Cão Raivoso

Stephen King · Capítulo 4 de 4 · parte 2/4

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Cão Raivoso

— Não. Não. Deixe disso. Telefone de…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Ela voltou para seu quarto e ficou sentada na cama, olhando para o risco de luz que começava a surgir no horizonte. Sabia que tinha tomado uma decisão. Tinha chegado a ela de alguma forma, Sccretamcnte, durante a noite, enquanto dormia. Agora, à luz, fria do dia que despontava, ela estava em condições de analisar o que decidira, sabendo bem o que isso lhe custaria.

Lembrou-se então que nunca falara a respeito com a irmã, embora sempre pensasse em fazê-lo. Ainda pretendia ter uma conversa com ela, se não houvesse acontecido aquele caso dos cartões de crédito. E depois também, à noite, Holly não se cansara de contar-lhe quanto havia custado tudo aquilo que tinha. O Buick de quatro portas, a TV Sony a cores, o assoalho especial do haII. Ela agia como se todas aquelas coisas ainda tivessem coladas etiquetas com os preços.

Charity, mesmo assim, gostava muito da irmã. Ela era liberal, tinha um grande coração, era impulsiva e afetuosa, cheia de calor humano. O seu padrão de vida, no entanto, obrigava-a a se desligar das verdades desagradáveis quanto à maneira como as duas haviam sido criadas na área rural do Maine, uma região muito pobre, verdades essas que haviam obrigado Charity ao casamento com Joe, ao passo que a sorte levara Holly a conhecer e a escapar para sempre à pobreza que havia em casa. Essa, aliás, fora bem parecida com a de Charity ao ter o seu bilhete premiado.

Tinha medo de contar à irmã como lutara com Joe durante anos para conseguir a permissão de viajar para visitá-la; e como afinal o conseguira, usando meios muito parecidos com chantagem, mas que, mesmo assim, chegara a um ponto em que ele ameaçara castigá-la com o. cinto — sentia medo ao imaginar que a reação de Holly fosse de indignação e horror, ao invés de coisa mais racional e de ajuda. Qual poderia ser, no entanto, a razão para a indignação e o horror? Talvez porque, bem no mais recôndito de sua alma, onde o Buick, a TV a cores, o assoalho especial e todos os outros requintes não conseguiam causar um impacto definitivo, Holly reconhecesse que ela escapara à mesma sorte da irmã, a um casamento e uma vida parecida, por uma margem bem pequena.

Não lhe contara nada porque a irmã se havia acomodado na boa vida da classe média abastada da mesma forma que um soldado precavido em sua trincheira. Não contara porque a indignação horrorizada não iria resolver o seu problema. Não contara porque ninguém gosta de se exibir como aleijão num show marginal, vivendo durante dias, meses e anos, com um homem desagradável, soturno e até mesmo apavorante em algumas ocasiões. A razão nunca fora a vergonha. Havia ocasiões em que sempre era melhor manter as aparências. Poderia ser, até mesmo, um ato de bondade.

A principal razão, no entanto, era que tudo aquilo eram problemas seus. Assim como era um problema seu tudo que viesse a acontecer com Brett... Naqueles últimos dois dias ela chegara, cada vez mais, à conclusão que tudo dependeria mais dele próprio do que dela e de Joe.

Não haveria divórcio. Ela continuaria a sua guerrilha contra o marido para salvar a alma do filho, fosse qual fosse o resultado final. Na sua preocupação quanto ao fato de Brett querer imitar o pai, ela talvez. esquecesse, ou nem mesmo lhe ocorresse, o fato de que sempre chega o dia em que os filhos julgam os pais. Chega o dia em que eles se encontrarão no banco dos réus para serem julgados pelos filhos. Brett já notara a ostentação de Holly naquele caso dos cartões de crédito. Então, sua esperança era de que ele também algum dia notaria que o pai comia com o chapéu na. cabeça, além de muitas outras coisas.

A manhã já estava mais clara. Ela enfiou-se no roupão que estava ali no cabide atrás da

porta. Tinha vontade de cair no chuveiro, mas só faria isso quando notasse que mais alguém já estava acordado. Eles ali eram estranhós. Até mesmo o rosto de Holly parecia-lhe estranho agora, um rosto que se parecia muito pouco com as fotos do álbum da família que trouxera em sua bagagem. Até mesmo a própria irmã olhara aquelas fotos com um certo ar de espanto.

Eles iriam voltar para Castle Rock, para aquela casa no fim da Rodovia 3, para junto de Joe. A vida continuaria como antes. Seria bem melhor assim.

Ela lembrou-se que devia falar com Alva antes das sete, quando ele ainda estivesse na mesa. do café.

 

Passava um pouco das seis da manhã, com o dia prometendo ser muito claro, quando Tad teve a sua convulsão.

Tinha acordado por volta das 5:15 e parecia ter dormido bem. Chamou pela mãe que cochilava e queixou-se dizendo que tinha fome e sede. Como se ele houvesse apertado algum botão bem dentro dela, Donna se deu conta de que também estava com fome. A sede que vinha sentindo era constante, mas não se lembrava de ter sentido fome até então, desde a manhã da véspera. Agora, no entanto, sentia-se positivamente faminta.

Engambelou o filho da melhor maneira que pôde, dizendo-lhe coisas vazias que já não tinham mais significação alguma. Dizia-lhe que logo ia aparecer alguém que levaria o cão embora e que viria socorrê-los.

O que havia de real, no entanto, era o fato de só pensar em comida.

Pensava no café da manhã, por exemplo, com dois ovos fritos na manteiga, não muito passados, por favor. Rabanadas. Copos grandes com suco de laranja muito gelado... Bacon canadense. Biscoitos feitos em casa. Cereais com creme e com geléia em cima. Seu pai sempre inventava uns apelidos para as coisas e aquilo era uma das demonstrações cômicas sem razão de ser que deixavam sua mãe indignada.

Sentia a barriga roncar e Tad achava graça naquilo. As suas risadas, no entanto, deixavam-na feliz por serem inesperadas. Era a mesma coisa que encontrar uma rosa nascendo num monte de lixo. Ela sorriu também, embora, com isso, lhe doessem os lábios rachados.

— Você ouviu, hem?

— Acho que você também está com fome, mamãe.

— Bem... eu não recusaria nada que me dessem agora...

Tad soltou um gemido e isso fez com que os dois rissem. Lá fora o cão levantara as

orelhas. Rosnou quando ouviu as risadas. Durante um momento ele fez menção de levantar-se, talvez para investir novamente contra o carro, mas logo se acomodou novamente com a cabeça baixa.

Donna sentiu em seu espírito um ânimo sem razão de ser que geralmente acompanhava o despontar do dia. Não havia dúvida dc que tudo ia acabar e que o pior já tinha passado. Até ali a sorte sempre lhes fora adversa, mas havia de chegar o momento em que isso mudaria.

Tad parecia bem melhor agora. Quase de volta ao seu estado natural. Estava muito pálido,

abatido e terrivelmente exausto, apesar de haver dormido relativamente bem. Parecia ser o mesmo Tad de sempre. Eles se abraçaram e ela já não sentia tanto aquela dor na barriga, embora os ferimentos estivessem inflamados. A perna estava pior, mas ainda lhe era possível movê-la, embora isso doesse muito, fazendo sangrar a ferida, iria ficar com uma cicatriz.

Os dois conversaram então durante uns 40 minutos, mais ou menos. Donna procurava uma forma para mantê-lo alerta e também para passar o tempo. Sugeriu que brincassem aquele jogo das Vinte Perguntas com que ele logo concordou, muito alegre. Nunca chegara .a conseguir jogar todo o tempo que desejava, porque os pais se recusavam a participar. Estavam já na quarta partida quando a convulsão começou.

Donna já acertara umas cinco perguntas relacionadas com colegas de acampamento de Tad.

— Ele tem cabelos ruivos, Tad?

— Não. Ele... ele.., ele...

E então, de repente, ele começou a sentir falta de ar, com acessos que a deixavam apavorada, com a garganta apertada, seutindo um gosto azedo de cobre.

— Tad? Tad?

Ele continuava sem fôlego e agarrava a garganta, deixando-a toda arranhada. Tinha os olhos arregalados e virados para cima, só deixando ver o branco.

—Tad?

Ela agarrou-o e sacudiu-o todo Via o seu pomo-de-adão subir e descer rapidamente, como se fosse um urso mecânico na ponta de uma vara. Começou a se debater e, em seguida, levou as mãos garganta como se quisesse rasgá-la, e começou a emitir sons abafados que mais pareciam vir de um animal.

Durante um momento, Donna esqueceu-se completamente do lugar onde estava. Agarrou-se à alça da porta e sacudiu-a até abri-la, como se, simplesmente, estivesse no supermercado ou no estacíonamento, onde sempre encontraria ajuda.

Nesse mesmo instante, o animal pôs-se de pé. Atirou-se contra o carro antes que a porta estivesse toda aberta, o que, provavelmente, salvou-a de sua feroz investida. Ele bateu de encontro à porta, foi atirado para trás, mas logo voltou à carga, rosnando ameaçador. O cascalho saltava para todos os lados.

Ela soltou um grito e bateu a porta com força. O cão chocou-se novamente com o lado do carro, que ficou ainda mais amassado. Recuou e logo atirou-se contra a janela e então aquela pequena rachadura transformou-se numa espécie de estrela. Ele tornou a investir e o vidro de segurança começou a curvar-se para dentro, mas ainda inteiro embora já bem frágil. O mundo lá de fora passou a ser uma mancha leitosa.

Se ele atacar mais uma vez...

Em lugar disso o animal desistiu, como se esperasse para ver o que ela ia fazer.

Ela voltou-se para o filho.

Todo o corpo de Tad sacudia-se em convulsões, como se tomado por um ataque de epilepsia. Tinha as costas em arco. As nádegas levantavam-se e abaixavam-se em movimentos sucessivos. Seu rosto começava a ficar azulado e as veias das têmporas estavam estufadas. Quando mocinha, ela fora apaixonada por balas e doces e por isso sabia bem o que estava acontecendo ali. Claro que ele não havia engolido a língua. Aquilo era coisa que só podia acontecer em romances baratos de mistério. Ele estava apenas ensgasgado com a língua, que lhe impedia a respiração. Iria morrer sufocado ali diante de seus olhos. Ela agarrou-lhe o queixo com a mão esquerda e com a direita abriu-lhe a boca à força. O pânico tornava-a brutal e ela ouvia estalarem-lhe os tendões do queixo.. Com as pontas dos dedos ela conseguiu alcançar-lhe a ponta da língua, que já estava bem lá no fundo, bem perto do lugar onde cresceriam os seus dentes do siso, se isso viesse a acontecer um dia. Tentou segurá-la, mas não conseguia, já que estava molhada a escorregadia como se fosse uma pequena enguia. Tentou segurá-la entre o indicador e o polegar sem se dar conta da pulsação acelerada de seu coração. Eu acho que vou perdê-lo. Oh, Deus meu! Acho que vou perder meu filho.

Os dentes se fecharam de repente, fazendo com que os dedos dela sangrassem, como também sangravam os lábios de Tad, muito rachados e intumescidos. Ela nem mesmo sentia a dor. Os pés dele começaram a se debater loucamente contra o tapete do carro. Ela continuava a procurar inesperadamente a ponta da língua do filho, conseguiu pegá-la, mas logo deixou-a escapar.

(é o cão o culpado, é o maldito cão, esse cão do inferno MAS EU VOU TE MATAR. JURO POR DEUS QUE VOU TE MATAR!)

Os dentes de Tad morderam novamente os seus dedos, mas, finalmente, ela conseguira pegar a sua língua e agora não a largava mais. Enterrara-lhe as unhas na língua macia e esponjosa e puxara-a como quem puxa uma cortina da janela. Ao mesmo tempo, ela colocava a outra mão por baixo de seu queixo, forçando-lhe a cabeça para trás a fim de permitir um máximo de entrada de ar. Tad começou novamente a arquejar com um som rascante, parecido com o de um velho com enfisema. Depois, começou a tossir.

Ela dava-lhe palmadas no rosto, já que não sabia o que mais poderia fazer naquele caso.

Ele arquejou novamente com estrondo e logo sua respiração recomeçou rapidamente, ofegante. Ela também estava ofegante. Sentia-se completamente tonta. Torcera a perna ferida e agora sentia o sangue escorrer.

— Tad? Tad! Você está me ouvindo?

Ele apenas sacudiu a cabeça muito de leve, sempre com os olhos fechados.

— Fique calmo. O mais calmo que puder, Tad. Quero que descanse.

— Quero ir para casa, mamãe. Mamãe.., o monstro...

— Psiu... Não fale, Tad. Fique quietinho. Não pense em monstros.

O papel com As Palavras Para os Monstros estava caído ali no tapete. Ela apanhou-o e entregou-o ao filho. O menino agarrou-o freneticamente.

— Agora trate de respirar bem devagar e regularmente, Tad. Faça isso, para podermos voltar para nossa casa. Respire direitinho, meu amor.

Ela olhou lá para fora e novamente reparou no bastão de beisebol no meio do capim, do lado direito da entrada de carros.

— Fique calminho, meu querido. Veja se pode fazer isso.

Ele apenas sacudiu de leve a cabeça, sem mesmo abrir os olhos.

— Vai demorar só mais um pouco, meu amor. Eu prometo. Eu prometo...

mais11 do carro já começava a aumentar. fora, o dia estava cada vez mais claro. Já estava também quente. A temperatura dentro Eram 5:30 quando Vic chegou em casa. Na mesma hora em que Donna lutava para salvar o filho puxando-lhe a língua, ele andava pela sala, procurando arrumar as coisas com um ar sonhador, enquanto o xerife, um detetive da polícia estadual e um outro da secretária de justiça estavam sentados no sofá, bebendo café solúvel.

— Eu já lhes disse antes tudo que sei. Se ela não está com as pessoas para quem já telefonamos, não vejo com quem mais possa estar... — Vic estava tom uma vassoura e uma pá na mão e trouxera os sacos plásticos de lixo que pegara no closet da cozinha. Apanhou tudo que estava quebrado ali no chão e atirou dentro do saco. — ... a não ser que esteja com o Steve.

Seguiu-se um silêncio incômodo. Ele não se lembrava de ocasião alguma em toda a sua vida em que se tivesse sentido tão cansado como agora, mas sabia que não conseguiria dormir a não ser que lhe dessem uma injeção. Não estava pensando bem. Dez minutos depois de haver chegado, o telefone tocara e ele se precipitara como um animal, sem dar atenção ao policial que afirmava ser o telefonema para ele. Mas não era. Era Roger que queria notícias.

Claro que havia notícias, mas todas elas eram alucinantemente inconclusivas. Havia

impressões digitais por toda à parte e o pessoal especializado que viera de Augusta, tirara uma boa quantidades delas. Também tinham estado na casa em que Steve morara para fazer a mesma coisa. Aquilo iria mostrar de forma definitiva se fora ou não ele o autor do vandalismo. Para Vic aquilo era uma redundância, já que não alimentava a menor dúvida a respeito.

O detetive da polícia estadual tinha feito uma verificação a respeito da caminhonete. Era um Ford 1971 com licença do Maine 64Z644. A cor era cinza-claro, mas conseguiram informações do dono da casa, dizendo que os lados do carro estavam pintados com paisagens do deserto. Tinham tirado o coitado da cama às quatro da madrugada. Na parte de trás, colados no pára-choque havia letreiros que diziam VAMOS RACHAR LENHA E NÂO O ÁTOMO; RONALD REAGAN MATOU J. R. Cara engraçadinho o tal Steve Kemp, mas aquelas paisagens da caminhonete iam tornar tudo mais fácil. A não ser que ele abandonasse o carro, o cara estaria preso antes do dia amanhecer. O alerta geral fora transmitido para todos os estados da Nova Inglaterra e, além disso, as agências do FBI de Portland e de Boston já haviam sido notificadas a respeito de um possível seqüestro. Agora estavam procurando o nome de Steve Kemp nos arquivos de Washngton. Iriam encontrar lá os seus protestos sobre a guerra do Vietnã em 1968 e 1971.

— Há somente uma coisa em tudo isso que eu não compreendo bem. — O detetive estava com seu bloco de notas no joelho mas já anotara tudo que Vic dissera. Ele estava apenas rabiscando coisas. — Se é que posso ser franco, há uma coisa que me intriga muito.

— Diga logo o que é...

Vic tinha apanhado a foto da família e, depois de olhá-la, tinha-a virado para fazer cair no chão os pedacinhos de vidro que ainda restavam.

— É o carro. Onde é que está o carro de sua mulher, Sr. Trenton?

Ao se cumprimentarem antes, ele dissera a Vic que seu nome era Masen, Masen com um “e”. Ele levantou-se e foi até a janela, batendo com o bloco na perna. O carro esporte de Vic estava ali na entrada, ao lado do carro do xerife. Ele apanhara-o no estacionamento do aeroporto em Portland e deixara lá o carro da Avia que o trouxera de Boston.

— E o que é que o carro dela tem a ver com tudo isso, Masen?

O outro deu de ombros.

— Pode ser nada. Pode ser alguma coisa. Pode ser tudo. Provavelmente nada, mas isso não me agrada. Então o tal Kemp chega aqui, agarra a sua mulher e seu filho. Certo? Mas por quê? Ele é louco e isso já é uma boa razão. Não sabe perder. Talvez até mesmo seja a sua idéia conturbada dc uma boa piada...

Aquilo tudo eram coisas que Víc já pensara um sem-número de vezes.

— E então o que é que ele faz? Ele pega os dois e leva-os em sua caminhonete toda pintada. E então o cara anda por aí rodando, mas também pode estar escondido em algum lugar. Certo?

— Bem... pode ser que...

Vic se esforçava muito para pensar.

— É assim também que eu penso. Tenho medo que...

Masen voltou-se na janela e encarou-o.

— Mas então onde é que está o carro?

— Bem... pode ser que...

— Sim, Sr. Trenton, pode ser que ele tenha algum companheiro que saiu com o carro e isso, provavelmente, significaria um seqüestro para extorquir dinheiro. Se ele levou-os sozinho, então isso foi provavelmente devido a uma loucura momentânea. Mas se foi um seqüestro para exigir resgate, qual poderia ser a razão para levar o carro? Seria para se transferir para ele no meio do caminho? Isso seria ridículo. O carro está tão visado quanto a caminhonete, embora seja um pouco mais difícil de ser reconhecido. E então eu torno a fazer a mesma pergunta. Se ele não tem um cúmplice, se estava só, então onde é que está o carro? Quem foi que saiu com ele?

O detetive da polícia estadual deu o seu palpite.

— Ele pode ter voltado para apanhá-lo. Deixou o menino e a mulher presos em algum lugar e voltou para buscar o carro ...

— Isso seria um problema para ele se não houver um cúmplice, mas é bem possível que o fizesse. Ele poderia deixá-los presos em algum lugar para poder voltar aqui e apanhar o carro, pegando uma carona na estrada. Mas qual poderia ser a razão para tudo isso?

O Xerife Bannerman apresentou a sua hipótese, falando pela primeira vez: — O carro poderia ter sido dirigido pela Sra. Trenton.

Masen voltou-se para ele, com as sobrancelhas arqueadas e um ar de espanto.

— Se levasse o menino com ele... Desculpe-me, Sr. Trenton, mas ele poderia ter levado o menino amarrado, ameaçando-o com um revólver, e isso obrigaria sua esposa a segui-lo. Teria então ameaçado fazer alguma maldade com o menino, caso ela fizesse alguma tentativa no caminho, tal como apagar as luzes ou fazer uma volta repentina.

Vic sacudiu a cabeça e estava çompletamente tonto com todas aquelas alternativas.

Masen parecia irritado com o xerife, talvez por não lhe haver ocorrido àquela possibilidade.

— Mas torno a repetir a pergunta: qual seria o seu propósito?

O xerife sacudiu a cabeça, levantando os ombros. Vic também não conseguia encontrar uma resposta plausível.

Masen acendeu um Pall Mall e olhou em torno, procurando um cinzeiro.

Vic tornou a sentir-se como se fosse um ator, alguma pessoa diferente, recitando falas que haviam sido escritas por outra pessoa.

— Desculpe-me. — disso Vic. — O cara quebrou os dois cinzeiros que tínhamos aqui. Vou buscar um na cozinha.

O detetive foi com ele e apanhou o cinzeiro.

— Vamos um pouco lá fora, por favor. O dia vai ser terrível. Eu, aliás, gosto de dias quentes em julho, contanto que eles se mantenham civilizados.

Vic concordou, com ar ausente.

Na saida, ele deu uma olhada no termômetro-barômetro que havia do lado de fora na porta. Fora um presente do Donna no último Natal. A temperatura já estava em 26 graus e o barômetro marcava tempo BOM.

— Vamos conversar mais um pouco, Sr. Trenton. Sinto-mo fascinado. Temos aqui uma mulher com seu filho, cujo marido está viajando a negócios. Ela precisa do carro para a sua atividade cotidiana. À distância daqui até o centro é quase um quilômetro e a volta é um aclive pronunciado. Então, se admitirmos que o cara pegou sua mulher aqui, o carro ainda estaria na garagem. Então vamos pensar em outra probabilidade. O cara vem aqui, destrói sua casa, mas continua furioso. Ele encontra sua mulher e seu filho na cidade e agarra-os. Então o carro ainda estaria em algum lugar na cidade, no lugar onde ele os encontrou. Pode ser no centro ou no estacionamento do supermercado.

— Mas alguém notaria isso no meio da noite, não achat

— Provavelmente... O senhor acha que ela poderia tê-lo deixado em algum outro lugar?

Foi só nesse momento que ele se lembrou daquele defeito no motor.

Isso não escapou ao olhar arguto do detetive.

— Tenho a impressão de que o senhor se lembrou agora de alguma coisa...

— Só agora me lembrei, Masen. O carro não está aqui, porque ele está na agência autorizada em South Paris. O carro estava com defeito. O motor não estava bom. Estava sempre enguiçando. Nós falamos sobre isso no telefone na segunda-feira. Ela estava realmente furiosa e preocupada. Eu lhe prometera falar com um cara daqui, mas esqueci por causa...

Ele parou e ficou pensando nas razões que o tinham levado a esquecer.

— Então o senhor esqueceu de combinar com o mecânico daqui e disso-lhe que levasse o carro ao agente autorizado?

— É issoaí...

Ele não conseguia lembrar como fora exatamente a conversa e só recordava o fato dela ter dito que tinha medo, porque o carro poderia pifar no meio do caminho.

Masen olhou para o relógio e levantou-se. Vic fez meação de levantar-se também, mas o outro o deteve e pediu-lhe que ficasse ali esperando. Ele ia dar um telefonema e voltaria logo.

Vic concordou e ficou ali mesmo enquanto o outro saía, batendo a porta telada. Aquele barulho fez com que se lembrasse do Tad e precisou fazer muita força para não chorar novamente. Por onde andariam eles? Afinal, o fato do carro não estar ali parecera uma esperança, mas durara muito pouco.

O sol já estava de fora, banhando a casa com a sua luz intensa, as ruas e até Castle Hill. Ele empurrôü o balanço em que tentas e tantas vezes havia empurrado Tad. O seu único desejo ali era de empurrar novamente o filho, tendo Donna de pé ao seu lado. Ficaria ali empurrando até suas mãos caírem, desde que esse fosse o desejo do filho.

Papai... eu quero fazer a volta completa... Eu quero, papai...

Sentiu o coração gelado ao pensar naquela voz..

A porta telada tornou a abrir e Masen apareceu; sentando-se ao seu lado ao mesmo tempo que acendia outro cigarro.

— Vocês compraram o carro na agência de South Paris, não foi mesmo?

— Isso mesmo. Foi ali que compramos o carro.

— Tive um palpite e telefonei para lá. Dei sorte. O chefe da oficina tinha acabado de chegar. O seu carro não está lá nem nunca esteve. Qual é o nome do tal mecânico daqui?

— É o Joe Camber. Então, afinal de contas, ela levou o carro para lá. Ela não queria ir porque achava que era muito longe e também porque o telefone dele não respondia. Eu disse a ela que, mesmo assim, ele poderia estar na oficina, onde creio que não há uma extensão. Pelo menos não tinha na última vez em que estivemos lá.

—Vamos dar uma olhada, Sr. Trenton, mas posso quase lhe garantir que seu carro não está lá.

— E porque acha que não está,Masen?

— Não faz o menor sentido, Sr. Trenton. Não se enquadra na lógica. Eu tinha uma certeza quase absoluta de que não estaria também lá na agência. Pense bem. Ainda está de pé tudo o que imaginamos antes. Uma moça com um filho não pode dispensar um carro. Vamos supor que ela foi à agência e lá lhe disseram que o conserto levaria uns dois dias. Como é que ela iria voltar?

— Bem.... poderia encontrar um carro emprestado. Ou então a agência lhe alugaria um dos carros que possuem para isso. Carros usados..

— Muito bem. É lindol Mas então onde é que ele está?

Vic olhou para a entrada da garagem como se esperasse encontrar ali o tal carro.

— Não vejo razão alguma para o tal Steve sumir com o carro emprestado, da mesma forma que não vejo para sumir com o seu. Com isso fica completamente de fora a agência Ford. Então, agora vamos dizer que ela levou o carro para esse tal mecânico que o senhor falou. Se ele emprestou a ela um carro velho então nós voltamos à vaca fria. Onde está esse carro velho? Vamos agora supor que o mecânico lhe diz que o conserto vai demorar e que ele não tem nenhum carro para lhe emprestar. Então, ela telefona para algum amigo, que logo concorda em ir buscá-la. O senhor está acompanhando bem? Acha que estou certo?

— Sim, sim. Claro...

— E então, quem é esse amigo? O senhor já nos deu uma lista e nos tiramos todos eles da cama. Tivemos sorte de encontrar todos em casa, apesar de ser verão. Ninguém foi buscá-la e ninguém viu sua mulher depois da segunda-feira de manhã.

— E então por que não telefonamos logo para o Camber?Assim logo saberemos com

certeza.

— Vamos esperar até as sete. São apenas mais quinze minutos. Isso lhe dará tempo para lavar o rosto. Os mecânicos geralmente começam a trabalhar muito cedo. Esse cara trabalha por

conta própria.

— Vic deu de ombros. Aquilo tudo pareciá-lhe um beco sem saída. O Steve estava com sua mulher e seu filho. Ele sabia, sem sombra de dúvida, que fora o Steve quem lhe arrasara a casa e sujara a cama.

Masen estava pensativo e olhava para a fumaça do cigarro.

— Aliás, também pode ser que não tenha sido um amigo. Há muitas outras possibilidades. Ela leva o carro para lá e então aparece alguém que ela conhece apenas de vista e que se oferece para trazê-los de volta à cidade. Mas também poderia ter acontecido que o próprio mecânico os levasse. Talvez mesmo a mulher dele. O cara é casado?

— É, sim...

Vic acendeu também um cigarro.

— Só que nada disso tem importância. A questão é saber onde está o diabo do carro. A situação continua sendo a mesma. A mulher e o filho sozinhos. Ela precisa, fazer suas compras no supermercado, precisa ir à lavanderia, precisa ir aos Correios e precisa fazer mais uma porção de coisinhas. Se o marido fosse ficar fora de casa apenas uma semana, ela talvez ainda conseguisse se arranjar, mas dez ou quinze dias já é outra coisa. Seria bem difícil numa cidade onde só existe um táxi. O pessoal que aluga carros pode vir como socorro numa ocasíão assim. Ela poderia ter recorrido a algumas das agências que alugam carros e que poderiam entregá-los aqui ou lá na tal oficina. Mas, então, onde estaria esse carro alugado? Devia haver um veículo aqui, não acha?

— Não vejo por que isso seja importante...

— E é bem provável que não seja mesmo. Nós chegaremos a uma explicação bem simples e então vamos ficar admirados. Como podíamos ser tão estúpidos? Eu, porém, me sinto estranhamente fascinado. Então o senhor acha que o defeito no motor era numa agulha da válvula?

— Sem dúvida alguma.

O outro sacudiu a cabeça.

— Então, por que diabo, precisaria ela de toda essa trapalhada de carros emprestados,

amigos etc? Esse é um defeito que se conserta em quinze minutos, desde que alguém tenha as ferramentas certas e que saiba o que está fazendo. É só uma questão de entrar e sair logo depois. E, então, onde é que está...

— O maldito carro de minha mulher?

Ele agora sentia o mundo ir e vir em ondas seguidas.

— Por que não sobe e dorme um pouco, Sr. Frenton? Estou vendo que está completamente arrasado...

—Não, não. Eu quero estar bem acordado para o que possa acontecer.

— Mas se alguma coisa acontecer nós teremos alguém aqui que irá acordá-lo. O FBI deve estár chegando com um equipamento para descobrir o número de quem lhe telefonar. É um pessoal muito barulhento e capaz de acordar até os mortos. Fique descansado.

Vic estava tão exausto que já não sentia mais nada.

— Acha que é mesmo necessário instalar aqui essa porcaria toda, Masen?

— Sempre é melhor ter e não precisar, do que precisar e não ter, Sr. Trenton. Vá repousar um pouco. Assim terá mais ânimo para enfrentar tudo que possa acontecer. Vá por mim.

— Está bem. Vou fazer isso mesmo.

Subiu a escada muito devagar e foi para o quarto, onde a cama fora desfeita e tinha apenas o colchão. Ele mesmo a desfizera. Colocou dois travesseiros de seu lado e tirou fora os sapatos, deitando-se em seguida. O sol da manhã, já muito quente, entrava pela janela. Claro que não vou dormir, mas, pelo menos, repousarei um pouco. Uns quinze minutos ou talvez meia hora...

Na hora em que o telefone tocou, despertando-o, à tarde já ia adiantada, mas o calor ainda era intenso.

 

Charity acabou dc tomar o seü café da manhã e logo telefonou para Alva. Dessa vez foi o próprio quem atendeu. Sabia que ela havia conversado com Bessiè na noite anterior.

— Nada disso. Não vi mais nem sombra do Joe depois que ele esteve aqui na quinta-feira, Charity. Veio trazer o pneu do trator. Não me disse nada a respeito de comida para o Cujo. Claro que isso só me daria prazer...

— Você pode dar um pulo lá em casa para ver como está o Cujo? Na manhã de segunda-feira, quando viemos para cá, Brett achou que o bicho parecia doente. Eu nem sei o que o Joe lhe deu para comer...

Depois disso, seguindo o costume do pessoal do campo, ela ainda acrescentou, “não há

pressa”.

— Eu vou até lá dar uma espiada, Charity. É só o tempo de dar a ração das “penosas” e logo me ponho a caminho.

— Claro que está bem assim, Alva. Muito obrigada. Tome nota do telefone daqui, por favor.

Trocaram ainda algumas palavras, principalmente a respeito do tempo, já que ele achava que um calor muito forte poderia prejudicar suas galinhas. Logo depois. desligaram.

Brett levantou a cabeça do prato de cereais e olhou para ela. O pequenino Jim estava fazendo garatujas na mesa com o copo de suco de laranja e tagarelando como uma matraca. O garotinho chegara à conclusão, nas últimas 48 horas, que Brett devia ser parente bem chegado de Jesus Cristo.

— E então, mãe?

— Você estava com a razão, Brett. Seu pai não combinou nada com o Alva... — Ela reparou na cara desapontada do filho e também em sua preocupação. — ... mas ele prometeu que ia dar um pulo lá em casa logo que tiver acabado. de cuidar das galinhas. Desta vez eu dei o número daqui. Ele prometeu telefonar do qualquer maneira.

— Obrigado, mamãe.

Holly chamou Jim para se vestir e ele gritou para Brett, pedindo-lhe que subissem juntos. Brett achou graça.

— Pode ir que eu te espero aqui, seu malandrão.

O garotinho disparou aos gritos para cima.

— Mamãe! O Brett prometeu que vai ficar me esperando!

O barulho que fazia subindo a escada mais parecia uma manada de elefantes.

— Ele é um garotinho bem simpático — disse Brett para a mãe.

— Se você concordar, Brett, estou pensando em voltar um pouco antes do que havíamos planejado...

O rosto do menino iluminou-se e então, a despeito de todas as decisões a que chegara, aquela alegria deixou-a um pouco triste.

— Quando é que vamos, mamãe?

— Que tal lhe parece amanhã?

Ela já imaginara antes que poderia ser na sexta-feira.

— Oba! Oba! Mas, afinal, mamãe, você quer mesmo ir? Ela é sua irmã. — Ao mesmo tempo que falava, ele a olhava com atenção.

Ela pensou naqueles cartões de crédito e no aparelho que Jim comprara sem saber lidar com ele. Aquilo tudo impressionara Brett e ela achava que, de uma certa maneira, também se deixara impressionar por toda aquela ostentação. Bem podia ser que houvesse visto tudo aquilo com os olhos do filho ou então, até mesmo, com. os do marido. Sabia bem até onde poderia ir.

— É isso mesmo. Acho que já é tempo de voltarmos. Já fizemos a visita. Vou dizer à Holiy hoje mesmo.

Ele olhou-a com uma certa timidez.

— Está bem, mamãe. Nós sempre poderemos voltar. Gosto do pessoal daqui E gosto muito do garotinho também. Quem sabe ela poderá vir nos visitar um dia?

Charity pareceu satisfeita e surpresa. Achava que o Joe não se importaria. Sentia-se também grata ao filho.

— Sim, sim. Quem sabe isso poderia acontecer...

— Tá bom. Não esqueça de me contar o que o Alva vai dizer.

— Claro que conto, meu filho.

Alva, no entanto, não chegou a telefonar. Quando cuidava das galinhas naquela manhã, o motor do enorme condicionador de ar estourou o ele se viu num tremendo corre-corre para impedir que suas galinhas morressem de insolação. Donna talvez concluísse que aquilo era outro golpe do Destino que ela via refletido nos olhos vermelhos e homicidas de Cujo. Quando o problema do condicionador foi resolvido, já eram quatro horas e a trapalhada que começara na segunda-feira à tarde na oficina de Joe já tinha sido resolvida. O prejuízo de Alva foi de 62 galinhas e ele considerou-se feliz por ter saído tão barato.

Andy Masen era o menino-prodígio de secretário de justiça do Maine e havia até mesmo quem dissesse que em breve ele seria promovido para Chefe da Divisão Criminal, mas a sua ambição ia até bem niais alto do que isso. Ele queria ser o próprio secretário de justiça em 1984 e queria candidatar-se para governador do Estado em 1987. E, então, depois de oito anos como governador, tudo poderia acontecer.

 

Ele vinha de uma família muito grande e pobre. Tinha três irmãos e duas irmãs e haviam vivido em um sórdido barraco nas imediações de Sabbatus Road, na cidade de Lisbon. Seus irmãos e irmãs tinham-se conformado com tal vida. Somente Andy e o irmão mais moço, Marty, tinham terminado o ginásio. Durante algum tempo, tudo indicava que Roberta iria conseguir alguma coisa, mas a moça se deixara levar pelos encantos de um rapaz numa festa e largara a escola para se casar. O rapaz ainda tinha espinhas no rosto aos 29 anos, bebia cerveja direto da lata e espancava a mulher e o filho. Marty morrera num acidente de automóvel na Rodovia 9, em Durham. Ele e seus amigos, todos bêbados, tinham entrado numa curva a 120 por hora, O Camaro em que viajavam rolou duas vezes na estrada o incendiou-se.

Andy sempre fora à estrela da família, mas sua mãe não gostava dele. Tinha medo do filho. Quando conversava com ás amigas, ela dizia que o filho era seco como um bacalhau, mas ele era mais do que isso. Era muito controlado e competente. Desde o ginásio, ele tinha a convicção de que chegaria à universidade e que seria advogado. Sabia que os advogados ganhavam muito dinheiro. Sabia que eles seguiam a lógica dos fatos. E a lógica era o Deu de Andy

Ele considerava todos os acontecimentos como um ponto de onde um número finito de possibilidades era irradiado. No fim de cada uma dessas linhas de possibilidades, existia um ponto de acontecimentos. E por aí além. Essa teoria sempre lhe servira muito bem e ele tinha sempre as maiores notas na escola elementar e no ginásio. Chegou a conseguir uma bolsa por mérito, o que lhe garantia a admissão em qualquer universidade do país. Escolheu a Universidade do Maine, desprezando Harvard; preferia começar sua carreira em Augusta a ser desfeiteado pelos esnobes de Harvard.

Naquela manhã quente de julho, as coisas estavam todas acontecendo na hora certa.

Largou o telefone de Vic após verificar que ninguém atendia na casa de Camber. O detetive da polícia estadual e o xerife continuavam ali esperando instruções, como cães bem treinados. Ele já trabalhara antes com aquele detetive e achava que era era bom no servíço. Se alguém dissesse “vá buscar” ele ia mesmo. O xerife era um cara novo ali e Masen não ia muito com ele. Achava que os olhos dele eram brilhantes demais e não gostou quando ele apresentou aquela idéia do Steve ter levado a criança para obrigar a mulher a segui-lo. Achava que só ele podia ter idéias assim. Os três estavam sentados no sofá, sem falar, esperando apenas o pessoal do FBI e tomando café.

Andy estava pensando naquele caso. Poderia ser apenas uma tempestade em copo

d"água, mas também poderia ser coisa mais séria. O marido parecia convencido de que era um caso de seqüestro e não dava importância ao fato do carro estar desaparecidol Eslava com a idéia fixa de Steve haver seqüestrado sua mulher.

Masen já não era da mesma opinião.

O mecânico não estava em casa e não havia mais ninguém lá. Era bem possível que todos houvessem saído em férias. Aquilo era bem possível. Julho era o mês das férias, por excelência, e eles estavam procurando alguém que tinha saído de férias. E ele ficaria com o carro dela para. consertar se pretendesse viajar? Era pouco provável. Não havia razão plausível para o carro estar lá. Mesmo assim, era imprescindível uma verificação e havia ainda uma outra possibilidade que ele esquecera de mencionar para Vic.

Podia-se supor que ela houvesse levado o carro para a oficina. Podia-se supor que alguém lhe houvesse oferecido uma carona para a volta e que esse alguém fosse um completo estranho. Andy chegava a ouvir Vic respondendo indignado que sua mulher “jamais aceitaria carona de um estranho” quando a verdade era que ela recebera muitas caronas de Steve, que também era um estranho. Se a tal pessoa se mostrasse amável e de boas maneiras ela poderia ter concordado, já que queria voltar com o filho o mais cedo possível. E., então, a tal pessoa amável poderia ser um tarado. Já houvera coisa parecida ali mesmo em Castle Rock chamada Frank Dodd. Então era bem possível que o tal cara amável houvesse deixado os dois em algum matagal com a garganta aberta e. seguido depois em frente para pegar outras vitimas. Se fosse esse o caso, então o carro devia estar lá naquela oficina.

Ele não acreditava muito que aquilo houvesse acontecido, embora soubesse que era bem

possível. De qualquer maneira, ele ia mandar alguém lá como simples rotina, mas, antes disso, gostaria de conhecer uma razão que justificasse aquilo, bem como tudo mais que estava fazendo. Ele achava que, do ponto de vista prático, poderia desistir de tudo que se referia ao mecânico na estrutura da lógica e da ordem que estava construindo. Ele, achava que ela poderia ter ido lá na oflcina, só para descobrir que não havia ninguém em casa. Resolvera então voltar e aí o carro enguiçara definitivamente na Rodovia 3. Mas Castle Rock não era a Antártida, portanto ela e o filho poderiam caminhar até a próxima casa e telefonar pedindo ajuda. Mas nada disso tinha acontecido.

Ele dirigiu-se então ao xerife e ao detetive para pedir-lhes, com muita delicadeza, que dessem um pulo à oficina do Camber a fim de ver o que havia. Deu-lhes o número da placa do carro 218-864.

— Está bem, senhor. Quer que...

— Só quero que vejam se a mulher e o garoto estão lá com o carro. Ele não estava gostando da maneira como o xerife o olhava, com um certo ar de desprezo. — Se qualquer dos três estiver lá, telefone para cá. Se eu tiver que sair deixarei o número do lugar para onde fui. Compreenderam bem?

O telefono tocou e Bannerman atendeu, mas logo passou o fone para Mascn.

— É para você, sabichão.

Os dois se fitaram e Masen pensou que o xerife iria baixar os olhos, mas ele manteve-os firmes. Logo a seguir, pegou no aparelho. O chamado vinha do quartel da polícia em Scarborough. Tinham prendido Steve Kemp. Sua camionete fora descoberta num motel pequeno de Twíckenham, em Massachusetts. Não havia mulher nem criança com ele. Depois de receber a intimação, ele dera sEu nome e fizera valer o seu direito de ficar calado.

Masen não gostou nada daquela notícia e virou-se para Townsend, o detetive.

— Você vem comigo. O xerife pode ir sozinho ver o que há lá na oficina do Camber.

— Claro. Sou o xerife da cidade...

Masen acendeu um cigarro e olhou para Bannerman através da fumaça.

— Será que tem algum problema comigo, xerife?

O outro apenas sorriu.

— Eu sei como me cuidar....

Meu Deus! Como detesto esses caras. Mas agora ele lá estará fora da iogada. Agradeço a Deus por seus pequenos favores, pensou Masen.

Continuar: parte 3 de 4