Cão Raivoso

Stephen King · Capítulo 4 de 4 · parte 3/4

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Cão Raivoso

— Não. Não. Deixe disso. Telefone de…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

O xerife sentou-se ao volante de seu carro e partiu, rangendo os pneus. Eram 7:20. Ele chegava a achar graça na maneira como o outro o havia jogado para escanteio. Enquanto os outros seguiam para onde estava quente, ele era enviado para o pólo. O pobre do Hank Townsend ia ser obrigado a aturar as burradas do Masen a manhã inteira e ele até tivera sorte em cair fora.

Ele seguiu calmamente pela Rodovia 117 até a Maple Sugar, com a sirene e as luzes desligadas. O dia estava realmente uma beleza e aquele até que era um magnífico passeio.

 

Donna e Tad. dormiam.

Estavam quase na mesma posição forçada, bem parecida com a dos ônibus interestaduais, com as cabeças balançando, caindo-lhes nos ombros. Donna virava-se para a esquerda e Tad para a direita. As mãos do menino estavam caídas molemente sobre o colo. De quando em quando os dois estremeciam. A respiração de Tad era difícil. Ele tinha os lábios rachados e os olhos muito vermelhos. O fio de saliva que lhe escorrera pelo canto da boca já começava a secar.

Donna estava meio adormecida. Seu estado de exaüstão e os ferimentos recebidos, juntamente com a posição incômoda, não lhe permitiam um sono mais profundo. Os seus dedos também estavam feridos, tinham sido mordidos pelo filho na hora de sua convulsão, quando ela tentava segurar-lhe a língua. O suor colara-lhe os cabelos. A gaze do ferimento da perna estava novamente ensopada de sangue e a carne em torno das feridas já tinha uma cor arroxeada e bem feia. Sua respiração também era áspera, mas não tanto quanto à de Tad.

O menino já estava bem perto dos limites extremos de sua resistncia. A desidratação já ia bem adiantada devido à transpiração que havia eliminado uma boa dose de eletrólitos, clorídricos e sódio sem que houvesse reposição. Suas defesas internas estavam sendo eliminadas gradativamente e agora já muito pouco restava delas. Tinha chegado a um estágio crítico. A sua vida já estava por um fio.

Em seus sonhos febris ele via o pai empurrando-o no balanço, cada vez mais alto, mas não via o seu quintal e sim o lago dos patos. Sentia uma brisa fresca na testa queimada pelo sol, nos olhos que ardiam e nos lábios rachados.

 

Cujo também dormia.

Estava deitado na grama junto à varanda, com o focinho ferido entre as patas da frente. Sonhava com coisas loucas e confusas. Estava num crepúsculo e o céu achava-se coberto de morcegos que esvoaçavam, os olhos muito vermelhos. Ele saltava-lhes em cima, procurando apanhá-los e de cada vez pegava um. Seus dentes apertavam-lhes as asas duras como couro, mas continuavam a morder-lhe o focinho com dentinhos muito aguçados que pareciam de ratos. Era por isso que o focinho lhe doía tanto. Ele iria mata-los todos. Ele...

O animal acordou, de repente, levantou a cabeça e inclinou-a para ver o que era.

Vinha chegando um carro.

Para os seus ouvidos diabolicamente alertas, o barulho feito pelo carro que chegava era terrível e insuportável. Era o barulho do um imenso inseto que vinha mordé-lo e injetar-lhe veneno.

Levantou-se ganindo. Sentia todas as suas juntas doerem como se estivessem cheias de vidro moído. Ele olhou para o outro carro que estava ali parado e viu lá dentro, imóvel, a çabeça da MULHER. Antes ele sempre conseguira olhar através do vidro, mas agora a MULHER devia ter feito alguma coisa que não lhe permitia uma boa visão. Não tinha importância alguma o que ela fizesse com as janelas. Ela não podia sair dali. E o MENINO também não podia.

O barulho já estava mais perto agora. O carro vinha subindo a colina mas... seria aquilo,

realmente, um carro? Também poderia ser uma gigantesca abelha ou maribondo que viria mordê-lo, para aumentar ainda mais o seu sofrimento.

O melhor seria esperar para ver.

Ele enfiou-se debaixo da varanda onde costumava ficar nos dias muito quentes. Ali dentro estava cheio de folhas secas de anos e que exalavam um cheirinho gostoso. Agora, porém, o cheiro era tão grande que chegava a sufocar e, portanto, se tornava intolerável. Ele rosnou e começou a babar novamente. Se um cachorro tivesse condições para matar um cheiro, Cujo certamente mataria aquele que havia ali embaixo da varanda.

O ronco do motor já estava bem mais perto e logo o carro surgiu ali na entrada que levava à garagem. Era um carro azul dos lados e com teto branco, onde havia luzes.

 

A única coisa que o xerife jamais imaginara encontrar ali na oficina do Camber era o carro que pertencia à mulher desaparecida.

 

Bannerman não era um cara estúpido e, embora se houvesse mostrado impaciente com aquela lógica de ponto a ponto de Masen, sempre chegava a conclusões mais sólidas seguindo seus métodos, mesmo que fossem um tanto ligados ao seu subconsciente. Ele trabalhara no caso de Frank Dodd, com todos os seus horrores, e concluíra que, muitas vezes, não havia lógica alguma. Era da mesma opinião de Masen quando não acreditava que Donna e o filho pudessem estar ali na casa de Camber. E, no entanto, ali estava o carro.

Ele agarrou logo o microfone, mas achou melhor dar primeiro uma olhada no que havia dentro do carro. Ali de onde estava, bem por trás do carro, não lhe era possível ver se havia alguém lá dentro. Os encostos dos bancos eram muito altos, e os dois tinham adormecido e escorregado para baixo.

O xerife saiu do carro e bateu a porta. Antes de haver dado dois passos ele reparou que a janela estava estilhaçada. O coração começou a bater-lhe acelerado e ele levou a mão ao revólver, um 38 Especial da policia.

 

Cujo olhou para o HOMEM do carro azul com um ódio crescente. Tinha certeza de que aquele HOMEM era o causador de todos os seus sofrimentos. Era por causa dele que as folhas agora cheiravam tão mal. Era por causa daquele homem que ele não tolerava mais a água, apesar da sua sede interminável.

Começou a rosnar enquanto as pernas se encolhiam, preparando-se para o salto. Já sentia

o cheiro do HOMEM, sentia o cheiro do seu suor e via que era bem gordo. O rosnado foi aumentando até chegar ao máximo de toda a sua fúria. Saiu de seu esconderijo e precipitou-se contra aquele HOMEM que era o causador de todos os seus sofrimentos.

 

Durante o primeiro momento crucial, Bannerman nem mesmo ouviu o rosnado do animal. Chegara até porto do carro e dali já conseguia ver uma massa de cabelos contra a janela estilhaçada. O seu primeiro pensamento foi que a mulher sido sido morta com um tiro, mas não via o furo feito pela bala. O vidro parecia ter sido quebrado a socos e não a tiros.

Foi então que percebeu a cabeça movendo-se muito levemente. A mulher estava viva. Ele deu mais um passo à frente e então... foi aí que ouviu o rosnado do animal seguido de latidos. O pensamento que primeiro lhe ocorreu foi do seu setter irlandês — Rusty? — que ele fora obrigado a sacrificar quatro anos antes, pouco depois do caso Dodd. E até mesmo, aquele seu cão não tinha a mesma aparência daquele que ali estava. E aí, durante um momento crucial, ele parou estatelado, sentindo aquele horror terrível e atávico. Voltou-se, sacando a arma, e só então teve ocasião de ver, de relance, aquele cão incrivelmonte grande que se atirava em cima dele. O animal atingiu-o na altura do peito, atirando-o de encontro à porta traseira do carro. Ele soltou um gemido e agarrou-se com força ao cromado da porta, mas o revólver escapou-lhe da mão, bateu no teto do carro foi cair do outro lado, no meio do capim.

Sentiu que estava sendo mordido pelo animal e que o sangue já lhe aflorava na camisa azul, e então, de repente, ele compreendeu tudo que houvera. Eles tinham chegado até ali, o carro enguiçara e o cão aparecera. Na lógica análise ponto a ponto de Masen não havia nenhum cachorro.

Ele atracou-se com o animal, tentando levantar-lhe a cabeça para que não lhe mordesse a barriga, onde sentia muita dor, e onde a camisa estava já toda rasgada, com o sangue a escorrer-lhe pelas calças. Ele avançou, mas o cão obrigou-o a voltar, demonstrando uma força incrível, empurrando-o contra o carro que sacolejava todo com o impacto.

Ele viu-se tentando lembrar se fizera amor com sua mulher na noite anterior.

Pensar naquilo agora era coisa de maluco.., maluco.

O animal investiu novamente. Ele tentou desviar-se, mas o cão parecia adivinhar-lhe os pensamentos e arreganhava os dentes como se estivesse achando graça. E então, de repente, sentiu uma dor tão forte como jamais sentira antes em toda a sua vida e isso deixou-o galvanizado. Com um grito tremendo, ele enfiou a mão por baixo do focinho do animal, tentando levantar-lhe a cabeça. Durante um momento, quando olhava para os olhos escuros e alucinados do animal, ele sentiu-se envolvido por um tremendo horror e então pensou: Oi, Frank! É você mesmo, nao é? Será que achou o inferno quente demais para ficar lá?

Logo a seguir, Cujo investiu contra seus dedos, mordendo-os, rasgando-os o deixando-

os abertos. Foi nesse ponto que ele se esqüeceu de Frank e de tudo mais, a não ser um meio para escapar com vida. Tentou levantar o joelho para manter o animal a distância, mas não conseguiu. Quando tentou fazê-lo, a dor que sentiu na parte de baixo da barriga foi intolerável.

O que foi que ele fez comigo lá embaixo na barriga? Deus do céu! O que será que ele

fez? Vicky... Vicky...

Então, a janela do lado esquerdo do carro abriu-se e ele viu que era a mulher. Ele observara aquele retrato quebrado por Steve Kemp e vira ali uma mocinha bonita e muito bem penteada, como aquelas que os homens se voltam na rua para olhar, sendo que da segunda vez já e com segundas intenções. Quando alguém via uma moça assim, o primeiro pensamento era para o feliz marido que possuia aquilo.

A mulher que ali estava, no entanto, era uma completa ruína. Via-se que o cão também a

atacara. Sua barriga estava suja com sangue coagulado. Uma perna do jeans tinha sido rasgada e havia um curativo de emergência. O mais feio, no entanto, era o seu rosto, que parecia ser uma horrorosa maçã assada. A testa estava toda empolada e descascada. Os lábios estavam rachados e já supuravam. Os olhos estavam vermelhos e encovados.

O animal largou logo o xerife e precipitou-se para ela, mancando o rosnando. Ela recuou e bateu a porta.

(Tenho que chegar ao carro. Preciso pedir ajuda...)

Ele correu para onde estava o carro. O animal perseguiu-o, mas ele chegou primeiro. Bateu a porta com estrondo e agarrou o microfone. Código três. Um policial pedindo socorro. O socorro veio. O cão foi morto a tiros. Todo mundo estava salvo.

Tudo isto aconteceu em apenas três segundos, mas aconteceu somente na cabeça do

xerife ferido. Quando ainda estava em meio do caminho suas pernas não agüentaram e ele caiu ali mesmo.

(Oh, Vicky! O que será que ele me fez lá embaixo?)

O mundo inteiro era um sol que cegava. Era difícil enxergar alguma coisa. Ele arrastou-se, agarrou-se e finalmente conseguiu ficar ajoelhado. Olhou para baixo e viu que seus intestinos estavam pendurados do lado de fora. As duas pernas da calça estavam cheias de sangue.

Aquilo era o bastante. O cão conseguira o bastante lá em sua barriga.

Segure bem as tripas, meu velho. Você ainda pode escapar, mas é preciso chegar até

aquele maldito microfone para pedir socorro. Segure as suas tripas e ponha-se de pé, seu...

(o menino, meu Deus! Será que o menino está lá?)

Aquilo fez com que ele se lembrasse de sua filha, Katrina, que ia começar o sétimo ano.

Já estava com um corpinho de mulher. Já era uma mocinha. Lições de piano. Queria um cavalo. Houvera um dia em que, se ela tivesse saído da escola sozinha para ir à biblioteca, Dodd a teria pegado ao invés da Mary Kate. Um dia quando...

(vamos lá, ande daí, seu malandrão)

Ele conseguiu levantar-se. O sol estava em toda a parte, e ele sentia as tripas querendo sair pelo buraco que o cão abrira. O carro. O rádio da polícia. Lá atrás dele o cão parecia ter mudado de idéia estava outra vez investindo contra a janela do carro, ladrando e rosnando.

Ele arrastou-se, cambaleando, na direção do carro e seu rosto estava branco como um lençol. Os lábios estavam cinzentos. Aquele era o maior cão que já vira em sua vida. E ele tinha-lhe posto as tripas para fora. Tinha-o estripado, Deus do céu! Só não compreendia como tudo podia estar tão quente e tão brilhante.

Sentia os intestinos escáparem-lhe das mãos.

Conseguiu chegar à porta do carro. Ouvia o rádio lá dentro transmitindo sua mensagem.

Eu deveria ter avisado para lá primeiro. Essa é a regra. As regras não foram feitas para serem discutidas. Só que se eu houvesse pensado assim, não teria chamado o Smith no caso Dodd. Vicky... Katrina... desculpem-me...

O menino. Era preciso pedir socorro para o menino.

Quase caiu e foi obrigado a segurar-se na porta. Viu então que o animal se precipitava

para ele e começou a gritar. Estava fazendo tudo para se apressar. Se conseguisse ao menos bater a porta... Meu Deus! Preçiso conseguir bater a porta antes que ele chegue aqui novamente. Oh, Deus!...

(MEU DEUS!)

Tad estava gritando novamente, gritando, arranhando o rosto o sacudindo a cabeça, enquanto o cão atirava-se contra o carro, sacudindo-o todo.

— Tad! Não faça isso, Tad! Por favor, meu amor, não faça isso...

— Papai! Eu quero o papai! Quero o papai!

O carro parou de sacudir, de repente.

Com o filho bem apertado em seu peito, Donna viu quando o cão se atirou contra o

policial que tentava entrar no carro. A sua mão escapou da maçaneta.

Depois disso, ela não conseguia mais olhar. Desejava que também lhe fosse possível

tampar os ouvidos para não escutar o Cujo liquidando aquele homem que ela nem sabia quem era.

E então ocorreu-lhe um pensamento histérico. Ele se escondeu! Ele se escondeu quando ouviu o carro chegar!

A porta da varanda. Agora era a hora de correr para a porta da varanda enquanto o cão

estava lá... ocupado...

Ela empurrou a porta, tentando abri-la, mas não conseguia. Estava muito empenada. Não abria. O animal conseguira danificá-la o bastante para impedir que se abrisse.

Ela falou baixinho, como se estivesse febril.

— Tad. Tad, meu amor. Vamos trocar de lugar. Depressa. Tad? Tad?

Ele tremia dos pés à cabeça. Seus olhos estavam novamente arregalados. Sua voz era gutural.

— Patos... Vou ver os patos... As Palavras Para os Monstros, papai... ... ahhahh... ahahahahahahahah...

Estava tendo uma outra convulsão. Debatia-se desesperadamente. Ela começou a sacudi-lo, giitando o seu nome sem parar. Tentando manter-lhe a boca aberta com a entrada de ar desimpedida. Sentia a cabeça zunir desesperadamente e temia desmaiar. Aquilo era o inferno. Eles estavám no inferno. O sol da manhã entrava pela janela criando aquele tal efeito de estufa ao qual era impossível escapar.

O menino, afinal, aquietou-se. Fechou novamente os olhos com a respiração muito

rápida e arquejante. Tomou-lhe o pulso e viu que ele estava acelerado e irregular.

Deu uma olhada lá para fora e viu que o animal segurava o braço do homem, sacudindo-

o como se fosse um cachorrinho sacudindo um trapo. De quando em quando, saltava sobre o corpo inerte. O sangue... havia lá um lago de sangue.

Como se percebesse que estava sendo observado, o cão levantou o focinho que pingava sangue e olhou-a de tal modo que ela ficou pensando se os cães tinham ou não expressão, mas a dele, ali, era uma espécie de austeridade e piedade... e então Donna sentiu que eles já se conheciam intimamente e que não haveria trégua ou descanso entre os dois até que o estranho e sinistro relacionamento atingisse uma conclusão.

O animal tornou a investir contra o homem de camisa azul e calças escuras já completamente ensanguentadas. Ele já estava morto e sua cabeça rolava de um lado para outro. Ela olhou para o outro lado, sentindo o ácido queimando-lhe o estômago. A perna ferida doía e latejava. A ferida ali estava novamente aberta.

Tad... Como estaria ele agora? Era sua mente que lhe respondia. Que respondia de forma

inexorável.

Ele está muito mal. E então o que é que você vai fazer? E o que é que vai fazer agora? Você é mãe dele. O que é que vai fazer agora?

Mas o que poderia ela fazer? Seria bom para Tad se ela saisse e se deixasse matar lá

fora?

O policial. Alguém havia mandado aquele policial vir até ali. E se ele não voltasse... — Por favor. Não demorem.

Sua voz já estava muito rouca.

Já eram 8 horas. Lá fora contínuava relativamente fresco com apenas uns 24 graus.

Naquela mesma tarde, a temperatura no aeroporto de Portland seria 41 graus e isso seria, também; um novo recórde.

 

Eram 8:30 quando Masen e Townsend chegaram ao distrito policial em Scarborough. Masen passou a bola ao detetive, já que ali era a sua jurisdição e ele sabia bem o que fazia.

O policial do plantão disse-lhes que ia mandar Steve Kemp de volta para o Maine. Ele

continuava apegado às suas prorrogativas e não queria falar. Os técnicos do laboratório do Estado tinham passado um pente fino na caminhonete, mas nada fora encontrado. Não havia o menor indicio mostrando que uma mulher e um menino tinham viajado na parte do trás do carro, mas, em compensação, encontraram uma completa farmácia onde havia maconha, co-caína e outras coisinhas. Aquilo era o suficiente para mantê-lo detido durante algum tempo.

Masen trouxe uma xícara de café para seu companheiro.

— E o carro? Onde é que está a porra desse carro?

O outro apenas sacudiu a cabeça e deu de ombros.

— E o xerife? Já deu alguma notícia?

— Neca.

— Então chame-o no rádio. Diga-lhe que quero tê-lo aqui quando trouxerem o Steve. É a sua jurisdição e acho que é ele quem deve fazer o interrogatório. Pelo menos tecnicamente...

O detetive voltou logo depois com uma cara intrigada.

— Não consigo falar ele, Sr. Masen. O homem do rádio já tentou, mas acha que ele teve ter se afastado muito do carro.

— Que diabo! Ele, provavelmente, parou no caminho para tomar um cafezinho... Bem, deixe pra lá. Ele já está mesmo fora disso.

Masen acendeu mais um cigarro, pigarreou e olhou para o companhciro com um ar de riso.

— Acho que nós dois podemos cuidar deste caso sem precisar dele, não é mesmo?

— Claro que podemos, Sr. Masen.

— Esta coisa toda está começando a cheirar mal, você não acha? Muito mal mesmo...

— Eu também não estou gostando...

— Já estou começando a pensar na possibilidade desse cara ter enterrado os dois na beira da estrada que vai de Castle Rock a Twickenham. Mas nós vamos descobrir. Eu já consegui quebrar caras mais duros...

Townsend mostrava-se respeitoso e acreditava em Masen.

— Eu sei, senhor...

— Nós vamos pegá-lo nem que sejamos obrigados a ficar aqui dois dias fazendo-o suar.

Townsend continuou procurando fazer contato com o xerife sem nada conseguir. Conhecia-o pouco, mas tinha-o em mais alta conta do que Masen parecia ter. Ele achava que valia a pena avisar o xerife da má vontade de Masen a respeito dele. Às dez horas, sem ter ainda conseguido falar com Bannerman, ele começou a ficar preocupado. Mas não sabia se devia ou não avisar Masen a respeito do silêncio do xerife. Talvez fosse melhor não se meter naquela briguinha entre os dois.

 

Roger chegou a Nova York às 8:49 da manhã, pegou um táxi para a cidade e chegou ao Biltmore pouco antes das 9:30.

— A reserva era para dois, senhor?

— Meu sócio foi chamado de volta devido a uma emergência.

— Que pena. — O rapaz disse aquilo com absoluta indiferença, ao mesmo tempo que lhe dava o cartão de registro. Enquanto Roger preenchia o formulário, ele conversava com o companheiro sobre as entradas que tinha para o jogo da semana seguinte.

Roger deitou-se, tentando tirar um cochilo, mas nada conseguia. E isso apesar de ter passado quase em claro a noite anterior. Donna trepando com outro cara, enquanto Vic agüentava firme toda aquela trapalhada do cereal vermelho para crianças. Agora ela e o filho tinham desaparecido. Tudo se desfizera em fumaça na semana anterior. Aquilo tudo até parecia um passe de mágica.

Tudo, de repente, se transformava num montão de merda. Estava com uma dor do cabeça que lhe vinha em ondas...

Por fim levantou-se, recusando-se a ficar ali sozinho com sua dor de cabeça. Achou que seria mais acertado se fosse até a firma encarregada da pesquisa de mercado, para que elos também participassem das preocupações. Afinal, a Ad Worx pagava-lhes para isso.

Parou no salão, onde tomou uma aspirina e saiu. A caminhada não acabou com a dor de cabeça, mas serviu para que ele detestasse cada vez mais a cidade de Nova York.

Não vou voltar para cd. Prefiro carregar caminhões com caixas de refrigerantes, mas nunca trarei Althea e as meninas para morarem aqui.

Á firma ficava no décimo quarto pavimento de um grande arranha-céu de aparência estúpida e ineficiente. A recepcionista sorriu e cumprimentou quando Roger se identificou.

— O Sr. Hewitt acaba de sair, mas não demora. O Sr. Trentom veio também?

— Não. Ele não pôde vir.

— Tenho aqui alguma coisa para o senhor que chegou esta manhã

Ela entregou-lhe um telegrama cujo endereço era V. TRENTON/R. BREAKSTONE/AD WORX AOS CUIDADOS DE IMAGE EYE STUDIOS.

Rob tinha-o enviado para ali na tarde anterior.

Roger abriu-o e viu logo que era do velho. Sharp. Viu também que era muito longo.

Deve ser o bilhete azul. Vamos ver o que ê.

Logo começou a ler o telegrama.

 

O telefone acordou Vic pouco antes do meio-dia. Se não fosse isso, ele teria dormido a tarde inteira. O sono fora pesado e agitado e ele acordou completamente desorientado. Tivera o mesmo sonho. Via a mulher e o filho numa caverna, quase ao alcance de um feroz animal primitivo. Quando esticou o braço para o telefone, sentiu como se o quarto estivesse girando.

O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi que Donna o Tad estavam a salvo.

— Alô?

— Vic? Aqui é o Roger.

— Roger? — Ele sentou-se logo na cama, com a camisa colada ao corpo. A metade de seu pensamento ainda estava dormindo e às voltas com o sonho. A luz era forte demais. O calor... ainda

estava relativameüte fresco na hora em que adormecera, mas agora o quarto parecia um forno. Que horas seriam? Quanto tempo dormira? A casa estava tão silenciosa.

— Roger? Que horas são?

— Hôras7 É quase meio-dia, Vic.

— Meio-dia?! Meu Deus! Eu dormi esse tempo todo!

— O que foi que aconteceu, Vic? Já encontraram eles?

— Ainda não tinham encontrado na hora em que adormeci... O tal Masen prometeu-me que...

— Quem é esse Masen?

— É o cara encarregado da investigação. Com licença, Roger. Eu preciso ir ver...

— Espere um pouco, homem! Estou falando daqui do escritório do Summers. Não podia déixar de te contar. Recebi um telegrama do Sharp. Nós vamos continuar com eles, Vic!

— O quê? O que foi que você disse?

Os acontecimentos estavam se precipitando com muita rapides para ele. Donna... Sharp... O Roger parecia estar absurdamente eufórico.

— Quando cheguei aqui encontrei um telegrama. O velho e o garoto enviaram o telegrama aos cuidados do Rob e ele mandou-o pra cá. Quer que eu o leia para você?

— Diga-me apenas o que há, Roger. Não precisa ler todo.

— Pois é isso, Vic. Os dois parecem ter chegado à conclusão, embora por lógicas diferentes. O velho considera o caso da Zingers como uma repetição do Alamo. E nós somos os mocinhos, que fizemos uma barricada e lutamos para repelir os invasores. Acha que devemos continuar juntos. Todos por um e um por todos.

— Eu sabia que o cara era legal, Rogcr. É um velho sacana bem leal e foi por isso que ele se ligou a nós quando saímos de Nova York.

Enquanto falava ele esfregava a parte de trás do pescoço.

— O garoto queria trocar de agência, mas o velho achou que não era a hora certa. Acha que isso poderia ser interpretado como um sinal de fraqueza ou talvez, até mesmo, de culpa. Será que dá para acreditar?

— Eu estou sempre pronto a acreditar em qualquer coisa que venha desse cara paranóico, Roger.

— Estão querendo a nossa presença em Cleveland para assinar um novo contrato por dois anos. Não conseguimos um por cinco anos e, quando os dois anos terminarem, o garoto estará provavemonte a frente da companhia e então logo nos dará um chute no traseiro. Mas com dois anos pela frente teremos tempo bastante, Vic. Vamos chegar ao topo! E então podemos mandá-los...

— Roger, eu preciso...

— Você sabe o que quero dizer, não é mesmo? Eles também querem discutir a respeito de uma nova campanha o então é bem possível que aceitem a nossa idéia do Professor e do seu canto de cisne.

— Isso tudo é uma beleza mesmo, Roger, mas agora preciso ir ver o que está acontecendo com a Doma e com o Tad...

— Eu sei, eu sei, Vic. Não escolhi uma boa para hora para telefonar, mas eu não podia mais me conter. Teria explodido como se fosse um balão.

— Não há hora errada quando as notícias são boas, Roger.

Apesar de tudo, no entanto, ele sentia uma espécie de inveja daquela euforia do sócio, ao mesmo tempo que sentia também uma certa amargura por não poder participar, mas aquilo talvez fosse um bom sinal.

— Vic, telefone logo que tiver notícias, hem?

— Claro, e obrigado por ter telefonado.

Ele enfiou-se nos sapatos e desceu. A cozinha ainda estava num estado lamentável e ele sentia o estômago embrulhado só do olhar para aquilo. Em cima da mesa, no entanto, havia um bilhete

 

Sr. Trenton, Prendemos o Steve Kemp. Estava num motel em Twickenham.

Sua mulher e seu filho não estão com ele. Repito. Não estão com ele. Não mandei acordá-lo, porque o cara está fazendo valer os seus direitos e não quer falar. A não ser que haja alguma complicação, ele será levado para o qüartel da policia em Scarborough e será acusado de vandalismo e posse de drogas. Ele deverá estar aqui às 11:30, mais ou menos. Se houver noticias, o senhor será logo avisado.

Andy Masca

 

— Ele que vá para o inferno com seus direitos constitucionais. Foi então até a sala, achou o número do telefone e telefonou para lá. Quem atendeu foi o policial d plantão.

— O Sr. Kemp está aqui. Faz uns quinze minutos que chegou. O Sr. Masen está com ele agora. O cara chamou seu advogado. Acho que o Sr. Masen não vai poder...

— Eu não quero saber se ele pode ou não pode. Vá dizer a ele que o marido de Donna Trenton quer lhe falar e que ele venha já ao telefone.

Logo depois, Masen estava na linha.

— Sr. Trenton, sei como o senhor se sente, mas o pouco tempo que temos antes do tal advogado chegar poda ser de muita importância.

— E o que foi que ele lhe disse, Masen?

O outro hesitou um pouco, antes de responder.

Bem, ele já confessou o vandalismo. Acho que ele finalmente chegou à conclusão de que a coisa é muito mais séria do que pensa. Confessou o vandalismo para os policiais que o trouxeram para cá, mas insiste em afirmar que não havia ninguém em casa. Ele diz entrou e saiu sem encontrar pessoa alguma.

— E você está acreditando nessa merda?

A resposta de Masen foi bastante cautelosa.

— Ele quase chega a convencer. Neste momento eu não poderia dizer se acredito ou não em tudo que ele disse. Se me fosse possível fazer-lhe apenas mais umas perguntas...

— E ainda não sabem de nada a respeito da oficina do Camber?

— Não. Mandei o xerife para lá com instruções de falar pelo rádio logo que chegasse, dizendo se sua mulher estava lá ou não. Se o carro dela estava lá ou não. E como ele ainda não se comunicou...

Vic já estava irritado.

— Mas isso nada significava de definitivo, não acha?

— Sr. Trenton, preciso desligar. Se tiver alguma...

Vic bateu-lhe com o telefone na cara. E ficou ali arquejante no silêncio quente da sala. Depois, foi até a escada e subiu bem devagar. Ficou no hall superior durante alguns momentos o depois foi ao quarto do filho. Os caminhões dele estavam ali estacionados direitinhos de encontro à parede. Sentiu uma dor no coração quando olhou para eles. O pijaminha amarelo estava pendurado ao lado dê cama. Seus livros para colorir estavam todos em cima da mesa. A porta do closet estava aberta. Ele fechou-a sem saber bem o que fazia e colocou a cadeira do menino bem na frente dela.

Sentou-se na caminha e, com os braços balançando entre as pernas, ficou olhando lá para fora, onde o dia estava quente e brilhante.

Becos sem saída. Era só o que havia. Mas onde estariam eles?

(becos sem saída)

Aquela era a expressão mais agourenta que ele já ouvira em sua vida. Quando criança, da idade de Tad mais ou menos, ele sempre se sentira fascinado pelas estradas que não tinham saída, segundo contara sua mãe. Ele ficava imaginando se aquilo seria hereditário e se o filho também se interessava por estradas sem saída e também se ele ainda estaria vivo.

E então ocorreu-lhe, de repente, que a Rodovia 3, onde ficava a oficina do Joe, era uma estrada sem saída.

Voltou-se e reparou que a parede que ficava atrás da cama do menino estava vazia. Já não via mais ali as Palavras Para os Monstros. Por que Tad as teria tirado dali? Ou teriam sido arrancadas dali por Steve, que assim agira por motivos bem estranhos? Mas, então, se ele houvesse passado por ali, por que não arrasara tudo, como fizera lá embaixo?

(becos sem saida e Palavras Para os Monstros)

Teria Donna levado o carro para a oficina do Joe? Só conseguia lembrar-se muito vagamente da conversa que haviam tido sobre o defeito no motor. Lembrava-se que Donna lhe dissera ter medo de Joe. Não. Não. Não do Joe que tinha medo. Ela apenas imaginava que ele a despia mentalmente. O que lhe metia medo mesmo era o cão. Como era mesmo o nome do animal?

Eles haviam achado graça. Tad. Tad chamando o cão.

E então ele tornou a ouvir a voz fantasma do filho, uma voz que parecia vir do outro mundo e que chegava até ali naquele quarto. “Cujo... Cuuuujo... venha aqui...”

E foi aí, então, que aconteceu uma coisa sobre a qual ele jamais falou a quem quer que fosse durante o resto de sua vida. Ao invés de ouvir mentalmente a voz de Tad, ele estava, de fato, ouvindo uma voz alta, solitária e apavorada, uma voz de despedida que vinha lá de dentro do closet.

Ele deixou escapar um grito e levantou-se da cama, os olhos esbugalhados. A porta do closet estava se abrindo, empurrando a cadeira que estava ali na sua frente, e seu filho estava gritando Cuuuuuujo.

E só então ele percebeu que não era a voz do filho e sim sua própria mente arrasada que considerava como a voz de Tad o barulho que fazia a cadeira quando se arrastava no assolho. Era só aquilo e...

...e também havia olhos no closet, olhos vermelhos e terríveis.

Um grito escapou-lhe da garganta. A cadeira caiu sem que houvesse qualquer explicação real para aquilo. E ele viu o urso lá dentro do closet, encostado numa pilha de lençóis e cobertores. Ele vira apenas os olhos de vidro do ursinho. Nada mais que isso.

Com o coração aos saltos, Vic levantou-se e foi até o closet. Sentia que ali havia um cheiro, um cheiro pesado e desagradável. Talvez fosse o cheiro das bolas de naftalina, pelo menos em parte, mas era um cheiro selvagem...

Não seja ridículo! Isto aqui é apenas um closet. Não é um antro de monstros.

Ele olhou para o urso e o urso olhou para ele, sem pestanejar. Atrás do urso e das roupas penduradas tudo era escuridão. Qualquer coisa poderia estar ali escondida. Qualquer coisa. Era claro, porem, que nada havia ali.

Você me deu um susto, urso, disse Vic.

Monstros, fiquem longe deste quarto, disse o urso e seus olhos brilhavam. Eram olhos de vidro sem vida, mas brilhavam.

Esta porta está fora de prumo.É tudo que há com ela, disse Vic.

Ele transpirava muito e o suor grosso e salgado corria-lhe pelo rosto como se fossem lágrimas.

Você nada tem a fazer por aqui, replicou o urso.

O que é que há de errado comigo, seu urso? Acho que estou ficando maluco... Será que é assim que a gente se sente quando estd ficando maluco?

E o urso de Tad respondeu: Monstros, deixem o Tad em paz.

Ele tornou a fechar a porta do closet e ficou ali esperando. Depois, arregalou os olhos como uma criança quando ela começou a se abrir novamente.

Eu não vi isso. Não acredito que tenha visto...

Bateu a porta com força e escorou-a novamente com a cadeira. Depois, apanhou uma pilha de cadernos e livros dc Tad e colocou tudo em cima da cadeira. Dessa vez a porta ficou fechada.

Ele deixou-se ficar ali mais algum tempo, olhando para a porta fechada e pensando em estradas sem saída. Eram estradas onde quase não havia movimento. Todos os monstros deviam morar debaixo das pontes ou em buracos que ficassem no fim dos becos sem saída. Devia haver uma lei obrigando-os.

Sentia-se muito inquieto agora.

Acendeu um cigarro com a mão que tremia e ficou olhando para o céu, sentindo que sua inquietação aumentava. Alguma coisa havia acontecido no quarto de Tad. Ele não sabia bem o que era, mas alguma coisa acontecera ali. Isso mesmo. Alguma coisa.

Monstros, cães, closet e oficinas e estradas sem saída.

Nós temos que somar tudo isso, professor? Devemos subtrair? Dividir? Fracionar?

Jogou fora o cigarro.

Acreditava mesmo que tivesse sido o Steve? Steve fora o responsável por tudo.. Ele devastara a casa. Ele quase chegara a arrasar seu casamento. Steve fora até lá em cima para fazer aquela imundície na cama em que Donna e ele haviam dormido nos últimos três anos. Ele fizera um buraco enorme no tecido confortável de sua vida.

Steve. Steve. Steve. Tudo era culpa dele. Ele também deve ser culpado pela guerra fria, pelo caso dos reféns no Irã, pela diminuição da camada de ozônio.

Aquilo era uma estupídes, Steve não era culpado de tudo. NÃo era o culpado naquele caso da Zingers. Nada tivera a ver com aquilo. E tampouco poderia ser considerado culpado pelo defeito no carro de Donna.

Vic olhou para o velho Jaguar. Ele iria a algum lugar com seu carro. Não podia ficar ali sem fazer nada. Ficaria louco com a inatividade. Devia entrar no carro e se mandar para Scarborough.

Iria agarrar Steve e sacudi-lo até que dissesse o que havia feito com sua mulher e seu filho. Só que, quando chegasse lá, o cara já estaria com o seu advogado, e, então, por mais incrível que pudesse parecer, o tal advogado já poderia tê-lo libertado.

Uma mola. Era uma mola que mantinha em seu lugar a agulha da válvula. Sem a mola , a válvula emperraria e não deixaria passar a gasolina para alimentar o motor.

Ele desceu e foi até onde estava o carro. Fez uma careta quando viu como estava quente o banco, mas sentou-se assim mesmo, sabendo que com o carro em movimento o banco logo estaria mais fresco.

Mas para onde é que eu vou?

A reposta mental veio em seguida.

Vá até a oficina do Joe.

Mas aquilo era uma estupidez. Ou não era? O Masen já havia mandado o xerife para lá com instruções para informar pelo rádio, assim que chegasse. O policial não telefonara e então aquilo significava ,...

(que ele fora liquidado pelo monstro)

Bem. Não poderia haver mal algum indo até lá. Certo? E sempre estaria fazendo alguma coisa, em vez dá ficar ali parado.

Pôs o carro em movimento e dirigiu-se para a 177 sem saber se iria para a oficina ou para Scarborough.

Ficou parado num sinal até que o carro que estava atrás buzinou reclamando. Ele tomou então à direita. Afinal, não haveria mal algum se desse uma olhada lá na oficina. Estaria lá em 15 minutos. Olhou o relógio e viu que já eram 12:30.

A hora chegara e Donna sabia que tinha chegado mesmo.

 

Talvez também já fosse tarde, mas era-lhe impossível passar o resto da vida, e até mesmo morrer, pensando naquilo. Ninguém mais apareceria por ali. Não havia um cavaleiro andante montado num corcel branco para vir em seu socorro. Ele deveria estar ocupado com alguma outra aventura.

Tad estava morrendo.

Ela repetiu aquilo várias vezes, numa voz rouca que quase não se ouvia mais. Tad está morrendo. Tad está morrendo.

Ainda não conseguira fazer nada para refrescar um pouco o carro naquela manhã. A janela do seu lado já não funcionava mais e a do outro lado só deixava entrar mais calor. Na última vez que tentara descê-la um pouco, Cujo logo saíra da sombra onde estava e viera até ali rosnando.

O suor já não escorria mais pelo rosto e pelo.pescoço de Tad, porque ele não tinha mais

suor. Sua pele estava seca e quente. A língua estava inchada e com mau aspecto, pendendo-lhe dos lábios crestados. A respiração já estava tão fraca que quase não se ouvia mais. Já por duas vezes ela encostara a cabeça em seu peito para saber se ele ainda respirava.

A condição de Donna também era terrível, O carro era um verdadeiro forno, tão quente que não se podia tocar nos metais, o mesmo acontecendo com o volante de plástico. A dor na perna era constante e estava sempre latejando. Já não duvidava mais que a mordida do cão a infeccionara seriamente. Era possível que ainda não fosse a hidrofobia e rogava a Deus que não fosse mesmo. Mas tudo estava muito vermelho e inflamado.

O cão também não estava em melhores condições. Parecia ter encolhido dentro de seu pêlo sujo e coberto de sangue. Seus olhos já não tinham vida. Pareciam olhos de um velho atacado de catarata. Era como se fosse alguma máquina velha de destruição que caminhava lentamente para a morte, mas que ainda era terrivelmente perigosa. Continuava sempre atento. Já não babava mais.

Seu focinho em frangalhos era um verdadeiro horror. Parecia um pedaço de rocha expelida por algum vulcão.

O velho monstro continua atento e vigilante, ela pensou, incoerente.

Ela não sabia bem se aquela vigília terrível seria apenas uma questão de horas ou se já havia durado toda a sua vida. Era claro que todas os acontecimentos anteriores tinham sido um pesadelo ou pouco mais que uma simples espera na fila. A mãe, que havia sido repudiada por todos que a cercavam, o pai, bem-intencionado mas ineficiente, as escolas, os namorados e as festas, tudo aquilo, nfim, não passava de um sonho para ela, da mesma forma que a juventude parece sempre ser para os velhos. Nada mais importava, nada mais existia a não ser aquela porta onde já houvera uma morte e onde outras ainda esperavam, sem sombra de dúvida. O velho monstro continuava ali à espreita enquanto seu filho morria lentamente.

Aquele bastão de beisebol era tudo que lhe restava agora.

Era aquele bastão e talvez alguma coisa que houvesse no carro do policial morto. Devia haver ali alguma arma. Talvez uma escopeta.

Ela começou a mudar Tad para o banco traseiro, gemendo exausta e lutando contra as ondas de tonteira que a invadiam.

Conseguiu, finalmente colocá-lo lá sem que ele desse sinal de vida. Ela olhou pela janela e viu o bastão lá no meio da grama e então abriu a porta.

Lá na porta escura da oficina o animal se levantou e veio caminhando devagar em. cima do cascalho da entrada com a cabeça baixa. Vinha em sua direção.

Era 12:30 quando Donna saiu do carro pela última vez.

 

Vic estava saindo da Maple Sugar e entrando na Rodovia 3 na mesma hora em que sua mulher se encaminhava para o bastão de beisebol que Brett esquecera ali no meio da grama. Vic vinha em boa velocidade, já que desejava dar uma olhada ali na oficina e logo depois seguiu para Scarborough, que ficava a uns 80 quilômeros de distância. Com uma certa perversidade, e logo depois dele tomar a decisão de vir ali primeiro, sua mente começou logo a insinuar-lhe a inutilidade daquela viagem. De um modo geral, nunca em sua vida ele se sentira tão impotente.

Estava tão atento em seu propósito, a uns 90 quilômetros de velocidade, que só reparou na caminhonete de Joe estacionada na casa de Gary, depois de já estar a alguma distância. Pisou com tanta violência nos freios do Jaguar que a sua parte da frente quase tocou na estrada. O policial devia ter ido à casa de Joe sem conseguir encontrá-lo porque ele estava ali com seu amigo Gary.

Continuar: parte 4 de 4