Celular

Stephen King · Capítulo 4 de 5 · parte 1/3

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Celular

— Bem, imagino que tenha um monte…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Bem, imagino que tenha um monte de gente com antenas parabólicas, mas fora isso... bingo.

— Não estou entendendo — disse Alice. — Por que eles nos mandariam para uma área sem cobertura celular onde todo mundo deve estar mais ou menos bem?

— Pensando assim, é melhor perguntar por que eles nos deixaram vivos pra começo de conversa — disse Tom.

— Talvez eles queiram nos transformar em mísseis teleguiados vivos e nos usar para bombardear o pedaço — disse Jordan. — Se livrar da gente e deles. Dois coelhos com uma cajadada só.

Eles consideraram a hipótese em silêncio por ura instante.

— Vamos descobrir — disse Alice —, mas eu não vou bombardear ninguém.

Jordan a encarou com frieza.

— Você viu o que eles fizeram com o Diretor. Se chegar a esse ponto, acha que vai ter alguma escolha?

Ainda havia sapatos na maioria das soleiras da calçada oposta aos pilares de pedra que marcavam a entrada da Academia Gaiten, mas as portas das casas simpáticas ou estavam abertas, ou tinham sido arrancadas das dobradiças. Alguns dos mortos que eles viram espalhados naqueles gramados ao retomarem a viagem para o norte eram fonáticos, mas a maioria consistia em peregrinos inocentes, que calharam de estar no lugar errado, na hora errada. Eram os que estavam descalços, mas nem havia necessidade de olhar para os pés deles; muitas das vítimas da retaliação tinham sido literalmente desmembradas.

Depois da escola, onde a Academy Avenue voltava a se tornar a rota 102, havia uma carnificina em ambos os lados por quase um quilômetro. Alice andava com os olhos resolutamente fechados, deixando Tom guiá-la como se fosse cega. Clay se ofereceu para fazer o mesmo por Jordan, mas ele apenas balançou a cabeça e seguiu com teimosia pelo meio da rua, um garoto magricela com uma mochila nas costas e cabelo demais na cabeça. Depois de alguns olhares rápidos para a matança, ele baixou os olhos para os tênis.

— São centenas — disse Tom uma vez. Eram oito da noite e a escuridão era total, mas eles conseguiam ver muito mais do que queriam. Enrolada no chão em volta de uma placa de "pare" na esquina da Academy com a Spofford, havia uma garota de calças vermelhas e blusa de marinheiro branca. Não parecia ter mais de 9 anos, e estava descalça. A menos de 20 metros de distância, via-se a porta aberta da casa de onde ela provavelmente tinha sido arrastada, gritando por misericórdia. — Centenas.

— Talvez nem tanto — disse Clay. — Alguns da nossa gente estavam armados. Eles atiraram em uma boa quantidade desses desgraçados. Esfaquearam outros tantos. Cheguei até a ver um com uma flecha saindo da...

— Nós causamos isso — disse Tom. — Você acha que existe gente como nós?

A resposta a essa pergunta veio quando eles pararam para comer o almoço frio em uma beira de estrada quatro horas mais tarde. Àquela altura, já estavam na rota 156 e, de acordo com a placa, aquilo era um mirante, com vista para a histórica Flint Hill a oeste. Clay pensou que era uma boa vista, se você estivesse almoçando lá ao meio-dia, em vez de à meia-noite, com lampiões em cada uma das quatro pontas da mesa de piquenique para poder enxergar.

Já tinham começado a comer a sobremesa — biscoitos Oreo pas-sados — quando um grupo de meia dúzia veio andando com dificuldade, todos mais velhos. Três empurravam carrinhos de compras cheios de suprimentos e os seis estavam armados. Eram os primeiros viajantes que viam desde que haviam voltado para a estrada.

— Ei — chamou Tom, acenando para eles. — Tem outra mesa de piquenique aqui, se vocês quiserem sentar um pouquinho.

Eles olharam. A mais velha das duas mulheres do grupo, estilo vovó, com montes de cabelo branco e fofo que brilhava à luz das estrelas, começou a acenar. Mas então parou.

— São eles — disse um dos homens, e Clay não deixou de notar a repulsa e o medo na voz dele. — É o bando de Gaiten.

Um dos homens disse:

— Vá pro inferno, amigo.

Eles seguiram caminho, andando até um pouco mais rápido, embora a vovó estivesse mancando e o homem ao lado dela tenha precisado ajudá-la a passar por um Subaru que tinha enganchado o pára-choque no de um Saturn abandonado.

Alice saltou de pé, quase derrubando um dos lampiões. Clay agarrou o braço dela.

— Deixe para lá, menina.

Ela o ignorou.

— Pelo menos nós fizemos alguma coisa. — gritou ela na direção do grupo. — O que vocês fizeram? O que vocês fizeram, porra?

— Vou dizer o que nós não fizemos — falou um dos homens. O pequeno grupo já havia passado do mirante, e ele teve que olhar por sobre os ombros para falar com Alice. Podia fazer aquilo porque a estrada estava livre de veículos abandonados por algumas centenas de metros dali em diante. — Não matamos um monte de normies. Não sei se você notou, mas existem mais deles do que da gente...

— Conversa fiada, você não sabe se isso é verdade! — gritou Jordan. Clay percebeu que era a primeira vez que o menino falara desde que tinham passado dos limites de Gaiten.

— Talvez seja, talvez não seja — disse o homem —, mas eles fazem uns trecos muito estranhos e poderosos. Isso você não pode negar. Eles dizem que vão nos deixar em paz se nós os deixarmos em paz... e se deixarmos vocês em paz. E a gente disse "tudo bem".

— Se você acredita no que eles dizem, ou enviam por pensamento, então é um idiota — disse Alice.

O homem virou o rosto para frente, ergueu as mãos no ar, fez um gesto que era uma mistura de "vá à merda" e "até logo", e não disse mais nada.

Os quatro observaram as pessoas dos carrinhos de compra sumirem de vista, então trocaram olhares na mesa de piquenique com suas iniciais antigas entalhadas.

— Bem, agora já sabemos — disse Tom. — Somos proscritos.

— Talvez não, se o povo dos celulares quer que a gente vá até onde o resto dos... do que ele os chamou?... o resto dos normies está indo — disse Clay. — Talvez sejamos outra coisa.

— O quê? — perguntou Alice.

Clay tinha uma idéia, mas não gostaria de colocá-la em palavras. Não à meia-noite.

— Agora estou mais interessado em Kent Pond — disse ele. — Quero... preciso ver se encontro minha mulher e filho.

— Não é muito provável que eles ainda estejam lá, é? — perguntou Tom com sua voz baixa e gentil. — Quero dizer, independentemente de como estejam, normais ou fonóides, eles provavelmente seguiram caminho.

— Se estiverem bem, terão deixado algum recado — disse Clay. — De qualquer forma, é um lugar para se ir.

E, enquanto não tivessem chegado e terminado aquela etapa, ele não precisaria imaginar por que o Homem Esfrangalhado os mandaria para um lugar seguro se as pessoas lá os odiavam e temiam.

Ou como Kashwak Sem-Fo poderia ser seguro, uma vez que o povo dos celulares sabia da existência do local.

Eles estavam seguindo lentamente para o leste, aproximando-se da rota 19, uma estrada que os levaria para além da fronteira do estado até o Maine, mas não chegaram lá naquela noite. Todas as estradas daquela parte de New Hampshire pareciam cortar a pequena cidade de Rochester, que tinha sido consumida pelo fogo. O núcleo do incêndio ainda estava vivo, irradiando um brilho quase radioativo. Alice assumiu o comando, liderando um meio círculo para o oeste que contornava a pior parte das ruínas flamejantes. Eles viram muitas vezes KASHWAK=SEM-FO rabiscado nas calçadas; e uma vez pichado na lateral de uma caixa de correio.

— Isso dá uma fiança de um zilhão de dólares e prisão perpétua na baía de Guantánamo — disse Tom com um sorriso fraco.

Aquele caminho acabou obrigando-os a atravessar o enorme estacionamento do shopping Rochester. Muito antes de chegarem, podiam ouvir o som amplificado de um trio de jazz New Age pouco inspirado tocando o tipo de coisa que Clay considerava música para fazer compras. O estacionamento estava soterrado de rios de lixo em decomposição; os carros restantes estavam até a calota de entulho. Eles sentiam o cheiro podre e orgânico de cadáveres no ar.

— Tem algum bando por aqui — comentou Tom.

O bando estava no cemitério prqximo ao shopping. Eles passariam ao sul e a oeste dele, mas, quando saíram do estacionamento do shopping, estavam perto o bastante para verem os olhos vermelhos dos mini systems através das árvores.

— Talvez devêssemos matá-los — propôs Alice de repente quando eles voltaram para a North Main Street. — Deve ter um caminhão de gás enguiçado aqui por perto.

— É isso aí, baby. — disse Jordan. Ele ergueu os punhos até os lados da cabeça e os brandiu, parecendo vivo pela primeira vez desde que saíram da Casa Cheatham. — Pelo Diretor!

— Acho melhor não — disse Tom.

— Está com medo de testar a paciência deles? — perguntou Clay. Ele ficou surpreso de se ver mais ou menos a favor da idéia maluca de Alice. Não tinha dúvidas de que incendiar um outro bando era uma idéia maluca, mas...

Ele pensou: Eu poderia fazer isso pelo simples motivo de que esta é a pior versão de "Misty" que já ouvi na vida. Não precisa nem torcer meu braço pra me convencer.

— Não é isso — disse Tom. Ele parecia estar pensando. — Está vendo aquela rua ali? — Ele apontava para uma avenida que seguia entre o shopping e o cemitério. Estava entulhada de carros parados. Quase todos estavam apontando na direção oposta ao shopping. Clay não teve dificuldade nenhuma para imaginar aqueles carros cheios de pessoas tentando ir para casa depois do Pulso. Pessoas que queriam saber o que estava acontecendo, e se suas famílias estavam bem. Que pegariam os telefones dos carros, os telefones celulares, sem pensar duas vezes.

— O que tem ela? — perguntou ele.

— Vamos descer um pouquinho naquela direção — disse Tom.

— Com muito cuidado.

— O que você viu, Tom?

— Prefiro não dizer. Talvez nada. Afastem-se da calçada, fiquem debaixo das árvores. Aquele foi um belo dum engarrafamento. Vai haver corpos.

Havia dúzias de cadáveres apodrecendo para se tornarem novamente parte do grande esquema infinito das coisas entre a Twombley Street e o cemitério West Side. Misty tinha dado lugar a uma versão melosa de Left My Heart in San Francisco quando se aproximaram das árvores, e eles conseguiam ver novamente os olhos vermelhos dos mini systems. Então Clay viu algo mais e parou.

— Meu Deus — ele sussurrou. Tom assentiu.

— O quê? — sussurrou Jordan. — O quê?

Alice não falou nada, mas Clay percebia pela direção em que ela olhava e pelo curvar derrotado dos seus ombros que ela vira o mesmo que ele. Havia homens com rifles fazendo uma barreira de segurança em volta do cemitério. Clay virou a cabeça de Jordan e viu os ombros do menino também se curvarem.

— Vamos embora — sussurrou o garoto. — Esse cheiro está me deixando enjoado.

Em Melrose Corner, a uns 6 quilômetros ao norte de Rochester (eles ainda conseguiam ver o brilho vermelho da cidade oscilar no horizonte ao sul), eles encontraram outra área para piquenique, daquela vez com um círculo para fogueira além de mesas. Clay, Tom e Jordan cataram lenha seca. Alice, que afirmava ter sido escoteira, provou suas habilidades fazendo uma bela fogueira e depois esquentando três latas do que chamava de "feijão de mendigo". Enquanto comiam, dois pequenos grupos de viajantes passaram por eles. Ambos olharam, ninguém em nenhum dos dois grupos acenou ou falou.

Depois que o lobo dentro de sua barriga se acalmou um pouco, Clay disse:

— Você viu aqueles caras, Tom? Lá do estacionamento do shopping? Estou pensando em mudar seu nome para Olho de Águia.

Tom balançou a cabeça.

— Foi pura sorte. Isso e a luz que vinha de Rochester. Das brasas.

Clay assentiu. Todos sabiam do que ele estava falando.

— Calhei de olhar para o cemitério na hora certa e do ângulo certo e vi o brilho em alguns canos de rifle. Disse a mim mesmo que não podia ser o que parecia, que eram provavelmente as hastes da cerca de ferro ou algo do gênero, mas... — Tom suspirou, olhou para o resto do feijão e o empurrou de lado. — É isso aí.

— Talvez fossem fonáticos — disse Jordan, mas Clay notava na voz do menino que ele não acreditava naquilo.

— Fonáticos não fazem o turno da noite — disse Alice.

— Talvez precisem de menos horas de sono agora — falou Jordan. — Talvez isso faça parte da nova programação deles.

Ouvi-lo falar daquele jeito, como se o povo dos celulares fosse composto de computadores orgânicos em algum tipo de upload cíclico, sempre arrepiava Clay.

— Eles também não usam rifles, Jordan — disse Tom. — Não precisam deles.

— Então arranjaram alguns colaboradores para cuidar deles enquanto descansam a beleza — disse Alice. Havia um desprezo frágil na voz dela, e lágrimas logo abaixo. — Espero que apodreçam no inferno.

Clay não disse nada, mas se viu pensando nas pessoas que tinham encontrado mais cedo naquela noite, os que estavam com carrinhos de compras — no medo e repulsa na voz do homem que os chamou de bando de Gaiten. Poderiam bem ter nos chamado de gangue de Dillinger, pensou Clay. E então: Já não penso mais neles como fonáticos, e sim como um povo, o povo dos celulares. Por que isso? O pensamento que se seguiu a este foi ainda mais desagradável: Quando um colaborador deixa de ser um colaborador? Parecia-lhe que a resposta era quando os colaboradores se tornavam a maioria absoluta. Então, os que não eram colaboladores se tornavam...

Bem, se você for um romântico, chama essas pessoas de "a resistência". Se não for, os chama de fugitivos. Ou talvez simplesmente de criminosos.

Eles andaram até a aldeia de Hayes Station e passaram a noite em um motel caindo aos pedaços chamado Whispering Pines. De lá, dava para ver uma placa que dizia ROTA 19 11KM SANFORD THE BERWICKS KENT POND. Não deixaram os sapatos na soleira dos apartamentos que escolheram.

Já não parecia haver necessidade.

Ele estava em cima plataforma no meio daquele maldito campo novamente, de alguma forma imobilizado, o alvo de todos os olhares. A construção no esqueleto com a luz vermelha piscando no topo erguia-se no horizonte. O lugar era maior do que o estádio de Foxboro. Seus amigos estavam junto dele, em fila, mas daquela vez não estavam sozinhos. Plataformas parecidas estendiam-se pelo campo aberto. À esquerda de Tom havia uma grávida com uma camisa Harley-Davidson com as mangas cortadas. À direita de Clay, um cavalheiro idoso — não do naipe do Diretor, mas quase lá — com cabelo grisalho preso em um rabo-decavalo e uma expressão assustada no rosto longo e inteligente. Atrás dele, estava um homem mais jovem, com um boné surrado dos Miami Dolphins.

Clay não ficou surpreso em reconhecer algumas das centenas de pessoas que via — não é assim que as coisas são nos sonhos? Em um instante, você está espremido numa cabine de telefone com a sua professora da primeira série; no outro, está transando com as três cantoras do Destiny's Child no observatório do Empire State.

O trio do Destiny's Child não estava no sonho, mas Clay viu o rapaz nu que havia brandido as antenas de carro no ar (vestindo no sonho calças de sarja e uma camisa branca limpa), o cara de mochila que chamara Alice de senhorita e a mulher estilo vovó que mancava. Ela apontou para Clay e seus amigos, que estavam mais ou menos na linha de 50 jardas, e então falou com a mulher ao seu lado... que era, Clay notou sem surpresa, a nora grávida do Sr. Scottoni. Aquele é o bando de Gaiten, disse a vovó, e a nora grávida do Sr. Scottoni ergueu o carnudo lábio superior em um sorriso de escárnio.

Socorro!, gritou a mulher na plataforma ao lado de Tom. Ela estava gritando para a nora do Sr. Scottoni. Eu também quero ter o meu bebê! Ajude-me!

Você devia ter pensado nisso enquanto ainda havia tempo, respondeu a nora do sr. Scottoni; e Clay percebeu, como percebera no outro sonho, que ninguém estava de fato falando. Usavam telepatia.

O Homem Esfrangalhado começou a subir a fila, colocando a mão na cabeça de cada pessoa que alcançava. O gesto era o mesmo que Tom fizera sobre a cova do Diretor: palma estendida, dedos enrolados. Clay pôde ver um tipo de bracelete de identificação "brilhando no pulso do Homem Esfrangalhado, talvez uma daquelas pulseiras de identidade para emergências médicas, e percebeu que havia luz ali — os holofotes estavam acesos. Viu outra coisa também. O Homem Esfrangalhado conseguia alcançar o topo da cabeça deles, embora estivessem em plataformas, porque não estava no chão. Estava andando, mas em pleno ar, a um metro de altura do solo.

— Ecce homo... insanus — disse ele. — Eccefemina... insana. — E, todas as vezes, a multidão rugia a resposta em uníssono: "NAO TOQUE", tanto o povo dos celulares quanto os normies. Pois não havia mais diferença. No sonho de Clay, eles eram todos iguais.

Ele acordou no fim da tarde, com o corpo enrolado em uma bola e abraçando um travesseiro de motel. Saiu e encontrou Alice e Jordan sentados no meio-fio que separava o estacionamento dos apartamentos. Alice estava com um braço em volta do menino. Jordan, com a cabeça no ombro dela, a enlaçava pela cintura. O cabelo dele estava de pé na nuca. Clay se sentou com os dois. Diante deles, a estrada que le-vava à rota 19 e ao Maine estava deserta, exceto por um caminhão da Federal Express morto na faixa branca com as portas de trás abertas e uma motocicleta acidentada. Clay se sentou com os dois.

— Vocês?...

— Eccepuer... insanus— disse Jordan, sem levantar a cabeça do ombro de Alice. — Sou eu.

— E eu sou a femina— disse Alice. — Clay, tem algum estádio de futebol americano enorme em Kashwak? Porque, se tiver, não vou chegar nem perto desse lugar.

Uma porta se fechou atrás deles. Passos se aproximaram.

— Eu também não — disse Tom, sentando-se. — Sou o primeiro a admitir que tenho muitos problemas, mas desejo de morte nunca foi um deles.

— Não tenho certeza, mas não acho que exista muita coisa além de uma escola primária lá — disse Clay. — As crianças com idade para o ensino médio provavelmente vão de ônibus para Tashmore.

— É um estádio virtual— disse Jordan.

— Hein? — disse Tom. — Você quer dizer como em um jogo de computador?

— Quero dizer como em um computador. — Jordan ergueu a cabeça, ainda olhando para a estrada vazia que levava até Sanford, the Berwicks e Kent Pond. — Esqueça, estou me lixando para isso. Se eles não vão tocar na gente, o povo dos celulares, as pessoas normais, quem vai tocar? — Clay jamais vira uma dor tão adulta nos olhos de uma criança. — Quem vai tocar na gente?

Ninguém respondeu.

— O Homem Esfrangalhado vai tocar na gente? — perguntou Jordan, erguendo um pouco a voz. — O Homem Esfrangalhado vai tocar na gente? Talvez. Porque ele está observando, eu sinto que ele está.

— Jordan, você está se deixando levar — disse Clay, mas a idéia tinha uma certa lógica interior estranha. Se eles receberam aquele sonho, o sonho das plataformas, então talvez ele estivesse mesmo observando. Não se manda uma carta sem ter o endereço.

— Não quero ir para Kashwak — disse Alice. — Pouco me importa se é uma área sem telefones ou não. Prefiro ir para... Idaho.

— Eu vou para Kent Pond antes de ir para Kashwak, Idaho ou qualquer outro lugar — disse Clay. — Consigo chegar lá a pé em duas noites. Gostaria que vocês me acompanhassem, mas se não quiserem, ou não puderem, vou entender.

— O homem precisa de uma resolução, vamos dar isso a ele — disse Tom. — Depois, podemos pensar no que fazer em seguida. A não ser que alguém tenha outra idéia.

Ninguém tinha.

As duas vias da rota 19 estavam completamente livres em alguns pequenos trechos, que às vezes chegavam a quase meio quilômetro, e isso incentivava os sprinters. Este foi o termo que Jordan cunhou para os carros semi-suicidas que passavam zunindo em alta velocidade, geralmente no meio da rua, sempre com os faróis altos acesos.

Clay e os outros conseguiam ver as luzes se aproximando e saíam da rua depressa, pulando a mureta e entrando no mato, caso vissem acidentes ou carros parados mais adiante. Jordan passou a chamar esses obstáculos de barreiras de sprinters. O sprinter passaria voando, as pessoas dentro dele muitas vezes aos berros (e quase certamente embriagadas). Se tivesse apenas um carro parado, uma pequena barreira de sprinter, o motorista provavelmente escolheria contorná-la. Se a rua estivesse completamente bloqueada, ele talvez ainda tentasse fazer o contorno, porém, o mais provável era que o motorista e os passageiros simplesmente abandonassem o veículo e voltassem a seguir para o leste a pé, até encontrarem alguma outra coisa que valesse a pena usar como sprinter; isto é, algo rápido e temporariamente divertido. Clay pensou que viajar daquele jeito era uma babaquice... mas a maioria dos sprinters era mesmo babaca, mais um pé no saco no que se tornara um mundo pé no saco. Isso também parecia valer para Gunner.

Ele foi o quarto sprinter na primeira noite deles na rota 19, e os viu parados no acostamento sob o brilho dos faróis. Viu Alice. Gunner colocou a cabeça para fora, cabelos negros ondeando para trás, e gritou:

— Chupa o meu pau, putinha adolescente!— enquanto varava a estrada em um Cadillac Escalade preto.

Os passageiros fizeram algazarra e acenaram. Alguém gritou:

— Podicrê!

Para Clay, aquilo parecia um êxtase absoluto exprimido em um sotaque de South Boston.

— Que lindo — foi o único comentário de Alice.

— Algumas pessoas não têm... — começou a falar Tom, mas antes que pudesse contar a eles o que algumas pessoas não tinham, o som de pneus cantando veio da escuridão logo à frente, seguido por um estampido alto e surdo e o tilintar de vidro.

— Puta merda — disse Clay e começou a correr. Antes de ele avançar 20 metros, Alice o ultrapassou.

— Calma, eles podem ser perigosos! — exclamou ela.

Tom alcançou Clay, já ofegante. Jordan, correndo ao lado dele, nem suava.

— O que... vamos... fazer... se eles estiverem... gravemente feridos? — perguntou Tom. — Chamar... uma ambulância?

— Não sei — disse Clay, mas ele estava pensando em como Alice erguera uma das automáticas. Ele sabia.

Eles alcançaram Alice na próxima curva da estrada. Ela estava parada atrás do Escalade. O carro estava virado de lado, com os airbags acionados. A história do acidente não era difícil de entender. O Escalade fizera a curva cega a toda, talvez a mais de 90 quilômetros por hora, e deu de cara com um caminhão de leite abandonado. O motorista, babaca ou não, conseguiu evitar bem o desastre. Estava andando zonzo em volta do utilitário esportivo arruinado, tirando o cabelo de cima do rosto. Sangue jorrava do seu nariz e de um corte na testa. Clay andou até o Escalade, os tênis raspando nos pedacinhos de vidro de segurança, e olhou para dentro. Estava vazio. Passou a lanterna pelo interior e viu sangue apenas no volante. Os passageiros tinham sido espertos o bastante para fugir do acidente, e todos, exceto um, tinham abandonado a cena, provavelmente por puro reflexo. O que ficara com o motorista era um pós-adolescente nanico, dentuço, com marcas feias de acne e cabelo ruivo longo e sujo. A falação dele fazia Clay lembrar o cachorrinho que idolatrava o Spike nos desenhos da Warner Bros.

— Cê tá bem, Gunnah? — perguntou ele. Clay imaginava que era assim que se pronunciava Gunner em South Boston. — Puta merda, cê tá sangrando feito um desgraçado. Caralho, achei que cê tava morto. — Então, para Clay. — Tá olhando o quê?

— Cala a boca — disse Clay; e, dadas as circunstâncias, até com alguma educação.

O ruivo apontou para Clay e virou para o amigo ensangüentado.

— Ele é um deles, Gunnah! É um bando deles!

— Cala a boca, Harold — disse Gunner. Sem educação nenhuma. Então olhou para Clay, Tom, Alice e Jordan.

— Vamos dar um jeito na sua testa — disse Alice. Ela havia recolocado a arma no coldre e tirado a mochila. Então começou a revirá-la. — Tenho band-aids e chumaços de gaze. E também peróxido de hidrogênio, que vai arder, mas é melhor uma ardidinha do que uma infecção, certo?

— Levando em conta o que esse rapaz lhe chamou no caminho, você é uma melhor cristã do que eu fui no meu auge. — disse Tom.

Ele sacara o Sr. Ligeirinho e olhava para Gunner e Harold segurando-o pela alça.

Gunner devia ter uns 25 anos. O cabelo longo e preto de vocalista de rock estava coberto de sangue. Ele olhou para o caminhão de leite, depois para o Escalade, depois para Alice, que estava com um chumaço de gaze em uma das mãos e o frasco de peróxido de hidrogênio na outra.

— Tommy, Frito e aquele cara que estava sempre enfiando o dedo no nariz ralaram. — Ele inflou o pouco peito que tinha. — Mas eu fiquei! Puta merda, mermão, cê tá sangrando feito um porco.

Alice colocou peróxido de hidrogênio no chumaço de gaze e deu um passo em direção a Gunner. Ele recuou imediatamente.

— Fique longe de mim. Você é veneno.

— São eles! — gritou o ruivo. — Dos sonhos! Num falei?

— Fique longe de mim — disse Gunner. — Sua puta. Todos vocês.

Clay sentiu uma súbita vontade de atirar nele, e não ficou surpreso. Gunner tinha a aparência de um cachorro acuado e agia como tal: dentes arreganhados e preparados para morder. E não é isso que se faz com cães perigosos, quando não há outra alternativa? Você não atira neles? Porém, eles obviamente tinham uma alternativa e, se Alice podia bancar a Boa Samaritana para com o vagabundo que a chamou de putinha adolescente, ele achava que conseguiria se privar de executá-lo. Mas queria descobrir uma coisa antes de deixar aqueles dois rapazes adoráveis seguirem o caminho deles.

— Estes sonhos — disse ele. — Você tem um... sei lá... um tipo de guia espiritual neles? Um cara de moletom vermelho, talvez?

Gunner deu de ombros. Rasgou um pedaço da camisa e o usou para limpar o sangue do rosto. Estava recuperando um pouco os sentidos, parecia um pouco mais consciente do que acontecera.

— Harvard, pode crer. Certo, Harold?

O ruivo assentiu.

— É. Harvard. O negro. Mas eles não são sonhos. Se você não sabe, não adianta porra nenhuma te contar. São transmissões. Transmissões nos nossos sonhos. Se vocês não recebem, é porque são veneno. Não são, Gunnah?

— Vocês fizeram uma merda grossa — disse Gunner com uma voz absorta e limpou a testa. — Não toquem em mim.

— A gente vai ter nosso próprio lugar — disse Harold. — Não vamos, Gunnah? Lá no Maine. Todo mundo que não recebeu o Pulso tá indo pra lá, e a gente não vai ficar pra trás. Caçar, pescar, viver da porra da terra. É o que Harvard diz.

— E você acredita nele? — disse Alice. Ela parecia fascinada.

Gunner ergueu um dedo que tremia um pouco.

— Cala a boca, sua puta.

— Acho melhor você calar a sua — disse Jordan. — Nós estamos armados.

— É melhor nem pensarem em atirar na gente! — disse Harold com a voz esganiçada. — O que você pensa que Harvard faria se vocês atirassem na gente, seu tampinha de merda?

— Nada — disse Clay.

— Você não... — começou a falar Gunner, mas, antes que pudesse prosseguir, Clay deu um passo à frente e bateu no queixo dele com o calibre 45 de Beth Nickerson. A mira na ponta do cano abriu um novo rasgo no queixo de Gunner, mas Clay esperava que aquilo fosse um remédio mais eficiente do que o peróxido de hidrogênio que o homem recusara. Nisso ele se enganou.

Gunner caiu contra a lateral do caminhão de leite abandonado, olhando para Clay com uma expressão chocada. Harold deu um passo à frente por impulso. Tom apontou o Sr. Ligeirinho para ele e balançou a cabeça uma única e proibitiva vez. Harold se retraiu e começou a roer as pontas dos dedos sujos. Acima deles, seus olhos estavam arregalados e úmidos.

— Nós estamos indo — disse Clay. — Eu os aconselho a ficarem aqui pelo menos uma hora, porque não vão querer nos encontrar de novo. Estamos dando as vidas de vocês de presente. Se aparecerem na nossa frente mais uma vez, vamos tirá-las. — Ele andou de costas em direção a Tom e aos demais, ainda olhando para aquele rosto afogueado e incrivelmente cheio de sangue. Sentiu-se um pouco como o velho domador de leões Frank Buck, tentando dar conta do recado por pura força de vontade. — Mais uma coisa. Não sei por que o povo dos celulares quer todos os normies em Kashwak, mas sei o que geralmente acontece quando o gado é arrebanhado. Pensem nisso quando receberem a próxima transmissão noturna.

— Vá se foder — disse Gunner, mas desviou o olhar de Clay e olhou para os próprios sapatos.

— Venha, Clay — disse Tom. — Vamos.

— Não nos deixe encontrar vocês de novo, Gunner — disse Clay, mas eles deixaram.

Gunner e Harold devem ter se adiantado a eles de alguma forma, talvez se arriscando a viajar 8 ou 16 quilômetros à luz do dia enquanto Clay, Tom, Alice e Jordan dormiam no State Line Motel, que ficava uns 200 metros depois da divisa do Maine. A dupla deve ter parado na área de repouso de Salmon Falls, Gunner escondendo seu novo veículo entre a meia dúzia de carros que havia sido abandonada lá. Mas isso não tinha importância. O que importava era que os dois se adiantaram a eles, os esperaram passar e então atacaram.

Clay mal registrou o som do motor se aproximando ou o comentário de Jordan: "Lá vem um sprinter." Aquele era o seu torrão natal e, à medida que passavam por cada familiar ponto de referência — o Depósito de Lagostas Freneau a 3 quilômetros do State Line Motel, a sorveteria Shaky's Tastee Freeze do outro lado da rua, a estátua do general Joshua Chamberlain na pequena praça municipal —, ele se sentia cada vez mais como um homem tendo um sonho muito real. Só percebeu quão pouca esperança tivera de chegar em casa quando viu o grande cone de sorvete que ficava sobre a Shaky's. Ele parecia ao mesmo tempo banal e exótico, como algo saído do pesadelo de um louco, com sua ponta espiralada se erguendo em direção às estrelas.

— A estrada está atravancada demais para um sprinter — comentou Alice.

Eles foram para o acostamento quando faróis se acenderam na colina às suas costas. Havia uma picape capotada pela faixa branca. Clay achou bem provável que o veículo que se aproximava fosse bater nela, mas os faróis desviaram para a esquerda um segundo depois de passar pelo topo da colina; o sprinter evitou a picape com facilidade, raspando a mureta por alguns segundos antes de voltar à estrada. Clay imaginou mais tarde que Gunner e Harold provavelmente tinham passado por aquele trecho antes, mapeando as barreiras de sprinters com atenção.

Eles ficaram olhando, Clay mais perto das luzes que se aproximavam. Alice do lado esquerdo dele. A esquerda dela estavam Tom e Jordan. Tom com os braços casualmente em volta dos ombros de Jordan.

— Nossa, ele está pisando fundo — disse Jordan. Sua voz não soava alarmada; era apenas uma observação. Clay também não estava alarmado. Não conseguiu prever o que estava por vir. Havia se esquecido completamente de Gunner e Harold.

Um carro esportivo, talvez um MG, estava parado com uma metade dentro e a outra fora da estrada a uns 15 metros a oeste de onde estavam. Harold, que estava dirigindo o sprinter, desviou para evitá-lo. Foi um desvio pequeno, mas talvez tenha atrapalhado a pontaria de Gunner. Ou talvez não. Talvez Clay nunca tenha sido o alvo. Talvez ele tivesse mirado em Alice o tempo todo.

Naquela noite, eles dirigiam um seda Chevrolet comum. Gunner estava ajoelhado no banco de trás, com o corpo para fora da janela até a cintura, segurando um bloco de concreto lascado nas mãos. Ele soltou um grito inarticulado que poderia ter vindo direto de um balão de uma das revistas em quadrinhos que Clay desenhara como freelance — Yahhhhhh!— e atirou o bloco. O pedaço de concreto descreveu sua rota curta e mortal pela escuridão e acertou Alice no lado da cabeça. Clay nunca se esqueceu do som que ele fez. A lanterna que ela segurava — que teria feito dela um alvo perfeito, embora todos estivessem com uma — caiu da sua mão relaxada e desenhou um cone de luz sobre o asfalto, iluminando cascalhos e um pedaço de vidro de lanterna traseira que reluziu como um rubi falso.

Clay caiu de joelhos ao lado de Alice, chamando o nome dela, mas não conseguia se ouvir em meio ao rugido súbito do Sr. Ligeirinho, que finalmente estava sendo testado. Os flashes do cano da arma entrecortaram a escuridão, permitindo-o ver o sangue jorrando do lado esquerdo do rosto — oh, Deus, que rosto — dela.

Então os tiros pararam. Tom estava gritando: "O cano foi pra cima, não conseguia baixá-lo, acho que atirei a porra do cartucho inteiro para o céu", e Jordan gritava: "Ela está machucada? Ele acertou?", e Clay pensou em como ela se oferecera para colocar o peróxido de hidrogênio na testa de Gunner para depois enfaixá-la. Melhor uma ardidinha do que uma infecção, certo?, dissera Alice, e ele tinha que estancar o sangue. Tinha que estancá-lo imediatamente. Clay tirou a jaqueta que estava vestindo e então o suéter. Usaria o suéter, o enrolaria em volta da cabeça dela como a porra de um turbante.

A lanterna oscilante de Tom caiu sobre o bloco de concreto e parou. Estava coberto de sangue e cabelos. Jordan o viu e começou a berrar. Clay, ofegante e suando desesperadamente, a despeito do ar frio da noite, começou a enrolar o suéter em volta da cabeça de Alice. Ficou encharcado na mesma hora. Ele parecia estar usando luvas quentes e úmidas. Então, a lanterna de Tom encontrou Alice, a cabeça dela envolvida no suéter até o nariz, deixando-a parecida com um prisioneiro de extremistas islâmicos em uma foto da Internet — a bochecha (o que restava da bochecha) e o pescoço imersos em sangue —, e Clay também começou a gritar.

Ajudem-me, ele queria dizer. Parem com isso vocês dois e me ajudem aqui. Mas a voz não saía e tudo o que Clay podia fazer era pressionar o suéter ensopado contra o lado esponjoso da cabeça dela, lembrando-se de que Alice também estava sangrando quando eles a conheceram, pensando que se ela tinha ficado bem daquela vez também ficaria nessa.

As mãos dela estavam se contorcendo desvairadamente, os dedos respingando sangue na poeira do acostamento. Alguém dê a ela aquele tênis, pensou Clay, mas o tênis estava na mochila e Alice estava deitada em cima dela. Deitada com o lado da cabeça esmagado por alguém que tinha uma pequena dívida para acertar. Ele viu que os pés dela também estavam se debatendo, e ainda conseguia sentir o sangue jorrar, atravessando o suéter e cobrindo suas mãos.

Aqui estamos nós, no fim do mundo, pensou Clay. Ele ergueu os olhos para o céu e viu a estrela vespertina.

Ela nunca chegou a desmaiar e tampouco recuperou completamente a consciência. Tom conseguiu se controlar e ajudou a carregá-la ladeira acima no lado da rua em que estavam. Havia árvores ali — o que Clay lembrava ser um pomar de macieiras. Ele achava que já tinha vindo ali com Sharon uma vez para colher maçãs, quando Johnny era bem pequeno. Quando as coisas estavam bem entre eles e não havia discussões sobre dinheiro e ambições para o futuro.

— Não se deve mover as pessoas quando elas estão com ferimentos graves na cabeça — queixou-se Jordan, andando atrás deles e carregando a mochila de Alice.

— Não precisamos nos preocupar com isso — disse Clay. — Ela não vai sobreviver, Jordan. Não nesse estado. Acho que nem um hospital poderia fazer muito por ela. — Ele viu o rosto de Jordan começar a se contorcer. Havia luz o suficiente para enxergar. — Sinto muito.

Eles a deitaram na grama. Tom tentou fazê-la beber de uma garrafa de água mineral com dosador e ela até aceitou um pouco. Jordan deu-lhe o tênis, o Nike de bebê, e ela o aceitou também, apertando-o, manchando-o de sangue. Então esperaram Alice morrer. Esperaram aquela noite inteira.

Ela disse:

— Papai falou que eu posso ficar com o resto, então não coloque a culpa em mim.

Isso foi por volta das 11. Ela estava deitada com a cabeça na mochila de Tom, que ele havia enchido com um cobertor de motel que pegara no Sweet Valley Inn. Aquilo tinha sido nos arredores de Methuen, no que parecia ter sido em outra vida. Numa vida melhor, na verdade. A mochila já estava encharcada de sangue. Com o olho que restava, Alice olhou para as estrelas. Estava com a mão esquerda aberta na grama ao seu lado. Não se mexia há mais de uma hora. A mão direita apertava o tênis incansavelmente. Apertava... e soltava. Apertava... e soltava.

— Alice — disse Clay. — Você está com sede? Quer um pouco mais de água?

Ela não respondeu.

Às 3h30, na calada da noite, Alice falou:

— Ah, mamãe, que pena. As rosas murcharam, o jardim morreu. — Então a voz dela ficou mais animada. — Vamos ter neve? Vamos fazer um forte, vamos fazer uma folha, vamos fazer um pássaro, vamos fazer uma mão, vamos fazer uma azul, vamos... — E perdeu o fio da meada, olhando para as estrelas que giravam no céu noturno como um relógio. A noite estava fria. Eles a haviam agasalhado. Cada respiração dela saía na forma de um vapor branco. O sangramento finalmente parara. Jordan se sentou perto dela, afagando-lhe a mão esquerda, a que já estava morta e esperava o resto a alcançar.

— Toque aquela música gostosa que eu curto — disse ela. — Aquela de Hall & Oates.

Às 4h40, ela disse:

— É o vestido mais bonito do mundo. — Estavam todos reunidos em volta dela. Clay tinha dito que achava que ela estava morrendo.

— Qual é a cor dele, Alice? — perguntou Clay, sem esperar resposta, mas ela respondeu.

— Verde.

— E quando você vai usá-lo?

— As senhoras vêm até a mesa — disse ela. Ainda apertava o tênis na mão, porém, mais devagar. O sangue no lado do rosto tinha secado, ganhando uma aparência esmaltada. — As senhoras vêm até a mesa, as senhoras vêm até a mesa. O Sr. Ricardi fica no posto dele e as senhoras vêm até a mesa.

— Tudo bem, querida — disse Tom baixinho. — O Sr. Ricardi ficou no posto dele, não ficou?

— As senhoras vêm até a mesa. — Alice virou o olho que restava para Clay, e pela segunda vez ela falou naquela outra voz. Na voz que ele ouvira saindo da própria boca. Apenas quatro palavras daquela vez. — Estamos com seu filho.

— É mentira — sussurrou Clay. Estava com os punhos cerrados e teve que se conter para não atacar a garota moribunda. — Seu desgraçado, é mentira.

— As senhoras vêm até a mesa e nós tomamos chá — disse Alice.

O primeiro fio de luz começara a surgir ao leste. Tom se sentou ao lado de Clay e colocou hesitante a mão no braço dele.

— Se eles lêem mentes — disse ele —, podem ter descoberto que você tem um filho e que está preocupadíssimo com ele com a mesma facilidade que a gente procura alguma coisa no Google. Aquele cara pode estar usando Alice pra ferrar contigo.

— Eu sei disso — disse Clay. Sabia também de outra coisa: o que ela dissera na voz de Harvard era muito plausível. — Sabe em quê eu não consigo parar de pensar?

Tom balançou a cabeça.

— Quando ele era pequeno, 3 ou 4 anos de idade, na época em que Sharon e eu ainda nos dávamos bem e o chamávamos de Johnny-Gee, ele vinha correndo toda vez que o telefone tocava. Ele gritava: "Pra-pramim-mim?" A gente se escangalhava de rir. E se fosse a vovó ou o vovô de Johnny, nós falávamos: "Pra-pravo-você", e passávamos a ligação. Ainda me lembro como aquele negócio parecia grande nas mãozinhas dele...

— Clay, pare.

— E agora... agora... — Ele não conseguia prosseguir. E não precisava.

— Venham cá, vocês dois! — chamou Jordan. Havia angústia na sua voz. — Depressa!

Eles voltaram para onde Alice estava deitada. Ela se levantara em convulsão a espinha descrevendo um arco rígido e trêmulo. O olho que restava, esbugalhado; os lábios com os cantos para baixo. Então, de repente, ela ficou toda relaxada. Falou um nome que não significava nada para eles — Henry — e apertou o tênis uma última vez. Então os dedos se afrouxaram e ele se soltou. Um suspiro e uma última nuvem branca, muito tênue, saíram de seus lábios entreabertos.

Jordan olhou de Clay para Tom, e então de volta para Clay.

— Ela está?...

— Sim — respondeu Clay.

Jordan irrompeu em lágrimas. Clay permitiu que Alice olhasse mais alguns segundos para as estrelas que esmaeciam, e então fechou o olho dela com a base da mão.

Havia uma casa de fazenda perto do pomar. Eles encontraram pás em uma das barracas e a enterraram sob uma macieira, com o pequeno tênis na mão. Os três concordaram que era o que ela gostaria que fizessem. A pedido de Jordan, Tom recitou mais uma vez o Salmo 40, embora daquela vez tenha tido dificuldade em terminá-lo. Todos compartilharam uma lembrança sobre Alice. Durante aquela parte do funeral improvisado, um bando do povo dos celulares — pouco numeroso — passou ao norte de onde estavam. Viram o que estava acontecendo, mas não deram importância. Aquilo não surpreendeu nem um pouco Clay. Eles eram loucos, não deveriam ser tocados... e Clay tinha certeza de que Gunner e Harold ficariam sabendo da tristeza deles.

Eles dormiram a maior parte das horas do dia na casa de fazenda, então seguiram para Kent Pond. Clay já não esperava mais encontrar o filho lá, mas não perdera a esperança de ter notícias de Johnny, ou talvez de Sharon. Apenas saber que ela estava viva talvez diminuísse um pouco da tristeza que sentia, uma sensação tão pesada que parecia envergá-lo como um manto feito de chumbo.

 

KENT POND

A casa antiga de Clay — a casa em que Johnny e Sharon estavam morando no momento do Pulso — ficava na Livery Lane, duas quadras ao norte do semáforo morto que marcava o centro de Kent Pond. Era o tipo de imóvel que alguns anúncios imobiliários chamavam de "para reformar" e outros de "casa provisória". A piada entre Clay e Sharon — antes da separação — era que aquela "casa provisória" provavelmente seria também a "casa de repouso" dos dois. E, quando ela ficou grávida, eles pensaram em chamar o bebê de Olivia, se ele fosse do que Sharon chamava de "gênero feminino". Assim, ela disse, eles teriam a única Liwie da Livery Lane. E se escangalharam de rir.

Clay, Tom e Jordan — um Jordan pálido, um Jordan calado e pensativo, que precisava quase sempre ouvir uma pergunta duas ou três vezes antes de responder — chegaram ao cruzamento da Main com a Livery Lane poucos minutos depois da meia-noite, numa noite de ventania na segunda semana de outubro. Clay olhava freneticamente para o sinal de trânsito na esquina de sua antiga rua, onde aparecera como visitante pelos últimos quatro meses. As palavras ENERGIA NUCLEAR. ainda estavam pichadas lá, como antes de ele viajar para Boston. PARE... ENERGIA NUCLEAR. PARE... Ele não conseguia ver sentido naquilo. Não era uma questão de significado, que estava bem claro; era apenas am protesto político espertinho (se procurasse, provavelmente encontraria a mesma coisa escrita em cima de sinais de trânsito na cidade inteira, talvez em Springvale e Acton, também), mas não compreendia como o sentido daquilo poderia ser o mesmo, quando o mundo inteiro havia mudado. De alguma maneira, Clay achava que, se olhasse para aquilo com intensidade suficiente, uma passagem apareceria, uma espécie de túnel de ficção científica, e ele mergulharia no passado, e tudo aquilo seria desfeito. Toda aquela escuridão.

— Clay — perguntou Tom. — Você está bem?

— Essa é a minha rua — disse Clay, como se aquilo explicasse tudo, e então, sem saber o que estava fazendo, começou a correr.

Livery Lane era uma rua sem saída. Todas as ruas daquela parte da cidade terminavam na encosta da colina Kent, que na verdade era uma montanha erodida. Carvalhos pendiam dela e a rua estava cheia de folhas mortas que estalavam sob o pé de Clay. Também havia um monte de carros parados, e dois com as grades encalacradas em um beijo mecânico vigoroso.

— Para onde ele está indo? — gritou Jordan atrás dele. Clay odiava o medo que ouvia na voz do menino, mas não podia parar.

— Ele está bem — disse Tom. — Deixe-o ir.

Clay desviou dos carros parados, o facho da sua lanterna dançando e furando a escuridão à sua frente. Um dos golpes de luz acertou o rosto do Sr. Kretsky. O Sr. Kretsky sempre tinha um doce para Johnny nos dias que ele ia cortar o cabelo, quando Johnny era Johnny-Gee, só um menininho que costumava gritar pra-pramim-mim quando o telefone tocava. O homem estava deitado na calçada em frente à sua casa, meio enterrado pelas folhas de carvalho e aparentemente sem o nariz.

Não posso encontrá-los mortos. Esse pensamento retumbava na cabeça dele repetidas vezes. Não depois de Alice. Não posso encontrá-los mortos. E então, de forma abominável (porém, nos momentos de estresse a mente quase sempre fala a verdade): E se tiver que encontrar um deles morto... que seja ela.

A casa deles era a última à esquerda11 (como ele sempre costumava lembrar Sharon, com uma risada macabra para combinar — muito depois de a piada perder a graça, na verdade),11 e a entrada para carros subia para o abrigo reformado que comportava apenas um veículo. Clay já estava sem fôlego, mas não diminuiu o ritmo. Subiu correndo a pista, chutando as folhas à sua frente e sentindo uma fisgada começar a subir pelo lado direito do corpo, além de um gosto de cobre no fundo da boca, onde sua respiração parecia chiar. Ele ergueu a lanterna e iluminou o interior da garagem.

Vazia. A questão era: aquilo era bom ou ruim?

Ele se virou, viu as luzes de Tom e Jordan balançando na direção dele lá embaixo e iluminou a porta dos fundos. O que viu fez seu coração saltar até a garganta. Subiu correndo os três degraus até o alpendre e quase varou a porta de proteção com a mão ao arrancar o bilhete do vidro. Estava preso pela beiradinha da fita adesiva; se tivessem chegado uma hora mais tarde, talvez até meia hora, o vento incansável da noite o teria levado embora. Ele poderia matá-la por ser tão descuidada, uma desatenção daquelas era tão típica de Sharon, mas pelo menos...

O bilhete não era da mulher dele.

Jordan subiu a entrada para carros e parou diante dos degraus com a luz em cima de Clay. Tom veio andando atrás com dificuldade, respirando pesado e fazendo uma barulheira à medida que arrastava os pés pelas folhas. Ele parou ao lado de Jordan e pousou a própria lanterna em cima do papel desdobrado na mão de Clay. Em seguida, ergueu o facho de luz lentamente até o rosto estupefato dele.

— Esqueci da porra da diabete da mãe dela — disse Clay e entregou aos dois o bilhete que tinha sido colado com fita adesiva à porta. Tom e Jordan leram juntos:

 

11 Referência ao filme de horror da década de 1970 The Last House on the Left (literalmente, "a última casa à esquerda"), que no Brasil ganhou o título Aniversário Macabro. (N. do T.)

Papai,

Aconteceu uma coisa ruim como você deve saber, espero que você esteja bem e que leia isso. Mitch Steinman e George Gendron estão comigo, as pessoas estão ficando malucas a gente acha que são os celulares. Papai agora é a parte ruim, a gente veio pra cá porque eu estava com medo. Eu ia quebrar o meu se eu estivesse errado, mas eu não estava errado, ele não estava lá. A mamãe tem levado ele porque a vovó está doente você sabe e ela queria ficar checando. Tenho que ir, meu Deus estou com medo, alguém matou o Sr. Kretsky. Tem um monte de gente morta e maluca igual num filme de terror mas a gente ficou sabendo que as pessoas estão se juntando (pessoas NORMAIS) na prefeitura e é pra lá que a gente está indo. Talvez mamãe esteja lá mas meu Deus ela tá com o meu TELEFONE. Papai se você estiver bem, POR FAVOR VENHA ME BUSCAR.

Seu filho, John Gavin Riddell

Tom terminou de ler e falou em um tom de advertência gentil que horrorizou Clay mais completamente do que qualquer comentário cruel o faria.

— Você sabe que as pessoas que se reuniram na prefeitura provavelmente tomaram caminhos diferentes, não sabe? Faz dez dias, e o mundo passou por uma turbulência horrorosa.

— Eu sei — disse Clay. Seus olhos ardiam e ele sentia a voz começando a vacilar. — E sei que a mãe dele provavelmente está... — Ele deu de ombros e brandiu a mão trêmula para o mundo escuro que descia para além da entrada para carros coberta de folhas. — Mas, Tom, eu preciso ir até a prefeitura ver. Talvez tenham deixado notícias. Ele pode ter deixado notícias.

— Sim — disse Tom. — É claro que precisa. E quando chegarmos lá, podemos decidir o que fazer em seguida. — Ele falou naquele mesmo tom de terrível gentileza. Clay quase preferiu que ele tivesse gargalhado e dito algo como: Ora, seu idiota, você acha mesmo que vai vê-lo novamente? Caia na real.

Jordan lera o bilhete uma segunda vez, talvez uma terceira e uma quarta. Mesmo naquele estado de horror e agonia, Clay teve vontade de pedir desculpas a ele pelos erros de ortografia e estilo de Johnny — lembrando-o de que o filho possivelmente tinha escrito aquilo sob um estresse terrível, curvado no alpendre, enquanto seus amigos assistiam ao caos correr solto lá embaixo.

Então, Jordan baixou o bilhete e disse:

— Como é o seu filho?

Clay quase perguntou por quê, mas então decidiu que não queria saber. Pelo menos ainda não.

— Johnny é quase 30 centímetros mais baixo do que você. Atarracado. Cabelo castanho-escuro.

— Não é magrelo. Nem louro.

— Não, esse parece mais George, um amigo dele.

Jordan e Tom trocaram um olhar. Foi um olhar grave, mas Clay achou que havia alívio nele também.

— O quê? — perguntou ele. — O quê? Falem pra mim.

— Do outro lado da rua — disse Tom. — Você não viu porque estava correndo. Tem um menino morto umas três casas antes daqui. Magrelo, louro, com uma mochila vermelha...

Continuar: parte 2 de 3