Cão Raivoso
O animal bateu de encontro ao vidro…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
O animal bateu de encontro ao vidro com um som abafado e recuou, procurando manter-se em cima do capô muito escorregadio o arranhando a pintura. Depois, voltou à carga.
Tad gritou ainda com mais força.
— Eu quero voltar para casa, mamãe...
— Fique bem abraçadinho comigo, meu querido, e não se preocupe...
Aquilo parecia uma tolice, mas o que mais poderia ela dizer-lhe?
Ele mergulhou a cabeça em seu seio no momento exato em que Cujo atacava novamente. O vidro já estava todo sujo de sua baba, mas ele não desistia. Continuava a olhar para Donna com aqueles mesmos olhos vidrados e inconscientes. Eram olhos que diziam a vontade que sentia de estraçalhá-la juntamente com o filho. Vou achar uma maneira de entrar aí nesta lata e então comerei os dois, pareciam dizer. Estarei engolindo pedaços seus e ainda ouvindo seus gritos.
— Danado... Este cão está danado... Era só o que ela pensava agora.
Cada vez mais apavorada, ela olhava para o carro de Joe estacionado ali ao lado e ficava imaginando se ele teria sido mordido pelo cão.
Ela apertou o botão da buzina e o animal recuou, quase perdoado o equilíbrio novamente.
Donna adorou a reação e gritou-lhe, muito satisfeita.
— Não está gostando nada disso, não é mesmo? Faz-lhe doer os ouvidos, hem? Tornou a buzinar com insistência e ele saltou para baixo. —Mamãe.., por favor, vamos voltar para casa...
Ela virou a chave da ignição e o arranque rodou, rodou, rodou, mas não pegou... Ela desistiu e desligou a chave novamente.
— Meu querido, nós não podemos sair agora. O carro...
— Eu quero ir embora. Quero ir embora agora mesmo, mamãe!
Ela sentia a cabeça bater tanto que parecia prestes a estourar, com dores perfeitamente sincronizadas com as batidas do coração.
—Olhe aqui, Tad. Ouça-me com bastante atenção. O carro não quer funcionar. Está com aquela tal válvula enguiçada. Nós temos que esperar aqui até o motor esfriar. Tenho certeza de que vai funcionar quando esfriar... E então nós vamos voltar para casa.
Tudo que precisamos fazer é sair daqui da entrada e apontar o carro para baixo no declive. Então, mesmo que ele não funcione, poderemos deslizar até lá embaixo. Se não tiver medo e se eu na pisar no freio, nós poderemos chegar até a Estrada Maple Sugar, com o motor desligado... ou então...
Lembrou-se da casa que ficava lá embaixo da colina. Aquela que tinha as madressilvas. Lá devia ter alguém. Ela vira os carros.
Alguém!
Começou novamente a tocar a buzina. Três buzinadas curtas e três longas, um sem-número de vezes. Era a única coisa que se lembrava de seus dois anos de escotismo. Eles ouviriam lá embaixo, mesmo que não entendessem o código Morse. Viriam até ali para ver o que estava acontecendo na casa do Joe. Para ver a razão daquela buzinação.
Por onde andaria o animal? Já não o via mais. Aquilo, no entanto, não tinha mais
importância. Ele não podia entrar no carro e logo viria alguém para socorre-los ali.
— Tudo vai dar certo, Tad. Você vai ver como vai mesmo...
A sede dos estúdios da Image-Eye, a companhia que produzia os filmes para a Ad Worx, ficava num prédio sujo de tijolos aparentes. Os escritórios eram no quarto andar e havia no quinto uma suíte com dois estúdios. A sala de projeção, mal refrigerada e comportando apenas umas 16 pessoas em fileiras de bancos, em grupos de quatro, ficava no sexto andar, que era o ultimo.
Naquele começo de tarde de segunda-feira, Vic e Roger estavam sentados na terceira fila
da sala de projeções, em mangas de camisa e com os colarinhos abertos. Tinham visto os filmes do Professor dos Cereais nos comerciais da Sharp repetidos cinco vezes, todos eles. Eram ao todo 20. Desses 20 havia três da malfadada série da Zingers.
O último rolo, com seis comerciais, terminara meia hora antes, quando o projecionista dera o seu boa-noite e fora para o seu outro emprego no Cinema Orson Welles. Quinze minutos depois, Martin, o presidente da companhia, tinha dado também o seu boa-noite com certo mau humor, acrescentando que sua porta estaria aberta para eles todo o dia seguinte e também na quarta-feira, caso precisassem dele. Evitou falar sobre aquilo que estava no pensa-mento de todos eles. A porta estaria aberta no caso de eles descobrirem alguma coisa que realmente valesse a pena discutir.
Ele tinha todo o direito de se mostrar de mau humor. Era um veterano do Vietnã que perdera uma perna na ofensiva de Tet. Tinha aberto o estúdio em 1970, com o dinheiro recebido do governo, devido à sua incapacidade física, e com a ajuda da família de sua mulher. Desde então, o estúdio vinha-se mantendo com migalhas da mesa onde se reuniam para seus banquetes os mais importantes estúdios e veículos de comunicação de Boston. Ele aceitara a firma de Vic e Roger por causa da semelhança que havia entre as duas organizações naquela luta contra os grandes. E, naturalmente, Boston fora escolhida pela facilidade que oferecia para viagens de contatos com os grandes centros. Sob esse ponto de vista, era até melhor do que Nova York.
Nos últimos 16 meses a companhia de Martin tinha prosperado e ele tivera oportunidade de conseguir bons contratos apenas devido ao fato de estar trabalhando para a Sharp. Assim, pela primeira vez, tudo parecia bem sólido para eles. Em maio, quando a campanha dos cereais estava no auge, ele enviara um cartão-postal a Vic e Roger, mostrando um ônibus cheio de turistas de Boston. No outro lado havia quatro garotas bonitas, que se curvavam exi-bindo os traseiros, todas trajando jeans de alta qualidade. No cartão estava escrito, em estilo de tablóide, a seguinte mensagem: A COMPANHIA ASSINOU CONTRATO PARA CRIAR BUNDAS BONITAS PARA OS ÔNIBUS DE BOSTON E VAI GANHAR MUITA GRANA. Muito engraçado naquela ocasião, mas já agora não tinha tanta graça assim. Desde o fracasso da Zingers, dois clientes já haviam rescindido seus contratos com a companhia e um deles era a fábrica de jeans Cannes Look. Se a Ad Worx perdesse o contrato da Sharp, a companhia de Martin perderia mais alguns além da Sharp e isso deixava-o zangado e apavorado.. emoções essas que Vic compreendia muito bem
Já fazia uns cinco minutos que eles estavam ali sentados, fumando em silêncio, quando Roger falou, baixinho:
— Eu tenho vontade de soltar um peido, Vic, quando vejo aquele tipo ali, sentado em sua mesa, olhando-me com a cara amarrada e a boca cheia daquele maldito cereal vermelho, como se quisesse repetir as palavras do Professor. Até sinto vontade de vomitar. Sinto-me fisicamente doente. Ainda bem que o operador já foi embora. Se fôssemos passar tudo outra vez, eu me preveniria com uma daquelas sacolas que as companhias de aviação dão aos pas-sageiros para eles vomitarem...
Apagou o cigarro do cinzeiro que estava no braço de sua cadeira. Ele estava mesmo com uma cara que não agradava a Vic. Era uma cara que poderia ter vários nomes, como “choque de batalha”, “fadiga de combate” e outros mais, quando, na realidade, não passava de verdadeiro cagaço. Estava encurralado num beco sem saída. Era como se estivesse numa escuridão, sabendo que ia ser devorado.
Esticou então o braço e pegou outro cigarro.
— Eu estava sempre me dizendo que via alguma coisa... sabe como é... mas nunca podia imaginar que seria tão ruim assim. Mas o efeito cumulativo desses filmes.:. Para mim isso é o mesmo que ouvir o Jimmy Carter garantir que jamais mentiria para o povo.
Tirou uma tragada do cigarro, fez uma careta e apagou-o .no cinzeiro. — Não é de admirar o sucesso conseguido por George Carlin e Steve Martin naquela
porcaria do programa da TV. Para mim, aquele cara tem um aspecto de fanfarrão que me enche...
A voz dele agora parecia como a de alguém que vai romper em prantos. Mas calou a
boca de repente.
Vic falou por fim, com ar bem tranqüilo:
— Tenho uma idéia...
Roger olhou-o, sem grandes esperanças.
— Eu sei que você tem. Já me falou exatamente isso no avião. Se tem mesmo uma,
então o melhor é falar logo. Vamos ver o que é...
— Acho que precisamos fazer ainda um outro comercial com o Professor dos Cereais.
Acho que precisamos convencer o velho. Nada com o garoto. É só com o velho...
— E o que é que o velho mestre vai dizer agora, Vic? Qual é o produto que ele vai
vender? Veneno para ratos ou suco de laranja?
— Deixe disso, Roger. Ninguém foi envenenado...
— Bem que poderia ter sido. Às vezes, chego a pensar se você realmente sabe o que é publicidade, Vic. É o mesmo que segurar um lobo pelo rabo. É isso mesmo. O diabo é que soltamos o rabo e o bicho agora quer nos comer.
Ele deu uma risadinha sarcástica.
— Roger...
— Estamos num país em que é notícia de primeira página quando um freguês do
McDonald"s pesa um produto que devia ter o peso anunciado e depois verifica que não tem. Faltava só um pouquinho. Estamos num país em que uma obscura revista da Califórnia publica um artigo dizendo que uma batida na traseira de um Ford Pinto pode ocasionar a explosão do tanque de gasolina e então toda a Companhia Ford treme nas bases...
Víc achou graça.
— Não me venha com essa agora, Roger. A minha mulher tem um desses carros. E já
estou cheio de problemas.
— Só quero dizer que fazer o Professor aparecer em outro comercial da Sharp pode parêcer um ato de esperteza só comparável com um outro, como, por exemplo, fazermos o Nixon repetir o seu discurso a respeito da situação do país. O Professor ficou seriamente comprometido, Vic. Está completamente liquidado! E o que é que você quer que ele venha dizer na TV, Vic?
O sócio encarava-o, muito sério.
— Ele vai pedir desculpas, Roger.
Roger olhou-o gravemente e a seguir deu uma gargalhada.
— Vai se desculpar, Vic? Vai dizer que sente muito? Mas isso é simplesmente maravilhoso! Então essa era a sua grande idéia?
— Espere um pouco, Roger. Dê-me uma oportunidade. Você não costuma ser assim
...
— Não, Vic. Não costumo mesmo. Diga lá o que está querendo. Só que não posso acreditar...
— Que estou falando sério? Mas estou falando muito sério, Roger. Afinal, você freqüentou as aulas. Diga-me qual é a base de toda campanha publicitária. Qual é o valor da propaganda? Por que gastar tanto dinheiro com ela?
— A base de toda propaganda, para ser bem-sucedida, é que o povo tenha vontade de acreditar. É quando o povo faz a própria propaganda.
— Eu sei... eu sei. É quando o mecânico da Maytag aparece na TV dizendo-se o homem mais solitário do mundo e então as pessoas tendem a acreditar que um cara como aquele existe realmente em algum lugar sem ter o que fazer, a não ser ouvir o rádio ou cair numa farra de quando em quando. E então as pessoas sentem o desejo de acreditar que suas Maytags não enguiçam nunca. Quando Joe DiMaggio aparece fazendo propaganda do café todo mundo quer acreditar no que ele diz. Se...
— Pois não é exatamente por isso que estamos todos num beco sem saída? Todo mundo queria acreditar no Professor e ele deixou-os na mão. A mesma coisa aconteceu quando queriam acreditar em Nixon e ele...
— Níxon! Nixon! Nixon! Você está se alienando com essa comparação, Roger. Você já disse isso umas duzentas vezes depois que estamos nesta encrenca, embora seja uma coisa que não vem as caso! Nada tem a ver com nossa situação!
Vic estava espantado com a sua veemência e Roger olhava-o mais atônito.
— Nixon era um trambiqueiro, sabia que era um trambiqueiro, mas sempre negava que o fosse. O Professor da Sharp disse que nada havia de errado com o produto da Zingers, mas ele não sabia se havia ou não.
Vic inclinou-se e espetou o dedo no braço de Roger para chamar-lhe bem a atenção. — Ele fez aquilo de boa fé, Roger. Ele precisa aparecer em cena para revelar isso. Ele
precisa apresentar-se ao público da nação e dizer que não agiu de má fé. Tudo que houve foi um engano da parte de uma companhia que fabrica as anilinas. O erro não foi da Sharp e ele precisa dizer isso com toda a clareza. E o mais importante ainda é que ele precisa apresentar suas desculpas, dizendo o quanto sente pelo engano cometido e também que, embora não houvesse vítimas fatais, ele se desculpa pelo medo que espalhou.
Roger sacudiu a cabeça e depois deu de ombros.
— Sim, sim. Já vejo onde você quer chegar, Vic. Mas o velho e o garoto não vão querer
saber disso. Eles simplesmente querem sepultar o fi...
— Eu sei! Eu sei! Eu sei, Roger! — Vic falava tão alto que Roger chegou a recuar. Ele
pôs-se de pé e começou a andar de um lado para outro na passagem da minúscula sala de projeção. —Claro que querem e estão com a razão. O cara está morto e precisa ser enterrado. O Professor precisa ser enterrado agora que a Zingers já foi também enterrada. O que precisamos fazer agora é evitar que o enterro seja feito às escondidas, à meia-noite. Esse é o ponto exato. O que eles querem é fazer isso à moda da Máfia, ou então de parentes que enterram uma vitima da cólera.
Ele inclinou-se tanto para o sócio que seus narizes chegaram a se tocar. — O que temos obrigação de fazer é conseguir um enterro decente em plena luz do dia,
para que ele possa mesmo repousar em paz. E o que quero é fazer com que todo o país compareça ao seu enterro...
— Você está .....
Roger não terminou o que ia dizer e fechou a boca com um estalo. E Vic então percebeu,
afinal, que o seu sócio já não tinha mais aquele aspecto de animal acuado. O seu rosto se transformara. Já não se via nele aquela expressão de medo. Parecia até mesmo bem animado. Estava começando a sorrir. Aquele sorriso aliviou-o tanto que ele chegou a esquecer Donna e todos os problemas surgidos depois de haver recebido o bilhete de Steve. A parte profissional tomou conta dele completamente e foi só mais tarde que se deu conta, embora ainda um tanto aturdido, de como se sentia maravilhosamente bem ao verificar que era bom mesmo na sua profissão. Já fazia algum tempo que não se sentia tão satisfeito assim.
— Na realidade, o que queremos mesmo é que o Professor repita tudo que a Sharp vem dizendo desde o malfadado acontecimento, porque sendo dito por ele...
— O resultado é outro, Vic.
Roger acendeu mais um cigarro.
—É isso. Creio que será possível convencer o velho a colocar um ponto final na farsa da Zingers. Falando com franqueza...
—Engolindo o remédio por mais amargo que ele seja. Acho que isso vai funcionar com aquele bode velho. Penitência pública..... auto-flagelação...
— E, então, ao invés de cair fora como um cidadão digno que se esparrama num lamaçal, servindo de chacota para todo mundo, ele sai de cena como Douglas McArthur, dizendo que os velhos soldados nunca morrem. Apenas desaparecem. Isso é o que está na superfície da coisa. Por baixo, no entanto, nós procuramos algo mais... um.... um sentimento...
Ele agora já estava cruzando a fronteira e penetrando no terreno de Roger. Desde que conseguisse delinear a forma daquilo que iria dizer, da idéia que lhe ocorrera quando tomava o café o sócio faria a sua parte aproveitando a dica.
E então, Roger começou a falar baixinho.
— MacArthur... mas é isso mesmo, Vic. Pois então você não acha.? O tom vai ser a. despedida. O adeus. O sentimento será o arrependimento. Precisamos fazer com que o povo sinta como foi o tratamento dado ao Professor, fazendo-lhe ver, ao mesmo tempo que agora já era tarde para arrependimento. E então...
Ele virou-se para Vic como que espantado.
— O que é?
— Então chegou a hora...
— Para quê?
— Para os comerciais. Isso tem que ser no horário nobre. para os pais e não para as crianças. Certo?
— Claro.
— Mas isso, só se conseguirmos fazer a porcaria dos comerciais, Vic.
— Nós vamos fazer, Roger. Vai ser um barato! Eles terão que assistir nem que seja
preciso pegá-los à força. Mas precisamos ter alguma coisa de concreto antes de chegarmos a Cleveland...
Vic já sorria, satisfeito.
Ficaram ali sentados mais uma hora, trocando idéias. Já estava bem escuro quando
finalmente saíram de volta ao hotel, cansados e suados.
Nós vamos poder voltar para casa agora, mamãe?
— Nós vamos voltar daqui a pouco, meu amor...
Ela olhou para e chave da ignição e para as outras que estavam no chaveiro, uma da porta de casa, outra da garagem e outra do porta-malas do carro. O chaveiro tinha uma parte de couro onde estava estampado um cogumelo e ela comprara-o numa loja em Bridgton, em abril. Naquela época ainda não sabia o que era o medo, apesar de andar bem desiludida e assustada. Ainda não sentira aquele medo como quando um cão danado estava com a cabeça presa na janela do lado onde seu filho estava, a baba escorrendo-lhe na mão.
Esticou o braço para a chave, mas encolheu-o novamente.
A verdade era que tinha medo de tentar.
Já eram 7:15 e o dia ainda estava bem claro, embora a sombra do carro fosse muito
comprida, quase chegando até a porta da oficina. Embora Donna não soubesse, Vic e seu sócio estavam naquele momento repassando os filmes do Professor, lá em Cambridge. Não entendia como ninguém havia respondido aos seus SOS com a buzina do carro. Se fosse num livro já alguém teria aparecido. Seria a recompensa para a heroína, por ter tido aquela idéia brilhante. Ninguém aparecera, no entanto.
Não podia haver dúvida de que a buzina fora ouvida lá naquela casa em ruínas no sopé
da colina. Talvez estivessem todos bêbados lá. Mas também era possível que os donos dos dois carros que ela vira houvessem saído num terceiro carro. Seria bom se pudesse ver a casa lá embaixo, mas a elevação do terreno não lhe permitia isso.
Ela acabara desistindo das buzinadas. Também temia gastar a bateria do carro, que ainda
era a original, e continuava a acreditar que o motor pegaria logo que estivesse bem frio. Sempre aconteceu isso antes.
Mas você está com medo de tentar, porque, se ele não pegar...então o que mais poderá fazer?
Ela estava esticando o braço novamente para a chave quando o cão tomou a aparecer,
andando com dificuldade. Estivera todo o tempo deitado bem ali na frente do carro, onde ela não.conseguia vê-lo. Ele caminhava lentamente na direção da oficina, a cabeça baixa e o rabo entre as pernas. Cambaleava como um bêbado que chegava ao amargo fim de sua jornada. Sem mesmo olhar para trás, ele entrou na oficina e lá ficou.
Ela encolheu novamente o braço que tentava chegar à chave.
— Mamãe? Nós não vamos mais embora daqui? — disse Tad.
— Deixe-me pensar um pouco, meu amor.
Com quatro passadas rápidas ela poderia alcançar a porta dos fundos da casa. Ela fora a
campeã de corrida no time do ginásio e ainda estava em boas condições físicas. Lá havia o telefone e então poderia ligar para a polícia, a fim de pôr um fim àquele horror. Por outro lado, se tentasse novamente dar a partida, o motor poderia não pegar, mas certamente traria o cão de volta. Ela não sabia coisa alguma a respeito de hidrofobia, mas tinha uma vaga idéia de já haver lido que os animais hidrófobos eram tremendamente sensíveis aos ruídos e ficavam ainda mais danados.
— Mamãe...
— Psiu ... Tad. Não faça barulho.
Eram somente umas oito passadas correndo.
Valia a pena tentar.
Mesmo se o animal estivesse escondido na oficina, espiando espiando seus movimentos,
Donna tinha certeza de que chegaria primeiro à porta dos fundos E lá havia o telefone. E, aliás, um homem como Joe certamente teria alguma arma em casa. Quem sabe até mesmo mais de uma. Seria para ela um grande prazer fuzilar o animal e ver seus miolos espalhados como geléia.
Eram só oito passadas largas...
Poderia sempre tentar.
E se aquela porta estivesse trancada?
Valeria a pena correr o risco?
Sentia o coração aos saltos enquanto avaliava as probabilidades. Seria coisa completamente diferente se estivesse sozinha. Se a porta estivesse fechada ela poderia chegar na frente do animal na ida, mas não na volta para o carro. Ele ganharia a corrida e ganharia também se avançasse para ela, como já havia feito antes. E o que faria seu filho? E se ele presenciasse sua mãe sendo atacada e estraçalhada por um cão danado?
Não. Eles estavam bem seguros ali dentro.
Então por que não tentar novamente o motor?
Esticou o braço para a chave, apesar de uma parte dela achar que seria melhor esperar mais um pouco. Esperar o motor esfriar mais.
Esfriar mais? Como assim? Já fazia mais de três horas que estavam ali...
Ela agarrou resolutamente a chave e virou-a.
O arranque rodou uma vez, duas vezes, três vezes e, então, de repente, pegou com estrondo.
— Graças a Deus! — gritou.
— Mamãe! Mamãe! Nós já vamos? Vamos mesmo?
— Vamos sim, meu filho.
Ela engrenou a marcha à ré e logo o cão apareceu na porta da oficina. Ficou olhando para o carro, enquanto ela lhe gritava impropérios diante do triunfo.
Pisou no acelerador e o carro andou um pouquinho para trás, mas logo parou o motor.
Donna soltou um grito de desespero, enquanto o cão dava mais uns passos à frente e a luz vermelha, do painel se acendia idiotamente.
— Não é possível!
Agora, porém, lá estava o bicho em silêncio, parado, com a cabeça baixa, e Donna tinha novamente a impressão de que a vigiava. A sua sombra projetava-se nitidamente para trás, como uma figurinha recortada em papel preto.
Ela tornou a ligar a ignição, virando o motor várias vezes sem conseguir fazer com que ele funcionasse. Donna ouvia o som de alguma coisa ofegante e áspera e levou algum tempo até descobrir que era ela própria quem estava fazendo aquilo, pensando de maneira muito vaga que era o cão. Ela continuava com o arranque ligado e rodando, fazendo caretas horríveis, esquecida de Tad e soltando impropérios que nem mesmo sabia como lhe vinham à boca. E o animal continuava lá, sua sombra se projetando como se fosse algum enterro surrealista, mas sempre atento.
Deitou-se por fim na passagem para a casa, como se soubesse que assim cortava qualquer possibilidade de fuga. Donna odiou-o ainda mais do que naquele momento em que ele enfiara a cabeça na janela.
— Mamãe! Mamãe! Mamãe!
Aquilo vinha de muito longe e não tinha importância. A única coisa que realmente importava agora era aquele carrinho de merda que ali estava, sem querer funcionar. Mas ele ia funcionar. Ela ia obrigá-lo a funcionar, usando para isso somente o poder da vontade...
Ela não fazia a menor idéia do tempo verdadeiro que se passara desde que estavam ali e continuava teimosamente a girar o arranque. O que, afinal, despertou sua atenção não foi o choro do filho, que já se reduzira a pequenos gemidos, e sim o barulho do motor que funcionava bem cinco segundos e logo parava para tornar a funcionar outros cinco, parando logo em seguida.
Ela estava acabando com a bateria e então resolveu parar.
Donna foi aos poucos recuperando a calma, como alguém que desperta de um desmaio. Lembrava-se de uma crise de gastrite que tivera quando estava na universidade e então tudo em tinha no estômago saía-lhe por cima e por baixo, desmaiando por fim num dos banheiros do dormitório. A recuperação fora bem parecida com o que lhe acontecia agora. Sentia-se como se fosse a mesma, mas com um pintor invisível adicionando cor ao mundo, enchendo.o primeiro até as bordas e depois ainda mais até transbordar. As cores gritavam-lhe nos ouvidos. Tudo em torno parecia ser de plástico e falso, como a vitrina de uma grande loja, com cartazes como „JÃ CHEGOU A PRIMAVERA „ou então „PRONTO PARA O PRIMEIRO CHUTE"...
Tad estava todo encolhido ali ao seu lado, os olhos apertados e chupando o dedo. A outra mão livre apertava o bolso onde tinha dobrado o papel com as Palavras Para os Monstros. Tinha a respiração ofegante.
— Fique calmo, meu amor...
A vozdele era pouco mais que um sussurro.
— Você está bem, mamãe?
Claro que estou, meu querido. E você também está. Pelo menos estamos em segurança e o carro vai funcionar a qualquer momento.
— Pensei que você estava zangada comigo...
Ela abraçou-o carinhosamente. Sentia na cabecinha dele o cheiro de suor misturado com xampu Johnson e então lembrou-se do vidro que estava lá no banheiro da casa, na segunda prateleira do armarinho de remédios. Ela bem que gostaria de estar lá também, mas o perfume estava ali bem perto, embora muito fraco.
— Não, meu amor! Nunca estive zangada com você. Nunca mesmo...
O menino abraçou-se com ela.
— Aquele bicho não pode pegar a gente, não é mesmo, mamãe?
— Não, meu querido...
— Não pode mesmo, não é, mamãe? Ele não pode entrar aqui.
— Não pode não, Tad.
— Estou com raiva dele, mamãe. Queria que ele morresse.
— Eu também queria, Tad.
Donna olhou pela janela, viu que o sol estava quase desaparecendo e sentiu-se assaltada por um pavor supersticioso. Lembrava-se de quando brincava de esconder na sua infância, brincadeira que sempre acabava quando o sol se punha, formando uma espécie de lagoa vermelha e dos gritos que a chamavam para jantar ecoando pelas ruas do bairro onde moravam. Logo depois as portas se fechavam quando chegava a hora de dormir.
O cão não tirava os olhos dela. Donna sabia agora que ele estava irremediavelmente danado e seus olhos não mostravam a menor expressão.
Não. Você está imaginando coisas. Aquilo é somente um cachorro e um cachorro bem doente. As coisas já estão bastante ruins e você, ainda por cima, começa a ver nos olhos dele coisas que não existem.
Ela procurava convencer-se de que aquela era a realidade. Pouco depois, já imaginava que os olhos do animal eram como aqueles retratos a óleo, em que os olhos do retratado acompanham as pessoas para todos os cantos do aposento.
O animal, no entanto, continuava a olhar para ela e Donna percebia naquele seu olhar alguma coisa que lhe era familiar.
Ela não acreditava e procurava pensar em outra coisa, mas já era muito tarde.
Você já o viu antes, não é mesmo? Foi naquela manhã depois daquele primeiro pesadelo de Tad. Na manhã em que encontrou os cobertores em cima da cadeira, com o urso em cima. E, então, quando se abria a porta do closet, a única coisa que você via era o urso com os olhos brilhantes e vermelhos, como se fosse alguma coisa prestes a saltar. Era ele. Era o Cujo. Tad estivera com a razão durante todo o tempo, embora não houvesse monstro algum no closet ... ele estava aqui. Ele estava
(basta)
aqui só esperando
(BASTA! PARE COM ISSO DONNA!)
Ela olhou para o animal, pensando que poderia ouvir seus pensamentos. Pensamentos bem simples. Os mesmos padrões simples, repetidos um sem-número de vezes a despeito da ebulição de sua doença e de seu delírio.
Mate A MULHER. Mate o MENINO. Mate A MULHER. Mate...
Pare com isso! Ele já não pensa e também não é nenhuma assombração saída do closet
de uma criança. Ê apenas um cão doente e nada mais. Dentro em pouco você já estará pensando que ele é o castigo de Deus porque você cometeu...
Cujo levantou-se, de repente, quase como se ela o houvesse chamado, e entrou na oficina.
(quase como se eu o houvesse chamado)
Ela soltou uma gargalhada quase histérica e Tad levantou a cabeça.
— O que foi, mamãe?
— Não foi nada, meu amor...
Ela olhou para a goela aberta que era a porta da oficina e depois para a porta da casa. Estaria trancada? Estaria só com o trinco e fácil de abrir por fora? Estaria ou não estaria trancada? Ela via uma moeda saltando no ar para tirar a sorte. Pensou na roleta russa com o tambor da arma só com uma bala. Trancada? Destrancada?
O sol já tinha desaparecido e tudo que restava do dia era uma réstia branca no horizonte. Não parecia mais grossa do que a linha que pintavam nas estradas. Em pouco tempo já teria desaparecido. Os grilos cantavam na relva alta do lado direito da entrada, como se estivessem cricrilando alegremente, sem pensar nas conseqüências. continuava lá dentro da oficina e não sabia se ele estava comendo ou dormindo. Só então lembrou-se que também trouxera provisões esticou-se para apanhar a lancheira de Tad e a sua sacola escura.
A garrafa térmica tinha rolado lá para trás, provavelmente na ocasião em que o carro
se sacudira todo na subida. Ela precisou esticar-se toda e a blusa lhe escapara da saia, mas, afinal, conseguiu pegá-la com os dedos. Tad estivera meio adormecido, mas agora já despertara completamente. A voz dele mostrava bem o medo que sentia e isso só serviu para aumentar nela o ódio que sentia pelo animal.
— Mamãe! Mamãe... o que é que .......
— Vou só apanhar a comida e a garrafa térmica, meu filho.
— Está bem.
Ele tomou a acomodar-se no assento, com o dedo novamente na boca.
Ela sacudiu com cuidado a garrafa para ver se estava quebrada, mas só ouviu o barulho
do leite lá dentro. Aquilo já era alguma coisa...
— Tad? Você quer comer alguma coisa?
— Eu quero mesmo é dormir, mamãe.
A resposta veio sem ele tirar o dedo da boca e sem abrir os olhos. — É preciso alimentar a máquina, companheiro...
Ele nem mesmo sorriu.
— Não estou com fome, mamãe. Estou com sono.
Ela olhou-o aflita, mas achou que o melhor mesmo era não insistir. O sono era a única
arma natural de Tad e já passava uns 30 minutos de sua hora normal de ir para á cama. Era claro que, se estivessem em casa, ele tomaria um copo de leite com biscoitos antes de escovar os dentes... depois queria uma história do seu livro predileto e...
Sentiu que lhe chegavam as lágrimas e achou melhor pensar em outra coisa. Abriu a garrafa com as mãos trêmulas e encheu o copo pela metade. Colocou-o na sua frente, em cima do painel, e apanhou um biscoito. Logo depois da primeira dentada, verificou que estava morta de fome. Comeu mais biscoitos e bebeu mais leite. Comeu algumas azeitonas e bebeu o resto do leite. Arrotou baixinho e depois olhou com mais atenção para a porta da oficina.
Agora havia uma sombra mais escura lá na porta. Só que não era uma sombra e sim o
cão. Era o Cujo.
Ele está nos vigiando...
Não. Ela não acreditava que estivesse. Tampouco acreditava agora que vira uma aparição de Cujo em cima dos cobertores do closet. Não acreditava.., mas sentia uma parte dela que acreditava. Só que essa parte não estava em seu espírito.
Ela levantou os olhos para o retrovisor e olhou para a estrada. Nada via porque já estava muito escuro, mas sabia que ela estava lá como também sabia que ninguém mais passaria por ali. Quando eles tinham vindo ali, da outra vez, no Jaguar de Vic, todos estavam muito alegres. O cão mostrara-se então muito manso e sociável e Tad brincara bastante com ele. Nessa ocasião, Vic lhe dissera que, até cinco anos antes, o depósito de lixo da cidade ficava no fim da Rodovia 3. Fora então que a estação de tratamento de lixo se instalara e começara a funcionar no outro lado da cidade, e então agora, logo ali adiante da casa de Joe, a rodovia simplesmente terminava e havia uma grossa corrente atravessada com uma placa pendurada. PROIBIDA A ENTRADA O DEPÓSITO DE LIXO ESTÁ PBCHAD0. Além da casa de Joe não existia mais nada.
Donna imaginava a possibilidade de algum casal aparecer por ali, mas concluiu que nem
mesmo um rapaz completamente louco se lembraria de vir namorar no antigo depósito de lixo. Aliás, ninguém ainda havia passado por ali.
A linha do horizonte já desaparecera, deixando apenas uma luminosidade... mas Donna receava que até mesmo aquilo fosse uma ilusão. Era uma noite sem luar.
Por incrível que parecesse, ela começou a ficar também com sono. Talvez o sono fosse também a sua única arma. E o que mais poderia ela fazer? Acreditava que o cão ainda estivesse lá, mas a escuridão era tanta que tomava-se impossível verificar se estava mesmo. Era preciso deixar a bateria descansar antes de tentar novamente. Então por que não dormir também?
Aquele embrulho na caixa do correio... Aquele embrulho enviado por J. C. Whitney.
Ela empertigou-se no banco, a testa franzida como se estivesse imaginando alguma coisa. Voltou a cabeça, mas dali onde estava só conseguia ver a caixa do correio. Por que lhe havia ocorrido aquele pensamento? Teria ele algum significado? Ela ainda tinha na mão a vasilha de plástico onde estavam as azeitonas e os pepinos. Ao invés de continuar a comer, ela tampou a vasilha e colocou-a na lancheira de Tad. Não queria começar a pensar no cui-dado que estava tendo com a comida. Sentou-se novamente e virou o dispositivo que abaixava as costas do banco. A sua intenção era pensar mais um pouco naquele embrulho que estava lá na caixa do correio. Tinha a certeza de que ali deveria haver alguma coisa. Logo, porém, seu pensamento voltou-se para outra direção que lhe parecia mais real e então começou a cochilar.
Joe e a família certamente tinham ido visitar parentes que deviam morar ali perto, a umas duas ou três horas de distância, talvez em Kennebunk; mas também poderia ser Hollis ou Augusta. Seria uma reunião de família.
Sua mente, já meio entregue ao sono, visualizava uma reunião de umas 50 pessoas ou mais num gramado pequeno e bonito. Havia uma churrasqueira acesa e numa longa mesa sentavam-se umas 40 pessoas, passando pratos cheios de espigas de milho, outros com feijões, ervilhas e várias verduras. Havia pratos cheios de churrasco já pronto e Donna percebia a reação de seu estômago a todas aquelas iguarias. A mesa era coberta com uma toalha de xadrez bem caseira e presidindo a festa estava uma encantadora senhora de cabelos completamente brancos, enrolados para formar um coque. Já agora completamente imensa no sonho, Donna verificou que ela era sua mãe e isto não lhe causou surpresa alguma.
Joe estava lá com a mulher e o filho, mas não se tratava do verdadeiro Joe Camber. Ele mais se parecia com Vic enfiado num macacão da Sears bem limpo, ao passo que sua mulher era a própria Donna em seu vestido de seda verde-claro. O filho deles mostrava como Tad seria quando tivesse a sua idade.
— Mamãe...
O quadro tremeu outra vez e começou a desaparecer. Ela tentou apegar-se a ele porque era um quadro tranqüilo e encantador. Era o arquétipo da vida em família que ela jamais conhecera. Era o tipo que ela e Vic jamais teriam, com o planejamento de um único filho e uma vida cuidadosamente programada. Com um crescente sentimento de tristeza ela pensava agora por que razão nunca havia encarado a vida sob aquele aspecto até então.
— Mamãe...
O quadro tremeu mais uma vez e começou a ficar mais escuro. A voz que vinha de fora atravessava a visão da mesma forma que uma agulha atravessava a casca de um ovo. Aquilo já não tinha importância. Joe e sua família iriam aparecer de um momento para o outro, por volta das 10, alegres e entupidos de churrasco e tudo acabaria bem. O Joe com a cara de Vic cuidaria de tudo. Tudo estaria bem outra vez. Havia certas coisas que Deus jamais permitia. Tudo seria...
—Mamãe
Ela despertou completamente e sentou-se cheia de surpresa por se ver ali atrás do
volante, em vez. de estar em casa na cama...mas aquilo durou apenas um segundo. Aquela família feliz, reunida em torno de uma mesa com churrasco, já estava desaparecendo. Dentro de mais 15 minutos ela nem mesmo se lembraria do sonho.
— Hem? Hã? O que é, meu filho?
De repente e de forma bem chocante, o telefone começou a tocar lá dentro da casa. O
cão levantou-se fazendo com que as sombras se movimentassem em formas bem estranhas.
— Mamãe... eu quero ir ao banheiro...
Ao ouvir o telefone, Cujo começou a latir, mas não era um latido e sim um rugido. Saiu
disparado em direção à casa. Projetou-se com tanta força contra a porta que ela chegou a estremecer.
Ela ficou apavorada. Não... não...basta...por favor, pare com isso... — Mamãe... eu preciso...
O animal estava ameaçador e mordia a porta. Ela ouvia a madeira quebrar-se entre seus
dentes.
— Quero fazer pipi.;.
O telefone continuava a tocar. Seis vezes. Oito. Dez e então parou.
Só aí ela percebeu que estivera com a respiração suspensa. Afinal suspirou
profundamente.
Cujo continuava lá na porta, com as patas traseiras no chão e as dianteiras no último degrau. Continuava a rosnar baixo, fazendo um barulho que era um verdadeiro pesadelo. Voltou-se por fim e ficou olhando para o carro. De onde estava, Donna via-lhe .a boca e o peito sujos com a espuma. Depois, voltou para a sombra e ela não o distinguia mais. Era impossível dizer para onde tinha ido. Talvez estivesse na oficina. Mas também poderia estar do lado de fora.
Tad puxava-lhe agora a camisa como um desesperado.
— Mamãe... eu já não agüento mais...
Ela olhou-o, aflita.
Brett largou o fone, desanimado.
— Não responde. Ele não deve estar em casa...
Charity sacudiu a cabeça sem mostrar grande surpresa. Gostara bem quando Jim lhe dissera que fosse telefonar do escritório lá embaixo, longe da “sala da família” que era à prova de som.
Havia prateleiras com vários jogos, uma TV com vídeo Panasonic e gravador junto com jogos de vídeo-teipes: Num dos cantos havia uma antiga vitrola Wurlitzer de fichas que ainda funcionava.
Brett estava desconsolado.
— Deve estar lá na casa do Gary...
— Claro que deve estar lá, meu filho.
A maneira como falava, no entanto, não queria significar que os dois estavam juntos
como bons amigos. Ela notara o olhar vago do marido na ocasião em que concordara com a viagem que permitira a sua presença ali agora na casa da irmã.
Esperava que o filho não tentasse o telefone de Gary também, pois sabia que lá ninguém
atenderia. Sabia bem o que aqueles dois deviam estar fazendo. Deviam andar por algum lugar como dois cachorros velhos, uivando para a lua.
— Você acha que o Cujo está bem, mamãe?
— Ora essa, Brett. Sei que seu pai não sairia, deixando-o só, se ele não estivesse bem.
E ela dizia aquilo com toda a sinceridade. Joe não o deixaria mesmo.
— Por que não esquecemos isto por esta noite? Você poderá telefonar amanhã cedo. Aliás, já é tempo de você ir para a cama. Teve um dia muito movimentado hoje.
— Mas não estou cansado, mamãe...
— Eu sei, mas não é bom abusar muito dos nervos, Brett. Já coloquei lá a sua escova de
dentes e a sua tia colocou as toalhas. Você sabe direito onde é o seu quarto?
— Claro que sei. Você também vai dormir, mamãe?
— Daqui a pouco. Vou conversar um bocado hoje com a Holly. Temos muitas coisas
para pôr em dia...
— Ela parece muito com você, mamãe. Sabia disso? — disse ele com uma certa timidez.
Charity olhou-o com alegre surpresa.
— Parece mesmo? Você acha que se parece comigo, Brett? Eu creio que pode ser... Pelo menos um pouco...
— E aquele garotinho... o Jimmy, ele tem uma boa direita mesmo... Puxa vida! — Brett
soltou uma gostosa gargalhada ao dizer isso.
— Ele machucou sua barriga?
— Nada disso...
Brett olhava em torno, examinando o escritório de Jim. Viu a Underwood em cima da mesa e o arquivo aberto onde estavam pastas em ordem alfabética, muito arrumadinhas. Havia uma expressão cautelosa em seus olhos que Charity não conseguia compreender nem avaliar. Ele parecia estar muito longe
— Ora essa; mamãe. Como é que ele poderia me machucar? ~ apenas uma criança. Ë meu primo, não é mesmo?
— Isso mesmo, Brett.
— E do mesmo sangue...
Ele parecia estar avaliando bem aquilo.
— E você gosta de seus tios? Do Jim e da Holly?
— Eu gosto dela, mas ainda não sei a respeito dele. Aquela vitrola antiga... Ela é bacana, mas...
O menino sacudiu a cabeça, num gesto de impaciência.
— O que é que há com ela, Brett?
— Ele se orgulha tanto com aquilo. Foi a primeira coisa que me mostrou... como se fosse uma criança com um brinquedo. Você não acha que isso é esquisito?
— Bem.., faz pouco tempo que ele tem o aparelho — disse Charity. — Um temor ainda não concretizado tinha começado a se formar em seu pensamento. O que Joe teria dito ao filho ao chamá-lo à parte lá na rodoviária? — Todo mundo gosta de coisas novas, Brett. A Holly me escreveu na ocasião em que ele comprou aquilo. Era uma coisa que sempre desejara ter desde a sua juventude. As pessoas ....... Você sabe como é, meu querido.., cada pessoa gosta de coisas diferentes. Creio que é para fazer ver como estão bem de vida. Ë uma coisa que não se pode explicar, mas geralmente é sempre alguma coisa que sempre desejaram quando eram pobres.
—E o Tio Jim era pobre?
— Não sei, Brett... Só sei que não são pobres agora.
— Eu só queria dizer que aquilo é uma coisa inútil para ele... Você me compreende? — Ele olhou-a bem de perto. —Ele pagou um bom dinheiro por aquilo, pagou o transporte, pagou a pessoa que veio instalá-lo e vive dizendo que é dele... mas ele... ele não.., eu realmente não entendo.
— Você quer dizer que ele não fez o aparelho com suas próprias mãos? — Embora o seu medo já fosse maior, ela sabia como se conter e falava com muita delicadeza.
— É isso aí, mamãe! É isso mesmo! Ele comprou, mas, na realidade, nada fez para...
mas agora vive contando vantagem, dizendo que se trata de um aparelho muito delicado, muito complicado. O papai num instante botava ele para funcionar.
Charity pensou ouvir uma porta bater com estrondo, mas não era uma porta da casa e sim de seu pensamento, de seu coração.
— O papai ficaria mexendo com ele até ver que estava funcionando e então o aparelho
seria dele...
— Brett, nem todo mundo é bom em trabalhar com as mãos... de fazer coisas
funcionarem. — Ela percebia que sua voz era fraca na sua tentativa de justificar o que dizia.
Brett continuava a olhar com atenção tudo que havia ali no escritório. — Eu sei como é, mamãe. Mas não vejo razão para o Tio Jim viver contando vantagem
só porque tem dinheiro. É isso que não me agrada.
Ela, de repente, ficou furiosa com o filho. Sentia vontade de segurá-lo pelos ombros e sacudi-lo bem, sentia vontade de gritar com ele. Queria que ele ficasse sabendo a verdade. Queria dizer a ele que o dinheiro do tio não caíra do céu. Que era o resultado de trabalho e de força de vontade e que tudo isso mostrava o caráter das pessoas. Queria dizer-lhe que, enquanto seu pai aperfeiçoava os seus dotes nos bares com amigos, bebendo uísque e con-tando piadas sujas, Jim fazia seu curso de Direito a duras penas, já que aquele era o único jeito para obter os diplomas indispensáveis para se vencer na vida. Isso não queria dizer que a simples posse de um diploma significava sucesso e dinheiro. Para se conseguir tudo isso era preciso lutar.
— Suba para seu quarto e meta-se na cama, Brett. Aquilo que você pensa a respeito de
seu tio não me interessa. É coisa completamente sua e de mais ninguém. Mas pelo menos, Brett, você deve ser um pouco tolerante com ele. Não o julgue só por uma coisa como esta — ela apontou-lhe a vitrola com o polegar.
— Está bem, mamãe. Vou fazer isso.
Ela foi com ele até a cozinha, onde Holly fazia chocolate. As crianças tinham ido para a
cama.
— Conseguiu falar, Charity?
— Não. Na certa, ele anda aproveitando a folga para dar umas voltas com aquele seu
amigo... Vamos tentar amanhã.
— Você quer um chocolate, Brett?
— Quero sim, tia. Obrigado.
Charity ficou ali olhando para o filho e viu quando ele espetou o cotovelo na mesa; mas logo corrigiu-se, sabendo que aquilo era feio. Charity tinha o coração tão cheio de amor, de esperança e de medo que ele parecia querer sair-lhe pela boca.
Ë preciso tempo e perspectiva. Preciso dar-lhe isso. Se pretender forçá-lo, vai perdê-lo
para sempre, sem duvida alguma.
Mas quanto tempo tinha ela? Era somente uma semana. Depois ele logo estaria outra vez sob a influência de Joe. No momento, porém, em que se sentava ao lado do filho e agradecia à irmã pelo chocolate, ela pensava novamente no divórcio, imaginando quais poderiam ser as possibilidades.
No sonho que tivera, Donna vira Vic voltar.
Ele simplesmente caminhara até o carro e abrira a porta do seu lado. Trajava seu melhor
temo. O cinza escuro. Sempre que o vestia ela brincava com ele, dizendo-lhe que estava parecido com o Presidente Ford e que a única diferença era a careca. Ele chegava com aquele seu sorriso, dirigindo-se a eles. Vamos embora, pessoal. Já está na hora, antes que cheguem os vampiros.
Ela tentava avisá-lo a respeito do cachorro danado, mas as palavras não saíam. E então Cujo saía lá da escuridão, de cabeça baixa e sempre rosnando. Ela tentava gritar alertando-o, querendo dizer-lhe que sua dentada era mortal, mas as palavras não saíam.
No momento exato em que o animal se precipitava para ele, Vic virou-se com o dedo em riste. O pêlo do bicho ficou logo completamente branco. Seus olhos vermelhos e lacrimejantes se fecharam e o focinho caiu-lhe, indo despedaçar-se no cascalho da estrada como se fosse vidro preto. Um momento depois, tudo que estava ali na porta da oficina era uma capa de peles acossada pelo vento.
E o sonho continuava.
Não fique aflita, Donna. Não se preocupe com aquele cão. aquilo não passa de um casaco de peles. O correio já chegou? Deixe para lá o cachorro. Está na hora do correio. E isso é muito importante! Está compreendendo? O correio...
A voz dele começava a sumir num túnel e ficava cada vez baixa e fraca, como se fosse apenas um eco. E então, de repente, aquilo já não era mais um sonho. Era apenas a recordação de um sonho.
Ela estava acordada e sentia as lágrimas correrem-lhe pelo rosto. Olhou o relógio e foi com dificuldade que conseguiu ver a hora. Uma e quinze. Olhou para Tad e viu que ele dormia profundamente, sempre com o dedo na boca.
Deixe para lá o cachorro, está na hora do correio. E isso é muito importante...
E então, de repente, ela lembrou-se do embrulho lá na caixa do correio e isto atingiu-a como se fosse uma flecha disparada pelo seu subconsciente, uma idéia que ela não conseguira compreender antes. Isso talvez fosse por ser ela tão grande, tão simples e tão elementar, meu caro Watson. Ontem fora segunda-feira e o correio viera. Hoje era terça e o correio devia chegar. Aquele embrulho remetido por J. C. Whítney era a prova disso.
As lágrimas que apareciam agora já eram lágrimas de alívio e rolavam por cima das outras que ainda não estavam secas. Ela se esforçou para não se mexer muito e acordar Tad, só para lhe dizer que tudo estava bem e que o fim estava próximo. Tudo acabaria por volta das duas da tarde quando o correio passasse. Até mesmo era possível que ele passasse às 11, que era a sua hora de entrega em toda a parte na cidade. E então o pesadelo teria chegado ao fim.