Cão Raivoso
Naquilo que dizia respeito aos sofrimentos, nunca…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
—Sim, sim, mas isso é seu.
— Uma porra que é, Roger. Fico nervoso só de pensar naquelas calças vermelhas e sapatos brancos. Tenho vontade de olhar no armário e ver se encontro uma bandeja para o cara ir servir
sanduíches. à
— Isso não tem importância. Nenhum deles representa uma décima parte do que ganhamos com a Sharp. E o que mais você quer que eu diga? Você conhece o Sharp e ele vai querer falar com nós dois. Quer ou não que eu lhe reserve uma passagem?
O pensamento daqueles 10 dias, cinco em Boston e cinco em Nova York, fazia Vic suar frio. Ele e Roger tinham trabalhado para a Agência Ellison, de Nova York, durante seis anos. Vic possuía agora uma boa casa em Castle Rock e Roger e sua mulher Althea moravam ali pertinho, em Bridgton, que ficava apenas a uns sete quilômetros de Castle Rock.
Para Vic aquilo tinha sido um caso de nunca mais olhar para. trás. Ele sentia-se como se jamais houvesse vivido plenamente, como se jamais realmente soubesse qual era o. seu destino até a mudança para o Maine com a família. Agora ele alimentava um sentimento mórbido de que Nova York estivera sempre à sua espera, naqueles últimos três anos, para tomar a pegá-lo em suas garras. O avião deslizaria na pista quando chegassem lá e seria logo envolvido na fogueira do seu combustível. Também poderia haver uma batida na Triborough Bridge que deixaria o seu táxi amassado como se fosse uma sanfona toda ensangüentada. Seria certamente vítima de um assaltante, que lhe meteria um revólver na cara e dispararia à queima-roupa. A tubulação de gás ia explodir e ele seria decapitado pela tampa de um bueiro que sairia voando em sua direção. Alguma coisa ia acontecer. A cidade o mataria logo que ele voltasse para ela.
Ele largou o sanduíche, no qual dera apenas uma dentada.
— Olhe aqui, Roger, você alguma vez já pensou que não seria o fim do mundo se nós perdêssemos mesmo a conta da Sharp?
Roger encheu com cerveja o copo que tinha à sua frente.
— É claro que o mundo continuará a existir, mas será que isso também acontecerá conosco? No que me diz respeito, ainda tenho dezessete anos pela frente numa hipoteca de vinte e tenho as minhas gêmeas que só pensam na Academia de Bridgton. Você também tem a sua hipoteca e também tem o seu garoto, além daquele velho Jaguar, tipo esporte, que
vai lhe dar ainda muita aporrinhação.
— Eu sei Roger, mas a economia local...
O outro foi tomado de súbita indignação e bateu fortemente com o copo na mesa.
— Eu quero que a economia local se dane, Vic.
Um grupo do quatro pessoas sentou-se na mesa ao lado. Três deles estavam com camisas de tênis e o outro vestia uma camiseta já bem desbotada e que trazia no peito a legenda DARTH VADER É BICHA. Os quatro logo começaram a aplaudir.
Roger fez-lhes um sinal do impaciência com a mão e inclinou-se ainda mais para Vic.
— Não vamos permitir que isso aconteça fazendo a campanha Você Prefere Amoras e a dos corretores do Maine; e você sabe disso muito bem. Se perdermos a conta da Sharp, nós vamos direitinho para o fundo sem fazer onda. Por outro lado, se conseguirmos parte dela nos próximos dois anos poderemos contar com o. Departamento de Turismo e até mesno, quem sabe, consigamos alguma coisa com a loteria do Estado, se ela, até lá, ainda estiver: de pé. São coisas bem gostosas Vic. Ai então já poderemos dar uma banana para o Sharp o seus nojentos cereais e tudo terá um final feliz. O lobo mau poderá então ir bater em outras portas para conseguir o seu jantar...
— Mas tudo isso depende da condição de podermos ainda guardar alguma coisa até lá.... e isso me parece bem difícil do acontecer.
— Ainda assim, acho que vale a pena tentar, amigão.
Vic ficou em silêncio, olhando para o sanduíche que já estava frio. Aquilo não era justo, mas elo poderia aturar. O que lhe doía mesmo era a absurda loucura daquela situação. Aquilo tudo viera de. repente, sem o menor aviso, como um ciclone surgindo de um céu completamente limpo e trazendo morte e destruição para, em seguida, desaparecer completamente. Ele, Roger e a firma de publicidade dos dois poderiam estar entre as vítimas, apesar de todos os esforços para evitar a catástrofe; e ele percebia aquilo no rosto redondo do amigo e sócio, que nunca se mostrara tão sério e determinado desde a ocasião em que havia perdido o seu filho Timothy, quando o menino tinha apenas nove dias. Três semanas depois, ele se entregara e rompera em prantos com as mãos no rosto, numa espécie de desespero terrível que deixara Vic realmente aflito. Fora um desastre e ele imaginava que a mesma coisa estava acontecendo ao perceber o pânico incipiente nos olhos de Roger.
De tempos cm tempos, sem que ninguém soubesse de onde vinham, os ciclones assolavam o mundo publicitário. As grandes firmas, como a Agência Ellison, por exemplo, cujo faturamento andava na casa dos milhões, podiam agüentar o rojão, mas isso já não acontecia de forma alguma com a Ad Worx, a firma dos dois. Eles tinham possuído uma cesta com uma quantidade de pequeninos ovos e uma outra onde só havia um ovo grande, que era .a conta da Sharp. E agora só restava saber se haviam perdido ou não o ovo grande, ou se ainda poderiam fritá-lo. A culpa não fora, de forma alguma, de nenhum deles, mas as agências de publicidade são mestras em fabricar adoráveis bodes expiatórios.
Vic o Roger tinham formado uma dupla perfeita e natural desde que trabalhavam juntos na Agência Ellison, seis anos antes. Vic era alto, magro e muito calmo, mas combinava muito bem com o gênio extrovertido de Roger. Davam-se maravilhosamente bem, tanto nas relações pessoais quanto profissionais. O primeiro contrato deles fora um tanto pequeno: uma campanha através de uma revista em favor de deficientes mentais.
Haviam apresentado um anúncio em preto e branco, mostrando um garotinho enfiado num imenso aparelho ortopédico, de pé na linha da primeira base de um campo de beisebol da Pequena Liga. Trazia na cabeça, inclinado para o lado, um boné de um clube. de Nova York e a sua expressão nada tinha de triste. Parecia apenas um tanto sonhadora. Vic, aliás, sempre afirmara que conseguira o contrato graças àquela expressão do garotinho que, na realidade, era quase de completa felicidade. A legenda do anúncio dizia apenas BILLY BELLAMY NÃO SE ENTREGARÁ NUNCA. Embaixo disso estava escrito BILLY É UM DEFICIENTE. E ainda mais abaixo, em letras menores: Ajudem-nos, por favor.
Os donativos para a campanha logo aumentaram e aquilo foi uma coisa boa para todos
os interessados. Os dois já estavam em plena ação. Depois, tinham conseguido mas algumas campanhas muito bem-sucedidas. Vic cuidava da concepção e seus detalhes o Roger se encarregava da execução,
Para a Sony Corporation eles fizeram o retrato do um homem com as pernas cruzadas, numa das pistas centrais de uma rodovia de alta velocidade com 16 pistas, em trajes formais, com um grande rádio Sony no colo e um sorriso beatífico nos lábios. A legenda dizia: FAIXA DA POLÍCIA, OS ROLLING STONES, VIVALDI, MIKE WALLACE, THE KINGSTON TRIO, PAUL HÁRVEY, PATTI SMITH, JERRY FALWELL. E por baixo disso tudo: HELLO-LA!
Para o pessoal da Voit, fabricantes de material para natação, o anúncio mostrava um
homem que era a antítese completa dos garotões das praias de Miami. Ele se mostrava de pé, com ar muito arrogante, numa praia ensolarada de algum paraíso tropicaL Era um cara de 50 anos, todo tatuado, barrigudo, com os músculos dos braços e das pernas como se fossem pelancas e uma cicatriz no alto de uma das coxas. Era um aventureiro já bem castigado pelo tempo que abraçava um calção de banho Voit e cuja legenda dizia: OLHE AQUI, MEU CHAPA. SOU MERGULHADOR PROFISSIONAL. FAÇO ISSO PARA GANHAR A VIDA.- NÃO CORRO - ATRÁS DE GAROTAS. Havia muita coisa mais escrita por baixo, coisas que Roger classificava como o blablablá, mas o cartaz mostrava o retrato de um verdadeiro cavador. Os dois haviam desejado acrescentar EU NÃO ANDO TREPANDO POR AÍ, mas o pessoal da Voit não tinha concordado. Quando se sentavam para beber alguma coisa, Vic sempre achava que fora uma pena a recusa, já que estava certo de maior sucesso nas vendas se houvessem aceitado a sugestão.
E havia também a Sharp.
A Companhia Sharp, de Cleveland, tinha tirado o décimo segundo lugar numa
competição nacional de bolos e biscoitos quando o velho Sharp se decidiu a recorrer, bem contra sua vontade, à Ellison de Nova York, depois de haver usado uma agência de sua cidade durante muitos anos. O velho gostava de dizer que a Sharp tinha sido maior do que a Nabisco antes da Segunda Guerra Mundial, mas seu garoto também não se cansava de dizer-lhe que já fazia mais de 30 anos que aquela guerra terminara.
A conta coubera então a Vic Trenton e Roger Breakstone, para um período experimental
de seis meses, ao fim do qual a firma saltara do décimo segundo lugar para o nono na venda de bolos, biscoitos e cereais. Um ano mais tarde, quando os dois sócios já se haviam mudado para o Maine, onde abriram sua própria agência, já a Sharp estava em sétimo lugar.
A campanha organizada por eles tinha sido um sucesso. Para os produtos Sharp os dois
haviam criado a figura de Sharps Kid, um pavoneado justiceiro do Oeste, cujos revólveres atiravam biscoitos ao invés de balas — uma cortesia da equipe de efeitos especiais. Havia coisas parecidas para todos os outros produtos da companhia, mas em todas elas aparecia sempre o velho justiceiro, de rev6lver em punho e um monte de biscoitos no chão; A legenda dizia: “É isso aí, pessoal. Os bandidos caíram fora. Mas eu fiquei com os biscoitos. Os melhores que existem no Oeste... e talvez até mesmo, em - todo o mundo.” E aquilo era repetido todas as manhãs para milhões de americanos. Sharp Kid aparecia dando uma dentada num biscoito e a sua expressão sugeria que estava sentindo — gastronomicamente falando — o equivalente ao primeiro orgasmo de um garoto. E então vinha o jade-out na TV.
Para os bolos instantâneos — 16 variedades que iam desde bolo inglês a farelo para queijada — havia o anúncio a que Vic dava o nome de George e Gracie. Consistia num lento fade-in de George e Gracie abandonando um jantar de gala, onde a mesa das iguarias quase não suporta o peso de tantas coisas gostosas. Então começa a aparecer um apartamento pobre, pequenino e mal iluminado. George está sentado na mesa da cozinha muito simples, coberta por uma toalha de xadrez. Aí então chega Gracie, que tira do congelador um dos bolos da Sharp e coloca-o em cima da mesa. Os dois estão em trajes de rigor. Sorriem um para o outro numa demonstração de caloroso amor, de gente que se compreende em todos os sentidos. Surge então a legenda em preto: HÁ MOMENTOS SM QUE AS PESSOAS SÓ QUEREM MESMO UM BOLO SHARP. Em todo o anúncio não se fala uma única palavra. Eles ganharam um prêmio com este comercial
O mesmo aconteceu com o anúncio do Professor dos Cereais Sharp, considerado nos meios publicitários como “o anúncio mais responsável jamais produzido para horário infantil”. Os dois sócios aliás, também o consideravam como o ponto mais alto de suas car-reiras de publicitários... mas agora era o próprio Professor quem tinha voltado para persegui-los.
Representado por um ator cinqüentão especializado na criação de tipos, o anúncio do Professor dos Cereais Sharp era sóbria e ousadamente adulto em meio a um cipoal de incrementados comerciais para a garotada, anunciando chicletes de bola, brinquedos pro-digiosos, bonecas, figuras mecânicas... e os cereais concorrentes.
O anúncio abria num fade-in mostrando uma sala de aula deserta, cenário com o qual prontamente se identificavam os telespectadores de PernaLonga, Papa-Léguas e outros desenhos das manhãs de sábado. O Professor usava terno, suéter em V e uma camisa de colarinho aberto. Era uma figura suavemente autoritária tanto na aparência quanto no que dizia. Vic e Roger tinham entrevistado uns 40 professores e uma meia dúzia de psiquiatras infantis, descobrindo que aquele era o modelo de pai que agradava às crianças, mas que agora se tornara uma espécie em extinção.
Ele aparecia sentado em sua mesa, sugerindo certa informalidade, e sempre falando devagar e gravemente. A idéia que devia transmitir aos jovens telespectadores era a de um autêntico companheiro escondido sob seu tweed esverdeado. Não era uma figura imponente. Não repreendia. Não procurava agradar ou convencer. Falava aos milhões de telespectadores matinais — que assistiam aos desenhos enfiados em suas camisetas e mastigando cereais — como se eles já fossem gente, gente de verdade.
“Bom dia, garotada. Isto é um comercial de cereais. Por favor, peço-lhes que me ouçam
com atenção. Conheço muita coisa a respeito dc cereais porque sou o Professor dos Cereais Sharp, cereais que vocês todos conhecem muito bem e que são os mais gostosos de todo o país. .
Uma pausa silenciosa e então o Professor dos Cereais Sharp esboçava um sorriso — e quando isso acontecia, a garotada toda sabia que ali estava um verdadeiro companheirão — e dizia:
“Peço-lhes que acreditem em mim, porque sei muito bem o que digo. A mamãe de vocês também sabe e é por isso que eu gostaria que o mesmo acontecesse com vocês .... .“
Nesse ponto entrava em cena um rapaz trazendo uma vasilha com um dos cereais da
Sharp, entregando-a ao Professor. Ele comia um pouco. Depois encarava a sua audiência em milhões de lares do país e dizia:
“Nada, nadinha de errado com isto aqui....”
O velho Sharp, aliás, não gostava de tal afirmação, já que não podia sequer conceber a
idéia de haver qualquer coisa errada com os seus cereais. Os dois sócios, no entanto, tinham conseguido convencê-lo a muito custo, embora sem usar argumentos racionais. Aliás, a produção de anúncios nada tinha de racional. Era freqüente um publicitário fazer alguma coisa que parecesse certa, mas isso não significava que ele compreendesse a razão para isso. Vic e Roger achavam que aquelas últimas, palavras do Professor tinham urna força simples o enorme. Quando o Professor afirmava aquilo, o resultado era uma sensação de conforto e segurança para todo mundo. Implicava a afirmação de que ele jamais aconselharia alguma coisa que fizesse mal. Num mundo em que os pais se divorciavam, em que os garotos mais velhos maltratavam os mais novos sem qualquer motivo racional, em que os times infantis adversários venciam sempre, em que os bons nem sempre saíam ganhando, como acontece na TV, em que os convites para as boas festas do aniversário não apareciam, num mundo, enfim, onde tanta coisa errada acontecia, sempre haveria de bom os produtos gostosos da Sharp, para compensar as coisas ruins.
“Nada, nadinha de errado com isto aqui”...
Com uma pequena ajuda do garoto de Sharp, o conceito do Professor dos Cereais foi
finalmente aprovado e passou a saturar as manhãs de sábado na TV, além de figurar também em muitos outros programas em cadeia que cobriam o país. Mais tarde, Roger diria que o garoto Sharp estava convencido de que a idéia fora sua. Os cereais da companhia passaram a liderar as vendas, que ultrapassavam todas as suas outras linhas de produção. O Professor dos Cereais tornou-se uma instituição americana. Aquela sua afirmativa final passou a ser usada nos mais variados sentidos. Estava na boca de todo mundo e significava mais ou menos o mesmo que “Fique calmo” e “Não se afobe”.
Quando os dois resolveram fundar a própria firma, tiveram o máximo cuidado para
observar rígorosamente o protocolo e não procurar nenhum dos clientes que tinham na Agência Ellison, da qual se desligaram formal e amistosamente. Os primeiros seis meses em Portland tinham sido de meter medo e todos viviam muito tensos. Tad tinha apenas um ano. Donna sentia muita falta de Nova York e mostrava-se emburrada, petulante ou simplesmente apavorada. A antiga ulcera de Roger, conquistada em suas batalhas nas guerras publicitárias nos mais altos escalões, reapareceu com força redobrada quando o casal perdeu o filho e ele vivia enchendo-se do remédios. Althea ia se mantendo da melhor forma que podia, dados as circunstâncias, na opinião de Vic, mas foi Donna quem chamou a sua atenção para o fato da plácida Althea ter passado um drinque bem fraco antes do jantar para dois e a seguir para três. Os dois casais já haviam passado férias no Maine, juntos o separados, mas tanto Víc como Roger nunca chegaram a reparar no número de portas que permaneciam fechadas, para os que se mudavam para o Maine e que o pessoal do Estado classificava como “gente de fora”.
Roger dizia sempre, e com razão, que eles teriam naufragado se a Sharp não houvesse resolvido acompanhá-los. Na sede da companhia, em Cleveland, ocorrera uma irônica troca de posições. Agora era o velho que insistia em continuar com eles, enquanto seu garoto, agora com 40 anos, se opunha e achava, com alguma lógica, que seria loucura contratarem a publicidade com uma firma insignificante que distava quase mil quilômetros de distância de Nova York, a cidade que, sem dúvida alguma, era o centro das atividades do país. O fato da nova Ad Worx ser afiliada a uma importante firma analista de mercado de Nova York não valia muita coisa para outras empresas que haviam sido clientes deles em várias campanhas nos últimos anos.
Roger costumava exprimir seu pensamento em palavras bem sensatas.
— Se a fidelidade fosse papel higiênico, meu chapa, teríamos sérias dificuldades para limpar nossos traseiros.
A Sharp, no entanto, resolvera ajudá-los, fornecendo-lhes a margem de que precisavam desesperadamente. O velho Sharp argumentava com seu garoto, fazendo-lhe ver que haviam prosperado com a agência em Nova York durante 40 anos, mas agora, “se aqueles dois rapazes tiveram coragem bastante para abandonar aquela cidade sem religião, eles estão provando que possuem um grande bom senso”.
E então ficara decidido. O velho falara. O garoto calara-se. E assim, durante os últimos dois anos e meio, Sharp Kid continuara a atirar biscoitos; George e Gracie continuaram a comer os bolos no seu apartamento e o Professor dos Cereais continuava a dizer a mesma coisa. Os comerciais eram produzidos por um pequeno estúdio independente de Boston e a firma analista de mercado de Nova York continuava a trabalhar satisfatoriamente. Três ou quatro vezes por ano um deles voava até Cleveland para conversar com Carroll Sharp e seu garoto — garoto este já começando a ficar grisalho nas têmporas. Todos os outros negócios entre eles e a firma ficavam a cargo dos Correios dos Estados Unidos e da velha Bell Telephone Company. O processo poderia ser estranho, era realmente complicado, mas funcionava bem.
E fora então que surgira a Red Razberry Zingers.
Já fazia algum tempo que os dois sócios tinham conhecimento de sua existência, embora eles só houvessem aparecido no mercado uns dois meses antes, em abril de 1980. A maior parte dos cereais da Sharp tinha pouco açúcar, ou até mesmo nenhum. A companhia fora muito bem-sucedida quando lançara um cereal “natural”. A Red Razberry Zingers, no entanto, apresentava-se ao mercado com uma linha mais adocicada, destinada aos que preferiam tal sabor e que constava de cereais preparados e situados numa zona intermediária muito próxima das balas e doces.
No final do verão e no princípio do outono de 1979, a Zingers lançara os seus produtos experimentalmente nos mercados de Boise,. Idaho, Scranton, Pensilvânia e em Bridgton, a cidade adotiva da Vic, no Maine, sendo bem acolhida em toda parte. Roger simples-mente dera de ombros e dissera a Vic que as gêmeas nunca provariam aquilo, de forma alguma, embora se mostrasse satisfeito quando a mulher lhe dissera que as crianças tinham insistido em provar os novos cereais logo depois de os verem em exposição no Mercado Gigeure.
— São bem mais açucarados do que os cereais integrais e têm melhor apresentação, vermelhos como sangue.
Vic apenas sacudira a cabeça e observara inocentemente, sem que. a sua opinião pudesse ser considerada como uma profecia.
— A primeira vez que vi uma daquelas caixas, pensei que estava cheia de sangue.
— E então? O que é que você acha, Vic?
Roger repetiu a pergunta quando já estava na metade de seu sanduíche, ao mesmo tempo em que Víc pensava no que estava acontecendo. Ele se convencia cada vez mais que, em Cleveland, o velho Sharp e seu idoso garoto estavam novamente pensando em matar o mensageiro por causa da mensagem.
— Acho que sempre é melhor tentarmos, Vic.
Rogar deu-lhe uma palmada nas costas e disse-lhe que o melhor mesmo era tratar de comer.
Só que Vic não tinha fome.
Os dois tinham sido chamados a Cleveland “para uma reunião da emergência” que teria lugar três semanas depois do Quatro de Julho. Grande parte dos representantes regionais da Sharp, bem como alguns executivos, estavam de férias e sempre levaria algum tempo para reunir a todos. Um dos itens da agenda referia-se diretamente Ad Worx, dizendo que se tratava “de uma avaliação da associação” até aquele momento”. Daí Vic presumia que o garoto estava se aproveitando do fracasso da Zingers para, finalmente, se verem livres da concorrência.
Cerca de três semanas depois da Ziugers ter entrado no mercado em âmbito nacional e com grande entusiasmo — se bem que sombriamente — com o caminho aberto pela frase do Professor dos Cereais, a primeira mãe apareceu num hospital com sua fllhinha, quase histérica, que a menina estava com uma hemorragia interna. A garotinha, vítima apenas de um vírus sem importância, tinha vomitado alguma coisa que a mãe julgara ser sangue em grande quantidade.
“Nada, ,nadinha de errado com isto aqui.. .“
O caso acontecera em Iowa City e, no dia seguinte, apareceram mais seto casos. Mais um dia e foram 24 ocorrências. Em todos os casos os pais, assustados com os vômitos o diarréias, tinham corrido para os hospitais imaginando que se tratasse dc hemorragia interna. Depois disso os casos tinham assumido proporçôes assustadoras e as centenas logo chegaram a milhares. Em nenhum dos casos aquilo fora provocado pelos cereais, mas isso geralmente não era levado em conta pelo, crescente furor dos pais
“Nada, nadinha de errado com isto aqui..
Os casos existiam em todo o país, do Atlântico ao Pacífico, e o problema era a anilina
usada pela Zingers a fim de justificar a cor vermelha de seu nome (Red Zingers). A anilina em si era completamente inócua, mas ninguém dava atenção a isso. Agora havia alguma coisa errada. O corpo humano se recusava a assimilar a anilina o simplesmente rejeitava-a. A anilina imprópria só tinha sido usada numa remessa de cereais, mas fora o suficiente para causar toda aquela confusão. Um médico disse a Vic que quando fizessem a autópsia de uma criança que morresse depois de comer um prato do cereal vermelho da Zingers, os legistas iriam verificar que seus intestinos estavam tão vermelhos como a luz de um sinal de trânsito. Aquele efeito era apenas temporário, mas ninguém queria sabor desse detalhe.
Roger queria que eles afundassem com todos os seus canhões atirando, no caso do afundarem mesmo. Ele havia proposto uma maratona do conferências com a firma de Boston que produzia os filmes. Também queria ter uma conversa com o próprio Professor de Cereais da Sharp, que se envolvera tanto em seu papel até chegar a um ponto de se sentir mental o emocionalmente perturbado com o que estava acontecendo. Depois iria para Nova York, a fim de conversar com o pessoal encarregado das análises de mercados. O mais importante de tudo era o fato do serem obrigados a ficar duas semanas no Ritz-Carlton de Boston e no Plaza do Nova York, duas semanas em que os dois estariam sempre juntos para digerir o que haviam descoberto e usando a cabeça, como faziam nos velhos tempos. A esperança de Roger quanto ao resultado de tudo aquilo era uma intensa campanha de esclarecimentos que iria dar o que fazer ao velho Sharp e seu garoto. Em lugar de aparecerem em Cleveland com os pescoços já raspados e prontos para a lâmina da guilhotina, eles iriam surgir com planos de batalha destinados a inverter os efeitos do fracasso espetacular da Zingers. Aquela era a teoria. Na prática, porém, os dois sabiam muito bem que as probabilidades eram extremamente reduzidas, dadas as circunstâncias.
Vic, porém, tinha outros problemas. Durante os últimos oito meses, mais ou menos, ele vinha sentindo a distância aumentar em sua vida conjugal. Ele continuava a amar Donna e a idolatrar seu fiilho, mas as coisas iam de mal a. pior e ele sabia que só poderia esperar que piorassem ainda mais. Eram coisas que talvez já começavam a surgir no horizonte.
Aquela viagem Boston—Nova York—Cleveland, coincidindo uma época em que eles
geralmente ficavam juntos em casa, fazendo coisas, não era realmente desejável. Quando olhava a mulher agora, via em seu rosto expressões estranhas que ainda estavam à espreita e não tinham vindo à tona.
E havia ainda a dúvida cruel. Era uma coisa que não lhe saía da cabeça o que lhe tirava o
sono; e isso se tornava cada voz mais freqüente. Teria ela um amante? Já não dormiam juntos agora. Teria ela chegado a esse ponto? Ele esperava que não, mas, na realidade, em que pensava ele? Fale a verdade, Sr. Trenton, ou então será obrigado a sofrer as conseqüências.
Vic não tinha certeza. Não queria ter certeza. Temia que isto seria o fim do casamento,
se fosse verdade mesmo. Ainda estava loucamente apaixonado por ela. Jamais lhe passara pela cabeça a idéia do lhe ser infiel. Estava disposto a perdoar-lhe muita coisa. Só não queria ter chifres em sua própria casa. Não há quem goste de ter chifres. Eles crescem e servem de chacota para as crianças.Ele...
— O que foi que disse Roger? Não ouvi bem. — disse Vic, despertando de seus devaneio.
— Eu disse exatamente que aquele maldito cereal vermelho era uma porcaria. Foram essas as minhas palavras, Vic.
— São mesmo, Roger. Vamos levantar um brinde a ele.
Roger levantou o copo de cerveja.
— Boa idéia, Vic. Faça isso.
E foi o que Víc fez.
Cerca de uma semana depois daquela triste conversa de Vic com Roger no Submarino Amarelo, Gary Pervier estava sentado no seu descuidado gramado no fundo da colina Seven Oaks, na Rodovia n9 3. Tinha na mão um copo de suco de laranja misturado com vodca e aproveitava a sombra de um velho olmo já nas últimas, vítima de uma praga que assolava a região. Sentava-se numa cadeira comprada na Sears, que também estava com os dias contados. A vodca que usava era a Popov porque custava menos que qualquer outra. Comprara um bom estoque da bebida em New Hampshire, onde as bebidas eram sempre mais baratas. A Popov era também a mais barata no Maine, mas seu preço não se comparava com o do outro Estado, cuja fonte de renda eram as coisas boas da vida como, por exemplo, a loteria estadual, que dava gordos prêmios, a bebida mais barata do que em qualquer outro lugar, o mesmo acontecendo com os cigarros e também as atrações turísticas. New Hampshire era mesmo um Estado bacana!
A cadeira fora aos poucos se enterrando no gramado maltratado, o mesmo acontecendo com a casa que se via lá atrás, com sua tinta cinzenta descascando e o telhado decrépito. As janelas estavam desengonçadas e a chaminé inclinava-se como se fosse um bêbado tentando levantar-se. As telhas, feitas de lascas de madeira, e que tinham sido arrancadas na última ventania que passara por ali, ainda estavam penduradas no olmo moribundo. Gary costumava dizer que sua casa não era, certamente, o Taj Mahal, mas não ligava merda nenhuma para isso.
Naquele dia de fins de junho, tremendamente quente, Gary estava completamente bêbado, como de hábito. Ele não conhecia Roger, não conhecia Vic como também não conhecia Donna. Para ele não havia diferença alguma entre aqueles visitantes e um monte de bosta; e mesmo que os conhecesse sua opinião seria ainda a mesma. Conhecia a família Camber e o cão Cujo e sabia que moravam também ali perto da Rodovia n9 3. Ele e o Joe estavam acostumados a beber juntos e, de uma forma um tanto nebulosa, ele chegava a perceber que o velho Joe estava a caminho da condição de alcoólatra, caminho esse que Gary já conhecia muito bem.
Gary costumava dizer para os passarinhos e para as telhas penduradas no olmo que o outro era apenas “uma porcaria, um bêbado, para quem ele estava cagando”. Levou o copo à boca e soltou um peido. Matou um inseto. Seu rosto estava banhado pelo sol e pela sombra. Lá por trás da casa havia uma quantidade de carros desmontados que quase desapareciam no meio do capim já bem alto. A hera que crescia num dos lados da casa já pouco faltava para tomar conta dela. Uma das janelas estava aberta e nos dias de sol ela brilhava como se fosse um diamante sujo. Dois anos antes, na fúria de uma bebedeira, ele arrancara uma escrivaninha de uma das salas do sobrado, atirando-a pela janela. Mas já não se lembrava mais por que fizera aquilo. Ele mesmo colocara outra vidraça na janela para se prevenir contra o inverno que estava próximo, mas a mesa continuava ali mesmo no lugar em que caíra, com uma de. suas gavetas abertas como se fosse uma língua estirada para fora.
Em 1944, quando ainda tinha 20 anos, ele atacara e tomara sozinho um ninho de metralhadoras na França e depois ainda comandara o que sobrara de sua companhia, levando-os para bem longe, antes de cair desmaiado com seis ferimentos de balas das metralhadoras que tomara dos alemães. Esse feito valeu-lhe uma das mais altas condecorações do país, a Cruz do Mérito. Em 1968, ele procurou seu velho camarada Torgeson, em Castle Falls, para pedir-lhe que transformasse a cruz em um cinzeiro; diante do espanto do amigo, ainda acrescentou que o seu verdadeiro desejo era fazer dela um vaso sanitário, se não fosse tão pequena para isso. Queria um vaso onde pudesse dar uma boa cagada. O outro logo espalhou a notícia e isso talvez fosse mesmo o que Gary queria, como também podia ser que não fosse.
Do qualquer forma, aquele seu gesto deixara loucos de admiração todos os hippies do lugar. No verão de 68, a maioria deles estava gozando as férias na Região dos Lagos, em companhia dos pais milionários, antes de voltarem para as suas universidades em setembro, onde, aparentemente, se aprimoravam em Protestos, Pó e Putaria.
Depois de Torgeson haver transformado a cruz em cinzeiro, uma versão do caso chegou ao conhecimento do Call de Castle Rock. Foi um repórter local quem escreveu o artigo e deu ao gesto de Gary o significado de um protesto contra a guerra. E foi aí que os hippies começaram a aparecer na casa da Rodovia n9 3, onde muitos deles tentaram convencê-lo do que ele era mesmo “o tal”. Outros achavam que ele era mesmo da “pesada”, mas ainda havia outros achando que ele não passava de um merda que estava exagerando.
A todos eles Gary mostrava sempre a mesma coisa e isso era uma Winchester -30-.06, que usava a fim de espantá-los de sua propriedade. No que lhe dizia respeito, todos aqueles caras nada mais eram senão um conjunto de cabeludos sujos e piolhentos com tendências comunistas. Disse-lhes claramente que, para ele, tanto fazia se ficassem em Castle Rock ou se resolvessem se mandar para Fryeburg. Depois de algum tempo, eles desistiram e não aparece-ram mais e isso foi o fim do caso da Cruz do Mérito.
Uma das balas das metralhadoras alemãs tinha-lhe levado o testículo direito e o médico
encontrara seus pedaços ainda preso na cueca. O outro escapara em grande parte e ainda lhe prestava serviços de quando em quando, mas ele costumava dizer a Joe que aquilo não lhe fazia diferença alguma. A sua pátria agradecida concedera-lhe a famosa cruz. Tivera alta de um hospital de Paris em fevereiro de 1945 com uma pensão por ser considerado como quase inválido e uma placa de ouro num dos ferimentos das costas. A sua cidade natal, agradecida, organizara uma parada em sua homenagem no Quatro de Julho de 1945, quando ele já tinha 21 anos, já podia votar, os cabelos começavam a embranquecer nas têmporas e ele se sentia como se tivesse 700 anos. Os vereadores da cidade agradecida tinham aprovado uma lei que lhe garantia a isenção de todos os impostos sobre a sua propriedade em caráter vitalício. Aquilo fora uma boa, já que sem Isso ele teria perdido a casa 20 anos antes. Substituira a morfina, que não podia mais conseguir, pelas bebidas fortes e então preparou-se para levar a vida como queria o que consistia em se matar lentamente da forma mais agradável que lhe fosse possível.
Agora, em 1980, ele já estava com 56 anos, completamente grisalho e mais zangado do
que um touro com o cabo de um macaco de carro enfiado no cu. As únicas criaturas que ainda tolerava eram Joe Camber, seu filho Breu e o São Bernardo do menino, o enorme e manso Cujo.
Inclinou a cadeira para trás e quase chegou a cair. Bebeu mais um gole para se equilibrar. O copo em que estava a bebida fora presenteado por um dos restaurantes da cadeia McDonald"s e tinha uma espécie de animal vermelho gravado no vidro, uma coisa chamada Grimace. Gary fazia quase todas as suas refeições no McDonald"s de Castle Rock, onde ainda era possível encontrar hambúrgueres gostosos e baratos. Mas ele simplesmente cagava para o Grimace, para o Prefeito McCheese e para a porra do palhacinho Ronald.
Percebeu um vulto escuro que atravessava o capinzal e logo depois surgiu Cujo, que fazia o seu passeio habitual pelas redondezas. Latiu uma vez ao ver Gary, como se aquilo fosse um cumprimento. Depois chegou-se mais para perto, abanando o rabo.
— Venha cá, Cujo, seu velho.
Gary pôs de lado o copo e começou a procurar, metodicamente, os biscoitos de cachorro que sempre trazia nos bolsos. Sempre reservava alguns para Cujo, que era um dos bons cachorros que ainda andavam por ali. Acabou encontrando o que procurava num dos bolsos da camisa e levantou-os no ar.
—Sente-se, camarada. Sente-se...
Por mais animado ou desanimado que estivesse, a visão daquele enorme cão sentado ali ao seu lado, como se fosso um coelho, sempre o animava.
O cão sentou-se e Gary viu logo a ferida feia que ele tinha no focinho. Atirou-lhe um biscoito parecido com um osso e o cão apanhou-o no ar com dificuldade. Deixou cair um deles entre as patas e começou a roer o outro.
Gary fazia-lhe festas na cabeça, falando-lhe com carinho.
— Você é um bom cachorro, Cujo... um bom...
Cujo começou a rosnar. Era um rosnado que lhe vinha bem lá do fundo da garganta e
que quase parecia. o reflexo de um som. Ele levantou os olhos para Gary e neles havia alguma coisa fria e especulativa que causou-lhe um arrepio. Encolheu logo o braço ra-pidamente. Um cão daquele tamanho não era coisa que convidasse muito a brincadeiras, a não ser que a pessoa desejasse passar o resto da vida limpando o traseiro com um gancho.
— O que é que está havendo com você, meu chapa?
Nunca ouvira Cujo rosnar para ele durante todos aqueles anos em que o cão pertencia a Joe. Aliás, para falar a verdade, Gary não acreditava que aquele rosnado fosse para ele, o nem mesmo jamais acreditara que o cão soubesse rosnar.
Cujo abanou o rabo e veio para perto de Gary como se lhe pedisse um afago, como se estivesse envergonhado por haver rosnado.
—~ Ainda bem, rapaz. É assim que eu gosto...
Ao mesmo tempo que falava, ele passava a mão no pêlo do animal. O calor, naquela semana, tinha sido de matar e ainda ia ser pior, de acordo com o que dizia George Meara, repetindo a profecia da Tia Evvie. E ele achava que ia mesmo. Os cães sentiam mais o calor do que as pessoas e ele achava que não existia lei alguma proibindo que um cachorro se mostrasse zangado alguma voz. Aquele rosnado de Cujo, no entanto, fora um rosnado dife-rente. Gary não acreditaria, se aquilo lhe fosse contado por Joe.
Gary apontou para o outro biscoito e disse ao cão para ir buscá-lo. Cujo fez meia-volta e foi apanhar o biscoito, mas havia agora um fio de saliva
escorrendo-lhe da boca. Largou o biscoito e olhou para Gary como se estivesse pedindo desculpas por aquilo. Gary não podia acreditar no que via.
—O que é isso, meu chapa? Está desprezando comida? Nunca vi você fazer isso antes!
O animal tornou a pegar o biscoito e comeu-o.
— Assim é melhor! Este calorzinho mais forte não vai matar ninguém. Nem mesmo a
mim, mas o diabo são as minhas hemorróidas... Eu também estou cagando para elas, mesmo que fiquem
grandes como as porras das bolas de golfe. Você sabe como são?
Ao mesmo tempo que falava ele matava um mosquito.
Cujo deitou-se ao lado de sua cadeira quando ele tornou a pegar no copo. Já estava na hora de entrar para refrescar o corpo, como diziam aqueles merdas do clube.
— Refrescar uma ova...
Ele sacudiu o braço na direção do telhado da casa e uma mistura pegajosa de suco de
laranja com vodca escorreu-lhe pelo braço muito queimado e ainda musculoso.
— Olhe só para aquela porcaria ali, Cujo, meu velho camarada. Está caindo aos pedaços,
a porra do telhado. E você quer saber de uma coisa, meu chapa? Eu também estou cagando para isso. A porra da casa pode desmoronar agora mesmo sem que dê um peido pôr causa disso. É o quê lhe digo, meu chapa...
Cujo sacudiu ligeiramente o rabo. Não sabia o que aquele HOMEM estava dizendo, mas
os ritmos já eram seus velhos conhecidos e os padrões serviam para aliviar. Já estava muito acostumado com aquela polêmica que se repetia durante toda a semana desde... bem, no que lhe dizia respeito, elas tinham existido toda a vida. Cujo gostava daquele HOMEM que sempre lhe dava o que comer. Só que, ultimamente ,ele já não parecia dar muita importância à. comida, apesar do HOMEM estar sempre insistindo. E então ele podia ficar ali deitado, como estava agora, ouvindo aquela mesma arenga. De um modo geral, porém, o cão não se sentia muito bem. Ele não rosnara por causa do calor e sim, simplesmente, porque não se sentia bem. Durante um curto instante, somente num momento, ele até sentira vontade ele morder o HOMEM.
— Está me parecendo que você andou enfiando o focinho nos espinhos. Estava correndo atrás de alguma coisa? Era um esquilo ou um coelho?
Cujo sacudiu ligeiramente o rabo outra vez. Os grilos cantavam nas moitas. Lá atrás da casa as madressilvas atraíam as abelhas sonolentas naquela tarde quente de verão. Tudo na vida do Cujo devia estar certinho, mas, de alguma forma, não era isso que estava acontecendo. Ele, simplesmente, não se sentia nada bem.
— Estou cagando se caírem os dentes de todos aqueles caipiras da Geórgia. E também de todos esses mascadores de chicletes.
Ele levantou-se, cambaleando, e a cadeira se desmantelou. Quem por acaso apostasse que Gary cagou solenemente para este fato acertaria em cheio. Depois de um gesto como se estivesse se desculpando com o cão, ele voltou para a casa, a fim de preparar outro drinque. A cozinha era uma mixórdia cheia de moscas, sacos de lixo, latas vazias e garrafas no mesmo estado.
Quando voltou lá para fora, com o copo cheio na mão, Cujo já não estava mais ali.
No último dia de junho, Donna Trenton voltou do centro da cidade, cujos habitantes chamavam de rua principal — mas ela ainda não se acostumara com aquele maneirismo do Maine. Deixara Tad no seu acampamento de tarde e fizera algumas compras de mantimentos no Mercado Agway. Sentia-se exausta devido ao calor, mas ficou realmente furiosa quando viu a caminhonete Ford do Steve, com suas vistosas pinturas laterais.
Aquela sua fúria estivera latente durante todo o dia. Vic já lhe contara ao café da manhã sobre a viagem que seria obrigado a fazer e quando ela protestara diante da possibilidade de ficar sozinha com Tad durante 10 dias, ou talvez duas semanas, ele lhe expusera claramente a situação. Ela ficara apavorada diante do que ouvira e aquilo era algo que realmente detestava. Não gostava do ficar apavorada. Até aquela manhã ela vinha tratando o caso da Zingers como uma simples piada, aliás uma boa piada, embora aquilo afetasse Vic e Roger. Jamais sonhara que uma coisa tão absurda pudesse ter tão séria.
Depois disso, Tad fizera “manha” porque não queria ir para o acampamento, alegando ter sido maltratado por um menino mais velho na última sexta-feira. O nome dele era Stanley Dobson. e Tad temia que ele continuasse a persegui-lo. Chorara e se agarrara a ela na hora em que chegaram ao acampamento da Legião Americana onde ele deveria ficar e ela se vira obrigada a livrar-se dele à força, soltando-lhe os dedos, um por um, fazendo com que se sentisse mais como uma nazista do que uma boa mãe carinhosa: you will go to daykemp, ja? Ia, mein Mammal Havia ocasiões em que o filho lhe parecia muito pequenino para a idade, muito vulnerável. Pois não era voz geral que. os filhos únicos deyiam sempre, ser precoces e cheios de recursos? Os dedos dele estavam sujos de chocolate e tinham deixado manchas em sua blusa. Ela chegara a recordar as impressões digitais feitas com sangue dos romances policiais de revistas baratas.
Para aumentar-lhe ainda mais o mau humor, o seu carro, um Pinto da Ford, começara a mostrar algum sintomas alarmantes quando voltava pra casa. Sacudia-se todo, corno se: estivesse atacado por um sério caso de soluços automobilísticos. Melhorara um pouco logo depois, mas de qualquer maneira, aquilo a deixara alarmada, O que acontece uma vez sempre pode se repetir e então...
...e então, para pôr mais lenha na fogueira, ali estava Steve.
— Que merda — resmungou ela e saiu do carro, carregando os sacos com os mantimentos. Era uma mulher de 29 anos, alta, bonita, de cabelos negros e olhos cinzentos. Conseguiu se controlar bem para manter uma aparência de frescor, apesar do calor que fazia, das marcas dos dedos do Tad na blusa e na bermuda que ela sentia coladas nos quadris e nas nádegas.
Subiu rapidamente os poucos degraus para entrar em casa. E lá estava Steve, sentado na cadeira de Vic na sala de estar, bebendo uma cerveja. Tinha na boca um cigarro — certamente dos dela. A TV estava ligada e os dramas de um seriado médico dominavam o ambiente.
— Afinal chegou a princesa! Pensei que não viria mais...
Ele falava com aquele seu sorriso atrevido que ela já admirara muito pelo seu encanto e
pelo seu perigo crescente.
— Quero que saia já daqui, seu filho da puta... — disso ela voz inexpressiva e
caminhou para a cozinha. Colocou as sacolas em cima da mesa e começou a arrumar as coisas. Já não se
lembrava mais de outro dia em que tivesse estado tão furiosa, tão indignada que chegava a sentir um nó na barriga. Talvez houvesse sido numa daquelas discussões infindáveis com sua mãe. Uma daquelas horrorosas demonstrações, antes de ir embora para a escola. Quando Steve chegou por trás dela e enlaçou-a pela cintura nua, sua reação foi completamente instintiva. Sem saber ao certo o que estava, fazendo, ela deu-lhe uma tremenda cotovelada na barriga. Sua raiva não diminuiu com o fato óbvio dele ter previsto tal reação. Steve era jogador de tênis e ela teve a sensação de haver batido com o cotovelo numa parede de pedra forrada á borracha dura.
Ela voltou-se e deu de cara com o seu rosto barbado e sorridente. Donna. tinha 1,60m e era um pouco mais alta do que Vic qüando estava de sapato alto, mas Steve tinha mais de um 1,80m.
— Você não me ouviu? Quero que saia já daqui!
— Ora essa! E por que acha que devo sair? O seu filhinho está lá no campo fazendo cintos com contas coloridas ou então atirando flechas em maçãs e outras coisas mais; o seu maridinho está lá no escritório, às voltas com as secretárias.., e então chegou a hora para a mais linda hausfrau de Castle Rock e o seu poeta vagabundo, jogador de tênis, fazerem com que os sinos do congresso sexual tilintem numa harmonia .......
—Vi sua caminhonete parada ali na entrada. Por que não colocou lá um enorme cartaz num dos lados, dizendo ESTOU LÁ DBNTRO DANDO UMA TREPADA COM DONNA, ou coisa parecida?
—Tenho boas razões para estar aqui, porque dentro do carro está a sua cômoda bem limpinha, tão limpinha como eu desejava que você fosse também, queridinha...
— Você pode colocá-la na varanda. E enquanto estiver fazendo isso, vou fazer o seu cheque. Depois cuidarei da cômoda.
— O sorriso dele já se apagara um pouco. Pela primeira vez, desde que chegara, todo o seu encanto superficial tinha desaparecido e ela via o verdadeiro indivíduo que se escondia por baixo
dele. Aquele era um tipo que ela não tolerava, um cara que a deixava espantada ao pensar no que houvera entre os dois. Ela mentira para Vic, enganara-o para trepar com Steve. Desejava ardentemente que aquilo que sentia agora fosse tão simples como uma redescoberta de si mesma depois de um sério ataque de febre. Ou de se redescobrir como companheira de Vic. Mas quando se livrava da casca surgia a verdade nua o simples, mostrando que Steve era uma besta e um canalha, além de ser também poeta, reformador de móveis itinerante, empalhador de cadeiras e um regular jogador de tênis, bem como um bom amante para as tardes ociosas.
— Vamos falar a sério, Donna.
— É isso aí. Não há quem possa resistir ao belo e charmoso Steve Kemw. Isso só pode ser uma piada, mas acontece que não é. Então, o que você tem a fazer, meu belo e irresistível Steve, é trazer a cômoda para a varanda, pegar o seu cheque o cair fora.
— Não fale assim comigo, Donna...
A mão dele alcançou-lhe o seio, que ele apertou. Doeu. Começava a ter medo, mas também estava furiosa. Só que se lembrava agora como sempre sentira medo durante todo o tempo em que durara o caso com Steve, mas aquilo só havia servido para aumentar o prazer da aventura, apesar de seu lado sórdido.
— Não se meta comigo, Donna. Pode se dar mal — ameaçou ele, sorrindo.
— Eu meter-me com você? Você já estava aqui quando cheguei! — O fato de estar com
medo dele ainda aumentava mais ainda sua raiva. Ele usava uma barba preta muito cerrada, que se unia aos cabelos da cabeça, e ela então lembrou-se de repente que, embora conhecesse bem o seu pênis, já que o tivera em sua mão muitas vezes, ela não lhe conhecia o rosto.
— O que é que está querendo me dizer? Será que foi apenas uma comichão passageira
que já foi bem coçada e então chegou a hora de me dar o fora? Será que foi isso mesmo? Será que não pensa em meus sentimentos? Que simplesmente está cagando para eles?
— Você está bufando em cima de mim... — ela empurrou-o do caminho para ir colocar
o leite no refrigerador.
Steve não esperava por isso. O empurrão pegou-o despreparado e ele quase caiu,
recuando um passo. Estava com a testa franzida e a vermelhidão de seu rosto mostrou que não estava gostando. Donna já vira aquela fisionomia nas quadras de tênis que ficavam atrás da Academia de Bridgton, quando perdia um ponto fácil. Ela já o vira jogar muitas vezes e ainda se lembrava de dois sets em que liquidara com facilidade o seu marido e o deixara quase sem fôlego. E nas poucas ocasiões em que o vira perder, ela se atemorizara com a sua reação e chegara a se arrepender de se haver envolvido com ele. Steve já publicara poemas em mais de duas dezenas de pequenas revistas. Tinha também publicado um livro, Perseguindo o Pôr-do-Sol, editado por uma firma de Baton Rouge chamada A Tipografia Em Cima da Garagem. Formara-se na Universidade de Drew, em Nova Jersey; tinha opinião formada a respeito de arte moderna; a respeito de energia nuclear e dos filmes de Andy Warhol; e quando cometia uma dupla falta no tênis, sua reação era igual à de Tad quando lhe diziam que era hora de ir para a cama.
Ele avançou para ela, agarrou-a pelos ombros e obrigou-a a ficar de frente para ele. O
leite caiu de suas mãos e espalhou-se pelo chão da cozinha.
— Aí está! Veja bem o que fez, seu valentão.
— Olhe aqui, Donna, não vou servir de joguete em suas mãos. Será que você...
— Saia já daqui! —~- ela gritou bem junto do rosto dele. Perdigotos se espalharam por
sua testa e faces. — O que quer que eu faça para convencê-lo de que não quero vê-lo por aqui? Saia já daqui e vá ser a dádiva de Deus de alguma outra mulher.
—Você não passa de uma putinha vagabunda e barata — retrucou ele. Sua voz era sinistra e seu rosto metia medo. Continuava a segurar-lhe o braço.