Cão Raivoso

Stephen King · Capítulo 2 de 4 · parte 3/4

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Cão Raivoso

— Você passa bem sem ele na…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

—E qual é ela,Vic?

— Dê-me um pouquinho do tempo, Roger. Talvez até esta noite. E. aí então vamos apresentá-la...

—... para ver quem entrega os pontos. Está bem, mas não pode passar desta noite. Na última semana as ações da Sharp subiram mais oito pontos. Já sabia disso?

Ao mesmo tempo que falava, ele abria novamente o jornal na parte financeira.

— Ótimo!

Vic tornou a olhar pela janela. Já não havia, mais nevoeiro algum. O dia estava. claro como cristal. As praias de Kennebunk, Ogunquit e York formavam um panorama digno de um

cartão-postal. O mar era azul cobalto, a areia amarelada e a paisagem do Maine, com suas colinas baixas, seus campos abertos e espessos bosques de pinheiros que se estendiam a perder de vista, era realmente de uma beleza sem iguaL E tudo aquilo. E tudo aquilo só conseguia aumentar ainda mais a sua depressão.

Se eu achar que vou chorar, é lá na privada que vou fazer isso! Era o que ele pensava na agonia que sentia. Seis frases numa folha de papel barato tinham causado aquilo. O maldito mundo era realmente frágil, tão frágil como aqueles ovos da Páscoa muito coloridos por fora, mas vazios por dentro. Na semana anterior ele chegara a pensar em ir embora, levando Tad em sua companhia.Agora só pensava se Donna e Tad ainda estariam em casa quando ele voltasse. Seria possível que Donna simplesmente fosse embora com o filho para a casa de sua mãe, em Poconos? Claro que era possível. Ela poderia chegar à conclusão que os 10 dias de separação não eram o bastante. Talvez fosse melhor uma separação de seis meses. E agora ela estava com o filho. Diziam que a posse era 90 por cento da lei. Seria assim mesmo?

Dentro dele havia uma voz rastejante e insinuante que falava. E quem sabe se ela está a par do lugar onde se acha Steve agora? Quem sabe se ela resolveu ir procura-lo? Para fazer uma experiência durante algum tempo? Podem estar querendo renovar o passado... Ele sentia-se inquieto, achando que aquela idéia era uma coisa louca para uma manhã de segunda-feira.

O pensamento, no entanto, não queria abandoná-lo. Não definitivamente. Desaparecia um pouco, mas não completamente.

Conseguiu beber todo o drinque antes de chegarem a Logan. O resultado foi uma gastralgia que não o abandonaria durante toda aquela manhã e ele sabia bem que seria mesmo assim. Seria a mesma coisa que o pensamento de Donna e Steve juntos. Ele poderia tomar vidros inteiros de remédios e a gastralgia estaria sempre ali. A depressão, no entanto, melhorou um pouco e então talvez aquilo valesse a pena.

Talvez.

 

Joe ficou olhando para o pedaço do chão da oficina onde estava assentado o grande torno de bancada e parecia muito admirado. Jogou o chapéu para trás e ficou ali olhando um pouco mais para o que via. Depois enfiou os dedos na boca e soltou um assobio penetrante.

— Cujo! Cujo! Venha já aqui...

Tornou a assobiar e depois agachou-se, com as mãos nos joelhos. Tinha certeza de que o cão atenderia ao seu chamado. Ele nunca ia muito longe. O que é que ele ia fazer agora?

Cujo cagara ali no chão da oficina. Jamais fizera aquilo antes, nem mesmo quando era ainda pequenino. Tinha mijado algumas vezes, como os cachorrinhos sempre fazem, tinha estraçalhado a almofada da cadeira, mas nunca fizera coisa parecida com aquilo que ali estava. Chegou a pensar, por um momento, que poderia ser coisa de qualquer outro cachorro que houvesse entrado ali, mas logo abandonou tal possibilidade. Tanto quanto sabia, Cujo era o maior cão que havia em Castle Rock. Sabia que os cachorros grandes também cagavam coisas grandes. Aquilo ali não poderia ter sido feito pôr nenhum outro cachorro, qualquer que fosse a sua raça. Ficou a imaginar a possibilidade do cão haver adivinhado que Charity e Brett iam se ausentar por algum tempo. Se assim fosse, então aquilo ali seria a sua maneira de protestar. Joe já ouvira falar em coisas parecidas.

Ele ficara com o animal em pagamento de um trabalho que havia feito em 1975. O freguês tinha sido um cara caolho chamado Ray Crowell, que morava lá para os lados de Fryeburg e que passava a maior parte de seu tempo trabalhando no mato; mas diziam também que ele entendia muito de cachorros. Sabia como criá-los e como ensiná-los. Poderia levar uma vida bem melhor se preferisse se dedicar àquilo que o pessoal da Nova Inglaterra chamava de “fazenda de cães”. Tinha porém um gênio terrível, que espantava os fregueses.

Ele chegara naquela primavera, dizendo a Joe que precisava de um motor novo para o

caminhão.

A resposta de Joe fora apenas um resmungo de assentimento.

— Preciso do motor, mas não tenho como lhe pagar, Joe.

Estou completamente duro.

Os dois estavam de pé dentro da oficina, mastigando restos de capim. Brett tinha cinco anos e estava brincando por ali, enquanto Charity estendia roupas nos varais.

— Ora essa, Ray... isso é muito chato. Não costumo trabalhar de graça. Isto aqui não é

uma organização de caridade.

— A Beasley acaba de ter uma ninhada. Puros-sangues legítimos. Você me dá um jeito com o motor e eu deixo que escolha o que quiser. Que tal? Você ainda sairá lucrando.. Mas não posso fazer nada se não tiver um caminhão para traze-la aqui.

A Beasley a que ele se referia era uma cadela São Bernardo, puro-sangue e muito bonita.

— Eu não preciso do cachorro, Ray. Especialmente um São Bernardo grande demais, são umas porcarias, verdadeiras máquinas de comer.

Ray olhou pra onde estava Brett, sentado na grama ali perto da mãe.

— Claro que você não precisa de cachorro, Joe, mas aposto que seu filho gostaria de ter um.

Joe abriu a boca, mas logo tornou a fechá-la. Ele e a mulher nã usavam proteção alguma, mas não haviam tido mais filhos depois do Brett que, aliás, demorara muito a chegar. Algumas vezes, quando olhava para o filho, um vago pensamento se apossava dele como se fosse uma interrogação. Seria possível que o menino se sentisse solitário? Era bem possível que se sentisse mesmo. Talvez o Ray estivesse com a razão. Dentro de pouco tempo seria o aniversário de Brett. Ele poderia então dar-lhe o cachorrinho de presente.

— Vou pensar nisso. Ray.

— Pois então não demore muito, Joe. Eu poderia ir procurar o Calaham em Conway. Ele é tão bom como você, Joe. Talvez até mesmo melhor...

— Pode ser que seja mesmo, Ray.

Joe não se deixava amedrontar com a fama do mau gênio do Ray.

Mais tarde, naquela mesma semana, Donovan, o gerente de um supermercado , chegou com o seu Thunderbird para que Joe desse uma olhada na transmissão. Era uma coisa sem importância

mas o cara ficou ali em torno do carro como se fosse a mãe aflita de uma criança, enquanto Joe esvaziava o fluido da transmissão para encher com outro novo, dando depois um aperto nos freios.

O carro era realmente uma beleza, modelo 60, em ótimas condições. Enquanto trabalhava no carro, ouvindo Donovan dizer que sua mulher insistia para que o vendesse, uma idéia brilhante atravessou

o cérebro de Joe.

Enquanto descia o macaco, ele disse a Donovan que estava com vontade de comprar um cachorro para o filho, mas aquilo não interessou muito o outro.

— Está mesmo?

— Estou sim. É um São Bernardo. É ainda um filhote, mas vai ser um grande comilão quando crescer. E então acabo de ter uma idéia a respeito de um trato que poderíamos fazer. Se você me fizer um bom desconto para a comida de cães das várias marcas, eu me comprometeria a fazer a conservação de seu carro sem cobrar a mão-de-obra.

O outro ficara encantado com a combinação e logo se apertaram as mãos para fechar o negócio.

Joe telefonou para Ray dizendo que topava a parada e ele logo concordou. E, então, no

dia do aniversário do filho, Joe deixara ele e a mãe espantados ao colocar o cachorrinho nos braços de Brett.

O menino abraçou o pai muitas vezes, cobrindo-o de beijos e não cabendo em si de contente.

— Obrigado, papai. Obrigado. Obrigado. Obrigado mesmo!

— Está bem, está bem. Mas você tem de cuidar dele, Brett. O bicho é seu e não meu. Se ele vier me sujar a oficina, vou pegá-lo e fuzilá-lo lá nos fundos.

— Pode deixar, papai. Vou cuidar dolo.

E ele, realmente, cumprira muito bem a promessa, mas nas raras ocasiões em que se descuidava, a mãe ou o pai se resignavam e limpavam a sujeira, sem maiores comentários. Joe chegara até mesmo a descobrir que era impossível ignorar o cachorrinho. Ele crescia sem parar e estava se transformando em uma máquina de comer como previra. Ele passou a fazer parte da família. Era realmente um bom cachorro, digno de confiança.

Aprendera rapidamente a não sujar dentro de casa. Nunca fazia aquilo. Mas ali estava Joe agora, com as mãos nos bolsos e de cara amarrada já que o aninial não atendia ao seu chamado. Foi até lá fora e tornou a assobiar. O raio do cachorro deveria estar lá no ribeirão se

refrescando e ele não se zangaria por isso. O calor já estava realmente insuportável. Devia estar a mais 30 graus à sombra. O bicho, porém, não aparecia. Mas quando aparecesse Joe iria esfregar o seu nariz naquela porcaria que fizera. Faria aquilo bem contrariado, já que sempre desconfiava da possibilidade do cão ter sujado ali como protesto pela ausência do filho e da mulher, mas ele deveria ser castigado de qualquer maneira.

E então, de repente, o pensamento ocorreu a Joe. Quem iria cuidar da alimentação do

Cujo enquanto ele e Gary estivessem em Boston?

Imaginou a possibilidade de encher um velho cocho para porcos, que tinha lá nos fundos, com a ração armazenada no porão em grande quantidade. Se chovesse a comida viraria papa, mas se a deixasse na oficina ou dentro de casa, o cão poderia vir sujar ali novamente. Além disso, ele andava sempre esfaimado e logo comeria a metade no primeiro dia, a outra metade no dia seguinte e então ficaria morrendo de fome durante o resto do tempo até que eles voltassem..

— Que merda...

Cujo não aparecia. Sabia que Joe descobriria a porcaria e estava com vergonha. Ele era um animal muito inteligente, na classe dos cachorros, e era bem possível que esse fosse o seu pensamento.

Ele pegou então numa pá e foi limpar a porcaria. Depois, espalhou um detergente

especial que tinha sempre à mão e lavou bem o chão, com a água da torneira que havia nos fundos da oficina.

Depois disso feito, ele apanhou o caderno onde anotava os serviços e deu uma olhada

nele. Já terminara o serviço com a ceifeira, uma coisa que só lhe fora possível porque dispunha agora do guincho para suspender os motores com grande facilidade. O carro da professora fora coisa fácil. Tinha ainda meia dúzia de serviços, mas todos eles eram de pequena importância.

Saiu da oficina e foi até a casa. Nunca mandara instalar uma extensão do telefone na

oficina porque, como dizia à mulher, a companhia cobrava um dinheirão. De lá ele começou a telefonar, avisando a algumas pessoas que iria ficar fora uns dias, em viagem de negócios. Procurou avisar à maioria dos fregueses, pois não queria que tossem procurar outra oficina. E podiam ir para o diabo

para trocara correia do ventilador ou a mangueira do radiador.

Depois de telefonar ele voltou para a oficina. O último serviço que tinha era coisa pouca e sem importância. O dono do carro prometera vir buscá-lo naquela tarde. Ele começou então a trabalhar, notando que a casa ficava bem silenciosa com a ausência da mulher e do filho... e de Cujo também. Geralmente, o grande São Bernardo ficava deitado na sombra perto da porta da oficina, vendo Joe trabalhar. Muitas vezes Joe conversava com ele e o animal levantava a cabeça como se estivesse ouvindo e compreendendo.

Ele pensava, com certa tristeza, que todo mundo desertara, deixando-o ali sozinho.

Olhou para o lugar onde Cujo sujara o chão e tornou a sacudir a cabeça, como se não conseguisse acreditar. Tornou a pensar no problema da alimentação do animal durante sua ausência, mas não encontrava solução. Ele telefonaria a Gary mais tarde. Talvez ele encontrasse uma solução. Talvez algum garoto se mostrasse disposto a cuidar do cão durante aqueles poucos dias.

Sacudiu a cabeça e ligou o rádio para a estação de Norway.

Regulou o volume do aparelho para bem alto. Nunca ligava senão na hora em que irradiavam os resultados dos jogos, mas aquilo agora sempre era uma companhia, já que todo mundo tinha ido embora. Começou a trabalhar e não ouviu quando o telefone na casa tocou com insistência.

 

Tad estava em seu quarto no meio da manhã, brincando com seus caminhões. Durante os seus quatro anos de vida, ele já acumulara mais de 30 caminhões. Era uma coleção bem grande, que ia desde o mais barato, de plástico, que seu pai sempre lhe trazia quando ia comprar o Time nas noites de quarta-feira, até o melhor e mais importante, um grande buldozer Tonka amarelo que chegava à altura de seus joelhos. Ele tinha muito cuidado quando brincava com o de plástico, porque eles eram todos fabricados em Formosa e desmanchavam-se com grande facilidade.

Ele tinha também uma coleção de “homens” para colocar nas cabines. Alguns eram

tipos de cabeça redonda que ele tirava de uns brinquedos de plástico e outros eram soldados. Havia alguns que ele considerava como os heróis de Guerra nas Estrelas. Havia ali o Luke, o Han Solo e o Greedo. E era este último que sempre ficava encarregado de dirigir o buldôzer. Ele imaginava todo o tipo de brincadeIras para os seus caminhões, sendo que algumas eram cenas de filmes que já vira no drive-in de Norway. Havia ainda outras que eram inventadas por ele.

No tanto, a brincadeira que ele mais gostava, justamente a que ocupava naquele momento, era uma que não tinha nome. Consistia em tirar de caixa os caminhões e os motoristas, para

alinhá-los um por um em posições paralelas, com os motoristas em seus lugares como se estivessem estacionados numa rua que só ele conhecia. Depois, levava-os todos, um de cada vez, para o outro lado do quarto, bem devagar, para alinhá-los numa fileira em que os pára-choques se tocavam. Havia ocasiões em que repetia aquilo inúmeras vezes, sem chegar a se cansar.

Vic e Donna sempre se admiravam com aquela brincadeira. Chegavam a ficar confusos quando viam o filho divertir-se com aquela repetição que quase chegava a ser uma espécie de ritual. Tinham-lhe perguntado qual era a graça que ele achava naquilo, mas o vocabulário do menino não era suficiente para ele poder explicar as suas fantasias. Havia uma brincadeira que consistia simplesmente, em atirar os caminhões uns contra os outros, mas a brincadeira sem nome era tranqüila e ordenada. Se o seu vocabulário permitisse ele poderia ter dito aos pais que aquela era

a sua maneira de dizer Oh, a fim de que se abrissem para ele as portas da contemplação e da reflexão.

Agora, enquanto brincava ali, ele se dava conta de que havia alguma coisa errada.

Seus olhos dirigiram-se, automaticamente para a porta do closet, mas não era ali que estava o problema. A porta estava bem trancada e depois das Palavras Para os Monstros, ela nunca mais se abrira. Então, o que havia de errado devia ser qualquer outra coisa.

Ele não sabia exatamente o que poderia ser e não chegava a ter certeza se realmente desejava ou não saber. No entanto, da mesma forma que Brett, ele já começava a entender as tendências dos pais. Já percebia, mais ou menos, para onde as águas corriam. Nos últimos tempos ele chegara a se dar conta de um sentimento que lhe comunicava a existência de sorvedouros ocultos, bancos de areia e talvez até mesmo lugares perigosos escondidos por baixo da superfície. Talvez fossem corredeiras ou uma queda-d"água. Qualquer coisa assim.

As coisas não andavam bem com seu pai e sua mãe.

Ele percebia aquilo na maneira como os dois se olhavam.

Via-se aquilo em seus rostos e também por trás deles.Nos pensamentos de ambos. Ele parou com o que esteve fazendo na movimentação dos caminhões e foi até a janela. Sentia dor nos joelhos por ter estado acocorado durante muito tempo. Lá embaixo, no fundo do quintal, sua mãe estendia roupas no varal. Meia hora antes ela tentara telefonar para o mecânico que ia consertar o carro, mas ninguém atendera. Tentara várias vezes e depois desistira, já zangada, batendo com o fone para colocá-lo de volta no lugar. Ele sabia como era raro a mãe ficar zangada com pequeninas coisas como aquela. Tad continuou olhando até ela acabar de pendurar as roupas e de ficar ali olhando para os lençóis ...com os ombros caídos numa atitude de desânimo. Ela foi para baixo da macieira e Tad percebeu, pela sua postura, que sua mão estava chorando. Estava com as pernas abertas, a cabeça baixa e sacudia os ombros, ele olhou-a durante algum tempo e depois voltou para os brinquedos. Sentia um vazio na barriga. Já estava com saudade do pai, muitas saudades mesmo, mas aquilo era bem pior.

Alinhou novamente seus caminhões muito devagar e fez uma pausa quando ouviu bater a porta telada. Imaginou que ela viria fazer-lhe companhia, mas isso não aconteceu. Ouviu passos atravessando a cozinha e depois o barulho de sua poltrona predileta na sala do estar quando ela se sentou. Não ouviu, porém, o barulho da TV ligada. Durante uns momentos, ele ficou pensando nela sentada lá na sala, sozinha.... mas logo tirou aquilo de seu pensamento.

Acabou de alinhar os caminhões. Ali estava Greedo, o seu predileto, sentado na cabinc do buldôzer, com seus olhos pretos, sem vida dirigidos para a porta do closet. Estava com os olhos arregalados como se houvesse visto alguma coisa, alguma coisa tão horrorosa que o deixara apavorado, alguma coisa parecida com um fantasma alguma coisa horrível e que caminhava para eles...

Tad ficou nervoso e olhou para a porta. Ela continuava bem trancada.

Ele porém, já se cansara dos brinquedos. Colocou todos eles de volta em suas caixas, batendo as tampas com força para que a mãe percebesse que ele estava ali e que era a hora de seu programa predileto no Canal 8. Caminhou em direção a porta, mas parou de repente, olhando para as Palavras Para os Monstros, que o deixavam fascinado. Já as conhecia de cor, lia-as por intuição e adorava a caligrafia do pai.

 

Monstros, fiquem bem longe de meu quarto!

Aqui não é lugar de vocês.

Durante toda a noite nada poderá atacar Tad nem tampouco feri-lo. Vocês nada têm a fazer aqui.

 

Num impulso incontido, ele arrancou o papel da parede com cuidado, quase com reverência, dobrou-o direitinho e guardou-o no bolso dos jeans. Depois, sentindo-se já bem melhor do que antes, ele desceu a escada para ver o seu programa preferido na TV.

 

O último freguês viera buscar seu carro quando faltavam 10 minutos para o meio-dia.

Pagara em dinheiro vivo, que Joe guardara em sua carteira, ao mesmo tempo que pensava na necessidade de passar pelo banco para tirar mais algum dinheiro a fim de fazer frente às despesas da viagem. Iria retirar mais uns 500 dólares.

A idéia da viagem fez com que ele se lembrasse do problema da alimentação de Cujo.

Entrou no carro e dirigiu-se para a casa de Gary, que ficava no sopé da colina. Chegou lá e estacionou o carro diante da casa.

Reparou logo que havia sangue por ali.

Abaixou-se e tocou-o com os dedos. Ainda não estava completamente seco. Levantou-se,

preocupado, mas ainda não alarmado. Talvez o amigo houvesse caído com um copo na mão. Era provável que estivesse bem alto. Não se sentia ainda realmente preocupado até o momento em que reparou na tela arrombada da porta.

Gary?

Não houve resposta. A primeira idéia que lhe ocorreu foi a de alguém que houvesse aparecido por ali para ajustar velhas contas com o amigo. Também poderia ter sido algum turista que lhes houvesse batido na porta, pedindo informações, e que fora mal recebido por Gary.

Subiu correndo e reparou que o piso da varanda também estava sujo de sangue.

— Gary? — chamou de novo. Naquele momento ele sentia saudades de sua espingarda de caça. Se alguém houvesse aparecido por ali para agredir Gary, quebrando-lhe os poucos dentes que lhe restavam, esse agressor já deveria estar longe, porque ali fora só havia o carro dele e o do amigo, um Chrysler 66, e ninguém ia sair andando pela Rodovia 3. A casa de Gary ficava a quatro quilômetros de distância da cidade e a três da Maple Sugar Road, que le-vava à Rodovia 117.

Joe já imaginava que o mais provável mesmo era que Gary houvesse cortado a mão ou coisa parecida; e ele só esperava que não fosse a garganta.

Joe empurrou a porta telada, que rangeu alto.

— Gary...

Ainda não conseguia resposta. Ele sentia um aperto no coração que não lhe agradava. Sentia um cheiro adocicado que lhe agradava ainda menos e que ele sabia não ser da trepadeira. A escada para o sobrado ficava à sua esquerda. Bem na sua frente estava a cozinha e a porta da sala que se abria para o corredor à direita.

Havia alguma coisa no chão do corredor, que ele não via bem por causa da escuridão. Parecia ser uma mesinha derrubada ou coisa parecida... mas, tanto quanto ele sabia, jamais houvera peça alguma de mobília naquele corredor. Gary levava para ali as cadeiras de. vime sempre que chovia, mas há duas semanas que isso não acontecia. Além disso, ele vira as cadeiras lá fora, ao lado do Chrysler. Perto da cerca.

Só que aquele cheiro não era das madressilvas. Era cheiro de sangue. Uma grande quantidade de sangue. E também não era nenhuma mesinha que estava caída ali.

Joe correu para onde estava o vulto e seu coração quase saltava-lhe pela boca. Ajoelhou-se e deixou escapar um grito de agonia. Sentiu, de repente, que ali estava muito quente e que ele já estava sufocando. Saiu correndo com a mão na boca. Alguém tinha...

Fez um grande esforço para olhar novamente. Gary estava deitado numa verdadeira poça de sangue. De seu próprio sangue. Seus olhos estavam voltados para o teto. Tinha a garganta escancarada. Não estava somente escancarada, Deus do céu! Tudo indicava que fora aberta com uma dentada.

Desta vez ele não conseguiu mais se conter e parecia que vomitar as tripas. Numa louca reação, voltou seu pensamento para Charity numa indignação infantil. Ela estava realizando a sua viagem, mas ele já não poderia fazer isso, porque algum sacana louco fizera o papel de Jack, o Estripador, com o seu pobre amigo Gary e...

 

...era preciso chamar a polícia. O resto não tinha mais importância. Já não tinha mais importância o fato dos olhos do coitado estarem virados para o teto, bem como aquele cheiro enjoativo de sangue misturado com as madressilvas.

Levantou-se cambaleando e caminhou para a cozinha. Precisava chamar a polícia,

chamar o xerife, chamar alguém, enfim...

Parou na porta da cozinha e seus olhos se arregalaram tanto que pareciam querer saltar das órbitas. Na porta da cozinha havia um monte de fezes de cachorro. Ele sabia bem, pela sua aparência e volume, qual o animal que fizera aquilo.

— Foi o Cujo! Deus do céu, ele está danado!

Pareceu-lhe ouvir um barulho às suas costas e voltou-se apavorado, os cabelos arrepiados. Não havia nada ali a não ser o pobre Gary. Assim mesmo Gary que lhe dissera, noites atrás, que Joe não poderia lançar o Cujo contra um negro agressivo. Gary, com a garganta completamente aberta...

Não valia a pena arriscar-se. Saiu correndo pelo corredor, escorregando no sangue de Gary e deixando atrás dele a marca do escorregão. Tornou a gemer, mas, quando fechou a porta bem sólida, sentiu-se mais aliviado.

Voltou para a cozinha, desviando-se do corpo, e olhou lá para dentro, pronto a bater a outra porta se o animal estivesse lá. Mais uma vez sentia saudades de sua espingarda de caça.

A cozinha estava vazia. A única coisa que se movia ali eram os cortinas da janela. Havia um cheiro típico de garrafas de vodca vazias. Era um cheiro azedo... mas bem melhor do que aquele

outro. A luz do sol desenhava padrões no linóleo já bem gasto. O telefone, que já fora branco, estava encardido com a gordura de muitas refeições de um velho solteirão, e também tinha rachaduras das batidas que sofrera ao ser manipulado por um velho bêbado. Estava em seu lugar ao lado da janela.

Joe entrou e trancou bem a porta. Foi até as duas janelas abertas e nada mais viu lá fora a não ser o monte de sucata, uma recordação dos carros anteriores do Gary. Como medida de precaução, fechou também as janelas.

Chegou ao telefone completamente alagado de suor, devido ao calor intolerável que fazia

ali na cozinha. A lista estava pendurada ao lado do aparelho. Ela fora furada no ano interior pela máquina elétrica de Joe, a fim de receber o fio de barbante para ser pendurada ali. Joe lembrava-se que, naquele dia, ele estava completamente bêbado e gritando que cagava e andava para o mundo.

Joe apanhou a lista, mas logo largou-a e ela foi bater contra parede. Sentia as mãos muito pesadas e a boca ainda tinha o azedo de vômito. Tornou a pegar na lista e abriu-a com um safanão que quase arrancou-lhe a capa. Ele sabia bem quais os números que deveria discar, mas no seu estado de choque nada lhe ocorria.

O ruído de sua respiração arquejante, do coração disparado e do folhear da lista, não

permitiu que ele ouvisse um outro muito leve, bem atrás dele, quando Cujo abriu com o focinho a porta que dava para o porão.

Ele havia ido lá para baixo depois de matar Gary, porque a luz da cozinha era muito clara

e ofuscante. Ela afetava o seu cérebro em decomposição. A porta do porão estava apenas encostada e ele descera cambaleando para se refugiar naquela escuridão agradável. Adormecera ao lado de coisas velhas que Gary trouxera do exército e o vento encostara a porta, quase chegando a fecha-la, mas não fora suficientemente forte para bater o trinco.

Todos os barulhos feitos por Joe quando gemia, vomitava e andava de um lado para

outro, o barulho que fizera para fechar as portas, tudo isso, enfim, acabara acordando o animal que voltava a sentir as suas dores. Voltavam as dores e também aquela mesma fúria assassina. Ele agora estava ali na porta atrás de Joe, com a cabeça baixa, os olhos muito vermelhos e o pêlo todo sujo de porcarias, de sangue e de lama. A espuma continuava a escorrer-lhe da boca e seus dentes estavam sempre arregalados, porque a língua já começava a inchar.

Soe conseguira, afinal, encontrar a seção de Castle Rock na lista e começava a discar com

os dedos trêmulos para a repartição competente. Encontrara também o número do xerife. Já estava com o dedo espetado para discar, quando Cujo soltou o primeiro rosnado.

Ele teve a impressão de que todos os seus nervos lhe fugiam do corpo. A lista escapou de

sua mão e foi bater de novo na parede. Voltou-se devagar para o lado de onde vinha o rosnado e viu seu cachorro de pé ali na porta.

Tentou apaziguá-lo com um trato carinhoso, mas mal conseguia falar, já que a saliva lhe escorria pelo queixo.

Não conseguiu conter-se e mijou nas calças e o penetrante cheiro de urina só serviu para enfurecer ainda mais o animal. Cujo saltou-lhe em cima, mas Joe conseguiu desviar-se e o animal foi bater dE encontro ao papel da parede, fazendo cair o emboço e formando uma nuvem branca. Joe mal conseguia se sustentar nas pernas bambas. O cão agora já não rosnava, mas os sons que lhe saiam da garganta eram de aterrorizar qualquer um.

Joe recuou até a porta dos fundos, mas seus pés se embaraçaram na cadeira. Ele perdeu o equilíbrio e, antes que conseguisse levantar-se, o animal atirou-se em cima dele como se fosse uma máquina de matar, toda suja de sangue, com a espuma voando para trás. O seu cheiro era horroroso.

— Deus do céu! Deixe-me em paz!

Ao soltar aquele grito Joe lembrava-se de Gary. Cobriu a garganta com uma das mãos e tentou agarrar o cão com a outra; isso fez com que Cujo recuasse um momento. Tinha os dentes arreganhados numa espécie de riso sinistro e eles pareciam uma fileira amarelada de estacas. Logo depois, porém, ele voltou à carga.

Só que, dessa vez, o seu alvo eram os testículos de Joe.

 

— Oi, garotão! Quer vir fazer as compras comigo? Depois podemos ir no Mario"s para comer alguma coisa...

Tad levantou-se de um salto.

— Claro que quero, mamãe! Vai ser ótimo!

— Pois então ande daí...

Donna estava com a sacola nos ombros e vestia jeans com uma camisa azul já um tanto

desbotada. Tad achava que ela estava uma beleza. Sentia-se aliviado ao ver que não havia mais vestígios das lágrimas, porque quando ela chorava ele também fazia a mesma coisa. Sabia que ficava parecendo uma criancinha de colo, mas não conseguia evitar.

Tad já estava a meio caminho do carro e ela já estava ao volante quando ele lembrou-se

de que o carro estava com problemas.

— Mamãe.

O que é que você quer agora, Tad? Entre logo...

Ele, porém, ainda estava indeciso.

— E se o carro enguiçar com a gente?

— Enguiçar...?

Donna olhava para ele intrigada, mas Tad logo percebeu, na sua atitude de completo desespero, que a mãe esquecera completamente do problema que havia com o carro. Ele apenas chamara a sua atenção para o fato e aquilo representava uma contrariedade para ela. A culpa seria do carro ou do filho? Ele não sabia, mas o sentimento de culpa em seu íntimo dizia-lhe que a culpa era dele. Logo depois, o rosto dela desanuviou-se. Pagou ao filho com um sorriso que ele conhecia bem e sabia que era seu, que era o sorriso especial que ela guardava só para ele. E então sentiu-se bem melhor.

Nós vamos só até a cidade, Tad. Se o carro enguiçar teremos que. gastar umas duas pratas para voltarmos no único táxi que existe aqui em Castle Rock.

— Está bem, então. Vamos lá.

Ele entrou e conseguiu bater a porta. Ela olhava-o com atenção, pronta a correr em seu auxílio em caso de necessidade, e Tad imaginava que ela estava pensando naquele último Natal em que ela batera a porta em cima de seu pé e fora obrigado a andar com ele enfaixado durante quase um mês. Só que, naquela ocasião, ele era ainda pequenino ao passo que agora já estava com quatro anos. Já era um garoto bem crescido. Sabia que era mesmo porque assim lhe dissera seu pai. Sorriu para a mãe, satisfeito, e ela retribuiu-lhe o sorriso.

— Está bem fechada?

— Está.

Ela abriu novamente a porta e tornou a batê-la com força. Tad sabia que as mães nunca acreditam nos filhos, a não ser que eles façam alguma coisa errada como no dia em que ele derramou o açúcar na mesa quando tentava apanhar a manteiga de amendoim, ou naquele outro, quando atirara uma pedra que deveria passar por cima da garagem mas que acabou quebrando o vidro da janela.

— Coloque o cinto, Tad. O carro começa a dar solavancos quando vai enguiçar...

Ele fez o que a mãe mandava, mas continuava apreensivo. Só esperava que não houvesse nenhum acidente. Alguma coisa parecida com o que ele fazia com seus caminhões. Talvez até mesmo mais sério, e só esperava que sua mãe não chorasse. Ela fingiu que colocava uns óculos de aviador.

— Tudo pronto?

— Tudo pronto.

— A pista está limpa?

— Pista limpa.

— Então lá vamos nós, companheiro...

Ela virou a chave e logo depois estavam a caminho da cidade.

Depois de haverem percorrido uns dois quilômetros, sentiram-se aliviados. Até aquele

momento, Donna estivera muito tensa e empertigada, o mesmo acontecendo com Tad.. O carro, porém, estava funcionando tão bem que até parecia ter saído da linha de montagem na véspera.

Foram até o supermercado, onde ela comprou 40 dólares de mantimentos, que julgava ser a conta para passarem os 10 dias até a volta de Vic. Tad estava sempre querendo que ela comprasse gulodices. A Sharp sempre lhes enviava uma certa quantidade de cereais, mas o estoque tinha acabado. Apesar de ser obrigada a dar atenção ao que comprava e colocava no carrinho, ela ainda tinha tempo para pensar com certo amargor, enquanto esperava na fila da caixa, como as coisas estavam caras. Tad estava sentado dentro do carrinho das compras, balançando as pernas despreocupadamente. Ela, porém, não se sentia apenas deprimida. Ela estava com medo. Esse pensamento levou-a a pensar na terrível possibilidade, que no seu íntimo mais parecia uma probabilidade, da agência perder o contrato da Sharp, o que significava a liquidação da própria agência. O que aconteceria então com o custo da vida, da maneira como as coisas estavam caras?

Ela viu então uma mulher gorda, com um traseiro enorme, enfiada nuns slacks cor de abacate, meter a mão na bolsa e tirar de lá um talão de vales para alimentos que o governo fornecia aos desempregados. Viu também como a moça da caixa olhou para a colega ao lado de um modo bem significativo. Naquele momento Donna sentiu um aperto no coração. Seria possível que ela chegasse àquele ponto? Poderia acontecer também com ela? Não. Claro que não iria acontecer. Teriam que voltar primeiro a Nova York e então...

Ela não estava gostando da rapidez como se encaminhavam os seus pensamentos e então fez um esforço para espantá-los, antes que assumissem o volume de uma avalancha que a soterraria em outra profunda depressão. Na próxima vez ela já não precisaria comprar café e. aquilo significava uma economia de três dólares.

Levou o filho junto com as compras para o carro. Colocou em sacolas na parte de trás do carro, enquanto Tad sentava-se ao lado. Sentia vontade de bater a porta, mas sabia que aquela era uma tarefa que seu filho gostava de fazer, do contrário ficaria triste. Era uma coisa que devia ser feita por meninos já crescidos. Ela quase tivera um ataque quando ele esmagara o pé na porta, em dezembro. Como gritara! Quase desmaiara. Mas, naquela ocasião, Vic estava presente e saíra correndo de casa, enfiado num roupão e descalço, sempre competente nas situações de emergência, o que não ocorria com ela. Ele logo verificara se havia alguma fratura e depois

vestira-se para levar Tad ao hospital em Bridgton.

Com as compras no carro e Tad em seu lugar, Donna sentou-se no volante e pôs o carro em movimento. Continuava preocupada com a possibilidade de um enguiço, mas o carro levou-os direitinho até a lanchonete Marío"s, que vendia pizzas deliciosas, com calorias suficientes para o desempenho das mais pesadas tarefas. Conseguiu estacionar o carro de forma bem satisfatória, embora não perfeita, e levou Tad pela mão, sentindo-se melhor do que até então estivera naqueles dia. Era bem possível que o diagnóstico de Vic não tivesse correto e que tudo não passasse de algum entupimento ou, até mesmo, de água na gasolina. O carro estava agora em perfeitas condições. Não tinha a mínima vontade de ir até a oficina do Joe. Ficava muito longe e o caminho era cheio de lama. Por isso Vic gracejava achando que era o confim onde o diabo perdera as galochas, por causa da lama. Claro que ele podia fazer graça com aquilo quando estava de bom humor, já que era homem. Além disso ela tivera medo de Joe quando o vira pela primeira vez.Joe era a quinta-essência do roceiro ianque, que resmungava em vez de falar e que estava sempre de cara amarrada. E, ainda por cima, tinha aquele cachorro... Como era mesmo o nome dele? Era algo que soava como se fosse espanhol. Cujo... .agora se lembrava do pseudônimo que William Wolfe escolhera, embora Donna achava impossível acreditar que Joe dera ao seu São Bernardo o nome de um notório assaltante de bancos e seqüestrador de jovens herdeiras muito ricas. Duvidava que Joe já tivesse ouvido falar no Exército Simbionês da Libertação. O cão, aliás, parecera manso e inofensivo, mas ficara bem nervosa ao ver aquele monstro, da mesma maneira como também ficara nervosa ao vê-lo bater a porta do carro sem. poder interferir.

Cujo parecia ter o tamanho suficiente para engolir Tad com apenas duas bocadas.

Ela pediu um sanduíche quente para Tad, que não gostava de pizza — Donna jurava que

nisto ele não puxara a ela — e para si uma com pimentões e cebolas, além de uma porção dupla de queijo.

Comeram sentados a uma mesa de onde viam a estrada. Ela imaginava que, depois daquela pizza, o seu hálito poderia derrubar um cavalo, mas não tinha importância agora. Chegara a um ponto em que conseguira alhear-se ao marido e ao cara com quem havia tido relações durante seis semanas, mais ou menos.

Isso só serviu para fazer voltar a depressão, que ela, outra vez, procurava afastar... mas seus braços já estavam cansados de tantos esforços.

Estavam quase chegando em casa, com o rádio do carro ligado, quando a coisa apareceu

novamente.

Primeiro foi apenas um ligeiro solavanco, logo seguido de outro bem maior. Ela

começou a pisar no acelerador com cuidado, pois já se safara antes fazendo isso.

Tad estava alarmado.

— O que é que há, mamãe?

— Não se preocupe, Tad.

Ela, porém também já estava alarmada. O carro já agora sacudia-se todo e sacudia-os também dentro dos cintos de segurança. O motor falhava e roncava. Uma sacola caiu lá atrás, derramando latas e garrafas e ela ouviu um estalo como se fosse do alguma coisa quebrada.

— Que merda! Agora este maldito carro está mesmo enguiçado!

Sentia-se positivamente furiosa. Dali onde estavam já era possível ver a casa lá ao longe,

no alto da colina, ridiculamente perto como se estivesse achando graça naquilo; e ela sabia que o carro jamais chegaria até lá.

Apavorado, não só pelo grito da mãe como também pelos espasmos do carro, Tad

começou a chorar, o que só serviu para aumentar o desespero e a raiva de Donna, a ponto dela gritar com o filho.

— Cale essa boca! Deus do céu! Cale a boca, Tad...

Isso fez com que ele chorasse ainda mais, ao mesmo tempo em que sua mão procurava

no bolso dos jeans as Palavras Para os Monstros, que ele guardara ali bem dobradinho. O simples fato de tocar no papel fez com que .se sentisse um pouquinho melhor. Não muito. Apenas um pouquinho.

Donna concluiu que á única coisa a fazer seria deixar o carro no acostamento e

desligar o motor. Nada mais podia fazer. Com o impulso que levava o carro, ela conseguiu chegar até lá. Poderiam ir buscar o caminhão de Tad para levar as compras até em casa e depois então resolveria sobre o que fazer. Talvez....

No momento exato em que o carro ia entrar no acostamento, o motor deu dois

estouros e começou a funcionar suavemente, da mesma forma que já ocorrera antes, e logo depois estavam chegando em casa. Encostou o carro, puxou o freio de mão, desligou o motor e debruçou-se no volante. E só então começou a chorar.

— Mamãe...

Tad estava aflito. Tentou pedir-lhe que não chorasse, mas as palavras não lhe saíam.

Parecia ter sido repentinamente afetado por uma forte crise de laringite. Olhava para a mãe desejando confortá-la, mas não sabia como fazê-lo. Isto era algo que competia a seu pai e, então, naquele momento, sentiu raiva de Vic por não estar presente. A profundidade dessa emoção deixou-o chocado e apavorado. E, então, de repente, sem que houvesse qualquer razão para o fato, ele viu a porta do closet abrir-se para deixar sair uma escuridão que tresandava a alguma coisa baixa e amarga.

Donna acabou levantando a cabeça e mostrando o rosto afogueado. Tirou um lenço da

bolsa e enxugou os olhos.

— Desculpe, meu amor. Eu não estava gritando com você. Estava gritando para isto...

para esta porcaria aqui....

Deu um soco no volante e soltou um grito de dor. Levou a mão à boca e soltou uma

risadinha. Só que não era risada muito alegre.

—Acho que ele continua enguiçado, mamãe...

— Acho que está mesmo, Tad. Muito bem, vamos pegar as compras. De qualquer maneira, estamos bem providos, Cisco.

— Está bem, Pancho. Vou buscar o caminhão.

Donna empilhou as coisas em cima do brinquedo de Tad, após tornar a colocar na

sacola as coisas que haviam derramado no caminho. Uma garrafa de catchup estava quebrada. Claro que aquilo não podia deixar de acontecer. O tapete da parte de trás do carro estava todo sujo. Até parecia que alguém havia cometido haraquiri.

Ela poderia limpar, mas a mancha sempre ficaria. Não acreditava nem houvesse

alguma coisa para limpá-lo completamente. Nem mesmo um xampu de tapetes.

Empurrou o carrinho até a porta lateral da cozinha, ajudada pelo filho. Estava empilhando as compras e pensando se limparia o tapete primeiro quando o telefone tocou. Tad precipitou-se para

ele, pois já sabia muito bem como atender.

— Sim... Quem fala, por favor?

Manteve o fone no ouvido, com uma cara risonha, e depois estendeu-o para a mãe.

Ela pensou logo que era alguma chateação. Alguém que ficaria ali chamando durante duas horas, para no fim não dizer nada.

Continuar: parte 4 de 4