Cão Raivoso
Naquilo que dizia respeito aos sofrimentos, nunca…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Depois de colocar as cartas na caixa, ele sentiu uma íntima satisfação por haver coberto bem a sua retirada. Saiu rodando na direção de Portland, acompanhando a música que o rádio tocava. Acelerou o carro para aproveitar o tráfego tranqüilo, pois queria chegar em Portland ainda a tempo de arranjar uma quadra para jogar umas partidas. De um modo geral, parecia ser um bom dia para ele. O Sr. Publicitário talvez já houvesse recebido a carta, e mesmo que isso ainda não houvesse acontecido, ele a receberia naquele mesmo dia. Achava tudo muito engraçado e então começou a rir.
Naquela mesma hora, enquanto Steve pensava em seu tênis e Vic lembrava-se de que devia telefonar para Joe a respeito do carro de Donna, Charity preparava o café da manhã de seu filho.
Joe tinha ido a Lewiston meia hora antes, a fim de ver se encontrava um limpador de pára-brisa para um Camaro 72 em algum ferro-velho da cidade. Aquilo coincidia bem com os planos que Charity elaborara lentamente e com muito cuidado.
Colocou diante de Brett o prato de ovos mexidos com bacon o depois sentou-se ao lado dele. Brett levantou os olhos do livro que estava lendo e pareceu surpreso. Geralmente, depois de servir o café, Charity ia cuidar dos serviços caseiros. Se alguém falasse muito antes de Charity acabar suas tarefas, arriscava-se a ouvir uma boa bronca.
— Posso falar com você um instante, Brett?
A surpresa anterior já era agora um grande espanto para ele. Quando olhou direito para a mãe, percebeu logo algo completamente diferente em seu rosto sempre taciturno. Notou que ela estava nervosa e então fechou o livro e ficou esperando.
— Claro que pode, mamãe.
Ela pigarreou, antes de começar.
— Será que você gostaria de ir a Stratford para uma visita à Tia Hoily, Tio Jim e seus primos?
O rosto dele abriu-se num sorriso. Só saíra do Maine duas vezes em toda a vida; e a última fora quando seu pai o levara até Portsmouth para um leilão de carros velhos, onde Joe arrematara um Ford 58.
— Claro que gostaria, mamãe! Quando é que vamos?
—Acho que poderíamos ir na segunda-feira, logo depois do fim de semana do Quatro de Julho. Ficaríamos lá uma semana. Que tal?
— Oba, oba! Pensei que o papai estava com muito serviço para a próxima semana... Ele com certeza...
— Eu ainda não falei com ele sobre isso, Brett.
O rosto de Brett ficou sério e ele apanhou um pedaço de bacon, que ficou
mastigando.
— Bem... sei que ele prometeu ao Richie Símms que iria tirar o motor dc sua ceifeira. E também o Sr. MiIler, da escola, ficou de trazer o seu Ford e...
— Eu estava pensando em irmos nós dois sozinhos, no ônibus da Greyhound que sai de Portland.
Brett ainda estava em dúvida. Lá na porta telada da varanda dos fundos, Cujo subiu devagar os degraus e deixou-se cair no chão sombrio com uma espécie de grunhido. Olhou para o GAROTO e Á MULHER com olhos cansados e vermelhos. Sentia-se agora muito mal. Muito mal mesmo!
— Pô, mamãe... eu sei...
— Não fale deste jeito, Brett. - É como se estivesse praguejando. — Desculpe...
— Você gostaria mesmo de ir? Se o seu pai permitisse? — Claro que gostaria,, mamãe. Você acha que vamos poder ir mesmo? Ela estava olhando pensativamente lá para fora, através da janela. — Pode ser que sim...
— Stratford é muito longe daqui, mamãe?
— São uns quinhentos quilômetros, mais ou menos.
— Pô... quer dizer.., puxa.., é longe pra burro! Não é mesmo? — Brett...
Ele tornou a olhá-la bem e percebeu que o rosto da mãe já se mostrava novamente diferente, bem como sua voz. Ela estava ficando nervosa.
— O que é, mamãe?
—Você sabe se seu pai está precisando de alguma coisa lá na oficina? Alguma coisa que ele esteja querendo comprar?
Os olhos de Brett brilharam. Já estava começando a compreender.
— Bem.., ele sempre precisa de algumas ferramentas. E o seu capacete de soldador está furado.
— Não, não. Estou falando de alguma coisa importante, Brett. Alguma coisa que custe muito dinheiro.
— Bem, o que ele está mesmo precisando é de um guincho para suspender os motores. Com um desses ele tiraria fora o motor da ceifeira do Richie sem fazer força. Mas você não vai poder comprar um desses para ele, mamãe. É muito caro.
Caro. Aquela era a palavra que o Joe usava para as coisas que custavam muito dinheiro. Odiava essa palavra.
— Você sabe quanto custa?
— Bem, aquele que está no catálogo custa mil e setecentos mas o papai acha que poderá comprar um mais barato na loja de máquinas do Sr. Belasco. Acho que poderá conseguir preço de atacado. O Sr. BeLasco tem medo do papai.
— E você acha que isso está certo, Brett?
A voz dela soava como uma repreensão e atemorizou o garoto. Nunca vira sua mãe agindo daquela forma. Até mesmo o Cujo, lá fora na varanda, levantou as orelhas, espantado.
— Vamos lá, responda! Você acha que está certo?
— Não, mamãe.
Charity sabia que ele estava mentindo e isso a entristecia. Não podia compreender como alguém conseguiria meter tanto medo em outra pessoa até o ponto de lhe fazer tais concessões. Percebera a admiração que havia na voz do filho, embora nem ele mesmo se desse conta disso. Ele deseja ser exatamente como o pai. Acha bonito quando o pai amedronta alguém. Oh, meu Deus.
— Não há nada de bonito nessa maneira de meter medo nos outros, Brett. Tudo que é preciso para isso é uma voz tonitruante e uma disposição mesquinha. E isso não é vantagem. — Ela baixou a voz e esticou o braço para .o filho. — Vamos lá. Tome o seu café. Não vou ficar zangada com você. Acho que é o calor que me faz ficar nervosa.
Ele obedeceu, agindo com cuidado e sempre olhando para a mãe. Achava que, naquela manhã, havia muitas minas escondidas.
— E qual seria esse tal preço de atacado? Mil e trezentos? Mil?
—Não sei, mamãe...
— E o Sr. Belasco mandaria entregar aqui? Afinal, é uma compra de vulto...
—Huuummm... Acho que mandaria sim. Mas era preciso que tivéssemos todo esse dinheiro...
Charity levou a mão ao bolso do avental. O bilhete da loteria estava bem ali. Seu número tinha sido premiado pela Loteria Estadual duas semanas antes. Já o conferira muitas vezes, quase sem poder acreditar. Tinha comprado um bilhete por 50 centavos, como fazia todas as semanas desde que a loteria começara, em 1975. E ganhara o prêmio de 5.000 dólares. Ainda não fora receber o prêmio e conservara o bilhete bem guardado todo o tempo.
— Mas nós temos todo esse dinheiro, Brett.
O filho olhou-a com espanto, arregalando os olhos.
Às 10:15, Vic saíra da Ad Worx para ir tomar o café de costumo no Bentley"s, já que não tolerava aquela beberagem feita pela servente do escritório. Passara toda a manhã redigindo anúncios para
a Granja Decoster. Não era fácil, já que detestava ovos desde sua meninice, quando a mãe o obrigava a engoli-los quatro vezes por semana. Como nada conseguira de apresentável, iria pedir idéias ao filho, que adorava ovos. Estava pensando nisso quando a garçonete lhe trouxe o café, acompanhado de uns biscoitos.
Claro que não eram os ovos a causa de seu desalento total. A verdadeira causa era a viagem de 12 dias que o manteria ausente, mas Roger convencera-o de que não havia outro jeito. Eles teriam que ir lá para agüentar o rojão.
Vic adorava o alegre Roger como se fosse um irmão. Roger teria apreciado muito se ele o tivesse convidado para tomar aquele café gostoso e para conversarem, mas Vic preferira ficar só. Precisava pensar. Os dois iriam passar juntos duas semanas inteiras, a começar na segunda-feira, dando um duro dos diabos; e aquilo seria demais até mesmo para duas almas gêmeas.
Pensava novamente no fracasso da Zingers e então deixava-se levar, sabendo muito bem que, algumas vezes, uma revisão calma dos acontecimentos numa situação ruim talvez resultasse em novas idéias e concepções aproveitáveis, algum novo ângulo. Pelo menos era isso que acontecia com ele.
O que ocorrera tinha sido ruim o bastante, expulsando a Zingers do mercado. Ruim o bastante, mas não catastrófica. Nada se comparava com o que acontecera com os cogumelos enlatados. Nada chegara a resultar em mortes, mas mesmo assim os consumidores concluíram que até mesmo as grandes empresas tinham lá os teus fracassos de quando em quando. E ele pensava no que ocorrera com as promoções da McDonald"s alguns anos antes, quando oferecera copos como brindes. Fora então constatado que a tinta das ilustrações nos copos continha mais chumbo do que o tolerável. Os copos tinham sido imediatamente retirados do mercado, sendo a idéia aproveitada por outros, como a Alka Seltzer e uma goma do mascar que Vic adorava.
Os cqpos foram uma coisa ruim para a McDonald"s, mas ninguém chegara a acusar Ronald por tentativa de envenenar as crianças que constituiam sua melhor freguesia. Também ninguém ainda se lembrara de acusar o Professor dos Cereais Sharp, embora humoristas desde Bob Hope. a Steve Martin, o usassem em suas piadas. Johnny Carson chegara a dedicar um monólogo inteiro, cheio de subterfúgios e meias-palavras, a respeito do caso Zingers, na abertura de seu programa na TV, intitulado O Show da Noite. É desnecessário dizer como o ator que representava o Professor Sharp ficou furioso com a brincadeira, que considerou de mau gosto.
Podia até ser muito pior, assim se manifestara Roger depois das coisas se acalmarem, já não havendo mais aqueles longos e repetidos telefonemas entre Portland e Cleveland.
— O que foi que você disse, Roger? — replicava Vic muito sério, sem perder a calma.
— Isso mesmo. Poderíamos estar trabalhando para a conta Bon Vivant Vichysoise.
— O senhor quer mais café?
Vic levantou os olhos para a garçonete e ia recusar, mas pensou melhor.
— Mais uma meia xícara, por favor.
Ela serviu-o e se afastou. Vic ficou ali, remexendo a xícara sem beber.
Houvera um piedoso intervalo antes de muitos médicos aparecerem na TV e darem entrevistas a jornais, dizendo que aquela coloração era inócua. Já ocorrera antes algo parecido. A comida servida nos aviões de uma linha comercial aparecera com uma camada alaranjada. Finalmente, descobriu-se que tal coloração provinha do resíduos de pó desprendidos dos salva-vidas com que as aeromoças faziam demonstrações antes da decolagem, os quais eram pintados com anilina da mesma cor. Muitos anos antes, a anilina usada para uma marca de salsichas causara a mesma perturbação intestinal provocada pelos cereais da Zingers.
Os advogados do velho Sharp haviam entrado com uma ação de danos de muitos milhões de dólares contra os fabricantes da anilina, que ficaria correndo na justiça durante uns três anos, sendo depois liquidada num acordo amigável fora dos tribunais. Isso não vinha ao caso; o fato é que a questão permitira ao público descobrir que a culpa — culpa temporária, além de completamente inofensiva — nunca havia sido da Companhia Sharp.
Contudo, as ações da Sharp haviam sofrido uma queda acentuada na Bolsa — embora logo se recuperassem, alcançando até mesmo uma cotação mais alta do que antes de toda a confusão. Os próprios cereais também acusaram uma sensível baixa nas vendas, mas a situação logo se alterara, após a Zingers ter tirado a máscara e exibido sua traiçoeira face escarlate. Alguns produtos da Sharp, inclusive,, estavam vendendo mais do que antes.
Então, nada mais havia de errado, não é?
Havia sim. E muito.
E era o Professor quem estava errado. O coitado jamais conseguiria recuperar o prestígio
anterior. Após o medo surgiram espiadas. Todo mundo ria daquele austero professor.
George Carlin, em seu habitual baixo nível:
— É isso aí, estamos realmente num mundo louco. Num mundo louco paca. — Ele
inclina a cabeça para junto do microfone, como se estivesse pensando e continua. — Os chapinhas do Reagan estão fazendo sua campanha de bosta na TV, não é mesmo? Os russos fabricam mísseis aos milhares, não é mesmo? E então o Jimmy vai para seus espaços comprados na TV e fala: “Meus patrícios, no dia em que os russos nos ultrapassarem na corrida armamentista toda a garotada do país vai cagar vermelho.” — Risadas na platéia. — Ai o Ronnie telefona para o Jimmy e pergunta: — “Diga-me presidente o que foi que a Amy comeu hoje no café da manhã?”
As gargalhadas estrugem na platéia. Carlin faz uma pausa.
E então chega a hora de suja afirmação final, que ele faz falando baixo e de forma insinuate:
— Nada, nadinha de errado com isto aqui...
A platéia aplaude com furor, Carlin sacode a cabeça tristemente.
— Merda vermelha mesmo, gente. Puxa vida, podem chafurdar nela
Aquele era o verdadeiro problema. Carlin era o problema. Bob Hope era o problema. Johnny Carson era o problema. Steve Martin era o problema. O problema estava em todos os salões de barbeiros do país.
E então havia uma coisa que era preciso levar em consideração — As ações da Sharp tinham caído nove pontos e só se tinham recuperado da metade. Os acionistas iam estrilar. Cabeças iam rolar.Então era preciso pensar. Que cabeças serão essas? A primeira coisa a apurar era quem teria criado o Professor. O que havia com aqueles mais prováveis candidatos? Ninguém levaria em conta o fato do Professor existir durante mais de quatro anos, antes mesmo do desastre com a Zingers Ninguém queria saber que quando o Professor da Sharp entrara em cena (juntamente com Sharp Kid e o casal George e Gracies) as ações da Sharp estavam muito mais baixas do que agora.Quase quatro pontos mais baixas.
Ninguém queria saber disso. Só uma coisa iriam querer saber. E isso ocorreria quando fosse anunciado publicamente que a Ad Worx já não tinha mais a conta de publicidade da Sharp. Apenas isso bastaria para as ações subirem um ponto e meio, ou até mesmo dois pontos. E quando a nova campanha começasse, com uma outra agência, os investidores achariam que o fato demonstrava que as antigas dificuldades tinham sido ultrapassadas, havendo então uma nova alta de um ponto.
Enquanto mexia o seu café com adoçante, Vic pensava que tudo aquilo, afinal de contas, não passava de teoria. E mesmo que a teoria se transformasse em fato, ele e Roger acreditavam que um
ganho a curto prazo para a Sharp seria bem mais compensador que uma nova campanha organizada às pressas por outra agência, que não conhecia o pessoal da Sharp e nem o mercado de cereais tão bem quanto eles dois.
E foi então que surgiu em sua mente uma nova idéia, um ângulo inteiramente novo.
Chegou de repente, quando ele nem mesmo tentava, e de forma inesperada. Ficou com a xícara suspensa no ar enquanto seus olhos se alargavam. Em seu espírito ele via dois homens — que poderiam ser ele e o seu sócio, ou então o velho Sharp e seu garoto já de uma certa idade.Os dois estavam fechando uma sepultura. Suas pás não paravam. Um lampião aceso tremulava na noite ventosa. Caía uma chuvinha. Os coveiros improvisados lançavam olhares furtivos para trás de quando em quando. Aquilo era um enterro noturno, um ato furtivo que se processava na escuridão. Estavam enterrando o velho Professor dos cereais às escondidas e aquilo estava errado.
— Errado mesmo! — ele resmungava em voz alta.
Claro que era errado. E isso porque se o enterravam ali em plena noite, o coitado jamais poderia dizer o que queria. Dizer que sentia muito.
Tirou do bolso a esferográfica, apanhou um guardanapo de papel e escreveu:
O Professor dos Cereais Sharp precisa desculpar-se.
Ficou olhando para o que escrevera e vendo as letras se espalharem enquanto o papel ia
absorvendo a tinta.. Depois acrecentou, por baixo:
Um enterro decente
E mais abaixo ainda:
Um enterro à PLENA LUZ DO DIA.
Ele ainda não sabia o que aquilo poderia significar. Era mais uma metáfora do que uma
coisa sensata, mas era assim lhe ocorriam as melhores idéias. E ali havia alguma coisa. Ele tinha certeza de que havia mesmo.
Cujo estava deitado no chão da oficina, quase como se estivesse inconsciente. Fazia calor ali, mas lá fora ainda estava pior.... e lá a claridade do dia era muito forte. Nunca tinha sido assim antes.
Aliás, ele jamais notara antes a intensidade da luz, como notava agora. Sentia doer-lhe a cabeça.
Seus músculos também doíam. A claridade forte feria-lhe os olhos. Sentia muito calor. Ainda sentia
dor no focinho, onde fora mordido.
Doía e comichava.
O HOMEM TINHA IDO A ALGUM LUGAR. Logo depois que ele saíra, O GAROTO E A MULHER também tinham saído e ele ficara sozinho. O GAROTO colocara o prato cheio de comida para ele, mas comera só um pouco. Sentia-se pior quando comia. Deixou o prato quase cheio.
Agora estava ouvindo o barulho de um carro que chegava. Ele levantou-se e foi até a porta, já sabendo que se tratava de um estranho. Conhecia bem o barulho da pick up e do carro da família. Ficou na porta olhando lá para fora, ofuscado com a claridade. O caminhão parou na entrada. Saltaram dele dois homens que vieram até os fundos. Um deles abriu a porta traseira. A barulheira que fizeram chegou a doer cm seus ouvidos. Ele ganiu e voltou para seu canto, numa escuridão confortável.
O caminhão era da revendedora de máquinas de Portland. Três horas antes Charity e o filho, ainda não refeito do espanto, haviam entrado na loja da Avenida Brighton, onde ela preenchera um cheque de $1.241,71 pela compra de um guincho Jõrgen novo, imposto incluídos, a preço de atacado. Antes de entrar na loja para comprar o guincho, ela passara na casa lotérica, a fim de preencher um formulário solicitando o prêmio. Brett não podia entrar lá e ficou esperando na calçada, as mãos nos bolsos.
O funcionário disse a Charity que ela receberia pelo correio um cheque da Comissão da loteria. Levaria no máximo duas semanas. Já estariam descontados os impostos, cerca de 800 dólares. A importância deduzida fora calculada tomando-se por base os rendimentos de Joe no ano anterior.
Ela não e. importou muito com aquela dedução. Estivera com a respiração suspensa durante todo o tempo que o rapaz levara para conferir o bilhete, já que mal podia acreditar ainda no que acontecera. Ele finalmente sacudira a cabeça e .dera-lhe parabéns pela sorte, chegando até mesmo a chamar o gerente para vir cumprimentá-la. Nada daquilo importava. O que importava agora era que já podia respirar novamente e que o bilhete passara a ser responsabilidade da Comissão da Loteria. Ela receberia o seu cheque pelo correio. Aquelas eram palavras mágicas, místicas e quase incríveis.
Mesmo assim, no entanto, ela sentia qualquer coisa estranha, ao ver o rapaz prender o
seu bilhete um tanto amarrotado ao formulário que havia preenchido. Fora ela a escolhida pela Sorte. Pela primeira vez, e talvez a única, a pesada cortina da vida cotidiana abrira-se um pouco para que ela pudesse entrever o mundo brilhante e alegre que existia do outro lado. Era uma mulher muito prática, bem ciente de quanto odiava o marido, ao mesmo tempo que o temia, sabendo que envelheceriam juntos e que ele morreria deixando-lhe somente dívidas e talvez uma coisa que ela nem mesmo queria pensar, bem no fundo de seu coração, mas que realmente, temia — um filho desencaminhado.
Se o seu nome fosse o escolhido no GRANDE SORTEIO que se realizava duas vezes por ano, se houvesse ganho dez vezes mais do que os 5.000 dólares, ela talvez sentisse vontade de abrir um pouco mais aquela cortina, levando junto o filho, a fim de entrar num mundo situado muito além da Rodovia 3, da oficina do marido e de Castle Rock. Talvez até mesmo levasse Brett a Stratford com o objetivo expresso de saber quanto poderia custar um apartamento na cidade.
Mas fora somente uma frestazinha da cortina que se abrira. Fora somente aquilo. Ela vira a Deusa da Sorte durante momento, tão inexplicável e inaravilhoso como um lindo bailadp de fadas embaixo de cogumelos à luz orvalhada da madrugada... Isso tinha acontecido só uma vez e nunca mais se repetira. E foi por isso que ela sentiu um aperto no coração ao ver o seu bilhete desaparecer, embora ele lhe houvesse roubado o sono. Sabia que passaria o resto da vida comprando um bilhete por semana e nunca mais ganharia senão uns dois dólares.
Isso não tinha importância agora. Ao cavalo dado não se olham os dentes. As pessoas espertas não fazem isso.
Os dois foram à revendedora de máquinas, onde ela pagara com um cheque, passando
depois no banco, a fim de transferir dinheiro de sua conta de poupança para a conta corrente dando cobertura ao cheque. Em quinze anos ela e Joe tinham conseguido acumular uns 4.000 dólares na conta conjunta de poupança. Essa importância daria para pagar três quartas partes do que deviam, sem incluir a hipoteca da fazenda. Ela não tinha o direito de excluir a hipoteca, naturalmente mas sempre o fazia. Só pensava naquela maldita hipoteca por ocasião dos pagamentos das prestações. Ela podia agora sacar da poupança, porque isso seria compensado com o depósito do que recebesse depois pelo bilhete. Perderia apenas umas duas semanas de juros.
O dono do guincho prometera entregar o guincho naquela mesma tarde, e realmente
cumpriu o prometido.
Joe Magruder e Ronnie DuBay descarregaram o guincho com facilidade usando o dispositivo de descarga do caminhão, acionado a ar comprimido.
— Uma compra bem grande para o Joe, hem?
— A mulher dele disse para colocarmos o guincho dentro do barracão, Ronnie segure
firme, que isto pesa como o diabo.
Cada um segurou de seu lado e então os dois, gemendo e bufando levaram o guincho para
dentro do barracão.
— Vamos colocar essa droga no chão para descansar um pouco, Joe não consigo ver bem
nesta escuridão.
Largaram a peça no chão. Depois da claridade lá de fora eles mal conseguiam ver onde
estavam. Joe via somente a silhueta dos objetos. Via um carro suspenso no macaco, a bancada de .trabalho e uns degraus.
— Esta peça deve... — Ronnie parou no meio do que ia dizer.
Lá do fundo, onde estava o carro suspenso no macaco, vinha um rosnado baixo e rouco. Ele percebeu que o suor acumulado em se corpo se tornava frio e seus cabelos se arrepiavam.
— Deus do céu, Ronnie! Você ouviu isso?
Ronnie já se habituara com a escuridão e via bem onde estava Joe, os olhos esbugalhados de pavor.
— Claro que ouvi ....
Era um som baixo e forte, parecido com o barulho feito por motor de popa em marcha lenta. Ronnie sabia que só um cachorro muito grande rosnaria daquela maneira. E o mais provável mesmo era que houvesse confusão. Ele não vira nenhum cartaz na entrada alertando CUIDADO COM O CACHORRO havia muita gente que não se dava a tal trabalho. Pedia a Deus que aquele ali estivesse acorrentado.
— Joe? Você já esteve aqui antes?
— Só uma vez. É um São Bernardo grande como a porra de uma vaca. Só que antes ele não rosnava assim. — Joe engoliu em seco e Ronnie sentiu um aperto na garanta. — Puxa vida! Deus dó céu! Olhe ali, Ronnie...
A visão do outro já estava quase normal mas, ainda assim, o que ele via ali parecia-lhe quase sobrenatural.Ele sabia sabia que não se deve demonstrar medo diante de um cão agressivo, mas sabia também que os bichos sentiam o cheiro do medo nas pessoas. Ele
não se continha, no entanto, e estava tremendo.Não sabia o que fazer. Aquele cão era um monstro. Estava lá no fundo da loja, por trás do carro suspenso. Claro que era um São Bernardo. Não podia haver dúvida. Bastava ver o seu corpo peludo. E isso era fácil mesmo ali naquela semi-escuridão A largura de seu peito.Estava de cabeça baixa e seus olhos hostis estavam fixos neles.
Não estava acorrentado.
— Vá recuando bem devagar, Ronnie. Não corra pelo amor de Deus!
Foi o que ambos fizeram, mas o cão também caminhava na direção deles. Parecia caminhar com dificuldade. Ronnie tinha a impressão de que aquilo mais parecia com uma atitude de espreita.
Aquele bicho não era para brincadeiras. Tinha o motor funcionando e estava pronto para arrancar.
Continuava com a cabeça baixa. O rosnado ameaçador não mudava de freqüência.A cada passo que os dois davam para trás, ele dava um para a frente.
Para Joe o pior momento foi quando chegaram lá fora, em plena claridade. Ficou ofuscado e já não conseguia ver o cão. Se o bicho se precipitasse em cima dele, agora...
Esticou o braço para trás e viu que o caminhão estava ali ao seu alcance. Não se conteve mais e correu para a cabine.
Ronnie estava do outro lado e fez a mesma coisa, mas não conseguia abrir a porta do seu lado. Ainda estava ouvindo aquele rosnado muito parecido com o de um motor Evinrude de 80 H.P. Não conseguia abrir a porta e esperava a cada momento que o animal lhe tirasse um pedaço das nádegas. Conseguiu por fim abrir a porta e atirou-se na cabine, arquejando e suando frio.
Pelo espelho retrovisor do seu lado ele ainda via o cão na porta do barracão, olhando para eles, Joe estava ali ao seu lado, ao volante, rindo satisfeito com a aventura; e então riu também.
— Afinal é apenas um cão. — disse Ronnie.
— Sei disso. Só que seu rosnado é pior que a dentada.
— É isso aí. Então vamos voltar lá dentro, para ajeitar a porcaria daquele guincho.
—Vá para o inferno, Ronnie.....
— Vamos os dois juntos, Joe.
Riram-se e Ronnie deu um cigarro a Joe.
— Não acha que o melhor mesmo é a gente cair fora daqui?
— Estou de pleno acordo.
Joe acelerou e o motor logo virou.
Na metade do caminho de volta, Ronnie afinal abriu a boca, como se pensando em voz
alta.
—Acho que. aquele cachorro vai ficar danado...
Joe guiava com o braço para fora da janela, mas de repente virou-se para o companheiro.
— Fiquei apavorado e não me envergonho disso. Até mesmo um cachorrinho me mete medo em situações assim. Não havia mais ninguém ali
Sabe de uma coisa? Eu preferia levar um pontapé no saco.Acho que se alguém não acorrenta um cão que morde então deve aguentar as conseqüências. Aquele bicho.., acho que não pesa menos de
cem quilos.
— Acho melhor eu telefonar para o Joe, contando-lhe o que aconteceu.Talvez assim evite aporrinhação para ele. O que é que você acha?
— O que foi que o Joe fez por você ultimamente, Ronnie? —a pergunta foi seguida de um sorriso maldoso.
O outro sacudiu a cabeça, com ar pensativo.
— A verdade é que ele nunca me chateou como você faz...
— A última esculhambação que recebi foi de sua mulher, Ronnie... e ela foi bem dura.
— Deixa de conversa, seu otário...
Os dois soltaram gostosas gargalhadas. Ninguém telefonou para Joe a respeito do
cachorro. Quando chegaram de volta já estava quase na hora de fechar. Levaram 15 minutos registrando a viagem e o patrão saiu do escritório para perguntar se Joe estava lá para receber o guinçho. Roonie disse que estava. Belasco não passava de um bom sacana, mas logo voltou para o escritório, Joe desejou a Ronnie um bom fim de semana e também um Quatro de Julho bem divertido. Ronnie disse que ia tomar um porre até a noite do domingo. Os dois foram marcar o ponto no relógio, antes de saírem.
Nenhum dos dois pensou mais em Cujo, até o dia em que leram nos jornais o que
acontecera com ele.
Vic passou a maior parte da tarde que antecedia o longo fim de semana discutindo os detalhes da viagem com Roger. Essa questão de detalhes era quase uma paranóia para Roger. Já encarregara. uma agência de fazer as reservas no avião e no hoteL O vôo para Boston saía do aeroporto de Portland às 7:10 da manhã de segunda-feira. Vic prometeu que apanharia o sócio no Jaguar às 5:30. Ele achava que era cedo demais, mas conhecia bem as manias de Roger. Falaram, de um modo geral, a respeito da viagem, evitando sempre entrar em dados específicos. Vic não lhe contou sobro a idéia que tivera enquanto tomava o café e o guardanapo estava bem guardado no bolso do casaco esporte. Roger estaria mais receptivo quando se encontrassem longe de casa.
Ele já resolvera que sairia mais cedo do escritório, mas achou melhor esperar pela correspodência da tarde. Lisa, a secretária, já tinha ido embora, pensando no longo fim de semana. Sabia muito bem que não conseguiria jamais encontrar uma secretária que ficasse esperando o relógio bater as cinco horas, em qualquer circunstância. Isso o deixava convencido que aquilo era mais um sinal da decadência da civilização ocidental. Era bem provável que ela, naquele momento, já estivesse mergulhada no tráfego, a caminho do Old Archard ou Hamptons, enfiada em jeans muito apertados e frente-única sumária. Era uma moça bonita, que acabara de fazer 21 anos. Ele esboçou um sorriso, desejando-lhe mental-mente um bom fim de semana.
Em cima de sua mesa havia apenas uma carta ainda fechada.
Ela apanhou-a com curiosidade e a primeira coisa que lhe chamou a atenção foi a palavra PESSOAL em letras maiúsculas manuscritas, por baixo do endereço. A segunda foi que todo o endereço estava também escrito da mesma forma.
Ficou ali com ela na mão, revirando-a e sentindo-se invadido por insólita inquietação. Bem no fundo do seu espírito, e quase em ser percebida, estava uma vontade premente de rasgá-la e atirá-la na cesta de papéis, reduzida a pedacinhos.
Deixou-se vencer e abriu-a, tirando de dentro uma única folha de papel.
Também era manuscrita em maiúsculas.
A mensagem muito simples, com apenas seis frases, atingiu-o como se fosse um tiro bem abaixo do coração. Não se conteve e deixou-se cair na cadeira. Soltou um gemido como se, de repente, houvesse perdido completamente o fôlego. Sentia-se completamente tonto. Não conseguia compreender aquilo. Se Roger entrasse ali naquela ocasião, certamente julgaria que o amigo era vitima de um ataque cardíaco. E, de certa forma, era aquilo mesmo que estava acontecendo. Estava branco como uma folha de papeL Tinha a boca aborta e os olhos turvos.
Leu novamente o bilhete.
No principio, seus olhos tinham sido atraidos para aquela interrogação:
O QUE VOCÊ ACHA DAQUELE SINALZINHO
QUE ELA TEM BEM POR CIMA DOS PELOS PÚBICOS?
Ele sentia-se confuso. Isto deve ser um engano. Ninguém sabe disso Bem... sua mãe... e
talvez seu pai. Até mesmo o biquíni esconde aquilo. Aquele biquini tão resumido! Sentia-se atingido pelo ciúme.
Passou a mão pelos cabelos. Ainda sentia no peito aquela dolorosa sensação. Parecia-lhe que o coração bombeava ar em lugar de sangue. Sentia medo, dor e confusão. Das três coisas, porém, a mais dominante mesmo era o medo. Um medo terrível.
O bilhete ali estava bem na sua frente, como se gritasse:
GOSTEI MUITO DA TREPADA QUE TIVEMOS
Agora era aquela linha que lhe prendia os olhos. Não conseguia fugir dela. Ouvia lá fora o ronco de um jato que partia do aeroporto. Subindo e dirigindo-se para lugares desconhecidos. Mas aquelas palavras não lhe fugiam da cabeça. GOSTEI MUITO DA TREPADA QUE TIVEMOS. Aquilo era brutal demais, em toda a sua crueza. Sim, senhor. Sim, senhora. Era realmente verdade. Era como se fosse urna punhalada. GOSTEI MUITO. Era um estranho modo de falar. Era a verdade nua e crua. Nada de enfeites ou .eufemismos.. Era como se fosse uma seringa espirrando-lhe no olho o ácido da bateria do carro.
Fez o possível para pensar coerentememte e
(GOSTEI MUITO)
simplesmente não conseguia,
(DA TREPADA QUE TIVEMOS) Agora seus olhos estavam fixos na última linha que ele leu inúmeras vezes, como se
estivesse tentando enfiar aquilo na sua cabeça. Nada conseguia, porque aquele tremendo sentimento de medo não lhe saia do caminho.
SERÁ QUE VOCÊ TEM ALGUMA DÚVIDA?
Mas claro que tinha. Descobriu de repente que tinha uma quantidade enorme de perguntes a fazer. A única coisa que havia, no entanto, era que não queria ouvir as respostas.
Ocorreu-lhe então um outro pensamento. E se o Roger ainda não tivesse ido embora? Era freqüente ele enfiar a cabeça na porta do escritório do sócio quando via luz lá dentro. Havia grande probabilidade de que tal acontecesse naquela noite, em vista da viagem que iam empreender. Vic entrou em pânico só de pensar naquela possibilidade. E então lembrou-se, de repente, da época em que, ainda garoto, fechava-se no banheiro para se masturbar, sem poder resistir à tentação, mas completamente apavorado com a possibilidade de alguém aparecer perguntando o que fazia ali fechado durante tento tempo. Se Roger entrasse ali, ele logo notaria haver algo de errado. Ele não queria que isso acontecesse. Levantou-se e foi até a janela para olhar lá embaixo, no estacionamento do prédio, a fim do verificar se a Honda amarela de Roger ainda estava lá. Não estava. Já tinha ido para casa.
Ele recuperou um pouco à calma e ficou prestando atenção. As salas ocupadas por sua
agência estavam todas silenciosas. Nem mesmo ouvia os passos do encarregado do prédio andando por ali. Quando chegasse lá embaixo teria de assinar no livro das saídas. Não podia escapar...
Agora, porém, já ouvia um barulho. De imediato não descobria o que poderia ser, mas não demorou muito e logo viu o que era. Era urna espécie de chorinho baixo, como se fosso de um animal ferido. Continuando a olhar lá para baixo, ele via, através da névoa das lágrimas, os carros no estacionamento dobrarem e depois triplicarem de número.
Por que seria que não conseguia ficar furioso? Qual poderia ser a razão para aquele
estúpido temor?
E então ocorreu-lhe uma palavra antiquada o absurda. Corneado. Ele fora corneado!
Os gemidos continuavam. Tentou bloquear a garganta, mas de nada adiantou. Abaixou a cabeça e agarrou a grade que corria por baixo da janela, na altura de sua cintura. Apertou-a com força até os dedos doerem e mais ainda até o metal da grade reclamar com estalidos.
Quanto tempo fazia agora desde que havia chorado pela última vez? Chorara na noite em que Tad nascera, mas aquilo fora um pranto de alívio o alegria. Chorara quando da morte de seu pai, depois de três dias de tremenda luta contra um ataque cardíaco, e aquelas lágrimas, derramadas aos 17 anos, tinham sido bem parecidas com as de agora. Mais pareciam sangue e não lágrimas. Só que aos 17 anos era muito mais fácil chorar ou sangrar. Com aquela idade todo mundo sabe que vai encontrar isso muitas vezes ainda em sua vida.
Seus gemidos pararam. Considerou aquilo um fato consumado. Foi então que deixou
escapar um lamento, um som trêmulo e áspero que o deixou intrigado. Será que fui eu mesmo? Meu Deus, será que fui eu mesmo quem chorou?
As lágrimas começaram a descer-lhe pelo rosto. Agarrou com mais força a grade da janela e desatou em prantos.
Quarenta minutos depois, ele ainda estava sentado no Deering Oaks Park. Tinha telefonado para casa dizendo a Donna que chegaria tarde. Ela começou a fazer perguntas, querendo saber por que ia demorar e por que sua voz parecia tão estranha, mas ele apenas disse que estaria em casa antes de anoitecer. Disso-lhe que não esperasse por ele e que desse o jantar a Tad. Depois desligou, sem que ela tivesse tempo de perguntar algo mais.
E, agora, ali estava ele sentado no parque.
As lágrimas quase haviam acabado com o medo. Sobrava-lhe apenas uma grande raiva. Aquilo era o nível seguinte na coluna geológica do conhecimento da situação. Só que raiva não era a palavra certa. Ele estava furioso. Estava verdadeiramente possesso. Aquilo era como se houvesse sido mordido por alguma coisa. Uma parte de seu ser dizia-lhe que seria perigoso voltar logo para casa... perigoso para os três.
Seria muito agradável esconder os destroços aumentando os estragos. A verdade era que seria um prazer dar umas boas bofetadas naquela, mentirosa.
Estava sentado ao lado do lago onde havia patos. Do outro lado as crianças brincavam. Reparou que eram quatro meninas e havia dois meninos, patinando. Naquele verão, a grande moda eram os patine de rodas. Viu uma moça que empurrava um carrinho onde havia tremoços, amendoins e refrigerantes em latas. O rosto dela era agradável e inocente. Uma das moças que jogavam o Frisbee atirou-lhe um disco, que ela apanhou com perícia e devolveu. Vic ficou pensando que nos anos 60 ela estaria talvez numa comuna, diligentemente. catando insetos em tomatais. Agora, provavelmente, já fazia parte da Administração dos Pequenos Negociantes, onde ocupava uma boa posição.
Ele e Roger vinham ali as vezes, para um almoço rápido. Isso acontecera no primeiro ano, quando Roger reparara que o lago exalava mau cheiro, embora a sua aparência fosse tão bonita e agradável. E reparou também que a casinha em cima da pedra no meio do lago estava toda branca não por ter sido pintada o sim porque era o depósito dos excrementos dos pássaros. Algumas semanas depois, Vic vira um rato morto, já em decomposição, que flutuava ali no lago, junto com camisas-de-vênus e caixinhas vazias de chicletes. Nunca mais tinham voltado ao local.
O disco de Frísbee, muito vermelho, atravessava o ar.
A imagem que despertara a sua raiva estava sempre voltando. Não conseguia ver-se livre dela. Era de uma crueza igual à da escolha das palavras no bilhete, mas não conseguia evitar aquilo também. Ele via aqueles dois trepando no quarto do casal, na sua própria cama! O que via naquele filme mental era igualzinho a um daqueles filmes impróprios exibidos no Cine Estadual, na Congress
Street. Ela gemia e suava; sempre conservando sua beleza. Tinha tensos todos os seus músculos. Tinha aquele mesmo olhar vidrado que ele vira nas suas relações conjugais. Seus olhos eram escuros.. Ele já conhecia a expressão, já conhecia a postura e já conhecia todos os sons. E já pensara que era o único a conhecer tudo aquilo. Coisas que nem mesmo a mãe e o pai dela conheciam.
Depois ficava pensando no membro do homem — sua pica —penetrando-a. Montado
nela. E aquela frase entrou no seu espírito de uma forma idiota, sem que ele conseguisse expulsá-la. Via os dois trepando como numa trilha sonora de Gene Autry: Estou de volta na sela, estou num lugar onde amigos são amigos....
Aquilo deixava-o nervoso. Fazia com que se sentisse ultrajado. Fazia com que se sentisse realmente possesso!
O disco de Frisbee continuava a voar em cima dele. Ia até muito alto e depois caía. Vic ficava olhando a sua trajetória.
Claro que já vinha suspeitando. Suspeitar, porém, não era a mesma coisa do que saber ao certo. Agora, ele pelo menos sabia. Poderia até mesmo, escrever um ensaio a respeito de suspeitar e saber ao certo. O que tornava tudo duplamente cruel era o fato do ter chegado a imaginar que suas suspeitas eram infundadas. E mesmo que não soubesse — o que os olhos não vêem, o coração não sente. E não era assim mesmo? Se alguém atravessar uma sala em completa escuridão, onde haja um buraco enorme no meio, e se passar bem pertinho dele sem cair lá dentro, não precisará jamais saber que escapou por pouco. Não precisaria mais ter medo. Pelo menos enquanto as luzes estiverem apagadas.
Ele escapara. Não caíra no buraco. Tinha sido empurrado. A questão agora resumia-se a saber o que faria. Aquela parte dele que estava cheia de raiva, de mágoa e de orgulho ferido, reclamando em altos brados, não estava absolutamente inclinada a mostrar-se adulta a reconhecer que sempre havia deslizes dos dois lados em todos os casamentos. As estatísticas de várias entidades podiam ir todas para o inferno.O caso é que se trata de minha mulher e que ela andou trepando com algum sacana
(lá onde amigos são amigos...)
Quando eu não estava em casa e quando o Tad estava na escola.
As imagens tornavam a se desenrolar no seu espírito. Via lençóis amarrotados, corpos abraçados, gemidos baixos. Frases feias e termos terríveis amontoavam-se em sua mente como se fossem um bando de tarados observando um acidente: que xoxota cabeluda, deixa eu meter o ferro nela, segura meu pau, isso, mexe bem, se arreganha toda, deixa eu meter dentro de você...
Dentro de minha mulher!, ele pensava, as mãos trançadas, agoniado. Dentro de minha mulher! E ficava repetindo aquilo em pensamento.
Acontecia, no entanto, que a parte ultrajada de sua personalidade reconhecia, bem contra a vontade, que ele não devia voltar para a casa com o intuito do espancar Donna. O que melhor poderia fazer, no entanto, seria apanhar o filho e ir embora com ele. Não precisaria dar explicações. Ela jamais. teria coragem de se opor a ele, aliás, sabia que Donna jamais o faria. Ele e o filho iriam para um motel e depois ele procuraria um advogado. O que tinha a fazer era cortar o cordão umbilical bem direitinho, sem olhar para trás.
Era preciso levar em conta também que, se agisse assim, o filho ficaria apavorado e
havia de querer explicações. Tinha somente quatro anos, mas aquilo já era o bastante para saber quando alguma coisa estava terrível e irremediavelmente. errada. era preciso também não esqucer a viagem e Boston, Nova York e Cleveland. Ele agora já não dava a mínima importância a viagem. No que lhe dizia respeito, o velho Sharp e seu garoto podiam ir para o inferno. Mas ele não estava sozinho no negócio. Precisava pensar em seu sócio. Um sócio que tinha mulher e filhos. Até mesmo naquelas condições de completo desespero, Vic reconhecia a sua responsabilidade e o seu dever de tudo fazer para não perder aquele cliente, já que com isso salvaria também a agência.
E embora não quisesse fazer a pergunta, ela continuava ali:
Qual seria, a verdadeira razão para ele querer tirar o filho e ir embora sem mesmo ouvir Donna em tudo aquilo? Seria porque a sua prevaricação estaria prejudicando a moral do filho? Ele achava que isso não acontecia. O pensamento só lhe ocorrera porque. achava que aquele era o caminho mais certo para magoa-la tanto quanto ele se sentia magoado agora. O melhor meio para faze-a sofrer seria por intermédio do filho. Mas estaria ele disposto a magoar o filho transformando-o emocionalmente em um objeto inanimado? Ele também achava que essa não era a sua vontade.
„Era claro que já nada mais havia. Aquele cara que lhe enviara o bilhete devia estar
completamente louco.
Teria ele sido chutado por Donna?
Ele procurava ver tudo aquilo de uma outra forma, mas nada conseguia. Depois de despida da força do impacto chocante, aquela frase, GOSTEI MUITO DA TREPADA, era a clássica demonstração do cara que fora desprezado. Era típico do cara que, vendo a coisa. perdida, resolvia cuspir no prato em que comera. Era uma coisa ilógica, mas causava satisfação. A atmosfera mais tranqüila que notara em casa ultimamente, também confirmava isso. A satisfação e tranqüilidade que Donna irradiava chegava a ser palpável. Ela chutara o cara e ele revidara com a carta anônima ao marido.
E havia ainda a última pergunta. Faria aquilo alguma diferença?
Tirou do bolso o bilhete e ficou com ele na mão, virando-o e revirando-o em todos os sentidos. Olhava para o Frisbee vermelho que cortava o céu, tentando encontrar uma resposta. Que diabo iria ele fazer agora?
Deus do céu! O que é isto aqui? — Joe estava de queixo caído e as palavras
escapavam-lhe quase sem qualquer inflexão. Estava de pé na porta, olhando para a mulher. Charity estava arrumando o lugar dele na mesa do jantar. Ela e o filho já haviam jantado. Ele chegara com o caminhão cheio de coisas e ia entrar com ele, no galpão, quando dera de cara com aquilo.
— É um guincho.
Charity tinha mandado o filho para a casa de seu amiguinho Davy. Não queria que ele estivesse presente se a coisa não desse certo.
— Foi o Brett que me disse que você estava precisando muito de um guincho, Joe. É um Jórgen...
Joe entrou na oficina. Era um sujeito magro, mas de físico farto, nariz adunco e um andar ágil. Estava com o chapéu de feltrô verde atirado para trás, deixando ver uma calvície incipiente. Tinha uma mancha de graxa na testa. Seu hálito recendia a cerveja. Os olhos azuis eram duros e pequenos. Era um homem que não gostava de surpresas.
— Estou esperando uma resposta, Charity...
— Sente se.. O seu jantar vai esfriar.
Ele esticou o braço e agarrou-a com força.
— Estou esperando uma resposta. Que porra você andou fazendo?
— Não use essa linguagem comigo, Joe. Contenha-se!
Ela sentia doer o braço, mas não queria que ele percebesse. Não queria dar-lhe essa satisfação. Ele procedia como um animal e embora ela gostasse de seus modos quando era jovem, aquilo já são acontecia mais. Durante os anos de casamento ela concluiu que poderia ficar por cima algumas vezes, desde que se mostrasse corajosa. Isso não acontecia sempre, mas às vezes dava resultado.
— Só quero que você me diga, Charity. Que diabo você andou fazendo?
— Só farei isso depois que você se sentar para jantar. — Ela falava sem perder a calma.
Joe sentou-se e ela foi buscar o prato dele, onde havia um bom filé.
— E desde quando nós podemos nos dar ao luxo de comer como os Rockefellers? Só quero que me explique bem tudo isso!
Ela trouxe-lhe o café e uma batata assada, já cortada.
— Você estava precisando de um guincho, não estava?
— Nunca disse que não precisava. Claro que preciso, mas não tenho dinheiro para me dar a esse luxo.
Ele começou a comer sem tirar os olhos dela. Charity sabia que não ia ser brutalizada
agora. Tinha que aproveitar enquanto ele ainda não estava bêbado. Talvez a espancasse quando voltasse do bar, com a cara cheia, arrotando vodca e sentindo-se ferido em seu orgulho de macho.
Ela sentou-se bem na sua frente.
— Tive o meu bilhete sorteado na loteria... Joe parou de mastigar durante um breve instante, mas logo recomeçou, enchendo a boca
com a carne.
— Claro. E então, amanhã, o velho Cujo que ali está vai começar a cagar botões de ouro
em quantidade...
Enquanto falava, Joe apontava com o garfo para o cão, que andava de um lado para
outro e mostrava-se inquieto. Brett não gostava de levá-lo quando ia visitar seu amigo. Eles criavam coelhos e aquilo deixava Cujo completamente louco.
Ela enfiou a mão no bolso do avental e tirou a cópia do recibo que lhe dera o funcionário
da loteria. Entregou-o ao marido.
Ele colocou o papel em cima da mesa e alisou-o bem antes de examiná-lo
cuidadosamente, de todos os lados. Os seus olhos estavam fixos na importância do prêmio.
— Cinco... — Não acabou o que queria dizer e fechou a boca com um estalo. A mulher observava-o, calada. Ele estava muito sério. Não se deu ao trabalho de fazer a volta na mesa para lhe dar um beijo. Para um cara desconfiado como o marido, pensava ela amargamente, um golpe de sorte assim só podia significar que algo mais ainda estava para vir.
— Então você ganhou cinco mil dólares...
— É isso aí... menos os impostos, é claro. — Desde quando você anda comprando bilhetes? — Compro um todas as semanas. São só 50 centavos... e não me venha com
reclamações, Joe, parque isso é muito menos do que você gasta com suas bebidas.
Os olhos muito azuis dele nem pestanejavam.
— Cuidado com o que diz, Charity! Cuidado com essa boca, para que ela não fique
muito inchada de repente.
Ele atirou-se novamente ao bife e ela sentiu-se aliviada. Charity provocara o tigre pela
primeira vez sem sair mordida. Pelo menos isso ainda não acontecera.
— E quando é que vamos receber esse dinheiro?
— Receberemos o cheque dentro de duas semanas, mais ou menos. Tirei dinheiro da
poupança para comprar o guincho. Este papelzinho aqui vale tanto quanto ouro, conforme me disse o funcionário da loteria.
— E então você saiu e comprou o guincho, hem?
— Perguntei ao Brett para saber o que você precisava mais. É um presente meu. — Obrigado. — Ele continuava a comer. — Dei um presente a você, Joe, e agora quero que você também me dê um. Ele continuava a comer ao mesmo tempo que não tirava os olhos dela. Estava calado.
Não havia em seus olhos a menor expressão Comia com o chapéu ainda na cabeça, atirado para trás.
Ela falou-lhe devagar, com muita decisão, sabendo que seria um erro se precipitasse as
coisas.
— Quero ir passar uma semana com minha irmã e todo o seu pessoal. Quero levar o
Brett também.
— Não —, respondeu ele secamente e continuou a comer. — Podemos ir de ônibus e ficar na casa deles. Será mais barato. Ainda vai sobrar muito
dinheiro. Um dinheiro que caiu do céu. Custaria a terça parte do preço que paguei pelo guincho. Talvez menos. Já telefonei para a empresa a fim de saber quanto custa a passagem de ida e volta...
— Não. Preciso de Brett aqui para me ajudar.
Ela cruzou as mãos embaixo da mesa, mal podendo conter a fúria que sentia, mas seu rosto estava; impassível.