Cão Raivoso
— Não. Não. Deixe disso. Telefone de…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Olhou pelo retrovisor. Ao ver a estrada estava vazia, deu marcha à ré para chegar até lá. Encostou o carro e saltou.
Sentiu a mesma coisa que Joe sentira dois dias antes, quando se dera conta das manchas
de sangue e da porta telada arrombada. O sangue, aliás, já estava seco e mais escuro. Sentiu um gosto amargo na boca. Aquilo ali devia ser uma parte do que acontecera. Devia ter alguma coisa a ver com o desaparecimento de Donna.
Entrou e o mau cheiro logo chamou sua atenção. Era um cheiro de decomposição. Os últimos dois dias tinham sido terrivelmente quentes. Ali, num dos cantos, estava uma coisa que parecia ser uma mesinha. Só que Vic não acreditava que fosse por causa do cheiro que exalava. Não era mesinha e sim um homem. A sua garganta parecia ter sido rasgada por alguma lâmina sem corte.
Ele voltou e de sua garganta escapou um som estranho e seco. O telefone. Era preciso chamar algu6m.
Caminhou para a cozinha, mas parou de repente. E então tudo parecia agora claro em seu espírito. Foi um angustiante momento de revelação. Era como se estivesse juntando dois pedaços de um quadro rasgado ao meio e que ficava formando um todo perfeito. Um todo em três dimensões.
O cão. Aquilo fora obra do cão.
O seu carro estava na oficina do Joe. Estivera lá nos dois dias anteriores. O carro e...
— Meu Deus! ...
Ele saiu correndo para o carro.
Pouco faltou para Donna se esparramar ali no chão. Suas pernas estavam muito fracas; Ela logo levantou-se e agarrou o bastão, sem coragem de olhar em torno até te-lo bem seguro, para ver por onde andava o cão. Tinha medo de perder novamente o equilíbrio. Se houvesse olhado um pouco adiante, somente um pouquinho, teria visto o revólver do xerife ali no chão. Ela, porém, não olhou.
Voltou-se, mal se agüentando nas pernas, e viu o animal que investia em sua direção.
Golpeou o focinho do São Bernardo com a parte mais pesada do bastão, mas ficou espantada ao ver como aquilo não estava bem seguro em sua mão. O animal desviou-se, rosnando. O cabo do bastão estava rachado. Seus seios palpitavam dentro do sutiã, que estava também sujo de sangue. Ela esfregara as mãos nele após haver limpado a boca de Tad.
Os dois ficaram olhando-se e medindo-se, à luz ardente do sol. Os únicos sons que se ouvia eram a sua respiração ofegante, o rosnado do animal e o trinado de um pássaro ali perto. As sombras dos dois eram reduzidas e informes.
O cão começou a mexer-se para a esquerda e Donna para a direita. Acabaram fechando o circulo. Ela segurava o bastão no ponto em que a rachadura parecia mais profunda e apertava com força a parte envolta em fita isolante.
Cujo não se decidia.
Ela gritou em desafio e o cão saltou-lhe em cima. Ela arremeteu com o bastão usando toda a sua força, como um campeão numa jogada decisiva. Errou a cabeça, mas atingiu-o nas costelas. Ouviu um ruído abafado como se alguma coisa se quebrasse dentro do animal, que soltou um uivo de dor e caiu em cima do cascalho. Ela sentia que o bastão ficara inútil mesmo com a fita isolante, mas ele ainda servia para alguma coisa.
Donna soltou um grito estridente e golpeou-lhe os quadris. Alguma coisa mais quebrou-se e ela ouviu o barulho que fez. O animal uivava de dor e tentava escapar, mas Donna não desistia. Não o deixava em paz, espancando-o e gritando. Já não sabia mais o que fazia. Estava completamente tonta. Parecia uma verdadeira megera, o anjo vingador; não por ela e sim pelo que aquele animal fizera com seu filho. O bastão já estava partido em dois e a parte pendurada pela fita isolante fazia lembrar um coração pulsando ali em suas mãos.
O bastão já estava todo sujo de sangue e o cão continuava a fugir, mas seus movimentos já. eram muito lentos. Ele conseguiu desviar-se de um golpe, mas o seguinte pegou-o em cheio o ele caiu sentado.
Ela pensou que ele estava liquidado e chegou mesmo a recuar um pouco, ofegante e
sempre gritando como se tivesse algum líquido quente nos pulmões. Logo, porém, ele rosnou ferozmente e lançou-se de novo contra sua atacante, mas rolou de novo no cascalho. O bastão já se partira em dois podaços. A parte mais grossa voou longe e foi bater na calota da roda do carro, soltando um som musical. E agora ela só tinha um pedaço de pau na sua mão.
O animal já se levantava outra vez, com grande dificuldade. O sangue escorria-lhe do
corpo e seus olhos piscavam como se fossem a luz defeituosa de uma máquina qualquer.
E ela continuava a sentir aquela mesma impressão. O cão estava rindo para ela. Vènha! Venha de uma vez!
Pela última vez, aquele cão de estimação de Brett, aquela ruína moribunda, investiu contra a MULHER que fora a causadora de toda sua desgraça. Donna avançou para. ele com o que restava do bastão, onde havia uma grande farpa aguçada, e enterrou-o no seu olho direito e depois em seus miolos. Ela ouviu um barulhinho inexpressivo, como de alguém espremendo uma uva entre os dedos, e o impulso que o cão trazia atirou-a no chão. Ele estava com o. dentes arreganhados quase encostados no pescoço dela. Donna defendeu-se com o braço quando ele tentava se aproximar ainda mais. Pelo olho atingido vazava um liquido viscoso e o hálito era horroroso. Ela tentou forçar-lhe o focinho para cima, mas ele aboca-nhou-a pelo antebraço. Ela soltou um grito.
Pare com isso! Será que não vai desistir? Por favor! Por favor! Por favor!.
O sangue esçorria-lhe pelo rosto, um sangue misturado, dela e do animal. A dor que sentia era"lancinante e intolerável. Era como fogo e parecia encher o mundo inteiro... e ele ia apertando
cada vez mais. A parte lascada do bastão estava ali pendurada grotescamcntc, como algo que brotara naquele lugar onde antes existia o olho.
Ele insistia, querendo alcançar-lhe o pescoço.
Donna sentiu seus dentes e, então, com um grito selvagem, empurrou-o para o lado com os dois braços e o animal tombou ali mesmo.
As suas patas traseiras se debatiam em cima do cascalho e logo os movimentos foram-se tornando cada vez mais lentos até que, finalmente, ele não se mexeu mais. O olho que lhe sobrava estava virado para o céu muito claro. O rabo estava em cima dos pés de Donna, tão pesado como um tapete turco. O cão inspirou profundamcnte e depois soltou todo o ar que tinha nos pulmões. Depois, repetiu a mesma coisa com um ronco surdo e áspero e então, de repente, um esguicho de sangue saiu de sua boca. Estava morto.
Donna soltou um estridente grito de triunfo. Procurou levantar-se e tornou a cair, mas logo conseguiu levantar-se. Caminhou dois passos trõpegos e caiu em cima do corpo do anmal, arranhando os joelhos. Arrastou-se até o pedaço mais pesado do bastão, cuja ponta lascada estava toda ensangüentada, apanhou-o e conseguiu ficar de pé, apoiando-se no carro. Voltou então para onde estava o corpo do animal e começou a marretá-lo inexoravelmente, ouvindo o barulho surdo de cada pancada. A fita isolante estava desenrolada e flutuava ao vento. As lascas entravam-lhe nas palmas das mãos, o sangue escorria pelos braços. Continuava a gritar, mas sua voz já era agora, depois de seu brado de triunfo, uma série de roncos guturais, bem parecidos, aliás, com os do animal quando já estava quase morto. O bastão continuava a golpear o corpo do cão, quando, por trás dela, o Jaguar subiu pela entrada de cascalho.
Ele não sabia bem o que esperara, mas não era nada parecido com aquilo que ali estava agora. Ele sentira muito medo, mas á visão da mulher ali de pé no cascalho, diante daquela massa informe aos seus pés, golpeando sem parar com uma coisa bem semelhante aos porretes dos homens das cavernas, transformava o seu medo num pânico tremendo e quase impedia a formação de qualquer juízo. Seria mesmo a sua mulher aquela que ali estava? Durante um momento infinito, que ele jamais confessaria, seu desejo foi de dar marcha à ré no carro e sair dali correndo... correndo sem parar durante toda a vida. Era monstruoso aquilo que ele via ali agora, bem diante de seus olhos.
Em vez de fugir, porém, ele desligou o motor e saltou do carro aos gritos.
— Donna! Donna!
Ela não parecia ouvi-lo e nem mesmo se dava conta de sua presença ali. O seu rosto estava todo queimado pelo sol de uma forma incrível. A perna da calça de seu lado esquerdo estava esfarrapada e ensangüentada. E a sua barriga... a sua barriga parecia estar aberta.
E ela continuava a golpear, as pancadas sempre acompanhadas de grunhidos roucos. O sangue escorria da carcaça do animaL
— Donna!!!
Conseguiu segurar o bastão quando ele estava no alto, já pronto a desabar sobre o corpo do animal. Só então Donna voltou-se e olhou para ele, mas seus olhos estavam vazios e sem expressão. Os cabelos em completo desalinho faziam com que se parecesse com uma verdadeira bruxa. Ela olhou-o... sacudiu-a ... e afastou-se.
— Donna! Meu amor! Meu Deus...
Ele dizia tudo aquilo muito baixinho.
Era o Vic. Mas Víc não poderia estar ali. Aquilo era uma miragem. Era a terrível moléstia do cão que a envenenava fazendo-a ter alucinações. Ela afastou-se, esfregou bem os olhos e ele continuava ali. Estendeu um braço trêmulo e a imagem segurou-lhe a mão entre as suas, fortes e morenas. Aquilo era um alívio. As suas mãos dofam de uma forma horrível.
— Vic? Vic... Vic... Vic?!! — A voz saía-lhe com dificuldade.
— Sou eu sim, meu amor. Sou eu mesmo. Onde está o Tad?
Então a miragem era real. Era ele mesmo, sem sombra de dúvida. Ela queria chorar, mas as lágrimas não apareciam. Seus olhos moviam-se como se fossem bolas superaquecidas.
—Vic? Víc?
Ele tomou-a nos braços.
— Onde está o Tad, Donna?
— No carro. No carro. Doente. Hospital.
Ela só conseguia falar muito baixinho, mas mesmo isso já ia desaparecendo. Em breve não conseguiria mais falar. Agora, porém, já nada mais tinha importância. Vic estava ali. Ela e o filho estavam salvos.
Ele deixou-a ali e correu para o carro. Ela ficou onde estava, sem se mexer, olhando para o corpo do animal. Afinal de contas, as coisas não tinham sido muito ruins. Quando já nada mais sobrava senão a sobrevivência. Para morrer bastava estar vivo e isso perecia perfeitamente normal. O sangue já não parecia tão ruim, nem tampouco os miolos que saíam da cabeça. do cão, bastante contundida. Agora já nada perecia tão ruim como antes. Vic estava ali, eles estavam a salvo.
No silêncio que reinava a voz de Vic era fácil de ser ouvida,
— Meu Deus!!!
Ela olhou e viu que ele tirava alguma coisa da parte traseira do carro. Parecia um saco. Seria de batatas? De laranjas? O que seria então? Teria ela feito compras antes de tudo aquilo acontecer? Sim. Claro que fizera, mas também se lembrava de que levara tudo para casa. Ela e Tad tinham levado tudo para dentro de casa. Tinham até usado o carrinho dele. Mas então...
Ela tentou gritar o nome do filho e correu para ele.
Vic levou-o para a sombra que havia ao lado da casa e colocou-o na grarna. O rostinho dele estava branco e os cabelinhos pareciam de palha. Estava com as mãos em cima da grama, mas o seu peso nã chegava a quebrar-lhe as hastes.
Vic encostou a cabeça no seu peitimho.Ele levantou os olhos para Donna. Seu rosto estava pálido, mas ele permanecia calmo.
— Quanto tempo faz que ele está morto, Donna?
— Morto?!!!
Ela tentava gritar bem alto, mas sua boca movia-se apenas como uma imagem na TV com o som desligado. Ele não está morto. Ainda não estava morto quando o coloquei lá atrás do carro. O que é que você está querendo me dizer? Ele está morto? O que é que você está tentando me dizer seu miseráve!!
Era o que ela tentava lhe dizer na sua voz sem som. Teria ele morrido na mesma hora do cão? Era impossível. Nenhum Deus, nem nenhum Destino, poderia ser tão monstruosamente cruel...
Ela correu para o marido e começou a espancá-lo. Ele não estava preparado para aquela insólita agressão e então perdeu o equilíbrio e caiu ali mesmo. Ela agachou-se junto ao filho, levantando-lhe os bracinhos e abrindo-lhe a boquinha e beliscando-lhe o nariz, tentando uma respiração boca a boca
Lá na entrada de cascalho as sonolentas moscas de verão esvoaçavam em torno dos cadáveres do cão e do xerife George Bannerman, marido de Victoria e pai dc Katrina. Não demonstravam preferências entre o cão e o homem. Eram moscas democráticas. O sol brilhava em todo o seu triunfo. Eram 13:10 agora e os campos brilhavam e dançavam no verão silencioso. A cor do céu era um azul desbotado. Realizava-se a previsão da Tia Evvie.
Donna insistia na respiração boca a boca com o filho. Ele não podia estar morto. Não se conformava em ter atravessado aquele inferno só para ver seu filho morto. Isso simplesmente não podia acontecer.
isso não ia acontecer.
E ela não desistia de sua tentativa. Continuava com a sua boca colada à do filho.
Ainda estava fazendo aquilo quando a ambulância chegou, 20 minutos depois. Não permitia que o marido chegasse perto do filho. Quando ele tentava, ela arreganhava os dentes, tentando rosnar como um cachorro.
Dominado pela dor até o ponto mais profundo de seu subconsciente, convencido que nada daquilo podia estar acontecendo, Vic entrou na casa de Camber por aquela mesma porta que Donna tanto olhara. Ela não estava trancada e ele correu para o telefone.
Quando voltou para fora, viu que Donna continuava na sua inútil tentativa de reanimar o filho morto. Ele olhou-a e desviou-se dela. Foi até o carro e abriu novamente a porta traseira. Sentiu um bafo quente que o atingia em cheio como se fosse de algum leão invisível. Era-lhe impossível acreditar que eles houvessem sobrevivido desde à tarde de segunda-feira, todo o dia da terça e até aquele momento.
Sob o pneu sobressalente ele encontrou um velho cobertor e com ele cobriu o corpo do xerife, muito mutilado. Sentou-se então no gramado e ficou olhando para a Rodovia 3 e para os pinheiros empoeirados ao longe. Sentia que o pensamento lhe fugia serenamente. O motorista da ambulância e os dois ajudantes colocaram o corpo do Xerife Bannerman dentro do carro e depois foram chegando para perto de Donna, que logo arreganhou os dentes para eles. Os seus lábios secos e rachados conseguiram lalar.
— Ele está vivo! Ele está vivo!
Quando um dos enfermeiros tentou tirá-la dali, carinhosamente, ela deu-lhe uma dentada. Com isso ele seria obrigado, mais tarde, a fazer também o tratamento contra a raiva. O outro veio ajudá-lo e ela enfrentou-os.
Eles afastaram-se, com ar desanimado. Vic continuava sentado no gramado, o queixo apoiado nas mãos e sempre olhando para a estrada.
O motorista da ambulância voltou com uma seringa na mão. Ela lutou e a seringa quebrou-se. O corpo de Tad continuava ali no gramado. A sombra que o cobria já estava maior agora.
Chegaram mais dois carros da policia. Roscoe Fisher estava em um deles e rompeu em pranto quando soube que o xerife estava morto. Dois outros policiais caminharam para Donna. Houve outra luta, curta e furiosa, até conseguirem separá-la do filho. Ela quase conseguiu livrar-se, mas Roscoe, ainda chorando, veio ajudá-los. Ela se debatia sem conseguir ainda articular um som, mas sempre sacudindo a cabeça. Veio uma outra seringa e então conseguiram dar-lhe uma injeção.
Eles tiraram mais uma padiola da ambulância e um dos homens veio para apanhar o corpinho de Tad, cobrindo-o logo com um lençol. Quando viu aquilo, Donna redobrou seus esforços, conseguindo livrar um dos braços com o qual se agitava, até que, de repente, conseguiu escapar.
Vic correu para ela.
— Donna, meu amor! Está tudo acabado. Por favor, querida. Não faça isso!
Ela não investiu para a padiola onde estava o corpo do filho e sim para o pedaço do bastão de beisebol. Logo começou novamente a marretar o corpo do animal. As moscas saíram voando e formando uma nuvem esverdeada e brilhante. O barulho do bastão contra o corpo do animal era surdo e terrível. Parecia o barulho de um açougue. A cada marretada o corpo do animal saltava um pouco.
Os policiais já se dirigiam para ela, mas foram contidos pelo enfermeiro.
— Esperem...
E, logo depois, ela desabava no gramado completamente inerte. E, quando a mão se abriu, o bastão de Brett rolou no gramado.
A ambulância partiu logo depois, com a sirene gemendo. Um dos enfermeiros tinha oferecido uma injeção a Víc, “só para lhe acalmar os nervos”, e ele aceitara, embora se sentisse absolutamente tranqüilo. Aceitou apenas para mostrar-se delicado. Ele apanhou o invólucro de celofane que envolvera a seringa e olhou para a palavra UPJOHN que ali estava.
— Nós já fizemos uma campanha de propaganda para esses caras. — Foi mesmo?
O enfermeiro fez a pergunta com uma certa cautela. Era um moço louro que estava a
ponto de vomitar tudo que tinha no estômago. Nunca tinha visto nada igual em toda a sua vida.
Um dos carros da polícia estava ali à espera, para levar Vic ao hospital em Bridgton. Ele abriu as duas portas do carro de Donna e como a do lado esquerdo estava empenada
foi preciso fazer força. Custava-lhe acreditar que o cão pudesse ter feito o que via ali. Encontrou a bolsa e a camisa da mulher. A camisa estava rasgada e o cão, certamente, tinha-lhe arrancado um pedaço. A garrafa térmica de Tad cheirava a leite azedo. Sentiu um choque no coração quando viu a lancheira do filho. Ele se recusava agora a pensar no futuro. Seria possível que ele viesse a existir depois daqueles terríveis acontecimentos? Encontrou ainda um dos sapatinhos de Tad.
Tad! Tad! Oh, Tad...
Já não se agüentava mais nas pernas e então sentou-se no banco da frente, do lado
direito, olhando, por entre as pernas, para a tira cromada na moldura da porta. Por quê? Por que havia acontecido uma coisa como aquela? Como era que tudo parecia conspirar para o que acontecera?
Sentiu a cabeça latejar com violência. Sentiu que as lágrimas obstruíram-lhe o nariz e
as cavidades começaram também a latejar. Ele fungou para fazer voltar as lágrimas e passou a mão no rosto. Lembrou-se de que o cão fora o responsável pela morte de pelo menos trôs pessoas, ou mais ainda, se Joe estivesse entre as vitimas. E aquele policial que ele cobrira com um cobertor? Teria uma mulher e filhos? Era bem prováveL
Se eu tivesse chegado aqui uma hora antes... Se não tivesse pegado no sono...
Eu tinha tanta certeza de que fora o Stevel Tanta certeza!
Se tivesse chegado antes, apenas quinze minutos antes... Se não tivesse conversado com o Roger durante tanto tempo... Quem sabe se o Tad anda estaria vivo... A que horas teria ele morrido? Será que tudo isso aconteceu mesmo? E como é que vou viver com isso o resto de minha vida sem ficar completamente louco? O que será que vai acontecer com a Donna?
Chegou um outro carro da policia e um dos policiais saltou para vir falar com aquele que ia levar Vic, e que, logo depois, chegou-se para ele.
— Acho que devíamos ir andando, Sr. Trenton. Meu colega acaba de me dizer que os repórteres estão vindo para cá e acho que o senhor não está disposto a falar com eles agora...
— E não estou mesmo. Vamos.
Já se levantava para sair quando viu no banco onde Tad estivera um pedacinho de papel. Puxou-o e viu que era um papel amarelo, muito amarrotado, onde ele escrevera as Palavras Para os Monstros, a fim de acalmar o filho na hora de dormir. Além de muito amarrotado, o papel estava bom sujo de suor, as dobras quase transparentes.
Monstros, fiquem bem longe de meu quarto!
Aqui não é o lugar de vocês.
Não há monstras embaixo da cama de Tad!
Não há monstros escondidos no closet de Tad!
Não há quem caiba ali embaixo!
O lugar é muito apertadlnho.
Ndo há monstros do lado de fora da janela de Tad!
Ninguém poderia se aguentar ali
Não há vanplros, lobisomens ou bichos que mordam.
Vocês nada tem, a fazer aqui!
Durante toda a noite nada poderá atacar Tad, nem tampouco feri-lo. Vocês nada...
Ele não conseguia mais ler o resto. Amarrotou o papel e atirou-o em cima do corpo do cão. Aquele papel era uma mentira sentimental tão inconstante como a cor daquele estúpido cereal colorido com
anilina. Era tudo uma mentira. O mundo estava cheio de monstros e todos tinham licença para morder os inocentes e os incàutos.
Deixou-se levar para o carro da polícia da mesma forma que mortos e vivos tinham sido levados antes. Logo depois, chegou a veterinária numa pick-up. Olhou para o cão, enfiou umas longas luvas de borracha e tirou do carro uma serra circular portátil. Os policiais, sabendo muito bem o que ela ia fazer, viraram as costas para não ver.
Ela cortou a cabeça do animal e colocou-a num saco plástico. Mais tarde, naquele mesmo dia, a cabeça seria examinada pela repartição competente do Estado que então diria se ele estava ou não danado.
E assim Cujo também foi embora.
Faltavam 15 minutos para as 4 daquela tarde quando Holly chamou Charity para atender ao telefone. Holly mostrava certa preocupação ao passar o telefone para a irmã.
— Parece que é alguém oficial...
Cerca de uma hora antes, Brett finalmente cedera às súplicas de seu primo e fora
brincar com ele no Centro Comunitário da cidade, onde havia um playground.
Depois deles saírem a casa ficou silenciosa e só se ouvia a conversa das duas mulheres relembrando frutos de suas juventudes, daqueles bons tempos de antigamente, conforme dizia Charíty. Daquele dia em que o pai tinha caído do caminhão em cima de um monte de esterco. Só não relembravam as surras que ele lhes dava por alguma transgressão real ou imaginária e que deixava quase sem poderem sentar. Daquela ocasião em que haviam conseguido entrar no cinema para ver o Elvis em Love me Tender; não relembravam porém aquele, dia em que a mãe saíra do supermercado em prantos, por seu crédito ter sido cortado deixando lá o cesto de mantimentos que comprara, e com todo mundo olhando para ela. Dos tempos em que Red Timmins estava sempre tentando beijar Holly quando as duas voltavam da escola. Mas não recordaram o dia que ele perdera um braço quando seu trator virou, em agosto de 1962. As duas haviam descoberto que podiam abrir o closet das roupas, desde que não remexessem muito nele, porque lá dentro poderia haver um bicho que morderia.
Já por duas vezes Charity chegara a abrir a boca para dizer à irmã que voltariam para
casa no dia seguinte, mas acabara não falando nada. Não sabia como dizer-lhe aquilo sem que a outra pensasse que iam embora porque não estavam gostando da casa dela.
Agora, ao sentar-se para atender o telefone, aquilo ficava provisoriamente esquecido.
Tinha ao seu lado uma xícara de chá. Sentia-se um pouco aflita porque ninguém gosta de receber telefonemas quando está passando umas férias fora de casa, principalmente de alguém que soava como se fosse oficial.
— Alô...
Holly ficou ali de pé, olhando para o rosto da irmã.
— Como é? O que foi? Não... não. Deve haver algum engano. Depois disso ela ficou calada, ouvindo o que diziam do outro lado. Era uma notícia terrível aquela que lhe davam agora pelo telefone e vinda lá do Maine. Holly percebeu logo que não devia ser coisa boa. Percebia claramente a transformação que se operava no rosto da irmã, embora não conseguisse ouvir o que diziam pelo telefone.
Notícas más vindas lá do Maine. Aquilo para ela não era novidade. Estava tudo bem se
ela e a irmã estivessem ali na cozinha ensolarada, tomando chá e comendo pedaços de laranjas, relembrando coisas do passado. Estava bem, mas não alterava o fato. Sempre que se lembrava de sua infância só podia ver coisas más, recordações tão terríveis que ela pensava se não seria melhor se nunca mais tornasse a ver a irmã mais velha. Lembrava-se como as outras meninas da escola sempre zombavam de suas calcinhas rasgadas e feitas de sacos de algodão. Lembrava-se das dores nas costas após ter o dia inteiro no campo, colhendo batatas; e então era preciso levantar-se com cuidado. Lembrava-se ainda de como as duas tinham o máximo cuidado perto de Red, para não mencionarem a falta de seu braço. Aliás, Holly lembrava-se de como se sentira satisfeita ao tomar conhecimento do desastre. Satisfeita mesmo. E isso porque ele lhe atirara uma maçã verde no rosto, com tanta força que o nariz chegara a sangrar e ela chorara muito. Lembrava-se como Red lhe fizera uma massagem à moda dos índios e como achara graça em tudo aquilo. Lembrava-se de um bom jantar com manteiga dc amendoim e cereais, quando as coisas estavam muito ruins. Vinha-lhe à memória o fedor do paiol durante o verão. Era cheiro de merda e não era nada bom.
As noticias do Maine eram ruins. E, de uma certa forma, por algum motivo maluco, elas nunca falariam sobre aquilo nem mesmo se chegassem aos 100 anos e passassem os últimos 20 anos de suas vidas juntas, como exigira Charity. A sua boa aparência já quase não existia mais. Estava cheia de rugas em torno dos olhos, os seios estavam caídos apesar do sutiã. A diferença entre as duas era apenas de 6 anos, embora parecesse ser de 16. E o pior de tudo era que ela não parecia preocupar-se com o fato de estar condenando o seu filho, bonito e inteligente, a uma vida semelhante... a não ser que ela acordasse no tempo. Para os turistas, Holly pensava, com amargura indignada, os velhos e os bons tempos não haviam mudado e ainda era tempo de férias. Para .qúem vinha lá de baixo, no entanto, as notícias eram sempre más. Então chegaria o dia em que, se vendo ao espelho, encontraria ali refletido o rosto de Charity Camber. E agora vinham do Maine notícias que deviam ser muito ruins, já que de lá não se podia esperar outra coisa. Charity estava desligando o telefone, mas continuava olhando para ela com o chá quente ali ao seu lado.
— O Joe morreu — Charity disse de repente. Holly levou um susto. Sentia um frio na espinha. Sentia vontade dc gritar. Por que você veio para cá? Eu sabia que você só nos traria azar e agora vejo que não me enganei.
— Deus do céu, querida. Você tem certeza?
— Quem me falou foi um cara de Augusta. Um cara chamado Masen. Ele trabalha com o secretário de justiça.
— Foi um... foi algum acidente de automóvel, Charity?
Charity encarou-a bem de frente e Holly percebeu então, chocada e apavorada, que o rosto da irmã não era o de alguém que acabava de receber notícias muito más. Ao contrário, o seu rosto mais parecia o de alguém que acabava de receber boas notícias. Seu rosto parecia mais sereno e seus olhos estavam perdidos, mas aquilo não era uma expressão de choque e sim de alguém que desperta para novas possibilidades.
Ela teria compreendido melhor se tivesse visto o rosto da irmã no dia em que conferira o bilhete .premiado..
— Charity?
— Foi o cachorro, Holly. Foi o Cujo...
— O cachorro? — A princípio ela ficou espantada, sem conseguir compreender. Não conseguia estabelecer nenhuma ligação entre a morte de Joe e o cachorro da família. Logo a seguir, no entanto, percebeu. As implicações vieram-lhe a seguir, acompanhadas com a recordação do que acontecera com Rod quando perdera o braço. A pergunta veio-lhe então, com a voz estridente e nervosa. — O cachorro?
Antes que a irmã pudesse responder, se realmente tinha essa intenção, ouviram vozes
alegres que vinham do quintal dos fundos. Primeiro a de Jim, muito aguda e estridente, e depois a de Brett, mais baixa e divertida. Só então transformou-se a fisionomia de Charity, que se tornou mais aflita. Aquela era uma expressão que Holly conhecia bem e que detestava cordíalmente, uma expressão que tornava iguais todos o rostos, e que ela tivera muitas vezes naqueles velhos tempos.
—Meu filho... o Brett, Holly. Como é que vou dizer a ele que o pai morreu?
Holly não encontrava uma resposta. Olhava desesperada para a irmã, pensando como teria sido bem melhor se Charity e o filho não houvessem aparecido por ali...
CÃO DANADO MATA QUATRO NUM BIZARRO REINADO DE TERROR QUE DUROU TRÊS DIAS. Essa era a manchete escandalosa do Evening Express, de Portland. Abaixo da manchote,tinham outras informações. O único sobrevívente está no Hospital de Cumberland e seu estado isnpira cuidados. A manchete do dia seguinte no Press-Herald dizia:
PAI CONTA A LUTA DESESPERADA DE SUA MULHER PARA SALVAR O FILHO. Naquela mesma noite, a notícia já tinha sido relegada pera o pé da primeira página. O MÉDICO DIZ QUE A SRA. TRENTON REAGE BEM AO TRATAMENTO CONTRA A RAIVA; VETERININÁRIA DIZ QUE ANIMAL NÃO ESTAVA VACINADO. Três dias depois, tudo estava acabado. A notícia já passara para a página quatro; o DEPARTAMENTO DE SAÚDE CULPA RAPOSAS E OUTROS ANIMAIS DANADOS PELA EPIDEMIA DE RAIVA EM CASTLE ROCK. Uma última notícia naquela semana dizia que Victor Trenton não tinha intenção de acionar os membros restantes da família Camber, que ainda estavam “sob um choque profundo”. Aquelas notícias eram poucas e vagas, mas sempre ofereciam um pretexto para novos comentários. Uma semana depois, a edição de domingo de um jornal publicava um relato completo de tudo que acontecera. Na semana seguinte, um tablóide de circulação nacional publicava uma sinopse do que acontecera. TRÁGICA BATALHA NO MAINE, QUANDO A MÃE LIQUIDA UM SÃO BERNARDO ASSASSINO. E esse foi o verdadeiro final do acontecimento.
Naquele outono o pavor a respeito da hidrofobia assolou todo o Maine. Um especialista no assunto atribuiu aquilo a “boatos e ao horroroso acidente de Castle Rock, que fora um caso isolado”.
Donna ficou no hospital durante quase um mês. Terminou o ciclo do tratamento contra a raiva, com muitas dores mas sem problemas sérios; porém, devido à seriedade potencial da moléstia e à grande depressão mental, ela permanecia sob constante observação.
Em fins de agosto, Vic levou-a de volta para casa.
Tiveram um dia tranqüilo, mas, naquela mesma noite, ela perguntou ao marido como iam os negócios da agência. Estavam diante da TV, mas nenhum dos dois lhe dava atenção.
Tudo vai muito bem lá, querida. O Roger cuidou sozinho do último comercial do Professor, naturalmente com a ajuda do Rob Martin. Agora estamos tratando de uma campanha inteiramente nova para toda a linha de produtos da Sharp... — Aquilo, porém, era uma meia mentira. Vic ainda comparecia ao escritório umas quatro vezes por semana, mas nada fazia. — . ... o pessoal da Sharp, no entanto, age sempre com muito cuidado, para que. nada ultrapasse o prazo dos dois anos do contrato. O Roger estava com a razão. Vão nos chutar logo que o contrato termine. Só que, já então, isso não fará muita diferença para nós.
— Que bom...
Ela agora já tinha alguns períodos mais alegres e então moatrava-se muito parecida com o que fora antes. Na maior parte do tempo, no entanto, ficava completamente desligada. Tinha perdido 10 quilos e estava muito magra. Sua aparência não era muito boa. Não tinha cuidados com as unhas.
Olhou para a TV durante algum tempo e depois voltou-se para ele, chorando.
— Donna... meu amor...
Ele abraçou-a carinhosamente e, por baixo de sua carne macia, ele sentia os ossos. Ela aceitava suas demonstrações de carinho, mas continuava distante.
Afinal, conseguiu falar, sem grande firmeza.
— Será que vamos poder viver aqui, Vic? Você acha que vamos?
— Não sei, Donna. Mas acho que sempre será bom tentar...
— Acho que eu devia perguntar se vamos poder continuar a viver juntos. Se a sua resposta for não, Vic, eu entenderei. Entenderei perfeitamente...
— Tudo o que eu desejo é viver com você, Donna. Acho que sempre pensei assim. Talvez tenha havido um momento.., logo depois que recebi aquele bilhete, em que fiquei sem saber. Mas foi só naquele momento, Donna. Eu te amo e sempre te amei...
Ela tomou-o então nos braços e abraçou-o com força. Uma chuva macia de verão
fustigava as janelas, fazendo estranhas sombras no chão.
— Eu não consegui salvá-lo, Vic. Não posso tirar isso do meu pensamento. Não consigo livrar-me disso. Penso bem em tudo que houve inúmeras vezes. Fico imaginando se teria sido possível apanhar aquele bastão antes ou se houvesse corrido para a porta. E então, quando ganhei coragem e fui.., já era muito tarde. Ele já estava .......
Vic poderia dizer-lhe que ela só pensara no filho antes de mais nada. Poderia dizer-lhe que a sua razão para não tentar aquilo antes era porque não queria deixar Tad abandonado no caso do cão liquidá-la, antes que conseguisse entrar na casa. Ele poderia ter-lhe dito que, naquela altura do cerco, o cão deveria estar também exausto e que se ela o houvesse enfrentado com o bastão antes, tudo teria sido muito diferente. Afinal, o cão quase a matara, mas ele sabia perfeitaménte que ela já pensara em tudo aquilo várias vezes e que, antes de mais nada, não havia lógica no mundo que lhe diminuísse a dor ao ver os cadernos coloridos empilhados lá no quarto, o balanço na varanda vazio e parado. Não havia lógica no mundo que conseguisse fazer diminuir a sua sensação de fracasso. Talvez só o tempo viesse a conseguir tudo aquilo, mas mesmo assim esse esquecimento nunca seria completo.
— Mas eu também não consegui salvá-lo — disse Vic.
— Você?!
— Eu estava absolutamente certo que tudo fora obra do Steve. Se eu tivesse ido lá antes.., se não tivesse pegado no sono... se não tivesse falado com o Roger durante tanto tempo...
Ela apertou-o carinhosamente.
— Não... Não. Pare com isso...
— Mas eu preciso falar, Donna, e acho que você também precisa. Nós simplesmente teremos que nos conformar e tocar em frente... Ë assim que todo mundo faz, não é mesmo? Vão sempre tocando para a frente e procurando se ajudar mutuamente.
— Não consigo me esquecer dele, Vic... Vejo e sinto meu filho em toda à parte, em todos os momentos...
— Eu sei como é... também sinto a mesma coisa.
Ele e Roger tinham levado todos os brinquedos de Tad para o Exército da Salvação, duas semanas antes. Depois disso tinham voltado para ali, onde tomaram umas cervejas enquanto assistiam os jogos na TV, mas não tinham falado muito.
Depois de Roger ter saído ele subira para o quarto de Tad, sentara-se em sua cama e chorara até não se agüentar mais. Chorava e desejava morrer. Não morrera e no dia seguinte voltara ao trabalho.
— Quer fazer um cafezinho para nós? Vou acender a lareira. Já está frio aqui.
Ao acabar de falar, ele deu-lhe uma palmadinha carinhosa.
Ela logo levantou-se, mas parou no meio do caminho.
— Vic?
— Sim? O que é que.há agora?
— Eu também te amo muito, Vic...
— Muito obrigado. Eu estava mesmo precisando ouvir isso.
Ela sorriu com ar desanimado e foi fazer o café. Conseguiram passar a noite, embora Tad continuasse morto. Passaram também o dia seguinte e todos os subseqüentes. Nada havia ainda melhorado muito no fim de agosto e nem mesmo em setembro, mas tudo pareceu melhorar um pouco quando as folhas começaram a amarelar e cair. Um pouquinho só.
Charity estava tensa, embora não quisesse deixar transparecer.
Quando Brett voltou do barracão, sacudindo a neve des botas, e entrou pela porta da cozínha, ela estava ali sentada, com uma xícara de chá em sua frente. Durante um momento, ele apenas olhou para a mãe. Estava mais magro e tinha crescido naqueles últimos seis meses. O efeito disso era que ele se tornara um tanto desajeitado. As notas do primeiro trimestre não tinham sido muitas boas e ele tivera problemas em duas ocasiões. Pequenas brigas nas horas do recreio, provavelmente por causa de tudo que acontecera no verão. As notas do segundo trimestre, no entanto, tinham melhorado muito.
— Mamãe! Mamãe... será que...
— Foi o AIva quem trouxe, Brett, mas você não é obrigado a ficar com ele...
— Será que já foi vacinado?
Ela não gostou quando ele fez a pergunta.
— Claro que já. O Alva tentou enganar-me, mas eu o apertei, obrigando-o a mostrar-me a conta do veterinário. Foram nove dólares e a vacina é contra a raiva e a cinomose. Também tem ai um tubo de pomada para carrapatos e para as moscas nas orelhas. Se você não quiser ficar com ele o Alva devolverá meus nove dólares...
O dinheiro era muito importante para eles Durante algum tempo ela não sabia se poderia continuar na casa e nem mesmo se valeria a pena tentar. Conversara com o filho e fora muito franca com ele. Tinham recebido um seguro de vida muito pequeno. O gerente do banco em Bridgton explicara-lhe que o dinheiro do seguro mais o da loteria cobririam o que ainda deviam pela hipoteca da casa, se fosse colocado numa conta dc poupança especial, nos próximos cinco anos. Ela conseguira um emprego razoável na única indústria existente em Castle Rock. A venda de todo o equipamento da oficina, incluindo o guincho novo, trouxe-lhe mais uns 3.000 dólares. Com tudo isso junto, tinham então a possibilidade de con-servarem a casa. Mas ia ser uma vida dura. Tudo isso ela explicou claramente ao filho. A alternativa seria um apartamento na cidade.
Brett tinha pensado bem no assunto e, afinal, o que ele queria era exatamente o que ela também queria; e então resolveram ficar com a casa.
— Como é o nome dele, mamãe?
— Ainda não tem nome. Acabou de ser desmamado.
— E ele é de raça?
— Claro que sim... É um Heinz. Uma de suas 57 variedades...
Ela soltou uma risada e ele apenas sorriu, e foi um sorriso forçado que ela, assim mesmo, achou melhor do que se não houvesse sorriso algum.
— E ele pode ficar aqui dentro? Já começou a nevar outra vez...
— Claro que pode, mas você precisa forrar o chão com jornais. Se ele sujar a casa quem limpa é você.
— Está bem.
Ele abriu a porta para sair.
— Qual é o nome que você vai dar a ele, Brett?
— Não sei. Ainda não sei... Vou ter que pensar bem.
Ela teve a impressão de que ele ia chorar mas conseguiu conter-se para não ir ao seu encontro. Além disso, ele estava de costas e ela não podia ter certeza. Já estava bem crescido, mas, por mais pena que tivesse dele, ela sabia que os rapazes crescidos não gostam de ser acalentados pelas mães. Não gostam de ser vistos chorando.
Ele foi até lá fora e voltou com o cachorrinho nos braços. Ficaria sem nome até a próxima primavera quando, sem qualquer explicação plausível, começaram a chamá-lo de Willie. Era um cachorrinho pequeno, esperto, com pêlo curto e uma boa dose de sangue terrier. O nome enquadrava-se bem e por isso pegou com facilidade.
Bem mais tarde, já na primavera, Charity teve um pequeno aumento de salário que lhe permitia economizar 10 dólares por semana. Aquilo era para a universidade de Brett, quando chegasse a hora.
Pouco depois de todos aqueles lamentáveis acontecimentos na casa de Joe Camber, os restos de Cujo foram cremados. Suas cinzas foram para o lixo e depois para a estação de tratamento que havia em Augusta. Não seria, talvez, fora de propósito dizer aqui que Cujo sempre fora um bom cão. Tinha sempre procurado fazer tudo o que o HOMEM, a MULHER e o MENINO lhe mandavam. Teria, até mesmo, sido capaz de morrer por eles, se isso fosse necessário. Jamais pensara em matar alguém. Tinha sido atingido por alguma coisa, talvez pelo seu destino,pela sua sorte,e por uma moléstia degenerativa dos nervos chamada hidrofobia.Olivre-arbítrio não entrou em cena.
Ninguém chegou. a descobrir a pequena caverna onde se metera o coelho perseguido por Cujo. Os morcegos acabaram se mudando dali impelidos por vagas razões que levam as pequenas criaturas a fazerem essas coisas. O coelho não conseguiu escapar e acabou morrendo ali de fome. Os seus ossos, tanto quanto se saiba, ainda estão lá, junto com os outros de pequenos animais que, levados pela má sorte, se enfiaram ali.
Eu digo-lhes aqui, e disso faço questão,
Eu digo-lhes aqui, e disso faço questão,
Eu digo-lhes aqui, e disso faço questão,
Para onde todos os bons cães vão...
— Canção folclórica americana.
Setembro 1977
Março 1981
DIGITALIZADOR: DAGON
REVISOR: DAGON
PROJETO PDL: 20/07/2006
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