Cão Raivoso
— Você passa bem sem ele na…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Você passa bem sem ele na época das aulas... — Eu disse não, Charity.
Ela percebia, com uma certeza amarga, que ele se divertia com aquilo. Ele, por sua vez,
percebia também o quanto era intenso o desejo da mulher. Como ela planejara tudo direitinho. E então achava tudo aquilo muito divertido. Divertia-se com a sua dor.
Ela levantou-se e foi para a pia, não porque tivesse alguma coisa a fazer ali e sim porque
precisava de tempo para controlar-se. Lá em cima, muito longe, a estrela vespertina brilhava. Ela abriu a torneira da pia, já amarelada pelo uso. A água ali era tão fria como o próprio Joe.
Sentindo-se talvez desapontado por uma vitória tão fácil, ele achou que podia insistir. -~ O menino precisa adquirir responsabilidade. Não lhe fará mal algum ajudar-me neste
verão, ao invés de se meter lá na casa de seu amigo Davy dias e noites.
Ela fechou a torneira.
— Eu mandei ele ir para lá...
— Você mandou mesmo? E por quê? Ela voltou para onde ele estava.
— Porque eu já sabia que isto ia acontecer. Mas eu disse a ele que você já havia
concordado, por causa do dinheiro e do guincho.
— Você devia saber que cometeu um pecado com o menino. Na próxima vez espero que
tenha mais cuidado com o que diz, antes de engrenar essa sua língua — ele falou sorrindo e com a boca cheia, ao mesmo tempo que pegava num pedaço de pão.
— Você até que podia vir também conosco, Joe. É só querer.
— Claro. Era só dizer ao Richie que ele não terá sua máquina pronta para a colheita deste ano. Além disso, não tenho vontade nenhuma de visitar aqueles dois. Pelo que tenho visto e ouvido a respeito deles, acho que são uns grã-finos muito bestas. E a única razão que você tem para gostar deles é o seu desejo de ser também a mesma coisa.
Ele ia levantando a voz, aos poucos. Já começava a cuspir comida e ela sentia medo quando o via assim. Achou que seria melhor não insistir. Era como acontecia quase sempre. Iria desistir por enquanto.
— E você também quer ver seu filho igualzinho a eles. É isso o que eu acho — continuou ele. — Quer que ele se vire contra o pai. Será que estou errado?
— E, então, por que você nunca o chama pelo seu nome?
— Cale Logo essa boca, Charity. Veja bem o que lhe digo. — Ele já estava com o rosto muito vermelho, e o seu olhar era duro.
— Não, Joe. Ainda não chegamos ao fim.
Ele ficou tão assombrado que chegou a deixar cair o garfo.
— O queee... O que foi que você disse?
Ela caminhou para o marido, dando-se ao luxo de enfrenta-lo pela primeira vez depois do casamento, para mostrar-lhe toda a sua raiva. Tudo que sentia, no entanto, estava bem lá dentro dela, queimando como ácido, corroendo-lhe as entranhas. Não se atrevia a gritar porque sabia que isso estragaria tudo. A sua voz continuava baixa e calma.
— Claro que é a maneira como você considera minha irmã e seu marido. Não poderia ser de outra forma. Olhe para si mesmo! Sentado aí, comendo com as mãos sujas e sem tirar o chapéu da cabeça. Você não quer que ele vá lá para ver como vive gente
É a mesma coisa que sinto quando não quero que ele saia com você e seus amigos, para ver como se comportam quando estão sozinhos. Foi por isso que não deixei Brett ir com vocês em novembro.
Ela fez uma pausa e Joe ficou ali sentado, com uma fatia de pão na mão e o queixo Sujo com o molho do bife. Ela achava que única razão que o impedia de saltar-lhe em cima era a completa surpresa que o dominara ao ouvi-la falar daquele jeito.
Eu quero e estou disposta a fazer um trato com você. Já lhe dei o guincho e estou disposta a dar-lhe também o resto do dinheiro. Poucas mulheres fariam isso. Mas já que você se mostra t/ao ingrato, ainda lhe ofereço mais. Se deixar o Brett ir comigo, você pode levá-lo, com os seus amigos, na próxima temporada de caça em Moosehead.
Ela sentiu-se tão nervosa çomo se acabasse de fazer um trato com o próprio diabo.
— Você parece que está querendo levar umas boas lambadas, Charity. — Ele falava
como se estivesse lidando com uma criança surpreendida em alguma coisa errada. — Eu o levarei comigo na caçada se quiser e quando quiser. E você sabe muito bem disso. Ele é meu filho, com todos os diabos! Se eu quiser e quando eu quiser. Está me ouvindo? Está compreendendo? — Ele sorria satisfeito com a maneira como falava.
Ela encarou-o bem de frente.
— Não. Não vai ser assim. Não vai mesmo.
Ele levantou-se com tanta violência que a cadeira caiu para trás.
—Vou dar um basta nisso, Joe — disse Charity. — Ela queria afastar-se dele, mas, se o fizesse, aquilo seria o fim. Um só movimento em falso, um sinal de fraqueza, e ele estaria em cima dela.
Joe estava começando a tirar o cinto e falou como se sentisse obrigado a fazer aquilo.
— Vou lhe dar umas lambadas, Charity. — Farei tudo para impedir. Irei à escola e direi que ele fugiu. Irei ao xerife e
apresentarei queixa, dizendo que ele foi seqüestrado. E farei coisa ainda melhor. Farei com que Brett se recuse a ir,
Ele tirou o cinto e ficou segurando-o pela ponta, a fivela balançando como um pêndulo.
— Ele só irá com você e com sua turma de bêbados, antes. de ter quinze anos, com .a minha permissão. Pode me dar as lambadas que quiser, Joe, mas nade mudará isso.
— Você acha isso mesmo?
— É exatamente como estou lhe dizendo, Joe.
De um minuto para outro, ela teve a impressão de que Joe não estava mais ali na sala.
Ele estava com o olhar perdido, como se refletindo. Ela já o vira assim em outras ocasiões. Alguma coisa havia-lhe ocorrido, de repente, algum novo fato para ser laboriosemente acrescentado à equação. Ela rezava para que, fosse lá o que fosse, esse fato a favorecesse. Jamais o enfrentara daquela maneira e agora tinha medo.
Ele sorriu inesperadamente.
— Você é mesmo corajosa, hem? Está cuspindo fogo... Ela não respondeu.
Ele começou a enfiar o cinto nas calças. Continuava sorrindo, da mesma forma que seus olhos permaneciam distantes.
— Acha que pode mesmo cuspir fogo como aquelas cobras do México, Charity? Ela continuava calada e desconfiada.
— Se eu disser que vocês dois podem ir, o que é que vai acontecer? Acha que poderíamos desejar até mesmo a lua?
— O que está querendo dizer, Joe?
— Só quero dizer que está bem. Para os dois.
Ela atravessou a sala no seu passo ágil e ficou gelada só de pensar que ele poderia ter feito a mesma coisa momentos antes para dar-lhe uma boa surra de cinto. E quem poderia detê-lo naquela hora? Ninguém tinha o direito de se meter em brigas entre marido e mulher. Ela nada poderia ter feito, nada teria dito por causa do Brett e de seu amor-próprio.
Ele colocou a mão no ombro dela e desceu-a até o seio, que apertou. — Vamos lá, Charity. Estou aceso...
— Mas Brett...
— Ele só vai voltar às nove. Vamos lá. Eu lhe dei licença para ir... Espero que, pelo menos, me agradeça...
Uma espécie de absurdo cósmico chegou até seus lábios e passou entre eles antes que ela conseguisse detê-lo.
— Tire o chapéu, Joe.
Ele arremessou-o para o outro lado da cozinha sem o menor cuidado. Continuava a sorrir mostrando os dentes amarelados, sendo que os dois de cima eram postiços.
— Se tivéssemos o dinheiro aqui agora conosco, poderíamos trepar numa cama cheia de notas verdinhas. Eu vi isso num filme, já faz muito tempo...
Levou-a para cima, enquanto Charity esperava que ele demonstrasse qualquer tara, mas isso não aconteceu. O sou ato de amor foi o mesmo de sempre. Rápido e brutal, mas sem nenhuma tara. Ele nunca a magoava intencionalmente e, naquela noite, ela atingira o climax, o que não lhe acontecera senão umas 10 vezes desde que se casara. Charity entregou-se ao marido com os olhos fechados sentindo o queixo dele bem em cima da sua cabeça.
Ela conseguiu abafar o grito que chegara aos seus lábios. Ele teria ficado desconfiado se a visse vibrar. Não sabia bem se Joe estava a par do fato de que a mulher costuma sentir a mesma coisa que o homem quando o ato de amor chega ao fim.
Logo depois, e uma hora antes de Brett voltar para casa, ele saiu sem dizer aonde ia. Ela
achava que deveria ter ido para o bar com Gary, onde começaria a beber. Ela ficou deitada na cama imaginando se o que fizera valia mesmo a pena. Teve vontade de chorar, mas conseguiu conter-se. Ela continuou ali deitada e, pouco antes de Brett chegar, a lua surgiu em toda a sua glória prateada. A chegada do filho foi anunciada pelos latidos de Cujo e pela batida forte da porta dos fundos. A lua nem mesmo está ligando, pensou ela, mas aquilo não lhe trouxe o menor conforto.
— O que é que está havendo, Vic?
A voz de Donna era apagada como a de alguem que se sente derrotado. Os dois estavam sentados na sala de estar. Vic só chegara em casa quase na hora de Tad ir para a cama e isso fora meia hora antes. Ele dormia no seu quarto lá em cima, com as palavras para espantar os monstros pregadas bem em cima de sua cabeceira. A porta do closet estava bem fechada.
Vic levantou-se e foi até a janela, mas lá fora a escuridão era completa. Ela percebia com tristeza que ele já sabia. Talvez não soubesse de todos os detalhes, mas certamente sabia de uma maneira geral. Durante todo o caminho de volta pra casa ele viera pensando se deveria ou não contar-lhe tudo, se deveria ou não lancetar logo, o tumor para tentar depois viver com o seu pus.., ou se deveria simplesmente esquecer. Rasgara o bilhete depois que saiu do parque e no caminho fora jogando os pedacinhos pela janela do carro. Com isso, a escolha de uma atitude já não estava mais em suas mãos. Via refletido no vidro da janela o rosto pálido de Donna dentro do círculo amarelado da lâmpada.
Voltou-se então para ela sem ter a menor idéia do que lhe iria dizer.
Donna também estava pensativa. Ele já sabe.
Não era a primeira vez que lhe ocorria aquele pensamento, porque as últimas três horas tinham sido as mais longas de toda a sua vida.
Tornara conhecimento de tudo na hora em que ele lhe telefonara, avisando que ia chegar tarde. Logo de princípio foi tomada de pânico, um pânico bem parecido com o que sente um passarinho preso na garagem. O pensamento lhe ocorrera em itálico, seguido pelas exclamações parecidas com as usadas nas histórias em quadrinhos. Ele sabe! Ele sabe! Ele SABE!!! Cuidara do jantar de Tad sem saber bem o que estava fazendo, inteiramente envolvida pelo medo e tentando descobrir o que lhe aconteceria depois, inutilmente. Vou lavar os pratos depois. Vou secá-los e arrumá-los depois. Depois vou ler algumas histórias para o Tad. Depois, então, sairei velejando para o fim do mundo.
Ao pânico seguirá-se o sentimento de culpa. Esse, por sua vez, foi substituído pelo terror. Logo seguiu-se uma espécie de apatia fatalista, depois de alguns circuitos emocionais terem desaparecido. Aquela apatia chegava a ter uma certa dose de alivio. O segredo fora descoberto. Estava pensando se Steve fora o autor da revelação ou se Vic simplesmente chegara a uma conclusão. Tinha quase certeza de que fora mesmo Steve, mas isso já não importava mais nada para ela. Sentia-se aliviada ao ver Tad já na cama e dormindo. Pensava agora na espécie de manhã que haveria para ele. E aquele pensamento trouxe-lhe de volta todo o pânico anterior. Sentia-se enjoada e perdida.
Lá de onde estava, na janela, ele voltou-se para ela.
— Recebi urna carta hoje. Uma carta anônima...
Não conseguiu terminar. Atravessou novamente a sala, inquieto, e ela surpreendeu-se imaginando como ele era um belo homem. Era uma pena estar ficando grisalho tão cedo. Aquilo assentava bem para alguns homens relativamente jovens, mas com Vic parecia mais urna velhice prematura...
...mas por que cargas d"água estava ela pensando em seus Cabelo, ali naquela hora?
Havia coisas mais sérias para pensar...
E, então, muito baixinho, ainda sentindo a voz tremer, ela foi despejando tudo que lhe parecia pertinente, cuspindo aquilo como o. fosse algum remédio muito ruim que estava sendo obrigada a engolir.
— Steye Kemp. Aquele que reformou a sua mesa de trabalho. Cinco vezes... Mas nunca foi em nossa cama, Vic. Nunca... Esticou o braço para apanhar um cigarro na mesinha junto do sofá e deixou cair tudo no chão. Apanhou o maço e tirou um cigarro, que acendeu. As mãos lhe tremiam muito. Eles não se encaravam. Donna achava que aquilo era mau. Nós deveríamos estar nos encarando. Ela, porém, não tinha coragem para tomar a iniciativa. Estava com medo e com vergonha. Ele apenas tinha medo.
— Mas por quê?
— Será que isso faz diferença?
— Faz diferença para mim. Faz muita diferença. A não ser que você queira a separação.
Se for assim, então acho que não faz mesmo diferença alguma. Estou positivamente, furioso, Donna. Furioso como o diabo! Estou fazendo possível para que isso... para que essa parte não venha à tona, porque mesmo se nunca mais falarmos com franqueza, temos que fazer isso agora. Você quer mesmo a separação, Donna?
— Olhe para mim, Vic... Olhe-me de frente.
Foi com grande esforço que ele atendeu ao pedido. Era bem possível que ele estivesse mesmo furioso como o diabo, conforme dissera, mas o que Donna via ali na sua frente era um pobre homem apavorado. De repente, como um soco com luvas de boxe em sua boca, ela percebeu como ele estava à beira de um precipício. Os negóciõs da agência iam mau só isso já era coisa séria; mas além disso, como uma abominável sobremesa seguindo um pútrido prato principal, o seu casamento também estava vacilante. Sentia-se invadida por uma onda de caloroso carinho por ele, por aquele mesmo homem que já detestara e que, nas últimas três horas, chegara a temer. Sentiu-se possuída por uma espécie de manifestação divina. Acima de tudo, porém, ela esperava que ele se julgasse mesmo furioso como o diabo e não.., não da maneira como o seu rosto mostrava o que realmente sentia.
— Não quero a separação, Vic. Eu te amo muito. Creio que descobri isso novamente nestas últimas semanas.
Durante um momento, ele pareceu aliviado. Foi até a janela outra vez e depois voltou para o sofá. Deixou-se cair ali e olhou para ela.
— Mas então por quê?
A manifestação divina desapareceu com o desespero da raiva. Por quê? Aquilo era uma pergunta masculina. Sua origem estava muito longe, perdida em qualquer que fosse o conceito de masculinidade existente num inteligente homem ocidental, vivendo no fim do século XX. Preciso saber a razão, que levou você a lazer isso. Da mesma forma como se a mulher fosse um carro com uma válvula presa, que não deixava o motor funcionar bem, ou então um robô doméstico desregulado, que servia carne no café da manhã e ovos mexidos no jantar. Ocorreu de repente a Donna que a causa da loucura das mulheres não era só uma questão de sexo. Era, mais que isso, aquela louca procura da eficiência por parte dos homens.
— Não sei se posso explicar isso, Vic. Receio que possa parecer estúpido, mesquinho e
trivial...
— Tente sempre. Será que foi...
Ele pigarreou, pareceu cuspir mentalmente nas mãos — e ali estava novamente, uma
demonstração da maldita eficiência — até que finalmente conseguiu dizer o que pensava.
— ... porque eu já não a satisfazia? Será que foi isso? — Não, Vic, não foi isso.
— Então o que foi, Donna? Pelo amor de Deus, diga-me o que foi!
Muito bem... foi você quem pediu....
— Foi o medo, Vic. Acho que foi principalmente o medo... — Medo?
— Quando Tad saía para a escola, não havia coisa alguma para impedir que eu sentisse
medo, Vic. Tad era como... qual é mesmo o nome que lhe dão?...um barulho branco. Aquele barulho que a TV faz quando não está bem sintonizada no canal...
— Mas a escola dele não era de verdade... Ele interrompeu-a com tanta pressa que Donna percebeu logo que a raiva ia voltar, que
ela estava apenas tentando pôr a culpa em Tad. E, se Vic se zangasse mesmo, logo sairiam palavras entre os dois que não deveriam ser ditas, pelo menos não naquele momento. Sendo ela a mulher que era, havia coisas que jamais aturaria. A situação iria piorando aos poucos. Havia ali agora uma coisa muito frágil que um atirava para o outro, mas que poderia cair no chão com facilidade.
— E isso era justamente uma parte do problema. Não era urna escola de verdade. Ele
ainda ficava comigo a maior parte do tempo, mas quando saía... o contraste era muito grande. Em comparação, o silêncio parecia muito alto. E foi aí que comecei a sentir medo. Ele teria que ir para o maternal no ano seguinte. A metade de, todos os dias, ao invés de somente meio dia três vezes por ano. E no ano seguinte seriam cinco dias inteiros por semana. Mas ainda havia muitas horas ociosas. E eu sentia medo.
A reação dele foi um tanto amarga.
E então você achou que podia encher essas horas ociosas com algumas trepadinhas, hein?
Aquilo foi como uma bofetada. Ela, porém, continuou teimosamente contando tudo da
melhor maneira que podia e falando baixinho. Fora ele quem pedira e ela iria contar tudo.
— Eu não queria fazer parte do comitê da biblioteca, não queria fazer parte do comitê
do hospital, não queria fazer parte de nenhum comitê de caridade nem queria fritar bolinhos para vender nas festas. Não queria ver aquelas mesmas caras desanimadas de sempre, ouvir sempre as mesmas fofocas. Não queria aguçar as minhas garras à custa de reputações alheias.
As palavras já agora lhe saíam em torrente e ela mesma não conseguiria parar, mesmo se
quisesse.
— Não queria sair por aí vendendo coisas, não queria dar festinhas e não queria fazer
parte do grupinho que só pensa em manter seu peso certo dentro das medidas certas.
Fez uma pequenina pausa para tomar fôlego, avaliando bem o que estava fazendo. — Você não sabe o que é o vazio, Vic. Não pense que sabe. Você é homem e os homens sabem como se agarrar. Os homens sabem, mas as mulheres não. Não sabem mesmo. As mulheres espanam. Elas espanam os aposentos vazios ouvindo o vento soprar lá fora algumas vezes. Só que, às vezes, parece que o vento, está dentro da gente, Vic. E aí então a gente coloca um disco no aparelho de som, seja lá de quem for, mas, mesmo assim, ainda continua ouvindo aquele vento. E então começa a pensar. Começa a ter idéias que nada têm de boas, mas que aparecem assim mesmo. Então a gente começa" a limpar o banheiro e a cozinha, até que um dia a gente vai a uma loja de antiguidades e começa a examinar coisinhas, lembrando-se de que a mamãe também tinha uma vitrine cheia de quinquilharias. E as titias e avós, também tinham.
Ele olhava-a com atenção e a sua expressão de perplexidade era tão sincera que ela se
sentiu invadida por uma onda de desespero.
— Estou me referindo a sentimentos, Vic, e não a fatos.
—Eu sei... mas por que...
— Mas estou dando-lhe todas as razões, Víc! Estou lhe dizendo que cheguei ao ponto de
me postar diante do espelho para ver como meu rosto estava diferente e como ninguém mais poderia me tomar por uma mocinha com menos de vinte anos. Ninguém mais iria pedir para ver o meu cartão de identidade quando eu entrasse num bar para pedir um drinque. Comecei a sentir medo simplesmente por estar crescendo. O Tad já vai para o pré-escolar e isso significa que logo irá também para• a escola primária e depois para o ginásio...
— Quer dizer que arranjou um amante só porque se sentia velha? Ele agora olhava-a com surpresa e ela adorou-o ainda mais quando percebeu isso,
simplesmente porque achava que aquilo fazia parte de tudo . que houvera. Steve achara-a atraente e isso, naturalmente, era muito agradável, sendo também o que tornava interessante o namoro, embora, de forma alguma, fosse a parte mais importante.
Ela segurou-lhe as mãos e falou calorosamente, encarando-o, pensando e sabendo que
jamais falaria daquela maneira, com tal sinceridade, com qualquer outro homem.
— E ia mais ainda. É saber que a gente não pode mais esperar para ser uma pessoa
adulta, nem tampouco esperar se conformar com aquilo que tem. É saber que a nossa capacidade para escolher se torna dia a dia menor e mais reduzida. Para qualquer mulher... para mim, pelo menos... isso significa enfrentar um fato brutal. Sou apenas uma esposa e nada mais. Você tem sempre seus negócios. Até mesmo quando está em casa, você vive pensando neles. Também sou mãe e isso é muito bonito, embora esteja sempre diminuindo a cada ano que passa. E isso porque, também a cada ano que passa, o mundo vai se apossando de meu filho, pouco a pouco.
“Homens... eles todos sabem o que são. Possuem a imagem do que realmente são. Nunca
chegam a realizar seus ideais e então ficam desolados e liquidados. Talvez seja por isso que tantos morrem cedo e infelizes, embora morram sabendo o que significa ser adulto. Eles sabem se manter aos trinta, quarenta ou cinqüenta. Eles não ouvem aquele vento,, ou então, quando isso acontece, encontram uma lança para combatê-lo. Imaginam, que aquilo seja um moinho de vento ou qualquer outra porcaria que precisa ser derrubada.
B, então, o que a mulher faz.., o que eu fiz... é evitar que isso aconteça. Tinha medo da
casa quando Tad não estava aqui.
Um dia eu estava mudando a roupa de cama de seu quarto, quando comecei a pensar nas amigas que tivera no ginásio. Comecei a pensar no que teria acontecido com elas e por onde andariam. Estava meia tonta. A porta do closet de Tad abriu-se, de repente, e eu...gritei e sai dali correndo.Nem mesmo sei por que fiz isso, mas, aliás, acho que sei sim. Durante apenas um segundo pensei que Joan ia sair daquele closet, sem cabeça e coberta de sangue, e então falaria comigo: „Morri num desastre de automóvel quando tinha dezenove anos e voltava da lanchonete do Sammy, mas nem estou ligando para isso."
— Meu Deus, Donna!
— Fiquei apavorada. Foi só isso que aconteceu. Ficava apavorada quando começava a
examinar quinquilharias, quando pensava em me dedicar à cerâmica, quando pensava em praticar ioga ou coisas parecidas. O único lugar para onde a gente pode correr para se esconder do futuro, é o passado. E foi aí... foi aí que começou nosso namoro.
Ela abaixou a cabeça e, de repente, cobriu o rosto com as mãos. As palavras saiam-lhe
abafadas, mas ainda compreensíveis.
— Aquilo foi divertido. Parecia que eu estava novamente na universidade. Era como se fosse um sonho. Um sonho estúpido. Ele era para mim aquele barulho branco de que já falei. Ele conseguia espantar aquele vento. A parte do namoro era divertida. O sexo, porém, nada tinha de bom. Eu sentia orgasmos, mas não era bom. Não posso explicar a razão, mas talvez fosse porque eu ainda amava você, apesar de tudo. E eu percebia que estava fugindo...
Ela levantou a cabeça e agora já chorava.
— Ele também está fugindo. Faz disso uma carreira. É um poeta... pelo menos é isso que
ele se intitula. Eu não conseguia compreender as coisas que lia para mim. É uma espécie de cigano. Gosta de correr pelas estradas sonhando que ainda está na universidade, protestando contra a guerra no Vietnã. E talvez tenha sido por isso que me encantei., E agora acho que já lhe contei tudo que tinha para contar. Uma historieta bem feia, mas foi o que aconteceu.
— Gostaria de dar-lhe uma surra, Donna. Se visse o sangue escorrendo de seu nariz isso me daria grande satisfação.
Ela sorriu, com um ar muito desanimado.
Ele se mandou, Vic Eu e o Tad passamos por lá quando saímos para tomar um sorvete antes de você chegar, e vimos o cartaz de ALUGA-SE na janela da loja. Eu já disse a você que ele é uma espécie de cigano vagando pelas estradas.
— Não havia poesia alguma no bilhete que ele me escreveu.
Olhou-a de relance e depois tornou a baixar a cabeça. Ela tocou-lhe o rosto e Vic fez uma espécie de careta, recuando um pouco Ela sentiu que aquilo a magoava mais do que poderia acreditar. Sentiu-se novamente invadida por uma onda de medo e culpa, mas já não chorava mais. Achava que, durante muito tempo, já não haveria mais lágrimas. O ferimento e o choque traumático tinham sido grandes demais.
— Vic, peço que me perdoe. Estou arrependida. Vejo que você está muito magoado e só espero que me .......
— E quando foi que vocês terminaram?
Ela contou-lhe tudo o que acontecera, mas não falou no medo que sentira ao pensar que
Steve iria violentá-la.
— Então aquele bilhete foi o meio que ele achou para se vingar....
Ela passou a mão na cabeça para tirar os cabelos que lhe escondiam o rosto muito pálido
e triste. Estava com olheiras.
— Acho que foi isso mesmo.
— Vamos subir. Já é tarde e estamos bem cansados, Donna. — E você fará amor comigo, Vic?
Ele sacudiu a cabeça lentamente.
— Não esta noite, Donna.
— Está bem, Vic.
Antes de subirem, ainda no pé da escada, ela virou-se para ele. — E o que vamos fazer agora, Vic?
Ele apenas sacudiu a cabeça.
— Simplesmente não sei, Donna.
— Será que estarei obrigada a escrever no quadro-negro, quinhentas vezes: “Prometo
que nunca mais farei isso”? E também ficarei privada do recreio? Você quer o divórcio? Será que nunca mais tocaremos neste assunto? O que é que você vai resolver, Vic?
Ela não se sentia histérica. Estava apenas exausta, mas a sua voz começava a elevar-se,
embora aquilo não lhe agradasse, já que não tivera essa intenção. O pior de tudo era a vergonha. A vergonhá de ser descoberta e de ver como estava o rosto dele agora. Dotestava-o e detestava-se também por se sentir tão envergonhada, já não se considerava responsável pelos fatos que haviam levado a decisão final, uma coisa que, aliás, ainda não acontecera.
— Nós vamos conseguir encontrar uma solução..
Donna, porém, não se enganava e percebia bem que ele não se dirigia a ela. Vic olhava-a como se implorasse.
—E tudo isso... tudo isso só aconteceu com ele, não foi mesmo?
Aquela era uma pergunta imperdoável, uma pergunta que ele não tinha o direito de fazer.
Ela largou-o ali e subiu quase correndo antes que extravasasse sua indignação. Seriam estúpidas recriminações e reclamações que nada resolveriam e que só poderiam piorar tudo. Estragaria toda a sinceridade que os dois haviam usado até então.
Nenhum deles dormiu bem naquela noite. Vic esquecera completamente de telefonar para Joe, a fim de ver se ele poderia dar um jeito no carro de Donna.
Joe, aliás, estava sentado com Gary nas desconjuntadas cadeiras do armar que havia em seu quintal, também bastante maltratado. Ali, sob um céu estrelado, eles bebiam martinis de vodca em copos trazidos do McDonald"s. Os vaga-lumes cruzavam a escuridão e o perfume da madressilva na cerca da casa enchia todo o quintal.
Cujo costumava ficar ali também, correndo atrás dos vaga-lumes, latindo e divertindo-os. Naquela noite, porém, ele estava deitado entre os dois, com o focinho entre as patas. Eles pensavam que ele estivesse dormindo, mas não era isso que acontecia. Ele simplesmente estava ali deitado com os ossos todos doendo e a cabeça zunindo. Estava cada vez mais difícil para ele pensar no que iria acontecer em seguida na sua vida simples de cachorro. O instinto lhe dizia que alguma coisa estava para acontecer. Quando dormia os seus sonhos eram de uma lucidez desagradável e fora do comum. Num desses sonhos ele atacara o GAROTO, abrindo-lhe a garganta e arrancando-lhe as entranhas. Despertara ganindo o tremendo.
Estava sempre com sede agora, mas já começava a se afastar da vasilha com água. Quando bebia, a água arranhava-lhe a garganta como se fosse palha de aço. O seu contato fazia doer-lhe os dentes, da mesma forma que os olhos. Agora ali estava ele deitado no gramado, sem dar importância aos vaga-lumes e a tudo que o cercava. A voz do HOMEM soava como se fosse um trovão sem importância vindo lá do alto. Nada significava para ele em comparação com a inquietação que sentia.
Gary estava espantado.
— Boston! Boston! Que diabo você vai fazer em Boston? E por que é que quer me levar junto? Sabe lá se tenho dinheiro para isso? Não tenho nem mesmo para ir até Norge até que saia o meu cheque!
Joe já estava meio bêbado.
— Uma porra que não tem, Gary. Você está montado na erva!
É só tirar um pouco do que você tem escondido debaixo do colchão. No meu colchão só existem percevejos. Está cheio deles, mas não ligo a mínima. Estou cagando para eles. Quer mais uma rodada?
Joe estendeu o copo. O outro tinha tudo ali pronto ao lado da cadeira. Preparou tudo com a rapidez e a prática do beberrão contumaz. Entregou o copo cheio ao amigo e repetiu a mesma coisa de antes.
— Boston! Vai querer se divertir um pouco, hem? — Gary era o único cara em Castle
Rock, e talvez no mundo, que podia demonstrar certas intimidades com Joe. — Com certeza está pensando em alguma farrinha, bem? Nunca vi você ir niais longe do que Portsmouth...
— Já estive em Boston uma ou duas vezes, Gary. Cuide-se bem, cara, se não quiser que
eu mande meu cachorro pegar você.
— Você nem mesmo poderia atiçar este cachorro contra um crioulo com uma navalha
em cada mão, Joe. E o que é que sua mulher pensa a respeito dessa viagem?
Ele esticou o braço e afagou o pêlo de Cujo.
— Ela ainda não sabe que nós vamos. E nem precisa saber.
— Não diga!
— Ela também vai visitar a irmã que mora em Connecticut, com o bestalhão do marido. O Brett vai com ela. Vão ficar uma semana. Ela ganhou um prêmio na loteria. Acho que é melhor contar logo isso para você. Até o rádio dá o resultado com os nomes dos ganhadores.
— Ela ganhou mesmo um prêmio da loteria, Joe?
— Cinco mil dólares, Gary.
O outro soltou um assobio e isso fez Cujo levantar as orelhas.
Joe contou toda a conversa da noite anterior, sem mencionar a briga, para fazer parecer que haviam entrado num mútuo entendimento e que tudo fora idéia sua. O garoto iria com ela passar
lá uma semana e depois iria com ele no outono a Moosehead para a caçada, durante uma semana também.
— E então você, seu sem-vergonha, vai também a Boston para ajudar a gastar o
dinheiro! Você é mesmo de morte, Joe!
Disse isso dando-lhe uma forte palmada nas costas.
— E por que não? Você ainda lembra da última vez que tirei uma folga? Pois eu mesmo
não me lembro mais. Tenho pouco serviço para esta semana. Eu tinha planejado passar toda a semana dando um jeito no motor do Richie, que precisa ser esmerilhado mas agora, com aquele guincho, isso não levará nem quatro horas. Vou dizer a ele para me levar a ceifeira amanhã e o serviço estará pronto à tarde. Também tenho um servicinho numa transmissão, mas isso é coisa rápida. É de uma professora da escola primária. Tenho ainda umas coisinhas que podem ser adiadas. Avisarei aos interessados que vou tirar umas férias.
— E o que é que você vai fazer lá na terra dos feijôes*? — Talvez vá assistir ao jogo dos Doad Sox em Fenway. Depois dou um pulinho na
Washington Street...
Gary soltou uma sonora gargalhada e deu uma palmada na perna. — A zona de combate! Barra pesada, eu conheço! Vai assistir àqueles shows nojentos e
tentar pegar uma gonorréia.
— Não teria graça nenhuma se fosse .0...
— Bem, acho que poderia dar um jeito se você me adiantasse a grana até eu receber o
meu cheque. Assim poderemos ir juntos.
— Mas é claro que posso fazer isso.
Ele sabia que o amigo era um beberrão contumaz, mas era também um cara que levava
as dívidas muito a sério.
O outro parecia perdido em reminiscências.
— Acho que já se passaram bem uns quatro anos que não sei o que é mulher. Deixei
perdida lá na França uma grande parte de minha fábrica de esperma. O que sobrou funciona às vezes, mas há outras em que não funciona de forma alguma. Será divertido descobrir se me resta ainda alguma coisa..
Joe estava agora sentado e sentia um zunido nos ouvidos.
— É isso aí, meu chapa. Mas não se esqueça que temos também o jogo. Você sabe bem qual foi a última vez que estive em Fenway...
— Não me lembro mais.
— Pois foi em mil novecentos e sessenta e oito...
Ele disse aquilo inclinando-se para a frente e batendo no braço do amigo a cada sílaba, para dar mais ênfase ao que dizia, e com isso ia cuspindo a bebida.
— Foi antes do Brett nascer. Aqueles pernas-de-pau jogaram contra o Tigers e perderam de seis a quatro. O Norm Cash marcou um lindo ponto.
— E quando é que você pensa em partir?
— Segunda-feira à tarde, aí por volta das três. A mulher e o garoto vão nessa manhã, acho. Eu vou levar os dois até a rodoviária, em Portland. Aí eles pegam o Greyhound. Assim fico com o resto da manhã e parte da tarde livres para ultimar minhas coisas...
— E você vai no carro ou no caminhão? — No carro, é claro.
Os olhos de Gary ficaram sonhadores ali naquela escuridão. Logo sentou-se, muito empertigado.
—Bebidas, jogo e mulheres... Para mim tudo isso é indiferente. Estou mesmo cagando para tudo isso.
— Mas você quer mesmo ir, Gary?
— Claro...
Joe soltou um grito de alegria e os dois deram boas gargalhadas.Nenhum dos dois notou que Cujo levantara a cabeça e agora estava rosnando baixinho.
O dia seguinte amanheceu cinzento, com em denso nevoeiro, um nevoeiro tão forte que Brett nem mesmo conseguia ver o carvalho que estava ao lado de sua casa a uns 30 metros de distância. O pai e a mãe estavam dormindo, mas ele não tinha mais sono. Ia fazer uma viagem e todo o seu corpo vibrava com a perspectiva. Iria só com a mãe. Ele sabia que seria uma boa viagem já que, bem no fundo de seu consciente, ele se alegrava porque o pai não iria. Teria muito mais liberdade. Não precisaria se preocupar com aquela idéia de masculinidade que. fora alcançada pelo pai, mas que ele não conseguia compreender de forma alguma. Sentia-se feliz, incrivelmente feliz e incrivelmente cheio de vida. Sentia pena daqueles que não podiam .viajar numa linda manhã como aquela, ainda tão enevoada, mas que certamente seria muito quente logo que o sol dissipasse o nevoeiro. Ele queria ir sentado junto à janela do ônibus, para apreciar bem a paisagem durante todo o caminho até Stratford. Ele custara muito para adormecer, pensando na viagem, nas agora já ali estava o dia tão esperado. Eram cinco horas da manhã, mas não havia forças que o prendessem na cama. Explodiria se ficasse lá.
Com muito cuidado para não fazer barulho ele enfiou o jeans e uma camiseta com o nome do Cougars do Castle Rock, meias brancas de atleta e sapatos de tênis. Desceu e preparou um chocolate. Fazia tudo para comer sem barulho, mas tinha a certeza de que quando mastigava o cereal o som era ouvido em toda a casa. Lá em cima ele ouvia os resmungos do pai, que dormia na cama de casal junto com a mulher. As suas molas rangiam. Brett levou um susto. Depois de um momento de dúvida, preparou mais um chocolate lá do lado de fora, na varanda, e fechou a porta com cuidado, sem bater.
Em meio ao denso nevoeiro, os cheiros típicos do verão ficavam mais acentuados e o calor já se fazia sentir. Lá ao longe, onde havia um bosque de pinheiros, onde terminavam os pastos, o sol já vinha nascendo. Ainda estava pequeno e prateado como se fosse a lua cheia, mas a umidade já se fazia sentir intensamente. O nevoeiro se dissiparia as oito ou nove horas, mas a umidade continuaria da mesma forma.
Agora, porém, tudo que ele via era um mundo misterioso e branco que o enchia de
alegria. Sentia o cheiro forte do feno que estaria pronto para ser cortado dentro de uma semana, cheiro de esterco e das rosas de sua mãe. Ele chegava até mesmo a sentir o aroma da trepadeira de Gary, as madressilvas que marcavam o rumo das duas propriedades e que se espalhavam pela cerca.
Deixou do lado a vasilha com o cereal e foi até o galpão. No meio do caminho parou e
olhou para trás, onde a casa já havia desaparecido, tragada pelo nevoeiro. Ele estava ali sozinho, tendo por companhia apenas o sol ainda fraco e prateado.
E foi aí que ouviu o rosnado.
Levou um tremendo susto e deu um passo atrás, com todos os músculos, retesados como se fossem cordas do piano. O seu primeiro pensamento foi igual ao de uma criança que de repente chega a um ponto da história onde aparece o lobo mau. Então, ele olhou em torno, apavorado. Não conseguia ver coisa alguma e então Cujo saiu de dentro do nevoeiro.
Brett começou a assobiar baixinho. Aquele era o cachorro que tinha crescido junto com ele, que o puxava pacientemente em sou carrinho no meio de gritos de alegria, quando ele tinha apenas cinco anos, com uns arreios feitos pelo pai na oficina, o cão que o esperava pacientemente junto à caixa do correio até a chegada do ônibus escolar com chuva ou com sol. No entanto, aquele cão que ali estava tinha muito pouco de parecido com o outro. Estava todo sujo e parecia um cão fantasma saindo de dentro da névoa densa. Os olhos grandes e tristes do São Bernardo estavam agora vermelhos, estúpidos e baixos. Mais pareciam os olhos de um porco. Seu pêlo estava todo coberto de uma lama esverdeada, como se ele houvesse rolado no gramado distante. Estava com o focinho arranhado e isso deixou Brett apavorado. Tinha a impressão de que o coração iria sair-lhe pela boca.
Uma espuma grossa e branca escorria entre os dentes do cão.
Ele chamou-o, baixinho:
— Cujo... Cujinho...
O animal olhou para o GAROTO, mas já não o reconhecia mais. Não mais o seu cheiro, o seu rosto, a cor de suas roupas. Já não distinguia mais cores, pelo menos da forma como são vistas pelo ser humano. O que ele via ali era apenas um monstro de duas pernas. Ele era agora um cão doente e tudo lhe parecia monstruoso.Na sua cabeça que estalava só pensava em matar. Pensava em morder, rasgar, dilacerar. Uma parte dele via uma imagem imprecisa, via-o saltando em cima do GAROTO, derrubando-o, estraçalhando-o, bebendo seu sangue ainda quente. Sentia-se levado a praticar tudo aquilo porque seu coração estava moribundo.Foi então que o vulto monstruoso falou e Cujo reconheceu a sua voz. Aquele que que ali estava era o GAROTO, o GAROTO que nunca lhe fizera mal. Houvera uma época em que amara o GAROTO e até mesmo seria capaz de morrer por ele, caso fosse necessário. Ainda havia nele um resto de sentimento, o suficiente para deter o pensamento e o desejo de matá-lo até o momento em que tudo ficasse tão turvo quanto aquele nevoeiro que os cercava agora. Já não pensava mais naquilo, mas sentia-se cada vez mais doente.
— Cujo... o que é que está havendo com você meu amigo?
O que ainda restava do cãoo que tinha sido antes de ser mordido pelo morcego recuou e ele desapareceu no nevoeiro. A espuma que lhe saía da boca escorria para o chão. Ele saiu correndo com dificuldade, na esperança de ultrapassar a doença, mas isso de nada lhe serviu, porque ela o acompanhou. Ele gania, sentindo todo o seu corpo doer com a raiva e a vontade de matar. Começou a rolar no gramado ao mesmo tempo que o mordia, os olhos congestionados.
O mundo parecia-lhe, um mar louco de cheiros. Ele queria persegui-los para destruí-los a todos.
Começou a rosnar novamente. Afinal conseguiu fugir, embrenhando-se ainda mais no nevoeiro, que já começava a se dissipar.
Era um canzarrão que pesava pouco menos de 100 quilos.
Brett ficou ali na porta da oficina durante mais de 15 minutos após o cão haver desaparecido no nevoeiro, sem saber o que fazer. Sabia que Cujo estava doente. Talvez houvesse comido um morcego envenenado ou coisa parecida. Ele sabia o que era a raiva. Se houvesse encontrado uma marmota, uma raposa ou um porco-espinho com aqueles mesmos sintomas, logo perceberia que o animal estava danado; mas não podia sequer pensar que seu cachorro houvesse contraído aquela moléstia terrível, que afetava o cérebro e os centros nervosos. Estava mais inclinado a pensar em algum veneno engolido pelo cão.
Precisava avisar ao pai, que então chamaria o veterinário. Era até possível que seu próprio pai soubesse o que fazer, como acontecera dois anos antes, quando arrancara do focinho de Cujo todas as cordas de um porco-espinho, sempre com cuidado para não quebrá-las, já que isso resultaria em inflamação. Claro. Precisava ir falar com o pai. Ele faria alguma coisa. Como já fizera antes no caso do porco-espinho.