cada hora menos. O Dito mais tinha falado: — “Luisaltino não é ruivo. Seo Aristeu não falou? Pai é que é ruivo…” E mesmo Miguilim achava que aquelas palavras de seo Aristeu também podiam ser só parte de uns versos muito antigos, que se cantavam. Agorinha, tinha vontade era de conversar muito com o Dito e o Grivo, juntos, a chuvinha ajudava a gente a conversar. O que ao Grivo ele estava dizendo: que a cachorrinha mais saudosa deste mundo, a Cuca Pingo-de-Ouro, era que o Grivo devia de ter conhecido.
Quando o Luisaltino veio de ficada, trouxe um papagaio manso, chamado Papaco-o-Paco, que sabia muitas coisas. Pai não gostava de papagaio; mas parece que desse um não se importou, era um papagaio que se respeitava. Penduraram a alcândora dele perto da cozinha, ele cantava: “Olerê lerê lerá, morena dos olhos tristes, muda esse modo de olhar…” Comia de tudo.
Miguilim agora ia todo dia levar comida na roça, para Pai e Luisaltino. Não pensava em Tio Terêz nem nos macacos; mas também ia com as algibeiras cheias de pedras. Luisaltino prometeu dar a ele uma faquinha. Luisaltino agradava muito a todos. Disse que o Papaco-o-Paco era da Chica, mas o Papaco-o-Paco não gostava constante da Chica, nem de pessôa nenhuma, nem dos meninos, nem do gato Sossõe, nem dos cachorros, nem dos papagaios bravos, que sovoavam. Só gostava era da Rosa, estalava beijos para a Rosa, e a Rosa sabia falar bôazinha com ele: — “Meu Cravo, tu chocou no meio dos matos, quantos ovinhos tinha em teu ninho? Onça comeu tua mãe? Sucruiú comeu teu pai? Onde é que estão teus irmãozinhos?” E Papaco-o-Paco estalava beijos e recantava: “Estou triste mas não choro. Morena dos olhos tristes, esta vida é caipora…” Cantava, cantava, sofismado, não esbarrava. A Rosa disse que aquela cantiga se chamava “Mariazinha”.
Com taquara e cana-de-f lecha, Luisaltino ensinou a fazer gaiolas. O Dito logo aprendeu, fazia muito bem feitinhas, ele tinha jeito nas mãos para aprender. As gaiolas estavam vazias, sanhaço e sabiá do peito vermelho não cantavam presos e o gaturaminho se prendesse morria: mas Luisaltino falou que com visgo e alçapão mais tarde iam pegar passarim de bom cantar: patativo, papa-capim, encontro. Luisaltino conversava sozinho com Mãe. O Dito escutou. — “Miguilim, Luisaltino está conversando com Mãe que ele conhece Tio Terêz…” Mas Miguilim desses assuntos desgostava. De certo que ele não achava defeito nenhum em Luisaltino.