Campo Geral
Campo Geral
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Aqueles dias passaram muito bonitos, nem choveu: era só o sol, e o verde, veranico. Pai ficava todo tempo nas roças, trabalhava que nem um negro do cativeiro — era o que Mãe dizia. E era bom para a gente, quando Pai não estava em casa. A Rosa tinha deitado galinhas: a Pintinha-amarela-na-cabeça, com treze ovos, e a Pintadinha com onze — e três eram ovos de perdiz, silpingados de rôxo no branco; agora não ia ter perigo de melar e dar piôlho nelas, no choco. Também estava chegando ocasião de se fazer presépio, Vovó Izidra mandava vir musgo e barba-de-pau, até o Grivo ia trazer. Vaqueiro Salúz pegou um mico-estrela, se pôs p’ra morar numa cabacinha alevantada na parede, atrás da casa. A Chica brincou uma festa de batizar três bonecas de mentira, para Miguilim, o Dito e Tomèzinho serem os padrinhos. Depois, os vaqueiros estavam chegando de campear, relatavam: — “Os cachorros deram com um tatú-canastra, tão grande! O tatú-canastra joga pedra e terra, tanta, que ninguém chega atrás. Alguém subisse em riba dele, ele não esbarrava de cavacar…” — “Ô bicho que tem força!” — o vaqueiro Jé aprovava. Disse que alguns não comiam tatú-canastra, porque a carne dele tem gosto de f lôr. — “Mas a carne dos outros tatús dá uma farofa bôa!” Miguilim então se ria, de tanta poetagem. O vaqueiro Jé, sem-sabido, perguntou: — “Ei, eu fizer a farofa, Miguilim, tu come? Você tem pena do tatú mais não?” “— Pois tenho, demais! Só que agora eu não estava pensando…” Daí Miguilim ficou com um ódio, por aquilo terem perguntado. E o Dito, em encoberto, contou que o vaqueiro Jé tinha abraçado a Maria Pretinha. Doideiras.
A vaca Sinsã pariu um bezerrinho branco, e a Tapira e a Veluda pariram cada-uma uma bezerrinha, igualzinhas das cores delas duas. Siàrlinda, mulher do vaqueiro Salúz, veio, trouxe requeijão moreno e dôce-de-leite que ela fez. Siàrlinda contou estórias. Da Moça e da Bicha-Fera, do Papagaio Dourado que era um Príncipe, do Rei dos Peixes, da Gata Borralheira, do Rei do Mato. Contou estórias de sombração, que eram as melhores, para se estremecer. Miguilim de repente começou a contar estórias tiradas da cabeça dele mesmo: uma do Boi que queria ensinar um segredo ao Vaqueiro, outra do Cachorrinho que em casa nenhuma não deixavam que ele morasse, andava de vereda em vereda, pedindo perdão. Essas estórias pegavam. Mãe disse que Miguilim era muito ladino, despois disse que o Dito também era. Tomèzinho desesperou, porque Mãe tinha escapado de falar no nome dele; mas aí Mãe pegou Tomèzinho no colo, disse que ele era um fiozinho caído do cabelo de Deus. Miguilim, que bem ouviu, raciocinou apreciando aquilo, por demais. Uma hora ele falou com o Dito — que Mãe às vezes era a pessôa mais ladina de todas.
Tudo era bom, às tardes a gente a cavalo, buscando vacas. Dia-de-domingo, cedinho escuro, no morno das águas, Pai e Luisaltino iam lavar corpo no pôço das pedras, menino-homem podia ir junto, carregavam pedaço de sabão de fruta de tinguí, que Mãitina tinha cozinhado. Luisaltino cortava pau-de-pita: abraçado com o leve desse, e com as cabaças amarradas, não se afundava, todo o mundo suspendido n’água, se aprendendo a nadar. Naquele pôço, corguinho-veredinha, não dava peixe, só fingindo de fazer de conta era que se pescava. Mas Vovó Izidra teve de ir dormir na Vereda do Bugre, para servir de parteira; sem Vovó Izidra a casa ainda ficava mais alegrada. Aí a Rosa levou os meninos todos, variando, se pescou. Só só piabas, e um timburé, feio de formas, com raja, com aquela boquinha esquisita, e um bagre — mole, saposo, arroxeado, parecendo uma posta de carne doente. Mas se pescou; foi muito divertido, a gente brincava de rolar atôa no capim dos verdes. E vai, veio uma notícia meia triste: tinham achado o Patorí morto, parece que morreu mesmo de fome, tornadiço vagando por aquelas chapadas.
Pai largou de mão o serviço todo que tinha, montou a cavalo, então carecia de ir no Cocho, visitar seo Deográcias, visita de tristezas. Então, aquela noite, sem Pai nem Vovó Izidra, foi o dia mais bonito de todos. Tinha lua-cheia, e de noitinha Mãe disse que todos iam executar um passeio, até aonde se quisesse, se entendesse. Êta fomos, assim subindo, para lá dos coqueiros. Mãe ia na frente, conversando com Luisaltino. A gente vinha depois, com os cavalos-de-pau, a Chica trouxe uma boneca. A Rosa cantava silêncio de cantigas, Maria Pretinha conversava com o vaqueiro Jé. Até os cachorros vinham — tirante Seu-Nome, que esse Pai tinha conduzido com ele na viagem. Quando a lua subiu no morro, grandona, os cachorros latiam, latiam. Mãitina tinha ficado em casa, mas ganhou gole de cachaça. Vaqueiro Salúz também ganhou do restilo de Pai, mas veio mais a gente. Drelina disse para a lua: — “Lua, luar! Lua, luar!” Vaqueiro Salúz disse que era o demônio que tinha entrado no corpo do Patorí; aí o Dito perguntou se Deus também não entrava no corpo das pessôas; mas o vaqueiro Salúz não sabia. Contava só que todas patifarias de desde menino pequeno o Patorí aprontava: guardava bosta de galinha nas algibeiras dos outros, inventava lélis, lelê de candonga, semeava pó de joão-mole na gente, para fazer coçar. O Dito semelhava sério. — “Dito, você não gosta de se conversar do Patorí, que morreu?” O Dito respondeu: — “Estou vendo essa lua.” Assim era bom, o Dito também gostasse. — “Eu espio a lua, Dito, que fico querendo pensar muitas coisas de uma vez, as coisas todas…” “— É luão. E lá nela tem o cavaleiro esbarrado…” — o Dito assim examinava. Lua era o lugar mais distanciado que havia, claro impossível de tudo. Mãe, conversando só com Luisaltino, atenção naquilo ela nem não estava pondo. Uma hora, o que Luisaltino falou: que judiação do mal era por causa que os pais casavam as filhas muito meninas, nem deixavam que elas escolhessem noivo. Mas Miguilim queria que, a lua assim, Mãe conversasse com ele também, com o Dito, com Drelina, a Chica, Tomèzinho. A gente olhava Mãe, imaginava saudade. Miguilim não sabia muitas coisas. — “Mãe, a gente então nunca vai poder ver o mar, nunca?” Ela glosava que quem-sabe não, iam não, sempre, por pobreza de longe. — “A gente não vai, Miguilim” — o Dito afirmou: — “Acho que nunca! A gente é no sertão. Então por que é que você indaga?” “— Nada, não, Dito. Mas às vezes eu queria avistar o mar, só para não ter uma tristeza…” Essa resposta Mãe escutou, prezou; pegou na mão de Miguilim para perto dela. Quando chegaram nos coqueiros, Mãe falou que gostava deles, porque não eram árvore dos Gerais: o primeiro dono que fez a casa tinha plantado aqueles, porque também dizia que queria ali outros coqueiros altos, mas que não fossem buritis. Mas o buriti era tão exato de bonito! A Rosa cantava a estória de um, às músicas, buriti desde que nasceu, de preso dentro da caixinha de um coco, até cair de velho, na água azulada de sua vereda dele. A Rosa dizia que podia ensinar a Papaco-o-Paco todo cantar que tencionasse. Quando a gente voltou, se tomou café, nem ninguém não precisou de fazer café forte demais e amargoso, só Pai e Vovó Izidra é que bebiam daquele café desgostável. No outro dia, foi uma alegria: a Rosa tinha ensinado Papaco-o-Paco a gritar, todas as vezes: — “Miguilim, Miguilim, me dá um beijim!…” Até Mãitina veio ver. Mãitina prezou muito o pássaro, deu a ele o nome de Quixume; ficou na frente dele, dizendo louvor, fazendo agachados e vênias, depois levantava a saia, punha até na cabeça. — “Miguilim, Miguilim…” Era uma lindeza.
Mas vem um tempo em que, de vez, vira a virar só tudo de ruim, a gente paga os prazos. Quem disse foi o vaqueiro Salúz, que não se esquecia da estória do Patorí, e também perdeu um pé de espora no campeio, e Siàrlinda achou um dinheiro que ele tinha escondido dela em buraco no alto da parede, e ele estava com dois dentes muito doendo sempre, disse que hemorroida era aquilo. Depois o Dito aprovou que o tempo-do-ruim era mesmo verdade, quando no dia-de-domingo tamanduá estraçalhou o cachorro Julim. Notícia tão triste, a gente não acreditava, mas Pai trouxe para se enterrar o Julim morto, dependurado no cavalo, ninguém que via não esbarrava de chorar. Foi na caçada de anta. Pai não querendo contar: o tamanduá-bandeira se abraçou com o Julim, primeiro estapeava com a mão na cara dele, como tamanduá dá sopapos como pessôa. Daí rolaram no chão, aquela unha enorme do tamanduá rasgou a barriga dele, o Julim abraçado sangrado, não desabotoou o abraço — abriu os peitos, ainda furou os olhos. Zerró não pôde ajudar, nem os outros. Pai matou o bandeira, mas teve de pedir a um companheiro caçador que acabasse de matar o Julim, mò de não sofrer. Nem não deviam de ter ido! Não eram cachorros para isso, anteiros eram os de seo Brízido Boi, que caçou também. E nem a anta não mataram: ela pegou o carreiro, furtou o caminho, desbestou zurêta chapada a fora, fez sertão, cachorro frouxou, com a anta, que frouxou também; mas não puderam matar. Aquele dia, Pai adoeceu de pena. Depois, Zerró e Seu-Nome percuravam, percuravam, os dois eram irmãos do Julim. Só o Gigão dormia grande, não fazia nada; e os paqueiros juntos, que corriam por ali a quatro, feito meninos sem juízo: Caráter, Catita, Soprado e Floresto.
Marimbondo ferroou Tomèzinho, que danou chorou, Vovó Izidra levou Tomèzinho na horta, no lugar ofendido espremeu joão-leite, aquele leite azulado, que muito sarava. Mais isso não era coisa nova por si, sempre abelha ou avêspa ferroavam algum, e a lagarta tatarana cabeluda, que queima a gente, tatarana-rata, até em galhos de árvore, e toda-a-vida a gente caía, relava os joelhos, escalavrava, dava topada em pedra ou em toco. Pior foi que o Rio-Negro estava do outro lado da cerca, lambendo sal no cocho, e Miguilim quis passar mão, na testa dele, alisar, fazer festas. O touro tinha só todo desentendimento naquela cabeçona preta — deu uma levantada, espancando, Miguilim gritou de dôr, parecia que tinham quebrado os ossos da mão dele. Mãe trouxe a mula de cristal, branquinho, aplicou no lugar, aquela friura lisinha do cristal cercava a dôr para sarar, não deixava inchaço; mas Miguilim gemia e estava com raiva até dele mesmo. O Dito veio perto, falou que o touro era burro, Miguilim achava que tinha entendido que o Dito queria era mexer — minha-nossenhora! — nem sabia por que era que estava com raiva do Dito: pulou nele, cuspiu, bateu, o Dito bateu também, todo espantado, com raivas — “Cão!” “Cão!” — no chão que rolaram, quem viu primeiro pensava eles dois estivessem brincando.
Quando Miguilim de repente pensou, fechou os olhos: deixava o Dito dar, o Dito podia bater o tanto que quisesse, ele ficava quieto, não podia brigar com o Dito! Mas o Dito não batia. O Dito ia saindo embora, nem insultava, só fungava; decerto pensava que ele Miguilim estava ficando dôido. Quem sabe estava? Desabria de vergonha, até susto, medo. Carecia de não chorar, rezar a Deus o cr’em-deus-padre. Não achava coragem pronta para frentear o Dito, pedir perdão — podia que tão ligeiro o Dito não perdoasse. E então Miguilim foi andando — a mão que o Rio-Negro machucou nem não doía mais — e Miguilim veio se sentar no tamborete, que era o de menino de-castigo. A vergonha que sentia era assim como se ele tivesse sobrado de repente ruim leve demais, a modo que todo esvaziado, carecia de esperar muito tempo, quieto, muito sozinho, até o corpo, a cabeça se encher de peso firme outra vez; mais não podia. Aquele castigo dado-por-si decerto era a única coisa que valia.
Com algum tempo, mais não aguentava: ia porque ia, procurar o Dito! Mas o Dito já vinha vindo. — “Miguilim, a gente vai trepar no pé-de-fruta…” O Dito nem queria falar na briga. Ele subia mais primeiro — o brinquedo ele tinha inventado. Antes de subir, botava a camisinha para dentro da calça, resumia o pelo-sinal, o Dito era um irmão tão bonzinho e sério, todas as coisas certas ele fazia. Lá em cima, bem em cima, cada um numa forquilha de galhos, estavam no meio das folhagens, um quase defronte do outro, só sozinhos. Estavam ali como escondidos, mas podiam ver o que em volta de casa se passava. O gato Sossõe que rastreava sorrateiro, capaz de caçar alguma lagartixa: com um zapetrape ele desquebrava a lagartixa, homem de fazer assim até com calango — o calango pequeno verde que é de toda parte, que entra em mato e vem em beira de morada, mas que vive o diário é no cerrado. Maria Pretinha lavando as vasilhas no rego, Papaco-o-Paco cochilando no poleiro, Mãitina batendo roupa na laje do lavadouro. — “Dito, você não guarda raiva de mim, que eu fiz?”
“— Você fez sem por querer, só por causa da dôr que estava doendo…” O Dito fungava no nariz, ele estava sempre endef luxado. Falava: — “Mais, se você tornar a fazer, eu dou em você, de ponta-pé, eu jogo pedrada!…” Miguilim não queria dizer que agora estava pensando no Rio-Negro: que por que era que um bicho ou uma pessôa não pagavam sempre amor-com-amor, de amizade de outro? Ele tinha botado a mão no touro para agradar, e o touro tinha repontado com aquela brutalidade. — “Dito, a gente vai ser sempre amigos, os mais de todos, você quer?” “— Demais, Miguilim. Eu já falei.” Com um tempo, Miguilim tornava: — “Você acha que o Rio-Negro tem demônio dentro dele, feito o Patorí, se disse?” “— Acho não.” O que o Dito achava era custoso, ele mesmo não sabia bem. Miguilim perguntava demais da conta. Então o Dito disse que Pai ia mandar castrar o Rio-Negro de qualquer jeito, porque careciam de comprar outro garrote, ele não servia mais para a criação, capava e vendia para ser boi-de-lote, boi-boiadeiro, iam levar nas cidades e comer a carne do Rio-Negro. Vaqueiro Salúz falava que era bom: castravam no curral e lá mesmo faziam fogo, assavam os grãos dele, punham sal, os vaqueiros comiam, com farinha.
Mas, de noite, no canto da cama, o Dito formava a resposta: — “O ruim tem raiva do bom e do ruim. O bom tem pena do ruim e do bom… Assim está certo.” “— E os outros, Dito, a gente mesmo?” O Dito não sabia. — “Só se quem é bronco carece de ter raiva de quem não é bronco; eles acham que é moleza, não gostam… Eles têm medo que aquilo pegue e amoleça neles mesmos — com bondades…” “— E a gente, Dito? A gente?” “— A gente cresce, uai. O mole judiado vai ficando forte, mas muito mais forte! Trastempo, o bruto vai ficando mole, mole…” Miguilim tinha trazido a mula de cristal, que acertava no machucado da mão, debaixo das cobertas. “— Dito, você gosta de Pai, de verdade?” “— Eu gosto de todos. Por isso é que eu quero não morrer e crescer, tomar conta do Mutúm, criar um gadão enorme.”
De madrugada, todo o mundo acordou cedo demais, a Maria Pretinha tinha fugido. A Rosa relatava e xingava: — “Foi o vaqueiro Jé que seduziu, côrjo desgramado! Sempre eu disse que ela era do rabo quente… Levou a negrinha a cavalo, decerto devem de estar longe, ninguém não pega mais!” O cavalo do vaqueiro Jé se chamava Assombra-Vaca. O vaqueiro Jé era branco, sardal, branquelo. Como é que foi namorar completo com a Maria Pretinha? A Rosa também era branca, mas era gorda e meia-velha, não namorava com ninguém. Quando a Rosa brabeava, desse jeito assim, Papaco-o-Paco também desatinava. Aquilo ele gritava só numa fúria: — “Eu não bebo mais cachaça, não gosto de promotor! Filho-da-mãe é você! É você, ouviu!? É você!…”
O Dito não devia de ter ido de manhãzinha, no nascer do sol, espiar a coruja em casa dela, na subida para a Laje da Ventação. Miguilim não quis ir. Era uma coruja pequena, coruja-batuqueira, que não faz ninhos, botava os ovos num cupim velho, e gosta de ficar na porta — no buraco do cupim — quando a gente vinha ela dava um grito feio — um barulho de chiata: “Cuíc-cc’-kikikik!…” e entrava no buraco; por perto, só se viam as cascas dos besouros comidos, ossos de cobra, porcaria. E ninguém não gostava de passar ali, que é perigoso: por ter espinho de cobra, com os venenos.
O Dito contou que a coruja eram duas, que estavam carregando bosta de vaca para dentro do buraco, e que rodavam as cabeças p’ra espiar pra ele, diziam: “Dito! Dito!” Miguilim se assustava: — “Dito, você não devia de ter ido! Não vai mais lá não, Dito.” Mas o Dito falou que não tinha ido para ver a coruja, mas porque sabia do lugar onde o vaqueiro Jé mais a Maria Pretinha sempre em escondido se encontravam. — “Que é que tinha lá, então, Dito?” — “Nada não. Só tinha a sombra da árvore grande e o capim do campo por debaixo.”
Mas no meio do dia o mico-estrela fugiu, correu arrepulando pelas moitas de carqueja, trepou no cajueiro, pois antes de trepar ainda caçou maldade de correr atrás da perúa, queria puxar o rabo dela. Todo o mundo perseguiu ligeiro pra pegar, a cachorrada latindo, Vovó Izidra gritava que os meninos estavam severgonhados, Mãe gritava que a gente esperasse, que a Rosa sozinha pegava, Drelina gritava que deixassem o bichinho sonhim ganhar a liberdade do mato que era dele, o Papaco-o-Paco gritava: “Mãe, olha a Chica me beliscando! Ai, ai, ai, Pai, a Chica puxou meu cabelo!…” — era copiadinho o choro de Tomèzinho. A gente tinha de fazer diligência, se não já estava em tempo d’os cachorros espatifarem o pobre do mico. Não se pegou: ele mesmo, sozinho por si, quis voltar para a cabacinha. Mas foi aí que o Dito pisou sem ver num caco de pote, cortou o pé: na cova-do-pé, um talho enorme, descia de um lado, cortava por baixo, subia da outra banda.
— “Meu-deus-do-céu, Dito!” Miguilim ficava tonto de ver tanto sangue. “— Chama Mãe! Chama Mãe!” — o Dito pedia. A Rosa carregou o Dito, lavaram o pé dele na bacia, a água ficava vermelha só sangue, Vovó Izidra espremia no corte talo de bálsamo da horta, depois puderam amarrar um pano em cima de outro, muitos panos, apertados; ainda a gente sossegou, todo o mundo bebeu um gole d’água, que a Rosa trouxe, beberam num copo. O Dito pediu para não ficar na cama, armaram a rede para ele no alpendre.
Miguilim queria ficar sempre perto, mas o Dito mandava ele fosse saber todas as coisas que estavam acontecendo. — “Vai ver como é que o mico está.” O mico estava em pé na cabacinha, comendo arroz, que a Rosa dava. — “Quando o vaqueiro Salúz chegar, pergunta se é hoje que a vaca Bigorna vai dar cria.” “— Miguilim, escuta o que Vovó Izidra conversar com a Rosa, do vaqueiro Jé mais a Maria Pretinha.” O Dito gostava de ter notícia de todas as vacas, de todos os camaradas que estavam trabalhando nas outras roças, enxadeiros que meavam. Requeria se algum bicho tinha vindo estragar as plantações, de que altura era que o milho estava crescendo. — “Vovó Izidra, a senhora já vai fazer o presépio?” “— Daqui a três dias, Dito, eu começo.” O Dito não podia caminhar, só podia pulando num pé só, mas doía, porque o corte tinha apostemado muito, criando matéria. Chamando, o Gigão vinha, vigiava a rede, olhava, olhava, sacudia as orelhas. — “Você está danado, Dito, por causa?” “— Estou não, seo Luisaltino, costumei muito com essas coisas…” “— Depressa que sare!” “— Uê, p’ra se sarar basta se estar doente.”
Meu-deus-do-céu, e o Dito já estava mesmo quase bom, só que tornou outra vez a endef luxar, e de repente ele mais adoeceu muito, começou a chorar — estava sentindo dôr nas costas e dôr na cabeça tão forte, dizia que estavam enfiando um ferro na cabecinha dele. Tanto gemia e exclamava, enchia a casa de sofrimento. Aí Luisaltino montou a cavalo, ia daí a mais de um dia de viagem, aonde tinha um fazendeiro que vendia, buscar remédio para tanta dôr. Vovó Izidra fez um pano molhado, com folhas-santas amassadas, amarrou na cabeça dele. — “Vamos rezar, vamos rezar!”— Vovó Izidra chamava, nunca ela tinha estado tão sem sossego assim. Decidiram dar ao Dito um gole d’água com cachaça. Mas ele tinha febre muito quente, vomitava tudo, nem sabia quando estava vomitando. Vovó Izidra veio dormir no quarto, levaram a caminha do Tomèzinho para o quarto de Luisaltino. Mas Miguilim pediu que queria ficar, puseram uma esteira no chão, para ele, porque o Dito tinha de caber sozinho no catre. O Dito gemia, e a gente ouvia o barulhinho de Vovó Izidra repassando as contas do terço.
No outro dia, o Dito estava melhorado. Só que tinha soluço, queria beber água-com-açúcar. Miguilim ficava sentado no chão, perto dele. Vovó Izidra tinha de principiar o presépio, o Dito não podia ver quando ela ia tirar os bichos do guardado na canastra — boi, leão, elefante, águia, urso, camelo, pavão — toda qualidade de bichos que nem tinha deles ali no Mutúm nem nos Gerais, e Nossa Senhora, São José, os Três Reis e os Pastores, os soldados, o trem-de-ferro, a Estrela, o Menino Jesus. Vovó Izidra vez em quando trazia uma coisa ou outra para mostrar ao Dito: os panos, que ela endurecia com grude — moía carvão e vidro, e malacacheta, polvilhava no grude. Mas Dito queria tanto poder ver quando ela estava armando o presépio, forrando os tocos e caixotes com aqueles panos — fazia as serras, formava a Gruta. Os panos pintados com anil e tinta amarela de pacarí, misturados davam um verde bonito, produzido manchado, como todos os matos no rebrôto. E tinha umas bolas grandes, brilhantes de muitas cores, e o arroz plantado numa lata e deixado nascer no escuro, para não ser verde e crescer todo amarelo descorado. Tinha a lagôa, de água num prato-fundo, com os patinhos e peixes, o urso-branco, uma rã de todo tamanho, o cágado, a foquinha bicuda. Quase a maior parte daquelas coisas Vovó Izidra possuía e carregava aonde ia, desde os tempos de sua mocidade. Depois de pronto, era só pôr o Menino Jesus na Lapinha, na manjedoura, com a mãe e o pai dele e o boizinho e o burro. E punha um abacaxi-maçã, que fazia o presépio todo cheirar bonito. Todos os anos, o presépio era a coisa mais enriquecida, vinha gente estranha dos Gerais, para ver, de muitos redores. Mas agora o Dito não podia ir ajudar a arrumação, e então Miguilim gostava de não ir também, ficar sentado no chão, perto da cama, mesmo quando o Dito tinha sono, o Dito agora queria dormir quase todo o tempo.
A Chica e Tomèzinho podiam espiar armar o presépio o prazo que quisessem, mas eram tão bobinhos que pegavam inveja de Miguilim e o Dito não estarem vendo também. E então vinham, ficavam da porta do quarto, os dois mais o Bustica — aquele filho pequeno do vaqueiro Salúz. — “Vocês não podem ir ver presepe, vocês então vão para o inferno!” — isso a Chica tinha ensinado Tomèzinho a dizer. E tinha ensinado o Bustica a fazer caretas. O Dito não se importava, até achava engraçado. Mas então Miguilim fez de conta que estava contando ao Dito uma estória — do Leão, do Tatú e da Foca. Aí Tomèzinho, a Chica e aquele menino o Bustica também vinham escutar, se esqueciam do presépio. E o Dito mesmo gostava, pedia: — “Conta mais, conta mais…” Miguilim contava, sem carecer de esforço, estórias compridas, que ninguém nunca tinha sabido, não esbarrava de contar, estava tão alegre nervoso, aquilo para ele era o entendimento maior. Se lembrava de seo Aristeu. Fazer estórias, tudo com um viver limpo, novo, de consolo. Mesmo ele sabia, sabia: Deus mesmo era quem estava mandando! — “Dito, um dia eu vou tirar a estória mais linda, mais minha de todas: que é a com a Cuca Pingo-de-Ouro!…” O Dito tinha alegrias nos olhos; depois, dormia, rindo simples, parecia que tinha de dormir a vida inteira.
A Pinta-Amarela tirou os pintinhos, todos vivos, e no meio as três perdizinhas. A Rosa trouxe as três, em cima de uma peneira, para o Dito conhecer. Mas o Dito mandava Miguilim ir espiar, no quintal, e depois dizer para ele como era que elas viviam de verdade. A dôr-de-cabeça do Dito tinha voltado forte, mas agora Luisaltino tinha trazido as pastilhazinhas, ele engulia, com gole d’água, melhorava. — “Dito, as três perdizinhas são diabinhas! A galinha pensa que elas são filhas dela, mas parece que elas sabem que não são. Todo o tempo se assanham de querer correr para o bamburral, fogem do meio dos pintinhos irmãos. Mas a galinha larga os pintos, sai atrás delas, chamando, chamando, cisca para elas comerem os bichinhos da terra…” A febre era mais muita, testa do Dito quente que pelava. — “Miguilim, vou falar uma coisa, para segredo. Nem p’ra mim você não torna a falar.” O Dito sentava na cama, mas não podia ficar sentado com as pernas esticadas direito, as pernas só teimavam em ficar dobradas nos joelhos. Tudo endurecia, no corpo dele. — “Miguilim, espera, eu estou com a nuca tesa, não tenho cabeça pra abaixar…” De estar pior, o Dito quase não se queixava.
— “Miguilim, Vovó Izidra toda hora está xingando Mãe, quando elas estão sem mais ninguém perto?” Miguilim não sabia, Miguilim quase nunca sabia as coisas das pessôas grandes. Mas o Dito, de repente, pegava a fazer caretas sem querer, parecia que ia dar ataque. Miguilim chamava Vovó Izidra. Não era nada. Era só a cara da doença na carinha dele.
Depois, a gente cavacava para tirar minhocas, dar para as perdizinhas. Mas o mico-estrela pegou as três, matou, foi uma pena, ele abriu as barriguinhas delas. Miguilim não contou ao Dito, por não entristecer. — “Asperdizinhas estão assustadinhas, estão crescendo por demais… Amanhã é o dia de Natal, Dito!” “— Escuta, Miguilim, uma coisa você me perdôa? Eu tive inveja de você, porque o Papaco-o-Paco fala Miguilim me dá um beijim…e não aprendeu a falar meu nome…” O Dito estava com jeito: as pernas duras, dobradas nos joelhos, a cabeça dura na nuca, só para cima ele olhava. O pior era que o corte do pé ainda estava doente, mesmo pondo cataplasma doía muito demorado. Mas o papagaio tinha de aprender a falar o nome do Dito! — “Rosa, Rosa, você ensina Papaco-o-Paco a chamar alto o nome do Dito?”
“— Eu já pelejei, Miguilim, porque o Dito mesmo me pediu. Mas ele não quer falar, não fala nenhum, tem certos nomes assim eles teimam de não entender…” O Dito gostava de comer pipocas. A Rosa estava assando pipoca: para elas estalarem bem graúdas, a Rosa batia na tampa da caçarola com uma colher de ferro e pedia a todos para gritarem bastante, e a Rosa mesma gritava os nomes de toda pessôa que fosse linguaruda: — “Pipoca, estrala na boca de Sià Tonha do Tião! Estrala na boca de dona Jinuana, da Rita Papuxa!…” Miguilim vinha trazer as pipocas, saltantes, contava o que a Rosa tinha gritado, prometia que Papaco-o-Paco já estava começando a soletrar o nome do Dito. O Dito gemia de mais dôr, com os olhos fechados. — “Espera um pouco, Miguilim, eu quero escutar o berro dessas vacas…” Que estava berrando era a vaca Acabrita. A vaca Dabradiça. A vaca Atucã. O berro comprido, de chamar o bezerro. — “Miguilim, eu sempre tinha vontade de ser um fazendeiro muito bom, fazenda grande, tudo roça, tudo pastos, cheios de gado…” — “Mas você vai ser, Dito! Vai ter tudo…” O Dito olhava triste, sem desprezo, do jeito que a gente olha triste num espelho. — “Mas depois tudo quanto há cansa, no fim tudo cansa…” Miguilim discorreu que amanhã Vovó Izidra ia pôr o Menino Jesus na manjedoura. Depois, cada dia ela punha os Três Reis mais adiantados um pouco, no caminho da Lapinha, todo dia eles estavam um tanto mais perto — um Rei Branco, outro Rei Branco, o Rei Preto — no dia de Reis eles todos três chegavam… “— Mas depois tudo cansa, Miguilim, tudo cansa…” E o Dito dormia sem adormecer, ficava dormindo mesmo gemendo.
Então, de repente, o Dito estava pior, foi aquela confusão de todos, quem não rezava chorava, todo mundo queria ajudar. Luisaltino tornou a selar cavalo, ia tocar de galope, para buscar seo Aristeu, seo Deográcias, trazer remédio de botica. Pai não ia trabalhar na roça, mais no meio dali resistia, com os olhos avermelhados. O Dito às vezes estava zarolho, sentido gritava alto com a dôr-de-cabeça, sempre explicavam que a febre dele era mais forte, depois ele falava coisas variando, vomitava, não podia padecer luz nenhuma, e ficava dormindo fundo, só no meio do dormir dava um grito repetido, feio, sem acordo de si. Miguilim desentendia de tudo, tonto, tonto. Ele chorou em todas partes da casa.
Veio seo Deográcias, avelhado e magro, dizia que o Patorí não era ruim assim como todos pensavam, dizia que Deus para punir o mundo estava querendo acabar com todos os meninos. Veio seo Aristeu, dessa vez não brincava nem ria, abraçou muito Miguilim e falou, apontando para o Dito: — “Eu acho que ele é melhor do que nós… Nem as abelhinhas hoje não espanam as asas, tarefazinha… Mas tristeza verdadeira, também nem não é prata, é ouro, Miguilim… Se se faz…” Veio seo Brízido Boi, que era padrinho do Tomèzinho: um homem enorme, com as botas sujas de barro seco, ele chorava junto, aos arrancos, dizia que não podia ver ninguém sofrer. Veio a mãe do Grivo, com o Grivo, ela era quase velhinha, beijou a mão do Dito. E de repente veio vaqueiro Jé, com a Maria Pretinha, os dois tão vergonhosos, só olhavam para o chão. Mas ninguém não ralhou, até Pai disse que pelo que tinha havido eles precisavam nenhum de ir s’embora, ficavam aqui mesmo em casa os dois trabalhando; e Vovó Izidra disse que, quando viesse padre por perto, pelo direito se casavam. O vaqueiro Jé concordou, pegou na mão da Maria Pretinha, para chegarem na beira da cama do Dito, ele cuidava muito da Maria Pretinha, com aqueles carinhos, senhoroso. E então o povo todo acompanhou Vovó Izidra em frente do oratório, todos ajoelharam e rezavam chorado, pedindo a Deus a saúde que era do Dito. Só Mãe ficou ajoelhada na beirada da cama, tomando conta do menino dela, dizia.
A reza não esbarrava. Uma hora o Dito chamou Miguilim, queria ficar com Miguilim sozinho. Quase que ele não podia mais falar. — “Miguilim, e você não contou a estória da Cuca Pingo-de-Ouro…” “— Mas eu não posso, Dito, mesmo não posso! Eu gosto demais dela, estes dias todos…” Como é que podia inventar a estória? Miguilim soluçava. — “Faz mal não, Miguilim, mesmo ceguinha mesmo, ela há de me reconhecer…” “— No Céu, Dito? No Céu?!” — e Miguilim desengolia da garganta um desespero. — “Chora não, Miguilim, de quem eu gosto mais, junto com Mãe, é de você…” E o Dito também não conseguia mais falar direito, os dentes dele teimavam em ficar encostados, a boca mal abria, mas mesmo assim ele forcejou e disse tudo: — “Miguilim, Miguilim, vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro!…” E o Dito quis rir para Miguilim. Mas Miguilim chorava aos gritos, sufocava, os outros vieram, puxaram Miguilim de lá.
Miguilim doidava de não chorar mais e de correr por um socôrro. Correu para o oratório e teve medo dos que ainda estavam rezando. Correu para o pátio, chorando no meio dos cachorros. Mãitina caminhava ao redor da casa, resmungando coisas na linguagem, ela também sentia pelo estado do Dito. — “Ele vai morrer, Mãitina?!” Ela pegou na mão dele, levou Miguilim, ele mesmo queria andar mais depressa, entraram no acrescente, lá onde ela dormia estava escuro, mas nunca deixava de ter aquele foguinho de cinzas que ela assoprava. — “Faz um feitiço para ele não morrer, Mãitina! Faz todos os feitiços, depressa, que você sabe…” Mas aí, no voo do instante, ele sentiu uma coisinha caindo em seu coração, e adivinhou que era tarde, que nada mais adiantava. Escutou os que choravam e exclamavam, lá dentro de casa. Correu outra vez, nem soluçava mais, só sem querer dava aqueles suspiros fundos. Drelina, branca como pedra de sal, vinha saindo: — “Miguilim, o Ditinho morreu...”
Miguilim entrou, empurrando os outros: o que feito uma loucura ele naquele momento sentiu, parecia mais uma repentina esperança. O Dito, morto, era a mesma coisa que quando vivo, Miguilim pegou na mãozinha morta dele. Soluçava de engasgar, sentia as lágrimas quentes, maiores do que os olhos. Vovó Izidra o puxou, trouxe para fora do quarto. Miguilim sentou no chão, num canto, chorava, não queria esbarrar de chorar, nem podia. — “Dito! Dito!…” Então se levantou, veio de lá, mordia a boca de não chorar, para os outros o deixarem ficar no quarto. Estavam lavando o corpo do Dito, na bacia grande. Mãe segurava com jeito o pezinho machucado doente, como caso pudesse doer ainda no Dito, se o pé batesse na beira da bacia. O carinho da mão de Mãe segurando aquele pezinho do Dito era a coisa mais forte neste mundo. — “Olha os cabelos bonitos dele, o narizinho…” — Mãe soluçava. — “Como o pobre do meu filhinho era bonito…” Miguilim não aguentava ficar ali; foi para o quarto de Luisaltino, deitou na cama, tapou os ouvidos com as mãos e apertou os olhos no travesseiro — precisava de chorar, toda-a-vida, para não ficar sozinho.
Quando entrou a noite, Miguilim sabia não dormir, passar as horas perto da mesa, onde o Dito era principezinho, calçado só com um pé de botina, coberto com lençol branco e f lores, mas o mais sério de todos ali, entre aquelas velas acêsas que visitavam a casa. Mas chegou o tempo em que ele Miguilim cochilou muito, nem viu bem para onde o carregavam. Acordou na cama de Mãe e Pai. Com o escuro das estrelas nas veredas, a notícia tinha corrido. O Mutúm estava cheio de gente.
Além de seo Aristeu, seo Brízido Boi e seo Deográcias, estavam lá o Nhangã, seo Soande, o Frieza, um rapazinho Lugolino; o seo Braz do Bião, os filhos dele Câncio e Emerêncio, os vaqueiros do Bião: Tomás, Cavalcante e José Lúcio; dona Eugeniana, mulher de seo Braz do Bião. Os enxadeiros que à meia trabalhavam para Pai, e que também eram criaturas de Deus com seus nomes que tinham: um Cornélio, filho dele Acúrcio, Raymundo Bom, Nhô Canhoto, José de Sá. Depois chegava Sià Ía, a gôrda, dona do Atrás-do-Alto, meio gira, que ela mesma só falava que andava sumida: — “Tou p’los matos! Tou p’los matos…” E o Tiotônio Engole, papudo. O vaqueiro Riduardo, vaqueiro próprio, com os filhos: Riduardinho e Justo, vaqueiros também. O velho Rocha Surubim, a mulher dele dona Lelena, e os filhos casados, que eram três, dois deles tinham trazido as mulheres, da Vereda do Bugre. E ainda chegavam outros. Até dois homens sem conhecimento nenhum, homens de fora, que andavam comprando bezerros. Muitas mulheres, uma meninada. Desdormido, estonteado, desinteirado de si, no costume que começava a ter de ter, de sofrer, Miguilim sempre ficava em todo o caso triste-contente, de que tanta gente ali estivesse, todos por causa do Dito, para honrar o Dito, e os homens iam carregar o Dito, a pé, quase um dia inteiro de viagem — iam “ganhar dia”, diziam — mò de enterrar no cemiteriozinho de pedras, para diante da vereda do Terentém.
— “E Tio Terêz?” — uma hora ele perguntou ao vaqueiro Jé, longe dos outros. Mas foi o vaqueiro Salúz quem mais tarde deu resposta: — “Tio Terêz não sabe, Miguilim: ele está longe, está levantando gado nos Gerais da Bahia…”
Tinham de sair cedo, por forma que precisavam de caminhar muito, e estavam comendo farofa de carne, com mandioca cozida, todos bebendo café e cachaça. Vaqueiro Salúz matou o porquinho melhor, porque a carne seca não chegava, e Mãitina, na cozinha, não esbarrava de bater paçoca no pilão — aquele surdo rumor. Careciam também de levar, para o caminho, um garrafão de cachaça. A Rosa ia catar f lores, trazia, logo ia buscar mais, chorosa, achava que nunca que bastavam. Mãe chorava devagarinho, ajoelhada, mas o tempo passando; os bonitos cabelos tapavam a cara dela. E Vovó Izidra fungava, andando para baixo e para cima, com ela mesma era que ralhava.
Os enxadeiros tinham ido cortar varas do mato, uma vara grande de pindaíba, e Pai desenrolou a redezinha de buriti. Mas aí Mãe exclamou que não, que queria o filhinho dela no lençol de alvura. Então embrulharam o Dito na colcha de chita, enfeitaram com alecrins, e amarraram dependurado na vara comprida. Pai pegou numa ponta da vara, seo Braz do Bião segurou na outra, todos os homens foram saindo. Miguilim deu um grito, acordado demais. Vovó Izidra rezava alto, foi o derradeiro homem sair e ela fechou a porta. E sojigou Miguilim debaixo de sua tristeza.
Todos os dias que depois vieram, eram tempo de doer. Miguilim tinha sido arrancado de uma porção de coisas, e estava no mesmo lugar. Quando chegava o poder de chorar, era até bom — enquanto estava chorando, parecia que a alma toda se sacudia, misturando ao vivo todas as lembranças, as mais novas e as muito antigas. Mas, no mais das horas, ele estava cansado. Cansado e como que assustado. Sufocado. Ele não era ele mesmo. Diante dele, as pessôas, as coisas, perdiam o peso de ser. Os lugares, o Mutúm — se esvaziavam, numa ligeireza, vagarosos. E Miguilim mesmo se achava diferente de todos. Ao vago, dava a mesma ideia de uma vez, em que, muito pequeno, tinha dormido de dia, fora de seu costume — quando acordou, sentiu o existir do mundo em hora estranha, e perguntou assustado: — “Uai, Mãe, hoje já é amanhã?!”
— “Isso nem é mais estima pelo irmão morto. Issoé nervosias…” — Vovó Izidra condenava. Miguilim ouvia e fazia com os ombros. Agora ele achava que Vovó Izidra gostava de ser idiota.
Ora vez, tinha raiva. Das pessoas, não. Nem de Deus; não.
Mais não sabia, de quem ou de que. Tinha raiva. Não conseguia, nem mesmo queria, se recordar do Dito vivo, relembrar o tempo em que tinham vivido juntos, conversado e brincado. Queria, isso sim, se fosse um milagre possível, que o Dito voltasse, de repente, em carne e ôsso, que a morte dele não tivesse havido, tudo voltando como antes, para outras horas, novas, novas conversas e novos brinquedos, que não tinham podido acontecer — mas devia de ter para acontecer, hoje, depois, amanhã, sempre. — “Hoje, o que era que o Dito ia dizer, se não tivesse morrido? O quê?!…” Então, chorava mais.
Mas chorava com mais terrível sentimento era quando se lembrava daquelas palavras da Mãe, abraçada com o corpo do Dito, quando o estavam pondo dentro da bacia para lavar: — “Olha o inf lamado ainda no pezinho dele… Os cabelos bonitos… O narizinho… Como era bonito o pobrezinho do meu filhinho…” Essas exclamações não lhe saíam dos ouvidos, da cabeça, eram no meio de tudo o ponto mais fundo da dôr, ah, Mãe não devia de ter falado aquilo… Mas precisava de ouvir outra vez: — “Mãe, que foi que a senhora disse, dos cabelos, do nariz, do machucadinho no pé, quando eles estavam lavando o Ditinho?!” A mãe não se lembrava, não podia repetir as palavras certas, falara na ocasião qualquer coisa, mas, o que, já não sabia. Ele mesmo, Miguilim, nunca tinha reparado antes nos cabelos, no narizinho do Dito. Então, ia para o paiol, e chorava, chorava. Depois, repetia, alto, imitando a voz da mãe, aquelas frases. Era ele quem precisava de guardá-las, decoradas, ressofridas; se não, alguma coisa de muito grave e necessária para sempre se perdia. — “Mãe, o que foi que naquela hora a senhora sentiu? O que foi que a senhora sentiu?!…”
E precisava de perguntar a outras pessôas — o que pensavam do Dito, o que achavam dele, de tudo por junto; e de que coisas acontecidas se lembravam mais. Mas todos, de Tomèzinho e Chica a Luisaltino e Vovó Izidra, mesmo estando tristes, como estavam, só respondiam com lisice de assuntos, bobagens que o coração não consabe. Só a Rosa parecia capaz de compreender no meio do sentir, mas um sentimento sabido e um compreendido adivinhado. Porque o que Miguilim queria era assim como algum sinal do Dito morto ainda no Dito vivo,ou do Dito vivo mesmo no Dito morto. Só a Rosa foi quem uma vez disse que o Dito era uma alminha que via o Céu por detrás do morro, e que por isso estava marcado para não ficar muito tempo mais aqui. E disse que o Dito falava com cada pessôa como se ela fosse uma, diferente; mas que gostava de todas, como se todas fossem iguais. E disse que o Dito nunca tinha mudado, enquanto em vida, e por isso, se a gente tivesse um retratinho dele, podia se ver como os traços do retrato agora mudavam. Mas ela já tinha perguntado, ninguém não tinha um retratinho do Dito. E disse que o Dito parecia uma pessôinha velha, muito velha em nova.
Miguilim se agarrou com a Rosa, em pranto de alívio; aquela era a primeira vez que ele abraçava a Rosa. Mas a galinha choca vinha passando, com seus pintinhos, a Rosa mostrou-a a Miguilim. — “Uai, é a Pintadinha, Rosa? A Pintadinha também já tirou os pintos?” “— Mas já faz tanto tempo, Miguilim. Foi naqueles dias…” “— Que jeito que eu não vi?!” “— Poisque você mesmo quis ver só foi a Pintinha-Amarela, Miguilim, por causa que ela tinha as três perdizinhas…”
Depois ele conversou com Mãitina. Mãitina era uma mulher muito imaginada, muito de constâncias. Ela prezava a bondade do Dito, ensinou que ele vinha em sonhos, acenava para a gente, aceitava louvor. Sempre que se precisava, Mãitina era pessôa para qualquer hora falar no Dito e por ele começar a chorar, junto com Miguilim. O que eles dois fizeram, foi ela quem primeiro pensou. Escondido, escolheram um recanto, debaixo do jenipapeiro, ali abriram um buraco, cova pequena. De em de, camisinha e calça do Dito furtaram, para enterrar, com brinquedos dele. Mas Mãitina foi remexer em seus guardados, trouxe uns trens: boneco de barro, boneco de pau, penas pretas e brancas, pedrinhas amarradas com embira fina; e tinha mais uma coisa. — “Que que é isso, Mãitina?” “— Tomé me deu. Tomé me deu…” Era a figura de jornal, que Miguilim do Sucurijú aportara, que Mãe tomou da Chica e rasgou, Mãitina salvara de colar com grude os rasgados, num caco de gamela. Miguilim tinha todas as lágrimas nos olhos. Tudo se enterrou, reunido com as coisinhas do Dito. Retaparam com a terra, depois foram buscar as pedrinhas lavadas do riacho, que cravaram no chão, apertadas, remarcando o lugar; ficou semelhando um ladrilhado redondo. Era mesma coisa se o Dito estivesse depositado ali, e não no cemiteriozinho longe, no Terentém. Só os dois conheciam o que era aquilo. Quando chovia, eles vinham olhar; se a chuva era triste, entristeciam. E Miguilim furtava cachaça para Mãitina.
E um dia, então, de repente, quando ninguém mais não mandava nem ensinava, o Papaco-o-Paco gritou: — “Dito, Expedito! Dito, Expedito!” Exaltado com essa satisfação: ele tinha levado tempo tão durado, sozinho em sua cabeça, para se acostumar de aprender a produzir aquilo. Miguilim não soube o rumo nenhum do que estava sentindo. Todos ralhavam com Papaco-o-Paco, para ele tornar a se esquecer depressa do que tanto estava gritando. E outras coisas desentendidas, que o Papaco-o-Paco sempre experimentava baixo para si, aquele grol, Miguilim agora às vezes duvidava que vontade fossem de um querer dizer. Aí, Miguilim quis ir até lá na subida para a Laje da Ventação, saber as corujas-batuqueiras; não tinha medo dos espinhos de cobra. Mas o entrar do cupim estava sem dono. — “Coruja se mudou: estão num buraco de tatú, naquela grota…” — o vaqueiro Salúz estava explicando, tinha achado, deviam de ser as mesmas. Mas lá na grota Miguilim não queria ir espiar. Nem queria ouvir os berros da vaca Acabrita e da vaca Dabradiça. Nem inventar mais estórias. Nem ver, quando ele retornou, o luar da lua-cheia.
— “Diacho, de menino, carece de trabalhar, fazer alguma coisa, é disso que carece!” — o Pai falava, que redobrava: xingando e nem olhando Miguilim. Mãe o defendia, vagarosa, dizia que ele tinha muito sentimento. — “Uma pôia!” — o Pai desabusava mais. — “O que ele quer é sempre ser mais do que nós, é um menino que despreza os outros e se dá muitos penachos. Mais bem que já tem prazo para ajudar em coisa que sirva, e calejar os dedos, endurecer casco na sola dos pés, engrossar esse corpo!” Devagarzinho assim, só suspiro, Mãe calava a boca. E Vovó Izidra secundava, porque achava que, ele Miguilim solto em si, ainda podia ficar prejudicado da mente do juízo.
Daí por diante, não deixavam o Miguilim parar quieto. Tinha de ir debulhar milho no paiol, capinar canteiro de horta, buscar cavalo no pasto, tirar cisco nas grades de madeira do rego. Mas Miguilim queria trabalhar, mesmo. O que ele tinha pensado, agora, era que devia copiar de ser igual como o Dito.
Mas não sabia imitar o Dito, não tinha poder. O que ele estava — todos diziam — era ficando sem-vergonha. Comia muito, se empanzinava, queria deitar no chão, depois do almoço. — “Levanta, Miguilim! Vai catar gravetos para a Rosa!” Lá ia Miguilim, retardoso; tinha medo de cobra. Medo de morrer, tinha; mesmo a vida sendo triste. Só que não recebia mais medo das pessôas. Tudo era bobagem, o que acontecia e o que não acontecia, assim como o Dito tinha morrido, tudo de repente se acabava em nada. Remancheava. E ele mesmo achava que não gostava mais de ninguém, estirava uma raiva quieta de todos. Do Pai, principal. Mas não era o Pai quem mais primeiro tinha ódio dele Miguilim? Era só avistar Miguilim, e ele já bramava: — “Mão te tenha, cachorrinho! Enxerido… Carapuçudo…” Derradeiro, o Pai judiava mesmo com todo o mundo. Ralhava com Mãe, coisas de vexame: — “Nhanina quer é empobrecer ligeiro o final da gente: com tanto açúcar que gasta, só fazendo porcaria de dôces e comidas de luxo!” O dôce a Mãe fazia era porque os meninos e ele Miguilim gostavam. Então, mesmo, Vovó Izidra um dia tinha resmungado, Miguilim bem que ouviu: — “Esse Bero tem ôsso no coração…” Miguilim mal queria pensar. Não tinha certeza se estava tendo raiva do Pai para toda a vida.