Campo Geral
Campo Geral
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Seo Deográcias falava tão engraçado: — “O senhor, seo Nhô Berno, podia ter a cortesia de me agenciar para mim um dinheirozinhozinhozinho, pouco, por ajuda?” “— Quem dera eu tanto tivesse como o senhor, seo Deográcias!” — o Pai respondia. “— Ara, qual, qual, seo Nhô Berno Cássio, eu estou pobre como aguinha em fundo de canôa… Achasse um empréstimo, comprava adquirido um bom cavalo de sela… Podia até vir mais amiúde, por uma prosa, servo do senhor, sem grave pecado de incomodar…”
“— Pois, aqui, seo Deográcias, o senhor é sempre bem aparecido…”
Contavam que esse seo Deográcias estava excomungado, porque um dia ele tinha ficado agachado dentro de igreja. Mas seo Deográcias entendia de remédios, quando alguém estava doente ele vinha ver. Era viúvo. Morava dali a diversas léguas, na Vereda-do-Côcho. Agora tinha viajado de vir para pedir uma pouca de sal e de café, por emprestados, e um pedaço de carne-de-vento — quando matassem boi, lá, pagava de volta. O Patorí, ele trouxe junto. “— Vem, Miguilim, ajudar a tacar pedra: os meninos acharam um sapo enorme!” — o Patorí gritando já vinha.
Miguilim não queria ir, não gostava de sapos. Não era como a Chica, que puxava a rã verde por uma perna, amarrava num fio de embira, prendia-a no pau da cerca. Por paz, não estava querendo também brincar junto com o Patorí, esse era um menino maldoso, diabrava. “— Ele tem olho ruim”, — a Rosa dizia — “quando a gente está comendo, e ele espia, a gente pega dôr-de-cabeça…”
— “Então, vem cá, Miguilim. Olha aqui…” — o Patorí mostrava bala dôce, embrulhada em papelim, tirava da algibeira. Miguilim aceitava. Mas era uma pedra, de dentro do papel. O Patorí ria dele, da logradela: — “Enganei meu burrinho, com uma pedrinha de sal!…” Aqueles dentes dentuços! “— A bala eu chupei, estava azedinha gostosa…” — ainda dizia, depois, mais malino. “— Mas, agora, Miguilim, vou te ensinar uma coisa, você vai gostar. Sabe como é que menino nasce?” Miguilim avermelhava. Tinha nôjo daquelas conversas do Patorí, coisas porcas, desgovernadas. O Patorí escaramuçava o Dito e Tomèzinho: — “Foge daí! Não quero brincar com menino-pequeno!” — proseava. E tornava a falar. Inventava que ia casar com Drelina, quando crescesse, que com ela ia se deitar em cama. Ensinava que, em antes de se chupar a bala dôce, a gente devia de passar ela no tamborete onde moça bonita tivesse sentado, meio de arte. Contava como era feita a mãe de Miguilim, que tinha pernas formosas… “— Isso tu não fala, Patorí!” — Miguilim dava passo. “— A já! E eu brigo com menino menorzinho do que eu?! Tu bobêia?” O Patorí debochava. Saía para o pátio. Daí, quando Miguilim estava descuidado, o Patorí pegava um punhado de lama, jogava nele, sujando. Miguilim sabia que não adiantava acusar: — “Não foi por querer…” — o Patorí sempre explicava aos mais velhos — “Eu até gosto tanto de Miguilim…” Mas o Dito chegava, tendo visto, o Dito era muito esperto: — “Sabe, Patorí, o vaqueiro Salúz está caçando você, pra bater, disse que você furtou dele uma argola de laço!” Aí o Patorí pegava medo, corria para dentro de casa, não saía mais de perto do pai.
— Miguilim, você sabe o que o vaqueiro Salúz disse? Tio Terêz foi morar no Tabuleiro Branco. O vaqueiro Salúz vai levar lá o cavalo dele e o resto das coisas que ainda ficaram. Tio Terêz decerto que quer trabalhar p’r’ a Sa Cefisa, no Tabuleiro Branco…
— Por que, Dito? P’ra sempre?
— Acho que ele tomou medo de Pai, não quer ser mais parente de nossa casa. O Tabuleiro Branco é longe, mais de dez léguas daqui, p’r’ a outra banda de lá. Vaqueiro Salúz disse que até assim é bom, tio Terêz acaba se casando com a Sa Cefisa, que ela é mulher enviuvada…
— Miguiliiim!…
A Chica gritava dessa forma, feito ela fosse dona dele.
— … Miguilim, vem depressa, Mamãe, Papai tá te chamando! Seo Deográcias vai te olhar…
Seo Deográcias ria com os dentes desarranjados de fechados, parecia careta cã, e sujo amarelal brotava por toda a cara dele, um espim de uma barba. “— A-há, seu Miguilim, hum… Chega aqui.” Tirava a camisinha. “— Ahã… Ahã… Está se vendo, o estado deste menino não é p’ra nada-não-senhor, a gente pode se guiar quantas costelinhas Deus deu a ele… Rumo que meu, eu digo: cautelas! Ignorância de curandeiro é que mata, seo Nhô Berno. Um que desvê, descuidou, há-de-o! — entrou nele a febre. E, é o que digo: p’ra passar a héctico é só facilitar de beirinha, o caso aí maleja… Muito menino se desacude é assim. Mas, tem susto não: com as ervas que sei, vai ser em pé um pau, garantia que dou, boto bom!…”
— “Meu filhinho, Miguilim…” — a mãe desnorteava, puxando-o para si. — “De remédio é que ele carece, momo não cura ninguém!” — o pai desdenhava grosso.
— “Isto mesmo, seo Nhô Berno, bem deduzido!” — seo Deográcias pronunciava. Bebia café. — “Remédio: e — o senhor agradeça, eu esteja vindo viver aqui nestas más brenhas, donde só se vê falta tudo, muita míngua, ninguém não olha p’ra este sertão dos pobres…”
Seo Deográcias ficava brabo: agora estava falando da falta de providências para se pegar criminosos tão brutos, feito esse Brasilino Boca-de-Bagre, que cercava as pessôas nas estradas, roubava de tudo, até tinha aparecido na Vereda do Terentém, fazedor de medo, deram em mão o que ele quis, conduziu a mulher do Zé Ijim, emprestada por três dias, devolveu só dali a quase mês! Seo Deográcias cuspia longe, em tris, asseava a boca com as costas da mão, e rexingava: “— Assim mais do que assim, as coisas não podem demasiar. Por causa de umas e dessas, eu vou no papel! — vou na tinta!” Dizia que estava escrevendo carta para o Presidente, já tinha escrito outra vez, por conta de tropeiros do Urucúia-a-fora não terem auxiliado de abrir a tutameia de um saquinho de sal, nem de vender para os dali, quando sal nenhum para se pôr em comida da gente não se achava. Ao já estava com a carta quase pronta, só faltando era ter um positivo que a fosse levar na barra, na Vila Risonha.
— “Bem, eu agora vou-me-vou, estou de passar na cafúa do Frieza, pastos abaixo. Viajar é penoso! Olha, o corguinho já está alargado, com suas águas amarelas…” — Seo Deográcias só gostava de ir visitar os outros era no intervalinho de chuvas, aí ele sabia certo que achava todos em casas. Ele tinha também ofício de cobrar dinheiro, de uns para os outros. Levantou, foi na janela, espiar o céu do tempo. — “Eh, água vai tornar a revirar água? No melhor, estia: vigiem o olho-de-boi!” Todos discorriam para ir ver, até Vovó Izidra concordava de apreciar o olho-de-boi, que era só um reduzidinho retalho de arco-da-velha, leviano airoso. Miguilim, não, hoje não podia. Esperava abraçado no colo da mãe, enquanto que ela quisesse assim. “— Que é que você está soletrando, Miguilim?” Nada, não, estava falando nada. Estava rezando, endereçado baixinho, para Deus dificultar d’ele morrer.
Mas Pai tinha tirado por tino, conversava: — “Seo Deográcias, o senhor que sabe escola, podia querer ensinar o Miguilim e o Dito algum começo, assim vez por vez, domingo ou outro, para eles não seguirem atraso de ignorância?”
Mal de Miguilim, que de todo temor se ameaçava. O arújo daquilo. Então, o que seo Deográcias ensinasse — ele e o Dito iam crescer ficando parecidos com seo Deográcias?… Cruzou os olhos com o Dito. O Dito, que era o irmãozinho corajosozinho destemido, ele ia arrenegar? Daí, não, o Dito deixava, estava adiando de falar alto. Mas ele, Miguilim, ia mesmo morrer de uma doença, então ele agora não somava com ralho nenhum:
— Quero tudo não, meu Pai. Mãe sabe, ela me ensina…
Ah o pai não ralhava — ele tinha demudado, de repente, soável risonho; mesmo tudo ali no instante, às asas: o ar, essas pessôas, as coisas — leve, leve, tudo demudava simples, sem desordem: o pai gostava de mamãe. Com o ser, com os olhos como que ele olhava, tanto querendo-bem; e o pai estava remoçado. Mãe, tão bonita, só para se gostar dela, todo o mundo. Então Miguilim era Miguilim, acertava no sentir, e em redor amoleciam muitas alegrias. O pai gostava de mamãe, muito, demais. Até, para agradar mamãe, ele afagava de alisar o cabelo de Miguilim, em quando falava gracejado: — “A Nhanina sabe as letras, mas ela não tem nenhuma paciência… Eh, Nhanina não decora os números, de conta de se fazer…” Se seo Deográcias então queria ser mestre?
Mas seo Deográcias coçava a cara pela barba, ajuizava sério. “— Bom, seo Nhô Berno, o que o senhor está é adivinhando uma tenção que já está residida aqui nesta minha cabeça há muito, mas mesmo muito tempo… Mas o que não pode é ser assim de horas pra hora. Careço de mandar vir papéis, cartilha, régua, os aviamentos… Ter um lugarim, reunir certa quantidade de meninos de por aqui por em volta, tão precisados, assim é que vale. O bom real é o legal de todos… Por o benefício de muitos.” Todo tão feio, seo Deográcias, aquele tempo se tinha medo ele envelhecesse em dôido.
E era bom quando seo Deográcias e o Patorí iam embora. —
“Mais antes um que mal procede, mas que ensina pelo direito a regra dos usos!” — Vovó Izidra dava valor a seo Deográcias. “— Seja bom-homem, só que truqueado com tantos remiolamentos…” — o pai inventava de dizer. Miguilim pensava que ele tinha vindo pedir esmola; mas o Dito sabia, de escutação: — “Ih, não, Miguilim. Mais veio buscar o dinheiro, para um homem da cidade. Mas Pai falou que ainda não estava em ponto de poder pagar…” Então o Dito estava mentindo! Mas Vovó Izidra tinha ojeriza de seo Aristeu, que morava na Veredinha do Tipã, ele também assisava de aconselhar remédios, e que para ver o Miguilim a mãe queria que chamassem. — “Aquele mal entende do que é, catrumano labutante como nós…” — dizia o pai. Dizia que seo Aristeu servia só para adjutorar, em idas de caçadas, ele dispunha notícia do regulamento dos bichos, por onde passavam acostumados — carreiro de anta, sumetume de paca, trauta de veado — marcava lugar para se pôr espera. Outras vezes também dava rumo aos vaqueiros do movimento do gado fugido, e condizia de benzer bicheira dos bois, recitava para sujeitar pestes. Seu Aristeu criava em roda de casa a abelha-do-reino e aquelas abelhinhas bravas do mato, ele era a única pessôa capaz dessa inteligência. — “Ele é um homem bonito e alto…” — dizia Mãe. — “Ele toca uma viola…” “— Mas do demo que a ele ensina, o curvo, de formar profecia das coisas…” — Vovó Izidra reprovava.
Mas então Miguilim estava mesmo de saúde muito mal, quem sabe ia morrer, com aquela tristeza tão pesada, depois da chuva as folhas de árvores desbaixavam pesadas. Ele nem queria comer, nem passear, queria abrir os olhos escondido. Que bom, para os outros — Tomèzinho, o Dito, a Chica, Drelina, Maria Pretinha — nenhum não estava doente. Só ele, Miguilim, só. Antes tinha ido com o Tio Terêz, de viagem grande, crismado no Sucurijú, tanta coisa podendo ver, agora não sabia mais. Sempre cismava medo assim de adoecer, mesmo era verdade. Todo o mundo conhecia que ele estava muito doente, de certo conversavam. Tivesse outras qualidades de remédios — que fossem muito feios, amargosos, ruins, remédio que doêsse, a gente padecia no tomar! — então ele tomava, tantas vezes, não se importando, esperança que sarava. Ele mesmo queria melhor ir para a casa de seo Deográcias, daquele menino Majéla, tão arlequim, o Patorí — mas seo Deográcias tinha esses poderes, lá ele tomava remédio, toda hora, podiam judiar, não fazia mal que judiassem, cada dia ele melhorava mais um pouco, quando acabasse bom voltava para casa. Mas seo Deográcias tinha mandado só aqueles, que a gente não pressentia com respeito, que eram só jatobá e óleo de capivara. Assim mesmo, tomava, a certas. Só ele. Agora pensava uma raiva dos irmãos, dos parentes — não era raiva bem, era um desconhecer deles, um desgosto. Não calava raiva do Dito, nem do Tomèzinho, nem da Chica e de Drelina, quando vinham perto, quando estava vendo, estimava sempre uns e outros. Mas, quando ficava imaginando sozinho assim, aquele dissabor deles todos ele pensava. Ah, então, quem devia de adoecer, e morrer, em vez, por que é que não era, não ele, Miguilim, nem nenhum dos irmãozinhos, mas aquele mano Liovaldo, que estava distante dali, nem se sabia dele quase notícia, nem nele não se pensava?
Choveu muitos dias juntos. Chuva, chuvisco, faísca — raio não se podia falar, porque chamava para riba da gente a má coisa. Assim que trovoava mais cão, Miguilim já andava esperando para vir perto de Vovó Izidra: — “Vovó Izidra, agora a gente vai rezar, muito?” Ah, porque Vovó Izidra, que era dura e braba desconforme, então ela devia de ter competência enorme para o lucro de rezarem reunidos — para o favor dele, Miguilim, para o que ele carecia. Nem não estava com receio do trovão de chuva, a reza era só para ele conseguir de não morrer, e sarar. Mas fingia, por versúcia — não queria conversar a verdade com as pessôas. Falasse, os outros podiam responder que era mesmo; falasse, os outros então aí era que acreditavam a mortezinha dele certa, acostumada. — “Vovó Izidra, agora a gente vai rezar de oratório, de acender velas?!” — ele mais quase suplicava. — “Não, menino…” — que não, Vovó Izidra respondia — “Me deixe!” — respondia que aquela chuva não regulava de se acender vela, não estava em quantidades. Ser menino, a gente não valia para querer mandar coisa nenhuma. Mas, então, ele mesmo, Miguilim, era quem tinha de encalcar de rezar, sozinho por si, sem os outros, sem demão de ajuda. Ele ia. Carecia. Suprido de sua fé — que se dizia —: para auxiliar Nosso Senhor a poder obrar milagre. Miguilim queria. Mas, como é que, se ele sendo assim pequeno, agora quem é que sabia se o baguinho-de-fé nele ainda era que estava, não gastada? Descorçoava. — “Vovó Izidra, a senhora falou aquilo, aquela vez: eu tenho muita fé em Deus?” “— Tu tem é severgonhice, falta de couro! Menino atentado!…”
A gente — essas tristezas. Mesmo, daí, Vovó Izidra ralhava, aconselhava para ele não ir caminhar molhando os pés no chão chovido. Que era que adiantava? Para um assim com má-sina — que é que adiantava? Entre chuva e outra, o arco-da-velha aparecia bonito, bebedor; quem atravessasse debaixo dele — fú! — menino virava menina, menina virava menino: será que depois desvirava? Estiadas, as aguinhas brincavam nas árvores e no chão, cada um de um jeito os passarinhos desciam para beber nos lagoeiros. O sanhaço, que oleava suas penas com o biquinho, antes de se debruçar. O sabiá-peito-vermelho, que pinoteava com tantos requebros, para trás e para a frente, ali ele mesmo não sabia o que temia. E o casal de tico-ticos, o viajadinho repulado que ele vai, nas léguas em três palmos de chão. E o gaturamo, que era de todos o mais menorzim, e que escolhia o espaço de água mais clara: a figurinha dele, reproduzida no argume, como que ele muito namorava. Tudo tão caprichado lindo! Ele Miguilim havia de achar um jeito de sarar com Deus. Perguntava a Mãitina, mesmo, como não devia, quem sabe?
Mãitina gostava dele, por certo, tinha gostado, muito, uma vez, fazia tempo, tempo. Miguilim agora tirava isso, da deslembra, como as memórias se desentendem. Ocasião, Mãitina sempre ficava cozinhando coisas, tantas horas, no tacho grande, aquele tacho preto, assentado na trempe de pedras soltas, lá no cômodo pegado com a casa, o puxado, onde que era a moradia dela — uma rebaixa, em que depois tinham levantado paredes: o acrescente, como se chamava. Lá era sem luz, mesmo de dia quase que só as labaredas mal alumiavam. Miguilim era mais pequeno, tinha medo de tudo, chegou lá sozinho para espiar, não tinha outra pessôa ninguém lá, só Mãitina mesmo, sentada no chão, todo o mundo dizia ela feiticeira, assim preta encoberta, como que deve de ser a Morte. Miguilim esbarrou, já estava com um começo de dúvida, daí viu, os olhos dele vendo: viu nada, só conheceu que o escuro estava sendo mais maldoso, em redor — e o treslinguar do fôgo — era uma mata-escura, mato em que o verde vira preto, e o fôgo pelejava para não deixar aquilo tomar conta do mundo, estremeciam mole todos os sombreados. Ele se assustou forte, deu grito. E, se agarrando nas costas dela, se abraçou com Mãitina. Ah, se lembrava. Pois porque tudo tinha tornado a se desvirar do avesso, de repente, Mãitina estava pondo ele no colo, macio manso, e fazendo carinhos, falando carinhos, ele nem esperava por isso, isso nem antes nem depois nunca não tinha acontecido. O que Mãitina falava: era no atrapalho da linguagem dela, mas tudo de ninar, de querer-bem, Miguilim pegava um sussú de consolo, fechou os olhos para não facear com os dela, mas, quisesse, podia adormecer inteiro, não tinha mais medo nenhum, ela falava a zúo, a zumbo, a linguagem dela era até bonita, ele entendia que era só de algum amor. Tanto mesmo Mãitina tinha gostado dele, nesse dia, que, depois, ela segurou na mãozinha dele, e vieram, até na porta-da-cozinha, aí ela gritou, exclamando os da casa, e garrou a esbravecer, danisca, xingando todos, um cada um, e apontava para ele, Miguilim, dizendo que ele só é que era bonzinho, mas que todos, que ela mais xingava, todos não prestavam. Pensaram que ela tivesse doidado furiosa.
Mas, depois, aquilo tinha sido mesmo uma vez só, os outros dias que vinham eram no igual a todos, a gente de tudo não aguenta também de se lembrar, não consegue. Mãitina bebia cachaça, surtia todas as venetas, sumia o senso na velhice. A ver, os meninos todos queriam ir lá, no acrescente, Mãitina agachada, remexendo o tacho; num canto Mãitina dormia, ainda era mais trevoso. Com a colher-de-pau ela mexia a goiabada, horas completas, resmungava, o resmungo passava da linguagem de gente para aquela linguagem dela, que pouco fazia. A fumaça estipava nos olhos de Miguilim, ele tossia e apertava lágrimas de rir azedo. — “Fumaça pra lá, dinheiro p’ra cá…” — cada um dizia, quando o enfio da fumaça se espalhava. Só Drelina era quem queria gostar: — “Fumaça percura é formosura…” Vovó Izidra sobrevinha, à tanta, às roucas, esgraviava escramuçando as crianças embora, êta escrapeteava com a criançada toda do mundo! Vovó Izidra, mesmo no escuro assim, avançava nos guardados, nos esconsos, em buracos na taipa, achava aqueles toquinhos de pau que Mãitina tinha escascado com a faca, eram os calunguinhas, Vovó Izidra trouxava tudo no fogo, sem dó! —: eram santos-desgraçados, a gente nem não devia de consentir se Mãitina oferecesse aquilo para respeito de se beijar, bonecos do demo, cazumbos, a gente devia era de decuspir em riba. Mãitina depois tornava a compor outros. Essas horas, a gente nunca sabia o que Mãitina fosse arrumar, tudo com ela dependia. Tinha vez, ria atôa, não fazia caso; mas, outras, ela gritava horroroso, enfrenesiava no meio do quintal, rogando pragas sentidas, tivesse lama deitava mesmo na lama, se esparramava.
E agorinha, agora, que ele carecia tanto de qualquer assinzinho de socôrro, algum aprumo de amparo, será que não podia pedir a ela? Miguilim pensava. Miguilim nem ria. O que ele ia vendo: que nem não adiantava. Ah, não adiantava não, de jeito nenhum — Mãitina estava na bebedeira. A mal, derradeiro deixavam ela tomasse como quisesse; porque estavam supeditando escondido na cachaça o pó de uma raiz, que era para ela enfarar de beber, então, sem saber, perdia o vício. Mas nem não valia. Podiam sobpôr aquilo, sustanciar em todas quantidades, a meizinha não executava. Judiação. Mãitina bebia e rebebia, queria mais, ela gastava a cachaça toda. Tudo, que todo o mundo fazia, era errado.
A Rosa. Miguilim pergunta à Rosa: — “Rosa, que coisa é a gente ficar héctico?” “— Menino, fala nisso não. Héctico é tísico, essas doenças, derrói no bofe, pessôa vai minguando magra, não esbarra de tossir, chega cospe sangue…” Miguilim desertêia para a tulha, atontava.
— “Agora você ensina armar urupuca…” — o Dito queria, quando desinvernou de repente, as maitacas já passavam, vozeando o trilique, antes era tão bonito. Para o Dito, não tinha coragem de negar. Mas a urupuca não definia certa, o Dito mesmo experimentou, espiava sério, só Tio Terêz era quem podia. Tio Terêz em tudo estava vivendo longe. Tio Terêz voltasse, Miguilim conversava. — “Sanhaço pia uma f lauta… Parece toca aprendendo…” “— Que é que é f lauta, Tio Terêz?” Flauta era assovio feito, de instrumento, a melhor remedava o pio assim do sanhaço grande, o ioioioim deles… Tio Terêz ia aprontar para ele uma, com taquara, com canudo de mamão? Mas, depois, de certo esqueceu, nunca que ninguém tinha tempo, quase que nenhum, de trabalhar era que todos careciam.
Tomèzinho e o Dito corriam, no pátio, cada um com uma vara de pau, eram cavalinhos que tinham até nomes dados. “— Brincar, Miguilim!” Brincar de pegador. Até a Chica e Drelina brincavam, os cachorros latiam diverso. O Gigão sabia quase brincar também. Miguilim corria, tinha uma dôr de um lado. Esbarrava, nem conseguia ânimo de tomar respiração. Não queria aluir do lugar — a dôr devia de ir embora. Assim instante assim, comecinho dela, ela estava só querendo vindo pousando — então num átimo não podia também desistir de nele pousar, e ir embora? Ia. Mas não adiantava, ele sabia, deu descordo. Já estava héctico. Então, ia morrer, mesmo, o remédio de seo Deográcias não adiantava.
— Dito, hoje é que dia?
Então ia morrer; carecia de pensar feito já fosse pessôa grande? Suspendeu as mãozinhas, tapando os olhos. Em mal que, a gente carecia de querer pensar somente nas coisas que devia de fazer, mas o governo da cabeça era erroso — vinha era toda ideia ruim das coisas que estão por poder suceder! Antes as estórias. Do pai de seo Soande vivo, estória do homem boticário, Soande. Esse, deu um dia, se prezou que já estava justo completo, capaz para navegar logo pra o Céu, regalias altas; como que então ele dispôs de tudo que tinha, se despediu dos outros, e subiu numa árvore, de manhã cedo, exclamou: — “Belo, belo, que vou para o Céu!…” — e se soltou, por voar; descaíu foi lá de riba, no chão muito se machucou. — “Bem feito!” — Vovó Izidra relatava — “Quem pensa que vai para o Céu, vai mas é para o Céu-de-Laláu!…” Vovó Izidra todos vigiava.
O Dito tinha ido ver, perguntar. Daí, voltava: — “Hoje é onze, a Rosa espiou na folhinha. A Rosa disse essa folhinha que agora a gente tem não é bôa, folhinha-de-Mariana; que carece de arranjar folhinha de desfolhar — de tão bonitos quadros…” “— Eu vou ali, volto…” — Miguilim disse. Miguilim tinha pegado um pensamento, quase que com suas mãos.
“— Deix’ele ir, Dito. Ele vai amarrar-o-gato…” — ainda escutava dizer o vaqueiro Jé. Mentira. Tinha mentido, de propósito. Era o único jeito de sozinho poder ficar, depressa, precisava. Podiam rir, de que rissem ele não se importava. Mesmo agora ali estava ele ali, atrás das árvores, com as calças soltadas, acocorado, fingindo. Ah, mas livre de todos; e pensava, ah, pensava!
Repensava aquele pensamento, de muitas maneiras amarguras. Era um pensamento enorme, aí Miguilim tinha de rodear de todos os lados, em beira dele. E isso era, era! Ele tinha de morrer? Para pensar, se carecia de agarrar coragem — debaixo da exata ideia, coraçãozinho dele anoitecia. Tinha de morrer? Quem sabia, só? Então — ele rezava pedindo: combinava com Deus, um prazo que marcavam… Três dias. De dentro daqueles três dias, ele podia morrer, se fosse para ser, se Deus quisesse. Se não, passados os três dias, aí então ele não morria mais, nem ficava doente com perigo, mas sarava! Enfim que Miguilim respirava forte, no mil de um minuto, se coçando das ferroadas dos mosquitos, alegre quase. Mas, nem nisso, mau! — maior susto o salteava: três dias era curto demais, doíam de assim tão perto, ele mesmo achava que não aguentava… Então, então, dez. Dez dias, bom, como valesse de ser, dava espaço de, amanhã, principiar uma novena. Dez dias. Ele queria, lealdoso. Deus aprovava.
Voltou para junto. Agora, ele se aliviava qualqual, feliz no acomodamento, espairecia. Era capaz de brincar com o Dito a vida inteira, o Ditinho era a melhor pessôa, de repente, sempre sem desassossego. O Dito como que ajudava. Ele Miguilim ainda carecia de sinalar os dias todos, para aquela espera, fazia a conta nos dedos. O Dito e o vaqueiro Jé não estavam entendendo nada, mas o vaqueiro Jé fez a conta, Miguilim e Dito não sabiam. — “Pra que é, Miguilim? Você fechou data para se casar?” — assim a poetagem do vaqueiro Jé, falanfão. Soubesse o que era, de verdade, assim se rindo assim ele falava? O vaqueiro Jé era uma pessôa esperdiçada. — “Ah, isto é” — ainda vinha dizendo mais — “é por via da vacama: o Miguilim vai reger o costeio…”
A tempo, com a chuva, os pastos bons, o pai tinha falado iam tornar a começar a tirar muito leite, fazer requeijão, queijo. As vacas estavam sobrechegando, com o touro. O touro era um zebú completo preto — Rio-Negro. A bezerrada se concluía num canto do curral, os rabinhos de todos pendurados, eles formavam roda fechada, com as cabeças todas juntas. O cachorro Gigão vigiava, sempre sério, sentado; ele desgostava do Rio-Negro. O Rio-Negro era ruim, batedor. Um dia ele tinha investido nos meninos.
Quando que avançou, de supetão, todos gritaram, as pessôas grandes gritaram: os meninos estavam mortos! Mas mais se viu que o Gigão sobrestava, de um pulo só ele cercou, dando de encontro — tinha ferrado forte do Rio-Negro, abocando no focinho — não desmordeu, mesmo — deu com o pai-de-bezerro no chão. Três tombos, até o Rio-Negro rolar por debaixo do cocho que quase encostado na cerca. Todas as belezas daquele retumbo! Deu a derradeira queda aqui, já neste fundinho de terra. O Gigão gostava de mexida de gado, cachorro desse derruba qualquer boi. Tinha livrado os meninos da morte, todos faziam festas no Gigão, sempre que se matava galinha assavam o papo e as tripas para ele. Mas agora o Gigão parava ali, bebelambendo água na poça, e mesmo assim, com ele diante perto, Miguilim estava sentindo saudade dele. Então, era porque ia mesmo morrer? Já tinham quase passado dois dias, faltavam os outros para inteirar. E ele, por motivo nenhum, mas tinha deixado de principiar a novena, e não sobrava mais tempo, não dava. Deus Jesus, como é que havia de ser?
Não ia fazer mais artes. Só tinha trepado na árvore-de-tentos, com o Dito, para apanhar as frutinhas de birosca. Tomèzinho não sabia subir, ficava fazendo birra em baixo, xingava nome feio. “— Não xinga, Tomèzinho, é Mãe que você está ofendendo!” Mas então precisavam de ensinar a ele outros nomes de xingar, senão o Tomèzinho não esbarrava. Às vezes a melhor hora para a gente era quando Tomèzinho estava dormindo de dia. No descer do tenteiro, Miguilim desescorregou, um galho partiu, ele bateu no chão, não machucou parte nenhuma, só que a calça rasgou, rasgão grande, mesmo. Tudo se dado felizmente. Mas o pai, quando ele chegou, gritou pito, era para costurarem a roupa. E ainda mandou que deixassem Miguilim nú, de propósito, sem calça nenhuma, até Mãe acabar de costurar. Só isso, se morria de vergonha. E, então, não tinham pena dele, Miguilim, achavam de exemplar por conta de tudo, mesmo num tempo como esse, que faltavam seis dias, do comum diferentes? Ah, não fosse pecado, e aí ele havia de ter uma raiva enorme, de Pai, deles todos, raiva mesmo de ódio, ele estava com razão. Pudesse, capaz de ter uma raiva assim até do Dito! Mas por que era que o Dito semelhava essa sensatez — ninguém não botava o Dito de castigo, o Dito fazia tudo sabido, e falava com as pessôas grandes sempre justo, com uma firmeza, o Dito em culpa aí mesmo era que ninguém não pegava.
Agora estavam reduzindo com os bezerros, para a ferra, na laçação. Miguilim também queria ir lá no curral, para poder ver — não ia, nú, nuélo, castigado. Escutava o barulho — como o bezerro laçado bufa e pula, tréta bravo. O vaqueiro Jé sabia jogar focinheira bem, com o laço: era custoso, mais custoso quando o bezerro estava com a cabeça abaixada. Laçavam pelo pescoço. Quando pegavam o pescoço e perna, duma vez, Pai zangava, estavam errando. Peavam o bezerro, na curva, com duas voltas de sedém e um nó-de-porco; encambixavam, com as duas mãos. Outro apertava a cabeça dele no chão. Outro ajudava. O bezerro punha a língua de fora. E os berros. Bêrrú-berro feio, como quando que gado toma uma esbarrada se estremece bruto, nervoso, derruba gente, agride, pula cerca. Doidavam desespero, davam testada. Até às vezes, no pular, algum rasgava a barriga nas pontas de aroeira, depois morriam. Como o pai ficava furioso: até quase chorava de raiva! Exclamava que ele era pobre, em ponto de virar miserável, pedidor de esmola, a casa não era dele, as terras ali não eram dele, o trabalho era demais, e só tinha prejuízo sempre, acabava não podendo nem tirar para sustento de comida da família. Não tinha posse nem para retelhar a casa velha, estragada por mão desses todos ventos e chuvas, nem recurso para mandar fazer uma bôa cerca de réguas, era só cerca de achas e paus pontudos, perigosa para a criação. Que não podia arranjar um garrote com algum bom sangue casteado, era só contentar com o Rio-Negro, touro do demônio, sem raça nenhuma quase. Em tanto nem conseguia remediar com qualquer zebú ordinário, touro cancréje, que é gado bravo, miúdo ruim leiteiro, de chifres grandes, mas sempre é zebú mesmo, cor queimada, parecendo com o guzerate: — “Zebú que veio no meio dos outros, mas não teve aceitação…” — que era o que queria o vaqueiro Salúz. Dava vergonha no coração da gente, o que o pai assim falava. Que de pobres iam morrer de fome — não podia vender as filhas e os filhos… Pudesse, crescesse um poucado mais, ele Miguilim queria ajudar, trabalhar também. Mas, muito em antes queria trabalhar, mais do que todos, e não morrer, como quem sabe ia ser, e ninguém não sabia.
Mas por que não cortavam aquela árvore de pé-de-f lôr, de detrás da casa, que seo Deográcias tinha falado? Se não cortassem, era tanto perigo, de agouro, ela crescia solerte, de repente uma noite despassava mais alta do que o telhado, então alguém da família tinha de morrer, então era que ele Miguilim morria. Pois ele não era o primeirozinho separado para ser, conforme Deus podia mandar, como a doença queria? Mas nem que o pai não queria saber de cortar, quizilou quando Mãe disse. — “Não corto, não deixo, não dou esse prazer a esse seo Deográcias! Nem ele não pense que tudo o que fala é minhas-ordens, que por destino de pobres ignorantes a gente é bobo também…” Não cortavam, e a arvorezinha pegava asas. Miguilim escogitava. “— Dito, alegria minha maior se alguém terminasse com a árvore-de-f lôr, um vento forte derribasse…” O Dito não fosse tão ladino: quando ninguém não estava vendo ele chamou o vaqueiro Salúz, disse que para botar no chão, mandado do pai. Vaqueiro Salúz gostava de cortar, meteu o facão, a árvore era fina. Miguilim olhava de longe; de alegria, coração não descansava. Quando os outros viram, todos ficaram assustados, temor do pai, diziam o Dito ia apanhar de tirar sangue. O Dito, por uma aguinha branca como nem que ele não se importava. Saíu brincando com carrinho-de-boi, com os sabucos. Um sabuco rôxo era boi rôxo, outros o Dito pedia à Rosa para no fôgo tostar, viravam sendo boizinhos amarelos, pretos, pintados de preto-e-branco. Era o brinquedo mais bonito de todos. Pai chegou, soube da árvore cortada, chamou o Dito: — “Menino, eu te amostro! Que foi que mentiu, que eu tinha mandado sentar facão na árvore-de-f lôr?!”
“— Ah, Pai, ressonhei que o que se disse, se a árvore danasse de crescer, mais o senhor é que é o dono da casa, agora o senhor pode bater em mim, mas eu por nada não queria que o senhor adoecesse, gosto do senhor, demais…” E o pai abraçou o Dito, dizia que ele era menino corajoso e com muito sentimento, nunca que mentia. Mesmo Miguilim não entendia o sopro daquilo; pois até ele, que sabia de tudo, dum jeito não estava acreditando mais no que fora: mas achando que o que o Dito falou com o pai era que era a primeira verdade.
Marôto que o Dito saía, por outros brinquedos, com simples de espiar o ninho de filhotes de bem-te-vi, não tinha medo que bem-te-vi pai e mãe bicavam, podiam furar os olhos da gente. Chamava Miguilim para ir junto. Miguilim não ia. O Dito não chamava mais. O Dito quase que não se importava mais com ele, o Dito não gostava mais dele. Cada dia todos deixavam de gostar dele um poucadinho, cismavam a sorte dele, parecia que todos já estavam pressentindo, e queriam desacostumar. Não faltavam só três dias? Mas agora ele imaginava outros pensamentos, só que eram desencontrados, tudo ainda custoso, dificultoso. Se escapasse, achava que ia ficar sabendo, de repente, as coisas de que precisava. Ah, não devia de ter decorado na cabeça a data desses dias! Sempre de manhã já acordava sopitado com aquela tristeza, quando os bem-te-vis e pass’os-pretos abriam pio, e Tomèzinho pulava da cama tão contente, batia asas com os braços e cocoricava, remedando o galo. De noite, Miguilim demorava um tempo distante, pensando na coruja, mãe de seus sabêres e podêres de agouro. — “É coruja, cruz?!” Não. O Dito escutava com seriedades. Só era só o grito do enorme sapo latidor.
De em dia, Miguilim mesmo tinha escasseado o gosto de se esconder, de se apartar às vezes da companhia dos outros, conforme tanto de-primeiro ele apreciava. Mas, agora, de repente achava que, se sozinho, então — por certo encoberto modo — aí era que ele era mais sabido de todos, mais enxergado e medido. Parava dentro de casa, na cozinha, perto de Mãe, perto das meninas. Queria que tudo fosse igual ao igual, sem esparrame nenhum, nunca, sem espanto novo de assunto, mas o pessoal da família cada um lidando em suas miúdas obrigações, no usozinho. Que — se ele mesmo desse de viver mais forte, então puxava perigo de desmanchar o esquecimento de Deus, inf luía mais para a banda da doença. Que, se andasse, adoecia amadurecido, sentia uma dor na contraquilha, no fundo das tampas do peito, daí cuspia sangue — era o que a Rosa falava para sempre. De sestro, salivava, queria saber se já sobrava o gosto de sangue. — “Qu’ é qu’ isso, Miguilim!? Larga de mania feia!” — qualquer um repreendia. E ele abanava a cabeça que sim, sorria mansinho que pudesse, para ser bobinho. Porque a alma dele temia gritos. No sujo lamoso do chiqueiro, os porcos gritavam, por gordos demais. Todo grito, sobre ser, se estraçalhava, estragava, de dentro de algum macio miôlo — era a começação de desconhecidas tristezas. O quirquincho de um tatú caçado. O afurôo dos cachorros, estrepolindo com o tatú em buraco.
Ali mesmo, para cima do curral, vez pegaram um tatú-peba — como roncou! — o tatú-pevinha é que é o que ronca mais, quando os cachorros o encantôam. Os cachorros estreitam com ele, rodeavam — era tatúa-fêmea — ela encapota, fala choraminguda; peleja para furar buraco, os cachorros não deixam. Os cachorros viravam com ela no chão, ela tornava a se desvirar, ligeiro. A gente via que ela podia correr muito, se os cachorros deixassem. E tinha pelinhos brancos entremeados no casco, feito as pontas mais finas, mais últimas, de raizinhas. E levantava as mãozinhas, cruzadas, mostrava aqueles dedos de unhas, como ossinhos encardidos. Pedia pena… Depois, outra ocasião, não era peva, era um tatú-galinha, o que corre mais, corredor. Funga, quando cachorro pega. Pai tirava a faca, punha a faca nele, chuchava. Ele chiava: Izúis, Izúis!… Estava morrendo, ainda estava fazendo barulho de unhas no chão, como quando entram em buraco. — “Tem dó não, Miguilim, esses são danados para comer milho nas roças, derrubam pé-de-milho, roem a espiga, desenterram os bagos de milho semeados, só para comer…” — o vaqueiro Salúz dizia aquilo, por consolar, tantas maldades. — “O tatú come raízes…” Então, mas por que é que Pai e os outros se praziam tão risonhos, doidavam, tão animados alegres, na hora de caçar atôa, de matar o tatú e os outros bichinhos desvalidos? Assim, com o gole disso, com aquela alegria avermelhada, era que o demônio precisava de gostar de produzir os sofrimentos da gente, nos infernos? Mais nem queriam que ele Miguilim tivesse pena do tatú — pobrezinho de Deus sozinho em seu ofício, carecido de nenhuma amizade. Miguilim inventava outra espécie de nôjo das pessôas grandes. Crescesse que crescesse, nunca havia de poder estimar aqueles, nem ser sincero companheiro. Aí, ele grande, os outros podiam mudar, para ser bons — mas, sempre, um dia eles tinham gostado de matar o tatú com judiação, e aprontado castigo, essas coisas todas, e mandado embora a Cuca Pingo-de-Ouro, para lugar onde ela não ia reconhecer ninguém e já estava quase ceguinha.
Mas, a mal, vinha vesprando a hora, o fim do prazo, Miguilim não achava pé em pensamento onde se firmar, os dias não cabiam dentro do tempo. Tudo era tarde! De siso, devia de rezar, urgente, montão de rezas. Não compunha. Pois então, no espandongado mesmo dessa pressa, era que a reza não dava vontade de se rezar, ele principiava e não conseguia, não aguentava, nervosia, toleimado se atolava todo. Se sentava na tulha, ainda uma vez, com coragem, só com o gato Sossõe. Ficava pensando. Se lembrando. O gato chegava por si, sobremacio, tripetrepe, naquela regra. Esse não se importava com nenhuma coisa; mais, era rateiro: em estado de dormindo, mesmo, ele com um cismado de orêlhas seguia longe o rumor de rato que ia se aparecer dum buraquinho. E Miguilim de repente viu que estava recordando aquelas conversas do Patorí, gostando delas, auxiliando mesmo de se lembrar. A coisa do boi se chamava verga. A do cavalo, chamava província, pendurada, enorme, semelhando um talo de cacho de bananeira, sem o mangará. Tinha até vontade que o Patorí voltasse, viesse, havia de conversar a bem com ele, perguntar mais desordens. O garrote tourava as vacas, depois nasciam os bezerrinhos. Patorí falava que podia ensinar muitas coisas, que homem fazia com mulher, de tão feio tudo era bonito. Só assim em se pensar, mesmo já esquentava, bom, descansava. Um porco magro, passante, demorou na porta da tulha, esmastigando, de amarelar, um bagaço de cana. Grunhava. Devia de ser bom, namoração. Ele Miguilim era quem ia se casar com Drelina — mas irmão não podia casar com irmã? Daí, não aguentava: tinha vergonha. — “Dito, vem cá, fala comigo uma pergunta minha…”
— “Quê que é, Miguilim? Você sabe Pai disse? Amanhã ele vai deixar a gente nós dois montar a cavalo, sozinhos, vamos ajudar a trazer os bezerros…” “— Dito, você já teve alguma vez vontade de conversar com o anjo-da-guarda?” “— Não pode, Miguilim. Se puder, vai p’ra o inferno…” “— Dito, eu às vezes tenho uma saudade de uma coisa que eu não sei o que é, nem de donde, me afrontando…” “— Deve de não, Miguilim, descarece. Fica todo olhando para a tristeza não, você parece Mãe.” “— Dito, você ainda é companheiro meu? De primeiro você gostava de conversar comigo…” “— Que eu que eu gosto, Miguilim. Demais. Mas eu quero não conversar essas conversas assim.” “— Você quer me ver eu crescer, Dito? Eu viver, toda a vida, ficar grande?” “— Demais. A gente brincar muito, tempos e tempos, de em diante crescer, trabalhar, todos, comprar uma fazenda muito grande, estivada de gados e cavalos, pra nós dois!” A alegria do Dito em outras ocasiões valia, valia, feito rebrilho de ouro.
Daí mas descambava, o dia abaixando a cabeça morre-não-morre o sol. O oõo das vacas: a vaca Belbutina, a vaca Trombeta, a vaca Brindada… O enfile delas todas, tantas vacas, vindo lentamente do pasto, sobre pé de pó. Atitava um assovio de perdiz, na borda-do-campo. Voando quem passava era a marreca-cabocla, um pica-pau pensoso, casais de araras. O gaviãozinho, o gavião-pardo do cerrado, o gaviãozinho-pintado. A gente sabia esses todos vivendo de ir s’embora, se despedidos. O pio das rolinhas mansas, no tarde-cai, o ar manchado de preto. Daí davam as cigarras, e outras. A rã rapa-cúia. O sorumbo dos sapos. Aquele lugar do Mutúm era triste, era feio. O morro, mato escuro, com todos os maus bichos esperando, para lá essas urubùguáias. A ver, e de repente, no céu, por cima dos matos, uma coisa preta desforme se estendendo, batia para ele os braços: ia ecar, para ele, Miguilim, algum recado desigual? “São os morcegos? Se fossem só os morcegos?!…” Depois, depois, tinha de entrar p’ra dentro, beber leite, ir para o quarto. Não dormia dado. Queria uma coragem de abrir a janela, espiar no mais alto, agarrado com os olhos, elas todas, as Sete-Estrelas. Queria não dormir, nunca. Queria abraçar o Ditinho, conversar, mas não tinha diligência, não tinha ânimo.
Agora era o dia derradeiro. Hoje, ele devia de morrer ou não morrer. Nem ia levantar da cama. De manhã, ele já chuviscara um chorozinho, o travesseiro estava molhado. Morria, ninguém não sentia que não tinha mais o Miguilim. Morria, como arteirice de menino mau? — “Dito, pergunta à Rosa se de noite um pássaro riu em cima do paiol, em cima da casa?” O dia era grande, será que ele ia aguentar de ficar o tempo todo deitado? — “Miguilim, Mãe está chamando todos! É p’ra catar piôlho…” Miguilim não ia, não queria se levantar da cama. “— Que é que está sentindo, Miguilim? Está doente, então tem de tomar purgante…” A mãe já estaria lá, passando o pente-fino na cabeça dos outros, botava óleo de babosa nos cabelos de Drelina e da Chica, suas duas muito irmãzinhas, delas gostava tanto. Tomèzinho chorava, ninguém não podia com Tomèzinho. — “Miguilim está mesmo doente? Que é agora que ele tem?” Era Vovó Izidra, moendo pó em seu fornilho, que era o moinho-de-mão, de pedra-sabão, com o pião no meio, mexia com o moente, que era um pau cheiroso de sassafrás. Miguilim agora em tudo queria reparar demais, lembrado. Pó, tabaco-rapé, de fumo que ela torrava, depois moía assim, repisando — a gente gostava às vezes de auxiliar a moer — o pó ela guardava na cornicha, de ponta de chifre de boi, com uma tampinha segura com tirinha de couro, dentro dela botava também uma fava de cumarú, para dar cheiro… Vovó Izidra não era ruim, todos não eram ruins, faziam ele comer bastante, para fortalecer, para não emagrecer héctico, de manhãzinha prato fundo com mingau-de-fubá, dentro misturavam leite, pedacinhos de queijo, que derretiam, logo, despois comia gemada de ovo, enjoada, toda noite Vovó Izidra quentava para ele leite com açúcar, com umas folhinhas verdes de hortelã, era tão gostoso… A mãe vinha ver: — “Melhor se dar logo o sal-amargo a ele, senão o Bero vem, ele pensa que remédio para menino é doses, feito bruto p’ra cavalo…” Mas Miguilim estava chorando simples, não era medo de remédio, não era nada, era só a diferença toda das coisas da vida. Só Drelina só era quem adivinhava aquilo, vinha se sentar na beira da cama. — “Miguilinzinho, meu irmãozinho, fala comigo por que é que você está chorando, que é que você está sentindo dôr?” Drelina pegara uma das mãos dele, de junto carinhava Miguilim, na testa. Drelina era bonita de bondade. — “Sossega, Miguilim, você não está com febre não, cabeça não está quente…”
“— Drelina, quando eu crescer você casa comigo?” “— Caso, Miguilim, demais.” “— E a Chica casa com o Dito, pode?” “— Pode, decerto que pode.” “— Mas eu vou morrer, Drelina. Vou morrer hoje daqui a pouco…” Quem sabe, quem sabe, melhor ficasse sozinho — sozinho longe deles parecia estar mais perto de todos de uma vez, pensando neles, no fim, se lembrando, de tudo, tinha tanta saudade de todos. Para um em grandes horas, todos: Mãe, o Dito, as Meninas, Tomèzinho, o Pai, Vovó Izidra, Tio Terêz, até os cachorros também, o gato Sossõe, Rosa, Mãitina, vaqueiro Salúz, o vaqueiro Jé, Maria Pretinha… Mas, no pingo da horinha de morrer, se abraçado com a mãe, muito, chamando pelo nome que era dela, tão bonito: — Nhanina…
— Mãe! Acode ligeiro, o Miguilim está dando excesso!…
E o Dito? Onde o Dito estava? Saíra correndo certo. Tinha avistado o seo Aristeu, que descia de volta do Nhangã, montado no seu cavalinho sagaz, foi correu — chamar para vir ver Miguilim, pronto. Seo Aristeu chegou.
Seo Aristeu entrava, alto, alegre, alto, falando alto, era um homem grande, desusado de bonito, mesmo sendo roceiro assim; e dôido, mesmo. Se rindo com todos, fazendo engraçadas vênias de dansador.
— “Vamos ver o que é que o menino tem, vamos ver o que é que o menino tem?!… Ei e ei, Miguilim, você chora assim, assim — p’ra cá você ri, p’ra mim!…” Aquele homem parecia desinventado de uma estória. — “O menino tem nariz, tem boca, tem aqui, tem umbigo, tem umbigo só…” — “Ele sara, seo Aristeu?” “— … Se não se tosar a crina do poldrinho novo, pescoço do poldrinho não engrossa. Se não cortar as presas do leitãozinho, leitãozinho não mama direito… Se não esconder bem pombinha do menino, pombinha vôa às aluadas… Miguilim — bom de tudo é que tu ’tá: levanta, ligeiro e são, Miguilim!…”
— Eu ainda pode ser que vou morrer, seo Aristeu…
— Se daqui a uns setenta anos! Sucede como eu, que também uma vez já morri: morri sim, mas acho que foi morte de ida-e-volta… Te segura e pula, Miguilim, levanta já!
Miguilim, dividido de tudo, se levantava mesmo, de repente são, não ia morrer mais, enquanto seo Aristeu não quisesse. Todo ria. Tremia de alegrias.
— “Não disse, não falei? Apruma mesmo durim, Miguilim, a dansa hoje é das valsas…” Todo o mundo: boca que ria mais ria. “— Ai, Miguilim, eu soubesse disto, tinha trazido minha companhia — que por nome tem até é Minréla-Mindóla, Menina Gordinha, com mil laços de fitas… — viola mestra de todo tocar!”
“— Então, eu não estou héctico nem tísico não, seo Aristeu?” “— Bate na boca por bestagem tão grande que se disse, compadre meu Miguilim: nunca que eu ouvi outra maior. Tísica nem não dá, nestes Gerais, o ar aqui não consente! Vai o que você tem é saúde grande ainda mal empenada…”