Cão Raivoso

Stephen King · Capítulo 3 de 4 · parte 4/4

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Cão Raivoso

O animal bateu de encontro ao vidro…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Depois, o sol desaparecera por trás da casa. Havia sombras frescas, sombras tão espessas que quase pareciam de veludo. O monstro já desistira de atacá-los. O carteiro não viera, mas agora, pelo menos, ele já podia descansar com um certo conforto. O pior de tudo era a sede que sentia. Nunca em sua vida sentira tanta vontade de beber alguma coisa. Era isso que fazia com que aquele lugar dos patos fosse tão agradável. Era um lugar onde havia verde e água.

Donna inclinou-se carinhosamente para o filho.

— O que foi que você disse, meu amor?

A resposta dele veio numa voz que mais parecia o coaxar de um sapo.

— Estou com muita sede, mamãe...

Ele lembrava-se como antes não conseguia pronunciar certo, algumas palavras e então os outros meninos do acampamento caçoavam dele. E por isso ele caprichava muito para falar certinho.

— Eu sei, meu querido. A mamãe também está com muita sede.

— Aposto como deve haver água lá na casa...

— Meu amor, nós não podemos ir lá. Ainda não podemos. O cão mau esta bem aí na frente do carro.

— Aonde?

Ele ajoelhou-se e ficou admirado como sua cabeça estava leve. Sentia como se fosse uma onda desmanchando-se em câmara lenta. Esticou o braço para se apoiar no painel e teve a impressão de que ele tinha um quilômetro de comprimento. Até mesmo a sua voz estava bem fraquinha. Mais parecia um eco.

— Eu não estou vendo ele, mamãe.

— Fique sentado, Tad. Você está...

A mãe continuava falando, mas Tad sentiu quando ela o fez sentar-se de novo, embora tudo parecesse muito distante. As palavras vinham-lhe de muito longe, do meio de um nevoeiro cinzento que estava entre os dois. Um nevoeiro parecido com aquele que houvera pela manhã... Talvez fosse na manhã da véspera, ou numa outra manhã qualquer, como a do dia em que o pai fora viajar. Lá na frente, porém, havia um lugar brilhante e ele deixou sua mãe para ir até lá. Era aquele mesmo lugar dos patos. Um lugar com patos e lírios. A voz da mãe estava muito distante agora, quase imperceptível. O rosto dela era lindo, redondo, sempre presente, calmo e até era parecido com a lua que costumava entrar pela janela quando ele se levantava à noite para ir fazer pipí... Mas aquele rosto já estava quase desaparecendo. Misturava-se com o nevoeiro e já agora era parecido com o zumbido das abelhas mansas que não mordiam ninguém. Parecia a água lambendo as margens do lago.

Tad estava brincando com os patos.

 

Donna conseguira tirar um cochilo e já estava bem escuro quando acordou. Já escurecia outra vez e, por incrível que parecesse, eles ainda estavam ali no mesmo lugar. O sol estava no poente, redondo e vermelho, como se fosse uma bola de basquete mergulhada em sangue. Passou a língua pela boca e a saliva que se tornara empastada já era, mais ou menos, o cuspe natural. Sentia a garganta em fogo. Pensava como deveria ser maravilhoso se estivesse em casa, embaixo da torneira do jardim, com a água escorrendo-lhe pelo rosto como se fosse uma cascata. A imagem era forte o bastante para lhe causar um arrepio e uma intensa dor de cabeça.

Estaria o cão ainda ali na frente do carro?

Ela olhava, mas não conseguia ver. Só tinha a certeza de que não estava lá na frente da oficina.

Apertou a buzina, que só emitiu um som rouco e fraco, e tudo continuou como antes. Ele poderia estar em qualquer lugar por ali. Passou a mão pelo risco na janela e pensou no que poderia acontecer se ele investisse novamente contra o carro. Conseguiria ele quebrá-la? Nunca acreditaria que aquilo pudesse acontecer, mas agora já não tinha tanta certeza assim.

Olhou novamente para a porta que dava para a varanda da casa. Ela parecia agora bem mais longe do que antes. Aquilo levou-a a pensar num conceito que fora discutido na aula de psicologia na universidade. O professor, um homenzinho antipático com um bigodinho em escova, dissera que aquilo era une idée fixe. Se alguém estiver numa escada rolante que não esteja funcionando logo terá a impressão que se torna mais difícil subir a pé. Ela achara aquilo tão divertido que não descansara até encontrar uma escada rolante parada, com um aviso dizendo que não funcionava, e descera por ela. E mais graça achara ainda ao verificar que o professor estava com a razão. As suas pernas não se mostravam dispostas a descer. Aquilo fizera com que pensasse na possibilidade da escada de sua casa se movimentar quando ela estivesse descendo. A idéia, naquela ocasião, fizera com que desse uma boa gargalhada.

Só que agora a coisa não era tão engraçada assim. Aliás, não era engraçada de forma alguma.

Não havia dúvida alguma de que aquela porta estava longe demais.

Este cão está me tornando neurótica.

Ela tornou a rejeitar esse pensamento, logo que ele lhe surgiu, mas acabou desistindo. As coisas já estavam se tomando desesperadas demais e ela não podia se dar ao luxo de mentir para si própria. Ostensivamente ou não, o fato era que o cão estava fazendo aquilo mesmo com ela, usando, talvez, a sua própria idée fixe de como o mundo deveria ser. Acontecia, porém, que tudo tinha mudado. Tinha chegado ao fim a suave subida pela escada rolante. Ela já não podia mais continuar ali na escada parada junto com o filho, esperando que alguém viesse pô-la em movimento novamente. A verdade era que tanto ela como o filho estavam sendo sitiados por um cão.

Tad estava dormindo. Se o animal estivesse lá na oficina ela poderia fazer a tentativa.

Mas se ele ainda estiver na frente do carro? Ou mesmo embaixo dele?

Ela lembrava-se do que seu pai dizia quando assistia aos jogos de futebol na TV. Ele quase sempre ficava vidrado nessas ocasiões e o resultado era um grande prato de feijão frio sobrando do jantar de sábado. O resultado era que a sala onde estava a TV se tomava irrespirável para a vida humana normal e até mesmo o cachorro se recusava a entrar ali, fazendo uma careta de repulsa.

Ele xingava e descompunha o jogador que fazia um mau lance e aquilo deixava louca a sua mãe — mas naquela época, quando Donna ainda não tinha 20 anos, quase tudo que seu pai dizia era o suficiente para deixar a mãe louca.

Ela agora já via o animal na frente do carro, deitado no cascalho, sem estar dormindo e com os olhos atentos para a porta do seu lado. Estava esperando caso ela fosse louca o bastante para sair por ali. Não desanimava.

Ela esfregou as duas mãos no rosto, num gesto nervoso como se estivesse no lavatório. Lá no alto Vênus aparecia agora na semi-escuridão azul do céu. O sol finalmente desaparecera, deixando apenas uma réstia de luz amarelada iluminando o campo. Em algum lugar um passarinho cantou, parou e tomou a cantar.

Donna percebeu que já não estava tão ansiosa para sair ao carro como estivera antes, naquela mesma tarde. Uma parte disso se devia ao fato de haver adormecido e depois, ao acordar, não saber bem onde estava o animal. E uma outra parte era devido ao fato do calor haver diminuído. O calor terrível e o que ele estava fazendo com Tad era a principal razão que a levava a tentar alguma coisa. Agora, ali no carro, ela sentia-se quase confortável e Tad estava dormindo um verdadeiro sono, que nada tinha a ver com o seu estado inquieto de antes. Estava repousando tranqüilo, realmente; pelo menos por enquanto.

Ela temia que tudo aquilo fosse secundário, já que o fato principal era ela ainda permanecer ali, aos poucos chegando a um ponto psicológico de disposição que logo desaparecera. Lembrava-se das lições de mergulho em sua meninice, no Campo Tapawingo, quando chegava aquele instante, o do primeiro mergulho lá da plataforma mais alta, quando ela era obrigada a saltar ou então a afastar-se ignominiosamente, cedendo a vez à garota seguinte. E então, naquele período de aprendizagem, sempre chegava o dia em que era preciso abandonar as estradas vazias do interior para enfrentar a cidade. Sempre chegava o dia. Sempre chegava o dia. O dia para dirigir o carro, o dia para mergulhar e o dia para tentar aquela porta dos fundos.

Cedo ou tarde o animal iria aparecer por ali. Sabia que a situação era ruim, mas ainda não era desesperadora. O dia certo aparecia em ciclos, e isso era uma coisa que ela não havia aprendido nas aulas de psicologia. Era uma coisa que ela sabia instintivamente. Se desistisse apavorada no mergulho da segunda-feira, não havia lei alguma que a proibisse de tentar novamente na terça. Sempre se podia tentar...

Foi com relutância que seu espírito lhe disse que aquele raciocínio não era tão válido e que até poderia ser fatal.

Ela já não se sentia tão forte como na noite anterior. Na manhã seguinte, estaria ainda mais fraca e desidratada. E o pior não era isso. Ela permanecera sentada durante muitas horas. Nem sabia bem quantas. Por incrível que parecesse, já fazia 28 horas que ali estava. E se as pernas estivessem dormentes, sem condições de agüentar a corrida? E se conseguisse chegar só até a metade do caminho, para então cair, quase desfalecida, com cãibras nos músculos das pernas?

O seu pensamento prosseguia; implacável. Quando se trata de vida ou morte, a hora certa só surge uma vez.. só uma vez e depois desaparece.

A respiração e os batimentos cardíacos estavam acelerados. O seu corpo sabia, antes mesmo que a mente, que ela iria tentar de qualquer maneira. Enrolou bem a camisa em torno da mão direita, enquanto a esquerda segurava a maçaneta, perfeitamente consciente. Ela não se dera conta de nenhuma decisão consciente. De repente, ela, simplesmente, ia sair. Ia aproveitar enquanto Tad dormia, pois assim ele não sairia correndo atrás dela.

Sua mão estava suada quando levantou a maçaneta, com a respiração suspensa e atenta a qualquer mudança na situação.

O passarinho tornou a cantar. E isso foi tudo.

Se ele empenou a porta eu não vou conseguir sair.

Aquilo seria um alívio bem amargo. Ela teria então que desistir para pensar em outras opções. Precisava ver se não esquecera alguma coisa em seus cálculos..., para ficar com mais sede.., mais fraca... e mais lenta na corrida...

Começou a fazer força contra a porta com o ombro esquerdo, cada vez com maior pressão. Sua mão suava dentro da camisa e ela apertava a porta com tanta força que os dedos lhe doíam. Sentia vagamente que as unhas lhe enterravam nas palmas das mãos. Vias mentalmente, repetidas vezes, sua mão quebrando o vidro da porta e os cacos caindo no chão, enquanto seu braço se esticava para alcançar a maçaneta.

Não conseguia, porém, abrir a porta do carro. Empurrava com todas as forças, com os tendões do pescoço muito tensos, mas a porta não abria. Ela...

E então, de repente, ela cedeu e abriu-se, com violência, quase atirando-a de quatro lá no chão. Ela agarrou-se à alça, escorregou, mas tornou a segurar-se. E então, nesse momento, uma certeza em seu espírito fez com que ela entrasse em pânico. Era uma certeza fria e desoladora como o diagnóstico de um médico diante de um câncer inoperável. Ela conseguira abrir a porta mas não conseguiria fechá-la. O animal ia saltar lá dentro para matar os dois. Tad provavelmente teria um rápido instante confuso quando acordasse, um último instante de vida em que acreditaria estar sonhando antes que Cujo lhe saltasse à garganta.

Ela estava ofegante e a sua respiração escaldava. Tinha a impressão de estar vendo todas as pedrinhas do cascalho da entrada da casa, mas era difícil pensar. Seus pensamentos estavam muito tumultuados. Cenas do passado surgiam-lhe no presente como um filme de parada militar projetado em acelerado, fazendo com que todos os participantes passassem disparados, como se fugindo após terem cometido um grave delito.

Ela via aquela cena do esgoto entupido na pia da cozinha da mãe, fazendo toda a sujeira sair pela torneira do bar.

Via a ocasião em que rolara da varanda dos fundos e torcera o pulso.

Lembrava-se de quando estava ainda no ginásio, às voltas com a álgebra, e percebera, apavorada, que sua saia azul-clara de linho estava manchada de sangue por causa da menstruação que começara inesperadamente; e então não sabia como levantar-se do banco, ao fim da aula, sem que todo mundo percebesse o que estava acontecendo com ela, o que estava acontecendo com Donna Rose.

Via ali na sua frente o primeiro rapaz que ela beijara na bcca.

Dwight Sampson.

Via-se com Tad nos braços quando ele acabava de nascer e logo a enfermeira aparecendo para levá-lo ao berçário. Tivera vontade de protestar. Deixe ele aqui comigo mais um bocadinho. Lembrava-se dessas palavras, lembrava-se que tivera vontade de dizê-las, mas não tinha forças para isso; e, então, ouvira aquele borbulhar da placenta sendo expelida e aí ela pensara que estava peídando e expelindo aquilo que garantia a vida ao seu filho. E com isso desmaiara.

Via seü pai, no dia do casamento dela, chorando e depois tomando um porre durante a recepção.

Rostos. Vozes. Salas. Quartos. Cenas. Livros. O terror do momento e o pensamento que lhe ocorria EU VOU MORRER...

Depóis de um tremendo esforço, conseguiu controlar-se. Segurou a maçaneta com as duas mãos e deu-lhe um forte puxão. A porta bateu e fechou-se, mas a dobradiça danificada pelo choque com o cão rangeu em protesto. Isso causou um sobressalto em Tad, que resmungou alguma coisa mas continuou dormindo.

Donna recostou-se de volta ao banco, tremendo dos pés à cabeça e chorando silenciosamcnte. As lágrimas desciam-lhe pelo rosto e chegavam às orelhas. Jamais em sua vida tivera tanto medo de alguma coisa, nem mesmo quando era ainda pequena e ficava sozinha em seu quarto, imaginando ver aranhas em todos os cantos. Tinha certeza agora de que não poderia fazer a tentativa. Seria uma loucura. Nem mesmo valia a pena pensar mais naquilo. Estava completamonte liquidada. Estava com os nervos em frangalhos. Seria melhor esperar. Esperar uma oportunidade melhor.

Só que ela não se atrevia a fazer com que aquela idée se tornasse fixe.

Não ia haver uma oportunidade melhor do que aquela. Não havia o empecilho de Tad nem do animal. Aquilo tinha que ser a verdade. Toda a lógica dizia que era. Todo aquele barulho que fizera abrindo e fechando a porta não resultara na aparição do animal. Claro que ele logo teria surgido, se estivesse ali na frente do carro. Mesmo se estivesse lá na oficina, teria ouvido o barulho e acorrido. Não havia uma outra oportunidade como aquela. Mesmo que tivesse medo de tentar só por sua causa, ele deveria pensar em Tad e ganhar coragem só por causa dele.

Tudo aquilo parecia muito nobre. No entanto, o que realmente a convenceu foi à visão de se encontrar lá dentro da casa escura com o telefone na mão. Já se via falando com alguém no escritório do xerife, com muita calma, e logo depois desligando. Depois então iria à cozinha para beber um copo d"água.

Abriu novamente a porta, já preparada para ouvir aquele barulho, mas, mesmo assim, levou um susto quando isso aconteceu.

Soltou uma imprecação mental contra o cão, desejando ardentemente que já estivesse morto por ali e coberto de moscas.

Pôs as pernas para fora do carro, fazendo uma careta ao senti-las dormentes e doloridas, mas por fim pisou no cascalho com os seus sapatos de tênis. E então, pouco a pouco, ela foi se recuperando, ali na escuridão da noite.

Ali perto, em algum lugar, um passarinho cantou apenas três notas e depois calou-se.

 

Cujo ouviu a porta se abrir novamente, conforme seu instinto lhe dissera que aconteceria. Quando ela se abrira na primeira vez ele quase saíra da frente do carro onde estivera deitado, quase inconsciente. Quase viera para pegar A MULHER que lhe causara tanta dor na cabeça e no corpo. Estivera a ponto de vir, mas o instinto lhe ordenara que continuasse ali mesmo onde estava. Sabia que A MULIER estava apenas querendo obrigá-lo a sair dali e agora ele via que o instinto estava certo.

À medida que a moléstia se apossãva dele, penetrando em seu sistema nervoso para destruílo como se fosse o fogo na relva com suas chamas baixas e fumaça cinzenta, continuando a obra de destruição de seus padrões de pensamento e reação, ela também servia para aumentar, de uma certa forma, o seu grau de esperteza canina. Ele tinha certeza de que iria pegar o MENINO e A MULHER. Eles eram os causadores da agonia que sentia em seu corpo e da terrível dor na cabeça devida às suas investidas contra o carro.

Já por duas vezes, naquele dia, ele se esquecera dos dois quando saíra da oficina pelo buraco feito por Joe na porta dos fundos da saleta que utilizava como escritório da oficina. Fora até as terras que ficavam nos fundos da propriedade de Joe e nas duas vezes, passara bem perto da toca onde se escondiam os morcegos e onde o capim era alto. Lá havia água e ele sentia uma tremenda sede, mas a simples visão da água tornara-o frenético. Ele sentia vontade de beber a água, de matar a água, dc se banhar nela, de mijar e cagar ali, de destruir e fazer sangrar aquilo tudo, de cobri-la com terra. Em ambas às vezes, aquela terrível confusão de sensações havia causado o seu afastamento, ganindo e tremendo. Culpava a MULHER e O MENINO por tudo aquilo. Ele não os perderia mais de vista. Seria impossível encontrar um outro cão tão fiel e decidido em seus propósitos. Esperaria até a hora em que fosse possível pegá-los. Se fosse necessário, esperaria até a hora do Juízo Final. Ele ia esperar. Ia ficar bem atento.

A sua maior raiva era contra a MULHER. Não tolerava a maneira como aquela criatura o olhava como se dissesse É isso ai. Fui eu que fiz tudo isso. Fui eu que fiz você ficar doente, eu sou a causadora de todas estas dores que você está sentindo. Fui eu que preparei toda esta sua agonia e você nunca mais vai ficar livre dela.

Vou matar esta mulher. Vou matá-la, custe o que custar.

Escutou um barulho. Era um barulho abafado, mas que não escapou à acuidade do animal, tremendamente aumentada para perceber todos os barulhos. Ele possuía toda a gama do espectro auditivo. Na sua loucura, chegava a perceber o real e o irreal.

Aquele barulhinho era do cascalho da entrada sendo pisado por alguém.

Cujo ficou ali deitado, esperando por ela. Sentia escorrer-lhe a urina quente e dolorosa, mas não se importava.

Esperava que a MULHER aparecesse. E então ele a mataria.

 

No meio da confusão e dos destroços da residência do casal Trenton. o telefone começou a tocar.

Tocou seis, oito e dez vezes.Depois tudo ficou silencioso. Passou-te algum tempo até a hora em que Billy Freeman, o jornaleiro, atirou contra a porta da frente o exemplar do Call de Castle Rock, para seguir pedalando com o saco de lona às costas e assobiando.

No quarto de Tad a porta do closet estava aberta e um cheiro seco e incrível, como se fosse de um leão selvagem, pairava no ar.

 

Em Boston, a telefonista perguntava a Vic se devia continuar chamando. Ele agradeceu e disse que podia desistir.

Roger descobrira que havia um jogo no canal 38 e então sentara-se diante de um sanduíche e um copo de leite para assistir, ainda de cuecas.

—De todos os seus hábitos, Roger, a maioria dos quais vai do ofensivo até o repugnante, eu acho que o pior de todos é o de você comer de cuecas...

— Ora, ora. Ouçam só este cara que, com 32 anos, ainda chama as sungas de cuecas...

Ele falava como se houvesse alguém no quarto para ouvi-lo.

— E o que é que há de errado nisso?

— Nada... só que você me parece muito quadrado...

— Eu vou te cortar a garganta esta noite, Roger. Você vai acordar atolado em sangue. Você se arrependerá, mas será tarde demais...

Vic pegou o sanduíche quente do outro, dando-lhe uma dentada.

— Isto não é nada higiênico, Vic. Então a Donna não estava em casa? — Ao mesmo tempo que falava, ele sacudia umas migalhas que tinham caído em seu peito cabeludo.

— Huuummm... Devem ter saído para comer alguma coisa. Bem que eu desejaria estar lá também, em vez de estar aqui em Boston...

Roger sorriu maliciosamente.

— Ora, ora. Deixe disso. Pense só que amanhã já estaremos bebendo coquetéis embaixo do relógio no Biltmore...

— Quero que o Biltmore e seu relógio se fodam! Todo cara que passar uma semana fora do Maine, a negócios, em Boston ou Nova York, e em pleno verão, não pode deixar de estar completamente louco...

— É isso aí... Estou contigo, companheiro. É uma merda...

No vídeo, um jogador deu o chute inicial.

— Este sanduíche está bem gostoso, Roger. — Víc estava satisfeito e sorria para o amigo.

Roger defendeu-se, mantendo o prato fora do alcance dele.

— Pois então telefone e peça um para você, Vic, seu come-resto.

— Qual é o número?

— Acho que é meia-oito-um. Está aí no disco...

— Você não quer também uma cervejinha?

O outro sacudiu a cabeça.

— Já bebi demais no almoço. Minha cabeça não está boa e meu estômago não está bom. E amanhã pela manhã estarei de ressaca. Estou descobrindo bem depressa que já não sou mais um garotinho.

Vic telefonou pedindo dois sanduíches e duas garrafas de Tuborg. Quando desligou e olhou para o amigo, Roger já estava com os olhos grudados na TV, com o prato equilibrado em cima da barriga e chorando. Logo de saída, Vic pensou que não estava vendo bem e que aquilo devia ser uma ilusão, mas logo percebeu que as lágrimas eram de verdade, e as cores da TV se refletiam nelas, formando prismas.

Durante um momento, ele ficou ali sem saber o que fazer ou o que dizer. Depois, atravessou o quarto e pegou um jornal para fingir que estava lendo e que não reparara. Roger levantou os olhos para ele. Estava completamente nu, inerme e vulnerável, com o mesmo rosto de Tad quando caía do balanço ou escorregava na calçada, arranhando os joelhos. Quando falou, sua voz era rouca.

O que é que eu vou fazer, Vic?

— Roger... Do que é que você está falando?

— Você sabe muito bem, Vic.

Lá na TV a torcida do Penway delirava com um lance do Boston

— Vamos com calma, Roger... Você...

— Tudo vai fracassar, Vic, e nós dois sabemos que vai mesmo. Já cheira tão mal como uma caixa de ovos exposta ao sol durante uma semana. O que nós estamos fazendo é uma simples brincadeira. O Rob está do nosso lado. Aquele cara que fugiu do Retiro dos Atores também está do nosso lado. Não há a menor dúvida de que também teremos do nosso lado a firma encarregada da pesquisa de mercado, já que a conta é paga por nós. É maravilhoso. Todo mundo está do nosso lado. Todo mundo, menos aqueles sacanas que decidem.

— Não há nada decidido, Roger. Ainda não.

— A Althea ainda não percebeu a importância que isso tem para nós, Vic. Sei que a culpa é minha e que sou um moleirão. Tudo bem. Acontece que ela adora Bridgeton. Adora tudo que existe ali. E as meninas também. Adoram as amigas da escola, adoram o lago no verão.., e não sabem nada do que está acontecendo. Nada mesmo!

— Sei como é Roger. É mesmo de meter medo. Não estou querendo convencê-lo do contrário, Roger.

— E a Donna sabe toda a verdade, Vic?

— Acho que no principio, ela pensava que tudo não passava de uma brincadeira, mas agora já vê melhor a realidade...

— Só que ela nunca se apaixonou pelo Maine da mesma forma que nós, não é mesmo?

— Talvez tenha sido assim no princípio. Agora, porém, acho que levantaria as mãos para o céu à simples idéia de levar o Tad de velta a NovaYork...

— E o que é que vou fazer, Vic? Não sou mais criança. Você ainda não está nos trinta e dois, mas eu já vou para os quarenta e um no mês que vem. E então o que é que vou fazer? Terei que andar batendo em portas com o meu currículo na mão? Será que a J. Walter Thompson vai receber-me de braços abertos? “Ora, viva, Roger! O seu antigo lugar está aqui à sua espera! Vai começar com trinta e cinco...” Será isso que vai acontecer, Víc?

Vic sacudiu a cabeça, mas já sentia uma certa irritação contra ele.

— Eu costumava ficar furioso. Muito bem, continuo furioso, mas agora o medo é maior do que a fúria. Maior do que tudo mais. Passo as noites rolando na cama e pensando no que vai acontecer...depois de tudo isso. Só que não posso imaginar o que será. Você olha para mim e, certamente, dirá com seus botões: “Que diabo! O Roger está fazendo as coisas dramáticas demais.” Você...

— Eu nunca pensei nisso, Roger...

Ele só esperava que a voz não o traisse.

— Não vou dizer que você está mentindo, Vic. Mas já faz muito tempo que trabalhamos juntos e isso faz com que eu conheça bem o seu modo de pensar. Talvez até mesmo melhor do que você possa imaginar. De qualquer maneira, não vou culpá-lo por isso...mas existe uma grande diferença entre trinta e dois anos e quarenta e um... Nesse meio. tempo, a gente vai perdendo a coragem, Vic...

— Mas olhe aqui, Roger. Eu ainda acredito realmente que nós temos boas oportunidades neste negócio com a Sharp.

— O que eu gostaria mesmo de fazer, Vic, era levar comigo para Cleveland umas vinte caixas com o cereal da Zingers. E então eu pediria a elas que se curvassem, depois de haverem amarrado as latas vazias em nossos rabos, e então eu já teria um lugar para enfiar todo aquele cereal. E você sabe bem onde seria.

Vic deu-lhe uma palmadinha nas costas.

— Sim, sim, Claro que sei...

— E você, Vic? O que é que você vai fazer se eles nos chutarem?

Vic já pensara bem no caso. Tinha-o examinado sob todos os ângulos possíveis. Seria justo dizer que ele já havia pensado no problema até mesmo muito antes de Roger fazer a mesma coisa.

— Se isso acontecer, Roger, vou dar um duro dos demônios, vou trabalhar mais do que até agora trabalhei em toda a minha vida. Trabalharei trinta horas por dia, se for necessário. Irei conseguir sessenta pequenos clientes na Nova Inglaterra para compensar a perda da Sharp. E sei que vou conseguir, Roger.

— Nós nos mataremos a troco de nada. Vic.

— Pode ser que isso aconteça, mas nós afundaremos com todos os canhões atirando. Certo?

— Eu acho... acho que se a Althea resolvesse trabalhar também, poderíamos nos agüentar na casa durante mais um ano. E então seríamos obrigados a vendê-la, porque os juros andam muito altos...

De repente, Víc sentiu que não se conteria mais e deixaria escapar toda aquela sujeira

de Donna, toda aquela complicação em que ela se metera, só porque queria fingir que ainda não completara 20 anos. Ele sentia raiva de Roger com uma espécie de inveja dos seus 15 anos de um casamento feliz e perfeito com uma moça bonita. Ele se surpreenderia muito se viesse a saber que algum dia passara pela cabeça de Althea um pensamento de infidelidade. Roger não fazia a menor idéia quanto à veracidade do provérbio que diz “uma desgraça nunca vem sozinha”. -

— Escute aqui, Roger. Vou lhe contar uma coisa. Na quinta-feira, recebi uma carta, na entrega da tarde, em que...

Alguém bateu com força na porta.

— Deve ser do serviço.

Roger apanhou a camisa e limpou o rosto, fazendo desaparecer o vestígio das lágrimas, e Vic percebeu, de repente, que não devia nem pensar em contar-lhe o que acontecera. Era bem possível que o outro estivesse com a razão e que a verdadeira e grande diferença estivesse naqueles nove anos entre 32 e 41.

Vic foi até a porta e recebeu o pedido que fizera. Não acabou de dizer o que começara quando ouvira a batida na porta. E Roger também não lhe perguntou. Tinha voltado ao jogo na TV e aos seus problemas pessoais.

Vic sentou-se para comer e não se surpreendeu ao verificar que o apetite se fora. Tinha os olhos pregados no telefone e, ainda mastigando, tentou novamente. Deixou o telefone tocar mais de 10 vezes antes de se decidir a desligar, com a testa ligeiramente franzida. Eram oito e cinco e Tad deitava-se às oito. Era possível que Donna houvesse encontrado alguém ou então que houvesse saído para espairecer ou fazer uma visita. Afinal de contas, não havia uma lei que obrigasse Tad a ir para a cama às oito, principalmente quando ainda estava bem claro nessa hora e quando o calor era tão intenso. Lógico que tudo isso era bem provável. Teriam saído para dar uma volta lá fora, até que refrescasse um pouco para tomar o sono mais fácil. Podia ser tudo aquilo.

(também podia ser que ela estivesse com Steve)

Mas aquilo era uma loucura. Ela dissera que tudo havia terminado e ele acreditava nisso.

Donna não mentia.

(e ela também não andava com outros, nâo é mesmo, cara?)

Ele tentou esquecer, mas nada conseguia. O rato estava solto e iria continuar a roê-lo durante muito tempo. O que teria ela feito com o filho, se lhe desse na veneta, de repente, se mandar com Steve? Estariam os três agora em algum motel entre Castle Rock e Baltimore? Não seja idiota, Vic. Eles podem...

O concerto da banda! Era isso! Claro! Tinham saído para ouvir a banda que tocava na praça todas as noites de terça-feira. Às vezes era a banda do ginásio e outras era um grupo de música de câmara ou qualquer outro grupo local. Era lá que eles estavam. Estavam aproveitando a noite mais fresca e ouvindo músicas conhecidas.

(a não ser que ela esteja com Steve)

Ele esvaziou uma garrafa e abriu a outra.

Donna ficou de pé do lado de fora durante uns 30 segundos, mexendo com as pernas para desentorpecê-las ali mesmo em cima do cascalho. Estava de olho na porta da oficina, sempre imaginando que ele vinha por ali, saindo pela porta ou dos lados, ou até mesmo da parte de trás da pick-up e que, à luz das estrelas, mais parecia um vira-lata deitado e dormindo.

Ela ficou ali de pé sem saber se teria ou não coragem para se arriscar. Sentia o frescor da noite com suas pequenas fragrâncias que lhe traziam recordações de quando era menina e sentia tudo aquilo intensamente, quase como se fosse uma questão de rotina. Aspirava o perfume do feno e das madressilvas na casa que ficava ao sopé da colina.

E ela também ouvia ali alguma coisa. Era música. Pensou primeiro que devia ser o rádio de alguém, mas logo descobriu, espantada, que era a música da banda lá na praça. O que ouvia agora era jazz e até mesmo descobria que tocavam, uma música conhecida. E ela pensava que eram uns 10 quilômetros dali até a praça e jamais teria acreditado que aquilo fosse possível. Aliás, só era possível mesmo porque a noite estava muito calma e parada.

Aquilo fez com que se sentisse cheia de vida.

Seu coração era uma máquina pequernna e poderosa que pulsava-lhe no peito. Sentia o sangue correndo-lhe nas veias. Os olhos moviam-se sem esforço e ela sentia-se bem. Sentia os rins pesados, sem que isso chegasse a ser incômodo. E ali estava ela, mais decidida do que nunca. Sentia uma fascinação silenciosa e forte ao pensar que estava arriscando a vida. Era como se fosse um enorme peso que havia chegado ao máximo de seu ângulo de repouso. E então bateu a porta, fechando-a.

Esperou ainda um pouco, aspirando o ar como se fosse um animal. Não havia coisa alguma. A porta da oficina continuava silenciosa e escura. O pára-choque cromado do carro brilhava muito fraco. Ela ouvia ao longe a música do jazz muito fraca e alegre, e curvou-se para experimentar a flexão das pernas, mas tudo estava em ordem. Abaixou-se e apanhou algumas pedrinhas do cascalho, que começou a jógar por cima do capô, num lugar onde não conseguia ver. A primeira pedra caiu bem perto do focinho de Cujo e ele mexeu-se um pouco, com a língua de fora, sempre babando. Parecia estar achando graça. A outra pedra caiu um pouco mais longe, mas a terceira bateu bem em cima dele, mas nem assim o animal se mexeu. A MULHER continuava a querer tirá-lo dali.

 

Donna continuava de pé, junto ao carro, mas estava preocupada. Ela ouvira a primeira pedra bater no chão e a segunda também, mas a terceira.., era como se não tivesse chegado ao chão. Não fizera barulho algum. O que poderia significar?

E então, do repente, ela mudou de pensamento. Não queria mais correr para a casa enquanto não descobrisse o que estava na frente do carro. Só então iria tentar. Mas.., só para ter a certeza...

Ela deu um passo à frente, dois passos, três passos...

 

Cujo estava pronto e seus olhos brilhavam na escuridão.

 

.Já estava a quatro passos de distância da porta do carro. O coração batia acelerado, como se fosse um tambor dentro de seu peito.

 

O animal já via agora a cintura e os quadris da MULHER. Dentro dc um instante ela o veria também. Muito bem. Ele ia esperar esse momento.

 

Cinco passos de distância da porta.

Donna virou a cabeça e sentiu que o pescoço lhe estalava como se faeo uma porta velha. Ela parecia estar adivinhando. Tinha uma lenta sensação de segurança. Virou a cabeça procurando o cão. E ali estava ele. Estivera ali todo aquele tempo, agachado, à sua espera, no meio do mato alto.

Seus olhares se cruzaram. Os olhos dela eram azuis e os dele vermelhos e congestionados. Durante um momento, ela passou a ver pelos olhos dele, vendo-a ali, vendo Á MULHER.., estaria ele se vendo também nos olhos dela?

E então ele saltou sobre ela.

Ela não se sentiu paralisada dessa vez. Correu de costas para o carro, tentando encontrar a alça da porta às apalpadelas. Ele rosnava, os dentes arreganhados e a baba escorrendo, e caiu no lugar exato onde ela estivera antes, mas escorregou no cascalho, dando-lhe assim mais um segundo precioso.

Ela encontrou finalmente a alça e puxou a porta com força. A porta não abriu. Estava empenada. O cão saltou-lhe em cima.

Aquilo foi como se alguém lhe houvesse atirado uma bola na carne vulnerável e macia de seus seios, sentindo-os comprimidos contra as costelas. A dor era muita, mas logo ela estava segurando o animal pela garganta, com as mãos enfiadas em seu pêlo grosso tentando mantê-lo a distância enquanto ouvia a sua própria respiração ofegante. A luz das estrelas refletia-se nos olhos alucinados do animal, formando semicírculos. Suas mandíbulas abriam-se e fechavam-se a uma distância mínima de seu rosto e era-lhe possível sentir o hálito fétido do cão. Ele estava nas últimas, mas ainda queria matar. Por incrível que parecesse, ocorreu-lhe, naquele momento angustiado, a lembrança daquilo que acontecera com o esgoto da pia da cozinha na casa de sua mãe quando a gosma espirrara e sujara o teto.

Sem mesmo saber como, ela conseguiu empurrá-lo para mais longe no momento exato em que ele ainda estava no ar para saltar-lhe em cima. Procurava às apalpadelas o botão da porta que estava ali atrás e acabou encontrando-o. Antes, porém, que pudesse tentar abrir a porta, já o cão investia novamente. Deu-lhe um pontapé e a sola da sandália atingiu-lhe o focinho já bem dilacerado devido às suas, tentativas anteriores contra a porta, bem parecidas com ações camicase. Ele caiu uivando de dor e de raiva.

Donna tentou de novo abrir a porta, sabendo perfeitamente que era a sua última oportunidade, e também a última para Tad. Ela puxava e empurrava a porta com todas as suas forças, ao mesmo tempo que o cão investia novamente, como uma criatura saída do inferno que voltava sem cessar e que continuaria a voltar até que um dos dois estivesse morto. Ela estava no ângulo errado para seu braço; seus músculos pouco adiantavam e a dor que sentia nas costas era tremenda. Devia ter deslocado alguma coisa. A porta abriu finalmente e ela deixou-se cair no banco ao mesmo tempo que o animal tornava a investir.

Tad acordou. Viu a mãe sendo empurrada para trás e percebeu que, no colo dela, havia uma coisa terrível, peluda, de olhos vermelhos, que ele logo reconheceu. Era aquela coisa que estava no seu closet, aquela coisa que lhe havia prometido chegar cada vez mais perto até, finalmente, chegar na cama dele. E era ela que ali estava agora. As Palavras Para os Monstros tinham fracassado e ele agora ia matar a sua mãezínha. Tad começou a gritar e tapou os olhos com as mãos.

A boca aberta do animal já quase chegava a alcançar a parte nua do corpo de Donna na altura da cintura. Ela tentava mantê-lo a distância e nem mesmo ouvia os gritos do filho. Os olhos do cão não se despregavam dela e, por incrível que parecesse, ele abanava o rabo. As suas patas traseiras deslizavam no cascalho e ele não conseguia encontrar um ponto de apoio sólido para poder saltar dentro do carro. O cascalho continuava a impedir que o fizesse.

O animal tentava sempre e, então, as mãos dela escorregaram e ele começou a mordê-la. Mordia-lhe a parte nua da barriga, abaixo do sutiã, procurando alcançar-lhe as entranhas...

Donna soltou um grito de dor e de terror, procurando afastá-lo com toda a força que tinha. Estava já novamente sentada e o sangue escorria-lhe pela barriga. Procurava afastar o cão com a mão esquerda enquanto à direita, buscava a alça da porta, que acabou encontrando. E então começou a bater no animal com a porta. Cada vez que isso acontecia ela ouvia um som igual ao que acontecia quando alguém batia num tapete pendurado na corda de estender roupas. E a cada pancada o animal rosnava, soltando uma baforada de seu hálito quente.

Ele recuou um pouco para ganhar impulso para o salto, mas Donna calculou certinho e bateu a porta com toda a força que ainda lhe restava no momento exato em que ele enfiava a cabeça. Ela ouviu um barulho parecido com alguma coisa que se esmigalha e o animal soltou um tremendo ganido de dor. E!a pensava que ele iria recuar com o golpe, mas aconteceu justamente o contrário. O cão avançou e mordeu-a outra vez na coxa, bem acima do joelho, arrancando-lho um pedaço de carne. Ela soltou um grito lancinante.

Continuava a bater-lhe na cabeça com a porta e seu gritos ao misturavam com os de Tad,

mas o animal não lhe largava a perna, que já parecia uma posta de carne sangrenta. A cabeça do animal também estava toda suja de sangue, um sangue grosso, gosmento e escuro como se fosse o de um inseto, ali à luz fraca das estrelas. Ele. pouco a pouco, ia conseguindo entrar mais, enquanto as forças dela chegavam ao fim.

Ela conseguiu puxar a porta pela última vez, com a cabeça caída para trás e a boca aberta, formando um círculo que tremia, com o rosto lívido que a escuridão não deixava ver claramente. Aquela era, realmente, a última vez. Ela não se agüentava mais.

No entanto, de repente, o animal desistiu. Já conseguira o bastante.

Recuou ganindo o saiu cambaleando para, logo em seguida, cair deitado no cascalho, tremendo e com ao pernas procurando atingir fracamente alguma coisa que não existia. Ele começou a coçar a cabeça ferida com a pata.

Donna bateu a porta e deixou-se cair no banco, soluçando baixinho.

— Mamãe... mamãe... mamãe...

— Tad... tudo bem...

— Mamãe!!!

— ...tudo bem. .

As mãos se tocavam. As dele eram leves e esvoaçantes como se fossem passarínhos, as dela afagavam-lhe o rosto, procurando tranquilizá-lo, mas logo depois tombavam, exaustas.

— Mamãe... vamos para casa... por favor.., o papai... para casa...

— Claro, Tad... nós vamos agora mesmo.., juro por Deus... vou levar você para casa.., nós vamos...

As palavras não faziam sentido. Tudo estava bem. Ela sentia-se voltando aos poucos, voltando para um mundo cinzento, para aquele nevoeiro que nunca imaginara existir dentro dela. As palavras de Tad pareciam sair de uma câmara acústica. Mas tudo, estava bem. Tudo.,

Não. Não. Nada estava bem.

Ela fora mordida pelo cão...

...e era um cão danado.

 

Holly disse à irmã que deixasse de tolices e que falasse diretamente de sua casa, mas Charity insistia em chamar a telefonista para completar a ligação “a cobrar”. Ela não gostava dc aceitar favores, mesmo se fossem apenas de telefonemas interurbanos depois das seis horas.

A telefonista chamou Informações e logo conseguiu o número de Alva Thornton, em

Castle Rock. Poucos minutos depois, a ligação estava feita.

— Alô! Aqui fala o Aviário Thornton...

— Oi, Bessie!.

— Huumm.., Quem é...

— É a Charity, Bessie. Estou falando de Stratford. Será que o Alva está ai? Ele pode atender?

— Que pena, Charity! Ele não está. Hoje é o seu dia de boliche. Todo mundo foi para lá. Alguma coisa errada?

Brett estava no sofá, fingindo que lia um livro.

Charity já havia pensado bem no que ia dizer. A situação era um pouco delicada. Da mesma forma que todas as mulheres casadas de Castle Rock, e também, naturalmente, das solteiras, a Bessie adorava uma fofoca, e se ela descobrisse que o Joe tinha ido caçar em algum lugar, sem avisar sua mulher, que havia saido para visitar a irmã, isso seria um ótimo assunto para os mexericos com as vizinhas.

— Nada de errado, Bessie. Só que o Brett e eu estamos um pouco preocupados com o cachorro...

— Aquele São Bernardo?

— Isso mesmo. O Cujo. Nós viemos aqui visitar minha irmã enquanto o Joe foi a Porsmouth a negócios. — Aquilo era uma mentira deslavada, mas sempre era mais garantida. Joe realmente costumava ir lá para comprar peças, porque não havia imposto de venda e também para leilões de carro. — Eu só queria saber se ele combinou com alguém para dar a comida ao cachorro..., você sabe como os homens são...

— Bem..., o Joe esteve aqui ontem..., mas também pode ser que tenha sido anteontem..,

Ela estava em dúvida, mas a verdade era que Joe estivera lá na última quinta-feira. Bessie não era uma mulher muito inteligente. Já a sua tia-avó, a falecida Evvíe, gostava de gritar para quem quisesse ouvir que “a Bessie não passaria em nenhum exame de inteligência, mas ela tem bom. coração”. Levava uma vida bem dura no aviário e seus únicos prazeres eram as fofocas. Também gostava muito de ler livros caseiros, mas não conseguia ir até o fim com os mais sofisticados.

Só se interessava mesmo pelos que falavam de galinhas. Regulava a música nos galinheiros, colhia e escolhia os ovos, mantinha a casa limpa, lavava as roupas e os pratos e vendia os ovos. Cuidava também do jardim. E então, durante o inverno, naturalmente, conseguia todas as informações sobre as atividades do clube de esportes de inverno do qual eles eram sócios.

Joe estivera lá para levar um pneu de trator que consertara. Ele não cobrara o conserto do pneu porque Alva dava-lhe um desconto de 50 por cento nos ovos que lhe fornecia. Alva também arava o pequeno pedaço de terra do Joe em abril e então ele tinha prazer em fazer o reparo dos pneus. Era assim que se fazia entre o pessoal do campo.

Charity sabia muito bem que o marido estivera lá na quinta-feira para levar o pneu. Sabia também que Bessie sempre misturava os dias. E assim ela ficava sem saber o que dizer. Poderia perguntar se Joe levara o pneu no dia em que estivera lá e, se a resposta fosse afirmativa, ficaria sabendo que ele não tornara a aparecer no aviário para pedir ao Alva que cuidasse da comida do cachorro. E isso significaria também que Alva não poderia dar notícia alguma a respeito do animal.

Ela também poderia deixar de lado tudo aquilo para procurar aliviar a aflição do filho. Assim eles poderiam gozar bem a permanência ali na casa da irmã sem pensar no que poderia estar acontecendo em casa. E também... ela já estava sentindo ciúmes do Cujo, Essa era a verdade. O cachorro estava desviando a atenção do filho com respeito àquela viagem que talvez viesse a ser a mais importante de sua vida. Ela queria que o filho tivesse uma vida diferente, urna vida nova com muitas possibilidades, e, então, quando chegasse a hora, dentro de alguns anos, ele já estaria em condições de saber qual o caminho a tomar e quais os que deveria evitar. Teria melhores perspectivas para chegar a uma decisão. Ela talvez andasse er-rada ao pensar que poderia dirigir a vida dele, mas, pelo menos, poderia fazer com que Brett fizesse a escolha certa.

Seria justo permitir que aquela porcaria de cachorro interferisse em seus planos?

— Charity... você ainda está aí? Eu estava dizendo que...

— Sim, sim, Bessie. Eu ouvi. Talvez ele tenha pedido ao Alva nessa ocasião... — Pode deixar. Vou perguntar a ele e depois te digo...

— Está bem. Fico esperando. E muito obrigada por tudo, Bessie. — Não há o que agradecer, Charity.

— Até depois, Bessie.

Ela desligou e só então lembrou-se de que a outra nem mesmo pedira o número do

telefone de Holly. Aliás, assim era até melhor.

Voltou-se para o filho com o rosto bem composto. Não iria mentir para ele. Jamais

mentiria para o filho.

— A Bessie disse que seu pai esteve lá no domingo à noite e então, certamente, pediu

ao Alva que cuidasse do Cujo.

Brett olhava-a de uma forma que a deixava inquieta.

— Mas você não falou com o Alva, mamãe...

— Não. Ele tinha saído para o boliche. Mas a Bessie me prometeu que tornaria a falar

comigo...

— Só que ela não tem o número daqui.

Ele agora já falava de uma maneira que era quase uma acusação. Ou seria a sua

consciência que pensava assim?

— Está bem, Brett. Eu torno a telefonar para ela amanhã. Charity esperava que aquilo encerrasse a conversa, ao mesmo tempo que servisse também como um bálsamo para a sua consciência.

— O papai levou o pneu do trator na semana passada. Acho que a mulher dele

misturou os dias.

— Não acredito que tenha feito isso, Brett. Ela conhece bem os dias da semana. Aliás,

ela nem mesmo me falou a respeito de pneus.

— Eu sei, mamãe. Mas você também não lhe perguntou. Ela perdeu a paciência.

—Pois então telefone de novo para ela.

Charity foi tomada por uma fúria insensata, com aquela mesma sinistra sensação quando ele criticara a quantidade de cartões de crédito da tia. Naquela ocasião, a entonação de sua voz e até naesmo a maneira de falar eram iguais ao de seu pai quando criticava alguém. E teve a sensação de que aquela viagem estava servindo unicamente para lhe mostrar a quem o filho de fato pertencia, dos pés à cabeça.