Cão Raivoso
— Você passa bem sem ele na…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Sabe quem é, Tad?
— Claro que sei, mamãe. É o papai...
Ela sentiu que o coração lhe batia acelerado e tomou o fone que o filho lhe estendia.
— Alô... Vic?
— Oi, Donna.
Aquela era, sem dúvida, a voz dele, mas parecia muito reservada... muito cautelosa. Percebeu que um certo sentimento vinha a se acumular a tudo que havia acontecido.
— Você está bem, Vic?
— Claro.
— Eu pensava que você só telefonaria mais tarde... Ou talvez nem mesmo o fizesse.
— Bem, fomos direto para a companhia que faz os filmes do Professor dos Cereais, mas, por incrível que pareça, eles não conseguiram encontrar os filmes. O Roger está arrancando os cabelos..
— Eu sei. Ele detesta quando tudo não está certinho, não é mesmo?
— Você até que está sendo moderada... E, então, enquanto eles estão vasculhando os arquivos, achei que...
Ela ouviu um longo suspiro do outro lado da linha.
Ele ia falando tudo vagamente e então seus sentimentos de depressão, de fracasso; de naufrágio, sentimentos bem desagradáveis embora infantilmente passivos, tomaram-se mais ativos e passaram a ser sentimentos de medo. Vic nunca se mostrava assim tão vago quando falava. Nem mesmo se estivesse sendo distraído por alguma coisa que estivesse acontecendo na sua extremidade da linha. Ela pensou na aparência dele na noite de quinta-feira, quando parecia à beira de uma decisão final.
— Vic, você está bem, mesmo?
Ela percebia o alarme que havia em sua voz e tinha a certeza de que Vic também percebia; até mesmo Tad levantou os olhos do livro colorido que estava no chão, na sua frente. Seus olhos estavam brilhantes e a testa ligeiramente franzida.
Claro que estou bem, Donna. Eu ia justamente dizer-lhe que preferi telefonar agora, enquanto eles andam procurando por aí, porque logo mais vamos estar muito atarefados. Acho que não terei tempo... E como vai o Tad?
— Ele está bem, Vic.
Ela sorriu para o filho e depois piscou um olho. Ele retribuiu-lhe o sorriso e aquelas rugas da testa já tinham desaparecido. Depois, voltou para colorir seus livros. Ele me parece cansado e eu agora não vou sobrecarregá-lo com a porcaria do carro... Não demorou muito, porém, e já estava lhe contando tudo como acontecera
Ela sentiu que sua voz ia traí-la numa demonstração de autocomiseração e procurou dominar-se. Então, por que diabo lhe contara tudo que havia acontecido? A voz dele dava a entender bem que estava realmente cheio de preocupações e não era hora para aumentá-las ainda mais com os problemas. do carro.
— É... parece que é mesmo a válvula, Donna.....
A voz dele já estava melhor agora. Já não parecia tão aflito. Talvez fosse porque aquele problema era insignificante em comparação com os que ele tinha pela frente agora.
— Será que o Joe não poderia dar um jeito ainda hoje? —
— Eu telefonei, mas ninguém respondeu...
— É bem provável que estivesse na oficina. Ele não tem uma extensão do telefone lá.
Geralmente é sua mulher ou seu filho que transmitem os recados... Provavelmente saíram.
— Pois é... pode ser que ele tenha saído também.
— Claro, mas duvido muito. Se há um cara que se enraíza em um lugar para toda a vida,
esse cara é o Joe, sem dúvida alguma.
— Você acha que eu devia arriscar e ir até lá?
A pergunta era feita com uma voz cheia de dúvidas. Ela pensava naquela longa estrada
até chegar lá. O lugar dele era tão longe que nem mesmo tinha um nome. E se a tal válvula fizesse a gracinha de enguiçar no meio daquela desolação, ela certamente estaria em maus lençóis.
— Não, Donna. Acho mesmo melhor você não ir, a não ser que precise muito. Mas é.
bem possível não encontrar o Joe lá.
A voz dele era como se estivesse bem deprimido.
— E então o que é que vou fazer, Vic?
— Telefone para a Agência Ford. Peça-lhes que venham para rebocar o carro para a
oficina...
— Mas...
— Nada disso. Faça como estou dizendo. Se você quiser dirigir até a agência é quase
certo que vai ficar no caminho. E se você explicar-lhes bem a situação, é até possível que eles lhe emprestem um carro. Se não for assim, você também poderá alugar um.
— Alugar, Vic? Mas isso fica muito caro...
— Eu sei que fica...
Ela tornou a pensar que agia mal ao sobrecarregá-lo com mais aquele problema. Ele
talvez chegasse a pensar que ela não tinha capacidade para coisa alguma.... a não ser que se tratasse de trepar com um restaurador de móveis. Nisso ela era boa mesmo. Os seus olhos se encheram de lágrimas quentes e salgadas, em parte de raiva e em parte de pena de si mesma.
— Pode deixar que cuidarei disso, Vic...
Ela lutava desesperadamente para manter sua voz normal. Um dos cotovelos apoiava-se
na parede e a outra mão tapava-lhe os olhos.
— Pode deixar, Vic. Não se preocupe...
— Bem, eu... que merda! Aí vem o Roger. Está com poeira até o pescoço, mas
encontrou o que procurava. Chame o Tad para falar comigo...
Ela engoliu todas as perguntas que pretendia fazer. Estaria tudo certo? Pensaria ele que
tudo se poderia arranjar? Poderiam eles voltar para começar tudo de novo? Tarde demais. Não havia tempo. E ela desperdiçara todo o tempo tagarelando a respeito do carro! Não passava de uma tola. Uma estúpida!
— Claro, Vic. Ele vai se despedir por nós dois. E... Vic... — Sim? O que é?
Agora havia impaciência em sua voz. O tempo era curto para ele. — Eu te amo, Vic... — E antes que ele pudesse dizer alguma coisa, ela acrescentou: —
aqui está o Tad...
Passou rapidamente o fone para o filho, quase batendo-lhe na cabeça, e foi para a
varanda da frente, tropeçando numa almofada que foi parar longe, e vendo tudo através de uma cortina de lágrimas.
Ficou de pé na varanda, olhando para a estrada, segurando os cotovelos com as mãos e lutando para conseguir controlar-se... controlar-se, controlar-se, com todos os demônios! E como era espantoso sentir-se uma dor quando não existe nada de fisicamente errado.
Lá de dentro vinha a voz de Tad, contando ao pai que tinham ido no Mario"s, que a mamãe tinha comido a pizza que ela gostava e que o carro funcionara bem até pertinho de casa. Depois, disse ao pai que o amava e por fim o clique do aparelho sendo desligado. O contato fora interrompido.
Controle.
Sentiu, finalmente, que já estava controlada. Voltou para a cozinha e começou a arrumar as compras nos lugares certos.
Já eram 3:15 quando Chaúty saltou do ônibus, naquela tarde.
Brett veio logo atrás. Ela agarrava-se espasmodicamente às alças de sua bolsa, quase morrendo de medo com a idéia de não reconhecer a irmã. O rosto que estivera em seu espírito durante todos aqueles anos como se fosse uma fotografia (A Irmã Mais Nova Que se Casara Bem) tinha misteriosamente - desaparecido de sua lembrança,deixando apenas uma névoa muito vaga no lugar da foto.
— Você está vendo ela, mamãe?
Essa foi a primeira pergunta de Brett quando o ônibus deixou-os na parada de Stratford. Em seu rosto não havia medo algum e sim apenas um grande interesse.
— Deixe-me olhar bem em volta, Brett. É provável que estejam no salão, do café. — Charity?
Ela voltou-se e ali estava Holly. Logo a foto voltou-lhe à lembrança com grande nitidez, mas havia alguma coisa diferente. Holly usava óculos! Achou aquilo engraçado. Depois, veio a segunda surpresa. A irmã estava com rugas no rosto. Não eram muitas, mas assim mesmo logo saltavam à vista. O seu terceiro pensamento não precisamente isso. Era uma imagem clara, verdadeira e desoladora como uma foto em tonalidade sépia. Era a Holly que saltara no bebedouro do gado do velho Seltzer, de calcinhas e rabinho-de-cavalo que se destacava contra o céu, com o polegar e indicador da mão esquerda apertando o nariz para dar uma nota cômica à foto.
Ainda não usava óculos! Ao pensar nisso, Charity sentiu um aperto no coração.
Ali agora, ao lado de Holly, olhando timidamente para Chanty, estava um menino de uns cinco anos e uma menina que devia andar pelos dois e meio e ambos olhavam também para Brett. Pelo volume das calcinhas da menina era fácil ver que ela ainda usava fraldas. Ao lado dela estava o seu carrinho.
— Oi! Como vai, Holly?
Chanty falava tão baixinho que era difícil ouvi-la.
As rugas eram pequenas e viradas para cima, da forma como a mãe delas sempre dizia que era certo. Estava com um vestido azul moderadamente caro. O pingente que usava devia ser uma bijuteria de classe ou então uma pequena esmeralda legítima.
Passou-se um momento. Uma espécie de espaço no tempo. E durante ele, Charity sentiu seu coração encher-se de uma alegria tão grande e completa, que ela chegava à conclusão de jamais poder haver alguma dúvida se valera ou não a pena a despesa da viagem; e isso porque ela sentia-se agora livre, da mesma forma que seu filho. Ali estava a sua irmã e aquelas crianças eram os filhos dela. Eram o seu sangue. Eram reais e não simples fotografias.
Rindo e chorando ao mesmo tempo, as duas mulheres se aproximaram, primeiro devagar, mas logo depois mais depressa, sem hesitação. Abraçaram-se enquanto Brett ficava onde estava. A menina, talvez ainda com medo, agarrou-se às saias da mãe, imaginando que ela, sairia por ali voando, junto com a outra.
O menino ficou olhando para Brett e em seguida caminhou em sua direção. Usava jeans e uma camiseta onde, no peito, via-se a inscrição CUIDADO COMIGO.
— Então você é o meu primo Brett...
—É isso ai.
— Eu sou Jimmy Tenho o mesmo nome de meu pai.
— Já sei.
— Você é do Maine?
Atrás deles estavam Charity e Holly, falando rapidamente ao mesmo tempo e achando muita graça na pressa que tinham de contarem as novidades de cada uma, ali mesmo, naquela estação rodoviária, entre Milford e Bridgeport
— Claro que sou do Maine.
— E você tem dez anos, não é mesmo?
— Isso mesmó.
— Pois eu tenho cinco.
— Não diga!...
— É isso aí, meu . chapa. Mas eu posso te vencer... Ao mesmo tempo que falava, ele soltava o seu grito de guerra e atingia a barriga do primo com um soco. O outro curvou-se, soltando um grito de surpresa e as duas mulheres ficaram espantadas.
— Jimmy!
O grito de Holly mostrava bem o seu horror resignado.
Brett ergueu-se devagar e reparou que sua mãe o olhava com certa apreensão. Ele apenas sorriu.
— Eu sei disso. Claro que você pode me liquidar sempre que quiser.
E tudo acabou bem. Brett viu a aprovação no rosto da mãe e estão ficou também satisfeito.
Eram 3:30 quando Donna resolveu que deixaria Tad com alguém enquanto ela ia até a oficina de Joe para resolver o problema do carro. Já telefonara várias vezes, sem que ninguém atendesse, mas.
achava que Joe. já estaria de volta quando ela chegasse. Continuava achando que o carro chegaria lá. Vic dissera na semana anterior que Joe, provavelmente, daria um jeito emprestando-lhe algum carro caso o serviço não pudesse ser feito na hora. Esse fora o fator decisivo. Ela achava que não devia levar o filho. Se o carro pifasse no caminho, sempre lhe seria possível conseguir uma carona na estrada. O filho só iria atrapalhar as coisas.
Acontecia porém, que Tad tinha outras idéias.
Logo depois de haver falado com o pai, ele subira para o quarto onde se esticara na
cama com uma coleção de livros infantis. Quinze minutos depois, já estava dormindo e sonhava. Era um sonho bem comum, mas que tinha uma força estranha e até mesmo apavorante. Ele via no sonho um menino já crescido que atirava no ar uma bola de beisebol e procurava rebatê-la. Errou uma, duas, três e quatro vezes o acertou na quinta, mas o bastão quebrou-se ao meio e ele ficou com um pedaço na mão. Mas logo abaixou-se para pegar o outro pedaço mais grosso, que atirou no meio do gramado. Depois disso, voltou-se e percebeu com surpresa e medo que o outro, do sonho, era ele mesmo já mais velho, com 10 ou 11 anos. Não podia haver dúvida alguma. Era ele mesmo!
O menino, porém, logo desapareceu e tudo ficou cinzento. No meio da névoa, ele ouvia dois sons. Um era o ranger da corrente de um balanço e o outro era o grasnar de gansos. Junto com o barulho e com a névoa, ele se deu conta de uma estranha sensação de asfixia. Sentia-se sufocado. E lá do meio da névoa vinha guindo um homem... um homem enfiado numa brilhante capa impermeável, que tinha na mão um pau com uma placa que dizia PARE. Ele riu e seus olhos eram duas moedas brilhantes. O homem levantou o braço apontando para ele e Tad viu, horrorizado, que ali só havia ossos, da mesma forma que o rosto envolto na capa era apenas uma caveira. Era...
Acordou assustado e alagado em suor, que só em parte era devido ao calor sufocante que fazia. Sentou-se na cama ainda ofegante, com o susto do sonho.
Clique...
A porta do closet abria-se lentamente, ao mesmo tempo em que ele percebia alguma coisa lá dentro, durante apenas um momento, porque logo saiu correndo do quarto com toda a velocidade que lhe permitiam as pernas. Ele vira aquilo apenas durante um segundo, mas fora o bastante para ver que não era Frank Dodd, o matador de mulheres, quem estava embrulhado no impermeável brilhante. Não era ele. Era uma coisa diferente. Era uma coisa com olhos vermelhos, como um sangrento pôr-do-sol.
Aquilo era uma coisa que ele não queria contar à mãe. E então, em vez disso, ele
concentrou-se em Debbie, a moça que viria ficar com ele enquanto sua mãe levava o carro para a oficina.
Não queria ficar com ela. Debbie não tinha paciência com ele. A primeira coisa que fazia era ligar o toca-discos no máximo volume. E muitas outras coisinhas mais. Quando viu que sua mãe não levava muito a sério suas queixas, ele sugeriu, ominosamente, que Debbie poderia matá-lo com um. tiro. Quando Donna cometeu o engano de não levá-lo a sério, ele rompeu em prantos e saiu
correndo para a sala. Afinal, quem poderia imaginar a pobre Debbie, de 15 anos e muito míope, dando tiros em alguém? O que ele queria dizer a ela era que Debbie não seria suficientemente forte para manter o monstro preso no closet no caso de sua mão se atrasar e a noite chegar. Ele poderia escapar do closet. Aquilo tanto poderia ser o homem do impermeável como também poderia ser o monstro.
Donna foi atrás dele, já arrependida por haver achado graça e sem poder explicar como fora tão insensível. Afinal, o pai do menino estava ausente e aquilo já era o bastante para deixá-lo triste e nervoso. Ele não queria ficar longe de sua mãe nem mesmo uma hora. E...
E quem sabe se ele já não percebeu o que se passa entre seu pai e eu? Quem sabe mesmo se já não ouviu alguma coisa...
Não. Ela não acreditava que isso houvesse acontecido. Nem mesmo se atrevia a pensar em tal possibilidade. Aquilo só podia ser devido à mudança que houvera em sua rotina.
A porta que dava para a sala estava fechada. Ela chegou a estender o braço para a maçaneta, hesitou, e então bateu de leve. Não teve resposta. Tornou a bater e quando viu que não havia resposta, abriu a porta e entrou sem fazer barulho. Tad estava deitado no sofá, de barriga para baixo, a cabeça escondida sob uma almofada. Aquele era um comportamento que ele reservava para as grandes ocasiões.
— Tad...
Não houve resposta.
— Tad, desculpe-me. Eu não devia ter rido...
Ele levantou a almofada para poder encará-la. Tinha o rosto molhado. Por favor, mamãe... Eu quero ir com você... Não quero ficar aqui com a Debbie...
Donna percebia bem até que ponto ele estava levando a sua teatralidade. Aquilo era uma gritante coação. Sabia que era mesmo, mas também achava que lhe seria impossível ser durona...
e isso, em parte, porque sentia que suas lágrimas também estavam chegando. Nos últimos tempos tinha sempre a impressão de haver nuvens negras no horizonte.
Meu amor, você viu bem como o carro estava quando voltamos da cidade. Se ele pifar lá no meio da estrada, seremos obrigados a dar uma longa caminhada até uma casa onde haja telefone...
— E daí? Sou bom nas caminhadas. Gosto de andar.
— Eu sei, Tad... mas você poderia ficar com medo...
Ele pensou naquela coisa que havia lá no closet e respondeu gritando, com todas as suas forças:
— Eu não tenho medo de nada!
Sua mão procurara automaticamente o bolso onde estava guardado o papel com as Palavras Para os Monstros.
—Não grite assim.Tad. Isso é muito feio. — ela falou já com a voz natural.
— Não vou ter medo. Quero ir com você...
Ela olhou-o, desalentada. Sabia que o melhor mesmo seria chamar Debbie Gehringer e
percebia que estava sendo vergonhosamente manipulada pelo garoto de quatro anos. E, se cedesse, as razões seriam erradas. Sentia-se desesperada. Isso é que nem uma reação em cadeia que não pode ser detida e que está despertando coisas que eu mesmo nem sabia que existiam. Deus do céu! Como eu gostaria de estar no Taiti agora!
Ela chegou a abrir a boca para lhe dizer, com firmeza inabalável, que ia telefonar para Debbie, que poderiam fazer pipocas se ele se comportasse bem, mas que iria para a cama logo depois do
jantar se não se comportasse bem e que não queria mais falar no assunto. Em vez disso, a reação foi outra.
— Muito bem, pode vir comigo. Mas se o carro pifar, teremos que andar até uma casa onde haja telefone para chamar o reboque. E se isso tudo acontecer, Tad, não quero ouvir reclamações de forma alguma. Entendido?
— Entendido. Não vou reclamar nada...
— Ainda não acabei. Não quero ouvir reclamações suas e não darei ouvidos a pedidos para carregá-lo no colo. Não vou fazer isso de forma alguma! Estamos entendidos?
— Claro. Claro que estamos. Vamos sair já?
Ele tinha saltado do sofá radiante de alegria.
— Claro que vamos... mas, pensando melhor, você não acha que seria bom comermos
alguma coisa antes? E também podemos levar leite na garrafa térmica.
— Para o caso de sermos obrigados a acampar a noite inteira? Agora já era fácil ver o receio que havia em seu rosto.
Ela sorriu e abraçou-o.
— Nada disso, queridinho. Só que ainda não consegui falar com o mecânico no telefone.
Seu pai disse que é porque ele não tem uma extensão na oficina. Pode ser que sua mulher tenha saído com o garoto. E então...
— Mas que tolice a dele! Devia ter um telefone na oficina... — Só que você não deve dizer isso a ele, Tad.
O menino concordou com a cabeça.
— De qualquer forma, se ele não estiver lá, poderemos comer alguma coisa no carro ou
até mesmo do lado de fora, enquanto esparamos por ele.
Tad bateu palmas, radiante.
— Obal Oba! Ser que posso levar a minha lancheira?
— Claro que pode...
Donna já entregara os pontos definitivamente. Foi procurar as coisas que o filho mais
gostava, algumas das quais ela sim detestava, e arrumou tudo direitinho, sem esquecer as azeitonas o os pepinos. Encheu com leite a garrafa térmica de Tad, encheu só até o meio a que Vic costumava levar quando acampava. Havia alguma coisa que a deixava inquieta ao olhar para tudo aquilo.
Olhou para o telefone o pensou em tentar novamente, mas logo desistiu, achando que
não era preciso. Eles iriam lá de qualquer maneira. Depois, ainda uma vez, tentou convencer Tad a desistir, mas lembrou-se do comportamento anterior do filho a tal respeito e desistiu.
O caso, no entanto, era que ela agora já não se sentia bem. Nada bem, mesmo. Mas não
conseguia descobrir o que era. Olhou em tomo da cozinha para ver se havia alguma coisa ali que lhe sugerisse o que poderia ser, mas nada encontrou.
—Vamos ou não vamos, mamãe?
A resposta dela positiva foi dada com um ar ausente, ao mesmo tempo em que olhava para o bloco que havia ali na parede, ao lado do refrigerador, onde ela e Vic escreviam as coisas que iam
fazer. Era uma espécie de lembrete. Escreveu: Tad e eu fomos a oficina do Joe com o carro. Voltaremos logo.
— Está pronto Tad?
— Prontinho, mamãe... Para quem é que você escreveu aquilo ali?
— Pode ser que a Joanie apareça por aqui com as framboesas... Ou então a Allison, que
estava querendo me mostrar uns produtos de beleza.
—Hummm...
Donna passou-lhe à mão pelos cabelos e os dois saíram. O calor atingiu-os como ao fosse um martelo envolto em almofadas. Ela ia pensando se a porcaria do carro iria funcionar ou não.
Mas ele funcionou e o motor logo pegou.
Eram 3:45 da tarde.
Seguiram ao longo da Rodovia 117 até a estrada Maple Sugar, que ficava a uns três quilômetros da. cidade, e o carro se comportava maravilhosamente. Se não fosse o seu comportamento anterior quando voltavam para casa, Donna não teria talvez razões para se preocupar com ele. O fato, porém, era que devia haver algo de errado com ele. Ela ia a mais de 60 quilômetros, muito empertigada ao volante, e chegou-se bem para a direita quando viu que um outro carro ia ultrapassá-la. A estrada estava bem movimentada. As férias tinham chegado e havia também os turistas. O carro não possuía. refrigeração e os vidros estavam abaixados.
Um Continental, com chapa de Nova York, rebocando um tremendo trailer com dois pedalinhos em cima, apareceu atrás dela numa curva cega e o motorista meteu a mão na buzina. A mulher dele era gorda e estava com óculos escuros. Quando os carros se emparelharam, ela olhou para Donna com um profundo desprezo estampado no rosto.
Donna gritou-lhe um impropério e ela logo olhou para o outro lado. Tad olhava nervoso para a mãe e ela acalmou-o com um sorriso.
— Não se preocupe, garotão. Está tudo bem. São uns idiotas lá de Nova York...
A resposta dele foi um resmungo cauteloso.
Olhem só para mim aqui. A grande ianque! Vic ficaria orgulhoso. Ela ria-se de sua tirada. Todo mundo no Maine sabia que as pessoas vindas de outros Estados continuariam a ser estrangeiros ali até o dia em que fossem enterrados. E, assim mesmo, o costume da. terra era deixar isso bem claro nas lápides dos túmulos onde havia inscrições bem positivas. AQUI JAZ HARRY JONES, CASTLE CORNERS, MAINE (Natural de Omaha, Nebrasca).
A maior parte dos turistas seguia na direção da 302, onde entrariam a leste, para Naples, ou para oeste, rumo a Bridgton, Fryeburg Conway, em New Hampshire, para irem esquiar nas montanhas, aproveitar os parques de diversões muito baratos e comer em restaurantes onde não se pagava imposto. Não era para lá que se dirigiam Donna e Tad.
Embora da casa deles se avistasse a parte da cidade de Castle Rock que parecia um cartão-postal, a floresta tinha crescido dos dois lados da estrada antes deles estarem a uns oito quilômetros da casa. Havia algumas clareiras onde se via um terreno com uma casa, ou então um trailer, e na medida em que se afastavam as casas já eram do tipo a que o pai dela chamava de “cabana irlandesa”. O sol ainda brilhava, já que faltavam quatro horas para desaparecer, mas os espaços desertos faziam com que Donna se sentisse intranqüila. Ali na 117 a coisa ainda não era muito má, mas quando saíssem dela...
O desvio na estrada ostentava uma placa que dizia ESTRADA MAPLE SUGAR, em letras muito apagadas e quase ilegíveis. Estavam todas marcadas com tiros de 22 da garotada, que gostava de brincar de bangue-bangue. Era uma estrada de mão dupla coberta com macadame, cheia de buracos e solavancos. Ela corria sinuosa, passando por duas ou três casas bonitas, por mais duas ou três já não tão bonitas e um velho trailer em tristes condições, instalado em cima de alicerces que se desmoronavam. Em torno dele o mato crescia solto e estava cheio de brinquedos de plástico bem baratos. Uma placa torta pregada numa árvore na entrada dizia GATINHOS DE GRAÇA. Um garotinho barrigudo, que podia ter uns dois anos, estava de pé na entrada com o pequeno pênis de fora. Tinha a boca aberta e um dedo enfiado no nariz, enquanto o outro estava no umbigo. Donna ficou toda arrepiada quando viu aquilo.
Pare com isso, pelo amor de Deus! O que é que há com você? A floresta se fechava em torno deles novamente. Um velho Ford Fairlane 68, cheio de
manchas vermelhas, passou por eles em sentido contrário. Um garoto cabeludo ia preguiçosamente recostado atrás do volante. Estava sem camisa e o carro devia ir a uns 120 por hora. Donna fez uma careta. Era o primeiro carro que cruzava com eles. A estrada ia num aclive constante e quando passavam por uma planície ou um jardim tinham ocasião de apreciar o deslumbrante panorama daquela região do Maine no sentido de Fryeburg. O Lago Longo brilhava a distância como se fosse
um pingente de safira de alguma mulher fabulosamente rica. Subiam agora uma pequena colina corroída pela erosão quando o carro começou a falhar. Conforme dizia a propaganda, a estrada era agora cercada por empoeirados bordos bem castigados pelo calor. Donna sentiu um aperto na garganta. Não faça isso comigo! Vamos lá! Seja bonzinho! Vamos! Vamos!
— Mamãe... será que...
— Cale a boca, Tad.
As sacudidelas já eram agora bem maiores. Ela sentia-se completamente frustrada e pisava com força no acelereador... e o motor voltava a funcionar bem.
— Obal Oba!
Tad gritou tão alto, e tão de repente, que ela chegou a assustar-se
— Ainda não chegamos lá, meu filho...
Mais adiante, chegaram a uma encruzilhada onde havia uma outra placa que dizia: ESTRADA MUNICIPAL N9 3. Donna enveredou por ela, com ar vitorioso. Tanto quanto se lembrava, a oficina flcava a uns dois quilômetros. Se o carro pifasse definitivamente ali, poderiam seguir até lá a pé com facilidade.
Passaram por uma casa em ruínas, na entrada da qual havia uma caminhonete e um carro branco e grande todo enferrujado. Pelo retrovisor Donna percebeu que a cerca viva de madressilva estava viçosa demais no lado em que o sol lhe batia em cheio. Do lado esquerdo havia agora um campo, logo depois da casa, e o carro começou a subir por uma colina bem íngreme.
No meio do caminho, ele começou outra vez a falhar, sacudindo-se todo, com muito mais força do que das outras vezes.
— Acha que vamos chegar lá, mamãe?
— Claro que vamos, Tad.
O velocímetro do carro mostrava que a velocidade estava baixando aos poucos e ela
engrenou uma marcha mais lenta, pensando que isto resolveria o problema. Em vez disso, a coisa piorou. O silencioso começou a dar tiros, expelindo uma fumaceira cada vez maior e Tad começou a chorar. A coisa estava piorando, mas Donna já via ao longe a casa de Joe e o barracão vermelho que lhe servia de oficina.
Quando castigara antes o acelerador o resultado fora bom e ela tornou a experimentar. Durante um momento o motor pareceu trabalhar melhor e o velocímetro mostrava uma velocidade um pouco mais alta. Mas isso não durou muito e logo ele começou a falhar outra vez. Ela tentou novamente o acelerador, mas nada conseguiu. A luzinha idiota do amperímetro começou a piscar, mostrando que o carro estava já nas ultimas e ia parar a qualquer momento.
Aquilo, porém, já não tinha importância, pois já estavam bem diante da caixa do correio de Joe, e ela podia até ler os dizeres J.C. Whitney & Co. num embrulho para Joe.
Ela guardou bem aquela informação sem parar o carro, já que agora só pensava em chegar até a oficina, onde então o maldito carro poderia parar de vez. Ele terá que dar um jeito então...
A entrada ficava um pouco adiante da casa e se fosse um aclive como era a da casa, o carro jamais teria chegado lá. Ali, porém a entrada, logo depois de um ligeiro aclive, formava um declive que ia até a porta da oficina.
Donna deixou o carro em ponto morto e ele deslizou até a porta entreaberta. Logo que tirou o pé do acelerador para apertar o freio, o motor começou outra vez a sacudir-se, bem mais fraco
do que antes. A luz piscou como se fosse apagar, mas logo voltou a brilhar com toda a intensidade. E foi aí que o motor parou definitivamente.
Tad olhou para a mãe e ela sorriu, satisfeita.
— Aqui estamos, companheiro... chegamos finalmente.
— Chegamos sim, mamãe, mas acho que não há ninguém em casa.
Ao lado da oficina estava uma pick-up verde. Aquela era a píck-up de Joe, sem dúvida alguma, e não de qualquer outra pessoa que o tivesse levado ali para conserto. Ela lembrava-se bem de tê-la visto na vez anterior em que ali estivera. Lá dentro estava tudo apagado. Ela olhou para o lado esquerdo e viu que a casa também estava às escuras. Lembrou-se então de que na caixa do correio havia um embrulho pendurado.
O endereço do remetente no embrulho era J.C. Whitney & Co. Ela agora sabia o que era. Seu irmão também havia recebido um daqueles quando era rapaz ainda. Era de uma firma que vendia acessórios para automóveis. Um embrulho para Joe Camber enviado por J.C.
Whitney & Co. era a coisa mais natural deste mundo. Mas seria também natural que ele já houvesse apanhado a
encomenda se estivesse em casa.
Ela estava desesperada e, de repente, teve raiva do marido. Lembrava-se do que ele lhe dissera. O Joe está sempre em casa. Ele criaria raízes naquela oficina, se isso fosse, possível. Claro que faria isso... a não ser quando preciso dele.
— Muito bem... O melhor mesmo é entrar para ver.
— Ela abriu a porta do carro, pronta para saltar.
—Não consigo desafivelar meu cinto, mamãe.
— Está bem. Não é preciso ficar aflito por isso. Eu tirarei quando voltar.
Ela saltou e deu a volta pela frente do carro, com a intenção de soltar o filho. Assim ganharia tempo e talvez Joe aparecesse para ver quem era que estava ali; mas isso no caso de ele estar mesmo em casa. Não se mostrava muito disposta a enfiar a cabeça lá sem se anunciar. Aquilo era, provavelmente, uma tolice, mas depois da desagradável cena com Steve em sua cozinha ela passara a compreender melhor o que acontecia com mulheres desprotegidas. Aquilo, aliás, era uma sensação que nunca mais tivera desde quando tinha 16 anos e que seus pais lhe haviam dado permissão para sair com rapazes.
Donna ficou logo impressionada com o silêncio que havia ali. Fazia muito calor e aquele silêncio deixava-a nervosa. Claro que havia alguns ruídos, mas apesar do tempo em que já vivia em Castle Rock, ainda não se acostumara com os ruídos do campo em comparação com os da cidade grande; e eram justamente esses ruídos do campo que ela ouvia ali agora.
Ouvia o canto dos passarinhos e os gritos mais ásperos dos corvos lá no meio da colina que tinham acabado de galgar. Ouvia o suspiro de uma brisa ligeira que sacudia os carvalhos à beira da entrada e que projetavam estranhas sombras bem ali aos seus pés. Só o que não ouvia era o barulho de motores e nem mesmo de algum trator ou colheitadeira. Os ouvidos das pessoas que vivem em cidades grandes e pequenas estão mais acostumados com os ruidos feitos pelos homens. A percepção delas não chega a captar os ruídos da natureza. E isso é o suficiente para criar apreensões.
Eu devia ouvi-lo se ele estivesse trabalhando na oficina. Os únicos ruídos que ouvia eram o do cascalho da entrada, pisado por ela, e um outro, quase imperceptível, como se fosse um simples sussurro. Um pensamento mais ou menos inconsciente fazia com que imaginasse aquilo como sendo o de algum transformador da linha de força que passava na estrada.
Ela estava na frente do carro, pronta a fazer a volta, quando ouviu um novo ruído. Era um rosnado grosso e baixo.
Ela parou e levantou a cabeça, tentando localizar o lugar de onde vinha o rosnado. Não conseguia e aquilo deixou-a apavorada, não por causa do rosnado em si, e sim porque não conseguia perceber de onde ele partia. Não partia de lugar nenhum. Estava em todos os cantos. E foi aí que uma espécie de radar interno, um equipamento que garantia a sobrevivência, passou a funcionar com toda a eficiência e ela percebeu, finalmente, que o rosnado vinha lá de dentro da oficina.
Tad tentava pôr a cabeça de fora da janela, até onde lhe permitia o cinto de segurança, e reclamava, aflito:
— Mamãe... não consigo tirar fora esta porcaria...
— Psiu...
(o rosnado)
Ela recuou um pouco, apoiando-se no carro com os nervos tensos como se fossem filamentos, não em pânico ainda, mas num estado de alerta ao mesmo tempo que se lembrava de como o cão não rosnara quando estivera ali antes.
Cujo assomou na porta da oficina. Donna olhou para ele e sentiu o coração parar, junto com um nó na garganta. Era o mesmo cachorro. Era sem dúvida o Cujo...
Deus do céu! Meu Deus!
Os olhos do animal cruzaram com os dela. Estavam vermelhos e lacrimejantes. Ele parecia verter lágrimas viscosas. Todo o seu corpo estava cheio de lama e de...
Sangue. Aquilo era sangue mesmo! Meu Deus! Meu Deus!...
Ela sentia-se paralisada. Nem mesmo podia respirar. Seus pulmões já não funcionavam. Ela já ouvira falar de pessoas paralisadas pelo medo, mas jamais poderia imaginar que aquilo aconteceria com tanta intensidade. Não havia contato entre seu cérebro e as pernas. Aquele filamento cinzento e retorcido que lhe corria pela espinha parecia ter sido desligado. Suas mãos eram estúpidos pedaços de carne grudados nos pulsos, completamente insensíveis. Não conseguiu reter a urina. Não se deu conta daquilo a não ser por uma longínqua sensação de calor.
E o animal estava percebendo tudo. Os seus terríveis olhos vermelhos não se desgrudavam dos olhos grandes e azuis de Donna. Aproximou-se devagar, quase languidamente, e já estava quase fora da porta da oficina. Agora já estava em cima do cascalho a menos de 10 metros de distância. Nunca parava de rosnar. Um rosnado surdo e constante que, apesar de ameaçador, quase chegava a acalentar. O focinho estava todo sujo com uma espuma que pingava sem
cessar. Ela não conseguia mover-se. Não conseguia mesmo.
E foi então que Tad viu o animal, percebeu que ele estava todo sujo de sangue e soltou um grito estridente. Isto fez com que o olhar do cão se fixasse nele e também serviu para libertar sua mãe.
Ela voltou-se cambaleando, como se estivesse embriagada. Bateu de encontro ao pára-lama do carro com tanta força que a dor foi quase intolerável, mas conseguiu correr pela frente do carro. O rosnado do animal transformou-se num estrondoso rugido de raiva e ele precipitou-se em sua direção. Donna escorregou no cascalho e só não caiu porque se apoiou no carro, batendo nele com tanta força que chegou a soltar um grito de dor.
A porta do carro estava trancada pôr dentro. Fora ela mesma quem fizera aquilo, num gesto automático, quando saltara do carro. O botão cromado estava tão brilhante que quase a ofuscava com o reflexo do sol. Não vou conseguir abrir a porta para entrar e fechá-la novamente. Cada vez acreditava mais que tinha chegado a sua hora. Não vou ter tempo. Não há jeito...
Ela conseguiu finalmente abrir a porta. Ouvia claramente a sua respiração ofegante. Tad tornou a soltar um grito estridente.
Ela deixou-se cair atrás do volante, percebendo que Cujo vinha em sua perseguição, pronto para saltar-lhe em cima com todos os seus 100 quilos. Donna conseguiu bater a porta do carro, passando por cima do volante ao mesmo tempo em que fazia soar a buzina com o ombro. Tudo fora feito bem a tempo. Menos de um segundo depois da porta fechada, veio o surdo impacto como se alguém houvesse atirado um monte de lenha contra o carro. Os rugidos de raiva do animal cessaram de repente. Houve um momento de silêncio. Dentro de seu pensamento histérico, ela imaginava que o animal desmaiara com o choque e então agradeceu a Deus fervorosamente.
Logo depois, no entanto, a cara do cachorro apareceu do lado de fora da janela, com o focinho coberto .de espuma, ali bem pertinho dela, como se fosse o monstro de um filme de horror que resolvera eletrizar a platéia projetando-se para fora da tela. Ela via bem os seus enormes dentes amarelados e aguçados. E então, novamente, teve aquela horrorosa sensação que o animal a olhava, não como se fosse uma mulher qualquer que houvesse aparecido por ali com o filho, presa em seu carro, e sim, especificamente, para Donna Trenton como se, na realidade, estivesse esperando por ela desde algum tempo.
Cujo começou a latir novamente muito alto, apesar dos vidros de segurança do carro amortecerem o som. E então ocorreu-lhe de repente que se ela não houvesse levantado o vidro, automaticamente, ao parar o carro, lembrando-se das recomendações de seu pai (sempre que parar o carro você deve levantar os vidros, puxar o freio de mão, tirar a chave e fechar o carro por fora), era bem possível que estivesse ali com a garganta estraçalhada e com seu sangue sujando todo o carro. E fizera aquilo de forma tão automática que nem mesmo se lembrava de tê-lo feito.
Ela então gritou também.
A cara horrorosa do animal desaparecera.
Foi aí que se lembrou de Tad olhando para ele, mas isso só serviu para aumentar ainda mais o seu terror. Ele não chegara a desmaiar, mas também não estava plenamente consciente do que acontecia. Estava recostado no banco com um olhar vidrado e o rosto muito branco, ao passo que os lábios estavam azulados nos cantos.
— Tad!
Ela estalou os dedos bem debaixo de seu nariz e ele piscou, assustado. Tad pareceu despertar e a sua voz ainda estava pastosa.
— Mamãe, como foi que o monstro de meu closet conseguiu fugir de lá? Será que estou sonhando? Será que estou dormindo?
Ela levou um susto quando ouviu o que ele lhe dizia.
— Tudo vai acabar bem, meu filho... É somente...
Percebeu o rabo e o lombo do animal, que contornava o carro o ia para o outro lado, onde estava o filho.
E a janela do lado dele não estava levantada.
Ela dobrou-se por cima do menino e movimentou-se com tanta violência ao tentar levantar o vidro, que chegou a quebrar o dedo. Conseguiu rodar a manivela, ofegante, sentindo o filho debater-se sob sEu corpo. Já estava com o vidro quase em cima quando o cão Investiu contra a janela. Conseguiu enfiar o focinho pela brecha que ainda havia e ficou com ele apertado quando Donna levantou mais o vidro. O carro muito pequeno parecia aumentar ainda mais os seus latidos enfurecidos. Tad gritou novamente e cobriu a cabeça com as mãos, tapando também os olhos. Ele tentava esconder o rosto no colo da mãe e com isso ela via reduzida a sua força pata acabar de levantar o vidro.
— Mamãe! Mamãe! Mamãe! Espante ele daqui! Mande esse monstro embora!
Ela sentiu alguma coisa quente nas costas das mãos e percebeu horrorizada, que era a baba e o sangue que escorria da boca do animal. Usando toda a força que lhe restava, conseguiu levantar
mais o vidro e Cujo tirou fora a cabeça. Ela ainda viu-o de relance e sua cara, que antes fora de um amistoso e manso São Bernardo, era agora uma louca caricatura de um cão danado. Ele estava com os quatro pés no chão e ela só conseguia ver o seu costado enorme.
Agora a manivela já corria livremente e a janela estava bem fechada. Donna começou então a limpar as mãos, esfregando-as nos jeans e soltando gritos de nojo.
—Meu Deus! Ave Maria, Mãe de Deus!
Tad voltara ao seu estado de quase inconsciência. Quando ela estalou os dedos na frente de seu rosto, Tad não reagiu de forma alguma.
Deus do céu! Ele vai agora ficar cheio de traumas por causa disto! Meu filhinho querido! Por que não o deixei lá com a Debbie?
Segurou-o pelos ombros e começou a sacudi-lo levemente.
— Será que estou dormindo, mamãe?
Ele soltou um gemido baixo que lhe dilacerou o coração.
— Não, meu filho. Você não está dormindo, mas tudo está bem agora. Está tudo bem, Tad. Aquele bicho não pode entrar aqui. As janelas estão bem fechadas. Ele não pode entrar. Ele não pode nos atacar.
Aquilo pareceu tranqüilizá-lo e seus olhos ficaram mais brilhantes.
— Então vamos voltar para casa, mamãe. Não quero mais ficar aqui...
— Eu sei... eu sei. Nós vamos sair.
Como se fosse um gigantesco projétil, Cujo saltou em cima do capõ do carro e projetou-se contra o pára-brisa, latindo cada vez mais. Tad tornou a gritar com seus olhinhos arregalados e as mãos arranhando-lhe o rosto.
Donna viu-se obrigada a gritar com ele.
— Eu já lhe disse que ele não pode entrar aqui, Tad! Você está me ouvindo? Ele não pode nos pegar aqui dentro!