Cão Raivoso

Stephen King · Capítulo 1 de 4 · parte 3/4

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Cão Raivoso

Naquilo que dizia respeito aos sofrimentos, nunca…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— E leve a cômoda com você. Pode jogá-la no lixo!

Ela conseguiu livrar-se dele e apanhou o pano da cozinha que estava pendurado na torneira da pia. As mãos tremiam-lhe, sentia o estômago revoltado e já começava a lhe aparecer uma dor de cabeça. Achava que em pouco vomitaria ali mesmo.

Ajoelhou-se e começou a limpar o leite derramado.

— É isso aí. Você está pensando que é uma grande coisa. Pensa talvez que a sua xoxóta é de ouro agora? Você até que gostava. Chegava a gritar pedindo mais...

— Você está certo quando fala no tempo passado, campeão. Ela falava sem levantar os olhos para ele. O cabelo escorria-lhe pelo rosto e Donna até gostava que fosse assim. Não queria que ele percebesse como estava pálida e abatida. Sentia-se como se alguém a houvesse empurrado para um pesadelo. Achava que se olhasse o seu rosto num espelho, naquela hora, veria uma velha e horrorosa bruxa.

— Vá embora, Steve. Não vou mais repetir isso.

— E se ou não for? Você vai chamar a policia? Claro. E o que é que vai dizer quando ela chegar? Vai cumprimentar o policial dizendo que seu marido é um homem de negócios e que este cara aqui é um tal com quem andava trepando às escondidas e que agora não quer ir mais embora? E então vai pedir-lhes para me levarem daqui? Será isso mesmo que você irá fazer?

Isso só serviu para aumentar o seu pavor. Antes de casar com Vic ela trabalhara como bibliotecária na rede escolar de Westchester e o seu principal pesadelo sempre fora o de dizer às crianças, pela terceira vez, com a voz mais alta que conseguisse, para ficarem bem quietas, por favor. E nesse ponto ela sempre fora obedecida. Mas o que aconteceria se elas não obedecessem? Aquela era a pergunta que a deixava apavorada. Vivia apavorada com o fato daquilo poder acontecer algum dia. Ela tinha medo de gritar e só o fazia quando isso se tornava absolutamente necessário. E isso porque esso era o ponto em que terminava a civilização de forma absoluta. Era o ponto em que o asfalto terminava e então começava a estrada do terra batida. E se não obedecessem ao mau alto tom do voz, então seria preciso berrar. Seria o único recurso.

E era essa mesma espécie de medo que ela sentia agora. A única resposta para a pergunta do homem, naturalmente, seria dizer-lhe que ela gritaria se ele se aproximasse dela. Mas gritaria mesmo? Ela então falou, em voz mais baixa.

— Vá embora... por favor... Está tudo acabado...

— E se eu resolver que não está? E se eu resolver violentá-la, aqui mesmo no chão, em cima da porcaria deste leito?

Ela olhou-o através dos cabelos que lhe cobriam o rosto em desalinho. Continuava pálida e seus olhos apareciam como se fossem muito grandes devido às olheiras que os cercavam.

— Se fizer isso, vamos ter uma briga séria. E não hesitarei, se encontrar uma oportunidade para lhe arrancar os bagos e até mesmo os olhos.

Durante um curto instante, antes que seu rosto se fechasse, Donna teve a impressão de que ele não sabia o que fazer. Steve sabia que ela era rápida e que estava em muito boa forma. Ganhava dela no tênis, mas precisava fazer força para isso. Claro que seus testículos e olhos não corriam perigo, mas a mulher podia arranhar-lhe muito o rosto. Era uma questão de saber até onde ele. estava disposto a ir. Havia um cheiro pesado e desagradável na cozinha, como se estivessem na selva, e ela percebeu espantada que aquilo era o cheiro de seu medo e da raiva dele. Era o que lhes saía pelos poros.

— Vou levar aquele móvel de volta para a loja, Donna. Diga ao seu maridinho bonito para ir buscá-lo e então terei uma conversinha com ele. Falaremos a respeito de se tirar fora as roupas...

Ele saiu, então. Bateu a porta da sala com tanta força que quase quebrou-lhe o vidro. Um momento depois, ela ouviu o motor do carro acelerado com raiva e partindo, com os pneus cantando.

Ela acabou de limpar o leite devagar, levantando-se de quando em quando para ir torcer o pano na pia de aço inoxidável, e ficava olhando o leite que escorria para o esgoto. Todo seu corpo tremia em parte como reação e parte como alívio. Quase não ouvira a insinuação velada de Steve ameaçando contar tudo a Vic. Não podia pensar senão na cadeia de acontecimentos que levara àquela cena sórdida.

Acreditava sinceramente que se envolvera naquela aventura quase sem pensar no que fazia. Aquilo era uma espécie de explosão num esgoto que deixava escapar toda a imundície que corria nele.

Era a mesma espécie de esgoto que corria por baixo dos gramados bem cuidados de quase todos os lares do país.

Jamais desejara mudar-se para o Maine e ficara realmente contrariada quando Vic lhe comunicara sua decisão de se mudar, ao invés de apenas passarem as férias lá. Ela fazia uma idéia completamente errada do Maine, imaginando que ali só havia florestas e terras sem cultivo, além de um terrível inverno com neve até o teto, que isolava completamente as pessoas. Só o pensamento de levarem o filho pequenino para um lugar assim deixava-a completamente aterrorizada. Imaginava tremendas tempestades de neve poderiam deixar Vic isolado em Portland e ela em Castle Rock.

Pensava e falava sempre na possibilidade do filho ficar doente, de queimar-se na lareira e de muitos outros desastres que poderiam acontecer. E talvez uma parte de sua contrariedade fosse o fato de ser obrigada a abandonar a vida tumultuada de Nova York.

A verdade, porém, era que nada daquilo havia acontecido. O pior de tudo era a sua teimosa convicção do fracasso da Ad Worx, o que iria obrigá-los a voltar para Nova

York com o rabo entre as pernas. Isso, porém, não acontecera, porque os dois sócios tinham dado um duro dos diabos; mas o fato era que, assim mesmo, ela ficava lá com o filho pequeno e sem ter nada que fazer.

Donna podia contar pelos dedos de uma das mãos os verdadeiros amigos que tivera até então. Amigos íntimos. Tinha certeza de que os amigos que fizesse seriam amigos para toda a vida, houvesse lá o que houvesse. Aliás, ela não fazia amigos com facilidade. Era muito exigente. Tinha imaginado que talvez lhe fosse possível obter um diploma no Maine, já que havia um intercâmbio entre o Maine e Nova York.. Era uma questão apenas de preencher certos formulários. Depois, então, procuraria o Superintendente das Escolas para ter o seu nome na lista dos candidatos para a escola em Castle Rock. Aquilo era uma idéia ridícula que ela logo abandonou, depois de fazer alguns cálculos na sua maquinazinha de bolso. O gasto com a gasolina e com as babás para o filho logo engoliriam os 28 dólares por dia que poderia ganhar.

Em certo dia do inverno anterior ela chegara à triste conclusão de que não passava do uma das típicas donas-de-casa americanas, que ali ficava, vendo o granizo bater nas janelas. Ficava simplesmente em casa, dando ao filho os mesmos sanduíches e as sopas Campbell de sempre e participando da vida através de programas da TV. Podia também ir visitar a Joanie, que tinha uma menina da mesma idade que Tad, mas nunca se sentia bem ali. Joanie era três anos mais velha do que ela e bem mais gorda, mas não parecia dar muita atenção aos quilos em excesso. Achava que o marido gostava dela assim mesmo. Sentia-se satisfeita vivendo em Castle Rock.

Um pouquinho de cada vez, a sujeira ia se acumulando no esgoto. Já começava a discutir com Vic a respeito de ninharias, sem falar nas coisas mais importantes, que eram mais difíceis de definir e ainda mais difíceis de articular. Falava de prejuízos, temores e do tempo que passava, fazendo-a mais velha. Reclamava da solidão, já que tinha medo dela. Reclamava quando ouvia uma canção no rádio, canção de seus tempos de escola, e então desatava em prantos. Sentia inveja de Vic porque o seu trabalho e a sua vida eram uma luta diária para construir alguma coisa sólida, já que era um cavaleiro andante com as armas da família gravadas em seu escudo, ao passo que ela se limitava a ficar ali cuidando do filho, procurando aturá-lo quando estava de mau humor, ouvindo suas conversas infantis e preparando-lhe a comida. Era como uma vida passada nas trincheiras. A maior parte dela consistia apenas em esperar e ouvir.

E durante todo aquele tempo ela sempre pensava que as coisas iriam melhorar quando Tad crescesse; mas quando descobriu que não seria assim, simplesmente deixou-se tomar pelo pânico. No ano anterior, Tad passara três dias da semana na Escola Maternal Jack & Jill, mas naquele verão isso mudara para cinco tardes por semana no acampamento. Quando ele não estava, a casa parecia-lhe tristemente vazia. Lá estavam todas as portas e janelas abertas, mas sem a presença de Tad. A mesma coisa acontecia com as escadas, onde ele costumava ficar sentado de pijama, olhando os seus livros ilustrados, muito sério, antes de ir tirar o seu cochilo diário.

As portas pareciam bocas, as escadas pareciam gargantas e os aposentos vazios pareciam, armadilhas.

E então ela lavava assoalhos que não precisavam ser lavados e ficava olhando a espuma correr. Pensava então em Steve Kemps, que aparecera no outono passado, em seu carro com placa da Virgínia, e logo se instalara com sua oficina de restauração de móveis. Mantivera com ele um pequeno namoro. Surpreendera-se sentada diante da TV, sem a menor idéia do que estava se passando e pensando como o corpo bronzeado de Steve contrastava com seu traje branco de tênis e da maneira como rebolava quando andava depressa. E então, afinal, ela fizera a tolice. E hoje...

Sentiu um nó no estômago e correu para o banheiro, tapando a boca com as mãos. Seus olhos estavam arregalados e vidrados. Chegou justamente a tempo e quase vomitou as tripas. Olhou para toda aquela porcaria e vomitou novamente, sempre gemendo alto.

Quando sentiu-se melhor, embora as pernas ainda lhe tremessem novamente, ela foi olhar-se no espelho do banheiro. A luz fluorescente fazia com que seu rosto assumisse uma expressão dura e desagradável. Ainda estava muito pálida e com os olhos vermelhos. O cabelo colava na sua cabeça como se fosse um estranho capacete. Via ali como iria ficar quando envelhecesse. O mais terrível, no entanto, era que, naquele instante, se Steve lhe aparecesse, ela achava que cairia em seus braços e que fariam amor, desde que ele a abraçasse e beijasse, garantindo-lhe que não devia ter medo dele, que o tempo era um mito, a morte um sonho e que tudo estava bem.

Ela deixou então escapar um som, um grito soluçante, que, certamente não viera de seu peito. Era o som de uma louca.

Abaixou então a cabeça . desatou em prantos.

 

Charity Camber estava sentada na cama de casal que partilhava com o marido Joe e olhava para uma coisa que tinha na mão. Ela acabara de sair da mesma loja onde Donna fazia suas compras.

Sentia suas mãos, pés e rosto gelados e dormentes, como se houvesse passado muito tempo no automóvel para neve que Joe costumava usar. O dia seguinte seria 19 de julho e o automóvel estava lá na oficina, bem coberto com uma lona.

— isto não pode ser. Deve ter havido algum engano...

Mas o fato era que não havia nenhum engano. Ela conferira tudo muitas vezes e não notara engano algum.

— Afinal de contas, isso tem de acontecer com alguém, não é mesmo?

Sim, claro, tinha que acontecer com alguém. Mas por que com ela?

Ali do quarto ela ouvia o marido martelando alguma coisa na oficina, alguma coisa que naquela tarde quente soava como se fossem marteladas em folha fina de metal. Seguiu-se uma pausa e, logo a seguir, ela ouviu ainda a exclamação: “Merda!”

O martelo tornou a bater com força e a pausa foi maior, antes que o marido gritasse.

— Brett!

Ela sempre se encolhia quando ele gritava daquela maneira para chamar o filho. Brett adorava à pai, mas Charity nunca chegara a descobrir o que Joe sentia pelo filho. Aquilo era uma coisa ruim para pensar, mas era assim mesmo que ela se sentia. Uma vez, cerca de dois anos antes, ela tivera um pesadelo e sabia que jamais se esqueceria dele. Sonhara que o marido enfiara um forcado no filho, trespassando-o e agüentando-o da mesma forma que as estacas agüentam a lona das tendas. O sacaninha não veio quando eu o chamei gritando bem alto. Ela acordara sobressaltada ao lado do marido, que dormia apenas de calções e com o bucho cheio de cerveja. O luar entrava pela janela, iluminando a cama, e ela descobrira como alguém pode ter medo, como o medo era um monstro de dentes amarelos e que Deus enviara para a Terra com o fim do comer os incautos e os que não prestavam. Joe dera-lhe algumas surras durante o tempo de casados e ela aprendera com aquilo. Claro que ela não era nenhum gênio, mas sua mãe também não criara tolos. Agora ela fazia tudo que o Joe mandava e não discutia. Desconfiava que Brett também fazia o mesmo. De qualquer forma, havia ocasiões em que temia pelo filho.

Foi até a janela ainda a tempo de ver Brett correr para o barracão. Cujo corria atrás dele com ar afogueado e cansado. Ouviu com dificuldade o diálogo entre os dois.

— Segure isto aqui, Brett...

— Sim, papai.,.

As marteladas recomeçaram com mais força, num som impiodoso. Bang, bang, bang. Ela imaginava o filho segurando alguma coisa enquanto o martelo atacava um rolamento emperrado ou algo parecido. Imaginava o marido com o cigarro no canto da boca, com as mangas da camisa arregaçadas, martelando sem parar. E se ele estivesse bêbado... se falhasse na pontaria...

Em sua mente quase podia ouvir o grito lancinante de Brett quando o martelo lhe esmagasse a mão, transformando-a numa pasta do sangue; o então cruzava os braços para espantar a visão.

Olhou outra vez para o que tinha na mão e ficou a imaginar se havia algun~a maneira de

usá-lo. O que ela mais desejava mesmo era ir visitar a irmã que morava em Connecticut. Ia fazer seis anos desde que vira Holly pela última vez, no verão de 1974. Lembrava bem a data porque aquele fora um verão bem ruim para ela, a não ser por aquele fim de semana muito agradável. Fora naquele mesmo ano que Brett começara a ter os seus problemas noturnos. Agitava-se na cama, tinha pesadelos e, cada vez com mais freqüência, acessos de sonambulismo. E fora ainda naquele mesmo ano que Joe começara a se entregar completamente à bebida. As más noites do filho e o seu sonambulismo tinham desaparecido, mas o mesmo já não acontecia com o vício de Joe.

Brett tinha então quatro anos e agora, com 10, nem mesmo se lembrava mais da Tia Holly que se casara naquela ocasião. Tinha um filho com o mesmo nome do pai e uma filha, mas Charity não conheceu a nenhum deles. Não conhecia os sobrinhos, a não ser pelas fotos coloridas que Holly lhe mandava pelo correio.

Ela já ao cansara de pedir a Joe e agora temia insistir. Ele já estava cheio de ouvi-la falar sobre a irmã. Tinha medo de lhe pedir novamente, já que ele poderia espancá-la. Já decorriam 16 meses desde que lhe pedira pela última vez para tirarem umas férias em Connecticut. Joe simplesmente não gostava do viajar. A única coisa que gostava mesmo era Castle Rock. Uma vez por ano, Joe, Gary e outros companheiros iam até o norte, em Moosehead, para caçar veados. Em novembro daquele ano ele quisera levar Brett, mas Charity fizera pé firme e não cedera de maneira alguma, apesar dos resmungos e da cara amarrada do marido e do rosto choroso do filho. Ela jamais permitiria que seu filho fosse com aquela turma e ficasse ausente durante duas semanas, ouvindo as conversas e as piadas sujas daqueles homens que se transformavam em verdadeiros animais, depois de beberem dias seguidos sem parar. E todos eles metidos no mato com espingardas carregadas. Armas carregadas e homens bêbados e então tudo podia acontecer, mais cedo ou mais tarde, apesar de seus chapéus e casacos alaranjados e fluorescentes. Isso jamais aconteceria com o seu Brett.

O martelo continuava a bater no metal num ritmo certo. Houve uma parada e ela respirou aliviada. Depois, começou outra vez.

Charity sabia que, mais cedo ou mais tarde, Brett iria acompanhá-los e, então, ele estaria perdido para ela. Ele passaria a fazer parte da turma e, daí em diante, ela nada mais seria senão uma simples criada que mantinha a casa limpa para aqueles homens. Claro que esse dia chegaria e ela se amofinava por antecipação. Já conseguira muito adiando por mais um ano aquele acontecimento.

Mas agora, naquele ano? Iria ela conseguir segurá-lo ainda? Brett ficaria com ela naquele mês de novembro? Era provável que isso não acontecesse mas, de qualquer maneira, assim seria melhor. Se ao menos ela pudesse ir com ele a Connecticut antes! Levá-lo até lá para que ele .tivesse oportunidade de ver...

...de ver...

Ora, ora, o melhor mesmo é desembuchar logo. Será um alívio.

(ver como vivem as pessoas decentes)

Se ao menos Joe permitisse que os dois fossem sozinhos... mas não adiantava nem mesmo pensar nessa possibilidade. Joe podia ir só, ou com a sua turma, aonde bem entendesse, mas sua mulher não tinha esse direito nem mesmo se o filho fosse em sua compa-nhia. Isso era uma das regras inflexíveis de seu casamento. Isso, não impedia que ela ficasse ali pensando como seria bom ir sem ele, como seria melhor não tê-lo sentado na cozinha de Holly bebendo cervejas e olhando para Jim de alto a baixo, com ar Insolente. Claro que seria muito melhor para todos, já que evitaria o fato dos dois lados ficarem aflitos para se verem livres um do outro.

Ela e Brett.

Somente os dois.

Poderiam ir de ônibus.

E ela pensava naquele último novembro, quando Joe insistira para levar o filho junto com a turma.., para caçar veados.

E se houvesse a possibilidade de um arranjo?

Sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Iria ela realmente concordar com o arranjo? Ele poderia levar o filho para as suas caçadas, caso lhe fosse permitido levá-lo a Stratford de ônibus para visitarem a tia...?

Charity possuía o dinheiro necessário. Tinha aquilo agora, mas não era apenas uma questão de dinheiro. Ele logo se apossaria do dinheiro e ela jamais o teria de volta. A não ser que fizesse o seu jogo com muito cuidado. A não ser que soubesse aproveitar bem as cartas que tinha na mão. Teria que aproveitá-las direitinho...

Sua mente começou a funcionar com mais rapidez. As marteladas lá fora tinham cessado. Viu Brett sair do barracão correndo e sentiu-se aliviada. Tinha o pressentimento de que o filho ainda sairia ferido daquele barracão escuro, cujo piso estava sempre coberto de serragem por causa do óleo e da graxa.

Havia uma maneira. Não era possível deixar de haver.

Tudo se resumia na sua coragem para arriscar.

Tinha em sua mão um bilhete premiado da Loteria Estadual e ali do pé na janela, revirando-o, ela continuava a pensar.

 

Ao voltar para a sua loja, Steve Kemp sentia-se num furioso estado de êxtase. A loja ficava na periferia da cidade na Rodovia 11. Ele a alugara de um fazendeiro que tinha propriedades em Castle Rock e Bridgton, ali perto.

A loja era dominada por um enorme tanque de ferro corrugado, grande o bastante para ferver toda uma congregação de missionários de uma só vez. Espalhados em torno dele, como se fossem pequenos satélites girando em torno de um planeta maior, os móveis que constituíam o seu trabalho. Havia ali mesas de trabalho, cômodas, aparadores para louças, estantes e mesas comuns. Todo o aposento cheirava a verniz, solvente e óleo de linhaça. Steve tinha uma muda de roupa limpa numa velha sacola de uma companhia de aviação; ele a colocara ali para vesti-la após voltar da trepada que pretendia dar com aquela grã-fina. Logo que chegou, porém, pegou na sacola e atirou-a longe. Ela bateu na parede e caiu em cima de uma cômoda. Ele foi até lá. jogou-a para o lado. Deu-lhe ainda um pontapé, fazendo-a bater no teto antes de cair no chão, ao seu lado, como um pássaro morto. Depois, ele simplesmente ficou ali parado, ofegante, respirando o cheiro forte e contemplando, com um olhar perdido, as três cadeiras que prometera empalhar até o fim da semana. Tinha os polegares enfiados no cinto o os dedos fechados em punho. Estava com o lábio inferior estendido para fora e parecia uma criança zangada após ter sido surpreendida.

— Merdinha barata...

Foi novamente, até onde estava a sacola e fez menção de dar-lhe um outro pontapé, mas arrependeu-se o apanhou-a. Atravessou a sala o entrou na casa de três quartos anexa à loja.. Ali, dentro de casa, o calor ainda era maior. Era um tremendo calor de julho. Era um calor que tomava conta da cabeça. A cozinha estava repleta de pratos sujos e as moscas esvoaçavam em torno de um plástico verde, uma sacola cheia de latas de atum e outras conservas. A sala de estar era dominada por uma enorme TV Zenith, em preto o branco, que ele encontrara numa lixeira em Naples. Um grande gato malhado, chamado Berníe Carbo, dormia em cima da TV como se estivesse morto.

Era no quarto de dormir que ele escrevia suas coisas. A cama estava ainda desfeita. O lençol tinha manchas endurecidas de esperma. Por maior que fosse o número de trepadas que conseguia, o que nas últimas duas semanas fora zero, ele tinha o vício de se masturbar freqüentemente. Achava que aquilo era um sinal de criatividade. Do outro lado da cama ficava a sua mesa de trabalho, sobre a qual havia uma velha Underwood; originais estavam espalhados por toda parte, alguns em caixas, outros envoltos por elásticos num dos cantos do quarto. Ele escrevia bastante, tanto quanto viajava, e a sua principal bagagem eram suas obras, que consistiam principalmente de contos, poemas e uma peça surrealista cujos personagens só falavam um total de nove palavras; havia ainda um romance que abordara erradamente de seis ângulos diferentes. Já fazia cinco anos desde a última vez em que ele vivera em algum lugar o tempo suficiente para ser obrigado a desempacotar sua bagagem.

Em dezembro último, enquanto aparava a barba, ele descobrira ali os primeiros fios de cabelos brancos, tal descoberta deixando-o numa terrível depressão que durou semanas. Nunca mais se aproximara do espelho para cuidar da barba, como se tal ato fosse o causador daqueles fios grisalhos. Estava agora com 38 anos. Recusava-se a alimentar o pensamento de ser velho algum dia e sentia-se surpreendido quando isso lhe acontecia. Ficava aterrorizado com a idéia de só lhe faltarem 700 dias para ser um quarentão. Sempre realmente acreditara que essa idade era para os outros e jamais se aplicaria a ele.

Aquela puta.... aquela puta... Era o que ele repetia sem cessar.

Já havia abandonado dezenas de mulheres desde sua primeira experiência sexual — com uma bonitinha, mas obscura e suavemente desamparada professora de francês quando estava no ginásio — mas só tinha sido abandonado duas ou três vezes. Ele sabia como perceber quando a coisa estava para terminar e então sempre tomava a iniciativa. Era um artifício que servia de proteção da mesma forma como alguém faz valer sua dama de espadas num jogo em que o trunfo é copas. A pessoa devia se cuidar enquanto ainda estava por cima, se não quisesse se foder. Era preciso cuidar-se de qualquer maneira. Assim como também ninguém devia se preocupar com a idade. Ele havia percebido que Donna se mostrava mais fria ultimamente, mas sempre imaginara que ela fosse uma mulher fácil de ser manipulada, pelo menos por algum tempo, por meio de uma combinação de fatores psicológicos e sexuais. Até mesmo pelo medo, se ele desejasse ser rude. E o fato da coisa não haver funcionado como esperava deixava-o furioso como se houvesse sido chicoteado até sangrar.

Despiu-se e tomou um banho de chuveiro. Ao sair sentia-se bem melhor. Tinha atirado a carteira e os trocados em cima da mesa. Vestiu-se novamente, enfiando uns jeans e uma velha camisa de cambraia que estava na sacola. Apanhou os trocados, colocou-os no bolso e ficou ali parado, olhando especulativamente para a sua carteira, da qual alguns cartões comerciais tinham caído — o que, aliás, acontecia sempre, por serem muitos.

Aquela carteira dele estava sempre cheia de coisas. Tinha a mania de colecionar cartões comerciais. Achava que eram bons como marcadores de livros, e também serviam para anotações de endereços e números de telefones. Aceitava todos os que lhe eram dados por corretores de seguros ou lojas, sempre exibindo um largo sorriso.

Quando a coisa entre ele e Donna estava no auge, Steve apanhara um dia um dos cartões

comerciais de Vic que vira em cima da TV, enquanto Donna estava no banheiro ou saíra do quarto para alguma coisa. Apanhara o cartão sem que houvesse razão para aquilo e sim apenas para satisfazer sua mania.

Abriu então a carteira e começou a procurar entre os cartões. Havia um da Prudential,

de um corretor na Virgínia, outros de corretores de imóveis no Colorado e ainda uma dezena de outros. Chegou a pensar que havia perdido o daquele maridinho bonito, mas afinal encontrou-o no meio de umas notas verdes. Tirou-o dali e ficou algum tempo a contemplá-lo. Era um cartão branco e as letras eram todas num estilo especial, em azul, todas as palavras em minúsculas. Era o cartão de um homem de negócios bem-sucedido.. Impressionava sem ser exagerado.

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Ele tirou uma folha de papel comum de uma pilha que era usada no mimeógrafo; abriu um espaço limpo à sua frente. Olhou de relance para a maquina de escrever que ali estava, mas logo desistiu. Não servia porque todas as máquinas possuem sempre alguma coisa que pode identificá-las com facilidade. E então o julgamento era sumário. Claro que aquilo jamais seria um caso de polícia, mas sempre era bom ser cauteloso. O papel era comum e podia ser encontrado em qualquer loja. Nada de máquinas.

Apanhou uma caneta Pibot que estava .na lata de café no canto da mesa e escreveu, em letra de fôrma:

 

OI VIC

VOCÊ TEM UMA MULERZINHA BACANA

GOSTEI MUITO DA TREPADA QUE TIVEMOS

Fez uma pausa enquanto batia nos dentes com a ponta da caneta. Estava começando a se

sentir bem outra vez. Estava no auge. Claro que ela era uma mulher bonita e ele achava que sempre havia a possibilidade do marido não dar muita atenção ao que escrevera até ali. As difamações postais saíam baratas, já que o selo custava menos que uma xícara de café, mas ainda faltava alguma coisa. Era preciso acrescentar algo. O que poderia ser?

Seu rosto, de repente, abriu-se num largo sorriso. Era fácil ver agora por que ele nunca

tivera dificuldades com mulheres desde aquela professorinha.

E então acrescentou:

O QUE VOCÊ ACHA DAQUELE SINALZINHO

QUE ELA TEM BEM POR CIMA DOS PELOS PÚBICOS?

A MIM PARECEU UM PONTO DE INTERROGAÇÃO

SERÁ QUE VOCÊ TEM ALGUMA DÚVIDA?

Aquilo já era o bastante. Sua mãe costumava lhe dizer que uma refeição pode ser tão

boa como um banquete. Apanhou um envelope e colocou dentro o bilhete. Depois de pensar um pouco, enfiou lá também o cartão comercial e escreveu o endereço com as mesmas letras que usara para o texto. Escreveu o endereço do escritório, já que desejava dar uma chance ao pobre coitado, acrescentando PESSOAL por baixo do endereço.

Encostou a carta no peitoril da janela e recostou-se na cadeira, sentindo-se novamente

em plena forma. Tinha certeza de que, naquela noite, conseguiria escrever alguma coisa.

Lá fora parou um carro com placa de outro Estado. Era uma pick-up trazendo um

grande armário Hoosier. Alguém tivera sorte e conseguira aquela pechincha em algum leilão de roça.

Saiu ao encontro do motorista. Gostaria bem de ganhar aquele dinheiro com o armário,

mas duvidava se teria tempo para cuidar daquilo. Logo que colocasse a carta no correio, o melhor mesmo seria uma mudança de ares. Só que não devia ser uma grande mudança. pelo menos durante algum tempo. Ele achava que devia a si mesmo o prazer de ficar ali naquela região por mais algum tempo, para uma breve visita àquela puta convencida.., numa hora em que seu maridinho não andasse ali por perto. Steve já jogara tênis com ele e sabia que não haveria perigo. O cara era magro, usava óculos muito grossos, era fraco nas cortadas, mas ninguém podia saber quando um maridinho zangado ia perder o controle e cometer algum ato pouco social. Muitos deles até mesmo tinham armas em casa. Ele precisava verificar tudo direitinho antes de se arriscar. Seria simplesmente uma última visita antes de cair fora definitivamente. Talvez se mandasse para o Ohio durante algum tempo. Também poderia ser a Pensilvânia. Ou então Taos, no Novo México. Da mesma forma que os engraçadinhos que gostam de pregar peças nos amigos colocando pólvora em seus cigarros, ele queria ficar por ali a fim de ver a coisa explodir; mas de uma distância prudente, é claro.

O motorista da pick-up e sua mulher estavam olhando para dentro da loja, a fim de ver se ele estava lá. Steve saiu com as mãos nos bolsos e uma atitude negligente, com o rosto aberto num sorriso amplo. A mulher logo retribuiu-lhe o sorriso.

— Oi, pessoal. O que posso fazer por vocês?

Iria colocar a carta no correio logo que se visse livre daquela gente.

 

No fim daquela tarde, logo que o sol se pôs, redondo e vermelho, Vic, a camisa amarrada em torno da cintura, examinava o motor do Ford Pinto da mulher. Donna estava ao seu lado, parecendo jovem e saudável de shorts brancos e uma blusa de xadrez vermelha e sem mangas, e também descalça. Tad, apenas com um calção de banho, corria loucamente com seu triciclo cm torno da casa, certamente numa imitação das façanhas dos patrulheiros CHIPS da televisão.

— Beba o seu chá gelado, Vic, antes que ele esquente —disse Donna.

A resposta dele foi apenas um grunhido. O copo estava ali, ao lado do motor. Ele bebeu

alguns goles e tornou a colocar o copo no mesmo lugar, sem olhar, e o resultado foi que ele caiu, bem nas mãos de Donna.

— Ei, garota, que boa pegada!

Ela respondeu sorrindo.

— Eu te conheço, Vic. Sei quando está pensando em outra coisa. Veja só. Não derramou nem uma gota.

Os dois trocaram sorrisos e Vic achou o momento encantador. Talvez fosse simples imaginação, talvez fosse o desejo daquilo ser verdade, mas o fato era que, ultimamente, tudo parecia ter voltado aos bons tempos. Já não havia mais aquelas palavras agressivas, havia muito menos daqueles silêncios gelados, ou apenas indiferentes, o que ainda era pior. Não sabia qual poderia ser a causa, mas, de qualquer maneira, agradecia o fato das coisas estarem naquele pé.

— Foi realmente uma bela pegada, garota, mas você ainda tem um grande caminho a percorrer antes de se tornar craque.

— Eu só quero saber o que há com o meu carro, treinador. Ele havia retirado o filtro de ar, que estava ali no chão ao lado. Tad chegara alguns

momentos antes e parara ali, fazendo uma curva violenta com o triciclo. Disse:

— Nunca vi um Frisbee assim, papai.

Vic inclinou-se e começou a cutucar o carburador com a chave de fenda, sem propósito algum.

— Deve ser o carburador. Acho que a agulha está colando...

— E isso é sério? — indagou Donna.

— Não muito, mas o bastante para deixá-la no meio do caminho se grudar mesmo de verdade. É ela que controla a admissão da gasolina no carburador. E então, sem gasolina, o carro não anda. É igual a uma lei do Congresso.

— Papai, você quer vir me empurrar no balanço?

— Vou já, Tad. Espere um bocadinho, sim?

— Oba, oba! Vou esperar lá atrás.

Tad foi para os fundos da casa, onde Vic construíra um balanço no verão anterior, ao mesmo tempo que se lubrificava bem com gim tônica, consultando desenhos e trabalhando depois do jantar nos dias úteis e. nos fins de semana, enquanto o locutor do jogo dos Red Sox de Boston gritava no radinho de pilha ao seu lado. Tad, na época com três anos, ficava solenemente sentado nos degraus do porão, segurando o queixo com as mãos, indo buscar coisas, mas geralmente olhando tudo em silêncio. Isso fora no verão anterior, que tinha sido bom e não tão estupidamente quente como o atual Tudo indicava que Donna finalmente concluíra que o Maine, Castle Rock e a Ad Worx eram coisas boas para toda a família.Então surgira aquela mancha mistificadora e ruim, cuja pior parte era aquele sentimento de perseguição, quase psíquico, dizendo-lhe que as coisas estavam ainda muito piores do que ele pensava. As coisas na casa começaram a aparecer fora de seus lugar., de um modo sutil, como se mãos estranhas houvessem mexido nelas. Chegara a alimentar a idéia louca de que sua mulher andava mudando a roupa de cama mais do que costumava. Seria mesmo uma idéia louca? Encontrava lençóis limpos e então via-se assaltado por uma pergunta que nada tinha de agradável. “Quem é que anda dormindo em minha cama?” Acreditava naquilo, embora não tivesse provas concretas.

Taaad! Leve seu triciclo para a garagem! — gritou Donna.

Ele parou de estalo, fazendo ranger as rodas do borracha.

— Mas, mamãeee...

— Faça o que mandei, monsieur...

— Messiê — arremedou-a, rindo. — Mas você não levou o seu, mamãe...

— Porque seu pai está consertando ele...

— Eu sei, mamãe. Mas...

Faça o que sua mãe mandou, Tad. Eu logo estarei lá — disse Vic e pegou no filtro de ar, para colocá-lo no lugar.

Tad montou no triciclo e saiu gemendo alto, como se fosse uma ambulância em disparada.

— Por que está colocando o filtro de novo, Vic? Será que não vai poder dar um jeito no carro?

— Esse é um serviço que precisa ser muito bem-feito e não tenho as ferramentas apropriadas, Donna. Acho que só poderia piorar a situação.

Ela mostrou-se aborrecida e deu um chute no pneu.

— Que merda! Essas coisas sempre acontecem depois que termina o prazo da

garantia...

O carro tinha acabado de ultrapassar os 30.000 quilômetros o ainda faltavam seis

prestações para ser quitado.

— Isso também é como se fosse uma lei do Congresso... Vic repôs o filtro no lugar e apertou a borboleta

— Acho que terei de ir até a South Paris num carro emprestado, já que você vai viajar. Será que esse carro consegue chegar lá, Vic?

— Claro que sim, mas não precisa fazer isso. Leve-o para a oficina do Joe. É mais perto e ele trabalha bem. Lembra quando ele me consertou a roda do Jaguar? Arrumou tudo direitinho e só cobrou dez dólares. Puxa vida! Se eu tivesse procurado aquela oficina de Portland eles iam me deixar duro....

— Aquele tal de Joe me deixou nervosa, Vic. E não foi por estar de cara cheia...

— E por que então ele a deixou nervosa?

— Seu curioso...

Ele achou graça.

— Minha querida, quando ando com você preciso estar sempre bem atento... Há muita razão para isso...

— Obrigada. A mulher não precisa ficar zangada quando olham muito para ela. Não necessariamente... O que faz a gente nervosa é quando nos despem com os olhos...

Ele achou que ela fizera uma pausa um tanto estranha enquanto seu olhar se perdia no horizonte, contemplando o risco vermelho do crepúsculo. Depois, tornou a olhar para ele.

— Há homens que nos dão a sensação de que estão pensando num filme chamado O Rapto das Sabinas durante todo o tempo; e que estão vendo ali, na sua frente, a atriz que o estrelou.

Ele teve uma curiosa e desagradável sensação, achando que ela falava de várias coisas ao mesmo tempo, aquela não era a primeira vez. Não queria, porém, tocar em tal assunto naquela noite, quando justamente acabava de se livrar de um mês de agonia.

— Filhota, ele é provavelmente inofensivo. Lembre-se que tem mulher e filho...

— Eu sei. Deve ser mesmo — ela falou cruzando os braços no peito e aparando os cotovelos com as mãos, um notório gesto de nervosismo de sua parte.

— Pois bem, Donna, eu mesmo vou levar seu carro lá neste sábado, se você quiser. Está bem? É até provável que ele dê um jeito na hora, sem que se precise deixar o cano lá. Tomarei umas cervejas comi ele e farei festinhas no cão. Você ainda se lembra daquele São Bernardo?

Ela sorriu, agradecida.

— Eu até mesmo me lembro do nome dele. Ele quase jogou o Tad no chão, enquanto o lambia. Você ainda lembra?

— Claro que lembro. Tad ficou brincando com ele todo o resto da tarde, chamando-o pelo nome. Cujo... Cujo... Venha aqui, Cujo!

Os dois acharam muita graça.

— Às vezes me sinto uma grande idiota, Vic. Se ao menos conseguisse me adaptar às mudanças padronizadas, eu poderia dirigir o Jaguar num caso assim... depois que você for viajar...

— O melhor mesmo é você nem pensar nisso. O Jaguar tem lá as suas esquisitices. A gente precisa compreendê-lo...

Ele fechou çom estrondo o capô do carro.

— Veja só o que você fez agora, seu bobalhão! O copo de chá ficou lá dentro!

Vic fez uma cara tão desconsolada que ela, soltou uma gostosa gargalhada. Um minuto depois, ele foi até onde ela estava e ficaram os dois às gargalhadas, como dois bêbados abraçados. Tad

veio correndo para ver o que catava acontecendo, os olhos arregalados. Por fim, juntou-se a eles, após se convencer de que tudo estava bem. Foi mais ou menos neste exato momento que Steve colocou sou bilhete no correio, e a menos do três quilômetros de distância.

 

Mais tarde; quando já escurecia, o tempo já bem mais fresco, e começaram a surgir os vaga-lumes riscando o ar lá no fundo do quintal, Víc começou a empurrar o filho no balanço.

— Mais alto, papai! Mais alto ainda!

—Se eu empurrar mais alto vai virar de cabeça para o ar...

— Então passe por baixo!

Vic deu um forte empurrão, fazendo com que o balanço fosse bem alto na direção do céu, onde as estrelas já começavam a aparecer naquela noite quente. Tad foi até bem alto. A Tia Evvie morava ali bem perto e aquele grito de satisfação do Tad foi a última coisa que ouviu. Morreu de um ataque cardíaco, quase sem sofrer, quando estava sentada na cozinha ao lado de uma xícara de café, com um de seus cigarros na mão. Ela caiu para trás e a visão lhe faltou no momento em que ouviu um grito de criança; durante um momento, ela teve a impressão de que era um grito de alegria, mas ao desmaiar, como se alguém a houvesse empurrado por trás, pareceu-lhe que a criança gritava de medo. Logo depois estava morta e sua sobrinha Abby só viria a encontrá-la no dia seguinte, junto ao café tão frio quanto ela, o cigarro completamente reduzido a cinzas e a dentadura inferior projetando-se de sua boca enrugada como se fosse uma brecha repleta de dentes.

 

Pouco antes de Tad ir para a cama, ele e o pai sentaram-se no degrau dos fundos, um com o copo de cerveja e o outro com o de leite.

— Papai...

— O que é que há, Tad?

— Eu não queria que você fosse embora na semana que vem...

— Mas eu vou voltar, meu filho...

— Eu sei que vai, mas...

Tad estava de cabeça baixa, procurando controlar-se para não chorar, e Vic passou a mão pelo pescoço dele.

— Mas por que, meu garotão?

— Mas então quem é que vai gritar com o monstro para espantar ele de meu closet? A mamãe não conhece ele... É só você que conhece...

Agora ele já não conseguia controlar as lágrimas que lhe escorriam pelo rostinho.

— E é só isso, Tad?

As Palavras Para os Monstros surgiram na primavera anterior, quando Tad começara a ser perseguido pelos pesadelos e terrores noturnos. A princípio Vic dera-lhe o nome de Catecismo dos Monstros, mas logo o mudara para algo mais de acordo com a mentalidade infantil. Tad dizia que havia alguma coisa no closet e que, algumas vezes, quando a

porta se abria à noite, ele via lá aquela coisa. Era uma coisa com olhos amarelados que queria comê-lo. Donna achava que aquilo talvez fosse o resultado de um livro de Maurice Sendak chamado Onde Estão as Feras. Vic costumava conversar com Roger sobre aquilo, mas jamais com Donna, levantando a hipótese de Tad ter interpretado mal os comentários sobro os assassinatos em massa ocorridos ali mesmo em Castle Rock, imaginando então, em sua cabecinha de criança, que o assassino se escondia em seu closet como se fosse um fantasma. Rogør achava que tudo era possível em se tratando de garotos.

A própria Donna começara a ficar meio intrigada depois de semanas em que aquilo se repetia e chegara a dizer a Vic, na mesa. do café da manhã, que as coisas no closet do filho davam impressão de haverem sido mexidas; e falara com um certo risinho nervoso. Vic simplesmente lhe dissera que bem poderia ter sido o próprio Tad que o fizera, mas Donna simplesmente respondera que ele não estava compreendendo bem as coisas e que Tad não entrava mais lá. Nunca mais entrara. “Ele anda apavorado, Vic.” Chegara até mesmo a dizer ao marido que tinha a impressão de sentir um cheiro estranho no closet depois dos pesadelos do filho. Era como se um animal tivesse sido enjaulado ali. Vic ficara perturbado e fora até o closet para ver se sentia algum cheiro estranho. Ele andava desconfiado de que Tad urinava ali quando tinha suas crises. de sonambulismo. E aquilo poderia ser parte de algum ciclo antigo de sonhos estranhos. Não sentira cheiro algum a não ser o de naftalina para espantar as traças. O closet tinha pouco mais de dois metros de fundo com uma parede acabada de um lado e do outro uma apenas emboçada. Tinha uma certa semelhança com um carro-dormitório dos trens. Não havia nenhum fantasma ali e ele saiu sem ser molestado, apenas sujo com teias de aranhas. E isso tinha sido tudo.

Donna havia sugerido em primeiro lugar aquilo a que chamava de “pensamentos para sonhos agradáveis” e orações para combater os pesadelos do filho. A reação de Tad foi dizer que aquela coisa do closet anulava a primeira idéia, ao passo que a segunda não era válida, já que Deus não acreditava em monstros; nesse caso, as orações não tinham razão de ser. Donna chegara a perder a paciência e isso poderia se dever em parte ao fato dela mesma andar intrigada a respeito daquele closet. Um dia, quando estava lá dentro pendurando umas camisas do filho, a. porta se fechara silenciosamente atrás dela, deixando-a presa no escuro uns 40 segundos antes de conseguir sair. Nessa mesma ocasião, ela sentira ali dentro um cheiro violento e um bafo quente e próximo. Era um cheiro bem parecido com o do suor de Steve depois que os dois se amavam. O resultado final foi que ela disse a Tad, incisivamente, que não existiam „monstros" e que ele devia esquecer todas aquelas tolices; devia dormir abraçado com o seu urso e então tudo estaria terminado.

Vic, no entanto, já via a coisa. de outro modo, porque lembrava-se bem daquela porta do closet que parecia uma boca aberta idiotamente na escuridão da noite, um lugar onde aconteciam coisas bem estranhas, ruídos de coisas se esfregando, um lugar onde, por vezes, quando se pendurava ali as roupas, as pessoas tinham a impressão de estar pendurando homens. Lembrava-se vagamente das sombras que as luzes da rua projetavam nas paredes, naquelas horas sem fim após o crepúsculo, e dos estalos que pareciam ser da casa se acomodando para a noite, mas que também poderiam ser de alguma coisa que andasse rondando por ali.

A suá solução fora o Catecismo dos Monstros ou, de um jeito mais fácil de entender por um garoto de quatro anos, Palavras Para os Monstros. Qualquer das duas expressões nada mais era senão uma primitiva forma de simpatia para manter o Mal a distância. Vic inventara aquilo num dia, na hora do almoço, e a coisa pareceu dar certo, com grande desgosto para Donna, que vira seus esforços falharem ao usar a psicologia recomendada nos livros que ensinavam aos pais como educar os filhos e quando falhara também uma rígida disciplina. Vic falava as palavras ao lado da cama do filho, todas as noites, quando ele já estava nu debaixo de um lençol, na escuridão escaldante do quarto.

— Você acha que isso vai dar certo mesmo no final das contas, Vic? — A voz de Donna era ao mesmo tempo divertida e irritada. Isso se passara em meados de maio, quando a tensão entre os dois tinha atingido o seu ponto mais alto.

— Os especialistas em publicidade não dão importância alguma ao que pode acontecer depois. Eles só pensam num alívio que seja o mais rápido possível. E sou um cara bom na minha especialidade.

— É isso, papai. Não há ninguém para dizer as Palavras Para os Monstros. Essa é que é a verdade... — Ao mesmo tempo em que falava, Tad enxugava as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, desanimado e embaraçado.

— Há sim, Tad. Escrevi tudo direitinho. É por isso que todas as noites digo sempre as mesmas coisas. Vou mandar imprimir isso e pendurar na parede de seu quarto. E então sua mãe poderá lê-las direitinho quando eu viajar.

— Você vai mesmo fazer isso, papai? Vai mesmo?

— Claro que vou, Tad. Vou fazer como disse.

— Não vai esquecer, heim?

— Nada disso, garotão. Vou fazer isso hoje mesmo.

Tad enlaçou-o com os bracinhos e Vic abraçou-o carinhosam~itc, apertando-o bem.

 

Naquela mesma noite, quando Tad já estava dormindo, Vic entrou com cuidado em seu quarto e pregou na parede uma folha de papel. Ficou bem ao lado do seu pôster preferido, onde ele não podia deixar de ver logo que acordasse. Estava escrito em letras bem grandes e claras.

AS PALAVRAS PARA OS MONSTROS

Para Tad

Monstros, fiquem bem longe de meu quarto!

Aqui não é o lugar de vocês.

Não há monstros embaixo da cama de Tad!

Não há quem caiba ali embaixo.

Não há monstros escondidos no closet de Tad! O lugar lá é muito apertadinho.

Não há monstros escondidos no closet de Tad! Ninguém poderia se agüentar ali.

Não há vampiros, lobisomens ou bichos que mordam.

Vocês nada têm a fazer aqui!

Durante toda a noite nada poderá atacar Tad nem tampouco feri-lo. Vocês nada têm a fazer aqui.

 

Vic ficou olhando para aquilo durante muito tempo. Iria dizer a Donna, pelo menos duas

vezes mais, antes de partir, que não se esquecesse de ler as palavras para o filho todas as noites. Ele queria que ela compreendesse bem a importância que aquilo tinha para Tad.

Quando saíam do quarto ele reparou que a porta do closet não estava bem fechada.

Havia ali uma pequenina fresta. Voltou e fechou-a bem.

Em certo momento, muito mais tarde naquela mesma noite, a porta abriu-se novamente.

Os relâmpagos de verão cortavam o céu esporadicamente, formando estranhas sombras lá em cima.

Tad, porém, não acordou.

 

Na manhã seguinte, às 7:15, Steve entrou na Rodovia 11 a caminho da Rodovia 302, que ficava a alguns quilômetros de distância. Lá ele dobrou à esquerda para chegar a Portland, já que a sua intenção era ficar na Associação Cristã de Moços durante algum tempo. Levava com ele no carro uma pilha de cartas que batera cm sua máquina e que também estava na parte traseira da caminhonete, junto com as suas outras coisas. Ele levara apenas hora e meia carregando as coisas que tinha em Castle Rock, incluindo também o gato Bernie Carbo, que agora dormia lá atrás.

Os envelopes estavam todos bem endereçados, como se fossem datilografados por um

profissional. Os seus muitos anos de trabalho criativo tinham feito dele um ótimo datilógrafo. Tinha, pelo menos, esse mérito. Encostou o carro na mesma caixa do correio onde colocara a carta anônima para Vic na noite anterior e enfiou nela todas as que trazia agora. Se a sua intenção fosse sair do Estado, ele não se daria ao trabalho de pagar o aluguel da loja e da casa, mas como ia ficar em Portland, achou mais prudente regularizar suas contas. Não precisava sair fugindo. Tinha pouco mais de 600 dólares escondidos no fundo do porta-luvas da caminhonete.

Além do cheque para pagar o aluguel, ele estava enviando outros com devoluções de

sinais recebidos. Acompanhando cada cheque havia uma carta muito atenciosa, explicando e pedindo desculpas. Acontece que sua mãe ficara seriamente doente e então ele se vira obrigado a correr para ela sem terminar os trabalhos encomendados. Eles poderiam ir na loja para apanhar seus móveis e a chave da porta estaria na beirada que havia sobre ela. Ele sabia bem como os americanos mais viris se derretiam todos com aquela coisa de mães doentes e certamente lhe perdoariam o inconveniente. Podia-lhes ainda que tomassem a colocar a chave no mesmo lugar após apanharem o que lhes pertencesse. Muito grato, etc., etc., etc..,. Havia alguns inconvenientes, mas não pressa.

Continuar: parte 4 de 4