Cão Raivoso

Stephen King · Capítulo 3 de 4 · parte 3/4

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Cão Raivoso

O animal bateu de encontro ao vidro…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— Você é bom mesmo, Vic...

— Não se trata de pedir desculpa, gente. É apenas uma porcaria de explicação. — A voz de Roger tinha um tom de lamúria.

— Essa é a maneira como você vê a coisa, Roger. Mas será que ele é da mesma opinião? Pense bem. Já estive com aquele cara algumas vezes. Ele verá as coisas em termos do capitão abandonando o navio naufragado antes das mulheres e crianças, dos heróis do Álamo se rendendo e tudo mais que você possa imaginar nesse sentido. Nada disso, meus amigos. Vou dizer a vocês como as coisas vão se passar. — Levantou o copo numa saudação e bebeu a cerveja lentamente. — A minha opinião é que um relacionamento valioso e de pouca duração vai chegar ao fim muito em breve. O velho Sharp vai ouvir a proposta de vocês, vai sacudir a cabeça o acompanhá-los até a porta do escritório. Definitivamente. E a próxima agência encarregada de sua propaganda será escolhida pelo filho, o qual dará preferência à que se mostrar mais disposta e tolerante a aceitar suas idéias idiotas.

— Pode ser que seja.., mas também pode ser que ele...

— Essa coisa de “pode ser” não vale uma titica, Roger. A única diferença entre um

homem publicitário e um bom vendedor de panacéias está no fato do primeiro saber como tirar o máximo de proveito do material que tiver em mão.., sem fugir dos mandamentos da honestidade. E o comercial que vamos apresentar à ele é justamente isso. Se recusar, ele estará desprezando o melhor que temos para oferecer. Ponto final. — Ele esmigalhou o cigarro e quase derrubou a cerveja de Roger, que ainda estava no meio. As suas mãos tremiam. — Levanto o meu brinde a isso, cavalheiros!

Vic e Roger levantaram também seus copos.

Martin pensou durante um momento antes de falar:

— Só espero que tudo dê certo... apesar de todas as probabilidades em contrário.

— Amém!

Tomaram a bater os copos e beberam o resto da cerveja. Ao virar o seu, Vic pensava em Donna e Tad outra vez.

 

George Meara, o carteiro, levantou a perna enfiada no uniforme azul dos Correios e soltou um peido. Ele estava sempre fazendo aquilo ultimamente e sentia-se preocupado. Não tinha relação alguma com o que comia. Na noite anterior, ele comera bacalhau com molho e torradas e peidara. Naquela manhã, tinha comido cereais Kellog"s com banana cortada e acontecera a mesma coisa. Naquela tarde, numa lanchonete da cidade, ele comera dois cheeseburguers com maionese.., e tudo se repetira.

Ele recorrera à Enciclopédia Médica do Lar, uma inestimável obra em 12 volumes, para ver o que ela dizia sobre tais sintomas. A obra fora comprada por sua mulher, um volume de cada vez, com a economia que fazia em suas compras no supermercado em South Paris. Descobrira então no verbete FLATULÊNCIA EXCESSIVA uma coisa que não lhe agradava muito. Era possível que fosse uma pequena úlcera ali incubada, já que podia ser devido a perturbaçõos gástricas. Poderia, até mesmo, ser aquela terrível moléstia que começava com C. Se aquilo continuasse ele se veria obrigado a procurar o velho Dr. Quentin e receberia como resposta que aquela sua peidação se devia ao fato dele estar ficando velho e nada mais.

Ele sentira muito a morte da velha Tia Evvie na primavera anterior. Sentira mais do que, na realidade, teria acreditado que sentiria. E também, naqueles últimos tempos, não lhe vinha agradando muito aquela idéia de que estava envelhecendo. Preferia pensar naquela época maravilhosa em que se aposentaria, quando esteria sempre junto de sua Cathy. Não seria mais obrigado a sair da cama às 6:30. Não precisaria mais carregar sacos de correspondência, nem seria obrigado a dar ouvidos ao merda do Fournier, o chefe dos Correios em Castle Rock. Não mais congelaria os colhões no inverno nem enlouqueceria de calor no verão, quando aquela gente maluca queria que ele fosse entregar a correspondência nos acampamentos e casas de campo. Em vez disso, ele até poderia ir a Winnebago, na Nova Inglaterra, aproveitando as excursões organizadas para isso. Poderia cuidar de seu jardim, assim como poderia se ocupar com toda a sorte de passatempos que lhe viessem à cabeça. Gozaria então de uma tranqüilidade absoluta. Só que a perspectiva de entrar nos 60 anos e passar os 70 soltando peidos não se coadunava muito com aquela maravilhosa visão do que lhe proporcionaria a aposentadoria.

Enveredou pela Rodovia 3 em seu caminhãozinho azul e branco e precisou apertar os olhos para se defender do sol que lhe batia na cara. O verão estava se mostrando, realmente, tão quente como previra a Tia Evvie e talvez, até mesmo, já ultrapassando sua previsão. Ouvia os grilos cantarem no capim alto que beirava a estrada e chegou a ter uma breve visão dos Maravilhosos Anos da Aposentadoria, uma cena que poderia ser chamada “O George descansando em sua rede no quintal”.

Fez uma parada na casa dos Millikens, onde deixou uma circular de propaganda da Zayres e uma conta de luz. Naquele dia ele tinha que entregar todas as contas de luz, mas já imaginava que o pessoal da companhia de eletricidade não sossegaria até que os Millikens pagassem sua conta. Eles faziam parte da escória branca, tal como aquele Gary, que morava no sopé da colina, O comportamento de Gary constituía um verdadeiro escândalo para a comunidade, já que era um ex-combatente que recebera a tão cobiçada condecoração. Joe Camber também não era muito melhor que Gary. Os dois estavam se deteriorando aos poucos.

John Milliken estava do lado de fora no quintal, consertando alguma coisa que se parecia com uma grade de trator. O carteiro acenou-lhe e o outro respondeu com um ligeiro gesto, voltando logo ao que estava fazendo.

Pois agora aqui vai um para você, seu vigarista que vive à custa do governo.

Ele levantou a perna e soltou um dos seus peidos sonoros. Aquilo era um verdadeiro inferno! Precisava ter cuidado quando se encontrava no meio de amigos.

Ele continuou até a casa de Gary, onde deixou outra circular da Zayres e mais uma conta de luz. Empurrou tudo para dentro da caixa. Fez a volta ali mesmo porque não precisava ir até a casa do Joe, pois ele havia avisado nos correios que ia viajar. Fournier, o chefe do serviço, fizera como mandava a rotina e preenchera um cartão GUARDAR CORRESPONDÊNCIA ATÉ OUTRA NOTIFICAÇÃO, que atirou para George.

Fournier dissera a Joe naquela ocasião que sua correspondência já fora enviada. Deveria ter telefonado mais cedo.

— Não faz mal — dissera Joe. — Aliás, creio mesmo que vou passar por lá antes de viajar.

Quando colocou na caixa a correspondência de Gary, o carteiro reparou que a do dia anterior ainda estava ali. Era um exemplar de Popular Mechanix e uma circular pedindo contribuições para

o Fundo Escolar Rural. Agora, ao fazer a volta, ele reparava que o velho Chrysler de Gary estava ali, junto com a caminhonete de Joe.

— Devem ter saído juntos. Dois idiotas soltos por aí...

A conclusão de George era que os dois deviam andar pelas redondezas bebendo e correndo atrás de mulheres na velha pick-up de Joe.

Levantou a perna e soltou mais um.

Não lhe ocorreu pensar que era um tanto estranho o fato deles terem saído na pick-up, deixando para trás dois carros bem mais confortáveis. Tampouco reparou no sangue que havia nos degraus da escada nem na porta telada completamente arrombada.

— Dois idiotas soltos por aí. O Joe, pelo menos, ainda se lembrou e mandou guardar sua correspondência...

Voltou pelo mesmo caminho que viera e, de quando em quando, ia levantando a perna e bombardeando a paisagem com o seu trombone.

 

Steve foi até a lanchonete para comer e beber alguma coisa. Levou tudo para o carro, onde se sentou para comer ao mesmo tempo que olhava a Brighton Avenue sem vê-la e sem sentir o gosto da comida. Telefonara para o escritório de Vic dando o nome de Adam Swallow quando a secretária perguntara. Disse que era diretor de marketing de uma companhia e que precisava falar com o Sr. Trenton. Estava até com a boca seca. Teriam muita coisa para converar quando ele atendesse. Coisas mais interessantes do que marketing. Coisas assim como aquele sinal que a sua mulherzinha tinha em suas partes íntimas. Como sua mulher o mordera em certa ocasião, ao atingir o orgasmo, com tanta força que chegara a sangrar. Querendo saber como corriam as coisas para a cadelinha, desde que seu marido ficara sabendo como gostava de variar.

Só que nada saíra como ele esperara, pois a secretária lhe informara que os dois sócios não viriam ao escritório naquela semana e talvez nem mesmo na seguinte.

— Será que posso ajudá-lo de alguma forma?

Pelo som de sua voz ele via que ela estava mesmo querendo ajudar. Seria para ela uma grande coisa se arranjasse algum cliente novo, enquanto os dois sócios cuidavam de outros negócios em Boston ou Nova York. Certamente não estariam em algum lugar exótico como Los Angeles. Ali não haveria lugar para uma agenciazinha de merda como a Ad Worx.

Ele agradeceu dizendo que tomaria a telefonar no fim do mês. Desligou antes que ela tivesse tempo de pedir seu telefone, coisa que não existia, já que ele estava telefonando de bem pertinho, de um telefone público.

E então ali estava ele agora, comendo dentro do carro e pensando no que faria a seguir, embora uma voz interior lhe dissesse que “ele sabia muito bem o que deveria fazer”.

Entrou no carro e seguiu na direção de Castle Rock. Quando acabou de comer, já se encontrava em North Windham. Atirou para dentro da caminhonete os plásticos vazios, que foram fazer companhia aos outros que já se amontoavam lá. Ele não sujava as estradas porque achava que aquilo era vergonhoso e poluía o ambiente.

Steve chegou à casa de Donna às três e meia daquela tarde escaldante. Agindo com um máximo de cautela, passou diante da casa sem diminuir a velocidade e foi estacionar numa esquina distante.

 

Reparou que a entrada da casa estava vazia e sentiu-se frustrado. Não queria confessar a si mesmo, especialmente agora que tudo indicava estar à casa vazia, que a sua intenção era dar-lhe uma amostra daquilo que ela tanto desejara na primavera anterior. Apesar de tudo, ele viera de Westbrook a Castle Rock com uma excitação que já não existia mais.

Ela se fora.

Nada disso. O carro não estava ali, mas uma coisa não provava a outra.

Ele parou e olhou em torno.

O que temos aqui, senhoras e senhores, é uma tranqüila rua de bairro num dia de verão, com a maior parte das crianças dormindo e a maior parte das donas-de-casa grudadas às suas TV, assistindo aos programas preferidos. Todos os maridinhos estão dando o duro, para pagarem um imposto de renda maior e, muito provavelmente, um leito no CTI do Centro Médico do Maine. Duas crianças estavam brincando na calçada, enfiadas em trajes de banho e suando copiosamente. Uma velha empurrava com tanto cuidado um carrinho de compras, que parecia que ela e as compras eram de porcelana frágil. Ela passou bem longe das crianças que brincavam na calçada.

Em resumo, muito pouca coisa estava acontecendo. A rua estava adormecida com o calor.

Steve subiu pela entrada com o maior desembaraço, como se a casa fosse sua. Olhou primeiro na garagem de um só carro. Sabia que Donna jamais guardava o carro ali. Tinha medo de entrar com ele porque a porta era muito estreita. Se arranhasse o carro ouviria poucas e boas de seu maridinho.

A garagem estava vazia. O carrinho dela não estava ali. O velho Jaguar do marido também não estava. Ele dissera a Donna que o seu rico maridinho estava na menopausa dos carros esportes. Ela não gostara da piada, mas Steve achava que não havia caso mais óbvio do que aquele.

Foi até os fundos, onde experimentou a porta que não estava trancada. Entrou sem bater depois de olhar em torno, para ter certeza de não estar sendo visto por alguém.

Fechou a porta e viu que a casa estava silenciosa. Mais uma vez sentia o coração aos pulos, parecendo sacudir-lhe as costelas. E também,mais uma vez, ele não reconhecia certas coisas. Não precisava reconhecê-las. Eram coisas que estavam ali, de qualquer maneira.

— Olá! Alguém em casa?

A sua voz era alta, sincera, agradável e interrogativa.

— Olá!...

Agora já estava na metade do corredor.

Era óbvio que não havia ninguém em casa. Ela estava vazia, silenciosa, quente... Uma casa vazia, cheia de móveis, sempre mete medo quando não é a nossa. Há sempre uma sensação de se estar sendo observado...

Em todo o caso, sempre era bom tentar mais uma última vez.

— Olá! Há alguém em casa?

Deixe aqui uma lembrancinha para ela e caia fora...

Entrou na sala e ficou ali de pé, olhando em tomo. As mangas da camisa estavam arregaçadas e o suor corria-lhe pelos braços. Agora já podia confessar certas coisas. Admitia que desejara matá-la na hora em que ela o chamara de filho da puta e lhe cuspira no rosto. Desejara matá-la quando ela o fizera sentir-se velho, apavorado e incapaz de se manter senhor da situação. A carta já fora alguma coisa, mas não o bastante.

À sua direita havia prateleiras de vidro cheios de quinquilharias. Ele voltou-se e deu um pontapé na última prateleira, que se desintegrou toda, espalhando o vidro quebrado pela sala. Havia estatuetas de porcelana representando gatos, pastores e todas as porcarias de uma burguesia feliz. Sentia a testa latejar. Nem mesmo percebia que estava fazendo careta. Caminhou por cima das estatuetas ainda intactas e reduziu-as a pó. Arrancou da parede uma foto de família e, durante um momento, olhou com curiosidade para o rosto sorridente de Vic, que tinha Tad no colo e abraçava Donna pela cintura. Atirou a foto no chão e pisou em cima, para quebrar-lhe o vidro e a moldura.

Olhou em tomo, ofegante, como se houvesse acabado de dar uma corrida. E então, de repente, ele atirou-se contra a sala como se ela fosse uma coisa viva, uma coisa que lhe houvesse feito algum mal e precisava ser punida por isso. Era como se aquela sala fosse a causadora de toda a sua dor. Empurrou a poltrona de Vic e virou o sofá, que ficou se equilibrando durante um momento antes de cair e quebrar a mesinha que estava na sua frente. Atirou fora das estantes todos os livros que ali estavam, murmurando imprecações contra o mau gosto de quem os comprara. Apanhou a peça onde eram guardadas as revistas e jornais e atirou-a no espelho que havia sobre a lareira, que caiu no chão em pedaços, como peças de um quebra-cabeças. Ele agora roncava como um touro enfurecido. Seu rosto magro estava vermelho de fúria.

Foi para a cozinha, passando pela sala de jantar. Ao passar pela mesa que fora um presente dos pais de Donna, estendeu o braço. e levou de roldão tudo que ali estava. Um galheteiro com os vidrinhos de temperos, um vaso de vidro que Donna comprara em Bridgton por um dólar e 25 centavos no verão anterior, e o copo de barro para cerveja que Vic recebera de presente ao se formar. Os vidros de sal e de pimenta explodiram como bombas. Ele estava agora num estado de completa excitação sexual. Já nem pensava mais na possibilidade do ser descoberto. Estava no fundo de um buraco escuro.

Quando chegou à cozinha espalhou as panelas e arrancou a tampa do fogão. O barulho foi tremendo, mas não o suficiente para satisfazê-lo. Abriu todos os armários da parede e atirou no chão tudo que encontrou. A louça estilhaçava-se como se fosse música. Ele soltava grunhidos de satisfação ao ver os destroços. Havia ali um jogo de cálices com hastes longas, que Donna recebera dE presente aos 12 anos. Ela ouvira falar das “arcas da esperança” e resolvera ter uma também. Iria guardando ali coisas para quando se casasse. Afinal, aqueles cálices foram às únicas coisas colocadas na arca; já que ela logo se desinteressara por aquilo. A grande intenção original fora de ter o suficiente para montar a sua casa ou apartamento quando se casasse. As peças tinham mais da metade do sua idade e ela as considerava como um tesouro.

A molheira foi junto com o resto, logo acompanhada pelo toca-fitas, que ele chegou a pisotear. A sua ereção estava agora insuportável e o latejar da testa acompanhava o seu ritmo. Descobriu que havia bebidas no armário sob a pia e quebrou todas as garrafas, uma a uma, atirando-as contra a porta do closet com toda a força. No dia seguinte, o seu braço direito estaria sofrendo as conseqüências. A porta do closet estava já toda molhada com as diferentes bebidas que escorriam até o chão. Algumas tinham sido presentes de Natal de Roger e Althea. Os copos eram atirados pela janela e brilhavam ao passar pelo sol da tarde quente.

Ele seguiu para a lavanderia, onde havia uma grande coleção do material para limpeza, que apanhou e levou para a cozinha, onde foi derramando tudo, como um louco saudando o Ano Novo.

Tinha acabado de entornar o último vidro quando reparou no bilhete que Donna rabiscara às pressas antes de sair. Tad e eu vamos para a oficina de Joe Camber com o carro. Voltaremos logo.

Aquilo fez com que ele voltasse de imediato para a realidade da situação. Já fazia meia hora que estava ali, talvez até mais. O tempo corria depressa demais para poder ser avaliado; Quanto tempo já haveria decorrido desde a saída de Donna até sua volta para casa? Para quem seria aquele recado? Para qualquer pessoa que viesse ou para alguém que poderia entrar a qualquer minuto? Era preciso cair mas ainda havia uma coisinha a fazer.

Limpou com a manga da camisa o recado de Donna e escreveu em letra dc fôrma:

DEIXEI UMA COISA PARA VOCÊ LÁ EM CIMA BONECA

Galgou a escada de dois em dois degraus e foi até o quarto que ficava do lado esquerdo. Agora estava terrivelmente apressado e temendo a chegada de alguém. Tinha quase certeza de que a campainha da porta ia tocar e que alguma amiguinha meteria a cabeça na porta dos fundos, como ele mesmo já fizera, para fazer aquela mesma pergunta: “Olá! Há alguém em casa?»

De uma certa maneira perversa, no entanto, aquilo ainda o deixava mais excitado, no meio de toda aquela loucura. Soltou o cinto, abriu a braguilha das calças, que deixou cair até os joelhos.

Estava de cuecas, já que raramente as usava. O seu membro estava rígido no meio dos pêlos púbicos muito louros. Não lhe foi preciso muito tempo no estado de excitação em que se encontrava. Masturbou-se com dois ou três movimentos rápidos e brutais e o orgasmo veio, imediato e selvagem, espalhando o seu sêmen em cima da colcha.

Suspendeu as calças e puxou o zíper com tanta força que quase teve a cabeça do membro decepada por seus dentes dourados — coisa que, realmente daria para rir — e correu para a porta enquanto apertava o cinto. Tinha certeza de que iria encontrar alguém lá fora quando saísse, como se tudo houvesse sido combinado de antemão. Alguma dona-de-casa da vizinhança que notaria o seu rosto vermelho, os olhos esbugalhados e as calças manchadas, logo começando a gritar.

Enquanto se encaminhava para a porta, ia imaginando o que diria. Em retrospecto, tinha a impressão de que o barulho feito lá dentro fora suficiente para despertar um morto. Estava pensando na barulheira. das panelas. Por que fizera aquilo com toda aquela porcaria lá dentro? Toda a vizinhança devia ter ouvido...

Mas não havia ninguém lá fora. A tranqüilidade da tarde continuava como se nada houvesse acontecido. Do outro lado da rua um esguicho d"água continuava a girar molhando a grama, completamente alheio aos acontecimentos. Um garoto passou correndo de patins. Bem lá na frente estava a cerca viva que separava a casa de Vic e a do vizinho. Lá embaixo da colina estava a cidade e Steve podia ver o cruzamento da Rodovia 117 com a High Street, com a prefeitura aninhada entre as duas. Ele ficou ali de pé, procurando recuperar a calma. A respiração regularizava-se paulatinamente. Já estava calmo e seu rosto mostrava-se agradável como sempre. Tudo aquilo acontecera num período de tempo equivalente ao que era preciso para o sinal de trânsito da esquina completar o seu ciclo de vermelho para amarelo, para verde e novamente vermelho.

E se ela chegar neste instante?

O pensamento fez com que voltasse ao estado anterior. Deixara lá em cima o seu cartão de visitas e pouco se importava com o que ela pudesse fazer. Aliás, ela não tinha como fazer coisa alguma a não ser que resolvesse chamar a polícia; e ele não acreditava que o fizesze. Ele teria muitas coisas para contar. A Vida Sexual da Grande e Feliz Dona-de-Casa Americana em seu Habitat Natural. Aquilo fora mesmo uma loucura. O melhor seria fugir para bem longe de Castle Rock. Poderia, talvez, telefonar-lhe mais tarde, só para perguntar se gostara do serviço. Até que seria bem engraçado.

Ele desceu a entrada e foi até onde estava o carro. Ninguém o deteve. Ninguém reparou nele, O garoto dos patins passou por ele com um “Oí” que logo foi retribuído.

Entrou na caminhonete e partiu, tomando a 177 até a 302, que seguiu até o cruzamento com a 95, em Portland. Pagou o pedágio e seguiu em direção ao sul. Já não se sentia muito tranqüilo com tudo que fizera. Ficara louco de raiva ao encontrar a casa vazia. Seria a sua retribuição maior do que a ofensa? Ela não queria mais saber dele. E daí? Ele quase arrebentara a porcaria da casa. Seria isso talvez, uma indicação desagradável sobre o que se passava em sua cabeça?

Ele continuava a pensar em tudo aquilo, uma coisa de cada vez, como geralmente todos fazem, observando um conjunto objetivo de fatos e dando-lhes um banho de vários produtos químicos que, quando tomados em conjunto, formam o mecanismo complexo da percepção humana conhecido como subjetividade. Da mesma forma que uma criança que faz seus deveres a lápis, apaga-os com a borracha para novamente fazê-lo com o lápis, ele deixou de lado tudo o que tinha acontecido para depois reconstruir cuidadosamente seu pensamento, até que os fatos e a percepção dos mesmos se encaixassem de maneira tolerável.Quando chegou à Rodovia 495, ele tomou o caminho para Nova York que se espalhava ali na sua frente até o Idaho, o lugar escolhido pelo Papai Hemingway quando se sentiu velho e mortalmente ferido. Ele sentia ali a satisfação íntima que sempre lhe acontecia quando rompia laços antigos para seguir em frente, aquela sensação mágica que Huck definira como “abrir clareiras para o território”. Nessas ocasiões, sentia-se como se houvesse acabado de nascer, sentia inteiramente que dispunha da maior liberdade existente e que era a de se recriar. Ele não conseguiria entender o significado se alguém viesse lhe dizer que, tanto no Maine como no Idaho, ele continuaria sempre a atirar longe a sua raquete, cheio de frustração, todas as vezes que perdesse uma partida; que se recusana a apertar a mão do adversário por cima da rede, como sempre acontecera antes. Só fazia isso quando era o vencedor.

Passou a noite numa cidadezinha chamada Twickenham e dormia muito tranqüilo. Já se convencera de que a depredação na casa de Donna não fora um ato de ciúmes meio louco e sim uma demonstração de anarquia revolucionária. Fora uma forra contra os porcos gordos da classe média da espécie dos que facilitavam os senhores fascistas a se conservarem no poder quando, cegamente, pagavam seus impostos e suas contas de telefone. Fora um ato de coragem e de fúria limpa e justificada. Era a maneira como entendia “a força do povo”, idéia essa que tentava incorporar em todos os seus poemas.

Ao cair na cama para dormir, na cama estreita do motel, ele estava pensando no que Donna teria sentido ao voltar para casa com o garoto. E isso fez com que adormecesse com um sorriso nos lábios.

 

As 3:30 daquela terça-feira, Donna já havia desistido da idéia do carteiro.

Continuava ali sentada, um braço em torno de Tad, que se encontrava numa meia sonolência de exaustão, com os lábios cruelmente inchados por causa do calor e o rosto muito vermelho. Ainda havia um restinho de leite que ela lhe daria assim que despertasse comple-tamente. Durante as últimas três horas e meia, quando teria sido a hora do almoço se estivessem em casa, o sol tinha-se mostrado monstruosamente impiedoso. Até mesmo com as duas janelas abertas numa quarta parte de tempo, a temperatura dentro do carro devia ter che-gado a uns 40 graus, ou talvez mais que isso. Era assim que o carro ficava sempre que permanecia exposto ao sol e não havia para onde apelar. Em circunstâncias normais, naturalmente, a gente simplesmente baixava os vidros até o fim, abria os dutos que traziam o ar de fora e começava a rodar. Começar a rodar. Essas eram palavras bem doces!

Donna passou a língua nos lábios.

Durante curtos períodos ela se atrevera a baixar os vidros até o fim e isso sempre aliviara bastante a situação deixando entrar bem a corrente de ar lá de fora, mas tinha medo de deixar assim o tempo todo. Poderia cochilar... Ela estava apavorada com o calor. Apavorada por ela e pelo filho. Pelo que aquilo poderia estar fazendo com ele, mas o medo não era igual ao que sentia pelo cão, sempre babando e fitando-a com seus olhos vermelho e lacrimejantes.

A última vez que baixara as janelas até o fim fora quando Cujo se recolhera à oficina, mas agora ele já ali estava de volta.

Estava sentado à sombra da oficina, a cabeça baixa, sem tirar os olhos do carro. A terra entre as patas dianteiras já se transformara em lama com a sua baba. De quando em quando, ele rosnava e parecia querer abocanhar o ar numa espécie de alucinação.

Quanto tempo levará ainda? Quanto tempo levará até morrer?

Ela era uma mulher racional. Não acreditava em monstros dentro de closets. Só acreditava nas coisas que via e que tocava. Nada havia de sobrenatural naquilo que restava do que fora um São Bernardo e que ali estava agora, na sombra do barracão. Ele nada mais senão um pobre cão doente, porque fora mordido por algum animal portador do hidrofobia. Ele não tinha intenção de pegá-la. Não era o Reverendo Dimmesdale ou coisa parecida. Não era um azar de quatro patas.

Ela já estava completamente decidida a correr até a porta da casa quando o cão tornou a aparecer, saindo lá da sombra da oficina, linha saído de lá cambaleando.

Toda a questão girava em torno de Tad. Ela precisava tirá-lo dali custasse o que custasse. Ele já estava começando a responder de foma incoerente. Só agora percebia os pontos altos da realidade. Os olhos vidrados, que ele virava para ela, quando lhe dizia alguma coisa, eram parecidos com os olhos de um lutador de boxe que acabou de ser socado, socado e socado até perder a noção de coerência, esperando apenas o golpe final que o derrubaria inconsciente sobre a lona. Aquilo deixava-a completamente aterrorizada e fazia despertar nela todos os instintos maternais. tinha que pensar em Tad. Se estivesse ali sozinha, já desde muito teria corrido para aquela porta. Somente o filho a impedira, porque ela o imaginava sozinho dentro do carro depois que o cão a houvesse estraçalhado.

Mesmo assim, até uns 15 minutos antes, Donna vinha se preparando para a escalada quando o cão surgira ali, saindo da oficina.

Ela ficou passando o repassando o plano em seu pensamento, como se fosse um filme exibido em casa até que, num setor de sou cérebro, ela imaginava que tudo já havia acontecido. Ela teria que sacudir Tad, batendo-lhe no rosto, se assim fosse necessário, para lhe dizer que não deveria sair do carro tentando acompanhá-la, em circunstância alguma, acontecesse o que acontecesse. E ela correria então até a porta, a fim de experimentar a maçaneta. Se não estivesse trancada, então tudo estaria ótimo; mas estava preparada para o caso contrário. Ela tirara fora a camisa e estava agora só de sutiã, a camisa no colo. Quando saísse correndo, ela já levaria a mão bem embrulhada na camisa. Aquilo era uma proteção bem precária, mas sempre era melhor que nada. Então, quebraria o vidro mais perto da fe-chadura e enfiaria a mão para abrir a porta da varanda pelo lado de dentro. Se a outra porta também estivesse trancada, ela teria de encontrar alguma solução para o problema.

Mas o cão saíra novamente da oficina e aquilo liquidava com todos os seus planos.

Isso n& tem importdncia. Ele vai voltar para lá. Já fez isso antes. Mar será que vai mesmo? Assim fica fácil, demais, não é mesmo! A família toda saiu, mas alguém se lembrou de avisar aos Correios, como bons cidadãos. O Vic viajou e, provavelmente, só telefonara amanhã. Telefonará a noite, porque nã estamos em condições para gastar muito com telefonemas. Com certeza telefonará cedo. Quando o telefone não responder ele ficará pensando que saímos para comprar alguma coisa no Mario"s ou então para tomar sorvetes. Não telefonará muito tarde porque há de pensar que já estamos dormindo. Deixará para o dia seguinte. Ele é muito delicado. Não gosta de incomodar ninguém. Ë isso aí. Tudo está direitinho. Acho que havia um cachorro na frente do barco naquela história do barqueiro Caronte. Era o cachorro do barqueiro. Chamava-se Cujo. Iam todos para o Vale da Morte.

Ela procurava dar ordens ao cão pela telepatia. Volte para a oficina, seu porcaria...

Ele, porém, não obedecia.

Donna passou a. língua nos lábios, já tão inchados como os do filho.

Afastou os cabelos que caíam pela testa dele.

— Como é que você vai indo, meu amor?

Ele abriu os olhos devagar, um de cada vez. Olhou em torno. Era apenas um garotinho aturdido, calorento e terrivelmente cansado.

—Mãe... Por que não vamos para casa? Está muito calor...

— Nós vamos sim, Tad.

— Quando é que vamos, mamãe? Quando é que vamos?

E ele começou a chorar desesperadamente.

Ocorreu-lhe o pensamento de que Tad estava desperdiçando o líquido de seu corpo. E ele ia precisar muito daquilo. Aquele era certamente um pensamento louco, mas toda a situação era de um ridículo que raiava à loucura. Pensava na morte do menino, vítima da desidratação.

(pare com isso! Ele não está morrendo)

e isso a menos de quatro quilômetros do centro da cidade. Era coisa que não fazia sentido.

Mas a situação era essa mesma e não havia como fugir. E não comece a pensar em coisa diferente, irmã, como se fosse uma guerra em miniatura. E, então, tudo que parecia pequeno antes torna-se enorme agora. O menor sopro que passava pela janela meio aberta era corno se fosse um zéfiro. A distância até aquela porta dos fundos não passava de uns 700 metros através da terra de ninguém. E se alguém quiser acreditar que o cão é o Destino, ou o Fantasma. dos Pecados Passados, ou, até mesmo a reencarnação de Elvis Presley, pois então que acredite. Naquela curiosa situação em miniatura, numa situação de vida ou morte, até mesmo a necessidade de ir ao banheiro se tomava uma verdadeira escaramuça.

Nós vamos nos safar daqui. Não há cão nenhum no mundo que possa fazer isto com meu filho.

— Quando é que nós vamos, mamãe?

O rostinho dele estava cor de cera.

— Nós vamos sair logo, Tad. Logo, logo.

Ela tornou a tirar-lhe os cabelos da testa e abraçou-o com força.

Olhou lá para fora, do lado direito do carro, e tornou a reparar naquele velho bastão de beisebol com fita isolante no punho.

Eu bem que gostaria de arrebentar sua cabeça com aquilo ali...

O telefone começou a tocar lá dentro da casa.

Ela virou a cabeça, sentindo uma esperança louca.

— Será que o telefone é para nós, mamãe? Será que estão chamando a gente?

Ela não respondeu. Não sabia para quem seria o chamado. Mas se a sorte agora virasse, e já estava mesmo na hora disso acontecer, então quem telefonava poderia ficar desconfiado de alguma coisa errada na casa de Joe. Talvez alguém se desse ao trabalho de vir verificar.

Cujo levantara a cabeça e inclinara-a de lado, fazendo com que, por um momento, ele ficasse parecido com aquele cachorro da RCA Victor diante do gramofone. Levantou-se cambaleando e seguiu na direção da casa onde o telefone tocava.

— Acho que o cachorro vai atender ao telefone, mamãe.

Com uma rapidez e agilidade verdadeiramente aterradoras, o cão fez meia-volta e precipitou-se para o carro. Já não cambaleava mais. Até parecia que ele estava fingindo de esperteza. Os olhos vermelhos. brilhavam com intensidade. Atirou.se de encontro ao carro com tanta força que foi repelido e ficou ali espantado, sem compreender.. Donna reparou que havia um amassado no seu lado. O seu pensamento era histérico. Ele deve estar morto! Bateu em cheio com a cabeça.., deve ter sofrido uma contusão... Ele deve estar... Deve estar...

O animal, porém, já se levantava. O seu focinho sangrava. O seu olhar estava novamente vago. La dentro da casa o telefone continuava a tocar. O cão fez menção de ir embora, mas logo voltou-se ferozmente contra sou próprio corpo como se houvesse sido mordido, e depois atirou-se contra a janela de Donna com outro tremendo impacto. O sangue sujou o vidro que mostrava um leve fio prateado. Tad soltou um grito e tapou o rosto com as mãos com tanta força que chegava a arranhá-lo.

O cão saltou novamente. A baba escorria-lhe pelo focinho cheio de sangue. Ela via seus dentes amarelados como se fossem de marfim velho. Batia no vidro com as unhas. Havia um talho entre os olhos que também sangrava muito. Não tirava os olhos dela. Olhos vidrados e amortecidos, mas que ela juraria que tinham uma determinada intenção. Alguma intenção maligna.

— Caia fora daqui! Vá embora.

Ele atirou-se novamente contra a sua janela repetidas vezes. Ela percebia que a sua porta já estava bem amassada para dentro. Cada vez que o animal atirava os seus 100 quilos contra o carro ele se balançava todo nas molas. A cada impacto que ouvia Donna tinha quase a certeza de que o animal se matara, ou que, pelo menos desmaiara e estava inconsciente. E então ele repetia sempre a mesma coisa, indo até a casa e depois voltando para investir contra o carro. O focinho já parecia uma pasta de sangue e os seus olhos, que já tinham sido tão meigos, brilhavam numa fúria estúpida.

Ela olhou para Tad e viu que ele se encolhera todo numa posição fetal, com as mãos

cruzadas atrás do pescoço. Talvez assim seja melhor. Talvez...

Lá dentro da casa o telefone já não tocava mais. Cujo estava se preparando para um novo ataque, mas parou de repente. Entortou novamente a cabeça, naquele gesto curioso e invocador. Donna deixou de respirar e o silêncio parecia muito grande. O animal sentou-se, levantou o focinho ensangüentado para o céu e soltou um uivo, um uivo tão sinistro e solitário que ela chegou a sentir um arrepio. Já não sentia calor e o carro lhe parecia tão frio como se fosse uma caverna. Naquele instante exato, ela se deu conta de que aquilo ali era alguma coisa mais do que um simples cão. Aquilo não era apenas uma sensação ou um pensamento. Era uma certeza.

O momento, no entanto, logo passou. O cão levantou-se devagar e veio ficar na frente do carro. Ela achava que ele se deitara ali, já que não lhe via mais o rabo. Mesmo assim, ela não se descuidou e ficou mentalmente alerta para o caso dele investir novamente contra o capô do carro, como já fizera antes. Isso, porém, não aconteceu. O silêncio era completo.

Ela pegou Tad no colo e começou a cantar baixinho para ele.

 

Quando Brett finalmente desistiu e saiu da cabine, Charity tomou-o pela mão e levou-o para a lanchonete da Caldor"s. Eles tinham vindo àquela loja para procurar toalhas de mesa e cortinas.

Holly estava acabando o seu sorvete enquanto esperava por eles.

— Alguma coisa errada, Charity?

— Não, não. O Brett está preocupado com o seu cachorro, não é mesmo, meu filho? — ela explicou, passando a mão pelos cabelos do filho. — Você pode ir andando, se quiser, Holly. Nós logo chegaremos.

— Está bem, eu espero lá embaixo — disse Holly, terminando com o sorvete. — Espero que não haja nada com o seu vira-lata,

Ele esboçou o melhor sorriso que tinha, mas não disse nada. vendo enquanto Holly

se afastava, muito elegante em seu vestido cor de vinho e sandálias com sola de cortiça. Charity tinha certeza de que jamais conseguiria imitar a elegância da irmã. Talvez chegasse o dia, mas não seria agora. Holly deixara os dois filhos com uma babá e as duas tinham ido a Bridgeport, onde almoçaram a convite delas pagaram com Dinner"s e depois au duas tinham saído para fazer compras. Brett estivera o tempo todo calado e triste, pensando no cachorro. Charity também não estava muito disposta a compras. Fazia muito calor e ela ainda estava preocupada com o sonambulismo do filho naquela manhã. Afinal, ela lhe dissera para telefonar de uma das cabines ao lado da lanchonete mas o resultado fora justamente aquele que já esperava.

Quando a garçonete veio, Charity pediu café, leite e patisserie dinamarquesa.

— Olhe aqui, Brett. Quando falei com seu pai a respeito desta viagem ele, logo de saída, se opôs terminantemente...

— Eu sei. Já esperava isso.

— ... mas logo depois mudou de idéia. Mudou de idéia de repente e acho.., acho que ele viu nisso uma boa oportunidade para também tirar as suas férias. Você sabe como é... os homens gostam às vezes de... ficar sozinhos para fazerem das suas...

— Você quer dizer caçadas?

— É isso mesmo.

(mas também para correr atrás de mulheres, bebidas e só Deus sabe o que mais).

— E também cinemas?

— Também pode ser, Brett. De qualquer forma, seu pai pode ter tirado uns dias para ir a Boston...

(claro, aquela espécie de filmes pornográficos na Washington Street, também conhecida como Zona de Combate).

A garçonete trouxe-lhes o pedido e Breu logo atirou-se às patisseries.

— Não creio que ele tenha feito isso, mamãe. Ele estava com muito trabalho. Ele mesmo me disse..

O menino falava com sinceridade.

— Talvez não fosse tanto trabalho como ele pensava. De qualquer forma, é o que eu penso e é por isso que o telefone não atende. Nem ontem nem hoje. Tome o seu leite, Brett. É bom para fortalecer os ossos.

Ela só esperava .que a incredulidade e o cinismo não transparecessem em sua voz. Não queria que o filho percebesse.

Ele bebeu o leite, que lhe deixou um bigode branco, e depois largou o copo.

— Pode ser que tenha feito isso mesmo. Quem sabe até chegou a convencer o velho Gary para ir com ele... Eles são muito amigos.

— É isso mesmo. Deve ter levado o Gary com ele.

Ela falava como se aquela idéia jamais houvesse passado pela sua cabeça, mas acontecia que, naquela manhã, enquanto Brett brincava no quintal com o filho de Holly, ela telefonara para a casa de Gary e o telefone também não respondera. Charity tinha certeza do que os dois estavam juntos, qualquer que fosse o lugar para onde tinham ido.

— Você não comeu o doce, Brett.

Ele deu uma dentada para satisfazer a mãe e colocou o resto em cima da mesa.

— Mamãe, acho que o Cujo está bem doente. Eu vi bem como o coitado estava ontem de manhã. Juro que vi...

— Brett...

— Estava sim, mamãe. Você não viu ele. Estava esquisito...

— Você ficaria mais tranquilo se soubesse ao certo que ele está bem?

Ele apenas sacudiu a cabeça.

— Pois então vamos telefonar para o Alva Thornton esta noite. Ele mora na Maple Sugar. Vou pedir a ele que dê um pulo lá para ver o que há. Está bem assim? O meu palpite é que seu pai já falou com ele para dar a comida ao seu cachorro todos os dias, enquanto ele estiver fora.

— Você acha mesmo que ele fez isso?

— Mas claro que acho, meu filho.

Claro que ele teria encarregado Alva ou alguém como ele. Não era propriamente um amigo de Joe. ele só tinha um amigo, que era o Gary — e sim alguém que lhe fazia um favor em troca de algum outro favor futuro.

A expressão no rosto do menino transformou-se como se fosse por mágica. Mais uma vez as pessoas crescidas sugeriam a coisa certa, tirando um coelho da cartola. Aquela alegria, no entanto, deixou Charity triste durante uns momentos, em vez de animá-la. E se Alva lhe dissesse que não via Joe desde algum tempo? Bem, era algo que teria de enfrentar. Continuava a acreditar, no entanto, que Joe não deixaria o cão completamente desamparado. Aquele não era o seu feitio.

— Vamos procurar a tia agora?

— Vamos sim. Deixe-me acabar isto aqui primeiro.

Ela ficou olhando, divertida e espantada, enquanto ele devorava os doces, rebatendo-os com o leite. Logo que acabou, empurrou a cadeira para trás e levantou-se.

Charíty pagou e os dois desceram pela escada rolante.

— Puxa vida, mamãe, esta loja é bem grande mesmo... Esta cidade é bem grande, não é mesmo? — Ele não escondia o seu espanto.

— Em comparação com Nova York, isto aqui é como Castle Rock, Brett.

Enquanto desciam, ele ia olhando em tomo. Do lado direito havia uma quantidade de periquitos barulhentos e irrequietos; do outro lado ficava o departamento de eletrodomésticos, tudo cheio de cromados que brilhavam. Havia uma máquina de lavar com a frente de vidro, para se poder ver lá dentro enquanto ela trabalhava. Quando chegaram embaixo ele levantou a cabeça para a mãe.

— Vocês duas cresceram juntas?

— Ainda vou lhe contar um dia.

— A tia é muito boazinha.

— Fico muito contente por você gostar dela. Sempre foi a minha predileta.

— Como foi que ela ficou tão rica assim?

Charity parou e olhou para ele.

— É assim que você vê a tia e o tio, Brett? Simplesmente como ricos?

— A casa deles deve ter custado um dinheirão. — Mais uma vez, ela via a influência de Joe sobre o filho, sempre com aquele seu chapéu atirado para o alto da cabeça e aquela cara de esperto, sempre olhando de esguelha. E aquela vitrola também é coisa muito cara. A carteira dela está cheia daqueles cartões de crédito e nós só temos um.

Ela voltou-se e encarou-o com ar zangado.

— Você acha que é bonito andar bisbilhotando as coisas dos óutros? Ela acaba de pagar um bom almoço para nos...

O rosto dele mostrou mágoa e surpresa, mas logo retomou ao normal. Aquele era também o jeitão do Joe.

— Eu reparei sem maldade, mamãe. Aliás, seria difícil não reparar. Parece que ela faz questão de mostrar.

— Ela não estava fazendo nada disso, Brett.

Charíty parou outra vez, parecendo chocada. Eles estavam agora na entrada do setor de cortinas.

— Mas claro que estava mesmo, mãe. Se aquilo fosse um acordeom ela até poderia tocar uma música.

Ela agora estava furiosa com o filho e isso, em parte, era porque via que ele estava com a razão.

— Pois eu acho que o que ela queria mesmo era mostrar para você...

— A mim não interessa saber o que você pensa, Brett.

Sentia-se afogueada e as mãos comichavam com a vontade de dar-lhe uns safanões. Alguns momentos antes, lá na lanchonete, ela sentira que o amava.., e que, até mesmo o via como um amigo. Para onde tinham ido todos aqueles bons sentimentos?

— Eu só queria saber como eles conseguiram toda essa grana...

— Você não acha que essas suas expressões são um tanto grosseiras?

Ele deu de ombros, já agora num antagonismo ostensivo, e ela desconfiava que o seu intuito era provocá-la. Era uma coisa que já acontecera na lanchonete, mas que também já vinha de muito mais longe. Ele comparava o padrão de vida deles com o de uma outra pessoa. Teria Charity imaginado que Brett aprovaria sem restrições, automaticamente, o padrão de vida dos tios só para fazer-lhe a vontade? Um padrão de vida que ela nunca tivera, talvez por falta de sorte, talvez por estupidez de sua parte ou ainda talvez pelas duas coisas? Não teria ele o direito de criticar e analisar?

Claro que ela lhe reconhecia esse direito, mas jamais imaginara que as suas conclusões fossem tão perturbadoras, sofisticadas, precisas e negativas, embora fossem apenas intuitivas.

— Acho que foi o Jim quem ganhou o dinheiro. Você sabe o que ele faz...

— Claro que sei. Ele é um quebra-galhos.

Dessa vez, porém, ela se recusava ao envolvimento.

— Se você quer ver as coisas dessa forma... Eles se casaram quando Jim ainda estava na universidade, estudando para o vestibular. Na Universidade do Maine, em Portland. Depois, quando entrou para a escola de Direito em Denver, ela trabalhou em vários empregos duros para ajudá-lo. Muita gente faz isso. As mulheres trabalham para que os maridos se formem em alguma profissão.

Ao mesmo tempo que falava, Charity olhava em torno, procurando a irmã mais moça, e acabou descobrindo-a numa das seções.

— Então, quando Jim se formou, eles vieram morar aqui deste lado. Jim começou logo a trabalhar para um escritório de advocacia em Bridgeport. Um escritório importante. Não ganhava muito nessa ocasião. Moravam num pequeno apartamento de terceiro andar, onde não havia refrigeração no verão e onde a calefação era bem precária no inverno. Ele deu um duro danado e hoje já é sócio da firma. Acho que ganha muito bem, dentro de nossos padrões.

— É bem possível que ela gosto de exibir os seus cartões de crédito, porque ainda se

sente pobre por dentro, não é mesmo, mamãe?

Charity ficou muito impressionada com aquela estranha percepção do filho. Já não estava mais zangada e afagou-lhe os cabelos

— Mas você disse agora mesmo que gostava dela.

— Mas claro que gosto mesmo, mamãe! Olhe. Ali está ela.

— Eu já vi, Brett.

Foram ao seu encontro. Ela já estava cheia de embrulhos com cortinas e agora ia procurar as toalhas de mesa.

 

O sol finalmente desaparecera por trás da casa.

Pouco a pouco, o forno que era o interior do carro começou a refrescar. Uma brisa mais ou menos constante começou a soprar e Tad aproveitava-a com o rosto junto da parte aberta da janela. Já se sentia melhor do que durante todo o dia. Por enquanto, pelo menos. Aliás, todo o resto do dia anterior agora já lhes aparecia como um terrível pesadelo. Pesadelo esse de que ele só se recordava em partes. Ocasiões houvera em que ele simplesmente se ausen-tara, em que saíra do carro e fora embora. Lembrava-se disso. Tinha ido montado num cavalo. Cavalgara numa planície cheia de coelhos que brincavam como naquela peça infantil no Teatro da Lanterna Mágica, onde fora com seus pais. Havia um lago lá no fundo da planície onde nadavam uns patos. Eles eram bem mansinhos. Tad brincara com eles. Ali era bem melhor do que o lugar onde estava a mamãe, porque era lá que estava o monstro que fugira de seu closet. Junto dos ratos não havia monstros. Ali era muito bom. Ele gostava do lugar, embora soubesse, de um modo muito vago, que, se ficasse por ali com os patos muito tempo, depois não saberia como voltar para o carro.

Continuar: parte 4 de 4