Campo Geral

João Guimarães Rosa · Capítulo 1 de 2 · parte 5/5

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Pai encabou uma enxada pequena. — “Amanhã, amanhã, este menino vai ajudar, na roça.” Nem triste nem alegre, lá foi Miguilim, de manhã, junto com Pai e Luisaltino. — “Teu eito é aqui. Capina.” Miguilim abaixava a cabeça e pelejava. Pai nunca falava com ele, e Miguilim preferia cumprir calado o desgosto, e aguentar o cansaço, mesmo quando não estava podendo. Sempre a gente podia, desde que não se queixasse. Pai conversava com Luisaltino, esbarravam para pitar, caçoavam. Luisaltino era bonzinho, tinha pena dele: — “Agora, Miguilim, desiste um pouco da tirana. Você está vermelho, camisinha está empapada…” Daí todos ficavam trabalhando com o corpo por metade nú, só de calças, as costas escorregavam de suor de sol, nos movimentos. Descalço, os pés de Miguilim sobravam cheios de espinhos. E com aquele calor a gente necessitava de beber água toda hora, a água da lata era quente, quente, não matava direito a sede. Sol a sol — de tardinha voltavam, o corpo de Miguilim doía, todo moído, torrado. Vinha com uma coisa fechada na mão. — “Que é isso, menino, que você está escondendo?” “— É a joaninha, Pai.” “— Que joaninha?” Era o besourinho bonito, pingadinho de vermelho. “— Já se viu?! Tu há de ficar toda-a-vida bôbo, ô panasco?!” — o Pai arreliou. E no mais ralhava sempre, porque Miguilim não enxergava onde pisasse, vivia escorregando e tropeçando, esbarrando, quase caindo nos buracos: — “Pitosga…”

Vez em quando, seo Deográcias aparecia lá na roça. Ficava de cócoras, queria conversar com o Pai, e dava pena, de tão destruído arruinado que estava. Só falava coisas tristes; Pai dizia depois a Luisaltino que ele caceteava. — “Pois é, Miguilim, e você que perdeu quase de junto de uma vez os dois tão seus amigos: o Dito e o Patorí…” E fundo suspirava. — “Pois é, seo Nhô Berno, isto aqui vai acabar, vai acabar… Não tem recursos, não tem proteção do alto, é só trabalho e doenças, ruindades ignorâncias… De primeiro, eu mesmo pensei de poder ajudar a promover alguma melhora, mesmo pouca. Ah, pensei isso, mas foi nos ocos da cabeça! Agora… O que eu sei, o que há, é o mundo por se acabar…” Seo Deográcias se sentava no chão e cochilava. Depois dizia que o Patorí era um menino de bom coração, que levantava cedinho e para ele coava café, gostava de auxiliar em muita coisa… Seo Deográcias recochilava, tornava a acordar: — “Ah, seo Nhô Berno Caz, o que falta é o que sei, o que sei. É o dindinheiro… é o dindinheiro…”

Miguilim dormia no mesmo catre, sozinho. Mas uma noite o gato Sossõe apareceu, deitado no lugar que tinha sido do Dito, no canto, aqueles olhos verdes no escuro silenciando demais, ele tão bonito, tão quieto. Na outra noite ele não vinha, Miguilim mesmo o foi buscar, no borralho. Daí, o gato Sossõe já estava aprendendo a vir sempre, mas Tomèzinho acusou, e Pai jurou com raiva, não dava licença daquilo. Miguilim já estava acostumado a dormir sozinho sem ninguém, ocupava o catre inteiro, se alargava, podia abrir bem as pernas e os braços. Pensava. Ficava acordado muito tempo, escutava a tutuca dos jenipapos maduros caindo de supetão e se achatando, cheios, no chão da árvore. Se lembrava do Patorí. O que seo Deográcias tinha falado. Então, ele Miguilim era amigo do Patorí também, e nem não tinha sabido? Como podia ser? Procurava, procurava, nas distâncias, nos escuros da cabeça, ia se lembrando, ia achando. Se lembrava de umas vezes em que o Patorí não estava maldoso. O Patorí tocava berimbau, um berimbau de fibra de buriti, tocava com o dedo, era bonito, tristinho. Ou, então, outras ocasiões, o Patorí fazia de conta que era toda qualidade de bicho. — “Agora, o que é que você quer, Miguilim?” “— Cavalo!” “— Cavalo, cavalo, cavalo? É assim: … Rinhinhim, rinhinhim, rinhinhim…”E batia com o pé no chão, de patada, aquele pé comprido, branquelo, que os dedos podiam segurar lama no chão e jogar longe. — “E agora, Miguilim?” “— Agora é pato!” “— Pato branco, pato preto, pato marreco, pato choco? É assim: …Quépo, quépo, quépo…” “— Sariema! Agora é sariema!” “— Xô! Sariema no cerrado é assim: …Káu! Káu! Káukáukáufkáuf…”Miguilim ria de em barriga não caber, e o Patorí sério falava: — “Miguilim, Miguilim, a vida é assim…” Era divertido.

No Dito, pensava sempre. Mas, mesmo quando não estava pensando conseguido, dentro dele parava uma tristeza: tristeza calada, completa, comum das coisas quando as pessôas foram embora. — “Você está ficando homem, Miguilim…” — falava o vaqueiro Salúz. Vaqueiro Salúz tinha mandado comprar um chapéu-de-couro novo, formoso, e vendeu o velho para o vaqueiro Jé.

No dia em que o Luisaltino não foi trabalhar na roça — disse que estava perrengue — Pai teve uma hora em que quis conversar com Miguilim. Drelina, a Chica e Tomèzinho tinham trazido o almoço e voltaram para casa. Pai fez um cigarro, e falou do feijão-das-águas, e de quantos carros de milho que podia vender para seo Braz do Bião. Perguntou. Mas Miguilim não sabia responder, não achou jeito, cabeça dele não dava para esses assuntos. Pai fechou a cara. Depois Pai disse: — “Vigia, Miguilim: ali!” Miguilim olhou e não respondeu. Não estava vendo. Era uma plantação brotando da terra, lá adiante; mas direito ele não estava enxergando. Pai calou a boca, muitas vezes. Mas, de noite, em casa, mesmo na frente de Miguilim, Pai disse a Mãe que ele não prestava, que menino bom era o Dito, que Deus tinha levado para si, era muito melhor tivesse levado Miguilim em vez d’o Dito.

No seguinte, sem ninguém esperar, chegou o mano Liovaldo, com tio Osmundo Cessim, da Vila Risonha. Foi tanta alegria e surpresa, de Mãe, Pai, e de todos, que ninguém não ia trabalhar na roça. Eles vinham passar quinze dias, por visitar, pois tinham ficado sabendo da morte do Dito. Tio Osmundo Cessim trouxe um pano de roupa para Mãe, um facão novo para Pai, uma roupinha para cada um dos meninos. Trouxe pão, também, que dava para todos; e bacalhau; e um rosário de contas rôxas, para Vovó Izidra. Tio Osmundo tinha bons cavalos, alforjes vistosos, e uma mala de carregar à frente da sela, o couro da mala cheirava muito gostoso. Ele era um homem apessoado, com barba e bigode. Perguntava de tudo. Sabia muitas coisas. Dizia que aquele lugar ali de primeiro se chamava era Urumutúm, depois mudou se chamando Mutúm, mais tarde ainda outros nomes diferentes podia ter. A gente avistava tio Osmundo, sentia espécie de esperança. Mas ele logo não gostou de Miguilim, não gostava, dizia só: — “Este um está antipático…” E mexia com os beiços, sacudia a cara, aquela cara azulosa, desprazida, que o diabo deu a ele.

Mano Liovaldo tinha uma gaitinha, que tocava na boca. Emprestou a gaitinha a Miguilim, mas um instante só, Miguilim tinha jeito nenhum para aprender a tocar — ele disse. Daí quis ver todos os brinquedos, foi especular no fundo da horta. Buliu nos anzois, até nos de Pai. Disse que quando fosse embora ia levar o Papaco-o-Paco para ele. Depois sentou no cocho do curral e todo tempo tocava na gaitinha, queria todo-o-mundo em redor dele.

Nos outros dias, Miguilim não restou em folga de brincar com o Liovaldo, porque para a roça cedinho saía. O Liovaldo recebia cavalo selado e ia brincar de campear, com o vaqueiro Jé ou com o vaqueiro Salúz. Mesmo quando não tinha serviço de roça, Pai mandava Miguilim ir buscar lenha, com o rapazinho Acúrcio, filho dum enxadeiro, queria lenha muita, eles puxavam os dois burros velhos. Depois, como sobrava muito leite, Pai mandou que todo dia Miguilim fosse levar as latas cheias até no Bugre, onde na ocasião não estavam costeando. Mãe não queria, disse que Miguilim para ir assim solitário ainda era muito pequeno; mas Pai teimou, disse que outros, mais menores, viajavam até mais longe, experimentou se Miguilim não sabia ver quando a barrigueira do cavalo estava frouxa, e se não era capaz sozinho de a apertar.

Miguilim montava no cavalo, com cangalha, punha as pernas para a frente. Era duro, não tinha coxim nenhum — o mesmo que estivesse sentado num pedaço de pau. Mas o vaqueiro Jé ensinou a botar capim em riba da cangalha, e Luisaltino emprestou uma pele de ovelha para pôr em cima do capim, de triliz. Melhorava. Pai prendia uma lata de leite de cada lado, grande. Miguilim tomava a benção e saía. O leite ia batendo, chuá, chuá, chuá, aquele barulhinho. O cavalo não podia trotar, ia a passo. Se corresse, o leite espirrava fora. A viagem enfarava. Era légua e quarto, Miguilim tinha sono. Às vezes vinha dormindo em cima do cavalo. Por tudo, tinha perdido mesmo o gosto e o fácil poder de inventar estórias. Mas, meio acordado, meio dormindo, pensava no Dito, sim.

Agora o pior era quando já estava quase chegando, logo que passava a ponte do Bugre, tinha as casas de uns meninos malignos, à beira do cerrado — o pai de um deles mesmo não gostava do pai de Miguilim — esses já esperavam ele passar, para jogarem pedradas, jogavam pedras e insultavam. Miguilim nada podia fazer: só, na hora de ir chegando lá, ele armava um galopão, avivava o cavalo. As latas sacudiam, esperdiçavam leite, depois Pai sabia e ia castigar Miguilim.

Na volta, em hora que ele estava mais tristonho e infeliz, foi-se lembrando de uma daquelas coisas que às vezes o Dito falava: — “Os outros têm uma espécie de cachorro farejador, dentro de cada um, eles mesmos não sabem. Isso feito um cachorro, que eles têm dentro deles, é que fareja, todo o tempo, se a gente por dentro da gente está mole, está sujo ou está ruim, ou errado… As pessôas, mesmas, não sabem. Mas, então, elas ficam assim com uma precisão de judiar com a gente…” “— Mas, então, Dito, a gente mesmo é que tem culpa de tudo, de tudo que padece?!” “— É.” O Dito falava, depois ele mesmo se esquecia do que tinha falado; ele era como as outras pessôas. Mas Miguilim nunca se esquecia. Ah, o Dito não devia de ter morrido!

De onde era que o Dito descobria a verdade dessas coisas? Ele estava quieto, pensando noutros assuntos de conversa, e de repente falava aquilo. — “De mesmo, de tudo, essa ideia consegue chegar em sua cabeça, Dito?” Ele respondia que não. Que ele já sabia, mas não sabia antes que sabia. Como a respeito de se fazer promessa. O Dito tinha falado que em vez d’a gente só fazer promessa aos santos quando se estava em algum aperto, para cumprir o pagamento dela depois que tivesse sido atendido, ele achava que a gente podia fazer promessa e cumprir, antes,e mesmo nem não precisava d’a gente saber para que ia servir o pagamento dessa promessa, que assim se estava fazendo… Mas a gente marcava e cumpria, e alguma coisa bôa acontecia, ou alguma coisa ruim que estava para vir não vinha! Aquilo que o Dito tinha falado era bom, era bonito. Só de se lembrar, Miguilim ia levantando a cabeça e respirando mais, já começava a ficar animoso. Um dia, quando estivesse disposto, ele ia experimentar, ia executar uma promessa assim, no escuro, nas claridades. Agora, por enquanto, não. Agora ele estava sempre cansado, nem rezava quase. Mas, a promessa, ainda fazia! Por conta dos meninos da ponte do Bugre, não, nem não era preciso. Não carecia. Para aqueles, um dia ele trazia a faquinha, que ia ganhar do Luisaltino, então apeava do cavalo, de faquinha na mão, crescia para os meninos, eles se espantavam e corriam! Mas fazia a promessa era por conta de Pai. Por conta de Pai não gostar dele, ter tanto ódio dele, aquilo que nem não estava certo.

Quando Miguilim chegava em casa, Drelina ou Mãe punham o prato de comida para ele, na mêsa, o feijão, arroz, couve, às vezes tinha torresmos, às vezes tinha carne-seca, tinha batata-dôce, mandioca, ele mexia o feijão misturando com farinha-de-milho, ia comendo, sentado no banco, queria parecer o homenzinho sério, por fatigado. O Liovaldo então vinha querer conversar.

O Liovaldo era malino. Vinha com aquelas mesmas conversas do Patorí, mas mesmo piores. — “Miguilim, você precisa de mostrar sua pombinha à Rosa, à Maria Pretinha, quando não tiver ninguém perto…” Miguilim não respondia. Então o Liovaldo dizia um feitiço que sabia, para fazer qualquer mulher ou menina consentir: que era só a gente apanhar um tiquinho de terra molhada com a urina dela, e prender numa cabacinha, junto com três formigas-cabeçudas. Miguilim se enraivecia, de nada não dizer. Mesmo o Liovaldo sendo maior do que ele, ele achava que o Liovaldo era abobado, demais. Perto do Liovaldo, Miguilim nem queria conversar com a Rosa, com o vaqueiro Salúz, com pessôa nenhuma, nem brincar com Tomèzinho e a Chica, porque o Liovaldo, só de estar em presença, parecia que estragava o costume da gente com as outras pessôas. Mas então o Liovaldo ainda ficava mais querendo a companhia dele.

E foi que uma vez ia passando o Grivo, carregando dois patos, peados com embira, disse que ia levando para vender no Tipã. O dia estava muito quente, os patos chiavam com sede, o Grivo esbarrou para escutar a gaitinha do Liovaldo — ele nunca tinha avistado aquilo — e aproveitou, punha os patos para beber água num pocinho sobrado da chuva. Aí o Liovaldo começou a debochar, daí cuspiu no Grivo, deu com o pé nos patos, e deu dois tapas no Grivo. O Grivo ficou com raiva, quis não deixar bater, mas o Liovaldo jogou o Grivo no chão, e ainda bateu mais. O Grivo então começou a chorar, dizendo que o Liovaldo estava judiando dele e da criação que ele ia levando para vender.

O ódio de Miguilim foi tanto, que ele mesmo não sabia o que era, quando pulou no Liovaldo. Mesmo menor, ele derrubou o Liovaldo, esfregou na terra, podia derrubar sessenta vezes! E esmurrou, esmurrou, batia no Liovaldo de todo jeito, dum tempo só até batia e mordia. Matava um cão?! O Liovaldo, quando pôde, chorava e gritava, disse depois que o Miguilim parecia o demo.

Era dia-de-domingo, Pai estava lá, veio correndo. Pegou o Miguilim, e o levou para casa, debaixo de pancadas. Levou para o alpendre. Bateu de mão, depois resolveu: tirou a roupa toda de Miguilim e começou a bater com a correia da cintura. Batia e xingava, mordia a ponta da língua, enrolada, se comprazia. Batia tanto, que Mãe, Drelina e a Chica, a Rosa, Tomèzinho, e até Vovó Izidra, choravam, pediam que não desse mais, que já chegava. Batia. Batia, mas Miguilim não chorava. Não chorava, porque estava com um pensamento: quando ele crescesse, matava Pai. Estava pensando de que jeito era que ia matar Pai, e então começou até a rir. Aí, Pai esbarrou de bater, espantado: como tinha batido na cabeça também, pensou que Miguilim podia estar ficando dôido.

— “Raio de menino indicado, cachôrro ruim! Eu queria era poder um dia abençoar teus calcanhares e tua nuca!…” — ainda gritou. Soltou Miguilim, e Miguilim caíu no chão. Também não se importou, nem queria se levantar mais.

E Miguilim chorou foi lá dentro de casa, quando Mãe estava lavando com água-com-sal os lugares machucados em seu corpo. — “Mas, meu filhinho, Miguilim, você, por causa de um estranho, você agride um irmão seu, um parente?” “— Bato! Bato é no que é o pior, no maldoso!” Bufava. Agora ele sabia, de toda certeza: Pai tinha raiva com ele, mas Pai não prestava. A Mãe o olhava com aqueles tristes e bonitos olhos. Mas Miguilim também não gostava mais da Mãe. Mãe sofria junto com ele, mas era mole — não punia em defesa, não brigava até ao fim por conta dele, que era fraco e menino, Pai podia judiar quanto queria. Mãe gostava era do Luisaltino… Mas até parece que ela adivinhava o pensamento de Miguilim, tanto que falava: — “Perdôa o teu Pai, que ele trabalha demais, Miguilim, para a gente poder sair de debaixo da pobreza…” Mas Miguilim não queria chorar mais. Podiam matar, se quisessem, mas ele não queria ter mais medo de ninguém, de jeito nenhum. Demais! Assoou o nariz. — “Pai é homem jagunço de mau. Pai não presta.” Foi o que ele disse, com todo desprezo.

No outro dia, Mãe mandou o vaqueiro Salúz levar Miguilim junto com ele, no campeio. Era para Miguilim ficar três dias morando em casa do vaqueiro Salúz, enquanto Pai estivesse raivável. Miguilim queria ir. Só pediu à Rosa que não se esquecesse de tratar bem dos passarinhos. Dúvida que tinha, e vergonha, era uma: depois de tendo visto o Pai o tratar desmerecido assim, judiando e esmoralizando, o vaqueiro Salúz não ia também mermar com ele toda estima de respeito, e lidar às grossas, desfeiteado, desdenhado?

Mas foi tudo bom. O vaqueiro Jé veio também, até certo ponto, depois se apartava da gente, dando adeus. Miguilim montava no Cidrão, vaqueiro Salúz montava no Papavento. Beiravam as veredas, verdinhas, o buritizal brilhante. Buritis tão altos. As araras comiam os cocos, elas diligenciavam. O vaqueiro Salúz cantava:

“Meu cavalo tem topete,

topete tem meu cavalo.

No ano da seca dura,

mandioca torce no ralo…”

Dobrejo voavam os arirís, em bandos, gritavam: — arirí, arirí! Depois, começava o mato. — “E estes, Salúz?” “— Estes são os grilos que piam de dia.” Miguilim respirava forte. — “Ei, Miguilim, vai tornar a chover: o sabiazinho-pardo está cantando muito, invocando. Vigia ele ali!” “— Adonde? Não estou enxergando…”

“— Mas, olha, ali mesmo! Mesmo mais menor do que um joão-de-barro. Ele é pássaro de beira de corgo…” E Vaqueiro Salúz também cantava:

“Quem quiser saber meu nome

carece perguntar não:

eu me chamo lenha seca,

carvão de barbatimão…”

Mas entravam a pasto a fora, podia se cantar não, não espantar o gado bravo. A gente tinha de não ser estouvado. Avançando devagarinho, macio, levando os cavalos de môita em môita, pisavam o fofo capim, gafanhotos pulavam. Carecia de se ir em rumo da casa do vento. — “Salúz, a gente não aboia? Você não toca o berrante?” “— Hoje não, Miguilim, senão eles pensam vão ganhar sal…” Passavam os periquitos, aquela gritaria, bando, bando. Vaqueiro Salúz tinha de ver se havia rêses doentes, machucadas, com bicheira. Boi morto, boca de cobra. Ervados. — “Estou visitando eles… Olha, Miguilim, bezerro da Brindada é danadinho, tudo quanto há ele come! Come cabresto, sedenho… Ele aprendeu a se encostar na cerca, de noite, mamava que mamava. De manhã, a Brindada tinha leite nenhum. A gente custou a descobrir essa manha…” Miguilim apeou para verter água, debaixo de um pau-terrinha. Gavião e urubú arrastavam sombras. Vez em quando a gente ouvia também um gró de papagaio. O cerrado estava cheio de pássaros. No alto da maria-pobre, um não cantava, outro no ramo passeava reto, em quanto cabia: era a alma-de-gato, que vive em visgo de verdes árvores. Salúz e Miguilim saíam num furado, já se escutava o a-surdo de boi. — “Miguilim, pois então aboia, vou mesmo fazer uma coisa só para você ver como é…” Aí, enquanto Miguilim aboiava, o vaqueiro Salúz desde-pendurou o berrante de tiracol, e tocou. A de ver: — “Eh cô!…” “Huuu… huuu…” —e a boiada mexe nos capões de mato.

Rebentava aquele barulho vivo de rumor, um estremecimento rangia, zunindo — brrrr, brrrr — depois um chuá enorme, parecia golpes de bichos dentro d’água. O gado vinha, de perto e de longe, vinham todos os mansos, bois, vacas, garrotes, correndo, os bezerrinhos alegre espinoteando, saíam raspando môitas, quebrando galhos, vinham; e uns berravam. Bruto que os bravos fugiam, a essa hora, numas distâncias. Quantidade! Mas o vaqueiro Salúz ainda achava pouco: — “Um vê, Miguilim, é boiadão grande: o chão treme! Mas isto aqui é uma boiadinha alheia…” Perto deles, bezerrinho preto abria os beiços, quase ria — banguelo; esse levantava o rabinho e com ele, por cima, dava uma laçada. Mais perto, pertinho, um novilho branco comia as folhas do cabo-verde-do-campo — aquela môita enorme, coberta de f lores amarelas. E o sol batia nas f lores e no garrote, que estava outro amarelo de alumiado. — “Miguilim, isto é o Gerais! Não é bom?” “— Mas o mais bonito que tem mesmo no mundo é boi; é não, Salúz?” “— É sim, Miguilim.”

Que pena que tivessem de voltar, mas de uma banda do céu já tinha armação de chuva. Passarinho maria-branca piava: — Birr! Birr! O vaqueiro Salúz cortou um cacho de banana-caturra. A casa dele era pequena, toda de buriti. Vaqueiro Salúz, no entrar lá dentro, também era outro, mais dono, nos modos, na fala. Miguilim brincou com aquele menino Bustica, tão bobinho — ele fazia tudo que a gente mandava. Dormiu no mesmo jirau com aquele menino Bustica, o jirau não tinha roupa-de-cama: só pano de sacos, que Siàrlinda uns nos outros costurava; e fedia a mijo não, aquele menino Bustica nem não urinava na cama, só ameaçava. Siàrlinda era tão boa, ela cozinhou canjica com leite e queijo, para Miguilim. O vaqueiro Jé de tardinha passou por lá, comeu canjica também. O vaqueiro Jé disse para não deixarem os meninos sair de perto de casa, porque tinha aparecido uma onça muito grande nos matos do Mutúm, que era pintada, onça comedeira, que rondeava de noite por muitas veredas; e o rastro dela estava estando em toda a parte. Depois o vaqueiro Jé contou que daí a uns meses a Maria Pretinha ia ter menino. Vaqueiro Salúz riu e falou assim: — “A modo e coisa que eu cá sou rôxo, e a Siàrlinda é rôxa, Bustiquinha então deu o dado. Mas você, Jé, mais a Maria Pretinha, eu acho que o bezerrim é capaz de ser baetão, mouro ou chumbado…” E todos riram tudo.

Naqueles três dias, Miguilim desprezou qualquer saudade. Ele não queria gostar mais de pessôa nenhuma de casa, afora Mãitina e a Rosa. Só podia apreciar os outros, os estranhos; dos parentes, precisava de ter um enfaro de todos, juntos, todos pertencidos. Mesmo de Tomèzinho; Tomèzinho era muito diferente do Dito. Também não estava desejando se lembrar daqueles assuntos, dos conselhos do Dito. Um dia ele ia crescer, então todos com ele haviam de comer ferro. E mesmo agora não ia ter medo, ah, isso! Mexessem, fosse quem fosse, e mandava todo-o-mundo àquela parte, cantava o nome-da-mãe; e pronto. Quando teve de voltar, vinha pensando assim.

Chegou, e não falou nada. Não tomou a benção. Pai estava lá. — “O que é que este menino xixilado está pensando? Tu toma a benção?!” Tomou a benção, baixinho, surdo. Ficava olhando para o chão. Pai já estava encostado nele, como um boi bravo. Miguilim desquis de estremecer, ficou em pau, como estava. Já tinha resolvido: Pai ia bater, ele aguentava, não chorava, Pai batia até matar. Mas, na hora de morrer, ele rogava praga sentida. Aí Pai ia ver o que acontecia. Todos se chegaram para perto, até o tio Osmundo Cessim, Miguilim esperava. Duro.

Mas Pai não bateu em Miguilim. O que ele fez foi sair, foi pegar as gaiolas, uma por uma, abrindo, soltando embora os passarinhos, os passarinhos de Miguilim, depois pisava nas gaiolas e espedaçava. Todo o mundo calado. Miguilim não arredou do lugar. Pai tinha soltado os passarinhos todos, até o casalzinho de tico-ticos-reis que Miguilim pegara sozinho, por ideia dele mesmo, com peneira, na porta-da-cozinha, uma vez. Miguilim ainda esperou para ver se Pai vinha contra ele recomeçado. Mas não veio. Então Miguilim saíu. Foi ao fundo da horta, onde tinha um brinquedo de rodinha-d’água — sentou o pé, rebentou. Foi no cajueiro, onde estavam pendurados os alçapões de pegar passarinhos, e quebrou com todos. Depois veio, ajuntou os brinquedos que tinha, todas as coisas guardadas — os tentos de olho-de-boi e maria-preta, a pedra de cristal preto, uma carretilha de cisterna, um besouro verde com chifres, outro grande, dourado, uma folha de mica tigrada, a garrafinha vazia, o couro de cobra-pinima, a caixinha de madeira de cedro, a tesourinha quebrada, os carretéis, a caixa de papelão, os barbantes, o pedaço de chumbo, e outras coisas, que nem quis espiar — e jogou tudo fora, no terreiro. E então foi para o paiol. Queria ter mais raiva. Mas o que não lhe deixava a ideia era o casal de tico-ticos-reis, o macho tão altaneirozinho bonito — upupava aquele topete vermelho, todo, quando ia cantar. Miguilim tinha inventado de pôr a peneira meia em pé, encostada num toquinho de pau, amostrara arroz por debaixo, e pôde ficar de longe, segurando a pontinha de embira que estava lá amarrada no toquinho de pau, tico-tico-rei veio comer arroz, coração de Miguilim também, também, ele tinha puxado a embira… Agora, chorava.

O Liovaldo apareceu. Tinha mesmo de olhar assim, feito se ele Miguilim fosse algum bicho. — “Uê, hem, malcriado? Você queria poder com o Pai?!” Miguilim fechou os olhos. — “Olha aqui, só falta o tiquinho de barro urinado…” O Liovaldo estava com uma cabacinha, dentro dela já tinha botado as formigas-cabeçudas? Miguilim não tinha nada com aquilo, o Liovaldo podia obrar o que quisesse. O Liovaldo ria por metades, parecia o capêta. — “Se você for fazer isso com a Chica ou Drelina, eu conto Mãe!” — Miguilim miou. Tinha-se levantado. De repente ele agarrou a cabacinha da mão do Liovaldo, tacou longe, no chão, foi pisou em cima, espatifou. Miguilim tinha as tempestades. — “Não era pra Drelina e Chica, não, era para Maria Pretinha, burro!” E o Liovaldo defastou, não aguentava encarar Miguilim, cismado. — “Quero mexida com dôido não, você dá acesso…” Foi saindo. Em tudo ele mentia.

Depois do jantar, tio Osmundo Cessim tirou uma pratinha de dinheiro da algibeira e quis dar a Miguilim. Mas Miguilim sacudiu a cabeça, disse que não carecia. Jeito nenhum não aceitou. E aí o tio Osmundo Cessim falou meio-baixo para o Pai: — “Seo Bero, seu filho tem coisa de fôgo. Este um não vai envergonhar ninguém, não…” Mãe olhou Miguilim, prazida. Pai escutou, e o que disse não disse nada.

Felizmente, com pouco o Liovaldo tornava a ir embora, mais o tio Osmundo Cessim. Levaram no embornal duas galinhas fritadas com farofa; levaram quantidade de breu de borá, que o Grivo vendeu. O Liovaldo deu a gaitinha para Tomèzinho. Mas só não pôde levar o Papaco-o-Paco, porque tio Osmundo Cessim falou que aperreava a viagem. Desde muito tempo Miguilim não senhoreava alegria tão espaçosa. Mas não era por causa de ter ficado livre do irmão. Menos por isso, que pelo pensamento forte que formou: o de uma vez poder ir também embora de casa. Não sabia quando nem como. Mas a ideia o suspendia, como um trom de consolo.

De novo, na roça, enquanto capinava, sem pressa podia ir pensando. — “De que é que você está rindo, Miguilim?” — Luisaltino perguntou. — “Estou rindo é da minhoca branca, que as formigas pegaram…” O Pai sacudia a cabeça. Miguilim pensava. Primeiro precisava de se lembrar bem de todas as coisas que o Dito ensinara. Daquele jeito de que se podia fazer promessa. Dali a mais dias, havia de começar a cumprir em adiantado uma promessa, promessa sem assunto, conforme o Dito tinha adivinhado. Promessa de rezar três terços, todo dia. Mais pesada ainda: um mês inteiro não ia comer dôce nenhum, nem fruta, nem rapadura. Nem tomar café… Só de se resolver, Miguilim parava feliz. Estava com um pouquinho de dôr-de-cabeça, o corpo não sustentava bem; mas não fazia mal: era só do sol. Tinha de assoar o nariz. — “É sangue, Miguilim, que você está botando…” Luisaltino trazia água, levava Miguilim para a sombra, ajudava-o a levantar um braço. — “É melhor você esbarrar e voltar para casa.” “— Não. Eu capino.” Já não estava botando sangue mais. Em quando refrescava o dia, o ar dos matos se retrasava bom, trespassava. Algum passarinho cantando: apeou naquele galho. Como um ramo de folha menor se desenha para baixo. As borboletas. Mas se carecia era de dobrar o corpo, levar os braços, gastar mais força, só prestar cautela no serviço, se não a ferramenta resvalava, torava a plantação. O relar da folha da enxada, nas pedrinhas, aqueles bichos miúdos pulando do capim, a gente avançando sempre, os pés pisando no matinho cortado. Dava o cheiro gostoso, de terra sombreada. As moças de lindos risos, na fazenda grande dos Barboz, as folhagens no chão, as frutinhas vermelhas de cheiro respingado — aquilo! — ah, então nunca ia poder ter um lugar assim, permanecia só aquele fulgorzinho na memória, e a enxada capinando, se suava, e o Pai ali tomando conta? Nunca mais. O corpo pesava, a cabeça ardendo, Miguilim nem ia poder cumprir promessa, agora ele desanimava de tudo. Doía.

De repente, no outro dia, Miguilim estava capinando, só sentia aquele mal-estar, tonteou: veio um tremor forte de frio e ele começou a vomitar. Deitou-se ali mesmo, no chão, escondendo os olhos, como um bichinho doente. — “Que é isso, Miguilim? Afrouxou?” Doença. Era uma dôr muito brava, na nuca, também. Tremura de frio não esbarrava. Luisaltino levantou-o do chão e teve de o levar para casa carregado. — “Miguilim, Miguilim, só assim, que é?” — a mãe af lita indagava. Vovó Izidra olhava-o e ia derreter o purgante. — “Mãe, que é que fizeram com o resto da roupinha do Dito?” — agora ele queria saber. — “Está guardada, Miguilim. Depois ela ainda vai servir para Tomèzinho.” “— Mãe, e as alpercatinhas do Dito?” “— Também, Miguilim. Agora você descansa.” Miguilim tinha mesmo que descansar, perdera a força de aluir com um dedo. Suava, suava. O latido dos cachorros no pátio vinha de muito longe, junto com a conversa da Rosa na cozinha, o cló das galinhas no quintal, a correria de Tomèzinho, a fala de Papaco-o-Paco, o rumorzinho das árvores. Tudo tão misturado e macio, não se sabia bem, parecia que o dia tinha outras claridades.

Depois, Miguilim nem ia conhecendo quando era dia e quando era noite. Transpirava e tremia invernos, emborcava-o aquela dôr cravável na nuca. Só prostrado. Viu grande a cara tristã de seo Deográcias. Engulia os remédios. Sofria um descochilado aborrecimento, quando o estavam pondo na bacia maior, para banho na água fria. — “A barriguinha dele está toda sarapintada de vermelhos…” — escutava Vovó Izidra dizendo. A Mãe chorava, espairecia uma brandura. Davam banho, depois o deitavam, rebuçavam bem. Todos vinham ver. Até Mãitina. Por estado de um momento, ele pensou que ia assim morrer; mas era só aquela palavra morrer, nem desenrolava medo, nem imaginava fim de tudo e escuro. Tanta era a bambeza. Toda hora limpavam-lhe a boca, com um paninho remolhado. A dôr na nuca mexia, se enraizando; parecia que a cabeça, a parte sã, tinha de aguentar, mas sempre rodeava aquela dôr, queria enrolar aquela dôr, feito uma água cerca um punhadão de brasas. Aguentar aquela dôr parecia um serviço. E então Miguilim viu Pai, e arregalou os olhos: não podia, jeito nenhum não podia mesmo ser. Mas era. Pai não ralhava, não estava agravado, não vinha descompor. Pai chorava, estramontado, demordia de morder os beiços. Miguilim sorriu. Pai chorou mais forte: — “Nem Deus não pode achar isto justo direito, de adoecer meus filhinhos todos um depois do outro, parece que é a gente só quem tem de purgar padecer!?” Pai gritava uma braveza toda, mas por amôr dele, Miguilim. Mãe segurou no braço de Pai e levou-o embora. Mas Miguilim não alcançava correr atrás de pensamento nenhum, não calcava explicação. Só transpirava e curtia frios; punha sangue pelo nariz; e a cabeça redoía. Do que tirou um instante contente foi da vinda do Grivo: o Grivo trouxe um canarinho-cabeça-de-fôgo dentro de uma gaiola pequena e mal feita, mas que era presente para ele Miguilim, presente de amizade.

— “Miguilim, seo Brízido Boi matou a onça pintada. Você vai ver o couro dela…” — o vaqueiro Jé contava. Ele sentia aquela preguiça de ter de entender. Mas devia de estar melhorado, a cara de todos era mais sensata. — “Miguilim, agora você vai se alegrar: seu pai ajustou o Grivo p’ra trabalhar com a gente, ele quer aprender ofício de vaqueiro…” — falou o vaqueiro Salúz. A alegria Miguilim adiava, agora não estava em meios. Sempre cansado, todo cansado, e a água quebrada da frieza não matava a sede. Tinha saudade do tempo-de-frio, quando a água é friinha, bôa. Tinha necessidade alguma laranja. — “Laranja… Laranja…” — gemia. O corpo inteiro doía sem pontas. O Pai exclamava que ele mesmo era quem ia buscar laranja para o Miguilim, aonde fosse que fosse, em qualquer parte que tivesse, até nos confins. Mandava arrear cavalo, assoviava chamando um cachorro, lá iam. Miguilim tornava a dormir. Tornavam a dar banho. Todos estavam chorosos outra vez. — “Mãe, fala no Ditinho…” Queria sonhar com o Dito, de frente, nunca tinha sonhado. Mas não conseguia.

O Pai trazia abacaxi, lima, limão-dôce: laranja não se achava mesmo em nenhuma parte no Gerais, assim tão diverso do tempo. Miguilim tinha os beiços em ferida. — “Mãe, os dias todos vão passando?” — “Vão, Miguilim, hoje é o seteno. Falta pouco para você sarar.” — “Mãe, depois mesmo que eu sarar, vocês deixam eu ficar ainda muitos dias aqui deitado, descansando?” “— Pode, meu filhinho, você vai poder descansar todo o tempo que quiser…” Dormia longe.

— “Mãe… Mãe! Mãe!…” Que matinada era aquela? Por que todos estavam assim gritando, chorando? “— Miguilim, Miguilim, meu Deus, tem pena de nós! Pai fugiu para o mato, Pai matou o Luisaltino!…”

— “Não me mata! Não me mata!” — implorava Miguilim, gritado, soluçado. Mas vinha Vovó Izidra, expulsava todos para fora do quarto. Vovó Izidra sentava na beira da cama, segurando a mão de Miguilim: — “Vamos rezar, Miguilim, deixa os outros, eles se arrumam; esquece de todos: você carece é de sarar! Eu rezo, você me acompanha de coração, enquanto que puder, depois dorme…” Vovó Izidra rezava sem esbarrar, as orações tão bonitas, todas que ela sabia, todos os santos do Céu eram falados. Quando Miguilim tornou a acordar, era de noite, a lamparina acendida, e Vovó Izidra estava sempre lá, no mesmo lugar, rezando. Ela dava água, dava caldo quente, dava remédio. Miguilim tinha de ter os olhos encostados nos dela. E de repente ela disse: — “Escuta, Miguilim, sem assustar: seu Pai também está morto. Ele perdeu a cabeça depois do que fez, foi achado morto no meio do cerrado, se enforcou com um cipó, ficou pendurado numa môita grande de miroró… Mas Deus não morre, Miguilim, e Nosso Senhor Jesus Cristo também não morre mais, que está no Céu, assentado à mão direita!… Reza, Miguilim. Reza e dorme!”

Despertava exato, dava um recomeço de tudo.

De manhã, Mãe veio, se ajoelhou, chorava tapando a cara com as duas mãos: — “Miguilim, não foi culpa de ninguém, não foi culpa…” — todas as vezes ela repetia. — “Mãe, Pai já enterraram?”

“— Já, meu filhinho. De lá mesmo foi levado para o Terentém…”

“— E todos estão aí, Tomèzinho, Drelina, a Chica?” “— Estão, Miguilim, todos gostando de todos…” “— E eu posso ficar doente, quieto, ninguém bole?” As lágrimas da Mãe ele escutava. — “Mãe, a senhora vai rezar também para o Dito?” O Dito sabia. Se o Dito estivesse ainda em casa, quem sabe aquilo tudo não acontecia. Miguilim chorava devagar, com cautela para a cabecinha não doer; chorava pelo Pai, por todos juntos. Depois ficava num arretriste, aquela saudade sozinha.

Seo Aristeu, quando deu de vir, trazia um favo grande de mel de oropa, enrolado nas folhas verdes. — “Miguilim, você sara! Sara, que jão estão longe as chuvas janeiras e fevereiras… Miguilim, você carece de ficar alegre. Tristeza é agouría…”

— Foi o Dito quem ensinou isso ao senhor, seo Aristeu?

— Foi o sol, mais as abelhinhas, mais minha riqueza enorme que ainda não tenho, Miguilim. Escuta como você vai sarar sempre:

“Amarro fitas no raio,

formo as estrelas em par,

faço o inferno fechar porta,

dou cachaça ao sabiá,

boto gibão no tatú,

calço espora em marruá;

sojigo onça pelas tetas,

mò de os meninos mamar!”

Seo Aristeu fincava o dedo na testa, fazia vênia de rapapé no meio do quarto, trançava as pernas, ele era tão engraçado, tão comprido.

— Adeusinho de adeus, Miguilim. Quando você sarar mais, escuta, é assim:

Ô ninho de passarim,

ovinho de passarinhar:

se eu não gostar de mim,

quem é mais que vai gostar?

De rir, a gente podia toda a vida. Seo Aristeu sabia ser.

Aos dias, Miguilim melhorava. Sobressarado, já podia se levantar um pouquinho, sem escora. Mas cansava logo. De comer, só tasquinhava: comida nenhuma não tinha gosto, o café também não tinha. Tio Terêz apareceu, estava com um fumo de luto no paletó, conversou muito com Miguilim. Vovó Izidra abençoou Miguilim, pôs mais duas medalhinhas no pescoço dele, trocou o fio do cordão, que estava muito velho, encardido e sujo de doença. Por fim ela beijou, abraçou Miguilim, se despedindo — ia embora, por nunca mais, ali não ficava. Tio Terêz é que ia voltar para morar com eles, trabalhando, sempre. Mas Miguilim não gostava mais de Tio Terêz, achava que era pecado gostar.

Por causa do restinho de doença, ele não devia de brincar com os irmãos, nem com o Grivo. Mas podia parar sentado, muito tempo, ouvindo o Papaco-o-Paco conversar, vendo Mãitina lavar roupa e a Chica pular corda. — “Entra pra dentro, Miguilim, está caindo sereno…” Entrava, deitava na rede, tinha tanta vontade de poder tirar estórias compridas, bonitas, de sua cabeça, outra vez. Não queria nada. — “Tempo bom é este, Miguilim: a gente planta couve e colhe repolho; então, come alface…” — seo Aristeu tinha falado. — “Mãe, seo Aristeu bebe?” “— E bebe não, Miguilim. Mas ele nasceu foi no meio-dia, em dia-de-domingo…” Tio Terêz agora estava trabalhando por demais, fez ajuste com mais um enxadeiro, e ia se agenciar de garroteiro, também. Ele tinha uma roupa inteira de couro, mais bonita do que a do vaqueiro Salúz; dava até inveja. — “Se daqui a uns meses sua mãe se casar com o Tio Terêz, Miguilim, isso é de teu gosto?” — Mãe indagava. Miguilim não se importava, aquilo tudo era bobagens. Todo mundo era meio um pouco bôbo. Quando ele ficasse forte são de todo, ia ter de trabalhar com Tio Terêz na roça? Gostava mais de ofício de vaqueiro. Se o Dito em casa ainda estivesse, o que era que o Dito achava? O Dito dizia que o certo era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundas. Podia? Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma.

Depois, de dia em dia, e Miguilim já conseguia de caminhar direito, sem acabar cansando. Já sentia o tempero bom da comida; a Rosa fazia para ele todos os dôces, de mamão, laranja-da-terra em calda de rapadura, geleia de mocotó. Miguilim, por si, passeava. Descia maneiro à estrada do Tipã, via o capim dar f lôr. Um qualquer dia ia pedir para ir até na Vereda, visitar seo Aristeu. Zerró e Seu-Nome corriam adiante e voltavam, brincando de rastrear o incerto. Um gavião gritava empinho, perto.

De repente lá vinha um homem a cavalo. Eram dois. Um senhor de fora, o claro da roupa. Miguilim saudou, pedindo a benção. O homem trouxe o cavalo cá bem junto. Ele era de óculos, corado, alto, com um chapéu diferente, mesmo.

— Deus te abençoe, pequeninho. Como é teu nome?

— Miguilim. Eu sou irmão do Dito.

— E seu irmão Dito é o dono daqui?

— Não, meu senhor. O Ditinho está em glória.

O homem esbarrava o avanço do cavalo, que era zelado, manteúdo, formoso como nenhum outro. Redizia:

— Ah, não sabia, não. Deus o tenha em sua guarda… Mas, que é que há, Miguilim?

Miguilim queria ver se o homem estava mesmo sorrindo para ele, por isso é que o encarava.

— Por que você aperta os olhos assim? Você não é limpo de vista? Vamos até lá. Quem é que está em tua casa?

— É Mãe, e os meninos…

Estava Mãe, estava Tio Terêz, estavam todos. O senhor alto e claro se apeou. O outro, que vinha com ele, era um camarada. O senhor perguntava à Mãe muitas coisas do Miguilim. Depois perguntava a ele mesmo: — “Miguilim, espia daí: quantos dedos da minha mão você está enxergando? E agora?”

Miguilim espremia os olhos. Drelina e a Chica riam. Tomèzinho tinha ido se esconder.

— Este nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim…

E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito.

— Olha, agora!

Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessôas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo… O senhor tinha retirado dele os óculos, e Miguilim ainda apontava, falava, contava tudo como era, como tinha visto. Mãe esteve assim assustada; mas o senhor dizia que aquilo era do modo mesmo, só que Miguilim também carecia de usar óculos, dali por diante. O senhor bebia café com eles. Era o doutor José Lourenço, do Curvêlo. Tudo podia. Coração de Miguilim batia descompasso, ele careceu de ir lá dentro, contar à Rosa, à Maria Pretinha, a Mãitina. A Chica veio correndo atrás, mexeu: — “Miguilim, você é piticégo…” E ele respondeu: — “Donazinha…”

Quando voltou, o doutor José Lourenço já tinha ido embora.

— “Você está triste, Miguilim?” — Mãe perguntou.

Miguilim não sabia. Todos eram maiores do que ele, as coisas reviravam sempre dum modo tão diferente, eram grandes demais.

— Pra onde ele foi?

— A foi p’ra a Vereda do Tipã, onde os caçadores estão. Mas amanhã ele volta, de manhã, antes de ir s’embora para a cidade. Disse que, você querendo, Miguilim, ele junto te leva… — O doutor era homem muito bom, levava o Miguilim, lá ele comprava uns óculos pequenos, entrava para a escola, depois aprendia ofício. — “Você mesmo quer ir?”

Miguilim não sabia. Fazia peso para não soluçar. Sua alma, até ao fundo, se esfriava. Mas Mãe disse:

— Vai, meu filho. É a luz dos teus olhos, que só Deus teve poder para te dar. Vai. Fim do ano, a gente puder, faz a viagem também. Um dia todos se encontram…

E Mãe foi arrumar a roupinha dele. A Rosa matava galinha, para pôr na capanga, com farofa. Miguilim ia no cavalo Diamante — depois era vendido lá na cidade, o dinheiro ficava para ele. — “Mãe, é o mar? Ou é para a banda do Pau-Rôxo, Mãe? É muito longe?” “— Mais longe é, meu filhinho. Mas é do lado do Pau-Rôxo não. É o contrário…” A Mãe suspirava suave.

— “Mãe, mas por que é, então, para que é, que acontece tudo?!”

“— Miguilim, me abraça, meu filhinho, que eu te tenho tanto amor…”

Os cachorros latiam lá fora; de cada um, o latido, a gente podia reconhecer. E o jeito, tão oferecido, tão animado, de que o Papaco-o-Paco dava o pé. Papaco-o-Paco sobrecantava: “Mestre Domingos, que vem fazer aqui? Vim buscar meia-pataca, pra beber meu parati…”Mãe ia lavar o corpo de Miguilim, bem ensaboar e esfregar as orêlhas, com bucha. — “Você pode levar também as alpecartinhas do Dito, elas servem para você…”

No outro dia os galos já cantavam tão cedinho, os passarinhos que cantavam, os bem-te-vis de lá, os passo-pretos: — Que alegre é assim… alegre é assim… Então. Todos estavam em casa. Para um em grandes horas, todos: Mãe, os meninos, Tio Terêz, o vaqueiro Salúz, o vaqueiro Jé, o Grivo, a mãe do Grivo, Siàrlinda e o Bustiquinho, os enxadeiros, outras pessôas. Miguilim calçou as botinas. Se despediu de todos uma primeira vez, principiando por Mãitina e Maria Pretinha. As vacas, presas no curral. O cavalo Diamante já estava arreado, com os estrivos em curto, o pelêgo melhor acorreado por cima da sela. Tio Terêz deu a Miguilim a cabacinha formosa, entrelaçada com cipós. Todos eram bons para ele, todos do Mutúm.

O doutor chegou. — “Miguilim, você está aprontado? Está animoso?” Miguilim abraçava todos, um por um, dizia adeus até aos cachorros, ao Papaco-o-Paco, ao gato Sossõe que lambia as mãozinhas se asseando. Beijou a mão da mãe do Grivo. — “Dá lembrança a seo Aristeu… Dá lembrança a seo Deográcias…” Estava abraçado com Mãe. Podiam sair.

Mas, então, de repente, Miguilim parou em frente do doutor. Todo tremia, quase sem coragem de dizer o que tinha vontade. Por fim, disse. Pediu. O doutor entendeu e achou graça. Tirou os óculos, pôs na cara de Miguilim.

E Miguilim olhou para todos, com tanta força. Saíu lá fora. Olhou os matos escuros de cima do morro, aqui a casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o céu, o curral, o quintal; os olhos redondos e os vidros altos da manhã. Olhou, mais longe, o gado pastando perto do brejo, f lorido de são-josés, como um algodão. O verde dos buritis, na primeira vereda. O Mutúm era bonito! Agora ele sabia. Olhou Mãitina, que gostava de o ver de óculos, batia palmas-de-mão e gritava: — “Cena, Corinta!…” Olhou o redondo de pedrinhas, debaixo do jenipapeiro.

Olhava mais era para Mãe. Drelina era bonita, a Chica, Tomèzinho. Sorriu para Tio Terêz: — “Tio Terêz, o senhor parece com Pai…” Todos choravam. O doutor limpou a goela, disse: — “Não sei, quando eu tiro esses óculos, tão fortes, até meus olhos se enchem d’água…” Miguilim entregou a ele os óculos outra vez. Um soluçozinho veio. Dito e a Cuca Pingo-de-Ouro. E o Pai. Sempre alegre, Miguilim… Sempre alegre, Miguilim… Nem sabia o que era alegria e tristeza. Mãe o beijava. A Rosa punha-lhe dôces-de-leite nas algibeiras, para a viagem. Papaco-o-Paco falava, alto, falava.