Celular

Stephen King · Capítulo 3 de 5 · parte 1/3

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Celular

O velho se curvou, aparentando de repente cansaço.

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Eles não estão ligados juntos — falou. — Não se lembra que eu disse que as duas premissas estavam erradas?

— Sim, mas não entendo o que o senhor quer...

— Tem um aparelho de som com um CD dentro, quanto a isso você tem razão. Uma coletânea, segundo Jordan, e por isso as mesmas músicas se repetem.

— Sorte a nossa — murmurou Tom, mas Clay mal o escutou. Ele estava tentando compreender o que Ardal acabara de falar: eles não estão ligados juntos. Como aquilo era possível? Não havia como.

— Os aparelhos de som, ou mini systems, como quiser, estão todos em volta do campo — prosseguiu o Diretor —, e estão todos ligados. A noite, dá para ver as pequenas luzes vermelhas...

— É verdade — disse Alice. — Eu vi algumas luzes vermelhas, mas não me toquei.

— ... só que eles estão vazios... sem nenhum CD ou fita cassete... e nenhum fio que os conecte. São apenas escravos que recebem o áudio do CD mestre e retransmitem.

— Se eles estiverem de boca aberta, a música sai de dentro deles também — disse Jordan. — Sai baixinho... menos que um sussurro... mas dá pra ouvir.

— Não — falou Clay. — É imaginação sua, garoto. Só pode ser.

— Eu não ouvi isso — disse Ardal —, mas é claro que minha audição não é a mesma de quando eu era fã do Gene Vicent e os Blue Caps. "Já era", como diriam Jordan e seus amigos.

— O senhor é muito velha guarda — disse Jordan. Ele falou com uma solenidade gentil e com um afeto inconfundível.

— É Jordan, sou mesmo — concordou o Diretor. Ele deu um tapinha no ombro do garoto e voltou a atenção aos demais. — Se Jordan diz que ouviu, eu acredito nele.

— Não é possível — disse Clay. — Não sem um transmissor.

— Eles estão transmitindo — respondeu o Diretor. — É uma habilidade que parecem ter adquirido desde o Pulso.

— Espere — disse Tom. Ele ergueu a mão como um guarda de trânsito, a abaixou, começou a falar, ergueu-a mais uma vez. Do seu lugar vagamente seguro do lado do Diretor Ardal, Jordan o observou com atenção. Por fim, Tom disse:

— Estamos falando de telepatia?

— Imagino que esse não seja exatamente le mot juste para este fenômeno em particular — respondeu o Diretor —, mas por que nos prendermos aos detalhes técnicos? Eu apostaria todos os hambúrgueres que restam no freezer que vocês já tinham usado a palavra entre si antes.

— O senhor ganharia o dobro de hambúrgueres — disse Clay.

— Bem, é verdade, mas essa coisa de se juntar em bando é diferente — falou Tom.

— E por quê? — O Diretor ergueu as sobrancelhas desgrenhadas.

— Bem, porque... — Tom não conseguia terminar, e Clay sabia por quê. Não era diferente. Formar bandos não era comportamento humano e eles sabiam disso desde o instante em que observaram George, o mecânico, seguir a mulher de calças sujas pelo jardim da frente de Tom na Salem Street. Ele andara tão perto da mulher que poderia ter mordido o pescoço dela... mas não mordeu. E por quê? Porque, para os fonáticos, a hora de morder já tinha acabado; era hora de formar bandos.

Pelo menos, a hora de morder os seus iguais. A não ser que...

— Professor Ardal, no começo eles matavam qualquer um...

— Sim — concordou o Diretor. — Tivemos muita sorte de escapar, não tivemos, Jordan?

Jordan estremeceu e assentiu.

— Os meninos saíram correndo para todo lado. Até alguns professores. Matando... mordendo... falando coisas sem sentido... Eu me escondi em umas das estufas por um tempo.

— E do sótão desta casa aqui — acrescentou o Diretor —, eu observei da pequena janela lá em cima o campus, o campus que eu amo, ir literalmente para o inferno.

Jordan falou:

— A maioria dos que não morreram fugiu em direção ao centro. Agora um monte deles está de volta. Lá do outro lado. — Ele meneou a cabeça na direção do campo de futebol.

— E o que podemos concluir disso tudo? — perguntou Clay.

— Acho que sabe a resposta, Sr. Riddell.

— Clay.

— Clay, certo. Acho que o que está acontecendo é mais do que uma anarquia temporária. Acho que é começo de uma guerra. Vai ser curta, mas extremamente violenta.

— O senhor não acha que está exagerando...

— Não. Embora só possa me basear nas minhas próprias observações, e nas de Jordan, tivemos a oportunidade de estudar um bando bem numeroso, e os vimos ir e vir, e também... digamos, descansar. Eles pararam de matar uns aos outros, mas continuam matando pessoas que classificaríamos como normais. Eu chamo isso de comportamento militar.

— O. senhor os viu matando pessoas normais com os próprios olhos? — perguntou Tom. Atrás dele, Alice abriu a mochila, tirou o Nike de bebê e o segurou na mão.

O Diretor olhou para ele com gravidade.

— Vi. Sinto dizer que Jordan também.

— Não teve jeito — disse Jordan. Lágrimas saíam dos olhos dele. — Eles eram muitos. Foi um homem e uma mulher. Não sei o que eles

estavam fazendo no campus tão perto do anoitecer, mas com certeza não sabiam sobre o estádio Tonney. Ela estava machucada. Ele estava ajudando a moça a andar. Então encontraram com uns vinte deles voltando da cidade. O homem tentou carregar a moça. — A voz de Jordan começou a falhar. — Se estivesse sozinho, talvez tivesse conseguido escapar, mas com ela... só conseguiu chegar até o Horton Hall. É um dos dormitórios. Lá ele caiu e eles os pegaram. Eles...

Jordan enterrou repentinamente a cabeça no casaco do velho — ele vestia uma peça cinza-escuro naquela tarde. A mão grande do Diretor acariciou a nuca macia de Jordan.

— Eles parecem saber quem são seus inimigos — refletiu o Diretor. — Talvez faça parte da mensagem original que receberam, vocês não acham?

— Talvez — disse Clay. Fazia uma espécie de sentido perverso.

— Quanto ao que eles estão fazendo à noite deitados tão quietos e com os olhos abertos, ouvindo aquela música... — O Diretor suspirou, tirou um lenço de um dos bolsos do casaco e secou os olhos do menino de modo casual. Clay viu que ele estava ao mesmo tempo muito assustado e muito convencido de qualquer que fosse a conclusão à qual chegara. — Acho que eles estão reiniciando — disse.

— Vocês estão vendo as luzes vermelhas, não estão? — perguntou o Diretor com sua voz arrebatadora, do tipo "vão me ouvir até a última fileira do auditório". — Contei no mínimo sessenta e tr...

— Fale baixo!— sibilou Tom. Só faltou tapar a boca do velho com a mão.

O Diretor olhou para ele com calma.

— Você se esqueceu do que eu falei na noite passada sobre a dança das cadeiras?

Tom, Clay e Ardal tinham acabado de passar das roletas, com o arco do estádio Tonney às suas costas. Alice concordara em ficar na Casa Cheatham com Jordan. A música que saía do campo de futebol da escola preparatória era uma versão instrumental em ritmo de jazz de Garota de Ipanema. Clay achava que, se você fosse um fonático, aquilo era a coisa mais vanguarda do mundo.

— Não — disse Tom. — Enquanto a música estiver tocando, não temos com que nos preocupar. Só não quero acabar com a garganta rasgada por uma exceção insone a essa regra.

— Isso não vai acontecer.

— Como pode ter tanta certeza, senhor? — perguntou Tom.

— Porque eles não estão dormindo de verdade. Venha.

Ele começou a descer a rampa de concreto que os jogadores usavam para chegar ao campo, viu que Tom e Clay tinham ficado para trás e olhou para eles com paciência.

— Não se ganha muito conhecimento sem correr riscos — ele disse —, e a essa altura, eu diria que conhecimento é essencial, concordam? Venham.

Eles desceram a rampa, seguindo as batidas da bengala do velho em direção ao campo, Clay um pouco na frente de Tom. Sim, eles estavam vendo as luzes vermelhas dos mini systems circundando o gramado. Devia haver sessenta ou setenta delas. Viam-se aparelhos de som bem grandes a cada 3 ou 4 metros de distância, cada qual cercado de corpos. À luz das estrelas, eles eram uma visão estarrecedora. Não estavam empilhados — cada um tinha sua própria vaga —, mas não sobrava nem um centímetro. Até os braços estavam entrelaçados, de modo que davam a impressão de cobrir o campo como bonecas de papel enfileiradas, enquanto a música — Que parece do tipo que se ouve em supermercados, pensou Clay — subia na escuridão. Uma outra coisa também subia no ar: um cheiro insalubre de terra e vegetais podres, com um odor mais forte de dejetos humanos e putrefação por baixo.

O Diretor desviou do gol, que tinha sido tirado do lugar, virado e cuja rede fora estraçalhada. Lá, onde o lago de corpos começava, jazia um rapaz de uns 30 anos com mordidas subindo pelo braço até a manga da sua camisa da NASCAR. As mordidas pareciam estar infeccionadas. Ele segurava em uma das mãos um boné vermelho, o que fez Clay se lembrar do tênis de estimação de Alice. O rapaz olhava estupidamente para as estrelas enquanto Bette Midler cantava mais uma vez sobre o vento que inflava suas asas.

— Olá — exclamou o Diretor com sua voz esganiçada e penetrante. Ele cutucou o rapaz animadamente com a ponta da bengala, empurrando a barriga até ele peidar. — Olá, meu caro!

— Pare com isso! — Tom quase gemeu.

O Diretor olhou para ele com desdém e então enfiou a ponta da bengala no boné que o rapaz estava segurando. Atirou-o longe. O boné voou uns 3 metros e foi parar na cara de uma mulher de meia-idade. Clay observou, fascinado, o boné escorregar um pouco para o lado, revelando um olho extasiado e impassível.

O rapaz ergueu o braço com uma lentidão sonolenta e fechou a mão que segurara o boné em um punho. Então a deixou cair.

— Ele acha que está segurando o boné de novo — sussurrou Clay, fascinado.

— Talvez — respondeu o Diretor, sem muito interesse. Ele cutucou as mordidas infeccionadas do rapaz com a bengala. Deveria doer pra cacete, mas o rapaz não reagiu, apenas continuou olhando para o céu à medida que Bette Midler dava lugar a Dean Martin. — Eu poderia enfiar minha bengala na goela dele e ele não tentaria me impedir. E nenhum dos que estão em volta se levantaria para defendê-lo, embora à luz do dia não tenho dúvidas de que me esquartejariam.

Tom estava agachado diante de um dos estoura tímpanos.

— Este aqui está com pilhas — disse ele. — Dá pra saber pelo peso.

— Sim. Todos estão. Eles parecem mesmo precisar de pilhas. — O Diretor refletiu e então acrescentou algo que Clay preferiria não ter ouvido. — Pelo menos por enquanto.

— Nós poderíamos cair dentro, não poderíamos? — disse Clay. — Poderíamos acabar com eles do jeito que os caçadores exterminaram pombos nos anos 1880.

O Diretor assentiu.

— Eles espalharam os miolos daqueles pombos pelo chão, não foi? Boa analogia. Mas eu demoraria muito com a minha bengala. Temo que demoraria até com a sua automática.

— De qualquer forma, não tenho balas o suficiente. Deve haver... — Clay correu os olhos por sobre os corpos amontoados mais uma vez. Olhar para eles lhe dava dor de cabeça. — Deve haver uns seiscentos ou setecentos. Isso sem contar os que estão debaixo das arquibancadas.

— Senhor? Sr. Ardal? — Era Tom. — Quando o senhor... como o senhor descobriu?...

— Como determinei a profundidade deste estado de transe? É isso que quer saber?

Tom assentiu.

— Eu vim observar na primeira noite. O bando era muito menor, é claro. Fui atraído a eles por uma simples, porém esmagadora, curiosidade. Jordan não estava comigo. Passar para a existência noturna tem sido muito difícil para ele.

— O senhor sabe que arriscou a vida — disse Clay.

— Não tive muita escolha — respondeu o Diretor. — Era como se estivesse hipnotizado. Entendi logo que eles estavam inconscientes, embora os olhos estivessem abertos, e algumas poucas experiências com a ponta da minha bengala confirmaram a profundidade do transe.

Clay pensou em como o Diretor mancava e considerou perguntar se o velho havia pensado no que teria acontecido se estivesse enganado e eles viessem atrás dele, mas segurou a língua. Sem dúvida o Diretor reiteraria que não se obtém conhecimento sem riscos. Jordan estava certo: aquele era um cara muito velhaguarda. Clay certamente não gostaria de ter 14 anos e estar diante da palmatória daquele homem.

Enquanto isso, Ardal balançava a cabeça para ele.

— Seiscentos ou setecentos é uma estimativa muito modesta, Clay. Este é um campo de futebol oficial. São 500 metros quadrados.

— Quantos, então?

— Do jeito que eles estão amontoados? Eu diria no mínimo mil.

— E eles não estão aqui de verdade, estão? O senhor tem certeza disso.

— Tenho. E os que voltam, um pouco mais a cada dia, e Jordan concorda comigo, e ele é um ótimo observador, pode confiar em mim, não são mais o que eles eram antes. Quero dizer, não são mais humanos.

— Podemos voltar para a Casa agora? — perguntou Tom. Ele parecia estar passando mal.

— Claro — concordou o Diretor.

— Só um segundo — disse Clay. Ele se ajoelhou ao lado do rapaz com a camisa da NASCAR. Não queria fazer aquilo, não conseguia deixar de imaginar que a mão que agarrara o boné tentaria agarrá-lo, mas se obrigou. Ao nível do chão, o fedor era pior. Clay pensara que estava se acostumando, mas tinha se enganado.

Tom começou a falar:

— Clay, o que você está...

— Silêncio. — Clay se inclinou sobre a boca do rapaz, que estava semi-aberta. Depois de hesitar, forçou-se a chegar mais perto, até conseguir ver o brilho fraco da saliva no lábio inferior do homem. A princípio, ele pensou que era só imaginação, mas, ao se aproximar mais 5 centímetros, quase próximo o bastante para beijar a criatura não-adormecida com Ricky Craven estampada no peito, viu que estava errado.

— Sai baixinho..., — dissera Jordan, — menos que um sussurro... mas dápra ouvir.

Clay ouviu; a voz de alguma forma uma ou duas sílabas à frente do som que saía dos mini systems interligados: Dean Martin cantando Everybody Loves Somebody Sometime.

Ele se levantou, quase gritando ao som de disparo dos seus próprios joelhos estalando. Tom ergueu a lanterna e o encarou com os olhos arregalados.

— O quê? O quê:'Você não vai me dizer que aquele garoto estava...

Clay assentiu.

— Venha. Vamos voltar.

Na metade da subida da rampa, ele colocou a mão com força sobre o ombro do velho. Ardal se virou para encará-lo, sem parecer incomodado em ser agarrado daquela forma.

— O senhor está certo. Precisamos nos livrar deles. O máximo que conseguirmos e o mais rápido possível. Essa talvez seja a nossa única chance. Ou o senhor acha que estou errado?

— Não — respondeu o Diretor. — Infelizmente, não acho. Como disse, isto é uma guerra, pelo menos acredito que sim, e o que se faz na guerra é matar os inimigos. Por que não voltamos e discutimos isso? Podemos tomar um chocolate quente. Eu sou um bárbaro e gosto de um pouco de bourbon no meu.

No topo da rampa, Clay dedicou um último olhar para trás. O estádio Tonney estava escuro, mas a luz forte das estrelas do norte o permitia ver o tapete de corpos espalhados de cima a baixo e de uma ponta a outra. Ele pensou que talvez não fosse possível entender o que era aquilo logo de cara, mas depois que você entendia... depois que você entendia...

Os olhos dele pregaram-lhe uma peça e, por um instante, Clay pensou tê-los visto respirar — todos os oitocentos ou mil deles — como um só organismo. Aquilo o assustou de tal forma que ele se virou para alcançar Tom e o Diretor Ardal, quase correndo.

O Diretor preparou chocolate quente na cozinha, e o beberam na sala de visitas, à luz de dois lampiões a gás. Clay achou que o velho sugeriria que fossem até a Academy Avenue mais tarde, arrastar mais voluntários para o Exército de Ardal, mas ele parecia satisfeito com o que tinha.

A bomba de gasolina na garagem da frota de veículos, o Diretor contou para eles, era alimentada por um tanque suspenso de 1.500 litros; bastava puxar um plugue. E também havia pulverizadores de 110 litros na estufa. Pelo menos uma dúzia. Eles poderiam carregar uma picape com eles, talvez, e descer de ré uma das rampas...

— Espere — disse Clay. — Antes de começarmos a montar estratégias, se o senhor tem alguma teoria sobre o que está acontecendo, eu gostaria de ouvi-la.

— Nada muito formal — disse o velho. — Mas Jordan e eu observamos, temos nossa intuição e, juntos, temos bastante experiência com...

— Eu sou um rato de computador — disse Jordan por sobre a caneca de chocolate quente. Clay achou a confiança emburrada do garoto estranhamente charmosa. — Um completo McNerd. Sempre fui, a vida inteira. Aquelas coisas estão reiniciando, com certeza. Eles poderiam ter INSTALANDO SOFTWARE, POR FAVOR, AGUARDE piscando na testa.

— Não estou entendendo — disse Tom.

— Eu estou — disse Alice. — Jordan, você acha que o Pulso foi mesmo um Pulso, não acha? E ele... apagou o disco rígido de todo mundo que o escutou.

— É claro — respondeu Jordan. Ele era educado demais para dizer: Dã.

Tom olhou perplexo para Alice. Mas Clay sabia que Tom não era burro e não achava que ele fosse tão lento assim.

—- Você tinha um computador — disse Alice. — Eu vi no seu escritório.

— Tinha...

— E instalava softwares neles, certo?

— Claro, mas... — Tom parou, olhando fixamente para Alice. Ela devolveu o olhar. — Os cérebros deles? Você quer dizer os cérebros...

— O que você acha que é um cérebro? — disse Jordan. — Um disco rígido gigante. Um conjunto de circuitos orgânicos. Com ninguém sabe quantos bytes. Talvez um giga elevado à enésima potência. Uma infinidade de bytes. — Ele colocou as mãos nas orelhas, que eram pequenas e bem-feitas. — Bem aqui no meio.

— Não acredito — disse Tom, mas ele falou com uma voz fraca e dava a impressão de estar enjoado. Clay achou que ele acreditava sim.

Pensando na loucura que tinha estourado em Boston, ele tinha que admitir que a idéia era tentadora. E era também terrível: milhões, talvez bilhões, de cérebros apagados ao mesmo tempo, do mesmo jeito que se pode apagar um disquete antigo com um ímã poderoso. Clay se viu recordando da Cabelinho Escuro, a amiga da garota com o celular cor de hortelã. Quem é você? O que está acontecendo? Gritara a Cabelinho Escuro. Quem é você? Quem sou eu? Então ela bateu várias vezes na própria testa com a base da mão e enfiou a cara em um poste, duas vezes, despedaçando seu caro tratamento dentário.

Quem é você? Quem sou eu?

Não tinha sido o telefone dela. A Cabelinho Escuro estava ouvindo por tabela e não recebeu uma dose completa.

Clay, que na maior parte do tempo pensava em imagens em vez de palavras, tinha na cabeça a imagem muito clara de uma tela de computador repleta das seguintes frases: QUEM É VOCÊ QUEM SOU EU QUEM É VOCÊ QUEM SOU EU QUEM É VOCÊ QUEM SOU EU QUEM É VOCÊ QUEM SOU EU e, para terminar, no fundo, tão frio e indiscutível quanto o destino da Cabelinho Escuro: FALHA NO SISTEMA.

A Cabelinho Escuro como um disco rígido apagado pela metade? Era horrível, mas parecia a verdade nua e crua.

— Sou formado em inglês, mas quando jovem li bastante sobre psicologia — o Diretor disse a eles. — Comecei com Freud, é claro, todo mundo começa com Freud... depois Jung... Adler... a partir deles, fui passando por todo o campo de batalha. Por trás de todas as teorias de como a mente funciona, existe uma teoria maior: a de Darwin. No vocabulário freudiano, a idéia da sobrevivência como diretriz primária é expressa pelo conceito do id. Em Jung, pela idéia um tanto mais grandiosa da consciência do sangue. Creio que ninguém discordaria da hipótese de que se todo o pensamento consciente, toda a memória, toda a habilidade de raciocínio fossem apagados da mente humana em um determinado momento, o que sobrasse seria puro e terrível.

Ele fez uma pausa, olhando em volta à espera de comentários. Ninguém falou nada. O Diretor assentiu como se estivesse satisfeito e concluiu.

— Embora nem os freudianos nem os jungianos digam isso com todas as letras, eles sugerem vigorosamente que talvez tenhamos um núcleo, uma freqüência básica em comum ou, usando a linguagem com a qual Jordan está mais habituado, uma linha de código que não pode ser apagada.

— A DP — disse Jordan. — A diretriz primária.

— Sim — concordou o Diretor. — No fundo, não somos nem um pouco Homo sapiens. Nossa diretriz primária é matar. O que Darwin foi educado demais para dizer, meus amigos, é que dominamos a Terra não porque éramos os mais inteligentes, ou mesmo os mais cruéis, e sim porque sempre fomos os mais loucos, os mais desgraçados homicidas da floresta. E foi isso que o Pulso demonstrou cinco dias atrás.

— Eu me recuso a crer que éramos lunáticos e assassinos antes de qualquer coisa — disse Tom. — Meu Deus, cara, e o Parthenon? E o Davi de Michelangelo? E aquela placa na lua que diz: "Viemos em paz para toda a humanidade."

— Aquela placa também tem o nome de Richard Nixon escrito nela — disse Ardal com aspereza. — Um quacre, mas dificilmente um homem de paz. Sr. McCourt, Tom, meu intuito não é acusar a humanidade. Se fosse, diria que para cada Michelangelo existe um Marquês de Sade, para cada Ghandi, um Eichmann, para cada Martin Luther King, um Osama Bin Laden. Vamos nos limitar ao seguinte: o homem dominou o planeta graças a dois traços essenciais. Um é a inteligência. O outro é a completa disposição para matar tudo e todos que possam vir a impedi-lo.

Ele se inclinou para frente, estudando-os com aqueles olhos brilhantes.

— A inteligência humana finalmente conseguiu superar o instinto assassino, e a razão dominou os impulsos mais insanos. Isso também foi uma questão de sobrevivência. Creio que a batalha final entre os dois se deu em outubro de 1963, por conta de um punhado de mísseis em Cuba, mas isso é conversa para outra ocasião. O fato é: a maioria das pessoas sublimou o que há de pior nelas até o Pulso chegar e apagar tudo, exceto aquele núcleo vermelho.

— Alguém tirou o diabo-da-tasmânia de dentro da jaula — murmurou Alice. — Quem?

— Isso também não é do nosso interesse — respondeu o Diretor.

— Imagino que eles não tinham idéia do que estavam fazendo... ou da magnitude do que estavam fazendo. Tomando como base o que devem ter sido experiências feitas às pressas nos últimos anos, ou talvez nos últimos meses, é possível que tenham pensado que iriam desencadear uma onda destrutiva de terrorismo. Em vez disso, desencadearam um tsunami de violência inenarrável, que está em processo de mutação. Por mais horríveis que os dias de hoje pareçam, é provável que mais tarde os consideremos uma calmaria entre duas tempestades. Talvez eles sejam a nossa única chance de causar algum impacto.

— O que o senhor quer dizer com processo de mutação? — perguntou Clay.

Porém, o Diretor não respondeu. Em vez disso, voltou-se para o menino de 12 anos.

— Quando quiser, meu jovem.

— Certo. Bem. — Jordan parou para pensar. — A mente consciente usa apenas uma pequena percentagem da nossa capacidade cerebral. Vocês sabem disso, certo?

— Sim — disse Tom, com certa complacência. — Já li sobre isso.

Jordan assentiu.

— Mesmo se acrescentarmos todas as funções automáticas que ele controla, e mais as coisas inconscientes, ou seja, os sonhos, os pensamentos involuntários, o impulso sexual, toda essa conversa, nosso cérebro trabalha muito pouco.

— Holmes, você me impressiona — disse Tom.

— Não banque o espertinho, Tom — falou Alice, e Jordan olhou para ela com os olhos decididamente brilhando.

— Não estou bancando o espertinho — disse Tom. — O garoto é bom.

— Ele é mesmo — disse o Diretor secamente. — Jordan às vezes escorrega no inglês, mas não ganhou bolsa por ser um ás no dominó. — Ele notou o desconforto do menino e despenteou carinhosamente o cabelo de Jordan com os dedos ossudos. — Prossiga, por favor.

— Bem... — Clay viu que o garoto se esforçou para conseguir retomar o ritmo. — Se o nosso cérebro for mesmo um disco rígido, estaria quase vazio. — Ele percebeu que somente Alice havia entendido. — Em outras palavras: a barra de informações diria algo como 2% em uso, 98% de espaço livre. Ninguém sabe ao certo para que servem os 98%, mas o potencial deles é grande. Por exemplo, vítimas de derrame... às vezes elas acessam áreas do cérebro que estavam dormentes para voltarem a andar e falar. É como se o cérebro delas se conectasse em volta da área danificada. Áreas semelhantes do cérebro são ativadas, mas do outro lado.

— Você estuda essas coisas? — perguntou Clay.

— É um produto natural do meu interesse por computadores e cibernética — disse Jordan, dando de ombros. — E eu também leio bastante ficção científica cyberpunk. William Gibson, Bruce Sterling, John Shirley...

— Neal Stephenson? — perguntou Alice.

Jordan abriu um sorriso radiante.

— Neal Stephenson é um deus.

— Voltando ao assunto... — ralhou o Diretor... mas com ternura.

Jordan deu de ombros.

— Se você formatar o disco rígido de um computador, ele não pode se regenerar espontaneamente... exceto talvez em um romance de Greg Bear. — Ele sorriu de novo, mas desta vez apenas por um instante e, pensou Clay, com nervosismo. A culpa era em parte de Alice, que obviamente deixava o menino gamado. — Com pessoas é diferente.

— Mas há uma grande diferença entre voltar a andar depois de um derrame e ser capaz de ligar um monte de mini systems por telepatia — disse Tom. — Uma diferença monstruosa. — Ele olhou em volta constrangido quando a palavra telepatia saiu da sua boca, como se esperasse que rissem dele. Ninguém riu.

— É verdade, mas uma vítima de derrame, mesmo se for grave, é muito diferente do que aconteceu com as pessoas que estavam usando o celular durante o Pulso — retorquiu Jordan. — A gente acha, quer dizer, nós achamos, que, além de limpar o cérebro das pessoas até aquela linha de código impossível de apagar, o Pulso também ativou alguma outra coisa. Algo que provavelmente estava lá dentro há milhões de anos, enterrado naqueles 98% de disco rígido inativo.

A mão de Clay se moveu furtivamente para a coronha do revólver que ele pegara no chão da cozinha de Beth Nickerson.

— Um gatilho — disse ele.

Jordan abriu um sorriso.

— Isso, exatamente! Um gatilho de mutação. Não poderia acontecer sem essa... tipo, limpeza total em grande escala. Porque o que está emergindo, o que está surgindo naquelas pessoas lá fora... só que elas não são mais pessoas, o que está surgindo é...

— Um único organismo — interrompeu o Diretor. — Essa é a nossa teoria.

— Sim, mas é mais do que um simples bando — disse Jordan. — Porque o que eles conseguem fazer com os CD-players pode ser apenas o começo, como uma criancinha aprendendo a amarrar os sapatos. Imaginem o que eles podem conseguir fazer em uma semana. Ou em um mês. Ou em um ano.

— Você pode estar errado — disse Tom, mas a voz dele saiu tão seca quanto palha.

— Ele também pode ter razão — disse Alice.

— Oh, eu tenho certeza de que ele tem razão — atalhou o Diretor. Ele bebericou seu chocolate quente batizado. — É claro que eu sou um velho e meu tempo está se esgotando de qualquer maneira. Acatarei qualquer decisão que vocês tomarem. — Ele fez uma pequena pausa. Seus olhos bruxulearam de Clay para Alice e então para Tom. — Desde que seja a decisão correta, obviamente.

Jordan falou:

— Os bandos vão tentar se unir. Se eles já não conseguem ouvir uns aos outros, vão conseguir logo, logo.

— Besteira — disse Tom, apreensivo. — Histórias de fantasmas.

— Talvez — disse Clay —, mas vamos pensar no seguinte: agora, as noites são nossas. E se eles decidirem que precisam de menos horas de sono? Ou que não têm tanto medo assim do escuro?

Ninguém falou nada por vários instantes. O vento estava ficando mais forte lá fora. Clay bebericou o chocolate quente, que nunca tinha estado mais do que morno e já estava quase frio. Quando voltou a erguer os olhos, Alice tinha deixado de lado sua caneca e estava com o talismã da Nike nas mãos.

— Eu quero exterminá-los — disse ela. — Os que estão no campo de futebol, quero exterminá-los. Não digo matá-los porque acho que Jordan tem razão, e não quero fazer isso pela raça humana. Quero fazer pela minha mãe e pelo meu pai, porque ele está morto também. Sei que está, posso sentir. Quero fazer pelas mihhas amigas Vicky e Tess. Elas eram boas amigas, mas tinham celulares, não saíam para lugar nenhum sem eles, e tenho certeza de que estão como eles agora, e que estão dormindo: em algum lugar igual àquela porra de campo de futebol. — Ela olhou para o Diretor, corando. — Perdão, senhor.

O Diretor afastou a desculpa dela com um gesto.

— Podemos fazer isso? — ela perguntou ao velho. — Podemos exterminá-los?

Charles Ardal, que estava encerrando sua carreira como diretor interino da Academia Gaiten quando o mundo acabou, revelou seus dentes carcomidos em um sorriso que Clay daria muito para ter capturado em um desenho; não havia uma gota de piedade nele.

— Srta. Maxwell, nós podemos tentar — disse.

Às quatro da manhã do dia seguinte, Tom McCourt sentava-se em uma mesa de piquenique entre as duas estufas da Academia Gaiten, que haviam sido bastante danificadas desde o Pulso. Os pés dele, agora usando os Reeboks que calçara ainda em Malden, estavam em cima de um dos bancos e a cabeça estava pousada nos braços, que descansavam sobre o joelho. O vento jogava seu cabelo primeiro para um lado, depois para o outro. Alice sentava-se na frente dele, com o queixo apoiado nas mãos e fachos de várias lanternas desenhando ângulos e sombras no seu rosto. A luz dura a deixava bonita, apesar do cansaço evidente; na idade dela, qualquer luz ainda era lisonjeira. O Diretor, sentado ao lado de Alice, parecia apenas exausto. Na estufa mais próxima, dois lampiões a gás flutuavam como espíritos inquietos.

Os lampiões convergiram na saída da estufa. Clay e Jordan passaram pela porta, embora enormes buracos tivessem sido abertos nas paredes de vidro em ambos os lados. Pouco depois, Clay se sentou perto de Tom e Jordan retornou ao seu posto habitual ao lado do Diretor. O menino cheirava a gasolina e fertilizante; cheirava ainda mais a desânimo. Clay largou vários molhos de chave na mesa em meio às lanternas. Para ele, as chaves poderiam ficar ali até algum arqueólogo as descobrir quatro milênios mais tarde.

— Desculpem-me — disse baixinho o Diretor Ardal. — Parecia tão simples.

— Pois é — falou Clay.

Parecia simples: bastava encher os pulverizadores da estufa com gasolina, colocar os pulverizadores na traseira de uma picape, dar a volta no estádio Tonney, encharcando os dois lados no caminho, e acender um fósforo. Ele pensou em falar para Ardal que a aventura de George W. Bush no Iraque também devia ter parecido simples — carregar os pulverizadores, acender um fósforo — e não era. Seria uma crueldade sem sentido.

— Tom? — perguntou Clay. — Você está bem? — Ele já tinha percebido que Tom não tinha grandes reservas de energia.

— Tudo bem, só estou cansado. — Ele ergueu a cabeça e sorriu para Clay. — Não estou acostumado com o turno da noite. O que a gente faz agora?

— Vamos para cama, eu acho — disse Clay. — Vai amanhecer daqui a uns 40 minutos. — O céu já começara a clarear ao leste.

— Não é justo — disse Alice. Ela esfregou com raiva as bochechas. — Não é justo, a gente se esforçou tanto.

Eles tinham se esforçado muito, mas nada era fácil. Cada pequena (e, no fim das contas, inútil) vitória tinha sido o tipo de luta encarniçada que a mãe de Clay chamava de ralação bolchevique. Parte de Clay queria muito culpar o Diretor... e também a si mesmo, por não ter ouvido a idéia do pulverizador de Ardal com um pouco mais de malícia. Agora, parte dele achava que acatar a idéia de um professor de inglês de incendiar um campo de futebol era meio como levar uma faca para um tiroteio. Ainda assim... bem, parecera uma boa idéia.

Isto é, até descobrirem que o tanque de gasolina da garagem da frota de veículos estava dentro de um barraco trancado. Eles passaram quase meia hora no escritório revirando à luz de lanternas um monte de chaves irritantemente sem etiquetas em um mural atrás da mesa do supervisor. Foi Jordan quem finalmente encontrou a chave do barraco.

Então eles descobriram que "basta puxar um plugue" não era exatamente o caso. Havia uma tampa, e não um plugue. E, como o barraco em que o tanque estava, a tampa estava fechada à chave. Voltaram ao escritório, remexeram mais à luz de velas e finalmente encontraram uma chave que parecia servir. Foi Alice quem observou que, uma vez que a tampa estava no fundo do tanque, para garantir que a força da gravidade empurrasse a gasolina caso faltasse energia, eles iriam entornar tudo se não usassem uma mangueira ou um sifão. Passaram então uma hora procurando uma mangueira que servisse e não acharam nada que fosse remotamente parecido. Tom encontrou um pequeno funil, o que deixou todos levemente histéricos.

E, uma vez que nenhuma das chaves das picapes estava etiquetada (pelo menos não de maneira que não-funcionários da frota de veículos pudessem entender), localizar o molho certo se tornou outro processo de tentativa e erro. Pelo menos isso foi mais rápido, pois havia apenas oito picapes estacionadas atrás da garagem.

Por fim, as estufas. Lá eles encontraram apenas oito pulverizadores, e não uma dúzia, com capacidade não de 110 litros, mas de 35. Talvez até conseguissem enchê-los com a gasolina do tanque, mas o processo os deixaria encharcados e o resultado seria menos de 300 litros de gasolina útil. Foi a idéia de exterminar mil lunáticos dos celulares com menos de 300 litros de gasolina comum que levara Tom, Alice e o Diretor à mesa de piquenique. Clay e Jordan ainda rodaram mais um pouco, procurando por pulverizadores maiores, porém não encontraram nada.

— Mas encontramos alguns pulverizadores de jardim — disse Clay. — Sabem, aqueles que as pessoas costumavam chamar de bombas de Flit.

— E além disso — disse Jordan —, os pulverizadores grandes lá de dentro estão todos cheios de fertilizante, adubo ou algo do gênero. Primeiro teríamos que jogar tudo fora, e ainda precisaríamos de máscaras para não nos intoxicar, ou sei lá o quê.

— Que dureza — disse Alice, emburrada. Ela olhou para o tênis de bebê por um instante e então o enfiou no bolso.

Jordan pegou as chaves que eles descobriram servir em uma das picapes.

— Podemos ir até o centro — disse ele. — Tem uma loja de ferragens lá. Eles devem ter pulverizadores.

Tom balançou a cabeça.

— Fica a quase 2 quilômetros daqui e a pista principal está cheia de carros acidentados e veículos abandonados. Talvez a gente consiga desviar de alguns, mas não de todos. E dirigir pelos gramados está fora de questão. As casas são muito grudadas. As pessoas estão todas viajando a pé por um motivo. — Eles haviam visto algumas pessoas de bicicleta, mas não muitas. Mesmo as que tinham farol eram perigosas se você acelerasse o mínimo que fosse.

— Será que um caminhão pequeno conseguiria passar pelas ruas laterais? — perguntou o Diretor.

Clay disse:

— Imagino que a gente possa explorar essa possibilidade na noite de amanhã. Poderíamos antes inspecionar um caminho a pé e voltar para pegar o caminhão. — Ele refletiu. — Provavelmente uma loja de ferragens também tem mangueiras de todo tipo.

— Você não me parece muito animado — disse Alice.

Clay suspirou.

— Qualquer coisa pode bloquear uma rua pequena. Acabaríamos fazendo muito trabalho de burro de carga mesmo se tivermos mais sorte do que hoje à noite. Talvez a idéia pareça melhor depois que eu descansar um pouco.

— É claro que vai parecer — concordou o Diretor, mas não soou convincente. — Para todos nós.

— E o posto de gasolina em frente à escola? — perguntou Jordan, sem muita esperança.

— Que posto de gasolina? — perguntou Alice.

— Ele está falando do Citgo — respondeu o Diretor. — O mesmo problema, Jordan: muita gasolina nos tanques embaixo das bombas, mas nenhuma energia. E duvido que os contêineres deles possam encher mais do que algumas latas de gasolina de 8 ou 20 litros. O que eu acho mesmo é... — Mas o velho não disse o que achava mesmo. Ele parou de falar. — O que foi, Clay?

Clay estava se lembrando do trio à frente deles, que passara mancando por aquele posto de gasolina, um dos homens com o braço em volta da cintura da mulher.

— Citgo da Academia Grove — disse ele. — É este o nome, não é?

— É...

— Mas acho que eles não vendem apenas gasolina. — Ele não só achava, tinha certeza. Por conta dos dois caminhões parados em frente do posto. Ele os tinha visto e não achara nada de mais. Não naquela hora. Não tinha motivo.

— Não sei o que você... — o Diretor começou a falar e então se interrompeu. Os olhos dele encontraram os de Clay. Seus dentes carcomidos apareceram mais uma vez naquele sorriso excepcionalmente impiedoso. — Oh — ele disse. — Oh. Minha nossa. Minha nossa, é claro.

Tom olhava de um para outro com uma perplexidade cada vez maior. Alice também. Jordan apenas aguardava.

— Vocês se importariam de dividir com a gente o que estão pensando? — perguntou Tom.

Clay estava prestes a fazê-lo — ele já via claramente como iria funcionar, e era bom demais para não compartilhar com os demais — quando a música no estádio Tonney cessou. Ela não parou com um clique, como geralmente acontecia quando eles acordavam pela manhã; o som despencou, como se alguém tivesse chutado a fonte para o fundo de um poço de elevador.

— Eles acordaram cedo — disse Jordan em voz baixa.

Tom agarrou o antebraço de Clay.

— Está diferente — disse ele. — E um daqueles malditos estoura tímpanos ainda está tocando... Dá para ouvir, bem baixinho.

O vento estava forte, e Clay sabia que ele vinha da direção do campo de futebol por conta dos cheiros pungentes que trazia: comida em decomposição, carne em decomposição, centenas de corpos sem banho. Trazia também o som fantasmagórico de Lawrence Welk e os Champagne Music Makers tocando Baby Elephant Walk.

Então, vindo de algum lugar a noroeste — talvez a 15 ou 50 qui-lômetros de distância, era difícil saber desde onde o vento conseguia carregá-lo —, veio um gemido espectral, de alguma forma parecido com o som de mariposas. Depois silêncio... silêncio... e, em seguida, as criaturas não-despertas e não-adormecidas no campo de futebol Tonney responderam da mesma forma. O gemido delas era muito maís alto, um grunhido espectral, surdo e retumbante que subia em direção ao céu escuro e estrelado.

Alice cobriu a boca. O tênis de bebê saltou das suas mãos. Ela arregalou os olhos para ele. Jordan jogará os braços em volta da cintura do Diretor e enterrara o rosto nas costelas dp velho.

— Veja, Clay! — disse Tom. Ele se levantou e cambaleou até o gramado entre as duas estufas destruídas. — Está vendo? Meu Deus, está vendo?

Um brilho laranja-avermelhado tingira o horizonte a noroeste, de onde o grunhido distante tinha surgido. Ficou mais forte à medida que ele observava; o vento trouxe aquele som terrível novamente... e mais uma vez foi respondido com um grunhido semelhante, porém muito mais alto, vindo do estádio Tonney.

Alice se juntou a eles, seguida pelo Diretor, que andava com os braços em volta dos ombros de Jordan.

— O que fica para lá? — perguntou Clay, apontado em direção ao brilho. Ele já tinha começado a enfraquecer novamente.

— Pode ser Glen's Falls — respondeu o Diretor. — Ou talvez Littleton.

— Seja o que for, está rolando um churrasco — disse Tom. — Eles estão queimando. E o nosso bando sabe disso. Eles ouviram.

— Ou sentiram — disse Alice. Ela estremeceu, se empertigou e arreganhou os dentes. — Espero que sim!

Como se para responder à afirmação de Alice, outro grunhido veio do estádio Tonney: várias vozes se ergueram em uníssono em um grito de solidariedade e, talvez, agonia compartilhada. O único mini system que restara — era o mestre, imaginava Clay, o que estava com um CD dentro — continuou tocando. Dez minutos depois, os demais voltaram a se unir a ele. A música — daquela vez, Close to You, dos Carpenters — aumentou da mesma forma que tinha despencado antes. Àquela altura, o Diretor Ardal, visivelmente mancando com sua bengala, já os havia levado de volta para a Casa Cheatham. Logo em seguida, a música parou de novo... mas daquela vez com um clique, como na manhã anterior. Ao longe, trazido pelo vento por Deus sabe quantos quilômetros, ouviu-se o som fraco de um tiro. Então um silêncio sinistro e absoluto caiu sobre o mundo, enquanto ele aguardava a noite dar lugar ao dia.

À medida.qae os primeiros raios vermelhos do sol começavam a trespassar as árvores no horizonte ao leste, eles observaram os fonáticos deixarem mais uma vez o campo de futebol em formação de ordem-unida e seguirem para o centro de Gaiten e para os bairros mais próximos. Mudaram de direção no caminho, descendo rumo à Academy Avenue como se nada de inconveniente tivesse acontecido perto do fim da noite. Mas Clay não levou fé naquilo. Ele pensou que, se quisessem fazer o que tinham que fazer no posto Citgo, era melhor que fosse depressa, naquele dia mesmo. Sair à luz do sol poderia significar ter que atirar em alguns deles, mas enquanto estivessem se movendo em grupo apenas no começo e no fim do dia, ele estava disposto a correr o risco.

Eles observaram o que Alice chamou de "o despertar dos mortos" da sala de jantar. Mais tarde, Tom e o Diretor foram para a cozinha. Clay os encontrou sentados à mesa em uma nesga de sol, bebendo café morno. Antes de Clay começar a explicar o que ele queria fazer mais tarde, Jordan tocou o pulso dele.

— Alguns dos lunáticos ainda estão aqui — disse ele. — Eu estudei com alguns deles.

Tom falou:

— Achei que a essa altura eles estivessem fazendo compras no Kmart, procurando pelas ofertas especiais.

— É melhor dar uma conferida — disse Alice da porta. — Não sei bem se é outro... como é que vocês chamam?... outro passo evolutivo, mas pode ser que sim. Provavelmente.

— Com certeza é — disse Jordan em um tom sombrio.

Os fonáticos que tinham ficado para trás — Clay achava que era um pelotão de cerca de cem deles — estavam retirando os mortos debaixo das arquibancadas. A princípio, simplesmente os carregaram até o estacionamento ao sul do campo e para trás de um prédio de tijolos longo e baixo. Voltaram de mãos vazias.

— Aquele prédio é a pista de atletismo coberta — o Diretor contou a eles. — É também onde guardamos o material esportivo. Tem um barranco atrás dele, imagino que estejam jogando os corpos pela beirada.

— Pode apostar que sim — disse Jordan. Ele parecia enojado. — Tem um pântano lá embaixo. Eles vão apodrecer.

— Eles já estavam apodrecendo de qualquer jeito, Jordan — disse Tom delicadamente.

— Eu sei — falou ele, parecendo mais enojado do que nunca —, mas vão apodrecer mais rápido ainda no sol. — Uma pausa. — Senhor?

— O que foi, Jordan?

— Eu vi Noah Chutsky. Do seu Clube de Leitura.

O Diretor deu tapinhas no ombro do menino. Estava muito pálido.

— Esqueça.

— Com prazer — sussurrou Jordan. — Ele tirou uma foto minha uma vez. Com o... com o senhor-sabe-o-quê dele.

Então, um novo desdobramento. Duas dúzias de abelhas operárias se destacaram do grupo principal sem parar para conversa e foram em direção às estufas destruídas, movendo-se em formação de V, que fazia os observadores se lembrarem de gansos em migração. O que Jordan identificou como Noah Chutsky estava entre eles. O resto do pelotão de remoção de corpos os observou partirem por um instante e então voltou a descer as rampas, três ombro a ombro, e continuaram resgatando corpos debaixo das arquibancadas.

Vinte minutos depois, o grupo da estufa retornou, andando em fila única. Alguns ainda estavam com as mãos vazias, mas a maioria adquirira carrinhos de mão do tipo usado para transportar sacas de cal ou fertilizante. Logo, os fonáticos estavam usando os carrinhos para se livrarem dos corpos, e o trabalho andou mais rápido.

— É um passo evolutivo, com certeza — disse Tom.

— Mais que um — acrescentou o Diretor. — Limpar a casa; usar ferramentas para fazer o serviço.

Clay falou:

— Não estou gostando disso.

Jordan ergueu os olhos para ele, o rosto pálido, cansado e muito mais velho do que devia.

— Bem-vindo ao clube — disse.

Eles dormiram até úma da tarde. Depois de confirmarem que o destacamento dos corpos havia terminado o trabalho e ido ao encontro dos demais catadores, desceram até os pilares de pedra que marcavam a entrada da Academia Gaiten. Alice zombara da idéia de Clay de que ele e Tom deveriam fazer aquilo sozinhos.

— Podem ir tirando essa idéia de Batman e Robin da cabeça — disse ela.

— Que pena, sempre quis ser o Menino Prodígio — disse Tom, ceceando um pouco, mas quando ela o encarou com um olhar sisudo, agarrando o tênis (que já estava ficando meio surrado) com uma das mãos, ele ficou sério. — Desculpe.

— Vocês podem ir até o posto de gasolina sozinhos — disse ela. — Até aí, tudo bem. Mas o restante de nós vai ficar vigiando do outro lado da rua.

O Diretor sugeriu que Jordan ficasse na Casa. Antes de o menino poder responder — e ele parecia prestes a fazê-lo com fervor —, Alice perguntou:

— Como é a sua vista, Jordan?

O menino abriu um sorriso para ela, mais uma vez acompanhado daquele olhar um tanto brilhante.

— Boa. Ótima.

— E você joga bastante videogame? Daqueles de tiro?

— Claro, de montão.

Ela entregou sua pistola para o menino. Clay notou que ele estremeceu um pouco, como um diapasão, quando seus dedos se tocaram.

— Se pedir para você apontar e atirar, ou se o Diretor Ardal pedir, você atiraria?

— Claro.

Alice olhou para Ardal com uma mistura de rebeldia e pedido de desculpas.

— Precisamos da ajuda de todos.

O Diretor aceitara aquilo, e lá estavam eles e lá estava o Citgo da Academia Grove, do outro lado da rua e só um pouquinho mais perto da cidade. De onde estavam, dava para ler a outra placa, um pouco menor: GÁS LP DA ACADEMIA. O único carro parado em frente às bombas, com a porta do motorista aberta, já tinha uma aparência empoeirada, de algo há muito abandonado. A janela panorâmica de vidro do posto estava quebrada. Mais à direita, estacionado na sombra do que só podia ser um dos últimos olmos que restaram depois da praga no norte da Nova Inglaterra, havia dois caminhões no formato de botijões de gás gigantes. As seguintes palavras estavam escritas na lateral de ambos: GÁS LP DA ACADEMIA e Servindo Southern New Hampshire desde 1982.

Não havia sinal de fonáticos catadores naquela parte da Academy Avenue e, embora a maioria das casas que Clay conseguia ver estivesse com sapatos na frente, muitas estavam sem. O fluxo de refugiados parecia estar diminuindo. Cedo demais para ter certeza, ele advertiu a si mesmo.

— Senhor? Clay? O que é aquilo? — perguntou Jordan. Ele apontava para o meio da avenida, que obviamente ainda era a rota 102, embora aquilo fosse fácil de esquecer naquela tarde ensolarada e silenciosa, em que os sons mais próximos eram os de pássaros e do farfalhar do vento nas folhas. Havia algo escrito em giz rosa choque no asfalto, mas, de onde estavam, Clay não conseguia ler. Ele balançou a cabeça.

— Você está pronto? — ele perguntou a Tom.

— Claro — respondeu ele. Tom estava tentando soar casual, mas uma pulsação batia rapidamente do lado do seu pescoço não barbeado.

— Você Batman, eu Menino Prodígio.

Eles atravessaram a rua a passos rápidos, com os revólveres em punho. Clay deixara a arma automática russa com Alice, mais ou menos convencido de que ela a faria rodar como um peão se a garota tivesse que usá-la.

A mensagem rabiscada em giz rosa no asfalto era

KASHWAK=SEM-FO

— Isso significa alguma coisa para você? — perguntou Tom.

Clay balançou a cabeça. Não significava e, naquele momento, ele não dava a mínima. Tudo o que queria era sair do meio da Academy Avenue, onde se sentia tão exposto quanto uma formiga em uma vasilha de arroz. Ocorreu-lhe, subitamente e não pela primeira vez, que ele venderia a alma só para saber que o filho estava bem, em um lugar onde as pessoas não estavam colocando armas nas mãos de crianças que jogavam bem videogame. Era estranho. Clay imaginara que tinha definido suas prioridades, que estava lidando com seu baralho pessoal carta a carta, mas então surgiam esses pensamentos, cada qual tão fresco e doloroso quanto uma dor não superada.

Continuar: parte 2 de 3