Celular
O velho se curvou, aparentando de repente cansaço.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Será que já tivera um sonho pior? Talvez um. Cerca de um mês depois de Johnny nascer, Clay sonhou que pegava o bebê do berço para trocar as fraldas e o corpinho gorducho de Johnny simplesmente se despedaçava em suas mãos como um boneco mal montado. Aquele ele conseguia entender: medo da paternidade, medo de estragar tudo. Um medo com o qual ele ainda convivia, como notara o Diretor Ardal. Mas como deveria interpretar o sonho de agora?
O que quer que significasse, ele não queria esquecê-lo e sabia por experiência própria que, para que isso não acontecesse, teria que agir rápido.
Havia uma mesa no quarto e uma caneta esferográfica enfiada em um dos bolsos do jeans que Clay deixara embolado ao pé da cama. Ele pegou a caneta, foi descalço até a mesa, sentou-se e abriu a gaveta sobre o espaço para os joelhos. Encontrou o que queria, um pequeno maço de papéis de carta com o cabeço ACADEMIA GAITEN e "Uma Mente Jovem É uma Luz na Escuridão” em cada folha. Pegou uma delas e a colocou sobre a mesa. A luz estava fraca, mas iria servir. Fez a ponta da esferográfica saltar para fora com um clique e hesitou apenas por um instante, relembrando o sonho com o máximo de clareza possível.
Ele, Tom, Alice e Jordan estavam enfileirados no centro de um campo. Não um campo de futebol, como o estádio Tonney — um campo de futebol americano, talvez? Havia uma espécie de construção no esqueleto ao fundo com uma luz vermelha piscando nela. Não fazia idéia do que era, mas sabia que o campo estava cheio de pessoas olhando para eles, pessoas com rostos retalhados e roupas rasgadas que ele reconhecia bem até demais. Clay e os amigos estavam... enjaulados? Não, estavam em plataformas. Elas eram jaulas do mesmo jeito, mas não tinham barras. Não sabia como aquilo era possível, mas era. Já estava se esquecendo dos detalhes do sonho.
Tom era o último da fila. Um homem foi até ele, um homem especial, e colocou a mão na sua cabeça. Clay não se lembrava como o homem conseguiu fazer aquilo, já que Tom — assim como Alice, Jordan e o próprio Clay — estava em uma plataforma, mas ele fez. E disse: Ecce homo... insanus. E a multidão — milhares deles — rugiu em uníssono: "NÃO TOQUE!" O homem se aproximou de Clay e repetiu aquilo. Com a mão em cima da cabeça de Alice, disse: Eccefe-mina... insana E em cima da cabeça de Jordan: Ecce puer... insanus. Todas as vezes, a resposta foi a mesma: "NÃO TOQUE!"
Nem o homem — o anfitrião? O mestre de cerimônias? — nem as pessoas na multidão abriram a boca durante o ritual. O diálogo tinha sido inteiramente telepático.
Então, deixando sua mão direita pensar sozinha (a mão e o cantinho especial do cérebro que a comandava), Clay começou a desenhar uma imagem no papel. O sonho inteiro fora horrível — toda aquela calúnia, aquela sensação de acuamento —, mas nada tinha sido pior do que o homem que se aproximou de cada um deles, colocando a mão aberta sobre suas cabeças como um leiloeiro se preparando para vender gado em uma feira. Clay pensava que, se conseguisse passar a imagem daquele homem para o papel, passaria também o terror.
Era um negro com uma cabeça nobre e um rosto ascético que encimava um corpo magricela, quase esquálido. O cabelo era um gorro justo de caracóis pretos, com um horrível buraco triangular de um lado. Os ombros eram estreitos, a cintura, quase inexistente. Sob o gorro de caracóis, Clay esboçou a testa larga e bonita — a testa de um erudito. Então a transfigurou com outro traço e sombreou o pedaço de pele solto que cobria uma sobrancelha. A bochecha esquerda do homem havia sido rasgada, possivelmente por uma mordida, e o lábio inferior também estava aberto daquele lado, pendendo em um sorriso cansado de escárnio. Os olhos deram trabalho. Clay não conseguia acertá-los. No sonho, eles eram ao mesmo tempo cheios de energia e de alguma forma mortos. Após duas tentativas, desistiu e desceu até o moletom, antes que se esquecesse dele: era do tipo que as crianças chamam de "capuzinho" (VERMELHO, ele escreveu, fazendo uma seta), com letras de forma brancas na frente. Era grande demais para o corpo magro do homem, e um pedaço de tecido tampava a metade superior das letras, mas Clay tinha quase certeza de que elas diziam HARVARD. Estava começando a escrever aquilo quando o choro começou, baixinho e abafado, de algum lugar abaixo de onde estava.
Era Jordan: Clay soube de imediato. Ele deu uma olhada por sobre o ombro para Tom enquanto colocava os jeans, mas Tom não se mexera. Fora de combate, Clay pensou. Abriu a porta, deslizou para fora e a fechou.
Alice, vestindo uma blusa da Academia Gaiten como camisola, estava sentada no patamar do segundo piso com o menino aninhado nos braços. Jordan pressionava o rosto contra o ombro dela. Ela ergueu os olhos ao ouvir o som dos pés descalços de Clay na escada e falou antes de ele dizer algo de que talvez se arrependesse mais tarde: É o Diretor?
— Ele teve um pesadelo — disse ela.
Clay falou a primeira coisa que lhe veio à cabeça. Naquela hora, parecia de vital importância.
— Você também teve?
Ela franziu o cenho. Com as pernas nuas, o cabelo amarrado em um rabo-de-cavalo e o rosto queimado de sol como se tivesse passado um dia na praia, ela parecia a irmã de 11 anos de idade de Jordan.
— O quê? Não. Eu o ouvi chorando no hall. Acho que já estava acordando e...
— Só um minuto — disse Clay. — Não saia daí.
Ele voltou para o seu quarto no terceiro andar e pegou o esboço de cima da mesa. Daquela vez, os olhos de Tom saltaram. Ele olhou em volta com uma mistura de pavor e desorientação, então se deteve em Clay e relaxou.
— De volta à realidade — disse ele. Então, esfregando o rosto com uma das mãos e apoiando-se em um cotovelo: — Graças a Deus. Cruzes. Que horas são?
— Tom, você sonhou? Teve um pesadelo?
Tom assentiu.
— Acho que tive, sim. Ouvi alguém chorando. Era Jordan?
— Sim. Como era o sonho? Você se lembra?
— Alguém estava nos chamando de loucos — disse Tom, e Clay sentiu o estômago despencar. — O que é provavelmente verdade. Não me lembro do resto. Por quê? Você?...
Clay não esperou para ouvir mais. Saiu correndo pela porta e desceu as escadas novamente. Jordan olhou em volta com uma espécie de timidez atordoada quando Clay se sentou. Já não havia mais sinal do gênio da informática; se Alice parecia ter 11 anos com o rabo-de-cavalo e bronzeada daquele jeito, Jordan regredira aos nove.
— Jordan — disse Clay. — O seu sonho... o seu pesadelo. Você se lembra dele?
— Já estou esquecendo — respondeu Jordan. — Eles colocaram a gente em plataformas. Estavam olhando pra gente como se fôssemos... sei lá, animais selvagens... só que disseram...
— Que estávamos loucos.
Jordan arregalou os olhos.
— Isso!
Clay ouviu passos às suas costas à medida que Tom descia as escadas. Não olhou em volta. Mostrou o esboço a Jordan.
— Este homem estava no comando?
Jordan não respondeu. Não precisava. Afastou-se duas vezes do desenho, tateando em busca de Alice e enfiando o rosto contra o peito dela mais uma vez.
— O que é isso? — perguntou Alice, perplexa. Ela estendeu a mão para pegar o desenho, mas Tom o apanhou antes.
— Cristo — disse ele, e o devolveu. — Já quase esqueci do sonho, mas lembrome dessa bochecha rasgada.
— E do lábio — disse Jordan, as palavras abafadas contra o peito de Alice. — O jeito que o lábio dele fica pendurado. Era esse homem quem mostrava a gente para eles. Para eles. — Ele estremeceu. Alice esfregou as costas do menino e então juntou as mãos sobre suas espátulas para abraçá-lo com mais força.
Clay pôs o desenho na frente de Alice.
— Faz você lembrar algo? O homem dos seus sonhos?
Ela balançou a cabeça e começou a dizer não. Antes que pudesse fazê-lo, eles ouviram um matraquear alto e demorado e uma série de baques vindos da frente da porta de entrada da Casa Cheatham. Alice gritou. Jordan a agarrou com mais força, como se quisesse se esconder dentro dela e soltou um berro. Tom apertou o ombro de Clay.
— Ah, cacete, que porra é...
O barulho veio mais uma vez de trás da porta, alto e demorado. Alice gritou mais uma vez.
— Armas! — berrou Clay. — Armas!
Por um instante, os três ficaram paralisados no patamar ensolarado; então, ouviu-se outro daqueles barulhos longos e altos, um som como o de ossos rolando. Tom subiu correndo para o terceiro andar e Clay o seguiu, derrapando por causa das meias e agarrando o corrimão para recuperar o equilíbrio. Alice empurrou Jordan para longe e foi correndo para o seu quarto, a bainha da blusa esvoaçando entre as pernas, deixando o menino abraçado ao pilar da escada, olhando para o hall de entrada com os olhos arregalados e úmidos.
— Calma — disse Clay. — Vamos manter a calma, certo?
Os três estavam ao pé da escada menos de dois minutos depois do primeiro daqueles barulhos longos e irregulares que tinham vindo de trás da porta de entrada. Tom estava com o não testado rifle de assalto russo que eles passaram a chamar de Sr. Ligeirinho; Alice estava com uma automática de 9 milímetros em cada mão e Clay com o calibre 45 de Beth Nickerson, que conseguira de alguma forma não largar na noite anterior (embora não se lembrasse de tê-lo enfiado de volta no cinto, onde o encontrou mais tarde). Jordan ainda estava encolhido no patamar. De lá de cima, ele não conseguia ver as janelas do andar de baixo, e Clay achava isso uma boa coisa.
Estava mais escuro porque havia fonáticos em cada uma das janelas que podiam ver, amontoados contra os vidros e olhando para eles: dezenas, talvez centenas daqueles rostos estranhos e vazios, a maioria marcada pelas batalhas que tinham lutado e pelas feridas que haviam sofrido durante a última e anárquica semana. Clay viu olhos e dentes faltando, orelhas rasgadas, machucados, queimaduras, pele chamuscada e talhos de carne escurecida. Estavam em silêncio. Havia uma espécie de sofreguidão agourenta neles, e aquela sensação voltara a preencher o ar, aquela atmosfera sufocante de alguma energia enorme e rotativa, contida por um triz. A todo momento, Clay esperava ver as armas saírem voando de suas mãos e começarem a atirar sozinhas.
Na gente, ele pensou.
— Agora sei como as lagostas se sentem no tanque do Harbor Seafood no Pague Uma Leve Duas da terça-feira — disse Tom em uma voz fraca e tensa.
— Calma — repetiu Clay. — Vamos deixá-los dar o primeiro passo.
Porém, não houve primeiro passo. Ouviu-se outro daqueles barulhos demorados — que pareciam a Clay o som de algo sendo descarregado na varanda da frente —, e então as criaturas nas janelas se afastaram, como se comandadas por um sinal que apenas elas conseguiam ouvir. Fizeram isso em filas bem ordenadas. Aquela não era a hora do dia em que normalmente se juntavam em bando, mas as coisas tinham mudado. Era óbvio.
Clay andou até a janela da sacada na sala de estar, segurando o revólver do lado do corpo. Tom e Alice o seguiram. Eles observaram os fonáticos (que já não pareciam nem um pouco lunáticos para Clay, pelo menos não na interpretação dele) baterem em retirada, andando para trás com uma calma sinistra e ágil, jamais perdendo o pequeno espaço que havia entre eles. Pararam entre a Casa Cheatham e as ruínas fumegantes do estádio de futebol Tonney, como um batalhão militar maltrapilho em uma praça de armas coberta de folhas. Cada olhar nem-tão-vazio-assim pairava sobre a residência do Diretor.
— Por que as mãos e os pés deles estão tão sujos? — perguntou uma voz insegura. Eles olharam em volta. Era Jordan. Clay não notara a fuligem e as manchas pretas nas mãos das centenas de criaturas silenciosas lá fora, mas antes de conseguir falar isso, Jordan respondeu à própria pergunta. — Eles foram ver, não foram? É claro. Foram ver o que fizemos com os amigos deles. E estão furiosos. Dá pra sentir. Estão sentindo?
Clay não queria dizer que sim, mas é claro que sentia. Aquela atmosfera pesada, carregada, aquela sensação de uma descarga contida por um triz em uma rede de eletricidade: aquilo era raiva. Ele pensou na Cabelinho Claro avançando no pescoço da Mulher do Terninho de Poderosa e na senhora idosa que vencera a Batalha da Estação de Metrô da Boylston Street, a que tinha entrado no Boston Common com sangue pingando do cabelo cinza-escuro curto. No rapaz, nu com exceção dos tênis, brandindo as antenas de carro para frente e para trás enquanto corria. Toda aquela raiva — se ele achava que ela havia simplesmente desaparecido depois que eles começaram a se juntar em bando, estava muito enganado.
— Estou sentindo — disse Tom. — Jordan, se eles têm poderes psíquicos, por que não fazem a gente se matar, ou matar uns aos outros?
— Ou fazem nossas cabeças explodirem — disse Alice. A voz dela tremia. — Vi isso em um filme antigo, uma vez.
— Não sei — disse Jordan. Ele ergueu os olhos para Clay. — Onde está o Homem Esfrangalhado?
— É assim que você o chama? — Clay olhou para o esboço, que ainda estava em suas mãos: a carne rasgada, a manga rasgada do agasalho, o jeans largo. Não achava Homem Esfrangalhado um nome ruim para o cara com o moletom de Harvard.
— Eu o chamo de encrenca, isso sim — disse Jordan com um fiapo de voz. Ele olhou novamente para os recém-chegados, trezentos no mínimo, talvez quatrocentos, vindos de Deus sabe quais cidades vizinhas, e então de volta para Clay. — Você o viu?
— Sem ser em pesadelo, não.
Tom balançou a cabeça.
— Para mim, ele é só um desenho em um pedaço de papel — disse Alice. — Não sonhei com ele e não estou vendo ninguém de moletom lá fora. O que eles estavam fazendo no campo de futebol? Você acha que eles tentaram identificar os mortos? — Ela parecia ter dúvidas quanto a isso. — E ainda não está quente lá? Só pode estar.
— O que eles estão esperando? — perguntou Tom. — Se não vão nos atacar, nem fazer a gente enfiar facas de cozinha uns nos outros, o que estão esperando?
De repente, Clay descobriu o que estava acontecendo, e também onde estava o Homem Esfrangalhado de Jordan — aquele era o que o Sr. Devani, seu professor de álgebra do ginásio, chamaria de um momento ard! Ele se virou e foi na direção do hall de entrada.
— Aonde você está indo? — perguntou Tom.
— Ver o que eles deixaram para nós — disse Clay.
Eles o seguiram correndo. Tom o alcançou antes, enquanto a mão de Clay ainda estava na maçaneta.
— Não sei se isso é uma boa idéia — disse Tom.
— Talvez não, mas é o que eles estão esperando — disse Clay. — E sabe de uma coisa? Acho que se quisessem nos matar, já estaríamos mortos.
— Acho que ele tem razão — disse Jordan com uma voz baixa e fraca.
Clay abriu a porta. A longa varanda de entrada da Casa Cheatham, com sua confortável mobília de vime e vista para a Ladeira da Academia, que descia até a Academy Avenue, fora feita para tardes ensolaradas de outono como aquela, mas, naquele momento, a ambientação era a menor das preocupações de Clay. Parado ao pé da escada, havia um grupo de fonáticos em formação de ponta de lança: um na frente, dois atrás do primeiro, três atrás deste, e então quatro, cinco e seis. Vinte e um ao todo. O que estava na frente era o Homem Esfrangalhado do sonho de Clay, seu desenho tornado realidade. As letras na frente do moletom vermelho em farrapos diziam mesmo HARVARD. O rasgo na bochecha esquerda fora puxado para cima e preso ao lado do nariz por dois pontos brancos malfeitos, que, antes de se firmarem, tinham aberto cortes em forma de lágrimas na pele negra e indiferente à sutura. Havia talhos onde um terceiro e um quarto ponto tinham se soltado. Clay achou que talvez tivessem sido dados com linha de pescar. O lábio caído revelava dentes que pareciam ter sido tratados por um bom dentista há pouco, quando o mundo era um lugar mais gentil.
Na porta da frente, soterrando o capacho e se espalhando pelos dois lados, havia uma pilha de objetos escuros e disformes. Quase podia ser a idéia de arte de algum escultor meio doido. Clay precisou apenas de um instante para perceber que olhava para os restos derretidos dos estoura tímpanos do bando do estádio Tonney.
Então Alice gritou. Alguns dos mini systems derretidos tinham caído quando Clay abriu a porta, e algo que muito provavelmente estivera bem equilibrado no topo caíra junto com eles, parando entre o chão e a pilha. Ela deu um passo à frente antes que Clay pudesse impedi-la, derrubando uma das automáticas e agarrando a coisa que vira. Era o tênis. Ela o aninhou entre os seios.
Clay olhou para Tom, que estava atrás dela. Tom devolveu o olhar. Eles não eram telepatas, mas naquele instante bem que poderiam ser. E agora?, perguntavam os olhos de Tom.
Clay voltou a atenção para o Homem Esfrangalhado. Imaginava se era possível sentir alguém lendo sua mente se ela estivesse sendo lida naquele instante. Estendeu as mãos na direção do homem. Ainda estava com a arma em uma delas, mas nem o Homem Esfrangalhado nem os integrantes do pelotão pareciam intimidados por ela. Clay colocou as palmas para cima: O que vocês querem?
O Homem Esfrangalhado sorriu. Não havia humor no sorriso. Clay achou que conseguia ver raiva nos olhos castanho-escuros, mas parecia ser uma coisa superficial. Para além da superfície, não havia brilho algum, pelo menos não que Clay pudesse notar. Era quase como ver um boneco sorrir.
O Homem Esfrangalhado entortou a cabeça e ergueu um dedo: Espere. E, abaixo deles, na Academy Avenue, como se esperassem a deixa, vieram muitos gritos. Gritos de pessoas numa agonia mortal. Alguns sons guturais e predatórios se seguiram a eles. Não muitos.
— O que você está fazendo? — perguntou Alice. Ela deu um passo à frente, apertando o pequenino tênis convulsivamente na mão. Os nervos do antebraço saltavam a ponto de fazer sombras na sua pele como riscos a lápis longos e retos. — O que você está fazendo com as pessoas lá embaixo?
Como se pudesse haver alguma dúvida, pensou Clay.
Ela ergueu a mão que ainda carregava uma arma. Tom a agarrou, arrancando-a dela antes que Alice pudesse apertar o gatilho. Ela o atacou, arranhando-o com a mão livre.
— Devolva a arma para mim! Não está ouvindo isso? Não está ouvindo?
Clay a empurrou para longe de Tom. Durante todo esse tempo, Jordan observava da entrada com olhos arregalados e aterrorizados, e o Homem Esfrangalhado ficava parado na ponta da lança, sorrindo com um rosto cujo humor escondia a raiva, e cuja raiva escondia... nada, até onde Clay podia ver. Absolutamente nada.
— De qualquer maneira, estava travado — disse Tom depois de checar rapidamente. — Graças a Deus pelos pequenos favores. — E para Alice: — Você quer nos matar?
— Você acha que eles vão deixar a gente ir embora? — Ela chorava com tanta força que era difícil entender o que dizia. Ranho escorria pelas suas narinas em dois filetes claros. Lá debaixo, da avenida ladeada por árvores que seguia para além da Academia Gaiten, vieram mais gritos. Uma mulher berrou: Não, por favor, não, por favor, não, e então as palavras se perderam em um terrível urro de dor.
— Não sei o que eles vão fazer com a gente — disse Tom com uma voz que lutava para se manter calma —, mas se quisessem nos matar, não estariam fazendo isso. Olhe para ele, Alice: o que está acontecendo lá embaixo é para o nosso bem.
Houve alguns tiros na medida em que as pessoas tentavam se defender, mas não muitos. Em sua maioria, eram apenas gritos de dor e terrível surpresa, todos vindo da área próxima à Academia Gaiten, onde o bando fora queimado. Aquilo certamente não durou mais do que dez minutos, mas às vezes, pensou Clay, o tempo era mesmo relativo.
Pareceram horas.
Quando os gritos finalmente cessaram, Alice ficou parada em silêncio entre Clay e Tom, com a cabeça baixa. Ela deixara as duas automáticas em uma mesa para malas e chapéus logo depois da porta de entrada. Jordan segurava a mão dela, olhando para o Homem Esfrangalhado e seus colegas de pé na beirada da calçada. Até então, o menino não notara a ausência do Diretor. Clay sabia que ele notaria logo, e então a próxima cena daquele dia terrível começaria.
O Homem Esfrangalhado deu um passo adiante e fez uma pequena mesura com as mãos esticadas dos dois lados, como se dissesse: Às ordens. Então ergueu os olhos e estendeu uma das mãos em direção à Ladeira da Academia e à avenida mais além. Ao fazê-lo, olhou para o pequeno grupo amontoado na porta aberta atrás da escultura de mini systems derretidos. Para Clay, o significado era claro: A estrada é de vocês. Podem pegá-la.
— Talvez — disse Clay. — Enquanto isso, vamos deixar uma coisa bem clara. Tenho certeza de que vocês podem acabar com a gente se quiserem, obviamente estão com a vantagem numérica, mas alguma outra pessoa vai assumir o comando amanhã, a não ser que você decida ficar no quartel-general. Porque vou garantir pessoalmente que você seja o primeiro a cair.
O Homem Esfrangalhado levou as mãos às bochechas e arregalou os olhos: Ai, que medo! Os outros atrás dele estavam tão inexpressivos quanto robôs. Clay ficou olhando por mais um instante, então fechou a porta lentamente.
— Desculpe — disse Alice com desânimo. — Não estava agüentando ouvir aqueles gritos.
— Tudo bem — disse Tom. — Não tem problema. E olhe só, eles trouxeram de volta o Sr. Sapatinho.
Alice olhou para ele.
— Foi assim que descobriram que foi a gente? Eles sentiram o cheiro, do mesmo jeito que um cão de caça fareja uma pista?
— Não — disse Jordan. Ele estava sentado em uma cadeira de espaldar alto do lado do vaso para guarda-chuvas, parecendo pequeno, abatido e exausto. — Essa é a maneira de eles dizerem que conhecem você. Pelo menos, é o que eu acho.
— Concordo — disse Clay. — Aposto que eles sabiam que fomos nós antes mesmo de chegarem aqui. Pescaram isso nos nossos sonhos do mesmo jeito que vimos o rosto dele.
— Eu não... — começou a falar Alice.
— Porque você estava acordando — disse Tom. — Imagino que uma hora ele vá falar com você. — Ele fez uma pausa. — Isto é, se ainda tiver algo a dizer. Não estou entendendo, Clay. Nós fizemos. Nós fizemos e eles sabem disso, tenho certeza.
— Sim — disse Clay.
— Então por que estão matando um bando de viajantes inocentes quando poderiam sem o menor esforço, bem, com algum esforço, invadir a casa e matar a gente? Quero dizer, entendo o conceito de retaliação, mas não vejo sentido nisso...
Neste momento, Jordan saiu da cadeira e, olhando em volta com uma expressão de súbita preocupação, perguntou:
— Cadê o Diretor?
Clay alcançou Jordan, mas não antes de o menino ter chegado até o patamar do segundo piso.
— Espere, Jordan — disse ele.
— Não — respondeu o garoto. O rosto dele estava mais branco e chocado do que nunca. Seu cabelo estava revolto, e Clay imaginou que era só porque ele estava precisando de uma tesoura, mas era como se estivesse tentando ficar em pé. — Com toda essa comoção ele devia estar com a gente! E estaria com a gente, se estivesse bem. — Os lábios dele começaram a tremer. — Lembra de como ele estava se esfregando? E se não fosse só aquele negócio de refluxo gástrico?
— Jordan...
Jordan não deu atenção, e Clay podia apostar que ele esquecera completamente do Homem Esfrangalhado e seus companheiros, pelo menos por ora. Livrou-se da mão de Clay e desceu correndo o corredor, gritando: "Senhor! Senhor!", enquanto Diretores que remontavam ao século XIX baixavam os olhos graves para ele das paredes.
Clay olhou escada abaixo. Alice não tinha condições de ajudar — estava sentada ao pé da escada com a cabeça torta, olhando para aquela porra de tênis como se fosse a caveira de Yorick —, mas Tom começou a subir com relutância para o segundo andar.
— Qual vai ser o tamanho do estrago? — ele perguntou para Clay.
— Bem... Jordan acha que o Diretor teria se juntado a nós se estivesse bem e eu tendo a pensar que ele...
Jordan começou a se esgoelar. Era um som agudo penetrante que varou a cabeça de Clay como uma lança. Foi Tom quem se mexeu primeiro, Clay ficou enraizado nos primeiros degraus da escada por pelo menos três segundos, e talvez até sete, imobilizado por um único pensamento: Não é assim que uma pessoa grita quando descobre algo parecido com um ataque de coração. O velho deve ter feito alguma besteira. Talvez tenha usado o tipo errado de comprimidos. Estava na metade do corredor quando Tom gritou, chocado: "Oh meu Deus Jordan não olhe", quase como se fosse uma só palavra.
— Espere! — gritou Alice de trás dele, mas Clay não esperou. A porta para a pequena suíte do Diretor estava aberta: o escritório com os livros e o agora inútil fogareiro, o quarto mais adiante com a porta escancarada, deixando a luz vazar. Tom estava de frente para a mesa, segurando a cabeça de Jordan contra a barriga. O Diretor estava sentado atrás da mesa. O peso dele jogara a cadeira giratória para trás e o velho parecia estar olhando para o teto com o olho que restava. Seu cabelo branco revolto pendia do espaldar. Para Clay, ele parecia um pianista que acabara de tocar o acorde final de uma composição difícil.
Ele ouviu Alice dar um grito estrangulado de horror, mas quase não prestou atenção. Sentindo-se como um passageiro dentro do próprio corpo, Clay andou até a mesa e olhou para a folha de papel que jazia sobre o mataborrão. Embora estivesse manchada de sangue, ele conseguia decifrar as palavras; o Diretor as escrevera com uma letra bonita e clara. Velha guarda até o fim, Jordan teria dito.
aliene geisteskrank
insano elnebajos vansinnig fou
atamagaokashii gek dolzinnig
hullu
gila
meschuge nebun dement
Clay só sabia falar inglês e um pouco de francês que aprendera na escola, mas sabia muito bem o que era aquilo, e o que significava. O Homem Esfrangalhado queria que eles fossem embora e sabia de alguma forma que o Diretor Ardal estava velho e artrítico demais para acompanhá-los. Então, o obrigou a sentar-se à mesa e escrever a palavra louco em 14 línguas diferentes. E, quando ele terminou, o fez enfiar a ponta da caneta tinteiro que usara no olho direito até o cérebro velho e inteligente que ficava atrás dele.
— Eles o fizeram se matar, não foi? — perguntou Alice, com a voz falhando. — Por que ele e não a gente? Por que ele e não a gente? O que eles querem?
Clay pensou no gesto que o Homem Esfrangalhado fizera em direção à Academy Avenue — Academy Avenue, que também era a rota 102 de New Hampshire. Os fonáticos, que não eram mais exatamente lunáticos — ou o eram de um jeito bem diferente —, queriam que eles voltassem para a estrada. Mais do que isso ele não sabia, e talvez fosse melhor assim. Talvez fosse para o bem. Talvez aquilo fosse misericórdia.
AS ROSAS MURCHARAM, O JARDIM MORREU
Havia meia dúzia de toalhas de mesa de linho fino em um armário no fim do corredor dos fundos, e uma delas serviu de mortalha para o Diretor Ardal. Alice se dispôs a costurá-lo, mas caiu no choro quando nem seu talento como costureira nem seus nervos se mostraram à altura da missão. Tom assumiu a tarefa; esticou a toalha, fez um ponto duplo e arrematou com golpes rápidos e quase profissionais. Clay achou que era como observar um boxeador bater em um saco invisível com a mão direita.
— Não faça piadas — disse Tom sem erguer os olhos. — Agradeço pelo que você fez lá em cima, eu jamais conseguiria ter feito aquilo, mas não vou agüentar uma piada que seja agora. Nem aquelas mais inofensivas, do tipo Willand Grace. Mal consigo manter a cabeça no lugar.
— Tudo bem — disse Clay. Fazer piadas era a última coisa em que ele estava pensando. Quanto ao que havia feito lá em cima... bem, a caneta tinha que ser tirada do olho do Diretor. Não iriam deixar aquilo lá de forma alguma. De modo que Clay resolveu o problema, desviando o olhar para o canto do quarto enquanto a arrancava, tentando não pensar no que estava fazendo ou por que aquela merda estava tão presa. Na maior parte do tempo, conseguiu não pensar, mas a caneta raspou o osso da órbita do velho quando finalmente se soltou, e Clay ouviu um som mole, como um pedaço de carne fazendo plop, quando algo caiu do bico de aço torto da caneta em cima do mata-borrão. Ele achou que se lembraria daqueles sons para sempre, mas conseguira tirar a maldita caneta, e era isso que importava.
Lá fora, havia quase mil fonáticos no gramado entre as ruínas fumegantes do campo de futebol e a Casa Cheatham. Eles tinham ficado lá a maior parte da tarde. Então, por volta das cinco, seguiram em bando silenciosamente na direção do centro de Gaiten. Clay e Tom desceram o corpo amortalhado do Diretor pela escada dos fundos e o colocaram na varanda de trás. Os quatro sobreviventes se reuniram na cozinha e fizeram a refeição que haviam se acostumado a chamar de café-damanhã enquanto as sombras começavam a se alongar lá fora.
Jordan comeu surpreendentemente bem. Estava corado e falava com animação. A conversa resumia-se a reminiscências da sua vida na Academia Gaiten e à influência que o Diretor Ardal tivera no coração e na mente de um viciado em computadores sem amigos e introvertido de Madison, Wisconsin. A magnífica lucidez das recordações do menino deixava Clay cada vez mais desconfortável e, quando olhou nos olhos primeiro de Alice e depois de Tom, viu que eles sentiam o mesmo. A mente de Jordan estava rateando, mas era difícil saber como lidar com aquilo; mandá-lo para um psiquiatra estava fora de cogitação.
Em um determinado momento, depois do anoitecer, Tom sugeriu que Jordan deveria descansar. Jordan disse que iria, mas não antes de enterrarem o Diretor. Poderiam colocá-lo no jardim atrás da Casa, disse ele. E falou que o Diretor costumava chamar a pequena horta de vegetais de "jardim da vitória", embora jamais tenha dito por quê.
— É o melhor lugar — disse Jordan, sorrindo. As faces dele estavam afogueadas. Seus olhos, fundos nas órbitas escuras, brilhavam com o que poderia ser entusiasmo, bom humor, loucura ou os três juntos. — Não só o solo é macio, como é o lugar que ele sempre gostou mais... quero dizer, lá fora. Então, o que vocês acham? Eles foram embora, ainda não saem à noite, isso não mudou, e podemos usar os lampiões quando formos cavar. O que vocês acham?
Depois de refletir, Tom perguntou:
— Temos pás?
— Pode apostar que sim, no barraco dos jardineiros. Nem precisamos ir até as estufas. — E, por incrível que pareça, Jordan riu.
— Então, pronto — disse Alice. — Vamos enterrá-lo e acabar logo com isso.
— E depois você vai descansar — disse Clay, olhando para o garoto.
— Claro, claro — exclamou Jordan com impaciência. Ele se levantou da cadeira e começou a andar pela sala. — Vamos, pessoal! — Como se estivessem brincando de pique.
Então eles abriram a cova no jardim atrás da Casa e enterraram o Diretor entre os feijões e tomates. Tom e Clay baixaram o vulto amortalhado no buraco, que tinha cerca de um metro de profundidade. O exercício os manteve aquecidos, e eles só perceberam que a noite ficara muito fria depois que pararam. As estrelas brilhavam no céu, mas uma névoa baixa e espessa rolava ladeira abaixo. A Academy Avenue já tinha sido engolida por aquela maré branca e apenas os telhados pontiagudos das maiores entre as casas antigas lá embaixo vinham à tona.
— Bem que alguém poderia saber alguma boa poesia — disse Jordan. As faces dele estavam mais vermelhas do que nunca, mas os olhos se afundaram nas cavidades circulares e ele tremia, apesar de estar com dois suéteres. Sua respiração saía em pequenas baforadas. — O Diretor adorava poesia, achava a coisa mais foda do mundo. Ele era... — A voz de Jordan, que soara estranhamente alegre a noite toda, finalmente cedeu. — Ele era totalmente velhaguarda.
Alice o envolveu com os braços. Jordan resistiu, mas depois deixou.
— Vamos fazer o seguinte — disse Tom. — Vamos cobri-lo direitinho, para protegê-lo do frio, e então declamamos um pouco de poesia. Está bom assim?
— Você conhece mesmo alguma?
— Conheço, sim — respondeu Tom.
— Você é tão inteligente, Tom. Obrigado. — E Jordan sorriu para ele com uma gratidão esgotada, horrível.
Cobrir a cova foi rápido, embora no fim tivessem precisado pegar um pouco de terra emprestada de outras partes do jardim para nivelá-la. Quando terminaram, Clay já estava suando de novo e sentia o próprio fedor, fazia tempo que não tomava banho.
Alice tentou evitar que Jordan ajudasse, mas o menino se livrou dela e se pôs a trabalhar, atirando terra no buraco com as próprias mãos. Quando Clay acabou de socar a terra com a parte de trás da pá, o menino tinha os olhos vidrados de cansaço e cambaleava feito um bêbado.
Mesmo assim, olhou para Tom.
— Vamos. Você prometeu.
Clay quase esperou que ele acrescentasse: E capriche, senor, senão eu meto uma bala em você, como um bandido assassino em um faroeste de Sam Peckinpah.
Tom foi até uma das pontas da cova — Clay achou que era a da cabeça, mas estava tão cansado que não conseguia lembrar. Nem conseguia lembrar com certeza se o nome do Diretor era Charles ou Robert. Tiras de névoa se enroscavam nos pés e tornozelos de Tom, enrolando-se nos caules de feijão mortos. Ele retirou o boné de beisebol e Alice tirou o dela. Clay levou as mãos à cabeça e se lembrou de que não estava usando nada.
— Isso mesmo! — exclamou Jordan. Estava sorrindo, enlouquecido pela compreensão dos fatos. — Tirem os chapéus! Tirem os chapéus para o Diretor! — Ele próprio estava com a cabeça descoberta, mas fingiu tirar um chapéu assim mesmo. Tirou-o e o agitou no ar, e Clay temeu novamente pela sanidade do garoto. — Agora o poema! Vamos, Tom!
— Certo — disse Tom —, mas você tem que ficar quieto. Demonstre respeito.
Jordan colocou um dedo entre os lábios para mostrar que entendeu, e Clay viu nos olhos cheios de mágoa sobre o dedo erguido que o menino ainda não tinha perdido a cabeça. Perdera o amigo, mas não a cabeça.
Clay esperou, curioso para ver como Tom prosseguiria. Esperava algo de Frost, talvez um fragmento de Shakespeare (certamente o Diretor aprovaria Shakespeare, mesmo que fosse apenas "Quando nós três nos reencontraremos"), talvez até algum improviso de autoria de Tom McCourt. Mas não esperava os versos que saíram da boca de Tom em uma voz baixa e precisa.
— Não nos prive da tua misericórdia, senhor; que teu amor e tua verdade sempre nos protejam. Pois males sem-fim nos cercam; fomos rodeados pelos nossos pecados e não podemos ver. Eles são mais numerosos do que os cabelos das nossas cabeças, e nossos corações desfalecem. Digna-te a salvar-nos Senhor; Senhor, apressate em nosso auxílio.
Alice segurava o tênis e chorava diante da cova. Estava com a cabeça abaixada. Seus soluços eram rápidos e baixos.
Tom continuou, com uma das mãos esticadas sobre a cova fresca, a palma para a frente, os dedos enrolados.
— Que todos aqueles que queiram tomar nossas vidas como esta vida foi tomada caiam em vergonha e agonia; que todos aqueles que desejam nossa ruína sejam expulsos e caiam em desgraça. Que aqueles que nos escarnecem sejam confundidos pela própria vergonha. Aqui jaz o morto, pó da terra...
— Sinto muito, Diretor! — gritou Jordan em uma voz tremida e aguda. — Sinto muito, não está certo, senhor, sinto muito que o senhor esteja morto... — Seus olhos rolaram para cima e ele caiu sobre a cova fresca. A névoa o cobriu com seus dedos brancos e vorazes.
Clay o ergueu e mediu a pulsação no pescoço do menino; estava forte e regular.
— Foi só um desmaio. O que era aquilo que você estava falando, Tom?
Tom parecia encabulado.
— Uma adaptação bem livre do Salmo 40. Vamos levá-lo para dentro.
— Não — disse Clay. — Se não for muito longo, termine.
— Sim, por favor — disse Alice. — Termine. É lindo. Como bálsamo em uma ferida.
Tom se virou e ficou de frente para a cova novamente. Deu a impressão de estar se recompondo, mas talvez estivesse apenas voltando para o lugar.
— Aqui jaz o morto, pó da terra, e aqui estamos nós, os vivos, pobres e necessitados. Senhor, cuida de nós. Tu és nosso arrimo e nosso provedor. Senhor, não tardes a vir. Amém.
— Amém — Cfay e Alice disseram juntos.
— Vamos levar o garoto para dentro — disse Tom. — Está um gelo aqui fora.
— Você aprendeu isto com as carolas da Primeira Igreja de Cristo Redentor da Nova Inglaterra? — perguntou Clay.
— Ah, sim — disse Tom. — Quanto mais salmos decorados, sobremesas extras. Também aprendi a mendigar nas esquinas e encher um estacionamento da Sears inteiro com panfletos do tipo Um Milhão de Anos no Inferno sem um Copo d'Água. Vamos colocar esse menino na cama. Aposto que ele vai dormir direto até as quatro da tarde de amanhã e acordar se sentindo muito melhor.
— E se o homem da bochecha rasgada voltar e descobrir que ainda estamos aqui depois de ele ter nos mandado ir embora? — perguntou Alice.
Clay pensou que aquela era uma boa pergunta, mas não achava que valesse a pena remoê-la por muito tempo. Ou o Homem Esfirangalhado daria mais um dia para eles, ou não. Enquanto levava Jordan para a cama no andar de cima, Clay descobriu que estava cansado demais para se importar com qualquer uma das hipóteses.
Por volta das quatro da manhã, Alice deu um boa-noite sonolento para Clay e Tom e se arrastou para a cama. Os dois homens ficaram sentados na cozinha, bebendo chá gelado, sem conversarem muito. Não parecia haver muito a dizer. Então, logo antes da aurora, outro daqueles grunhidos altos, proferidos ao longe de modo fantasmagórico, veio do noroeste através do ar nebuloso. Oscilava como o som de um theremin em um filme de terror antigo e, quando estava começando a sumir, um grito de resposta muito mais alto veio de Gaiten, para onde o Homem Esfrangalhado levara seu novo e mais numeroso bando.
Clay e Tom saíram pela frente, empurrando de lado a barreira de mini systems derretidos para descer os degraus da varanda. Não conseguiam enxergar nada; o mundo inteiro estava branco. Ficaram lá por um tempo e voltaram para dentro.
Nem o grito da morte nem a resposta de Gaiten acordaram Alice e Jordan; eles podiam se sentir gratos por isso. O guia de ruas, já dobrado e com as pontas amassadas, estava na bancada da cozinha. Tom o folheou e disse:
— Aquilo pode ter vindo de Hooksett ou Suncook. As duas são cidades de um tamanho razoável a noroeste daqui... quero dizer, de um tamanho razoável para New Hampshire. Imagino quantos eles pegaram. E como fizeram.
Clay balançou a cabeça.
— Espero que tenham sido muitos — disse Tom com um sorriso fraco e insosso. — Espero que tenham sido pelo menos mil, e que tenham cozinhado bem devagar. Fico pensando numa cadeia de restaurantes qualquer que costumava anunciar "galinha assada". Nós vamos partir amanhã à noite?
— Acho que, se o Homem Esfrangalhado nos deixar viver o dia de hoje, não temos escolha. Você não acha?
— Não vejo outra saída — disse Tom —, mas vou lhe dizer uma coisa, Clay... estou me sentindo como uma vaca sendo conduzida por um corredor de zinco até o abatedouro. Quase posso sentir o cheiro do sangue dos meus irmãos bovinos.
Clay sentia o mesmo, mas a mesma pergunta voltava à baila: se um massacre era o que eles tinham em sua mente coletiva, por que não logo ali? Poderiam tê-lo realizado na tarde do dia anterior, em vez de largarem mini systems derretidos e o tênis de estimação de Alice na varanda.
Tom bocejou.
— Vou pra cama. Você consegue ficar acordado mais algumas horas?
— Talvez — disse Clay. Na verdade, nunca sentira tão pouca vontade de dormir na vida. Seu corpo estava exausto, mas sua mente não parava quieta. Logo começaria a se acalmar, e ele se lembraria do som que a caneta fez ao sair da órbita do Diretor: o guincho de metal contra o osso. — Por quê?
— Porque se eles decidirem matar a gente hoje, prefiro ir do meu jeito do que do jeito deles — respondeu Tom. — Já vi como é o deles. Concorda?
Clay pensou que se a mente coletiva que o Homem Esfrangalhado representava tivesse realmente feito o Diretor enfiar uma caneta tinteiro no olho, os quatro inquilinos restantes da Casa Cheatham poderiam descartar suicídio como uma das opções. Porém, Tom não merecia ir para cama com aquele pensamento. De modo que ele assentiu.
— Vou levar todas as armas lá para cima. Você está com aquele bom e velho calibre 45, certo?
— O preferido de Beth Nickerson. Estou.
— Então, boa-noite. E, se os vir se aproximando, ou se sentir que eles estão se aproximando, grite. — Tom fez uma pausa. — Isto é, se tiver tempo. E se eles deixarem.
Clay observou Tom sair da cozinha, pensando que ele sempre esteve um passo à sua frente. Pensando em como gostava de Tom. Pensando que gostaria de conhecê-lo melhor. Pensando que isso não era muito provável. E Johnny e Sharon? Eles nunca pareceram tão distantes.
Às oito daquela manha, Clay se sentou num banco em um canto do jardim da vitória do Diretor, dizendo a si mesmo que, se não estivesse tão cansado, levantaria a bunda morta e faria uma espécie de lápide para o velho. Não duraria muito, mas o cara merecia, mesmo que fosse só por ter tomado conta do seu último aluno. O problema era que ele nem tinha certeza se conseguiria se levantar, cambalear para dentro da casa e acordar Tom para que ele ficasse de vigia.
Logo eles teriam um belo e frio dia de outono — feito para colher maçãs, preparar cidra e jogar futebol americano no quintal dos fundos. Por ora, a névoa ainda estava espessa, mas o sol da manhã a atravessava vigorosamente, emprestando uma brancura deslumbrante ao pequeno mundo em que Clay estava sentado. Gotículas suspensas pendiam no ar, e centenas de pequenos arco-íris circulavam diante dos seus olhos pesados.
Algo vermelho se materializou, saindo daquele branco incandescente. Por um instante, o moletom do Homem Esfrangalhado parecia flutuar sozinho, e então, na medida em que atravessava o jardim em direção a Clay, o rosto pardo e as mãos do seu ocupante se materializaram em cima e embaixo dele. Naquela manhã, o capuz estava levantado, emoldurando a deformidade sofridente do rosto e aqueles olhos mortos-vivos.
Testa larga de erudito, transfigurada por um rasgo. Jeans sujos e disformes, rasgados nos bolsos e vestidos há mais de uma semana.
HARVARD escrito no peito estreito.
O calibre 45 de Beth Nickerson estava no cinto de Clay, guardado no coldre lateral. Ele nem chegou a tocá-lo. O Homem Esfrangalhado parou a cerca de 3 metros dele. Ele — a criatura — estava parado em cima da cova do Diretor, e Clay não achava que fosse por acaso.
— O que você quer? — ele perguntou ao Homem Esfrangalhado, e respondeu a si mesmo imediatamente: — Quero. Dizer.
Clay ficou olhando para o homem, mudo de surpresa. Esperara telepatia ou nada. O Homem Esfrangalhado sorriu, da melhor forma que podia com aquele corte feio no lábio inferior, e espalmou as mãos como se dissesse: Ora, coisa fácil.
— Fale o que quer falar, então — disse Clay e tentou se preparar para ter a voz invadida uma segunda vez. Ele descobriu que não dava para se preparar. Era como se tivesse se transformado em um pedaço de madeira sorridente no colo de um ventríloquo.
— Vá. Hoje à noite. — Clay se concentrou e disse: — Cale a boca, pare!
O Homem Esfrangalhado esperou, era a encarnação da paciência.
— Acho que consigo bloquear você se me esforçar — disse Clay. — Não tenho certeza, mas acho que consigo.
O Homem Esfrangalhado esperou, o rosto dizendo: Já terminou?
— Prossiga — disse Clay, e então falou: — Poderia ter trazido. Mais. Vim. Sozinho.
Clay refletiu sobre a força de vontade do Homem Esfrangalhado unida à de um bando inteiro e se deu por vencido.
— Vá. Hoje à noite. Norte. — Clay esperou e, quando teve certeza de que o Homem Esfrangalhado havia terminado de usar a voz dele por ora, disse: — Para onde? Por quê?
Não houve palavras daquela vez, mas uma imagem surgiu de repente diante de Clay. Era tão clara que ele não sabia se estava em sua mente ou se o Homem Esfrangalhado a havia invocado de alguma forma na tela brilhante da névoa. Era o que eles tinham visto rabiscado em giz rosa no meio da Academy Avenue:
KASHWAK=SEM-FO
— Não entendo — disse ele.
Mas o Homem Esfrangalhado estava indo embora. Pôde ver o moletom vermelho por um instante, parecendo mais uma vez flutuar sozinho contra a névoa reluzente; então ele sumiu também. Clay ficou apenas com a pífia consolação de saber que eles iriam para o norte de qualquer maneira e que tinham ganhado mais um dia. O que significava que não havia necessidade de vigiar. Decidiu ir para cama e deixar os outros continuarem dormindo também.
Jordan acordou com a cabeça no lugar, mas a lucidez nervosa desaparecera. Ele mordiscou metade de um bagel duro igual pedra e escutou com desânimo Clay contar sobre o encontro com o Homem Esfrangalhado naquela manhã. Quando Clay terminou, Jordan pegou o guia de ruas, consultou o índice no final e então abriu na página do oeste do Maine.
— Aqui — disse ele, apontando uma cidade em cima de Fryeburg. — Esta é Kashwak, ao leste, e Little Kashwak, a oeste, quase na divisa Maine New Hampshire. Sabia que eu tinha reconhecido o nome. Por causa do lago. — Jordan o cutucou. — Quase tão grande quanto Sebago.
Alice aproximou o rosto para ler o nome do lago.
— Kash... Kashwakamak, acho que é isso.
— E um território não-incorporado chamado TR-90 — disse Jordan. Ele cutucou aquilo também. — Sabendo disso, fica fácil adivinhar o que significa Kashwak igual a Sem-Fo, vocês não acham?
— É uma zona morta, certo? — disse Tom. — Sem torres de telefonia celular, sem torres de microondas.
Jordan abriu um sorriso fraco para ele.