Cão Raivoso
— Você passa bem sem ele na…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Mas e a viagem?
Ele não precisara saber que sua mãe tinha conseguido a viagem por meio de um estratagema desesperado, e também devido à sorte, ou talvez a uma combinação das duas coisas. Como acontece com a maioria dos filhos, ele sabia que havia alguma coisa de errado no relacionamento dos pais, percebia mais ou menos as correntes emocionas entre os dois, de um dia para outro, da mesma forma que um guia experimentado conhece todos os contornos da corrente de um rio no interior do país. Fora difícil conseguir, mas embora o pai acabasse cedendo, ele sabia que isso fora um pouco contra a sua vontade. Só teria a certeza absoluta da viagem quando o pai os deixasse na rodoviária e voltasse para casa. Se lhe contasse sobre a doença de Cujo, o velho poderia se aproveitar do pretexto para retirar o seu consentimento e cancelar a viagem.
Ficou parado ali na porta da oficina sem saber o que fazer. Estava, pela primeira vez em
sua vida, numa dúvida cruel, sem saber o que fazer. Depois de um instante de dúvida, começou a procurar o cachorro ali no barracão. Começou a chamá-lo baixinho. Seus pais ainda estavam dormindo e ele sabia bem como o som se propagava quando havia nevoeiro. Não conseguiu encontrá-lo em parte alguma... e isso foi a sua sorte.
O despertador acordou Víc quando faltavam 15 minutos para as cinco. Ele levantou-se e travou-o. Depois, ainda tonto de sono, foi para o banheiro maldizendo Roger, que nunca concordava em chegar ao aeroporto 20 minutos antes da chamada, como faziam todos os viajantes sensatos. Mas isso, porém, não acontecia com seu sócio. Ele pensava sempre na possibilidade de alguma contingência inesperada como, por exemplo, um pneu furado, uma estrada interrompida e até mesmo um terremoto. Ou até que viajantes espaciais de outro planeta descessem na Rodovia 22. Tomou um banho de chuveiro, barbeou-se, engoliu as vitaminas e voltou ao quarto para se vestir. A grande cama de casal estava vazia e ele suspirou baixinho. O fim de semana com Donna não tinha sido dos mais agradáveis.., aliás, ele poderia dizer com sinceridade que ele jamais desejaria um outro igual em toda a sua vida. Os dois haviam mantido as aparências, já que Tad estava ali, mas Vic sentia-se. como se estivesse representando uma comédia. Não lhe agradava ver como se comportavam os músculos do rosto quando sorria.
Tinham dormido juntos na cama enorme que, naquela ocasião parecia pequena demais para ele. Haviam dormido cada um no seu lado, com uma espécie de terra de ninguém entre os dois. Na sexta e no sábado ele não conseguira dormir, já que, morbidamente, percebia todos os movimentos que Donna fazia. Percebia até mesmo o ruído da camisola esfregando-se no corpo da mulher. Ficara pensando se também ela estaria acordada no seu lado, com aquele vazio entre os dois.
Na noite anterior, domingo, haviam tentado fazer alguma coisa a respeito e as relações sexuais tinham sido moderadamente satisfatórias, embora um tanto indecisas, já que nenhum dos dois havia chorado depois de tudo acabado. Imaginara, um tanto morbidamente, que isso aconteceria com um deles. Não tinha certeza de que aquilo pudesse se chamar “fazer amor”.
Vestiu um terno cinza de verão, quase da mesma cor que estava a luz da manhã lá fora, e apanhou as duas malas. Uma delas era mais pesada que a outra, já que me ali onde se encontrava tudo que dizia respeito aos negócios com a Sharp. Todos os Iayouts estavam com Roger.
Donna estava na cozinha fazendo waffles e o bule do chá estava no fogo, quase no ponto certo. Estava enfiada num roupão velho, azul, que era dele. Via-se em seu rosto que não tinha aproveitado muito o sono e isso poderia ser devido ao seu inconsciente perturbado.
— Será que os aviões estão decolando com um nevoeiro assim? — perguntou ela.
— Isso passa já O sol já vem saindo. Ele apontou para a janela e depois beijou-a de leve no pescoço. — Você não precísava ter levantado assim tão cedo...
Ela abriu a tampa do tostador e tirou um waffle, que colocou no prato com agilidade. — Não faz mal. Seria tão bom se você não tivesse que fazer esta viagem agora, Vic...
depois do que houve ontem à noite...
— Não foi tão ruim assim. Você não acha?
— Mas não foi como antes disse ela, um sorriso amargo, quase escondido, passando ligeiramente por seus lábios, mas logo desaparecendo. Ela bateu novamente a massa e colocou um outro waffle no aparelho. Ouviu-se um chiado quando ela virou água fervendo em cima de duas xícaras, uma gravada Vic e a outra DONNA.
Coma o seu waffle. Tem geléia do morango, se você quiser... Ele foi buscar a geléia e sentou-se. Passou a geléia no waffle e ficou olhando
enquanto ela se entranhava nos quadradinhos igualzinho ao que fazia quando era menino. Gostava daquela marca de geléias o usou-a em grande quantidade. Tudo parecia estar muito bom, mas Vic não estava com fome.
— Você vai para a cama com alguém em Boston ou em Nova York? Assim ficaremos empatatados. — Donna dava-lhe as costas ao mesmo tampo que falava.
Ele levou um susto. Parecia ter corado. Achou bom que Donna estivesse de costas, porque assim ela não podia ver que ele não gostara da piada. Realmente, pensara em dar uma gorjeta bem maior ao homem da portaria do hotel para depois lhe fazer algumas perguntas. Sabia que era costume de Roger fazer isso.
— Não vou ter tempo para essas coisas, Donna. Vou andar muito ocupado o tempo
todo.
— Como é mesmo que diz aquele cartaz? Sempre há tempo para tudo..
— Será que você está querendo me ver zangado, Donna? O que há com você?
— Nada disso, Vic. Trate de tomar o seu chá. Á máquina precisa de combustível.
Ela sentou-se diante de seu waffle. Nada de geléia. Apenas uma calda de Vermont e nada mais. Ele olhava-a ao mesmo tempo eu que pensava como os dois se conheciam bem.
— Qual foi a hora que você marcou com o Roger? — Depois de algumas discussões concordamos que seria às seis.
Ela tornou a sorrir, mas dessa vez foi um sorriso carinhoso.
— Ele não desiste de sua velha mania de fazer tudo mais cedo do é que é necessário,
não é mesmo?
— Se é! Só estou admirado dele ainda não ter telefonado para saber se já estou de pé.
O telefone tocou.
Os dois se olharam por um momento e, logo depois, caíram na risada.Aquele foi um momento precioso. Sem dúvida alguma muito mais precioso do que o ato de amor da noite. Ele admirou os belos olhos da mulher e viu como brilhavam. Eram cinzentos como o nevoeiro lá de fora.
Atenda depressa para não acordar o Tad Vic... Era Roger mesmo. Vic garantiu-lhe que estava acordado, vestido e com uma bela disposição para a luta. Iria pega-lo as seis ficou pensando se contaria ao sócio o “caso” de Donna com Steve. Provavelmente não contaria. Não porque temesse ser ruim o conselho dele. Sabia que não seria. Sabia também que apesar de sua promessa de nada contar a Althea, ele certamente faria isso. E aí ele tinha também a certeza de que Althea não guardaria segredo a respeito de uma fofoca tão boa junto a sua rodinha de bridge. Só de pensar em tudo isso ele sentiu-se novamente muito deprimido. Era como se os dois, Donna e ele, ao invés do resolverem o problema sozinhos, estivessem enterrando seus corpos ao clarão da lua.
— Sempre o mesmo Roger...
Ele tornou a sentar-se e tentou um sorriso que, já então, não parecia sincero. Já tinha
passado o momento da espontaneidade.
— Você acha que toda a sua bagagem e a do Roger vão caber no seu Jaguar?
— Claro. Vão ter que caber. A Althea precisa do carro deles e... Puxa vida! Que diabo! Não é que me esqueci do falar com o Joe a respeito de seu Ford, Donna?
— Você tinha muitas coisas mais importantes em que pensar, Vic. Havia uma certa ironia em sua voz. — Não faz mal. Eu não levo o Tad para o acampamento hoje. Ele está meio resfriado. Será melhor que fique em casa este resto de verão, desde que você concorde: Sempre me meto em encrencas quando fico só.
As lágrimas lhe abafavam a voz e ele estava ali sem saber o que dizer ou fazer. Ficou somente olhando enquanto ela pegava num lenço de papel para enxugar os olhos e assoar o nariz.
Vic sentia-se abalado.
— Faça como achar melhor, Donna. Telefone para o Joe. Elo está sempre em casa e tenho certeza de que dará um jeito em seu carro em menos de vinte minutos. Até mesmo se tiver que trocar o carburador.
— Você vai pensar em tudo enquanto estiver fora? Pensar no que vamos fazer? No que vamos resolver sobre nossas vidas?
— Claro.
— Muito bem. Eu também pensarei, Vic. Quer mais um waffle?
— Não, obrigado, Donna.
Aquela conversa já estava se tornando surrealista. Ele sentia ímpetos de sair e ir embora.
A viagem agora já lhe parecia necessária e importante. Ficaria longe de toda aquela trapalhada. Haveria uma distância enorme entre ele e toda aquela confusão. Agora só pensava na viagem a via, com antecipação, o poderoso jato penetrando no nevoeiro e chegando lá em cima, onde tudo era azul.
— Posso comer um waffle?
Os dois assustaram-se e olharam para trás. Tad estava de pé no corredor, enfiado em seu pijama amarelo muito folgado e com o urso de veludo nos braços. Trazia ainda nos ombros o cobertor vermelho. Parecia um indiozinho sonolento.
— Vou já fazer um para você, meu filho.
Donna ainda estava espantada, porque o filho não era muito de sair da cama cedo. — Você acordou com a campainha do telefone, Tad?
Ele sacudiu a cabeça.
— Acordei cedo porque queria dizer adeus pra você, papai. Será que precisa mesmo
ir?
— Não vou demorar muito, Tad.
— Acho que vai sim. Eu fiz uma roda na minha folhinha no dia que você vai voltar.
Foi a mamãe quem me ensinou. Eu vou ficar contando os dias e marcando eles direitinho. Mamãe prometeu ler as Palavras Para os Monstros todas as noites.
— Pois é... Assim será bom, você não acha? — E você vai telefonar?
— Não todas as noites, Tad. Uma sim e uma não...
— Quero que seja todas as noites, papai... Todas as noites. Sim?
Ele insistia saltando no colo d eVic, sem largar o urso, apanhando pedacinhos de
waffle.
Vic pensava no tremendo programa que Roger traçara na sexta-feira, antes dele ter recebido o bilhete de Steve.
— Não posso telefonar todas as noites, Tad...
— Por que é que você não pode, papai?
— Porque o seu Tio Roger é muito duro, Tad. Trate de comer seu wafIe. Largue esse urso. Amanhã o papai vai telefonar de Boston, contando tudo que aconteceu.
— Você vai me trazer algum brinquedo, papai?
O lugar dele na mesa tinha um plástico com o seu nome.
— Só trago se você se comportar bem. Vou telefonar amanhã para você ficar sabendo que cheguei inteirinho em Boston.
— Está bem. t
Vic olhava-o fascinado, vendo-o derramar um pequeno oceano de calda em seu waffle.
— Que brinquedo você vai me trazer papai?
—Vou pensar nisso Tad.
Ele ficou ali vendo o filho comer e então, de repente, lembrou-se de que era louco por ovos.Gostava de ovos de todas as maneiras possíveis e imagináveis.
— Tad...
— O que é, papai?
— Se você quisesse que alguém lhe desse ovos, o que é que você diria? — Eu diria que gosto muito de ovos — disse Tad, após alguns momentos de hesitação. Os olhos de Donna e Vic se cruzaram novamente e eles tiveram um segundo momento
semelhante àquele em que o telefone tocara. Mas, dessa vez, o riso dos dois foi apenas telepático.
As despedidas foram apenas formais. O único que chorou foi Tad, devido ao imperfeito conhecimento que tinha de como o tempo era curto.
Quando Vic entrava no carro, Donna tornou a perguntar-lhe se iria pensar bem a
respeito de tudo que acontecera.
— Claro que vou, Donna.
Enquanto dirigia para ir buscar Roger em Bridgton, tudo em que ele realmente pensava era naqueles dois momentos de completa e perfeita comunicação. Dois deles numa só manhã não era coisa de se desprezar. Tudo de que precisavam eram oito ou nove anos juntos, quase uma quarta parte da idade de ambos. Ia pensando como eram ridículos todos os conceitos de comunicação da humanidade e os tremendos esforços necessários para se conseguir alguma coisa. Nos casos de sucesso toda cautela era pouca. Claro que ele iria pensar. Era preciso que tudo voltasse à calma e felicidade anterior, embora alguns dos canais estavam obstruídos com lama e esterco, em quantidade que só Deus poderia avaliar. E uma parte de toda a porcaria ainda estava fervilhante. Havia ainda muitos outros canais que continuavam abertos e em bom estado de funcionamento.
Era preciso pensar bem, com muito cuidado e sem exageros. As coisas, às vezes, pareciam maiores do que eram na realidade.
Ligou o rádio do carro e começou a pensar no pobre Professor dos Cereais Sharp.
Faltavam 10 minutos para as oito quando Joe encostou o carro no terminal da rodoviária, em Portland. O nevoeiro já se havia dissipado e o relógio digital do Casco Bank marcava 23 graus.
Ele dirigia com o chapéu plantado na cabeça e sempre pronto para brigar com qualquer um que o contrariasse. Detestava dirigir na cidade. Quando chegasse a Boston, com Gary, sua intenção era deixar o carro numa garagem até o dia da volta para casa. Poderiam usar o metrô, se conseguissem destrinchar as direções, ou então andariam a pé.
Charity estava enfiada nas melhores calças que possuía, de um verde bem discreto, e numa blusa de algodão branco com gola pregueada. Estava com brincos e isso deixara Brett deslumbrado. Só via a mãe usá-los quando ia à igreja.
Ele conseguira falar com ela a sós na hora em que subira para se vestir, após. ter sorvido o café da manhã para o marido. Joe falara pouco a maior parte do tempo, apenas rosnando respostas monossilábicas para as perguntas que Charity lhe fazia, mas logo pusera um fim a qualquer espécie de conversa, ligando o rádio para ouvir o resultado dos jogos. Ambos sentiam medo, imaginando que o silêncio pudesse, de alguma forma, pressagiar alguma explosão que arruinasse a viagem.
Charity já vestira as calças quando Brett reparou que ela estava com um sutiã creme. Isso também deixou-o espantado. Todas as roupas intimas que vira de sua mãe, até então, eram sempre brancas.
—Mamãe... — O tom de sua voz demonstrava uma certa urgência.
Ela voltou-se para ele, que, por um momento, teve a impressão de que a sua presença ali não agradava à mãe.
— Ele falou alguma coisa com você, Brett? — Não,... não. Ë o Cujo...
— O Cujo? E o que é que há com ele?
— Ele está doente.
— O que é que você quer dizer com isso? Doente como?
Brett contou-lhe tudo que havia acontecido desde que se levantara cedo e de como o cachorro lhe aparecera, de repente, com os olhos muito vermelhos e babando uma espuma branca.
— Ele também não estava andando direito, mamãe. Até parecia tonto.Sabe como é? Você acha que devo falar com o pai?
Ela agarrou-lhe o braço com violência, com tanta força que chegava a doer-lhe.
— Não, Brett! Nem pense nisso!
Ele olhou-a, surpreso e apavorado. Ela largou-o e continuou falando, mais calma:
— Ele apenas meteu medo em você porque saiu de repente do meio do nevoeiro. É bem provável que não seja nada sério, não acha?
O menino ficou procurando palavras que a fizessem compreender bem a situação, mas nada encontrava. Era até bem possível que não desejasse encontrá-las.
— Se houver alguma coisa errada, Brett, não deve .ser nada grave. É provável que ele tenha pegado um gambá...
— Não era cheiro de gambá, mamãe.
— Ou então qualquer outro bicho que tenha perseguido. Pode até mesmo ter sido um veado... Também pode ter comido alguma coisa que lhe fez mal.
— É mesmo. Pode ser que tenha sido isso.
— Seu pai logo se aproveitaria de uma coisa assim, Brett. Posso até mesmo ouvir suas palavras. “Doente, hem? Pois então cuide dele, já que é o seu dono. Tenho mais o que fazer além do perder meu tempo com o que é seu.”
Brett sacudiu a cabeça com ar muito triste. Aquilo era exatamente o que pensara na hora do café, quando o rádio berrava de ensurdecer lá na cozinha.
— Se você deixá-lo para lá, ele logo virá procurar seu pai, que então tomará as providências necessárias. Ele adora aquele cachorro quase tanto como você, embora nunca chegue a confessar isso. Se notar alguma coisa errada no Cujo, ele logo o levará ao veterinário.
— É sim... acho que ele fará isso...
As palavras da mãe pareciam sensatas, mas ele ainda se sentia inquieto.
Ela abaixou-se e beijou-o no rosto.
— Pode ficar tranqüilo, meu filho. Já sei o que fazer. Vou telefonar para seu pai hoje à noite. O que é que acha? E quando falar com ele você lhe perguntará, assim como se fosse um pensamento casual, se ele tem dado a comida ao Cujo. Assim você logo terá notícias dele. Não acha que será uma boa solução?
— É bem boa sim, mamãe.
Ele sorriu para ela, agradecido, e Charity retribuiu-lhe a gentileza, já aliviada ao ver que o perigo passara. Aquilo, contudo, de uma forma um tanto perversa, só serviu para provocar-lhes uma nova preocupação durante o espaço de tempo, que lhes pareceu interminável, até a hora em que Joe encostou o carro para pegar as quatro malas, sem dizer uma palavra, e colocá-las no carro. Dentro de uma delas Charity havia enfiado, sub-repticiamente, seus álbuns de fotografias. E essa nova preocupação era que Cujo repentinamente aparecesse ali, antes de partirem, criando um novo problema para .Joe.
Isso, porém, não tinha acontecido.
Joe já estava com a janela dos fundos abaixada e já dera as duas malas mais leves ao filho, enquanto ele se encarregava das mais pesadas.
— Puxa vida, mulher! Você tem tanta bagagem que até parece que está fazendo uma viagem para Reno, a fim de conseguir um divórcio, ao invés de um simples passeio até Stratford.
Charity e Brett sorriram, amedrontados. Aquilo parecia uma tentativa de piada, mas em se tratando de Joe tudo era possível.
— Isso até que seria bom...
Ele não achou graça e seu chapéu continuava atirado para trás.
— E, então, se isso acontecesse, eu teria que ir lá para trazê-la do volta atrelada ao meu
guincho novo. Olhe lá, meu rapaz, tome conta de sua mãe!
Brett apenas sacudiu a cabeça. O pai olhou-o de alto a baixo.
— Tome conta mesmo. Você já está bem crescido. Será que não vai dar um beijo em seu velho?
— Claro que vou, papai.
Joe deu-lhe um abraço bem apertado e beijou-lhe o rosto com a barba por fazer e cheirando a azedo, recordação da bebedeira da noite anterior.
Brett ficou surpreso e satisfeito ao descobrir como gostava do pai, um sentimento que sempre lhe ocorria quando menos se esperava e que se tornara mais raro nos últimos dois ou três anos. Sua mãe não sabia disso nem jamais acreditaria se alguém lhe contasse. Aquele era um amor que nada tinha a ver com o comportamento diário do pai em relação a ele ou à mãe. Era uma coisa rude e biológica, da qual jamais se livraria, um fenômeno com muitas ilusões da espécie que nos persegue a vida inteira e que pode ser o cheiro de um cigarro, o aspecto de uma gilete refletida num espelho, de calças penduradas numa cadeira e de certos palavrões.
O pai abraçou-o também e depois virou-se para Charity. Colocou um dedo embaixo de seu queixo e levantou-lhe o rosto. Vindo lá dos fundos do pátio de tijolos, eles ouviam o ruído de um motor de caminhão esquentando para arrancar. Pelo ruído era fácil saber que se tratava de um diesel.
— Divirta-se bem...
Os olhos dele encheram.se de lágrimas, logo secas num gesto que dava a impressão de
raiva.
— Está bem.
Logo a seguir, de forma abrupta, o rosto dele voltou a assumir aquela sua expressão apagada o rude. Aquilo desceu com um estalo, como se fosse a viseira de uma armadura dos antigos cavaleiros. Ele voltava a ser novamente a perfeita figura do roceiro rude.
— Vamos lá, rapaz, trato de colocar essas malas no carro. Estão pesadas como se
tivessem chumbo! Que Deus nos ajude!
Joe ficou com eles até que todas as malas fossem despachadas, conferindo bem as etiquetas e sem dar a menor atenção ao olhar condescendente e divertido do carregador. Viu quando ele colocou as malas num carrinho e quando ela foram engolidas pelo ônibus. Depois, voltou-se novamente para o filho.
— Sala dai e venha comigo. — ordenou.
Charity ficou olhando os dois afastarem-se e sentou-se nos bancos duros da rodoviária, abriu a boba, tirou de lá um lenço e ficou torcendo-o nervosamente. Joe era bem capaz de tentar convencer o menino a ficar em casa com ele.
Quando chegaram do outro lado na calçada, Joe virou-se para o filho e falou, muito sério.
— Só quero dar dois conselhos a você, meu filho. É bem provável que não siga nenhum
deles. É o que fazem quase todos os rapazes. Mas acho que nenhum pai jamais deixou de dá-los por isso. O primeiro, é que esse cara que você vai conhecer, esse tal de Jim, é uma bosta completa. Uma das razões para eu permitir essa sua viagem é que você já está com dez anos e isso é idade bastante para saber a diferença que há entre uma bosta e uma rosa-chá. Observe-o bem e verá. Ele nada mais faz, a não ser ficar sentado no escritório assinando papéis. A metade dos problemas do mundo se deve a uma espécie de gente. As mãos desses caras estão completamente desligadas de seus cérebros. Ele não passa de um bosta, Brett Observe-o bem para depois me dizer se estou ou não com a razão.
Quando acabou de falar, Brett notou que o rosto do pai estava muito vermelho. — Está bom, papai. — A voz de Brett era calma e baixa. O velho esboçou um sorriso.
O segundo conselho, Brett, é que você deve zelar pelo seu bolso.
—Mas eu não tenho nenhum di....
Joe deu-lhe uma nota de cinco, já bem amarrotada.
—Eu sei, eu sei, mas aqui está. Não gaste tudo de uma só vez. O tolo e o dinheiro são
coisas que nunca ficam juntas. Logo se separam.
— Está bem, papai. Obrigado.
— Até a volta, Brett.
Ele não exigiu um segundo beijo.
— Adeus, papai.
Brett ficou ali de pé na calçada, vendo o pai entrar no carro e partir. Não tomou a vê-lo
vivo.
Naquela mesma manhã, às 8:15, Gary saiu de casa cambaleando, com suas cuecas manchadas de urina, e veio dar a sua mijada de costume na cerca de madressilvas. Era com uma certa perversidade que ele esperava o dia em que a sua urina estivesse tão carregada de álcool que chegasse a liquidar a trepadeira. Esse dia, porém, ainda não chegara.
Ele soltou um grito de dor, segurando a cabeça com uma das mãos, enquanto com a outra ia regando a trepadeira que lhe engolira a cerca. Seus olhos estavam muito vermelhos. Sentia-se grandemente aliviado como se fosse uma bomba velha que, ultimamente, vinha bombeando mais ar do que água. Quando acabou de se aliviar, ele sentiu-se tomado de terríveis dores de estômago. Aquilo, ultimamente, vinha-se tornando muito freqüente e quando ele se dobrou, fez com que uma grande flatulência saísse por entre as suas pernas magras, exalando terrível mau cheiro.
Ele virou-se, com a intenção de voltar para casa, quando ouviu o primeiro rosnado. Era um som cheio e baixo que vinha lá de longe do ponto onde o seu quintal lateral encontrava o campo de feno.
Ele voltou-se rapidamente para a direção de onde vinha o rosnado e já não pensava mais em todos os seus males. Já se passara muito tempo desde a última vez que se lembrara da guerra na França, mas aquilo ali estava agora. Sentiu, de repente, que seu espírito gritava: São os alemães! São os alemães! Esquadrão! Deitar!
Só que não eram os alemães. Quando o capim se abriu, quem surgiu ali foi Cujo.
— O que é isso, rapaz! Por que é que está rosnando?
De repente, porém, ele parou, estarrecido. Já fazia uns 20 anos desde a última vez em
que vira um cão danado, mas ainda se lembrava como era. Ele estava voltando de Machias, onde estivera acampado. Estava montado numa moto Indian que possuíra nos idos de 30. De repente, como se fosse um fantasma, aparecera-lhe um cachorro amarelado que mal podia respirar e com uma espuma branca escorrendo-lhe da boca. Os olhos eram alucinados o seu corpo estava todo sujo. Vinha cambaleando como se algum malvado houvesse aberto sua boca horas antes, para despejar nela uma grande quantidade de uísque barato.
O cara que tomava conta da bomba de gasolina percebeu logo o que havia. Largou a
ferramenta que tinha na mão e correu para dentro do escritório, de onde voltou com uma carabina em sua mãos sujas de graxa. Foi até o asfalto, ajoelhou-se e começou a atirar. O primeiro tiro atingiu apenas a perna do animal que logo começou a sangrar. Gary lembrava-se,enquanto estava ali olhando para Cujo, que o cachorro amarelo nem mesmo se movera. Fi-cara ali olhando vagamente como se não compreendesse o que estava acontecendo. O segundo tiro quase cortou o animal pelo meio. As suas entranhas se espalharam, chegando a sujar a única bomba que havia no posto. Logo depois, três outros caras armados apareceram num Dodge. Saltaram todos e foram logo disparando mais uns oito ou novo tiros no animal já morto. Uma hora depois, quando o rapaz da bomba estava acabando de colocar um vidro novo no farol da moto, Gary vira chegar num Studebaker, sem porta do lado direito, a encarregada do departamento de cachorros do município. Ela enfiou umas luvas de borracha o cortou fora à cabeça do animal, que seria enviada à repartição competente.
Cujo parecia-lhe muito mais bem disposto do que aquele pobre cão amarelo de muitos anos atrás, mas todos os outros sintomas eram os mesmos. Ele percebeu logo que o animal ainda não
estava em seu ultimo estágio, mas, por isso mesmo, era mais perigoso. Viu logo que era a hora de ir buscar sua espingarda.
Começou a andar de costas.
— Oi, Cujo. ... fique aí bonitinho .......
O cão parou na beira do gramado com a cabeça baixa, os olhos vermelhos e vidrados, sempre rosnando.
— Garotinho bom...
Para o cachorro, as palavras ditas pelo HOMEM não significavam coisa alguma. Eram apenas sons sem sentido, como se fossem o vento. O que contava era o cheiro que percebia nele. Era quente, ruim e pungente. Era o cheiro do medo. Era de enlouquecer e era insuportável. E ele compreendeu, de repente. Fora o HOMEM que o tornara doente. Avançou para ele e o rosnado que lhe escapava do peito se transformava num tremendo rugido de raiva, cada vez maior.
Gary viu quando o cão precipitava-se para ele e então voltou-se e correu. Ele sabia que um simples arranhão ou uma pequena dentada significaria a morte. Correu para a varanda e para a segurança da casa. Só que houvera muita bebida, muitos longos dias de inverno passados ao lado do fogo e muitas longas noites de verão sentado na cadeira de vime sobre o gramado, e ele ouvia e cão se aproximar cada vez mais até aquela simples fração de segundo em que nada ouvia; e então sabia que ele saltara para pegá-lo.
No momento exato em que ele chegava ao primeiro degrau da escada já bem estragado pelo tempo, 100 quilos de São Bernardo caíram-lhe em cima, como se fosse uma locomotiva, atirando-o ao chão e tirando-lhe o fôlego. O animal procurava mordê-lo no pescoço, enquanto Gary se esforçava para levantar-se, mas o bicho já estava em cima dele, com o pelo da barriga quase sufocando-o e atirando-o novamente ao chão com facilidade. Gary soltou um tremendo grito.
Cujo mordeu-o no ombro com força, puxando-lhe os tendões como se fossem fios de arame e sem parar de rosnar. O sangue começara a escorrer e Gary sentia-o quente, descendo pelo braço magro. Ele voltou-se e começou a bater no animal com es mãos fechadas, Cujo parou um pouco e Gary conseguiu subir mais três degraus, já de gatinhas mas o animal voltou à carga.
Gary agrediu-o a pontapés, mas o cão voltou a atacá-lo pelo outro lado, mordendo e rosnando, enquanto a espuma continuava a escorrer-lhe da boca, fazendo com que Gary sentisse o hálito que cheirava a coisa podre, rançosa e amarela. Com o punho direito, ele conseguiu acertar um soco na mandíbula inferior, num verdadeiro golpe de sorte. Sentiu o reflexo do impacto no ombro que fora mordido antes.
O animal recuou mais uma vez.
Gary olhou para ele, enquanto seu peito magro arquejava. O seu rosto tinha agora a cor de cinzas. A ferida do ombro continuava a jorrar sangue, que se espalhava nos degraus.
—Venha logo, seu animal nojento. Ataque-me outra vez que eu estou cagando para isso.Você está me ouvindo? Eu estou cagando pra você.
Essa última parte foi dita em altos brados, mas o animal recuou mais um pouco.
As palavras já não faziam mais sentido, mas Cujo sentia que no cheiro do HOMEM já não havia mais medo. Ele já estava indeciso se continuaria ou não a atacar. Sentia dores terríveis e o mundo era para ele um amontoado de loucura, sentimento e impressão...
Gary levantou-se com dificuldade, mal conseguindo manter-se em pé. Subiu de costas os dois últimos degraus e atravessou a varanda, sempre de costas, procurando encontrar a maçaneta da porta. O ombro queimava como se alguém houvesse derramado gasolina por baixo da pele. O seu espírito clamava para ele. Á hidrofobia! Estou hidrófobo! Estou contaminado!
Já não se importava mais com aquilo. Uma coisa de cada vez. A sua espingarda de caça estava ali no closet. Graças a Deus Charity e Brett Camber já não estavam mais em casa, lá na colina. Aquilo era obra de Deus.
Conseguiu, afinal, abrir a porta. Não perdeu o animal de vista até conseguir entrar e fechar a porta telada. Sentiu então um tremendo alívio, mas ainda tinha as pernas bambas. Durante um momento ele percebeu que ia desmaiar, mas reagiu pondo a língua para fora e mordendo-a com força. Aquela não era hora para desmaios com se fosse uma garota. Poderia desmaiar depois que o cão estivesse morto. Por Deus que ele estivera bem perto do fim. Chegara a pensar que era a sua hora.
Voltou-se e caminhou na direção do closet e foi ai que Cujo se atirou de encontro à tela da porta, arrombando-a, os dentes arreganhados como se estivesse rindo e latindo sem cessar.
Gary tornou a gritar e virou-se bem a tempo de se abraçar com o animal, quando ele saltou, e de levá-lo de volta para fora, balançando-se nas pernas como se estivessem dançando. Afinal não se agüentou e caiu, já que era muito mais leve que o cão. Percebeu vagamente como o seu focinho estava quase quente e seco, com um cheiro nauseante. Tentava levantar os braços com a idéia de meter os dedos nos olhos do cão, mas o animal foi mais rápido o agarrou-o pelo pescoço, rasgando-o de alto a baixo. Gary soltou um berro de agonia e o cão atirou-se novamente sobre ele. O coitado sentia o sangue cobrir-lhe o rosto e ficou apavorado. Deus do céu! É o meu sangue.
Continuava a socar o corpo do animal, sem que isso significasse coisa alguma para os 100 quilos de Cujo. Afinal, deixou cair os braços.
No deplorável estado em que se encontrava, ainda assim sentia ao longe o cheiro das
madressilvas.
— O que é que você está vendo lá?
Brett voltou-se ao ouvir a voz da mãe. Durante toda a viagem ele não queria perder nada do que se via lá fora, nem mesmo durante um curto instante. Já fazia quase uma hora que estavam viajando. Já haviam atravessado a Million Dollar Bridge para entrarem em South Portland (lá do alto Brett olhava para dois cargueiros muito sujos que estavam na baía), entrando na pista de alta velocidade para o sul e agora já se aproximavam da fronteira do New Hampshire.
— Estou vendo tudo, mamãe. E você? O que é que está vendo? Ele respondeu em pensamento que via o reflexo dele no vidro janela, um tanto apagado. Era aquilo que ela estava vendo.
Em vez disso, falou:
— Ora essa, Brett Acho que estou vendo o mundo. Vejo o que se desdobra bem aí na nossa frente...
— Sabe de uma coisa, mamãe? O que eu queria mesmo era continuar neste ônibus até a Califórnia, só para ver todas aquelas coisas que estão nos livros da escola. Nos livros de geografia.
Ela achou graça e passou-lhe a mão pelos cabelos.
— Você iria ficar bem chateado com tanta paisagem, meu filho.
— Nada disso. Não ia mesmo!
Ele provavelmente não ficaria mesmo, ela pensou, e então, de repente, sentiu-se triste e
velha. Quando telefonara para a irmã, na manhã de sábado, para saber se podiam ir, Holly tinha-se mostrado encantada e a reação da irmã servira para fazer com que Charity rejuvenescesse. Achava estranho que a satisfação do filho, que quase tocava as raias de uma euforia palpável, fizesse com que ela se sentisse velha. Mesmo assim...
Perguntava a si mesma o que tudo aquilo significaria para o filho, no final das contas.
Olhava o seu rosto, que lhe dava a impressão de um fantasma visto no reflexo do vidro e superposto à paisagem como se fosse um truque de fotografia. Ele era um garoto vivo, esperto e inteligente, bem mais inteligente que o pai ou ela mesmo. Queria que entrasse para uma universidade mas sabia que, no momento em que terminasse. o ginásio, logo, logo o obrigaria a matricular-se num curso de mecânica, a fim de poder ajudá-lo na oficina. Dez anos antes ele não poderia fazer isso, já que os orientadores oficiais jamais permitiriam que um rapaz com o potencial de Brett optasse por aquela espécie de curso, mas os tempos agora eram outros e a idéia corrente era que cada qual podia fazer o que bem entendesse. Isso deixava-a apavorada.
Em certa ocasião ela conseguira convencer-se de que o ginásio ainda estava longo, muito
longe e que a escola primária era uma simples brincadeira para um rapaz com os dotes do filho. Era no ginásio que se começava a tratar da questão das escolhas irrevogáveis. As portas se fechavam com diques imperceptíveis, apenas eram ouvidos nos sonhos dos anos posteriores.
Ela cruzou os braços e sentiu um arrepio, que nem mesmo pretendeu justificar como sendo devido ao ar-condicionado do ônibus num ponto muito alto.
Para Brett, no entanto, o ginásio estava apenas a quatro anos de distância.
Ela tornou a sentir o mesmo arrepio e, de repente, viu-se desejando amargamente que não houvesse tirado o prêmio da loteria e até mesmo que houvesse perdido o bilhete.
Fazia apenas uma hora que estava separada do marido e aquela, na verdade, era a primeira separação para ambos desde a data do casamento, em 1966, até aquele dia. Jamais imaginara que tal perspectiva fosso tão repentina, tão estonteante e tão amarga. Ficava imaginando que aquilo era uma aventura da mulher que escapava com o filho de um castelo triste.., mas ainda não estavam completamente livres. Havia ainda uma pedra no caminho. Presos nas costas de ambos estavam enormes ganchos grandes e enfiados neles havia fortes elásticos invisíveis. Antes que conseguissem ir muito longe, logo seriam puxados de volta ao castelo, onde passariam os próximos 14 anos.
Ela deixou escapar da garganta uma espécie do pigarro. Disse alguma coisa, mamãe?
—Não. Foi só um pigarro, Brett.
Sentiu o arrepio pela terceira vez, só que agora os seus braços estavam gelados. Acabava de lembrar~se de um verso num de seus livros escolares de poesia nas aulas de inglês (nessa ocasião ela desejara entrar para a universidade, mas seu pai ficara furioso com a idéia. — “Então ela estava pensando que eles eram ricos?”. — E a sua mãe , por sua vez, achara graça na sua pretensão, gentil e piedosamente). O verso era de um poema de Dylan Thomas, mas Charity não conseguia lembrar do poema inteiro. Lembrava-se apenas que se tratava dc alguma coisa girando em tomo da perdição do amor.
Aquele verso a deixara perplexa na época, mas agora já achava que estava em condições de compreendê-lo bem. E o que mas poderiam ser aqueles elásticos invisíveis a não ser mesmo o amor? Iria ela agora tentar enganar-se, afirmando que, nem mesmo agora, e de forma alguma, amava o homem com quem se casara? Iria ela afirmar que só continuava com ele por causa de um sentido de dever ou por causa do filho? Mas aquilo chegava a ter uma graça amarga. Ela só o abandonaria se isso resultasse em algum proveito para o filho. Alegaria que ele jamais lhe dera prazer na cama? Que ele jamais demonstrara um curto momento de ternura, nem mesmo nos momentos mais inesperados, como acontecera na rodoviária?
E no entanto... apesar de tudo...
Brett continuava a olhar pela janela, completamente deslumbrado. Foi sem mesmo voltar o rosto que ele perguntou se ela achava que o Cujo não tinha mesmo nada sério. E a resposta veio com um ar ausente.
— Mas é claro, Brett. Tenho certeza de que não há nada sério com o Cujo....
Pela primeira vez ela via-se pensando no divórcio de uma forma concreta. O que poderia ela fazer para o sustento seu e do filho? Como se comportariam os dois numa tal situação difícil de ser imaginada? Se os dois não voltassem para casa, seria possível que o marido fosse busca-los? Faria ele aquilo que prometera vagamente na rodoviária? Resolveria ele deixa-la lá, usando apenas de todos os meios para recuperar o filho? Meios legais ou não?
Começou a pensar nas várias possibilidades, pesando bem os prós e os contras e pensando, de repente, que a perspectiva não era realmente tão má assim. Talvez fosse doloroso, mas também poderia ser até útil.
O ônibus atravessou a fronteira e entrou em News Hampshire, continuando em direção ao sul.
O 727 da Delta levantou vôo e fez a volta passando por cima de Castle Rock e voltando na direção da costa. Vic sempre procurava ver se descobria a sua casa, mas jamais o conseguia. A viagem até
Até o aeroporto de Logan durava apenas 20 minutos.
Donna estava lá com Tad a uns 5000 metros abaixo. Ele sentiu-se repentinamente deprimido e com uma espécie de palpite de que a coisa não ia dar certo. Era uma loucura os dois pensarem que daria Quando uma casa desmorona, o melhor remédio é construir outra. Não seria possível reconstruir a antiga simplesmente juntando os pedaços.
A aeromoça apareceu. Os dois estavam na primeira classe, e, segundo a expressão de Roger, “o melhor mesmo era ir gozando aquilo tudo enquanto ainda era possível”. Se iam mesmo fazer parte da condição de necessitados, o melhor era fazê-lo em grande estilo. havia ali apenas uns cinco passageiros, todos eles lendo o jornal, e Roger fazia a mesma coisa.
— O senhor deseja alguma coisa?
Ela dirigiu-se primeiro a Roger, com aquele sorriso profissional que parecia deixar entrever a sua grande satisfação com o fato de haver sido obrigada a sair da cama às 5:30 da manhã para
aquele vôo de rotina de Bangor a Portland, a Boston, a Nova York e Atlanta.
Rogar sacudiu a cabeça com ar ausente e ela então voltou-se para Vic, sempre com o mesmo sorriso..
— E o senhor quer alguma coisa? Uum doce ou suco de laranja?
— Será que pode me arranjar um screwdriver?
Rogar abaixou o jornal o olhou para Vic espantado.
A moça, porém, não se alterou. Um pedido de bebida antes das nove da manhã não era nenhuma novidade para ela.
— Claro que posso, mas o senhor terá que beber bem depressa. Já estamos pertinho de Boston.
—. Pode ficar tranqüila que beberei.
Ele fez a promessa com uma voz solene e ela continuou o seu caminho, resplendente em seus slacks azuis do uniforme e o eterno sorriso.
— O que é que há com você, Vic?
— O que quer dizer com Isso, Roger?
— Sabe muito bem o que quero dizer, Vic. Nunca vi você beber a esta hora da manhã. Aliás, nunca antes das cinco..
— Eu estou lançando o barco ao mar, Roger.
— Que barco é esse?
— O Titanic.
O outro fechou a cara.
— Isso é uma piada de mau gosto. Não acha que é mesmo?
Claro que ele também achava que era. Roger merecia alguma coisa melhor naquela manhã, já que ainda se sentia deprimido como se tivesse em cima dele um cobertor fedorento, mas ele não conseguia descobrir coisa melhor. Em vez disso, conseguiu deixar escapar um sorriso amarelo.
— Escute aqui, Roger. Tive uma idéia a respeito dessa coisa com a Zingers. Vai ser duro convencer o velho e o garoto, mas vale a pena tentarmos. Pode ser que de certo.
Roger ficou mais tranqüilo. Era assim que tudo sempre funcionara com os dois. Vic era o cara que tinha as idéias básicas e Roger cuidava dos detalhes e da forma. Sempre haviam trabalhado em
boa harmonia quando se tratava de transferir uma idéia para os veículos de Comunicação, bem como na sua apresentação.