Cão Raivoso
Naquilo que dizia respeito aos sofrimentos, nunca…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Naquilo que dizia respeito aos sofrimentos, nunca se enganavam Os Velhos Mestres: eram profundos conhecedores
De suas condições humanas; e também como tudo acontecia Quando alguém estava comendo ou abrindo uma janela ou Até mesmo, quando caminhava sem propósito...
— W. H. AUDEN, “Musée des Beaux Arts”
“O velho Azulão morreu. E morreu mesmo tão mal Que chegou a sacudir a terra lá no meu quintal. Com uma pá de prata cavei-lhe a sepultura. E com corrente de ouro levei-o a sete palmos de fundura. E a cada elo da corrente eu chamava o meu cão, ia chamando, chamando sempre, „Vamos lá, seu Azulão" lá que você sempre se mostrou ser um bom cão.”
— CANÇÃO FOLCLÓRICA
“Nada, nadinha, de errado com isto aqui...”
— O PROFESSOR DOS CEREAIS SHARP
ERA UMA VEZ...
um terrível monstro que veio para a cidade de Castle Rock, mas, afinal, isso não faz tanto tempo assim. Ele era feroz e já matara uma garçonete chamada Alma Frechette em 1970; uma mulher chamada Pauline Toothaker e uma ginasial chamada Cheryl Moody em 1971; uma garota bonita chamada Carol Dunbarger em 1974; uma professora chamada Etta Ringgold no outono de 1975; e, finalmente, uma outra professora chamada Mary Kate Hendrasen no princípio do inverno desse mesmo ano.
Ele não era um lobisomem, um vampiro, uma assombração, nem tampouco uma criatura selvagem saída de florestas encantadas ou de planícies geladas. Era apenas um policial chamado Frank Dodd, portador de tremendos problemas sexuais e mentais. Foi por uma espécie de passe de mágica que um bom cidadão, chamado John Smith, descobriu o seu nome; mas antes de ser preso Dodd suicidara-se e este seu gesto foi, afinal, a melhor solução para o caso.
Ë claro que muita gente ficou chocada com aquilo, mas a maioria sentia-se aliviada na pequenina cidade porque, afinal, o monstro que tinha causado tantos pesadelos estava morto e então os pesadelos foram todos sepultados junto com o monstro.
Mesmo assim, nesta época esclarecida, quando tantos pais se dão conta dos danos psicológicos que podem causar aos filhos, ainda havia gente em Castle Rock — talvez até mesmo uma avózinha — que obrigava as crianças a se comportarem bem para que Frank Dodd não viesse buscá-las. Claro que logo se seguia um silêncio apavorado, enquanto as crianças olhavam lá para o escuro e imaginavam ver o monstro enfiado em sua capa preta impermeável mesmo Frank Dodd que já estrangulara tanta gente.
Ele está lá fora, ainda posso ouvir a avozinha falando baixinho, enquanto o vento sopra pela chaminé para vir sujar a panela no fogo. Ele está lá fora. Ele está lá e se vocês não, se comportarem bem, na certa irão ver a cara dele olhando pela janela depois que todo mundo já estiver dormindo. Até mesmo pode ser que vejam o seu sorriso dentro do quarto no meio da noite, com a placa PARE, que ele levantava para ajudar as crianças a atravessarem a rua, e, na outra mão, a navalha que usou para se matar... portanto, crianças, pssíu... fiquem bem quietinhas...
Para a maioria, no entanto, tudo estava mesmo acabado. Naturalmente, ainda havia
pesadelos, assim como também crianças que perdiam o sono; e também havia a casa, agora vazia, onde Dodd morara, pois sua mãe fora acometida de um mal súbito e morrera pouco depois. A casa ficara então com fama de mal-assombrada e todos fugiam dela. Mas tudo aquilo eram fenômenos passageiros, eram os efeitos secundários de uma cadeia de assassinatos sem sentido.
Mas o tempo passou. Passaram-se cinco anos.
O monstro tinha desaparecido,. o monstro estava morto. Frank Dodd já apodrecera em seu caixão.
Só que o monstro nunca morre. Lobisomens, vampiros, assombrações e outras, criaturas indescritíveis das trevas. O monstro não morre nunca.
Ele voltou a Castle Rock no verão de 1980.
Tad Trenton, de quatro anos de idade, acordou pouco depois da meia-noite, em maio deste ano, porque precisava ir ao banheiro. Saltou da cama, ainda tonto de sono, e encaminhou-se para a porta entreaberta que deixava escapar um feixe de luz e, já no caminho, ia abaixando as calças do pijama. Urinou bastante, puxou a descarga e voltou para a cama, onde puxou as cobertas. E foi ai que viu a criatura no seu closet.
Estava agachada, a cabeça levantada e um corpo enorme, e seus olhos amarelados brilhavam como poços profundos. Era uma coisa que poderia ser metade homem e metade lobo. Seus olhos rolavam para lhe acompanhar os movimentos, ao mesmo tempo em que se sentava esfregando os testículos no chão, todo arrepiado o resfolegando como um vento de inverno. Seus olhos eram maus e pareciam rir, olhos que prometiam morte horrível e a sinfonia de gritos que ninguém ouvia.Havia alguma coisa ali no closet.
O menino ouviu o rosnado da criatura. Seu hálito era de coisa podre.
Tad tapou os olhos com a mão, tomou fôlego e soltou um grito. Ouviu a exclamação surda de seu pai no outro quarto.
Logo a seguir, do mesmo quarto, o grito histérico da mãe: — O que é que há, Tad?!
Ouviu os passos que corriam. Logo que eles chegaram. Tad abriu um pouco os dedos e
viu que a criatura ainda estava lá no closet, rosnando, prometendo coisas horríveis para quando eles chegassem e então eles iriam embora e, quando isso acontecesse...
O quarto iluminou-se. Vic e Donna Trenton chegaram até a sua cama e trocaram olhares
preocupados quando o viram muito pálido, os olhos arregalados de pavor. Logo a voz zangada de Donna se fez ouvir, dirigindo-se ao marido:
— Eu lhe disse que três cachorros-quentes eram demais, Vic! E, logo a seguir, seu pai estava sentado na cama, abraçando-o e perguntando sobre o que
estava acontecendo.
Tad já não se atrevia mais a olhar para a porta do closet. O monstro tinha desaparecido. Em vez daquilo que ele julgava ter visto, ali estavam
agora duas pilhas de cobertores e outras roupas de inverno que sua mãe ainda não tinha levado para o sótão Estava tudo em cima da cadeira que Tad usava para trepar quando precisava de alguma coisa lá no alto. Ao invés daquela cabeça horrorosa, arrepiada e inclinada para o lado, numa espécie de gesto indagador e predatório, lá estava o seu grande urso de pelúcia em cima da pilha mais alta; e agora aqueles pavorosos olhos amarelados do monstro não eram mais que os olhos de vidro de seu urso, que o fitavam amistosamente.
— O que é que está havendo aqui, Tadder? — perguntou seu pai. — Vi um monstro ali, papai. Estava bem ali no closet — disse ele, e desatou em pranto
convulsivo.
A mãe sentou-se também ao seu lado, abraçando-o e tudo fazendo para acalmá-lo. Seguiram o ritual de todos os pais. Explicaram-lhe que não havia monstros e que tudo não passara de um pesadelo.. A mãe explicou-lhe como as sombras podiam, algumas vezes, se parecer com as coisas que ele via na IV ou nas histórias em quadrinhos e o pai garantiu-lhe que tudo estava bem e que nada havia ali na casa que pudesse fazer-lhe mal. Tad sacudia a cabecinha em concordância, achando que eles estavam certos, embora tivesse a certeza de não ser esse o caso.
O pai explicou-lhe como as duas pilhas desiguais poderiam ter parecido um animal
agachado e como o seu urso de pelúcia poderia tê-lo enganado, auxiliado pela fresta de luz. que vinha do banheiro e que se refletira nos olhos de vidro amarelado, fazendo com que se parecessem com os de um animal de verdade.
Agora olhe aqui, Tadder. Olhe bem para mim... O menino fez o que lhe era pedido.
O pai pegou as duas pilhas de cobertores e levou-as para o fundo do closet. Tad ouvia o macio tinir dos cabides de arame pendurados que falavam a respeito de seu pai na sua linguagem de cabides. Achou aquilo engraçado e sorriu. A mãe percebeu o seu tímido sorriso e sorriu também, já aliviada.
O pai saiu do closet com o urso, que colocou nos braços do filho.
Ele fez um gesto floreado de prestidigitador, ao mesmo tempo em que pegava a cadeira e colocava-a de encontro à porta, fechando-a bem.
— E agora, meus senhores, vamos botar esta cadeira bem aqui...
Quando voltou para junto da cama de Tad ele ainda sorria, mas seus olhos estavam mais sérios.
— Tudo bem, Tad?
— Tudo bem, papai... — disse ele, mas, afinal, ganhou coragem e acrescentou: — ... mas ele estava lá, papai. Eu vi. Vi mesmo!
Você viu aquilo em seu pensamento, Tad. Mas não foi um monstro aquilo que você
viu no closet, Tad. Não um monstro de verdade. Não existem monstros, Tad. Eles só existem nas histórias e no seu pensamento enquanto falava, o pai passava-lhe a mão pela cabeça, carinhosamente.
O menino olhou bem para o pai e depois para a mãe, para aqueles dois rostos que tanto amava.
— foi mesmo?
— Mas claro que é, Tad. Agora quero que você se levante para ir fazer pipi no banheiro, como um homenzinho.
— Mas eu já fiz, mamãe. Foi por isso que acordei.
É costume dos pais nunca acreditarem muito no que dizem os filhos.
— Pois bem, Tad, mas faça-me a vontade e vá lá outra vez, sim?
Ele foi e ela ficou olhando, enquanto o filho deixava cair algumas gotas que a fizeram sorrir.
— Está vendo como eu estava com a razão?
Ele sacudiu a. cabeça, já resignado, e voltou para cama, onde foi agasalhado e beijado com carinho.
Mas quando seus pais chegaram à porta, o pavor assaltou-o novamente, como se fosse um manto gelado. Como se fosse uma mortalha tresandando a morte. “Oh, por favor! Por favor! Por favor!” E aquilo era tudo que lhe podia ocorrer ao pensamento.
Teve a impressão de que seu pai adivinhara o que sentia, porque, ainda com a mão no interruptor, ele voltou-se e repetiu:
— Não existem monstros, Tad.
— Claro que não, papai. Claro que eles não existem...
Ele percebeu os olhos do pai que pareciam preocupados e distantes, como se estivesse procurando convencer-se do que dissera ao filho.
A não ser aquele que vi no meu closet.
A luz do quarto apagou-se.
— Boa noite, Tad. — A voz de sua mãe chegou até ele, baixinha, e então, mentalmente, alertou-a, gritando. “Cuidado mamãe! Eles comem as mulheres! Em todos os filmes eles sempre pegam as mulheres para levá-las e comê-las! Por favor! Por favor! Por favor...
Eles, porém, já estavam longe.
E ali ficou Tad, com seus quatro anos, deitado em sua cama, com os aparelhos nos dentes. Tinha as cobertas puxadas até o pescoço,. com um dos braços apertando o seu urso contra o peito, e lá estava o pôster de um super-herói na parede; e na outra um esquilo, rindo muito alegre e dizendo, SE A VIDA SÓ LHE DÁ LIMÕES, APROVEITE E FAÇA LIMONADAS. Na outra havia ainda todos os personagens de Vila Sésamo. O vento continuava a soprar lá fora e ele sabia que não conseguiria mais dormir naquela noite. Aos poucos, porém, a tensão foi-se afrouxando e seu espírito começou a divagar...
E então um novo grito, um grito mais próximo do que o vento lá de fora, despertou-o novamente.
Era a porta do closet que rangia.
Criiiiiíiíííiii. ..
Era um som tão fino que talvez somente cães e meninos acordados poderiam ouvir. A porta do closet abriu-se lentamente como se fosse uma boca morta abrindo-se na escuridão, pouco a pouco.
O monstro estava lá naquela escuridão. Estava agachado no mesmo lugar onde estivera antes. Ria para ele com a cabeça inclinada exatamente como antes. E seus olhos brilhavam, amarelados e cheios de uma esperteza estúpida. Eu disse a você que eles iriam embora, Tad. É o que sempre fazem, afinal. E é ai então que eu volto. Eu gosto de voltar. Gosto de você, Tad. Acho que agora vou voltar todas as noites e cada vez estarei mais perto de sua cama... um pouco mais perto... até que chegará a noite em que, antes que possa gritar, você ouvirá uma coisa rosnando bem pertinho de rua cama, Tad, e essa coisa serei eu, que saltarei e comerei você, que, então, passará a estar dentro de mim.
Tad tinha os olhos arregalados para a criatura, completamente apavorado e fascinado, como se estivesse drogado. Havia nela alguma coisa que lhe era... quase familiar. Que ele quase conhecia e aquilo era ainda pior: aquela sensação de quase conhecer e saber. E isso porque...
Porque eu sou louco, Tad. Sempre fui louco. Sempre estive aqui. Meu nome era Frank Dodd. Eu matava as mulheres e era bem possível que também as comesse. Eu tenho estado aqui durante todo esse tempo, vou ficar sempre por aqui e estarei sempre atento. Eu sou o monstro, Tad, sou aquele velho monstro, e vou te pegar agora, Tad. Quero que você me sinta cada vez mais ....... cada vez mais ...
Talvez aquela coisa ali no closet estivesse lhe falando com sua própria voz sibilante, mas também era possível que fosse o sibilar do vento lá fora. De qualquer forma, porém, aquilo não tinha importância. Ele ouvia-lhe as palavras petrificado de pavor, como se estivesse drogado, quase desmaiando, mas ainda bem acordado; e continuava a ver aquela cara ali na sombra, uma cara que quase conhecia e que rosnava para ele. Não conseguiria dormir mais naquela noite e, aliás, talvez nunca mais conseguisse dormir em sua vida.
Apesar de tudo, no entanto, entre a batida de meia-noite e meia e uma hora, e talvez porque fosso ainda bem criança, Tad adormeceu novamente, mas foi um sono leve em que via sempre, à espreita, criaturas , peludas e grandalhonas com dentes arreganhados e ameaçadores; mas por fim acabou caindo num sono mais profundo, num sono sem sonhos ou pesadelos.
O vento continuava em suas longas e intermináveis conversas com as sarjetas. Logo surgiu no céu um pedacinho da lua de primavera muito branca. Em algum lugar, bem longe, em alguma planície adormecida ou em alguma orla de floresta de pinheiros, um cão latiu furiosamente, mas logo se calou.
Mas ali, naquele closet de Tad, havia alguma coisa com olhos amarelados que continuava vigilante.
— Você tornou a colocar os cobertores lá, Vic?
Já estavam na manhã seguinte e Donna, de pé diante do fogão, fritava o bacon. Tad estava na outra sala, vendo na TV The New Zoo Revue, enquanto comia seus cereais feitos pela Sharp e que a família recebia de graça.
— Hummm? — Vic resmungou sem tirar os olhos da página esportiva do jornal. Ele era um egresso de Nova York que até então conseguira resistir à febre do time dos Red Sox. Assim sentia-se satisfeito, de forma um tanto masoquista, com o fato dos Mets estarem bem na frente com uma boa arrancada.
— Os cobertores, Vic. Os cobertores do closet de Tad. Eles estavam novamente lá, a cadeira também, e a porta continuava entreaberta — Ela trouxe para a mesa o bacon ainda fervendo, envolto num guardanapo de papel para absorver a gordura. — Foi você quem os colocou de volta em cima da cadeira?
— Eu não! Aquilo lá cheirava como se fosse uma convenção dc bolas dc naftalina...
Ao mesmo tempo que falava, ele passava para uma outra página do jornal.
— Engraçado... Então deve ter sido ele quem colocou tudo de volta.
O marido, afinal, pôs de lado o jornal.
— Mas que diabo quer você dizer com isso, Donna?
— Você lembra o pesadelo que ele teve esta noite...
— Como é que eu poderia esquecer isso? Eu até pensei que ele estava morrendo. Pensei que fosse uma convulsão ou coisa parecida...
A mulher sacudiu a cabeça e depois deu de ombros.
Ele pensou que os cobertores eram uma espécie de...
—... uma assombração, talvez — ele concluiu, sorrindo.
— Acho que deve ter sido isso mesmo. E aí você deu-lhe o seu urso e arrumou os cobertores bem no fundo do closet. Pois bem, Vic, estava tudo de volta em cima da cadeira esta manhã, quando entrei no quarto para fazer a cama. Olhei lá para dentro e, então, apenas por um momento.., pensei...
Ela não terminou e soltou unta risadinha.
Ele tornou a pegar no jornal e olhou-a com um ar irônico e amistoso.
— Agora já sei o que foi que aconteceu. Três cachorros-quentes uma ova!
Mais tarde, depois do marido ter saído para o escritório, Donna perguntou a Tad por que ele tornara a colocar os cobertores em cima da cadeira no closet, já que aquilo lhe metera tanto medo na noite anterior, quando gritara tanto.
Tad levantou os olhos para ela e o seu rostinho, geralmente alegre e cheio de vida, parecia agora pálido e desconfiado. Até parecia um velho. O livro Guerra nas Estrelas que coloria estava
aberto bem na sua frente. Ele tinha desenhado a cantina interestelar e usara o lápis verde para colorir um dos personagens.
— Não fui eu, mamãe.
— Olhe aqui, Tad. Se não foi você, se não foi seu pai nem eu...
— Foi o monstro, mamãe. O monstro que mora no meu closet...... — disse e tornou a voltar sua atenção para o que estava colorindo cuidadosamente.
Ela ficou ali olhando para o filho, muito preocupada e um tanto apavorada. Ele era um menino muito inteligente mas talvez também fosse imaginativo demais. E ela não estava gostando daquilo. Teria uma boa conversa com Vic quando ele voltasse à noite. E seria uma conversa bem longa. Bem longa mesmo.
— Olhe aqui, Tad, lembre-se bem daquilo que seu pai lhe disse. Não existe nenhum monstro. Nem mesmo coisa parecida, ta?
Ele abriu-se num maravilhoso sorriso que a deixou encantada e serviu também para aliviar-lhe os temores. Acariciou-lhe os. cabelos e beijou-o.
— Pode ser que não haja durante o dia, mamãe...
Ela tencionava falar com Vic sobre aquilo, mas Steve Kemp apareceu enquanto Tad estava na escola maternal e ela simplesmente esqueceu. E Tad tomou a gritar naquela noite, tornou a gritar que o monstro estava ali em seu closet e que era aquele mesmo monstro.
A porta do closet estava entreaberta, os cobertores em cima da cadeira. Dessa vez, porém, Vic levou-os e enfiou-os no closet que havia no terceiro andar.
— Tranquei-o lá em cima, Tadder.. Agora tudo acabou. Volte para dormir e tenha sonhos agradáveis...
Beijou-o e saiu.
Tad, porém não dormiu logo. Ficou ainda algum tempo acordado, o tempo suficiente para ver a porta do closet abrir-se com um pequeno estalido e ficando ali como uma boca aberta na escuridão. do quarto, uma escuridão onde ele conseguia distinguir alguma coisa pelada, com dentes e garras afiados que o espreitavam, alguma coisa que tresandava a sangue azedo e que lhe prometia um sombrio destino, ao mesmo tempo que lhe falava baixinho como antes.
— Oi, Tad..
E então a lua espiou pela janela do quarto, como se fosse os olhos apertados e brancos de um morto.
A pessoa mais velha que existia em Castle Rock naquela primavera era Evelyn Chalmers, conhecida como Tia Evvie pelos residentes mais antigos da cidade, com exceção do carteiro George Meara, que lhe trazia a correspondência, consistindo apenas de catálogos e propaganda do Reader"s Digest e folhetos religiosos da Cruzada do Cristo Eterno. Ele a chamava de “velha cadela tagarela” quando era obrigado a ficar ouvindo os seus monólogos sem fim. Dizia então que a única coisa boa naquela “cadela tagarela” era o fato dela saber prever as condições meteorológicas com grande precisão. Isso era o que ele dizia quando enchia a cara com os velhos companheiros no boteco chamado O Tigre Manso. Aquele era um nome estúpido para um bar, mas como era o único existente na cidade, tudo indicava que nunca seria mudado.
Quase todo mundo concordava com a opinião de George Meara. Na sua qualidade de
mais antiga residente de Castle Rock, Tia Evvie vinha sendo a correspondente do Boston Post nos dois últimos anos, depois da morte de Arnold Herbert, com 101 anos de idade o tio senil que qualquer conversa com ele era um desafio intelectual. Era o mesmo que tentar conversar com umaa lata de
conservas. Ele escorregara e caíra no quintal do abrigo para velhos, fraturando a coluna e morrendo exatamente 25 minutos depois de haver mijado nas calças pela última vez.
Tia Evvie estava ainda muito longe de ser tão senil quanto o velho Arnie, já que ainda
faltava muito para chegar à idade dele, embora com seus 93 anos fosse já bem velhinha. Adorava gritar impropérios contra o carteiro quando ele, ainda de ressaca, vinha trazer-lhe a correspondência; e, até então, fora esperta o bastante para não perder sua casa, como acontecera antes com o Arnie.
Mas era realmente boa quando se tratava de prever o tempo. O consenso geral da cidade,
especialmente entre a gente velha que ainda dava importância a tais coisas, era que ela nunca errava a respeito de três coisas: a semana em que começariam a ceifar o feno no verão; se seria boa ou má a colheita das amoras; e, finalmente, quais seriam as condições do tempo.
Um dia, no começo daquele mês de junho, ela se arrastou para a caixa do correio que
ficava lá perto do portão, apoiando-se com força na bengala que lhe dera o Boston Post, a insígnia de sua posição de correspondente do jornal e que passaria para Vic Marchant quando ela morresse — o que, na opinião de George Meara, seria uma boa coisa. Ia fumando o seu cigarro habitual e gritou uma saudação para o carteiro. A sua condição de surda aparentemente a convencera de que todo mundo também ficara surdo, num belo gesto de solidariedade. Depois continuou gritando para lhe dizer que iriam ter o verão mais quente daqueles últimos 30 anos. Seria quente no começo, no fim e no meio. Ela dizia tudo aquilo aos gritos, na tranqüila e sonolenta manhã, pouco antes do meio-dia.
— Será que vai ser mesmo, Evvie? — perguntou George.
— O quê?
— Eu disse “será que vai ser mesmo?”...
Uma outra coisa que havia com a Tia Evvie era que ela fazia com que os outros também
gritassem até quase estourar uma veia.
— Aposto até minha vida como vai ser mesmo, George. — A cinza do cigarro caiu em
cima do uniforme de George, que saíra da lavanderia naquela mesma manhã, e ele sacudiu-a resignadamente. A velha debruçou-se na janela de seu carro a fim de ficar em melhor posição para lhe gritar no ouvido. O hálito dela era de comida azeda. — As preás já estão todas no campo. O Tommy Neddeau viu elas lá perto do lago, esfregando-se antes de aparecerem os primeiros passarinhos. Já havia relva por baixo da neve quando ela se derreteu. Relva bem verde!
— Havia mesmo, Evvíe?
Ele apenas falava por falar e sua cabeça já estava estalando com os gritos da velha.
— O queee...?
— EU DISSE: “HAVIA MESMO”, TIA EVVIE? — ele falou tão alto que a saliva lhe escorreu pelo canto da boca.
E ela continuava a berrar, muito satisfeita:
— É o que lhe digo, George. Vi relâmpagos na noite passada. Mau sinal, George!
Quando faz calor muito cedo isso é mau sinal! Vai morrer gente de insolação neste verão! Vai ser terrível!
— Preciso ir andando, Tia Evvie! Tenho uma carta expressa para Stringer Beaulieu —
disse o carteiro, aos berros.
A velha achou graça e soltou uma gargalhada, levantando os olhos para o céu. Sacudia-
se toda e quase se engasgava de tanto rir, com a cinza do cigarro se espalhando em seu vestido caseiro. Cuspiu fora o toco que lhe restava e que continuou se queimando ali no chão perto do seu sapato muito preto e apertado como se fosse um espartilho, um sapato que durava toda a vida.
— Então você tem uma carta expressa para o tal francês Beaulieu, hem? Ora essa! Ele não seria capaz de ler nem mesmo o que se escrevesse na lápide de seu túmulo!
E era sempre o mesmo berreiro de ambas as partes. O carteiro tratou logo de engrenar o carro para ir embora.
— Preciso ir andando, Tia Evvie!
— Esse tal francês é um verdadeiro toleirão que já nasceu assim! Não creio que Deus jamais tenha feito outro igual a ele!
A gritaria da velha já não encontrava mais ouvinte, pois o carteiro partira e ela agora falava para a poeira deixada pelo carro que saíra em disparada.
Ela ficou ali durante mais um minuto, junto à caixa do correio, vendo-o desaparecer na estrada. Não recebera carta alguma, aliás, coisa bem comum nos últimos tempos. A maior parte das pessoas quê conhecia e que lhe escreviam já partira deste mundo. E ela desconfiava que o mesmo lhe aconteceria muito em breve. Sentia-e. inquieta com o verão que estava para chegar. Tinha medo. Falava das preás e das ratazanas dos campos que saíam de suas tocas antes do tempo, ou dos relâmpagos de verão num céu de primavera, mas não conseguia falar do calor que percebia bem acima da linha do horizonte, agachado como um animal selvagem e peludo, olhos ardentes e vermelhos, assim como também não podia falar de seus sonhos que eram quentes, sequiosos e sem sombras, nem tampouco daquela manhã em que seus olhos haviam enchido de lágrimas, sem qualquer razão aparente, que não lhe traziam tranqüilidade, mas que ardiam nos olhos como se fosse um terrível suor de agosto. Ela sentia o cheiro da loucura num Vento que ainda não chegara.
— George Meara, você é um velho peidorreiro — ela disse, dando à palavra uma sonora conotação do Maine em que as vogais se arrastavam indefinidamente, causando uma entonação cataclismica e ridícula: peidorreeeeiro.
Começou a caminhar de volta para casa, sempre apoiada na bengala do jornal. Ela lhe fora presenteada em cerimônia realizada na Prefeitura, como prêmio por um estúpido feito que nada mais era senão o de ter conseguido ficar muito velha. E ela então pensava que não era de admirar o fato do jornal haver dado com os burros n"água.
Parou, no meio do caminho e ficou olhando para o céu que ainda mantinha a sua pureza primaveril, com o colorido suave de pastel. Sim, sim, mas a velha sentia que alguma coisa estava para chegar, alguma coisa quente. Alguma coisa ruim.
Um ano antes daquele verão, quando o velho Jaguar de Vic Trenton tinha aparecido com uns ruídos estranhos na roda traseira. do lado esquerdo, o carteiro lhe recomendara que o levasse à oficina de. Joe Camber, que ficava na periferia da cidade.
Ele lhe dera o conselho num dia em que Vic o esperava junto da caixa do correio:
— O Joe tem uma maneira engraçada de fazer as. coisas. Ele lhe diz quanto vai custar o trabalho; e quando entrega o carro pronto, cobra exatamente o combinado. É uma forma bem engraçada para negociar, não é mesmo?
Depois, George tinha ido embora e Vic ficara ali a imaginar se ele falara sério ou se apenas quisera se divertir à sua custa com alguma brincadeira ianque.
Mesmo assim, no entanto, ele telefonou para Camber num dia de julho, um dia bem mais fresco do que seria o do ano seguinte; e então Donna, Tad e ele foram até a oficina, que ficava realmente bem longe. Ele fora obrigado a parar duas vezes para perguntar se estava no caminho certo. Foi depois disso que ele batizou aquele lugar como “os confins onde o diabo perdeu as galochas”, tal a quantidade de lama existente.
Entrou no pátio da oficina com a roda cada vez maia barulhenta. Tad, na época com três anos, estava no colo de Donna, achando muita graça. Um passeio no conversível do pai sempre o alegrava muito. Donna também estava bastante satisfeita.
Um garotinho de uns oito ou nove anos estava ali no pátio, brincando com uma velha bola de beisebol que atirava de encontro a uma parede. Vic presumiu que a oficina devia ser ali.
— Oi! — disse o garoto. — O senhor quer falar com o papai? Espere aí que vou chamar ele agora mesmo.
Os três saltaram e Vic foi até a traseira do carro, onde se agachou ao lado da roda com
defeito e já meio arrependido de ter vindo até ali. Talvez tivesse sido melhor se houvesse arriscado, para ir até Portland. O local não lhe infundia muita confiança. Não havia nem mesmo uma placa com o nome da oficina.
Os seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Donna, que o chamava e parecia
nervosa. Logo a seguir, ouviu a exclamação.
— Meu Deus! Vic...
Ele levantou-se imediatamente e viu um enorme cão que saía do barracão. Durante um
momento absurdo, tentou imaginar se aquilo seria mesmo um cão ou se seria alguma espécie estranha de pônei. Foi só quando o bicho chegou cá fora à luz do dia que ele percebeu o seu engano. Tratava-se apenas de um colossal São Bernardo com seus olhos muito tristes.
Impulsivamente, Donna havia pegado Tad no colo e se refugiara dentro do carro, mas o
menino se debatia em seus braços,
— Pode sair.
— Eu quero ver o cachorro, mamãe... quero ver o cachorro. Donna olhou nervosa para o
marido, que apenas deu de ombro, embora não se sentisse muito à vontade. O garotinho logo voltou e afagou a cabeça do animal quando ele se aproximou de Vic, abanando o rabo imenso. Isso fez com que Tad redobrasse os esforços para sair do carro.
O garoto, muito atencioso, dirigiu-se a Donna:
— A senhora não precisa ter medo. O Cujo adora crianças. Pode deixar o menino sair.
Ele não lhe fará mal algum. — E para Vic: — Papai já vem. Está lavando as mãos.
— Está bem... Mas nunca vi um cachorro deste tamanho, filho. Tem certeza de que ele
não morde?
O garoto reafirmou o que dissera, mas mesmo assim Vic preferiu ir para junto da mulher
quando o filho, muito pequenino, caminhou para o cachorro, que tinha a cabeça inclinada e abanava o enorme rabo muito devagar.
— Vic...
— Está tudo bem, Donna....
Intimamente, porém, ele especulava se estaria mesmo. O bicho parecia grande o bastante
para engolir seu filho de uma só vez.
Tad parou durante um momento e era fácil ver que hesitava, ainda em dúvida. — Cachorrinho...
— O nome dele é Cujo, garotinho — disse o filho de Camber. Tad repetiu o nome, o cão veio até ele e começou a lamber o rosto, muito alegre e bem
disposto, fazendo com que Tad risse e procurasse fugir de suas carícias. Depois, ele olhou para a mão e o pai, rindo-se da mesma forma que reagia quando eles lhe faziam cócegas. Caminhou para eles, mas seus pés se embaraçaram o caiu no chão. O cão logo precipitou-se e então Vic, que tinha o braço em torno da cintura de Donna, sentiu e ouviu quando ela soltou um pequeno grito de susto. Ele ia se precipitar para o filho, mas logo se deteve.
Os dentes de Cujo tinham-se agarrado à camiseta de Homem Aranha de Tad e o cão
tentava levantar o menino que, por um momento, parecia um gatinho sendo carregado pela mãe. Mas logo estava de pé novamente.
Tad correu para onde estavam sua mãe e seu pai e parecia radiante. — Eu gosto do cachorro! Mamãe, papai, eu quero o cachorro! O filho de Camber olhava tudo aquilo com ar muito divertido e as mãos enfiadas nos
bolsos dos jeans.
— Puxa vida! É mesmo um grande cão! — disse Vic, que achava aquilo divertido; mas
seu coração ainda estava aos saltos. Durante um momento ele pensara mesmo que o bicho ia engolir a cabeça do filho, como se fosse um pirulito. — um São Bernardo, ......
— Um São... Benado, pai?
Ele voltou correndo para junto do cão, que se sentara na porta do barracão. Parecia uma
pequena montanha.
— Cujo! Cuuuujo!
Donna estava novamente tensa ao lado do marido.
— Vic... será que...
Tad, porém, já correra de novo para junto do cão, abraçando-o efusívamente e depois olhando bem para a sua cara. Com o animal ali sentado, batendo com o rabo no chão e a língua muito vermelha pendurada, Tad quase podia olhar dentro de seus olhos, desde que ficasse na ponta dos pés.
— Acho que eles se deram bem, Donna — disse Vic.
Tad estava agora enfiando a sua mãozinha na boca de Cujo, tentando olhar lá para dentro como se fosse o menor dentista deste mundo. Isso fez com que Vic passasse outros maus momentos, mas Tad já vinha correndo de volta para eles.
— O cachorro tem dentes, papai...
— Eu sei, meu filho. Ele tem mesmo uma porção de dentes.
Ele voltou-se para o garoto de Camber, querendo perguntar-lhe como haviam arranjado aquele nome, mas Joe Camber apareceu, ainda enxugando as mãos numa estopa, a fim de poder apertar a mão de Vic sem sujá-las de graxa.
Foi uma boa surpresa para Vic quando constatou que o homem era bom mesmo em sua profissão. Ouviu cuidadosamente o barulho que havia na roda enquanto davam uma volta com o carro para logo chegarem de novo à oficina.
— E o rolamento da roda que gastou. O senhor deu sorte de não ter parado na rua.
— E você pode dar um jeito?
— Claro que posso. E posso até mesmo fazer isso agora se não se importar de esperar um pouco. Talvez umas duas horas.
— Acho que posso sim — disse Vic, ao mesmo tempo em que olhava para o filho e para o cão. Tad estava agora segurando a bola de beisebol que antes estivera na mão do filho de Camber. Ele atirava-a o mais longe que podia, o que, aliás, não era tão longe assim. Cujo ia obedientemente busca-la, para colocá-la aos seus pés. A bola estava, sem dúvida alguma, já bem gasta e suja.
— O seu cão está divertindo bem o meu filho...
— O .Cujo gosta muito de crianças. Por favor, leve seu carro para dentro do barracão, Sr. Trenton.
O doutor vai atendê-lo agora, pensou Vic divertido e logo atendeu: ao pedido do mecânico. No final das contas, o serviço levou apenas hora e meia e o preço cobrado chegou a espantar Vic, de tão razoável.
E Tad passou toda aquela tarde sombria correndo pelo quintal e chamando o cachorro pelo nome um sem-número de vezes.
— Cujo! Cuuuujo... Cujo, venha aqui...
Pouco antes de saírem, o filho de Camber, que se chamava Brett, enganchou-o no dorso do cachorro e. deu umas voltas no quintal. Quando passaram diante de Vic, o cão levantou os olhos para ele e Vic seria capaz de jurar que o animal estava rindo satisfeito.
Exatamente três dias depois daquela conversa aos berros de George com a Tia Evvie, uma menina da mesma idade de Tad levantou-se da mesa onde estava tomando o sou café da manhã, numa casinha de Iowa City, e disse à mãe que não se sentia bem e que estava com vontade de vomitar.
A mãe olhou-a sem demonstrar muita surpresa. Dois dias antes, o. irmão mais velho de Marcy tinha voltado da escola antes do. término das aulas porque estava com muita dor de barriga. Brock já estava bom agora, mas passara as últimas 24 horas atirando fora, vigorosamente, por cima e por baixo, tudo que tinha na barriga.
— Você está mesmo enjoada, minha querida?
— Estou sim... eu...
E, sem acabar de falar mas gemendo alto, ela precipitou-se pelas escadas com as mãos apertando a barriga. Sua mãe acompanhou-a e levou-a para o banheiro, ao mesmo tempo em que pensava que seria um verdadeiro milagre se ela também não ficasse doente.
Ouviu a menina vomitando e, automaticamente, ia pensando nas medidas que precisaria tomar. Muito líquido, repouso na cama, o urinol e alguns livros. Brock poderia levar a TV portátil para o quarto da irmã logo que voltasse da escola.
Ela olhou para dentro do vaso e todos os seus pensamentos foram logo afastados com o tremendo choque que sentiu. Era como se a casa estivesse desmoronando.
— Mamãe, mamãe, estou muito enjoada... está doendo muito...
A menina se virava e revirava, virava e revirava e seu rostinho estava todo sujo de sangue. Seu vestidinho azul estava todo sujo. Meu Deus! Jesus, Maria, José!... Quanto sangue!
— Mamãe... mamãe...
E a meninazinha tomou a soltar uma golfada de sangue. que se espalhava por toda a parte como se fosse uma chuva sinistra. Sua mãe pegou-a no colo e disparou para o telefone da cozinha para chamar o pronto-socorro.
Cujo sabia muito bem que já estava velho demais para andar correndo atrás de coelhos.
Ele não estava tão velho assim, nem mesmo na sua qualidade de cachorro. Mas com seus cinco anos ele já não era mais aquele cachorrinho que chegava a correr até mesmo atrás das borboletas através do mato que havia atrás do barracão. Estava com cinco anos, o que,. se fosse um ser humano, representava o começo da meia-idade.
Ainda estava no dia 16 de junho, na manhã de um magnífico dia, o a relva ainda se achava coberta de orvalho. O calor que Tia Evvíe previra para George tinha realmente chegado e aquele começo de junho era, de fato, o mais quente que já se vira em anos.. Às duas horas da tarde daquele dia, Cujo deveria estar deitado na poeirenta soleira da porta ou então dentro do barracão, desde que O HOMEM o deixasse entrar, o que acontecia vez por outra quando ele bebia, algo que, naqueles dias, se tornara até bem comum. E o cão ficava ofegante, castigado pelo sol ardente. Mas isso foi mais
E o coelho, que era grande, escuro e gordo, não fazia a menor idéia que Cujo andava por ali, já que ficava bem longe da casa. Além disso, o vento soprava na direção contrária e isso foi um azar para o Mestre Coelho.
Cujo saiu atrás do coelho, mais por brincadeira do que por fome, enquanto ele roia umas ervas tenras que em breve estariam estorricadas pelo sol. Se ele tivesse coberto a metade da distância que o separava do coelho, assim que o viu e fugiu correndo, era muito provável que Cujo desistisse; mas ele estava a apenas uns 15 metros quando o bichinho levantou a cabeça e esticou as orelhas, permanecendo porém imóvel durante uns segundos. Parecia até uma escultura, com os olhos muito esbugalhados. Era uma figura, cômica. Só então ele disparou.
Cujo saiu correndo atrás dele, latindo furiosamente. O coelho era muito Pequeno em
relação a Cujo, mas a possibilidade de uma vitória aumentava a energia e disposição do cachorro. Ele chegou tão perto do coelho que conseguiu tocá-lo com a pata. O coelho porém esquivou-se, o que deu mais força a Cujo. Suas patas chegavam a escavar a terra escura, aumentando a distância mas logo recuperando-a, e os passarinhos fugiam com medo de seus latidos. Se fosse possível um cão achar graça em alguma coisa, Cujo estaria achando graça ali, naquele momento. O coelho ziguezagueava em disparada pelo campo, com o cão atrás dele, embora já desconfiasse que aquilo era uma parada perdida.
Mesmo assim, ele dava tudo que tinha e já começava a ganhar terreno quando o coelho se enfiou numa toca existente em ligeira elevação do terreno e que estava coberta por capim bem alto. Mas Cujo não hesitou. Agachou-se, encolhendo o seu corpanzil, e atirou-se como se fosse um projétil. E o resultado foi que ficou ali preso na entrada... como se fosse uma rolha na garrafa.
Já decorriam 17 anos desde que Joe Camber possuía a Fazenda Seven Oaks, que ficava no fim da Rodovia estadual 3, mas ele não tinha a menor idéia a respeito da existência daquele buraco. Claro que logo o teria descoberto se fosse um lavrador, mas essa não era a sua profissão. Não havia gado estabulado no barracão vermelho e grande, já que ele fizera dele a sua oficina mecânica e de lanternagem. Seu filho Brett estava sempre percorrendo todo o campo, mas nunca se dera conta da existência daquela toca, embora, em certas ocasiões, passasse bem perto dela, arriscando-se até mesmo a torcer um pé no buraco. Nos dias bem claros o buraco poderia ser tomado por uma sombra, mas nos dias sombrios o capim alto cobria-o completamente.
John Mousam, o dono anterior da fazenda, sabia de sua existência, mas se esquecera de falar no assunto quando vendera a propriedade a Joe, em 1963. Talvez pudesse ter mencionado isso quando Charity, a mulher de Joe, deu à luz o menino Brett, mas já então um câncer o havia levado desta para melhor.
Aliás, até foi bom o fato do Brett não ter descoberto a toca. Não existe nada neste mundo que seja mais interessante do que um buraco para um menino e aquele era a entrada para uma pequena
caverna natural de calcário. A sua maior profundidade deveria ser uns seis metros e seria até bem fácil para um garotinho esperto se enfiar dentro dele, para depois não conseguir mais sair. Era o que já tinha acontecido com pequenos animais no passado. A superfície escorregadia da pedra tornava fácil deslizar para dentro e muito difícil à escalada para sair. Lá no fundo a caverna estava cheia de animais mortos e esqueletos. Havia gambás, esquilos e até mesmo um gato. O nome desse gato era Limpinho e ele desaparecera dois anos antes. Joe achava que tinha sido atropelado, ou então simplesmente fugira. Mas era ali que ele estava, junto com os ossos de uma preá bem grande que perseguira.
O coelho de Cujo escorregara até o fundo do buraco e ali ficara, apavorado, as orelhas espetadas e o focinho vibrando como se fosse um diapasão, enquanto os furiosos latidos do cão enchiam toda a caverna, seu eco dando a impressão de que havia ali uma matilha inteira.
A caverna pequenina também atraíra para ali alguns morcegos. Não eram muitos, devido ao seu tamanho, mas o teto áspero era um lugar bem adequado para eles se pendurarem de cabeça para baixo e dormirem o dia inteiro. E esses morcegos eram mais uma prova da sorte de Brett em não descobrir a caverna, principalmente naquele ano, quando ela se enchera de morcegos portadores do vírus da raiva.
Cujo estava com o peito engastalhado no buraco sem conseguir sair, apesar de tentar furiosamente com as patas traseiras. Ele talvez pudesse ter escapado, não fosse sua teimosia em querer pegar aquele coelho. Sabia que o bichinho estava lá dentro encurralado e que seria seu, sem dúvida alguma. A sua visão já não era grande coisa e o corpo imenso não deixava passar luz alguma para a caverna. Ele nem mesmo se dava conta da descida escorregadia que tinha pela frente. Só tinha faro para a umidade, para o excremento dos morcegos, já curtido ou ainda fresco.., mas também farejava o coelho e aquilo era o mais importante para ele. Quente o gostoso. Ali estava o seu jantar.
Os seus latidos despertaram e apavoraram os morcegos. Alguma coisa havia invadido os seus domínios. Voaram em massa para a saída com seus guinchos agudos, mas o sonar que os orientava mostrava que a passagem estava obstruída e que ali havia agora um predador.
Eles ficaram esvoaçando na escuridão e as membranas de suas asas soavam .como se fossem peças de roupas estendidas, talvez fraldas, que se balançavam em suas cordas. Lá embaixo, o coelhinho estava todo. enrodilhado, na esperança de poder escapar.
Cujo sentia que alguns morcegos passavam bem perto da parte do seu corpo que se projetava para dentro da gruta e então teve modo. Não gostava do cheiro nem do som que sentia e ouvia. Não gostava do estranho calor que parecia emanar deles. Latiu ainda mais alto e procurava abocanhar aqueles bichos que voavam e zuniam em torno do sua cabeça. Conseguiu pegar um deles e sentiu como seus ossos eram frágeis, como as mãos de uma criança muito pequenina. O morcego reagiu e mordeu-lhe o focinho, abrindo um corte que parecia ser um ponto de interrogação, mas logo depois çaiu no chão, já morto. O mal, porém, já tinha sido consumado. As mordidas de animais raivosos são muito sérias quando atacam a parte da cabeça, já que a raiva é uma moléstia que ataca o sistema nervoso central. Os cães, mais suscetíveis do que os seres humanos, não podem contar çom a proteção completa da vacina contra o vírus, administrada por todos os veterinários. E Cujo jamais fora vacinado.
Mesmo sem saber disso, mas sabendo apenas que o gosto daquele bicho. que matara era simplesmente horroroso, Cujo concluiu que o melhor mesmo seria desistir daquela empreitada, que já não valia o esforço que estava empregando. Com um tremendo safanão, ele conseguiu desembaraçar-se e saiu dali com o pêlo todo sujo de terra e de imundícies. Seu focinho sangrava. Ele sentou-se, levantou a cabeça para o céu e deixou escapar um uivo triste e prolongado.
Os morcegos saíram esvoaçando em bando, completamente tontos com a luminosidade daquele dia muito claro de junho, mas logo voltaram para o seu refúgio na caverna. Eram bichos sem cérebro e dentro de dois ou três minutos já tinham esquecido completamente aquele intruso que latia. Retornaram e logo se penduraram de cabeça para baixo, continuando o sono interrompido. Envolviam-se em suas asas como mulheres velhas agasalhadas em seus xales.
Cujo saiu dali sempre se sacudindo e esfregando o focinho ferido com as patas. O sangue Já secara, mas a ferida ainda lhe doía muito. Os cães possuem um sentimento de embaraço muito desproporcional à sua inteligência e Cujo sentia-se contrariado com o que fizera. Não queria voltar para casa. Se fizesse isso, alguém daquela sua trindade. — o HOMEM, A MULHER OU O GAROTO — logo se dariam conta do que acontecera. Era até possível que um deles o insultasse chamando-o de CACHORRO MAU e, naquele momento, era justamente assim que ele se sentia. Era mesmo um CACHORRO MAU.
E então, ao invés de voltar para casa, Cujo caminhou rumo ao ribeirão que separava as duas propriedades, a de Cainber o a de Gary Pervier, o vizinho mais próximo de Joe. Subiu o rio caminhando dentro d"água e bebendo-a com sofreguidão; depois rolou dentro dela, numa tentativa para se limpar e tirar da boca aquele gosto horroroso, numa tentativa para se limpar de forma que não pudesse mais ser chamado de CACHORRO MAU.
Pouco a pouco, começou a sentir-se melhor e saiu do ribeirão; sacudiu-se e a umidade que saía de sou corpo logo formou ali no ar um lindo arco-íris.
O sentimento de ser um CACHORRO MAU ia aos poucos e a dor no focinho também diminuía. Resolveu voltar à casa e ver se o GAROTO andava por ali. Já se acostumara a ver o grande ônibus amarelo da escola que vinha buscar o GAROTO todas as manhãs, para trazê-lo de volta à tarde, mas na última semana o ônibus não aparecera por ali com seus olhos flamejantes e a carga barulhenta das crianças e o GAROTO estava sempre em casa. Geral-mente ficava lá no barracão fazendo coisas para O HOMEM. Era possível que o ônibus houvesse aparecido naquela manhã, como também era possível o contrário. Ele iria verificar. Já se esquecera daquele buraco feio e do gosto horroroso do morcego. O focinho já quase não doía mais.
Cujo rompia com facilidade o capim alto daquela parte do campo, espantando
passarinhos que fugiam voando, mas ele não lhes dava a menor atenção. Naquele dia não se aventuraria mais a caçadas. O seu pensamento poderia ter esquecido a aventura, mas o mesmo não acontecia com sou corpo. Ele era um São Bernardo cheio de saúde, com cinco anos de idade e pesando uns 100 quilos, mas agora, naquela manhã do dia 16 de junho de 1980, ele estava contaminado pela hidrofobia.
Sete dias depois disso e a uns 15 quilômetros de distância da Fazenda Oaks, em Castle
Rock, dois homens estavam num restaurante da cidade de Portland, chamado O Submarino Amarelo. A especialidade da casa eram portentosos sanduíches, pizzas e ainda outras iguanas. Nos fundos havia uma espécie de “bagatela”. Em cima do balcão estava uma placa dizendo que todo aquele capaz de comer dois Pesadelos do Submarino Amarelo não pagaria coisa alguma: Por baixo, entre parênteses, havia sido acrescida uma condição essencial: SÓ PAGARÁ SE PE1DAR.
Geralmente, a preferência de Vic era pelas almôndegas que constituíam a especialidade da casa, mas ele desconfiava que, naquele dia, só conseguiria uma forte gastralgia.
— Parece que vamos mesmo perder a parada, você não acha?
O cara com quem ele falava, e que olhava para um presunto dinamarquês sem o menor entusiasmo, era Roger Breakstone; e quando ele olhava para qualquer comestível sem entusiasmo, era porque algum cataclismo estava para acontecer. Ele pesava uns 130 quilos e sua barriga não dobrava quando se sentava. Em certa ocasião, quando ambos tinham estado na cama com um acesso de risinhos abafados, como crianças conspiradoras no recreio, Donna disse a a Vic que achava que Roger levara um tiro na barriga lá no Vietnã.
— A coisa parece, bem feia para mim, Vic — admitiu Roger.
— Tão feia mesmo que nem você poderia acreditar, Victor, amigão.
— E você realmente acha que esta viagem vai adiantar alguma coisa?
— Pode ser que não adiante mesmo, mas certamente perderemos o contrato de publicidade da Sharp se não formos. Talvez até mesmo seja possível se salvar alguma coisa...
Ele abocanhou um pedaço de seu sanduíche.
— Se fecharmos durante dez dias isso nos trará prejuízo, Roger.
— E você pensa que já não estamos no prejuízo?
— Claro que estamos mesmo, mas ainda temos aquele pessoal dos Amigos do Livro, em Kennebunk Beach.
— A Lisa pode cuidar disso.
— Não estou ainda plenamente convencido de que ela consiga cuidar sequer de sua vida amorosa, quanto mais do pessoal dos livros. Mas, mesmo supondo que possa, ainda temos a campanha Você Prefere Amoras, que está indo muito bem.., e o Casco Bank & Trust... e você ainda vai ter de se encontrar com o chefão da Associação dos Corretoras Imobiliários do Maine.