Cão Raivoso

Stephen King · Capítulo 3 de 4 · parte 2/4

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Cão Raivoso

O animal bateu de encontro ao vidro…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

E o melhor de tudo seria que o carteiro viria mesmo que não houvesse correspondência para o Joe. Era sua obrigação passar por ali e verificar se a bandeira estava hasteada, significando que havia cartas para enviar. Ele teria que vir até ali no fim da Rodovia 3, que era o seu ponto final e onde seria recebido por uma mulher aliviada e histérica.

Olhou para a lancheira de Tad, onde ainda havia alguma coisa para comer e que ela guardara cuidadosamente para o caso de... Agora aquilo já não tinha mais importância, a não ser que o menino acordasse com fome. Comeu o que sobrara dos pepinos porque sabia que Tad não gostava. Agora já imaginava sorrindo que aquela seria uma estranha primeira refeição para ele. Chocolate, azeitonas e biscoitos.

Ao mesmo tempo que mastigava a comida, ia concluindo que o seu maior pavor tinham sido as coincidências. Era uma série de coincidências bem desencontradas que imitavam uma espécie de destino fatal. E fora aquilo que contribuíra para que o cão tão cheio de más intenções.., tão disposto a fazer dela a sua vítima. A ausência de Vic durante 10 dias fora a primeira coincidência. O seu telefonema naquela manhã fora a segunda. Se houvesse telefonado mais tarde, ele não teria conseguido falar e então ficaria tentando. sem saber bem onde os dois poderiam estar. A terceira era o fato da família toda de Joe não ter passado a noite em casa. A mãe, o filho e o pai. Todos ausentes com exceção apenas do cachorro, daquele cachorro que ali estava. Eles tinham...

E só então ela foi assolada por um pensamento tão horrível que nem mesmo deu para engolir o último pedaço de pepino que tinha na boca. Procurava afastar aquela idéia mas nada conseguia. Ela logo voltava. E isso porque era uma idéia lógica, embora pavorosa.

E se eles estivessem todos mortos, ali mesmo na oficina?

Dentro de um instante, aquela idéia a dominou. Tinha a nitidez pouco saudável daquelas visões que surgem geralmente durante as madrugadas, quando ainda não estamos completamente acordados. Ela via os três corpos amontoados lá no chão como se fossem brinquedos; via também a serragem em torno deles vermelha de sangue e os olhos vidrados fitos na escuridão do telhado onde as andorinhas tinham seus ninhos. Via-lhes as roupas estraçalhadas e mastigadas...

Mas isso é uma loucura.., isso e...

Talvez o menino tivesse sido o primeiro... O pai e a mãe estariam na cozinha comendo alguma coisa, ou talvez no sobrado.., quando ouviram os gritos e saíram correndo...

(pare com isso, Donna. Pare...)

...mas o menino já estava morto, com a garganta aberta. E, então, enquanto ficam

estatelados diante do corpo do filho, o São Bernardo sai das sombras e precipita-se como se fosse uma terrível máquina de destruição, atira-se contra a mulher primeiro enquanto o marido tenta salva-la...

(não, ele teria apanhado a espingarda ou então teria tentado liquidar o animal com alguma ferramenta pesada mas, então, onde é que estava o carro? Havia um carro ali antes da viagem da família... A VIAGEM DA FAMILIÁ... você está ouvindo? Eles saíram com o carro e deixaram o caminhão...)

Então por que ninguém aparecera para dar comida ao animal? Era ali que estava a lógica da coisa, uma parte da qual deixava-a apavorada. Por que ninguém viera para dar comida ao animal? Se iam ficar fora um ou dois dias, certamente combinariam com alguém a respeito da comida do bicho. A pessoa atendia à alimentação do cão e eles então cuidariam de animais que ela tivesse quando também se decidisse a viajar. Poderia ser um gato, peixes ou um papagaio...

E o cão estava sempre voltando para a oficina. Teriam deixado comida para ele ali?

Ela sentia-se aliviada por haver encontrado a resposta.

Eles não tinham ninguém para tomar conta do cachorro e então tinham deixado uma grande quantidade de comida na oficina. Alguma daquelas rações caninas que se vendem em toda a parte.

Mas aí ela ficou no mesmo beco sem saída em que Joe se encontrara antes, na manhã daquele dia tão longo. Um cachorro grande como aquele engoliria tudo de uma vez e depois passaria fome. Claro que seria melhor encontrar alguém que fizesse aquilo enquanto eles estavam fora. Por outro lado, era bem possível que houvesse ficado retido em algum lügar. Era possível que realmente tivesse havido a reunião da família e que Joe estivesse curtindo a sua bebedeira. Podia ser isso, podia ser aquilo, podia ser qualquer coisa.

Será que o animal está comendo lá dentro da oficina?

(O que estará ele comendo lá? Será a sua ração ou será gente?)

Ela cuspiu o pepino que ainda tinha na boca e sentiu que ia vomitar tudo que comera. Fez um grande esforço para que tal não acontecesse e conseguiu, porque sabia como fazer quando queria mesmo alguma coisa. Eles tinham deixado comida para o cão e saído no carro. Não era preciso ser nenhum Sherlock Holmes para chegar a uma tal dedução. O resto nada mais era senão um caso sério de presságios sem sentido.

Aquela imagem da morte, no entanto, estava sempre querendo se infiltrar novamente. A idéia dominante era daquela serragem ensangüentada, com uma cor já escura.

Pare com isso. Pense no carteiro, se é que precisa mesmo pensar em alguma coisa.

Pense no dia de amanhã. Pense que já escapou daqui.

Ouviu um barulhinho lá fora ao lado da porta.

Ela não queria olhar, mas foi incapaz de conter-se. Sua cabeça começou a se virar, como se ímpelida por mão invisível. Ouvia estalar os tendões do pescoço. Cujo estava ali olhando para ela.

O rosto do animal se achava bem pertinho do dela, apenas separados pelo vidro de segurança da janela do carro. Os olhos vermelhos e lacrimejantes estavam .fitos nos dela. O focinho parecia ter sido todo besuntado com espuma de um creme de barbear que ainda não secara.

O animal arreganhava os dentes para ela.

Ela sentiu o grito que lhe subia pela garganta porque percebia, sem sombra de dúvida, que o animal estava pensando nela, estava dizendo-lhe: Eu vou te pegar, fílhota. Eu vou te pegar, meu bem. Pode pensar quanto quiser naquele carteiro. Eu também pegarei ele se isso for preciso, da mesma forma que peguei toda a família de Joe. Da mesma forma que vou pegar você e o seu filho. O melhor mesmo é ir-se acostumando com a idéia. O melhor mesmo é...

Ó grito pouco faltava para lhe escapar. Era como se fosse uma coisa viva querendo sair e tudo ocorria no mesmo instante. Tad queria se aliviar e então ela descera um pouquinho o vidro e levantara o filho sempre com atenção no cachorro. Ele custara a se decidir e ela já estava com os braços cansados. Houvera ainda o sonho e as imagens da morte e agora ali estava aquilo...

O cão olhava-a com os dentes arreganhados. Era como se estivesse fazendo uma careta para ela. Ele se chamava Cujo, mas o nome de sua dentada era morte.

Não podia mais evitar o grito... estava quase louca para deixá-lo escapar.

(Mas ali estava Tad dormindo)

Trancou a garganta contra o grito, da mesma maneira que já a trancara antes, com sucesso, para não vomitar. Foi uma verdadeira luta. O coração, afinal, recuperou seu batimento normal e ela se deu conta de que vencera a batalha.

Ela sorriu para o animal, fechou a mão e esticou dois dedos na cara dele, do outro lado do vidro que já estava bem embaçado do lado de fora, por causa da respiração do bicho. Então, falando bem baixinho, proferiu um impropério para ele.

Depois de um tempo que pareceu interminável, o animal desceu as patas da frente e voltou para a oficina. E então o seu espírito enveredou novamente por aquela mesma trilha escura.

(o que será que ele está comendo lá dentro?)

Logo depois, porém, ela bateu com força a porta que ainda estava aberta em sua mente.

Claro que não conseguiria mais dormir e ainda faltava muito para o dia raiar. Ela empertigou-se por trás do volante, tremendo e repetindo-se inúmeras vezes que era ridículo, realmente ridículo, achar que aquele animal era uma espécie de assombração nojenta que fugira do closet de Tad, ou ainda que ele estava mais a par da situação do que ela própria.

 

Vic despertou assustado na completa escuridão do quarto e sentindo a garganta completamente seca. O coração batia-lhe descompassado e ele sentia-se desorientado, tão desorientado que até chegou a pensar que ia cair. Então segurou-se na cama.

Fechou os olhos durante um momento, esforçando-se para se concentrar e para ver as coisas claras.

(você está no)

Abriu os olhos e viu a janela, a cama e a lâmpada de cabeceira.

(Hotel Ritz-Carlton, em Boston)

Sentiu-se mais tranqüilo. Com aqueles pontos de referência tudo voltava à realidade, sem contudo explicar como se perdera tão completamente, apesar de apenas por um breve momento. Achava que só poderia ser devido ao fato de estar num lugar estranho. Isso como também o pesadelo.

O pesadelo! Deus do céu! Aquilo fora o máximo! Não conseguia recordar-se de nada semelhante desde aqueles pesadelos de quedas que o haviam perseguido na puberdade. Pegou o relógio na mesa-de-cabeceira e aproximou-o bem do rosto para ver as horas. Faltavam 20 minutos para as duas. Roger roncava baixinho na cama ao lado. Agora, com os olhos acostumados à escuridão, ele o via ali deitado de barriga para cima. Tinha atirado longe o lençol e estava enfiado mim incrível pijama amarelo, cheio de pequeninas bandeiras de universidades.

Vic saltou da cama, entrou no banheiro e fechou a porta. Os cigarros de Roger estavam ali no lavatório e ele tirou um. Estava bem precisado. Sentou-se na privada e começou a fumar, soltando as cinzas no vaso.

Donna diria que aquele fora um pesadelo cheio de ansiedades e só Deus sabia que ele tinha mesmo razão para ser vítima daquilo. Apesar de tudo ele fora para o quarto às dez e meia, sentindo-se melhor agora do que durante toda a semana anterior. Após voltarem ao hotel, haviam passado meia hora no bar discutindo a respeito da idéia da desculpa. Então, Roger enfiara a mão no bolso, tirando das entranhas de uma alentada carteira que o acompanhava sempre o telefone da residência de Yancey Harrington, o ator que fazia o Professor para os comerciais da Sharp.

— O melhor mesmo é saber se ele topa a parada antes de prosseguirmos com a idéia, Vjc.

Dali mesmo ele telefonara para Westport, onde morava o ator, sem saberem exatamente o que os esperava. Tinha quase a certeza que ele iria resistir um pouco e que precisaria ser amansado. Ele não gostara nada de toda aquela trapalhada da Zingers e achava que tinha sido prejudicado. Sua imagem fora afetada.

O resultado foi uma agradável surpresa para todos. Harrington topou logo a parada sem discutir detalhes. Ele reconhecia as realidades da situação e sabia que o Professor estava completamente liquidado. Chegara mesmo a dizer que “o pobre coitado está liquidado”. Ele achava, porém, que aquele último comercial poderia fazer com que a companhia se salvasse do atoleiro. Que entrasse novamente nos trilhos, por assim dizer.

— Tudo isso é conversa fiada, Vic. Ele só quer mesmo aparecer em cena para a despedida mais uma única vez. Não são muitos os atores de comerciais que têm a mesma sorte. Aposto como se sujeitaria a pagar sua passagem de avião até aqui se nós assim o exigíssemos.

E então Vic fora para a cama, sentindo-se feliz, e adormecera quase instantaneamente. Depois, então,. viera o pesadelo. Ele estava de pé diante da porta do closet de Tad, dizendo-lhe que ali não havia nada. Absolutamente nada. E eu vou mostrar a você de uma vez por todas, Tad. Ao abrir a porta, percebeu logo que todas as roupas e brinquedos do filho tinham desaparecido. Ali dentro do closet existia agora uma floresta de pinheiros e outras árvores velhas. O piso estava coberto de espinhos dos pinheiros e de folhas já bem murchas. Ele abaixara-se para raspar a terra e ver se ainda havia ali o piso de madeira antigo, mas nada encontrara. Seu pé só encontrava terra escura e rica, como as terras das florestas.

Quando entrou no closet, a porta logo se fechou nas suas costas mas isto não o preocupou. Ainda havia luz suficiente para ele ver uma trilha e logo enveredou por ali. Percebeu então, de repente, que estava com uma mochila às costas e um cantil a tiracolo. Ouvia o som misterioso do vento fustigando as árvores e o canto longínguo um passarinho. Sete anos antes, muito antes de haver organizado a firma com Roger, tinham ido todos a uma excursão nos Apalaches num período de férias e a, terra lá bem parecia com aquela que via agora no sonho. Só uma vez haviam feito aquilo, porque das outras vezes sempre preferiam ficar nas praias. Vic, Donna e Roger tinham ficado encantados, mas Althea detestara a escalada, pois voltara, com uma alergia na pele produzida por um arbusto venenoso, e que resultara em terríveis coceiras.

A primeira parte do sonho tinha sido até bem agradável. Achava uma verdadeira

maravilha, dentro de toda a sua fantasia, o fato do closet estar com tudo aquilo. Chegara então a uma clareira onde vira... Tudo, porém, já estava começando a desaparecer, como sempre acontece com os sonhos na hora em que a pessoa desperta.

O outro lado da clareira era um muro cinzento a prumo e que devia ter uns 300 metros de altura. A uns seis metros acima do solo havia uma caverna.., não, não era propriamente uma caverna, já que não tinha profundidade suficiente. Era mais parecido com um nicho, uma depressão na pedra com um patamar. Donna e Tad estavam lá dentro, encolhidos e apavorados com uma espécie de monstro que tentava pegá-los de qualquer maneira. Queria devorá-los.

Era uma coisa parecida com a cena do King Kong original, depois que o enorme macaco afugenta os possíveis salvadores de Fay Wray e procura agarrar o único sobrevivente, que se escondera num buraco.

Só que o monstro de seu sonho não era um macaco gigantesco. Era um... Seria um dragão? Não, não era nada parecido com dragão. Não era dragão nem dinossauro, então o que poderia ser? Fosse lá o que fosse, no entanto, o fato era que ele não conseguia pegar Donna e Tad e então simplesmente ficava ali fora, à espreita, como se fosse um gato esperando pacientemente pelo seu rato.

Ele saiu correndo, mas, por mais que corresse, nunca conseguia chegar do outro lado da clareira. Ouvia os gritos de Donna pedindo socorro, mas quando lhe gritava de volta, suas palavras nunca passavam de uns três palmos de distância. Fora Tad quem, afinal, o descobrira.

Ouvia o grito desesperado do filho.

Papai! Isso não funciona! As Palavras Para os Monstros não funcionam mais, Papai!

Papai! Elas não funcionam mais! Você mentiu para mim, papai! Você mentiu!...

Vic. corria, mas não adiantava nada. E quando olhara para a base do muro, ele vira ali velhos ossos e crânios que pareciam rir, alguns deles já cobertos de musgo.

E foi nesse ponto que acordou.

Afinal de contas, que diabo de monstro era aquele?

Ele, simplesmente, não conseguia lembrar-se. Já então o sonho parecia ser uma coisa vista pelo lado errado do telescópio. Jogou o cigarro dentro do vaso e acionou a descarga.

Urinou, apagou a luz e voltou para cama. Na hora em que já estava deitado, ele viu o telefone e foi acossado por um desejo irresistível de telefonar para casa. Seria aquilo irracional? Achava que a expressão ainda era fraca. Eram 2:10 da madrugada. Ele não somente iria acordá-la, como também pregar-lhe um susto dos diabos. Os sonhos nunca deviam ser interpretados literalmente. Todo mundo sabia disso. Quando alguém tinha problemas com o casamento e com os negócios, ao mesmo tempo, não era realmente do admirar se a cabeça não funcionasse bem.

Ainda assim, só para ouvir a voz dela... e saber que tudo está bem em casa.

Deu as costas ao telefone, socou bem o travesseiro e fechou os olhos, resolutamente.

Telefone para ela de manhã, se é que isso faz com que se sinta melhor. Telefone logo

depois do café...

Sentiu-se melhor e logo depois já estava dormindo. Dessa ver não houve sonho. Se houve, foram apenas sonhos sem importância que não ficaram marcados no seu consciente. Quando o despertador tocou na terça-feira ele já se esquecera do pesadelo com aquele monstro da clareira. Nem mesmo se lembrava se havia ou não ido ao banheiro à noite. E então nem mesmo telefonou naquele dia para casa.

 

Charity acordou na terça-feira, às cinco em ponto, e também passou por um período de desorientação. As paredes eram revestidas da papel amarelo em vez de madeira, as cortinas eram estampadas em verde ao invés de chita branca e a cama era de solteiro, em lugar da larga cama de casal já bem batida e que começava a afundar no meio.

Acabou, porém, descobrindo onde estava e sentiu então uma grande satisfação. Iria ter o dia inteiro para conversar com a irmã, para relembrar os velhos tempos, para ficar sabendo o que ela fizera durante todos aqueles anos. Holly dissera-lhe que pretendia ir a Bridgeport para fazer compras.

Ela despertara hora e meia mais cedo do que de costume e foi somente umas duas horas depois que a casa começou a dar sinais de vida. Sabia que ninguém dorme bem numa cama estranha senão depois da terceira noite. Era o que sua mãe costumava dizer, o que não deixava de ser verdade.

Estava ainda deitada e prestando atenção quando o silêncio foi cedendo lugar aos pequenos ruídos e a primeira luz da manhã já se infiltrava por uma fresta das cortinas, era o alvorecer com sua luz muito clara e agradável. Ouviu uma tábua que estalava. Um passarinho já começava a sua atividade diária. Ouviu o barulho do primeiro trem que levava os passageiros diários para Westport, Greenwich e Nova York.

A tábua do assoalho estalou outra vez.

E ainda mais outra.

Aquilo, porém, não era um estalo da casa se acomodando. Eram passos.

Charity sentou-se na cama, agasalhando-se com o lençol e coberta até o peito, já que estava com uma camisola vermelha muito leve. Os passos agora já desciam a escada, procurando não fazer barulho. Eram passos leves de alguém descalço ou então só de meias. Era o Brett. Quando se vive muito tempo com alguém, os seus passos ficam logo conhecidos. Isso era uma dessas coisas misteriosas que simplesmente acontecem com o decorrer dos anos, como a forma de uma folha se inserindo numa pedra.

Ela atirou fora as cobertas, levantou-se e foi até a porta. O quarto dava para o hall da escada e ela só conseguia ver a parte superior da cabeça de Brett, que logo desapareceu.

Charity saiu ao seu encalço.

Quando chegou no topo da escada, ele estava justamente desaparecendo lá embaixo, no corredor que acompanhava toda a largura da casa, desde a porta da entrada até a cozinha. Chegou a abrir a boca para chamá-lo, mas logo desistiu. Sentia-se intimidada naquela casa adormecida que não era a sua.

Havia alguma coisa na maneira como ele andava.., a postura de seu corpo... mas já se haviam passado anos desde que...

Desceu a escada descalça, sem fazer barulho, e foi encontrá-lo na cozinha. Ele estava

somente com as calças do pijama, cujo cordão caía-lhe até as virilhas. Embora ainda não houvessem chegado ao meio do verão, ele estava bem queimado. Era moreno como o pai e queimava-se com facilidade.

EIa ficou de pé áli na porta da cozinha, olhando-o de perfil. A luz bela e clara da manhã batia em seu corpo enquanto ele procurava o que queria no meio de todo o equipamento da cozinha. Seu coração enchia-se de admiração e de medo. Ele é lindo! Ele tem tudo que há de belo em todos nós.

Aquele foi um momento que ela jamais esqueceu. Via o filho ali só com as calças do pijama e então, durante um momento, chegou a compreender vagamente o mistério de sua meninice que, em breve, estaria ultrapassada. Os seus olhos de mãe adoravam as curvas graciosas de seus músculos, a linha de suas nádegas e as solas de seus pés. Ele lhe dava a impressão de ser... completamente perfeito.

Ela via tudo aquilo claramente porque ele não estava acordado. Na infância ele tivera episódios de sonambulismo entre os quatro e oito anos. Mais ou menos uma dúzia deles. Ela ficara muito preocupada e procurara o Dr. Gresham, sem que o marido soubesse. O seu temor não era o pensamento do filho estar ficando maluco, já que isso era fácil de constatar para qualquer um que convivesse com ele e visse como era inteligente e normal. Só tinha medo de que alguma coisa lhe acontecesse durante uma daquelas crises de sonambulismo, mas o médico tranqüilizara-a a esse respeito. Dissera-lhe que todas as coisas estranhas ditas a respeito do sonambulismo deviam-se unicamente, a filmes baratos que não se respaldavam em pesquisas sérias.

— Nós conhecemos muito pouco a respeito de sonambulismo, mas sabemos que á maioria dos casos acontece com crianças muito mais do que com adultos. Existe um crescimento, uma espécie de maturidade, na interação entre a mente e o corpo. Muitos dos pesquisadores desse assunto acreditam que o sonambulismo pode ser um sintoma de um desequilíbrio entre os dois que, aliás, pode ser temporário e que não é coisa de grande importância.

— São como as dores do crescimento, doutor?

— Exatamente. É coisa bem parecida.

A resposta dele veio acompanhada de um sorriso, ao mesmo tempo que desenhava num bloco uma curva, insinuando que o sonambulismo de Brett poderia chegar a um ponto máximo, onde permaneceria durante algum tempo estacionário, para depois ir diminuindo gradativamente até desaparecer por completo.

Ela voltara para casa mais tranqüila com a explicação do médico e com a sua opinião garantindo-lhe que ele não iria saltar de uma janela ou coisa parecida; mas, ainda assim, não se sentia bem esclarecida. Uma semana mais tarde, levou o filho ao consultório do médico para ser examinado. Ele tinha acabado de fazer seis anos um ou dois meses antes e o médico examinara-o minuciosamente, concluindo que se tratava de um menino perfeitamente normal em todos os sentidos. E tudo indicava que o diagnóstico estava certo. O seu último acesso fora há mais de dois anos.

O último, até este que ela via ali agora.

Ele ia abrindo todos os armários e tomava a fechá-los cuidadosamente. Ali estavam todos os utensílios de cozinha de Holly bem arrumadinhos, tudo nos seus lugares certos. Brett tinha os olhos bem abertos embora parecessem vidrados e ela sentiu uma certeza íntima que ele deveria estar vendo tudo aquilo em um outro lugar. E aquilo deixava-a apavorada.

Ela sentia ali aquele mesmo terror de antes, que já quase esquecera, como acontece com todos os pais, dos alarmas e das excursões dos filhos em seus primeiros anos. Eram os dentes que nasciam; eram as vacinas que traziam febres altas como uma espécie de atração a mais; a difteria; as otites; as mãos ou pernas que, de repente, começavam a sangrar sem razão alguma. Em que estará ele pensando? Onde estará ele? E por que esta repetição depois de dois anos de completa tranqüilidade? Será devido ao fato de se encontrar numa casa estranha? Ele não se mostrara inquieto durante todo o dia. Só agora lhe aparecia aquilo.

Ele abriu o último armário e tirou de lá uma vasilha vermelha, que colocou na sua frente. Depois, fingiu que estava pegando mais alguma coisa no ar e que enchia a vasilha. Ela sentiu um calafrio correr-lhe pela espinha ao descobrir o sentido daquilo tudo que ele estava fazendo. Ou fingindo que fazia. Era a sua rotina de todos os dias quando levava a comida para o Cujo.

Ela deu um passo à frente, quase sem querer, mas parou logo. Não acreditava naquelas invencionices de comadres a respeito das coisas ruins que podem acontecer se despertarmos um sonâmbulo. Diziam elas que a alma fugiria do corpo e que isso poderia resultar em loucura, ou até mesmo em morte súbita, mas Charity não recorreria ao médico se acreditasse em tais tolices. Lera um livro emprestado da Biblioteca de Portland, mas nem mesmo precisara dele. Tinha bom senso suficiente para saber que a única coisa que acontece quando se desperta um sonâmbulo é que ele logo acorda em seu estado normal. Nada mais nada menos. Talvez houvesse lágrimas ou alguma histeria, mas tudo isso não passaria de simples falta de orientação.

De qualquer modo, ela nunca chegara a despertar o filho durante as crises anteriores e não faria isso agora. O bom senso era uma coisa, mas o seu pavor irracional era outra e ela sentia-se dominada pelo medo, sem saber como explicar aquilo. O que poderia haver de tão horrível naquela pantomima do filho dando a comida do cachorro? Aquilo era coisa natural, levando-se em conta a sua preocupação pelo bicho.

Ele estava agachado estendendo a vasilha, o cordão do pijama formando uma linha em ângulo reto em cima do linóleo vermelho e preto da cozinha. O seu rosto era uma pantomima em câmara lenta demonstrando sua tristeza. Ele falou, mas as palavras lhe saíam arrastadas e difíceis de entender, como geralmente acontece com quem fala durante o sono. Não havia inflexão alguma nas palavras, já que tudo se passava em seu íntimo, dentro do casulo do sonho que tinha sido forte o bastante para deflagrar aquela crise de sonambulismo depois de tantos anos tranqüilos. Nada havia de inerentemente melodramático nas palavras rápidas e no suspiro do sonâmbulo, mas isso não impediu que Charity levasse a mão ao pescoço, demonstrando grande aflição. Sua pele estava completamente gelada.

Logo depois do suspiro, ele resmungou:

— O Cujo não está mais com fome. — Levantou-se então, a vasilha de encontro ao peito. — Não está mais... não está mais,...

Permaneceu durante algum tempo encostado aos armários, e sua mãe fez a mesma coisa lá na porta da cozinha. Uma lágrima solitária descera pelo rosto dele. Tornou a colocar a vasilha no armário e caminhou para a porta. Tinha os olhos bem abertos, mas eles passaram indiferentemente pela mãe como se ela não estivesse ali. Parou e olhou para trás.

— Vá procurar ali no mato — ele falou para alguém que estava ali.

Depois çaminhou de novo em direção à porta.

Charity afastou-se para lhe dar passagem, sem tirar a mão da garganta. Brett passou por ela sem fazer barulho, pois estava descalço, e caminhou para a escada. Ela ia segui-lo, quando se lembrou da vasilha que ele deixara no lugar, como se fosse o ponto focal de um estranho quadro.

Seus dedos suados estavam escorregadios e a vasilha escapou-lhe das mãos, mas foi logo recuperada como num passe de mágica, não se espatifando ali no chão da cozinha com um barulho que poderia despertar a casa toda. Colocou-a direitinho em seu lugar e fechou a portinha do armário. Ficou ali apenas um momento, ouvindo o coração bater-lhe descompassadamente e sentindo-se uma intrusa ali naquela cozinha que não era a dela. Depois subiu novamente, para ver o que havia com o filho.

Chegou na porta de seu quarto no momento exato em que ele se metia novamente na cama. Puxou as cobertas e rolou para o lado esquerdo, como era o seu costumo na hora de dormir. Embora soubesse que tudo estava terminado, ela ainda ficou ali durante alguns instantes.

Ouviu alguém tossir no corredor e lembrou-se, outra vez, do que não estava em sua casa. Sentiu uma grande saudade de casa. Durante alguns instantes, sentiu como se o seu estômago estivesse cheio de gás da espécie que os dentistas usam para anestesiar os pacientes. Ali, à luz daquela manhã tranqüila, seus pensamentos a respeito de divórcio pareciam imaturos como se fossem pensamentos de criança no que dizia respeito as realidades da vida. Ali onde estava era-lhe mais fácil pensar em coisas dessa natureza. Ali não era a sua casa. Não era o seu lugar.

Por que se apavorara tanto com aquela pantomima da comida do cachorro e daquelas suas rápidas palavras dizendo que o cão não queria mais comer?

Ela voltou ao seu quarto e deitou-se até o sol sair. Na mesa do café, Charity notou que não havia nenhuma diferença no filho. Não falou mais no cachorro e até mesmo parecia ter esquecido o desejo de telefonar para casa, pelo menos por enquanto. Depois do pensar bem no caso, Charity achou que seria melhor dá-lo como definitivamente encerrado. -

 

Fazia muito calor.

Donna abriu mais um pouquinho o vidro da janela até um ponto que lhe parecia seguro; depois, fez o mesmo com a janela do outro lado, curvando-se por cima de Tad. Foi nessa hora que ela percebeu aquela folha de papel amarrotada no colo dele.

—O que é isso, Tad?

Ele levantou a cabeça e ela reparou que estava com olheiras.

— São as Palavras Para os Monstros, mamãe...

— Posso ver?

Ele apertou o papel durante um momento antes de entregá-lo. Havia na expressão de seu rosto um ar cauteloso de proprietário que chegou a causar-lhe ciúmes. Foi coisa rápida, mas bem forte. Até ali ela vinha conseguindo mantê-lo vivo e incólume, mas era aquela porcaria de Vic que tinha importância para ele. Depois, o sentimento transformou-se em espanto, tristeza e insatisfação íntima. Em primeiro lugar, fora ela que o metera naquela enrascada. Fizera-lhe à vontade a respeito da moça que ia ficar tomando conta dele em casa.

— Guardei isto no bolso ontem, quando saímos para fazer as compras... Mamãe... você acha que o monstro vai comer a gente?

— Não é um monstro, Tad. É simplesmente um cachorro e ele não vai comer ninguém. Eu já disse a você que quando o carteiro passar nós vamos sair daqui.

Ela falava mais irritada do que pretendia.

Eu também já disse a ele que o carro ia funcionar logo, logo... Disse que logo viria

alguém... Que o Joe e a família logo estariam de volta...

Mas sabia que nada daquilo tinha importância agora.

— Você quer me dar o papel de volta, mamãe?

Durante um momento, ela chegou a pensar em rasgar aquele papel sujo e amarrotado em pedacinhos, para atirá-los pela janela como confete. Acabou entregando-o ao filho e passando as mãos pelos cabelos, envergonhada e apavorada. Pelo amor de Deus! O que estaria acontecendo com ela? Como poderia alimentar um pensamento tão sádico? Por acaso estaria ela desejando tomar as coisas ainda piores do que já estavam? Seria por causa de Vic? Dela mesma? O que, então, podia ser?

O calor estava insuportável. Estava quente demais para poder pensar. O suor escorria-lhe pelo rosto e ela notava que Tad também estava nas mesmas condições. Os cabelos estavam colados à

sua cabeça e pareciam agora de um louro mais escuro do que eram na realidade. Aquilo fez com que pensasse novamente no xampu Johnson que estava no armário do banheiro à espera de alguém que o usasse.

(não se descontrole)

Não. Claro que não. Ela não tinha razão alguma para se descontrolar agora. Tudo ia ser resolvido em breve. Ou não ia? Claro que ia mesmo!

Ela nem mesmo via o cão em parte alguma. Já fazia uma hora que ele não aparecia. E havia também o carteiro. Já eram quase 10 horas. Ele iria chegar logo, logo. E, então, já não faria diferença quanto à temperatura ali dentro do carro. O que ela sentia era o chamado “efeito de estufa”. Já lera alguma coisa a respeito, onde se explicava que ninguém devia deixar um cão trancado dentro do carro durante muito tempo quando o calor fosse forte. Por causa do efeito de estufa. O panfleto que lera dizia que a temperatura de um carro estacionado em pleno sol poderia chegar acima de 40 graus se as janelas estivessem bem fechadas. Assim sendo, era não só cruel, mas também perigoso, deixar um animal de estimação trancado no carro enquanto o dono vai às compras ou ao cinema. Donna achou graça naquilo. O caso agora era completamente diferente. Era o cachorro que os mantinha ali fechados.

Muito bem. Estava na hora do carteiro. Ele iria chegar e tudo estaria resolvido. Já não tinha importância o fato de só lhes restar uma quarta parte do leite que estava na garrafa térmica. Tampouco importava o fato dela haver usado a garrafa térmica de Tad, que era menor, para aliviar a bexiga e que, afinal, transbordara por ser muito pequena. O carro agora tresandava cada vez mais a urina, à medida que o calor aumentava. Ela tampara a garrafa e jogara-a pela janela, ouvindo o barulho quando se quebrara no cascalho da entrada. Depois disso, chorara.

Nada mais importava, no entanto. Claro que era humilhante e impróprio tentar mijar numa garrafa térmica, mas o carteiro ia passar e tudo estaria bem em breve. Naquele momento ele deveria estar carregando o seu pequeno caminhão azul e branco na sede dos correios toda coberta de hera que ficava na Rua Carbine... ou talvez, até mesmo, já houvesse começado a fazer as entregas na sua rota diária, subindo a Rodovia 117 em direção à Estrada Maple Sugar. Em breve tudo estaria acabado. Ela levaria Tad para a casa e os. dois subiriam para se despirem e entrarem no chuveiro juntos; e então ela pegaria àquele vidro de xampu, cuja rolha colocaria na beira da banheira, para ensaboar primeiro a cabeça de Tad e depois então a sua.

Tad estava lendo outra vez o papel amarelo e seus lábios se moviam sem articular qualquer som. Não estava realmente lendo, não como estaria dentro de uns dois anos (se é que um dia escaparemos desta, conforme seu pensamento traiçoeiro acrescentava com insistência). Estava apenas repetindo o que já decorara desde muito tempo. Era a mesma fórmula usada pelas escolas de motoristas, que preparavam iletrados para exames escritos. Ela sabia de tal particularidade por haver lido em algum lugar ou talvez visto na TV; e aquilo sempre a deixava admirada com a fertilidade da mentalidade humana quando se tratava de “quebrar um galho”. E também era de espantar como aquilo vinha a público quando não havia outro assunto. Era como se fosse a lata de lixo do subconsciente funcionando em sentido contrário.

Aquilo trouxe-lhe à lembrança uma coisa que havia acontecido em casa de seus país quando ainda morava com eles. Menos de duas horas antes dos Famosos Coquetéis (era assim que seu pai se referia sempre às recepções de sua mulher, em tom satírico que, automaticamente, exigia maiúsculas — aliás, era tão satírico que fazia Samantha ficar quase histérica) a pia da cozinha, que tinha o dispositivo para liquidificar os restos e enviá-los pelo esgoto, entupira e tudo fora expelido pela pia do bar, e quando sua mãe procurara remediar a situação fazendo funcionar novamente o dispositivo, tudo explodira e a sujeira, que mais parecia um mingau, chegara até o teto. Naquela ocasião, Donna devia andar pelos 14 anos, mas lembrava-se de ter ficado enojada e apavorada com a raiva histérica da mãe. Não gostava de ver aquela sua revolta contra pessoas que a amavam e que precisavam dela apenas para sa-tisfazer sua vaidade diante de um grupo de relacionamentos sem sentido, de supostas amizades fortuitas que apenas vinham para beber e comer o que ela lhes oferecia. Ficara apavorada porque não via lógica na atitude histérica da mãe.., e também por causa da expressão. que percebera no rosto do pai, uma expressão que mostrava uma espécie de nojo resignado. Ela acreditara naquela ocasião, mas acreditara mesmo, que ia crescer para ser uma mulher, mulher com um mínimo de possibilidade de vir a ser uma mulher bem melhor que sua mãe, que se comportava daquela maneira ante de uma coisa insignificante...

Ela fechou os olhos e tentou esquecer tudo aquilo, inquieta com as nítidas emoções que a recordação podia invocar. Já pensara no efeito da estufa e do acidente no coquetel da mãe. Agora no que mais poderia pensar? Pensar em Como Perdi Minha Virgindade? Pousar nas Seis Melhores Férias? Não. Ela agora só precisava pensar no carteiro. Naquele maldito carteiro que não aparecia.

— Mamãe... Quem sabe se o carro vai pegar agora?

— Meu amor, estou com medo de experimentar porque a bateria pode pifar também...

Ele agora já parecia petulante e cansado.

— Mas estamos aqui sentados sem fazer nada! Qual a. diferença que faz se a bateria vai pifar ou não? Nós não estamos fazendo nada. Estamos só sentados aqui... Por que não experimenta?

— Não tente me dar ordens, menino. A não ser que queira levar umas palmadas...

Ele encolheu-se todo, afastando-se dela diante de sua voz agressiva, e ela arrependeu-se amargamente, outra vez. Ele também estava tenso... como poderia culpá-lo? E, além disso, estava também com a razão. E fora justamente isso que a deixara furiosa. Só que ele não podia compreender. A única razão que tinha para não tentar virar o motor mais uma vez era o fato de que o barulho poderia trazer o cão de volta e era isso que a deixava apavorada. Não queria que acontecesse de forma alguma.

Com muito pouca vontade tomou a tentar, mas agora o arranque virava muito devagar, quase arrastando-se, e o motor não chegava a pegar. Ela desligou e apertou a buzina. O som foi também fraco, provavelmente não alcançando 50 metros de distância, quanto mais aquela casa que ficava lá embaixo.

— Pronto! E agora? Já está satisfeito? Muito bem.

A sua voz era áspera e cruel.

Tad começou a chorar. Começou da mesma maneira como ela ainda se lembrava, quando era ainda pequenino. A boca tremeu e as lágrimas saltaram antes mesmo que chegassem os primeiros soluços. Ela abraçou-o, pedindo-lhe desculpas e explicando-lhe que não era sua intenção magoá-lo. Ela também estava muito nervosa, mas tudo ia acabar logo, logo. Assim que o carteiro aparecesse. E então ia levá-lo para casa, ia lavar sua cabeça. Mas ao mesmo tempo pensava: Uma possibilidade de vir a ser uma mulher melhor que sua mãe. Claro, garoto. Sou igualzinha a ela. Ela diria exatamente o que eu disse numa situação como esta.

Quando se sentir mal, a melhor coisa a fazer é espalhar a infelicidade, participar da riqueza. É isso aí. Tal mãe tal filha. Não é mesmo? E então pode ser que, quando Tad crescer, a opinião dele a meu respeito seja a mesma que sentia quando...

— Por que é que está tão quente aqui, mamãe?

— É o efeito de estufa...

Ela respondeu quase sem sentir. Já não agüentava mais e sabia bem disso. Se aquilo, de qualquer forma, era um exame final de maternidade ou de idade adulta, ela seria reprovada. Quanto tempo já fazia que estavam ali encalhados? Talvez umas 15 horas, na máximo. E ela já estava se desintegrando toda.

— Você vai me dar uma Coca quando chegarmos em casa, mamãe?

O papel amarelo com as Palavras Para os Monstros estava ali em seu colo.

— Você poderá beber o que quiser, Tad.

Ela abraçou-o carinhosamente e sentiu que seu corpo estava rígido. Estava profundamente arrependida por haver gritado com ele. Não devia ter gritado.

Prometia a si mesma que nunca mais faria aquilo. Aliás, o carteiro devia estar chegando.

— Eu acho que o mons... que o cachorro vai comer a gente...

Ela ia responder, mas conteve-se. O cão ainda não aparecera. Não viera com o barulho do arranque e da buzina. Talvez estivesse dormindo. Talvez até já estivesse morto e isso seria uma maravilha. Só desejava que a morte tivesse sido dolorosa. Tornou a olhar para a porta da casa. Estava tão tentadoramente perto! Devia estar trancada. Ela agora tinha a certeza de que estava mesmo. Seria uma loucura tentar chegar até lá. O carteiro não podia demorar. Vic costumava dizer que a gente sempre deve levar as coisas muito á sério. Era o que ela devia fazer agora. Seria melhor imaginar que o animal ainda estava vivo e deitado por ali, talvez dentro da oficima. Na sombra.

Sentiu a boca cheia d"água quando pensou em sombra.

Já eram quase 11 horas. Uns 45 minutos depois, ela reparou numa coisa que estava lá no meio da grama, um pouco afastado da entrada da casa, do lado direito do cano. Depois de mais 15

minutos de observação, ela verificou que se tratava de um velho bastão de beisebol com fita isolante no punho e quase escondido no meio do capim alto.

Quinze minutos depois, Cujo saiu da oficina cambaleando, os olhos sempre vermelhos e lacrimejantes, piscando estupidamente para o sol.

Quando eles chegam para nos levar,

Quando aparecem juntos com o rabecão

Quando vem nos procurar

Com a intenção de levar nossa carcaça...

 

Aquela era a voz de Jerry Garcia, agradável mas já cansada, que vinha ecoando pelo corredor, ampliada e distorcida pelo radiozinho de pilha de alguém e que parecia estar sendo trazida por dentro,de um tubo de aço muito longo. Mais perto ainda havia alguém que gemia. Naquela manhã, quando descera aos banheiros malcheirosos para fazer a barba e tomar banho, ele tinha visto um amontoado de vômito num dos mictórios e uma grande mancha de sangue já coagulado num dos lavatórios.

Jerry Garcia continuava cantando.

— Deixa pra lá, boneca, mas não diga a ninguém que me conhece...

 

Steve Kemp estava de pé na janela de seu quarto, no quinto andar do edifício da ACM em Portland, olhando para a Spring Street e sentindo-se mal sem saber a causa. Sua cabeça estalava. Não podia esquecer Donna e as várias trepadas que dera com ela. Depois deixara-se ficar por ali, sem saber por quê.

Gostaria bem de estar no Idaho. Já desde algum tempo vinha pensando muito naquele Estado. E então por que não ia para lá de uma vez, ao invés de perder tempo por ali? Ele, simplesmente, não sabia. Não gostava de andar com a cabeça cheia de preocupações. Se continuasse assim jamais seria capaz de chegar a um. estado de serenidade e era justamente isso o que ele mais precisava. Era necessário para o desenvolvimento do artista. Olhara-se num dos espelhos do banheiro, todo salpicado de pasta de dentes, e chegara à conclusão de que estava ficando velho. Realmente velho. Ao voltar para seu quarto dera de cara com uma barata que ziguezagueava pelo corredor. Os presságios não eram nada bons.

Ela não me chutou pelo fato de eu ser velho. Não sou tão velho assim. Ela me chutou porque já estava cheia de mim. Já se satisfizera e acalmara a comichão que sentia. Fez isso porque não passa de uma puta e porque eu já lhe dei uma boa dose de seu próprio remédio. O que foi que o seu Bonitinho achou daquele meu bilhetinho, Donna? Ele engoliu aquilo?

Mas teria ele recebido o bilhete?

Steve apagou o cigarro numa tampa que servia de cinzeiro. Aquela era realmente a pergunta principal. Ou não era? Se aquela fosse respondida, todas as outras estariam também encaixadas direitinho em seus lugares. O domínio odiento que ela exercera sobre ele, ao mandá-lo cair fora antes que ele considerasse o caso terminado, tinha sido uma coisa muito séria. Com.todos os demônios...ele simplesmente fora humilhado por aquela mulher. E aquilo era muito importante para ele.

E então, de repente, descobriu o que devia fazer e o coração bateu-lhe acelerado por antecipação. Enfiou a mão no bolso e sacudiu as moedas que estavam ali. Saiu para a rua. Já era mais do meio-dia e, em Castle Rock, o carteiro, tão ansiosamente esperado por Donna, já tinha começado suas entregas na área que cobria a Estrada Maple Sugar e a Rodovia 3.

 

Vic, Roger e Rob Martin passaram toda a manhã de terça-feira nos escritórios da Image-Eye e depois saíram para tomar umas cervejas e comer alguma coisa. Depois de muitas cervejas e sanduíches Vic percebeu, de repente, que já estava mais “alto” de que jamais estivera em sua vida nas horas de expediente. Ele, geralmente, bebia apenas um coquetel ou um copo de vinho branco. Já tinha visto muita gente boa de Nova York, colegas seus de publicidade, que se afogavam lentamente naqueles antros escuros nas cercanias da Madison Avenue, sempre falando aos amigos a respeito de campanhas que nunca se realizariam, ou então se embebedavam o confidenciavam aos encarregados dos bares a respeito de romances que jamais escreveriam.

Aquela era uma estranha ocasião. Era metade de comemorado pela vitória e metade de uma espécie de velório. Martin ficara entusiasmado com aquela idéia de um último comercial com o Professor dos Cereais Sharp e dizia. que poderia talvez produzir quase dois quilômetros de filme.., sempre imaginando que iria ter a oportunidade. E aquela era a metade do velório. Sem a aprovação do velho e seu querido garoto, aquela idéia brilhante não valia coisa alguma. Estariam todos liquidados.

Nessas circunstâncias, Vic achava justificável a idéia de tomar um porre.

Agora, quando chegava a hora de maior movimento ali no restaurante, os três estavam sentados, em mangas de camisa, numa cabine dos fundos, com os restos da comida e as garrafas vazias ali em cima da mesa e o cinzeiro completamente cheio. Vic lembrava-se do dia em que ele e Roger estavam no Submarino Amarelo, em Portland, discutindo aquela viagem. Era uma ocasião em que tudo parecia estar errado no negócio deles. Por incrível que possa parecer, ele sentiu-se invadido por uma onda de nostalgia e ficou imaginando o que estariam fazendo Donna e Tad. Preciso não esquecer de telefonar para casa esta noite.., se não estiver bêbado.

— E agora o que faremos? Vocês vão ficar por aqui em Boston vão se mandar para Nova York? Posso conseguir ingressos para vocês assistirem o jogo do Boston contra o Kansas City, se quiserem. Pode ser que isso os anime, um pouco...

Vic olhou para Roger, que deu de ombros.

— Acho que vamos nos mandar para Nova York, Martín. De qualquer forma, agradeço-lhe o oferecimento. Não acredito que nenhum de nós esteja interessado em jogos agora.

— Roger tem razão. Nada mas temos a fazer aqui. Já discutimos muito e acho que todos concordamos com a idéia desse último comercial.

— Ainda temos muitas arestas para aparar, Vic. Ainda não há razão para se mostrar

orgulhoso...

— Nós podemos cuidar disso, Rob. Acho que só um dia com o pessoal do marketing será o suficiente. Você não acha, Vic?

— Talvez leve dois, Roger. Mesmo assim, não há razão para que não possamos liquidar

tudo com mais facilidade do que esperávamos no princípio...

— E então o que vamos fazer?

Vic sorriu levemente.

— Vamos telefonar para o velho Sharp e marcar uma audiência. Já estou vendo que

vamos acabar indo direto para Cleveland, depois de Nova York. Vai ser a Misteriosa Excursão Mágica.

— Ver Cleveland e morrer...

As cervejas chegaram. O garçom debruçou-se para Martin e falou-lhe baixinho:

— O patrão me pediu para lhe dizer que há gente esperando mesas, Sr. Martin...

— Pois muito bem. Vá dizer ao Sr. Jonhson que esta é a última rodada e que ele não precisa ficar se borrando todo. Certo, Rocky?

O garçom achou graça, sacudiu a cabeça e esvaziou o cinzeiro.

Martin voltou-se então para Víc e Roger.

— E agora? Como é que ficam as coisas? Vocês são dois rapazes bem espertos e não precisam que um cinegrafista capenga, com a barriga cheia de cerveja, fique tomando conta dos dois.

— Você então acha que o Sharp não vai querer apresentar desculpas, não é mesmo?

Martin levantou uma garrafa vazia à guisa de saudação.

Continuar: parte 3 de 4