Cão Raivoso
— Não. Não. Deixe disso. Telefone de…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Mamãe...
— Não. Não. Deixe disso. Telefone de novo para ela. O número está aí nesse bloco. Diga à telefonista para debitar ao nosso telefone. Não quero que isso venha na conta da Holly. Pergunte a Bessie tudo que você quiser. Eu já fiz o que podia.
Pronto. Ai está. Não se passaram nem cinco minutos desde que jurei não mentir para ele.
Achava graça em tudo aquilo, mas era uma graça triste e amarga.
Naquela tarde, a indignação dela despertava nele outra indignação, mas agora, à noite, ele já estava mais tranqüilo.
— Deixe pra lá, mamãe. Esqueça.
Charity já estava arrependida de sua explosão.
— Se você quiser, Brett, podemos telefonar para mais alguem e pedir que de um pulo até lá em casa para ver o que há...
— Mas quem poderia ser, màmãe?
— Quem sabe os Millikens? Podíamos telefonar para um deles...
Ele apenas olhou-a.
— Eu sei que não é lá idéia muito boa...
Charity concordou. No fim do último inverno, Joe e John Milliken tinham tido um arranca-rabo por causa da conta apresentada pelo conserto no Chevrolet Bel Air dos irmãos. Desde então, eles andavam um tanto estremecidos. Quase não se falavam. A última vez que Charity encontrara Kim Milliken numa reunião, ela tentara uma conversa amistosa com a filha de Freddy, mas a moça não lhe respondera e passara por ela de cabeça erguida, esquecendo-se de que já fora para a cama com a maior parte dos garotos do ginásio de Castle Rock.
E, nesse momento, ela verificou como eles viviam isolados lá na sua casa. Aquilo fazia com que ela se sentisse solitária e um tanto fria. Não conseguia pensar em alguém a quem pudesse pedir para dar um pulo até lá, a fim de ver como andavam as coisas e se o Cujo estava bem.
— Deixa pra lá, mamãe. Seria mesmo uma estupidez. Ele deve ter comido alguma coisa que lhe fez mal.
Charity passou-lhe o braço pelos ombros.
— Olhe aqui, Brett. Sei que você não é estúpido. Vou telefonar para o Alva amanhã cedo e pedir-lhe que dê um pulo lá para ver o que há. Vou telefonar logo que nos levantarmos...
— Você vai mesmo, mamãe?
— Claro que vou, meu filho.
— Isso vai ser o máximo. Desculpe se te chateci muito com isso, mas não posso pensar noutra coisa.
Jim enfiou a cabeça na porta.
— Já estou com o tabuleiro pronto. Quem é que quer jogar comigo?
— Eu vou, tio, mas preciso que você me ensine.
— E você, Charity? Não vem também?
Ela respondeu sorrindo que preferia ir fazer umas pipocas.
Brett acompanhou o tio e ela ficou ali no sofá, olhando para o telefone e pensando no sonambulismo do filho, vendo-o dar de comer a um cão fantasma e usando uma comida imaginária ali na cozinha moderna da irmã.
O Cujo não está mais com fome.
Sentiu um arrepio que lhe corria pelo corpo e apertou os braços.
Prometia a si mesma que no dia seguinte iria dar um jeito naquilo. De qualquer maneira. Teria que fazer isso, ou então teria do voltar para fazer o que fosse preciso. Eu lhe prometo, Brett.
Vic tentou novamente telefonar para casa quando já eram 10 horas. Ninguém atendeu. Tentou as 11 e o resultado foi o mesmo, embora deixasse o telefone tocar mais de 20 vezes. As 10 ele já estava começando a ficar preocupado. As 11 estava verdadeiramente apavorado, sem saber bem por quê.
Roger estava dormindo. Ele discava no escuro e depois desligava. Sentia-se solitário e perdido como uma criança. Não. sabia o que fazer nem o que pensar. Em seu espírito a litania era sempre a
mesma.
Ela foi embora com o Steve... Ela foi embora com o Steve...Ela foi embora com o Steve...
Toda a razão e toda a lôgica eram contra aquilo. Ele repetia para si tudo que os dois haviam dito, repetia inúmeras vezes e ficava prestando atenção, mentalmente, nas palavras e nas nuances do tom com que tinham sido pronunciadas. Ela e Steve tinham rompido. Ela lhe dissera que desse o fora definitivamente. E então aquilo levara o cara a escrever aquele billet doux como vingança. Aquilo não parecia uma paisagem muito rósea para dois apaixonados fugirem...
A isso ele retorquia, mentalmente, que um rompimento não proíbe uma reaproxímação para mais tarde. E aquele pensamento sempre lhe ocorria com grave e imperturbável calma.
Mas então onde ficava o Tad? Ela seria incapaz de levar também o filho. Ou será que não seria mesmo? Pelo que ela lhe dissera, o tal cara parecia ser uma espécie de alucinado e, embora não houvisse dito isso, Vic tinha a impressão de que o rompimento fora violento.
As pessoas apaixonadas fazem coisas bem estranhas.
Aquela parte estranha e ciumenta de sua mentalidade tinha uma resposta pronta para tudo e ali no escuro não lhe parecia importante o fato da maior parte das respostas ser irracional. Ele, aliás, nunca se dera conta daquela parte de seu ser até aquela noite em Deering Oaks.
Ele estava numa dança lenta, para frente e para trás, entre dois pontos muito aguçados. Num deles estava Steve (TEM ALGUMA DÚVIDA AINDA?); no outro estava uma visão do telefone tocando sem parar na casa vazia de Castle Rock Também poderia ser que tivesse ocorrido um acidente e que ela e Tad estivessem em algum hospital. A casa poderia ter sido assaltada e os dois estavam mortos no quarto. Claro que, no caso de um acidente, sempre haveria alguém que seria notificado. Tanto o escritório como Donna sabiam qual o hotel onde ele estava, junto com Roger. Ali no escuro, nó entanto, aquele pensamento, que deveria ser um conforto, levava-o, cada vez mais, para a hipótese de um crime.
Assalto e morte era o que lhe segredava o pensamento, ali naquele quarto escuro. Depois ele escorregava lentamente na direção do outro ponto e recomeçava a mesma litania. Foi embora com o Steve...
Entre aqueles dois pontos sua mente encontrava uma explicação bem mais razoável, mas
era uma explicação que o deixava indignado. Ela poderia ter resolvido ir passar a noite na casa de aiguma amiga e simplesmente se esquecera de lhe avisar. Naquela hora já era muito tarde para começar a telefonar para outras pessoas, que também ficariam alarmadas. Lembrou-se também que poderia telefonar para o xerife, pedindo-lhe que investigasse, mas isso também lhe parecia um exagero.
O seu espírito mostrava-se contrário, mas, ao mesmo tempo, aprovava sem restrições.
Ela e Tad estão mortos, com facas enfiadas nos corpos. Os jornais publicam coisas
assim todos os dias. Aliás, tinha acontecido ali mesmo em Cartle Rock, antes de se haverem mudado para lá. Fora aquele policial louco. O Frank Dodd.
Ela foi embora com o Steve, sua mente insistia. Tentou novamente à meia-noite e como não conseguia resposta teve certeza de que
havia algo de errado. Steve. Ladrões. Assassinos, alguma coisa séria. Alguma coisa tinha acontecido em sua casa.
Largou o telefone e acendeu a luz da cabeceira.
— Roger, Roger, acorde...
— Hunnm...
O outro cobriu os olhos com o braço. Estava com aquele pijama com as flâmulas de
universidades.
— Roger... Roger...
Elo abriu os olhos, piscou e olhou para o despertador.
— O que é que há, Vic? Estamos no meio da noite...
— Roger...
Ele queria falar, mas sentia um aperto na garganta.
— Roger, já passa da meia-noite e Donna não está em casa.
Estou com medo...
O outro sentou-se e apanhou o despertador para olhar bem de perto. Queria verificar o
que Vic dissera. Já passava de meia-noite.
— Ora essa, Vic. Com certeza ela ficou chateada de ficar sozinha em casa. A Althea
também costuma fazer isso. Pega as meninas e se manda para a casa de Sally quando eu viajo. Ela diz que fica nervosa ouvindo o vento fustigar o lago.
— Ela me telefonaria, nesse caso...
Agora, com a luz acesa e com Roger ali falando, aquela idéia da fuga com Steve
parecia-lhe absurda. Não podia imaginar como acalentá-la tanto. A lógica que fosse para o inferno. Ela lhe dissera que estava tudo acabado e ele acreditava na mulher. Estava tudo acabado mesmo. Ali, naquele instante, ele acreditava píamente nela.
— Telefonaria?
Rogar ainda não estava com as idéias bem claras.
— Ela sabe que telefono quase todas as noites quando estou viajando. Ela telefonaria
para o hotel, deixando um recado e dizendo para onde ia... Não é assim que a Althea faz com vocé?
— Claro. É assim mesmo que ela faz.
— Ela sempre telefona e deixa recado para que você não fique preocupado como eu
estou agora...
— Claro. Mas a Donna pode ter simplesmente esquecido.
Mas os olhos do amigo também demonstravam preocupação
— Claro. Claro.., mas... por outro lado, também pode ter acontecido alguma cosa.
— Ela anda com a sua carteira de identidade, não anda? Se houvesse um acidente com ela e Tad, e que o diabo seja surdo, a policia teria telefonado para sua casa e para o escritório, e o serviço de atendimento teria...
— Não estou pensando em acidentes, Roger. Estou pensando em... — As palavras
saiam-lhe com dificuldade e sua voz tremia.
— ... estava pensando nos dois sozinhos em casa e... que merda, nem sei mais. A verdade é que estou apavorado.
— Telefone, para o escritório do xerife.
— Já pensei nisso, mas.,..
— Não tem nada de mas nem de menos, Vic. Assim você não vai afligir a Donna, porque
ela não está lá. Mas que diabo, rapaz, você ficará mais tranqüilo. Não pense só nas sirenes tocando e nos piscas-piscas girando nos carros da polida. É só pedir para rnandarem alguém lá pera ver se tudo está normal. Mas que diabo deve haver uns mil lugares onde ela possa estar. Vai ver que está se divertindo bem em alguma festinha.
— A Donna não gosta de festinhas, Roger...
— Também pode ser que esteja num joguinho com amigas e perdeu a noção do tempo. E então o Tad deve estar dormindo num quarto qualquer.
Vic lembrava-se bem de Donna ter-lhe dito que não gostava de andar com “amiguinhas”. Ela chegara a dizer que não queria ser como qualquer daquelas mulheres que sempre via nas festas de carídade. Ele, porém, não queria contar nada a Roger, porque havia uma certa ligação entre Steve e aquele assunto.
— É sim,.. Pode ser que seja alguma coisa parecida...
— Você tem uma chave da porta escondida lá na casa?
— Tem uma ,escondida num gancho na varanda da frente
— Pois então diga à polícia. Elos podem mandar alguém lá para ver... A não ser que você tenha lá escondido maconha ou coisa parecida. Alguma coisa que não deve ser vista por eles.
— Nada disso, ...
— Pois então faça o que eu digo. Talvez até ela telefone para cá enquanto os tiras estiverem lá olhando a casa... e aí você terá feito um papel de tolo. Mas há ocasiões em que isso até que é bom. Será que compreende o que quero dizer?
— Claro que compreendo — disse Vic, rindo um pouco. —Compreendo sim.
Ele tornou a pegar o telefone e ligou primeiro para casa, após hesitar um pouco. Ninguém atendia. O pouco do conforto das palavras do amigo logo se evaporou. Pediu “Informações” do Maine e anotou o número do escritório do xerife de Castle Rock. Já era meia-noite e quinze de quarta-feira.
Donna estava sentada no carro, com a mão em cima do volante. Tad adormecera novamente, mas não era um sono repousante. Estava irriquieto e chegava a falar coisas incompreensíveis. Ela temia que ele estivesse revivendo em seus sonhos o que acontecera antes.
Ela apalpou-o e Tad se encolheu, resmungandp. Seus olhos piscaram, mas logo ficaram quietos novamente. Parecia ter febre e isso, certamente, devia ser o resultado da tensão e do pavor. Ela mesma sentia-se febril e as dores eram muitas. A barriga doía-lhe, mas os ferimentos eram superfíciais, não passando de simples arranhões. Ela tivera sorte. Os ferimentos da perna eram mais sérios, mais profündos e mais feios. Sua mente insistia em chamar aquilo de mordidas, como se gostasse do horror que aquilo significava. Tinha sangrado muito antes da coagulação e ela não tentara enfaixar apesar de ter no porta-luvas do carro uma caixinha para primeiros socorros.. Ela imaginara, vagamente, que o fluxo do sangue limparia o ferimento. Não sabia bem se aquilo era verdade ou se era apenas uma crendice popular. Havia tanta coisa que ela não sabia. Um monte de coisas realmente. Continuava a chamar aquilo de “mordida”, como se fosse uma honra.
Quando o sangue afinal estancou, o banco do carro e as suas pernas estavam sujos de sangue. Ela precisou de três rolos de atadura para cobrir bem o ferimento. Aliás, eram os últimos três existentes no estojo. Ao se dar conta disso, ocorreu-lhe que precisava de um novo estojo, mas tal pensamento pareceu-lhe tão ridículo que ela foi assaltada por um acesso de riso histérico.
Naquela luz muito fraca. a carne logo acima do joelho parecia um pedaço arado de uma terra escura. Sentia um doloroso latejar contínuo desde que fora mordida. Engolira em seco duas aspirinas que achara no estojo, mas que de nada lhe serviram. A cabeça também lhe doía muito. Tinha a sensação de estar sendo espremida por fios de arame que se apertavam cada vez mais.
Se mexesse com a perna a dor se transformava e, ao invés de latejar, passava a ser uma
espécie de punhalada. Não tinha a menor idéia se ainda poderia andar,mas sabia que a corrida até a porta da casa estava fora de cogitação. Aquilo, porém, já não tinha importância. O cão estava lá sentado no cascalho, entre o carro e a casa. Sua cabeça estava baixa, mas os olhos continuavam fitos no carro. Continuavam fitos nela.
Donna tinha a impressão de que ele não ia fazer mais nada, pelo menos naquela noite. Era possível que, no dia seguinte, o sol o obrigasse a ir para dentro da oficina, se o calor continuasse forte como até então.
— Ele quer me pegar... — murmurava baixinho, com os lábios crestados, e era a pura verdade. Era verdade mesmo, de alguma forma. Por motivos que haviam sido decretados pelo destino, ou pelo próprio instinto incompreensível do cão, ele queria pegá-la.
Ela tivera certeza de que o animal estava morrendo quando ele se deixara cair no cascalho. Não havia coisa viva que conseguisse suportar as pancadas que lhe dera com a porta, e nem mesmo o seu pêlo espesso conseguiria amortecer os choques. Uma de suas orelhas estava pendurada por um fino cordão de carne.
Pouco a pouco, no entanto, ele conseguira se recuperar e andar. Ela mal podia crer no que via.., recusava-se a acreditar no que via. Ficara completamente descontrolada e chegara a gritar.
— Não... você devia estar morto! Deite-se. Deite-se para morrrer. Deite-se já, seu cachorro de merda.
Tad já acordara e segurava a cabeça.
— Não, mamãe. Estou com a cabeça doendo... está doendo muito.
Depois disso, a situação. continuara inalterável. O tempo concontinuava a se arrastar. Ela levara seu relógio ao ouvido várias vezes para verificar se ainda funcionava, já que tinha a impressão de estar vendo os ponteiros sempre no mesmo lugar.
Já passavam 20 minutos da meia-noite.
O que é que nós sabemos a respeito de hidrofobia, afinal7
Muito pouca coisa. Alguns vagos fragmentos esparsos, provavelmentc todos em suplementos domínicais. Um panfleto que apenas folheara despreocupadamente em Nova York, na época em que levara a gata da família a Dinah, ao veterinário, porque estava ruim da barriga. E ela fora então vacinada contra a raiva.
A raiva é uma moléstia que afeta o centro do sistema nervoso. Aos poucos, vai causando sua destruição. Mas como? Ela nada sabia a respeito. E era bem provável que os médicos também não soubessem. Se não fosse assim, a moléstia não seria considerada tão perigosa. Ela procurava se iludir. “Aliás, nem mesmo sei se ele está danado mesmo. O único cão danado que vi em minha vida foi aquele que o Gregory Peck matou a tiros no filme To Kill a Mockingbird. Só que, naturalmente, aquele não estava danado. Estava apenas fingindo e devia ser algum vira-lata todo besuntado com espuma de cremo de barba.”
Ela voltou a pensar naquilo. Sempre seria melhor fazer uma analise pessimista, como Vic costumava dizer, pelo menos naquele momento. Além disso, era claro que o animal estava danado mesmo. O que mais poderia haver para que ele se comportasse daquela maneira? Ele estava danado mesmo.
E ela a mordera. Mordera bem. E então o que ia acontecer agora?
Ela sabia que os seres humanos podiam contrair a raiva e sabia também que era uma morte horrorosa. Talvez fosse, até mesmo, a pior de todas. Existia uma vacina preventiva. O tratamento era feito com uma série de injeções muito dolorosas, até mesmo tão dolorosas quanto o sofrimento do animal. Mas...
Ela parecia lembrar-se de ter ouvido ou lido em algum lugar de pessoas que haviam conseguido sobreviver em adiantados casos de hidrofobia. De casos que só tinham sido diagnosticados quando os sintomas já estavam aparecendo. Um deles era um menino que ficara completamente bom. Um outro fora um pesquisador cujo cérebro flcara inutilizado para sempre. Aquilo fora um completo desastre para as instituições oficiais.
As probabilidades de cura diminuíam com o tempo que a pessoa mordida passava sem tratamento. Ela passou a mão pela testa e viu que estava alagada em suores frios.
Mas qual era esse tempo? Horas, dias, semanas? Talvez um mês?. Ela simplesmente não sabia.
E então, de repente, teve a impressão de que o carro estava encolhendo. Já estava do tamanho de uma Honda, mas logo depois era do tamanho de um daqueles carrinhos de três rodas que eram dados aos mutilados de guerra na Inglaterra. Passou logo para o tamanho de um side-car e a seguir de um caixão fúnebre. Um caixão duplo para ela e Tad. Eles prcçisavain sair dali. Precisavam sair...
Antes que se desse conta, sua mão já procurava a alça da porta do. carro. Sentia o coração disparar e o latejar que sentia na cabeça acelerar. Por favor. Tudo já está bem ruim sem o pensamento da claustrofobia... Por favor... Por favor...Por favor...
Já estava novamente com sede. Uma sede terrível.
Olhou lá para fora e viu o animal sempre olhando atento para ela. A rachadura na janela fazia com que seu corpo parecesse cortado ao meio.
— Por favor! Por favor! Socorro! Precisamos de ajuda!
Roscoe Fisher estava escondido na beira da estrada quando recebeu o chamado. Ele estava, ostensívamente, à espera de alguém em excesso de velocidade, mas na realidade estava cochilando, à meia noite e 30 daquela quarta-feira, ali na Rodovia 117, onde não havia tráfego algum. Ele dispunha de um pequeno despertador na cabeça que estava regulado para despertá-lo por volta de uma hora, quando todo o pessoal saia do Drive-in. Nessa hora, então, tudo era possível.
— Unidade três, responda. Unidade três... Câmbio...
Roscoe acordou imediatamente, mas entornou o café frio que estava num copo de plástico entre suas pernas.
— Essa agora! Mas que merda!
— Unidade três., está dormindo? Unidade três, responda... câmbio...
Ele apanhou o microfone e apertou o botão.
— Estou aqui...
Bem que gostaria de ter acrescentado alguma coisa mais. Gostaria de dizer que esperava haver uma boa razão para o chamado que lhe derramara o café nas calças, mas nunca era possível sabor quem estava na central, nem tampouco se havia ou não escutas de amadores na faixa da polícia... até mesmo naquela hora adiantada da noite.
— Dê uma chegada no número 83 de Larch Street. Residência do casal Trenton. Veja o que há por lá. Câmbio...
— E o que é exatamente que devo ver? Câmbio...
— O dono da casa está em Boston e o telefone da casa não responde. Ele acha que deve haver alguém em casa... Câmbio.
Roscoe estava indignado. É uma maravilha! Isto vai me custar quatro pratas para mandar limpar as calças. E se eu fizer parar alguém com excesso de velocidade, o cara vai pensar que mijei nas calças com a alegria que senti por pegar um contraventor.
— São dez e quatro... Câmbio...
— Eu aqui tenho meia-noite e trinta e quatro da madrugada... A chave da casa está escondida num gancho da varanda, unidade três. O dono da casa quer que a gente dê uma olhada já, por dentro e por fora da casa. Câmbio.
— Certo, base. Estou indo. Câmbio e desligo.
— Desligo.
Roscoe acendeu as luzes do carro e saiu pela rua principal da cidade completamente deserta. Passou pela praça e pelo coreto onde a música costumava tocar e cujo telhado era verde e cônico. Ele subiu a colina e dobrou à direita, na rua onde morava Vic. A casa era a segunda depois da esquina. Imaginou que, nos dias claros, seria possível ver a cidade lá embaixo. Encostou o carro no meio-fio e saltou, fechando a porta sem fazer barulho. A rua estava escura e todo mundo dormia.
Roscoe parou por um momento. Descolou a calça molhada das pernas, fazendo uma careta, e depois subiu pela entrada de carros. Não havia nada ali nem na pequena garagem. Lá dentro só havia um triciclo igual ao que dera ao seu filho.
Fechou a porta da garagem e deu a volta para chegar à porta da varanda. Viu lá junto à porta o exemplar do CaII daquela semana. Apanhou-o e verificou a porta. Não estava trancada. Entrou na varanda, sentindo-se um intruso, e atirou o jornal no balanço que ali havia. Apertou o botão da campainha. Escutou a música da sineta lá dentro, mas não apareceu ninguém. Tocou mais duas vezes, dando tempo para que a senhora se levantasse e viesse abrir, mas ninguém apareceu.
Depois de ver que ninguém atendia, experimentou a fechadura. Estava trancada.
Imaginou logo que, como o marido estava viajando, ela provavelmente fora para a casa de alguma amiga. Mas também achava bem estranho o fato dela não ter avisado ao marido.
Encontrou a chave onde lhe disseram que estava. Era um lugar arranjado por Vic logo que viera morar ali. Roscoe abriu então a porta da frente. Se houvesse tentado a da cozinha, como fizera Steve, ele teria entrado por lá. Da mesma forma que a maior parte das pessoas da cidade, Donna era um tanto descuidada em matéria de portas bem fechadas.
O policial entrou com sua lanterna, mas preferiu não usá-la. Achava que aquilo faria com que se parecesse ainda mais com um intruso, um ladrão com as calças molhadas de café. Procurou o interruptor e acabou encontrando um espelho com dois. O de cima, acendia a luz da varanda e o de baixo era a luz da sala. Ele apagou logo a da varanda.
Olhou em torno durante algum tempo, como se não conseguisse acreditar no que estava vendo. Chegou mesmo a pensar que estava com a vista ruim, mas logo viu que esse não era o caso. Sentiu o coração bater mais forte.
Sabia que não devia tocar em coisa alguma. Tudo devia ficar como estava. Já não se lembrava mais de que estava com as calças molhadas e também já não se julgava mais como um intruso. Estava apavorado e nervoso.
Já via que alguma coisa acontecera ali, sem dúvida alguma. Aquela sala estava de pernas para o ar. O chão estava cheio de cacos de vidro das peças quebradas, os móveis virados e os livros espalhados por todos os cantos. O espelho grande em cima da lareira também estava quebrado. Ele pensou que aquilo significava sete anos de azar para alguém. E então, de repente, viu-se pensando em Frank Dodd, aquele policial tão amável, mas que também era um psicopata, e que matara mulheres e crianças. Ficou todo arrepiado. Aquilo ali não era o lugar certo para se pensar em Frank Dodd.
Foi até a cozinha, passando pela sala de jantar, onde tudo fora varrido da mesa, e caminhou com cuidado para não pisar em nada. A cozinha ainda estáva em pior estado e ele sentiu-se novamente arrepiado. Um louco varrido passara por ali. Havia potes e panelas por todos os cantos, assim como também um pó branco que parecia sabão.
Escrito no bloco para recados, em letras de fôrma bem gra»~" dos, havia um recado.
DEIXEI UMA COISA PARA VOCÊ LÁ EM CIMA, BONECA
E aí, de repente, Roscoe não sentiu a menor vontade de subir para ver o que havia lá em cima. Não queria ir lá de forma alguma. Ele ajudara na limpeza de trés das sujeiras deixadas por Frank Dodd, inclusive o corpo de Mary Kate, que o tarado estuprara e assassinara no coreto lá da praça. Não queria ser obrigado a fazer coisa semelhante outra vez. A mulher bem que poderia estar lá morta a tiros, a facadas ou estrangulada. Ele já vira muita trapalhada nas estradas e, de um certo modo, até mesmo já se acostumara com aquilo. Dois anos antes, ele, o xerife e Billy tinham tirado um cara de dentro de uma máquina agrícola todo cortado em pedacinhos e aquilo era coisa para se contar aos netos. Nunca mais vira outro homicídio de-pois daquele de Mary Kate e não queria que isso lhe acontecesse agora.
Ele não sabia direito se deveria sentir-se aliviado ou cheio de nojo com o que encontrou no quarto da casa, em cima da colcha.
Voltou para o carro e chamou a base.
Quando o telefone tocou, Vic e Roger estavam sentados diante da TV, sem conversarem. Assistiam ao filme Frankenstein, o original, sem lhe dar atenção. Era uma e vinte da madrugada.
Vic correu para atender ao primeiro toque.
— Alô... Donna? Vocé...
— É o Sr. Trenton?
— Sim. Sou eu mesmo.
— Aqui fala o xerife de Castle Rock, Sr. Trenton. Acho que tenho más notícias para o senhor... Eu sinto...
— Eles estão mortos?
Vic sentiu-se, de repente, completamente irreal em duas dimensões, sem mais realidade do que o rosto de um figurante no fundo de um velho filme como aquele que estava ali na TV. A pergunta foi feita num tom perfeitamente convencional, como se fosse uma conversa normal. Pelo canto do olho, ele via a sombra de Roger que se levantava, mas aquilo não tinha ímportãncia. Nada mais tinha. No espaço de alguns segundos, desde que atendera ao telefone, ele tivera a oportunidade de ver toda a sua vida em retrospecto e concidira que tudo nela fora um cenário de fachadas falsas.
— Sr. Trenton, o nosso policial Fisher foi enviado à...
— Deixe desses rodeios de merda e responda à minha pergunta, xerife. Eles estão mortos?
Ele virou-se para Roger, cujo rosto estava cinzento e ansioso pela resposta. Por trás dele, na TV, um moinho de mentira rodava, tendo por fundo um céu de mentira.
— Roger... me dá um cigarro...
— Sr. Trenton? Alô, Sr. Trenton?
— Estou ouvindo. Quero saber se estão mortos...
— Até agora, Sr. Trenton, não temos a menor idéia sobre o que possa ter acontecido à sua mulher e seu filho...
Vic respirou, aliviado. O mundo recuperava um pouco de seu colorido. Ele começou a tremer com o cigarro na boca, ainda sem acender.
— Mas o que é que está acontecendo? O que é que o senhor sabe, afinal? O senhor é o xerife, não é mesmo? O Xerife Bannerman?
— Isso mesmo. O xerife do Castle Rock. Se o senhor me ouvir durantc um minuto, vou lhe contar tudo que sabemos até aqui.
— Está bem, está bem. Pode falar.
Vic já estava com medo vendo as coisas acontecendo tio depressa.
— Mandei o policial até sua casa, no endereço que o senhor me deu. Era meia-noite e trinta e quatro minutos. Ele verificou que não havia nenhum carro na entrada nem na garagem. Tocou a campainha e, como não aparecia ninguém, ele entrou, abrindo a porta com a chave que estava onde o senhor dissera. Viu logo que havia sido cometido um completo vandalismo em sua casa. A mobília estava virada, as garrafas do bar estavam quebradas pelo chão, o piso da cozinha estava coberto de sabão em pó e tudo mais ali estava quebrado...
— Meu Deus! Foi o Steve...
Ele disse aquilo baixinho, pensando no bilhete que recebera. Lembrava-se de sua pergunta “VOCÊ AINDA DUVIDA?” Ele se lembrava de como ficara preocupado, pensando no estado mental do remetente. Era a sua vingança feroz por haver sido desprezado. O que mais teria ele feito? O que mais fizera depois de haver passado pela sua casa como um tufão devastador?
— Sr. Trenton?
— Continuo ouvindo...
O outro pigarreou, como se não soubesse a melhor maneira de prosseguir.
— O policial foi ao andar de cima, mas ali não havia sinais de vandalismo. Ele só encontrou vestígios de... de... de um fluido esbranquiçado que parecia esperma em cima da colcha do quarto do casal. A cama tinha a aparência de não haver sido usada...
A última parte da informação parecia uma nota cômica para ocasião.
— Mas onde é que está minha mulher? O senhor tem alguma idéia quanto ao lugar onde ela possa estar?
Ele agora já estava berrando.
— Tenha calma, Vic — disse Roger, colocando a mão no ombro do amigo. Ele, aliás, podia aconselhar calma, já que sua mulher devia estar na cama dormindo tranqililamente. Suas filhas estavam com ela. Vic afastou-lhe a mão com um safanão.
— Sr. Trenton, tudo que posso lhe dizer agora é que o pessoal da policia estadual já tem seus detetives cuidando do caso, junto com os meus policiais. O seu quarto e o quarto de seu filho estão praticamente intactos.
— Com exceção apenas daquela porcaria em minha cama, não é mesmo?
Ele falou aquilo de uma forma tão desabrida que Roger chegou a se encolher como se houvesse sido atingido. Chegou a ficar de boca aberta.
A voz do xerife parecia embaraçada.
— É como eu disse, Sr. Trenton. Mas o que eu queria dizer mesmo é que não encontramos sinais de violência em parte alguma, isto é, violência contra pessoa ou pessoas. Tudo indica que foi simples vandalismo.
— Mas então onde é que estão minha mulher e meu filho, xerife?
A sua indignação violenta já começava a se transtormar em espanto. Sentia as lágrimas chegarem, tal como uma criança desamparada.
— Até agora não fazemos a menor idéia, Sr. Trenton. Não temos pista alguma.
Steve... Meu Deus! Será que o Steve está com eles?
Durante um momento, ele lembrou-se do sonho da véspera. Vira Donna e Tad
escondidos numa caverna e sendo ameaçados por um animal terrível. Depois, tudo sumira.
— Será que o senhor tem alguma idéia sobre quem possa ter sido?
— Vou já para o aeroporto e estarei aí amanhã às cinco horas.
O xerife procurava demonstrar um máximo dc paciência e tolerância.
— Está bem, Sr. Trenton. Mas se o desaparecimento de sua mulher e seu filho tem alguma coisa a ver com o vandalismo praticado em sua casa, o tempo poderá ser coisa muito preciosa para nós. Se o senhor tem a menor idéia de quem possa ter feito isso, de quem possa ter alguma queixa contra o senhor ou sua mulher, seja ela real ou imaginária...
— Kemp — ele falou muito baixinho, a voz quase estrangulada. Já não conseguia mais
reter as lágrímas. Já as sentia correndo pelo rosto. Foi o Kemp. Foi Steve Kemp quem fez isso. Tenho certeza absoluta de que foi ele. Deus do céu! O que terá ele feito com minha mulher e meu filho? Será que estão em seu poder?
— E quem é esse Kemp?
Agora a voz do xerife já não se mostrava embaraçada. Ela era incisiva e autoritária.
Vic ficou com o fone na mão direita, enquanto tapava os olhos com a esquerda, como se quisesse se desligar de Roger, da TV e daquele quarto de hotel. Ele encontrava-se agora numa completa escuridão, sozinho e somente com o som trêmulo de sua voz e as lágrimas quentes em seu rosto.
— Steve Kemp... Stevc Kemp. Ele tinha uma loja aí na cídade, mas já se mandou. Ele e minha mulher... Donna... eles... eles tiveram um caso. Durou pouco e ela chutou-o. Fiquei sabendo porque ele me enviou um bilhete... um bilhete bem sujo... Acho que queria se vingar. Não se conformava por haver levado um chute. Isso agora me parece uma versão ampliada do bilhete...
Ele esfregou os olhos com violência, com isso formando uma galáxia de estrelas candentes e vermelhas.
— Acho que ele não gostou de não ter conseguido romper nosso casamento. Também pode ser que ele... que ele esteja maluco. Donna sempre me contava como ele ficava louco quando perdia uma partida de tênis. Não apertava a mão do vencedor. Tudo é uma questão... — Sentiu que a voz lhe faltava e viu-se obrigado a pigarrear para poder continuar. Sentia um aperto no peito. Um aperto que ia e vinha. — ... uma questão de saber até onde ele irá. Eles podem estar em poder desse louco, xerife. Pelo que sei dele, é um cara capaz de tudo.., tudo mesmo.
Houve um silêncio do outro lado, mas não foi, propriamente isso. Vic ouvia o ruído de um lápis escrevendo. Roger tornou a colocar a mão no ombro do amigo que, dessa vez, deixou-a ficar. Sentia-se grato com o calor daquela amizade. Estava sentindo muito frio.
— Sr. Trenton, o tal bilhete que ele lhe mandou ainda está em seu poder?
— Não. Rasguei-o. Desculpe-me, mas... em vista das circunstâncias...
— O bilhete, por acaso, estava escrito todo em letra de fôrma?
— Isso mesmo. Estava sim.
— O meu policial também encontrou um bilhete assim no bloco de recados da cozinha... O bilhete diz: “Deixei uma coisa para você lá em cima, boneca.”
Vic soltou um gemido. A única leve esperança de poder ter sido alguma outra pessoa desvanecia-se por completo. Só podia ser mesmo ele. O recado deixado na cozinha se enquadrava direitinho naquilo que ele escrevera no bilhete.
— O recado parece indicar que sua mulher não estava lá quando ele arrasou a casa.
Assim mesmo, chocado como estava, Vic percebia uma nota falsa na voz do xerife.
— Ela poderia ter entrado quando ele ainda estava lá e o senhor também é da mesma opinião, xerife. Poderia ter voltado das compras ou da oficina, onde tinha ido para consertar o carro...
— E que espécie de carro tem esse cara? O senhor sabe qual é?
— Não é propriamente um carro. É uma caminhonete de entrega.
— Sabe a cor?
— Não. Não sei.
— Sr. Trenton, eu lhe aconselharia que viesse já de Boston. Mas também lhe aconselho que, se alugar um carro, tenha muita calma. Sua mulher e seu filho podem regressar sem que seja preciso
o senhor se deixar matar num desastre na estrada.
— Compreendo, xerife. Obrigado.
Ele não iria dirigir carro algum, devagar ou não. Ele queria se esconder. Melhor ainda, ele queria viver novamente aqueles últimos seis dias.
— Mais uma coisa ainda, Sr. Trenton. Na sua viagem para cá procure fazer uma lista mental dos amigos e conhecidos que sua mulher tem nesta área. Ainda é perfeitamente possível que ela tenha resolvido passar a noite em casa de alguém...
— Claro. Claro...
— A coisa mas importante, e que não devemos esquecer, é que ainda não encontramos vestígios de violências pessoais.
— O senhor me disse que toda a parte de baixo da casa está destroçada, mas não acha que tenha havido violência... Para mim isso é mais do que simples violência.
— Sim, sim. Eu sei...
O xerife não se sentia muito confortável.
— Eu estarei aí, xerife.
— Vic... eu sinto muito — disse Roger.
Vic não tinha coragem de encarar o amigo. Sou corno. Tenho chifres, conforme dizem.
Agora Roger já sabe que sou corno.
— Está tudo bem, Roger...
Ele começou logo a se vestir.
— Você tinha todas essas preocupações e mesmo assim não desistiu desta viagem... — Não adiantaria nada se estivesse em casa, Roger. Já tinha acontecido. Eu... eu só
descobri na quinta-feira. E então pensei que uma viagem... a distância... me daria tempo para pensar... me daria mais perspectiva. Nem mesmo sei quanta coisa estúpida não me passou pela cabeça. E agora tenho mais esta...
— Mas você não teve culpa.
— No ponto em que estamos, não sei mais se tenho culpa ou não. Estou preocupado com o que possa ter acontecido a Donna e estou alucinado a respeito de Tad. Agora só penso em estar de volta lá. E eu bem que gostaria de pegar o sacana do Steve. Eu...
A voz dele tinha ido num crescendo mas, de repente, parou. Deixou cair os ombros e, pôr um momento, pareceu exausto, velho e quase totalmente inútil. Depois, foi até onde estava a mala no chão o começou a procurar roupas limpas.
— Por favor. Roger. Telefone para a Avis, no aeroporto e diga-lhes que me mandem um carro, sim? Minha carteira está ali na mesa-de-cabeceira. Eles vão querer o meu número do American Bxpress.
— Vou pedir um para nós dois. Vou voltar com você, Vic. — Nada disso...
— Mas...
— Por favor, Roger. Não discuta.
Ele enfiou uma camisa azul e já havia abotoado até a metade quando reparou que não estava certo. Desabotoou e recomeçou. Já estava agora em plena atividade e assim era bem melhor, mas aquela sensação de irrealidade ainda persistia. Não podia deixar de pensar em cenários de cinema, onde aquilo que parece mármore italiano não passa de papel Contact, onde os aposentos todos terminam onde as câmeras não alcançam e onde há sempre alguém lá atrás dirigindo tudo. Seqüência 41: Vic convence Roger a continuar dando duro, take um. Ele era ator e aquilo era um filme louco e abstrato. Só que era indiscutivelmente melhor quando o corpo estava em movimento.
— Mas olho aqui, Vic...
— Roger, não tem nem olhe aqui nem olhe lá. Isto que está acontecendo nada tem a ver com a situação entre a Sharp e a Ad Worx. Vim para cá quando já sabia do que houvera entre Donna e Steve em parte porque queria manter as aparências. Acho que nenhum cara gosta de anunciar aos quatro ventos quando sua mulher andou prevaricando. Vim principalmente porque sei que há muita gente dependendo de nós para continuar comendo e que não se im~portem se minha mulher anda ou não na cama com um outro cara...
— Vá com calma, Vic. Não adianta você ficar se martirizando assim. Pare com isso.
— Mas não consigo fazer isso. Não consigo mesmo...
— Mas eu também não posso seguir para Nova York como se nada houvesse acontecido, Vic.
— Tanto quanto sabemos até agora, Roger, nada aconteceu. A policia não se cansa de me dizer isso. Você pode ir, sim. Pode levar a frente as negociações. Talvez tudo isso acabe como tendo sido apenas uma tempestade em copo d"água mas.., sempre é preciso tentar, Roger. fl tudo o que podemos fazer. E, além disso não há nada para você fazer lá no Maine. Vai ficar lá zanzando...
— Meu Deus... acho que está errado. Acho que está errado mesmo...
— Nada disso. Vou telefonar para você no Biltmore logo que souber alguma coisa. — Ao mesmo tempo que falava, ele ia acabando de se vestir e de calçar os sapatos. — Agora vá telefonar para a Avis, por favor. Eu pego um táxi lá embaixo para me levar ao aeroporto. Olhe, aqui está o meu número da American Express...
Entregou-lhe o papel com o número, enquanto o outro ficava ali em silêncio, vendo-o enfiar-se na capa e caminhar para a porta.
— Vic...
Ele voltou-se, meio desajeitado mas com muita força. Os dois se abraçaram e Vic encostou o rosto no ombro do amigo.
— Vou pedir a Deus para que tudo dê certo, Vic.
A voz dele estava rouca.
— Claro que vai dar, Roger...
Vic saiu, por fim.
O elevador desceu, mas ele tinha a impressão de que ele nem mesmo se. movia, apesar do ruído característico. Isto é apenas um efeito de som. Quando chegou embaixo no salão ele saiu ao mesmo tempo que dois caras embriagados entravam. Extras, pensou ele.
Falou com o porteiro, que devia ser também um extra, e depois de uns cinco minutos, um táxi encostava junto ao toldo azul do hotel.
Q motorista era preto e não estava a fim de conversa. Tinha o rádio ligado para uma estação FM de soul music. A canção foi à mesma durante todo o trajeto até o aeroporto pelas ruas quase desertas. Vic ia pensando que aquilo tudo não passava de um filme que estava rodando. Houve um intervalo em que foi, dado o boletim meteorológico. Ontem foi um dia quente, dizia o boletim, mas vocês ainda não viram nada, irmãos e irmãs. Hoje vai ser o dia mais quente que tivemos até agora. Vai bater todos os recordes. A temperatura vai passar dos 40 e nem mesmo na costa ela será mais branda. Uma massa quente viera do sul e estacionara em cima da Nova Inglaterra, onde era mantida por faixas de alta pressão E o rádio terminava dizendo: “E, então, se a gasolina der, o melhor mesmo é se mandar para a praia. Não vai ser nada bom para quem vai ficar na cidade”.
Aquela previsão significava pouco, ou mesmo nada, para Vic, isso certamente deixaria Donna desesperada, ainda mais do que já estava, se soubesse o que ia acontecer.
Da mesma forma que acontecera na véspera, Charity acordou de madrugada. Ficou prestando atenção durante alguns momentos, sem mesmo saber o que estava querendo ouvir. Logo depois lembrou-se. O assoalho que estalava. Passos. Ela prestava atenção para ver se o filho ia ter outro acesso de sonambulismo.
A casa toda, no entanto, estava silenciosa.
Ela levantou-se e foi até a porta para olhar o corredor. Não havia ninguém ali. Depois de um momento de hesitação, foi até o quarto de Brett, a fim de ver se ele estava ali. Viu somente um pouco dos seus cabelos que não estavam cobertos pelo lençol. Se ele houvesse tido outro acesso, isso teria sido mais cedo, antes dela acordar. Agora ele ali estava, dormindo profundamente.