Celular

Stephen King · Capítulo 3 de 5 · parte 2/3

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Celular

O velho se curvou, aparentando de repente cansaço.

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Saia daqui Johnny. Não é aqui que você deve estar. Esse não é o seu lugar nem a sua hora.

Os caminhões de gás estavam vazios e trancados, mas isto não foi problema; naquele dia, a sorte estava do lado deles. As chaves estavam penduradas em um mural no escritório do posto, sob uma placa com os dizeres: PROIBIDO REBOQUE ENTRE MEIA-NOITE E 6 DA MANHÃ SEM EXCEÇÕES. Um botijão de gás em miniatura pendia de cada chave. No meio do caminho de volta para a porta, Tom tocou o ombro de Clay.

Dois fonáticos subiam pelo meio da rua, lado a lado, mas de maneira nenhuma em marcha. Um estava comendo uma caixa de bolinhos Ana Maria; o rosto dele estava coberto de creme, farelos e cobertura. O outro, uma mulher, segurava diante de si um livro de deixar na mesa da sala. Para Clay, ela parecia uma corista segurando um hinário gigante. A capa do livro parecia ter a foto de um collie saltando por dentro de um balanço de pneu. O fato de a mulher estar segurando o livro de cabeça para baixo aliviou um pouco Clay. As expressões vazias e perplexas em seus rostos — e o fato de estarem andando sozinhos, o que significava que meio-dia ainda era uma hora em que eles não se agrupavam — o aliviaram mais ainda.

Porém, ele não estava gostando daquele livro.

Não, não estava gostando nem um pouco daquele livro.

Eles passaram pelos pilares de pedra e Clay podia ver Alice, Jordan e o Diretor à espreita, de olhos arregalados. Os dois lunáticos andaram por cima da mensagem em código escrita a giz na rua — KASHWAK=SEM-FO — e a mulher tentou pegar os bolinhos do seu companheiro. O homem afastou a caixa dela. A mulher atirou o livro longe (ele aterrissou com o lado direito para cima, e Clay viu que era Os 100 Cães mais Amados do Mundo) e tentou de novo. O homem a esbofeteou com tanta força que o cabelo sujo dela voou, o som muito alto no silêncio do dia. Eles não pararaín de andar um instante. A mulher produziu um som:

— Aw!

O homem respondeu (Clay achava que era uma resposta):

— Eeeen!

A mulher tentou pegar a caixa de bolinhos Ana Maria. Àquela altura, eles passavam pelo Citgo. O homem bateu no pescoço daquela vez, descrevendo um arco com a mão espalmada, e então enfiou a mão na caixa para pegar outro bolinho. A mulher parou. Olhou para ele. E, logo em seguida, o homem parou. Afastara-se um pouco, de modo que estava praticamente de costas para ela.

Clay sentiu algo no silêncio aquecido pelo sol do escritório do posto de gasolina. Não, ele pensou, não no escritório, em mim. Falta de ar, como quando você sobe um lance de escadas muito depressa.

Só que talvez também fosse no escritório, porque...

Tom ficou na ponta dos pés e sussurrou no ouvido dele:

— Você sentiu isso?

Clay assentiu e apontou para a mesa. O ar estava parado, eles não sentiam vento nenhum, mas os papéis em cima da mesa estavam tremulando. E, no cinzeiro, as cinzas tinham começado a rodopiar lentamente, como água descendo pelo ralo de uma banheira. Havia duas guimbas nele — não, três —, e as cinzas em movimento pareciam empurrá-las para o centro.

O homem se virou para a mulher. Olhou para ela. Ela devolveu o olhar. Eles ficaram se olhando. Clay não conseguiu detectar nenhuma expressão no rosto deles, mas sentia os cabelos do braço se eriçarem e ouviu algo tilintar baixinho. Eram as chaves no mural debaixo do cartaz que dizia PROIBIDO REBOQUE. Elas também estavam vibrando; batendo discretamente umas contra as outras.

— Awl — disse a mulher. Ela estendeu a mão.

— Eeen! — disse o homem. Ele vestia os restos desbotados de um terno. Calçava sapatos pretos sem brilho. Seis dias atrás, talvez fosse um gerente intermediário, um vendedor ou um gerente de condomínio. Agora, a única propriedade com que se importava era a sua caixa de bolinhos Ana Maria. Ele a apertava contra o peito, mastigando com a boca melada.

— Awl — insistiu a mulher. Ela estendeu as duas mãos em vez de apenas uma, naquele gesto imemorial que significa me dá, e as chaves tilintaram mais alto. Acima da cabeça deles, houve um bzzzztk à medida que uma lâmpada fluorescente para a qual não havia energia piscou e voltou a apagar. A mangueira caiu da bomba de gás do meio e bateu na ilha de concreto com um barulho de metal morto.

— Aw — disse o homem. Os ombros dele se curvaram e toda a tensão o abandonou. A tensão abandonou o ar. As chaves no mural silenciaram. As cinzas deram uma última volta em seu relicário de metal talhado e pararam. Era como se nada tivesse acontecido, pensou Clay, exceto pela mangueira caída lá fora e o pequeno bolo de guimbas de cigarro no cinzeiro em cima da mesa.

— Aw — disse a mulher. Ainda estava com as mãos estendidas.

O homem andou até o raio de alcance delas. Ela pegou um bolinho em cada mão e começou a comê-los, com embalagem e tudo. Clay ficou mais uma vez aliviado, mas só um pouco. Eles voltaram a se arrastar lentamente em direção à cidade, a mulher parando para cuspir um pedaço de celofane lambuzado de recheio. Não demonstrou interesse no livro Os 100 Cães mais Amados do Mundo.

— O que foi aquilo? — perguntou Tom em uma voz baixa e tremida quando os dois estavam quase fora de vista.

— Não sei, mas não estou gostando — disse Clay. Ele estava com as chaves dos caminhões de gás. Entregou um molho para Tom.

— Você sabe dirigir um carro com câmbio manual?

— Eu aprendi a dirigir em um. Você sabe?

Clay sorriu pacientemente.

— Eu sou hétero, Tom. Héteros sabem dirigir carros com câmbio manual sem precisar aprender. É uma coisa instintiva.

— Muito engraçado. — Tom não estava prestando muita atenção. Procurava a dupla que tinha ido embora e a pulsação do lado do pescoço dele batia mais rápido do que nunca. — Fim do mundo, temporada de caça às bichas, por que não?

— Isso mesmo. Vai ser temporada de caça aos héteros também, se eles conseguirem controlar aquela merda. Vamos resolver isso logo.

Ele começou a sair pela porta, mas Tom o segurou por um instante.

— Ouça. Talvez os outros tenham sentido aquele negócio do lado de lá, talvez não. Se não sentiram, talvez a gente não deva falar nada por enquanto. O que você acha?

Clay pensou em como Jordan não deixava o Diretor sair de vista e como Alice sempre mantinha aquele pequeno tênis sinistro ao alcance da mão. Pensou nas olheiras deles e então sobre o que eles planejavam fazer naquela noite. Armagedon talvez fosse uma palavra forte demais, mas nem tanto. O que quer que fossem agora, os fonáticos já tinham sido seres humanos, e queimar mil deles vivos já era um belo fardo. Até pensar naquilo feria-lhe a imaginação.

— Por mim, tudo bem — disse ele. — Suba aquela colina em marcha lenta, certo?

— Na mais lenta que eu encontrar — disse Tom. Estavam seguindo em direção aos enormes caminhões em forma de garrafa. — Quantas marchas você acha que um caminhão desses tem?

— A primeira já deve dar conta do recado — disse Clay.

— Pelo jeito que estão estacionados, acho que vamos ter que começar dando uma ré.

— Que se foda — disse Clay. — Pra que serve o fim do mundo se você não pode passar por cima de uma porra de uma cerca?

E foi isso que eles fizeram.

A Ladeira da Academia era como o Diretor Ardal e seu último aluno chamavam a longa e sinuosa colina que descia do campus até a estrada principal. A grama ainda era de um verde brilhante e estava apenas começando a ser coberta pelas folhas que caíam. Quando a tarde deu lugar à noitinha e a Ladeira da Academia ainda estava vazia — nenhum sinal de fonáticos voltando —, Alice começou a andar pelo hall principal da Casa Cheatham, parando a cada volta para olhar pela janela de sacada da sala de estar. Ela oferecia uma boa vista da ladeira, dos dois principais auditórios e do estádio Tonney. Estava novamente com o tênis amarrado ao pulso.

Os dernais estavam na cozinha, bebericando latas de Coca-Cola.

— Eles não vão voltar — Alice falou para eles ao terminar uma de suas voltas. — Ficaram sabendo do nosso plano, leram nossas mentes ou algo do gênero, e não vão voltar.

Mais duas voltas no longo hall do andar de baixo, ambas com uma pausa para olhar pela janela grande da sala de estar, e então voltou a olhar para dentro da cozinha.

— Ou talvez seja uma migração generalizada, vocês já pensaram nisso? Talvez eles vão para o sul no inverno como aqueles malditos tordos.

Ela foi embora sem esperar resposta. Subindo do hall e descendo para o hall. Subindo do hall e descendo para o hall.

— Ela parece o capitão Ahab atrás de Moby — observou o Diretor.

— O Eminem pode ser um idiota, mas ele tinha razão quanto a esse cara — disse Tom, emburrado.

— Desculpa, não entendi, Tom — disse o Diretor.

Tom gesticulou, encerrando o assunto.

Jordan olhou para o relógio.

— A essa hora, ontem à noite, ainda faltava quase meia hora para eles voltarem — disse ele. — Se vocês quiserem, posso descer e falar isso para ela.

— Não acho que vá adiantar muito — disse Clay. — É uma coisa que ela precisa fazer, só isso.

— Ela está bem apavorada, não é, senhor?

— E você não está, Jordan?

— Estou — disse Jordan baixinho. — Estou superapavorado.

Na próxima vez que Alice apareceu na cozinha, ela disse:

— Talvez seja melhor eles não voltarem. Não sei se estão reiniciando o cérebro de algum outro jeito, mas certamente tem alguma macumba braba rolando. Senti isso com aqueles dois hoje à tarde. A mulher com o livro e o homem com os bolinhos Ana Maria? — Ela balançou a cabeça. — Macumba braba.

Ela voltou correndo para a patrulha do hall antes que alguém pudesse responder, o tênis balançando no pulso.

O Diretor olhou para Jordan.

— Você sentiu alguma coisa, filho?

Jordan hesitou e então disse:

— Eu senti alguma coisa. O cabelo da minha nuca tentou se levantar.

O Diretor desviou o olhar para os homens do outro lado da mesa.

— E quanto a vocês dois? Vocês estavam muito mais perto.

Alice os salvou da obrigação de responder. Ela entrou correndo na cozinha, as faces coradas, os olhos esbugalhados, as solas do sapato cantando nos ladrilhos.

— Eles estão vindo — disse ela.

Da janela da sacada os quatro observaram os fonáticos subirem a Ladeira da Academia em fileiras convergentes, as sombras longas formando um catavento gigante na grama verde. Ao se aproximarem do que Jordan e o Diretor chamavam de arco Tonney, as fileiras se juntaram e o catavento pareceu rodar sob a luz dourada do fim do dia, ao passo que se contraía e se solidificava.

Alice não conseguia mais deixar de segurar o tênis. Ela o arrancara do pulso e o apertava compulsivamente.

— Eles vão ver o que fizemos e dar a volta — disse ela, falando baixo e depressa. — Eles ficaram espertos o bastante para isso; se voltaram a apanhar livros, devem ter ficado.

— Veremos — disse Clay. Ele tinha quase certeza de que os lunáticos dos celulares entrariam no estádio Tonney, mesmo se o que vissem perturbasse sua estranha mente coletiva; logo iria escurecer e eles não teriam nenhum outro lugar para ir. Um pedaço de uma canção de ninar que a mãe de Clay costumava cantar para ele passou-lhe pela cabeça: Homenzinho, você teve um dia cheio.

— Espero que eles entrem e que fiquem lá dentro — ela disse, mais baixo do que nunca. — Parece que eu vou explodir. — Ela deu uma risadinha desvairada. — Só que são eles que têm que explodir, não é? Eles. — Tom se virou para olhar para Alice e ela disse: — Estou bem. Estou bem, vou ficar quieta.

— Eu só ia dizer que o que tiver que ser, será — disse ele.

— Lengalenga New Age. Parece até o meu pai. O "Rei das Molduras".

Uma lágrima desceu por uma de suas bochechas e ela a limpou impacientemente com a base da mão.

— Acalme-se, Alice. Fique olhando.

— Vou tentar, certo? Vou tentar.

— E largue esse tênis — disse Jordan, em um tom que, para ele, era de irritação. — Esse nhec, nhec está me tirando do sério.

Ela baixou os olhos para o tênis, como se estivesse surpresa, e então o colocou em volta do pulso, amarrando-o novamente. Eles observaram os fonáticos convergirem no arco Tonney e passarem por baixo dele evitando empurra-empurra e tumulto de um jeito que nenhuma platéia que viesse para a partida de futebol do Fim de Semana dos Alumni conseguiria igualar — Clay estava certo disso. Observaram os lunáticos voltarem a se espalhar mais adiante, atravessando o pátio e descendo as rampas em fila. Aguardaram aquela marcha diminuir de ritmo e parar, mas isso não aconteceu. Os retardatários — a maioria ferida e se ajudando mutuamente, mais ainda assim andando em grupos fechados — entraram bem antes de o sol avermelhado passar pelos dormitórios a oeste do campus da Academia Gaiten. Eles haviam retornado mais uma vez, como pombos correios para seus ninhos ou como andorinhas para Capistrano. Menos de cinco minutos depois de a estrela vespertina surgir no céu que escurecia, Dean Martin começou a cantar Everybody Loves Somebody Sometime.

— Eu me preocupei à toa, não foi? — disse Alice. — Às vezes eu sou uma idiota. É o que o meu pai diz.

— Não — o Diretor disse a ela. — Todos os idiotas tinham celulares, querida. É por isso que eles estão lá fora e você está aqui, conosco.

Tom falou:

— Fico imaginando se Rafe ainda está bem.

— Eu fico imaginando se Johnny está — disse Clay. — Johnny e Sharon.

Às 22h daquela noite de ventania de outono, sob uma lua que entrava em seu último quarto, Clay e Tom estavam parados no nicho da banda no lado do time da casa do campo de futebol Tonney. Logo à frente deles, havia uma barreira de concreto que ia até a cintura e tinha sido bastante acolchoada na lateral do campo. Na lateral, havia alguns suportes de partitura enferrujados e um tapete de lixo que chegava aos calcanhares; o vento jogara sacos rasgados e pedaços de papel para lá, e lá eles ficaram. Atrás e acima deles, na altura das roletas, Alice e Jordan ladeavam o Diretor, um vulto alto apoiado na haste fina da bengala.

A voz de Debbie Boone rolava pelo campo em ondas amplificadas de uma imponência cômica. Normalmente, depois dela viria Lee Ann Womack cantando Hope You Dance, voltando em seguida a Lawrence Welk e os Champagne Music Makers, mas talvez não naquela noite.

O vento era refrescante. Trazia o cheiro dos corpos em decomposição do pântano atrás do prédio da pista de atletismo e o aroma de sujeira e suor das criaturas vivas empilhadas no campo em frente ao nicho da banda. Se é que se pode chamar isso de vida, pensou Clay, e abriu um pequeno e amargo sorriso interno. A racionalização é um grande esporte humano, talvez o maior deles, mas ele não queria se enganar naquela noite: é claro que eles chamavam aquilo de vida. Independentemente do que fossem ou estivessem se tornando, chamavam aquilo de vida do mesmo jeito que ele chamava a sua.

— O que você está esperando? — murmurou Tom.

— Nada — Clay murmurou de volta. — É só que... nada.

Do coldre que Alice encontrara no porão de Nickerson, Clay sacou o antiquado Colt calibre 45 de Beth Nickerson, que estava mais uma vez totalmente carregado. Alice oferecera a ele o rifle automático — que até então não haviam nem mesmo testado —, mas Clay recusara, dizendo que se o revólver não desse conta do recado, provavelmente nada daria.

— Não sei se a automática não seria melhor, já que ela dispara trinta ou quarenta balas por segundo — disse ela. — Você poderia transformar aqueles caminhões em raladores de queijo.

Ele concordara que era possível, mas lembrou Alice de que o objetivo naquela noite não era destruição per se, e sim combustão. Então explicou a natureza altamente ilegal da munição que Arnie Nickerson arranjara para a esposa. Balas de ponta oca calibre 45. Que no passado eram chamadas de balas dundum.

— Ok, mas se não funcionar, você pode tentar o Sr. Ligeirinho — disse ela. — A não ser que os caras lá fora decidam, você sabe... — Ela não chegou a usar a palavra atacar, mas imitou duas perninhas andando com os dedos da mão que não estava segurando o tênis. — Nesse caso, sebo nas canelas.

O ventou arrancou uma bandeirola esfarrapada do Fim de Semana dos Alumni do placar e a fez dançar sobre os dorminhocos amontoados. Em volta do campo, parecendo flutuar no escuro, estavam os olhos vermelhos dos mini systems, todos tocando sem precisar de CDs, menos um. A bandeira ficou agarrada no pára-choque de um dos caminhões de gás, balançou ao vento por alguns segundos e então se soltou e saiu voando noite adentro. Os caminhões estavam estacionados lado a lado no meio do campo, erguendo-se da massa de formas comprimidas como estranhas plataformas de metal. Os fonáticos dormiam debaixo deles e tão próximos dos veículos que alguns estavam grudados nas rodas. Clay pensou novamente nos pombos selvagens e em como os caçadores do século XIX espalharam os miolos deles pelo chão. Pelo começo do século XX, toda a espécie já estava extinta... mas é claro que eram apenas aves, com pequenos cérebros de pássaros, incapazes de reiniciar.

— Clay? — perguntou Tom baixinho. — Tem certeza de que quer fazer isso?

— Não — respondeu Clay. Agora que estava diante daquela situação, havia muitas perguntas sem respostas. O que fariam se aquilo falhasse era uma delas. Porque os pombos foram incapazes de se vingar. Aquelas coisas lá fora, por outro lado... — Mas vou fazer.

— Então faça — disse Tom. — Porque, além do mais, You Light Up My Fire é chata pra diabo.

Clay ergueu a calibre 45 e segurou firme o pulso direito com a mão esquerda. Apontou a mira para o tanque do caminhão à esquerda. Atiraria duas vezes naquele e duas vezes no outro. Assim, sobraria mais uma bala para cada, se necessário. Se aquilo não desse certo, ele poderia experimentar a arma automática que Alice passara a chamar de Sr. Ligeirinho.

— Abaixe-se caso o fogo venha pra cima da gente — ele disse a Tom.

— Não se preocupe — respondeu ele. Fazia uma careta, antecipando o estrondo da arma e o que quer que viesse em seguida.

Debby Boone estava chegando a um grand finale. E de repente passou a ser muito importante para Clay chegar primeiro. Se você errar a essa distância, é um retardado, ele pensou, e apertou o gatilho.

Não houve chance para um segundo tiro e tampouco necessidade. Uma flor vermelho vivo se abriu no meio do tanque e a luz dela revelou a Clay uma rachadura profunda na superfície antes lisa de metal. O inferno parecia estar lá dentro, e crescendo. Então a flor se transformou em um rio, o vermelho virando laranja branco.

— Abaixe-se!— gritou ele e puxou o ombro de Tom. Caiu em cima do homem menor no instante em que a noite se tornou um deserto ao meio-dia. Houve um rugido sibilante e enorme seguido de um BANG dilacerador que Clay sentiu em cada osso do corpo. Estilhaços voaram por sobre a cabeça deles. Ele achou que tinha ouvido Tom gritar, mas não tinha certeza, pois houve outro daqueles rugidos sibilantes e de repente o ar estava ficando cada vez mais quente.

Ele agarrou Tom meio pelo cangote e meio pelo colarinho da camisa e começou a arrastá-lo para trás até a rampa de concreto que dava nas roletas, os olhos praticamente fechados contra o brilho descomunal que jorrava do centro do campo de futebol. Algo enorme caiu nas arquibancadas extras à direita. Ele achou que talvez fosse um bloco de motor. Tinha quase certeza de que os pedacinhos retorcidos de metal sob os seus pés eram o que restava dos suportes de partitura da Academia Gaiten.

Tom gritava e seus óculos estavam tortos, mas se encontrava de pé e parecia ileso. Os dois subiram correndo a rampa como fugitivos de Gomorra. Clay podia ver as sombras deles, longas e finas como patas de afanha, e notou que objetos caíam por todo lado: braços, pernas, um pedaço de pára-choque, a cabeça de uma mulher com o cabelo em chamas. De trás deles, veio um segundo BANG estrondoso — ou talvez ura terceiro — e daquela vez foi ele quem gritou. Clay tropeçou nos próprios pés e saiu aos trambolhões. O mundo inteiro estava rapidamente gerando calor e uma luz incrível: era como se ele estivesse na ilha de som particular de Deus.

Não sabíamos o que estávamos fazendo, pensou ele, olhando para uma barra de chiclete, uma caixa de Júnior Mints amassada e um boné azul da Pepsi. Não tínhamos idéia do que estávamos fazendo e agora vamos pagar com a vida.

— Levante-se! — Era Tom, e Clay achou que ele estava gritando, mas a voz parecia vir de quilômetros de distância. Sentiu as mãos delicadas e de dedos longos de Tom puxando-o pelo braço. E então Alice estava lá também. Ela puxava o outro braço e brilhava sob a luz. Clay conseguia ver o tênis amarrado no pulso dela dançando e indo pra lá e pra cá. Ela estava coberta de sangue, retalhos de tecido e pedacinhos de carne fumegante.

Clay se levantou com esforço, voltou a se apoiar em um joelho e Alice o ergueu novamente à força. Atrás deles, o gás rugia como um dragão. E então Jordan chegou, com o Diretor cambaleando no seu encalço, com o rosto rosado e cada ruga pingando suor.

— Não, Jordan, não, só tire o Diretor do caminho! — berrou Tom, e Jordan puxou o velho de lado para eles, agarrando-o com força pela cintura quando ele vacilou. Um tórax em chamas com um piercing no umbigo aterrissou aos pés de Alice e ela o chutou para fora da rampa. Cinco anos de futebol, Clay se lembrou dela falando. O pedaço incandescente de uma camisa caiu na nuca de Alice e Clay o jogou longe antes que pudesse queimar o cabelo dela.

No topo da rampa, um pneu de caminhão em chamas ainda preso à metade de um eixo partido estava apoiado na última fileira de cadeiras especiais. Se tivesse caído no meio do caminho, talvez eles tivessem virado churrasco — no caso do Diretor, era quase certo que sim. Do jeito que estava, conseguiram passar por ele, prendendo a respiração contra as ondas de fumaça oleosa. Logo depois, eles estavam passando por baixo da roleta, Jordan de um lado e o Diretor e Clay do outro, os dois quase carregando o velho. Clay levou duas porradas da bengala do velho na cabeça, mas trinta segundos depois de passarem pelo pneu estavam parados debaixo do arco Tonney, olhando para a imensa coluna de fogo que se erguia sobre as arquibancadas e a tribuna de imprensa no centro com expressões idênticas de estupefata incredulidade.

Um retalho em chamas de uma bandeirola flutuou até o chão perto da bilheteria principal, deixando um pequeno rastro de faíscas antes de se apagar.

— Você sabia que isso ia acontecer? — perguntou Tom. O rosto dele estava branco em volta dos olhos, vermelho na testa e nas bochechas. Metade do bigode parecia ter sido arrancada pelo fogo. Clay conseguia ouvir a voz dele, mas soava distante. Tudo soava distante.

Era como se estivesse com as orelhas cheias de bolas de algodão, ou com os tampões de ouvido que Arnie, o marido de Beth Nickerson, sem dúvida a obrigara a usar quando a levava ao tiro ao alvo favorito do casal. Onde provavelmente atiravam com os celulares presos em um lado da cintura e os bipes no outro.

— Você sabia?— Tom tentou chacoalhá-lo, conseguiu pegar só um pedaço da camisa dele, rasgando a frente toda.

— Claro que não, porra, está maluco? — A voz de Clay estava mais do que rouca, mais do que seca; parecia assada. — Você acha que eu teria ido pra lá com um revólver se soubesse? Se não fosse por aquela barreira de concreto, teríamos sido cortados ao meio. Ou vaporizados.

Incrivelmente, Tom começou a sorrir.

— Rasguei sua camisa, Batman.

Clay teve vontade de arrancar a cabeça dele. Também teve vontade de abraçá-lo e beijá-lo por ele ainda estar vivo.

— Quero voltar para a Casa — disse Jordan. O medo na voz dele era inconfundível.

— Vamos por favor nos deslocar para uma distância segura — concordou o Diretor. Ele tremia muito com os olhos fixos no inferno que se erguia acima dos arcos e das arquibancadas. — Graças a Deus está ventando na direção da Ladeira da Academia.

— O senhor consegue andar? — perguntou Tom.

— Sim, obrigado. Se Jordan me ajudar, tenho certeza de que consigo andar até a Casa.

— Acabamos com eles — disse Alice. Ela estava limpando respingos de tripas do rosto quase distraidamente, deixando manchas de sangue. Seus olhos não pareciam com nada que Clay tivesse visto na vida, exceto em algumas fotografias e na arte de algumas revistas em quadrinhos inspiradas das décadas de 1950 e 1960. Ele se lembrou da vez em que foi a uma convenção de quadrinhos quando era apenas uma criança e ouviu Wallace Wood falar sobre suas tentativas de desenhar algo que chamou de Olhar do Pânico. Agora Clay via aquele olhar no rosto de uma colegial suburbana de 15 anos.

— Vamos, Alice — disse ele. — Temos que voltar para a Casa e juntar nossas coisas. Temos que dar o fora daqui.

Logo depois que as palavras saíram da boca dele, Clay teve que dizê-las novamente e ver se elas soavam verdadeiras. Da segunda vez, soaram mais do que isso; soaram apavoradas.

Talvez Alice não as tenha escutado. Ela parecia exultante. Inflada de triunfo. Farta dele, como uma criança que comeu doces do Dia das Bruxas demais no caminho de casa. As pupilas dos seus olhos estavam cobertas pelo fogo.

— Nada poderia sobreviver a isso.

Tom agarrou o braço de Clay. Doeu do jeito que uma queimadura de sol doeria.

— Qual é o problema?

— Acho que cometemos um erro — disse Clay.

— Igual no posto de gasolina? — perguntou Tom. Atrás dos óculos tortos, o olhar dele era penetrante. — Quando o homem e a mulher estavam brigando por conta daqueles malditos bolinhos...

— Não, só estou achando que cometemos um erro — disse Clay. Na verdade, era mais do que isso. Ele sabia que tinham cometido um erro. — Vamos, temos que partir hoje à noite.

— Se você diz, tudo bem — disse Tom. — Venha, Alice.

Ela desceu junto com eles um pedaço do caminho em direção à Casa, onde haviam deixado dois lampiões a gás acesos na grande janela da sacada, e então se virou para olhar mais uma vez. Àquela altura, a tribuna de imprensa estava em chamas, e as arquibancas também. As estrelas sobre o campo de futebol tinham desaparecido; mesmo a lua não passava de um fantasma dançando freneticamente na fumaça quente que encimava aquele jato de gás feroz.

— Eles estão mortos, estão aniquilados, viraram churrasco — disse ela. — Queimem, baby, quei...

Foi então que ouviram o grito. Porém, não vinha de Glen's Falls ou Littleton a 15 quilômetros dali. Também não tinha nada de espectral ou fantasmagórico. Era um grito de agonia, o grito de algo — uma única entidade, e consciente, Clay tinha certeza — que acordara de um sono profundo e descobriu que estava sendo queimado vivo.

Alice soltou um berro e cobriu os ouvidos, seus olhos se esbugalhando à luz do fogo.

— Vamos voltar atrás! — disse Jordan, agarrando o pulso do Diretor. — Senhor, temos que voltar atrás!

— Tarde demais, Jordan — falou Ardal.

Uma hora mais tarde, as sacolas recostadas na porta da frente da Casa Cheatham estavam um pouco mais gordas. Havia algumas camisas em cada, sacos de granola, caixinhas de suco e pacotes de Slim Jims, além de pilhas e lanternas extras. Clay azucrinou Tom e Alice para que juntassem as coisas o mais rápido possível, e agora era ele quem corria para a janela grande da sala para espiar.

O jato de gás no estádio finalmente começava a queimar com menos intensidade, mas as arquibancadas ainda estavam em chamas, assim como a tribuna de imprensa. O fogo chegara até o próprio arco, que brilhava na noite como uma ferradura em uma forja. Nada que estivesse naquele campo poderia estar vivo ainda — Alice tinha razão quanto a isso, sem dúvida —, mas, no caminho de volta para a Casa (o Diretor trôpego como um velho bêbado, apesar dos esforços dos demais para ampará-lo), eles escutaram duas vezes o vento carregar aqueles gritos fantasmagóricos de outros bandos. Clay disse a si mesmo que não ouvia raiva neles, que era só imaginação — sua imaginação cheia de culpa, sua imaginação de assassino, sua imaginação de assassino em massa —, mas não conseguiu se convencer.

Foi um erro, mas o que mais poderiam ter feito? Ele e Tom tinham sentido os lunáticos acumularem energia naquela mesma tarde, tinham visto, e foram apenas dois deles. Como poderiam ter deixado aquilo continuar? Deixado aquilo crescer?

— Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come — disse ele baixinho e deu as costas para a janela. Não saberia dizer quanto tempo ficou olhando para o estádio em chamas e resistiu à tentação de consultar o relógio. Seria fácil deixar o rato surtado tomar conta dele, faltava pouco para isso, e, se deixasse, o rato atacaria os outros num piscar de olhos. A começar por Alice. Ela conseguira recuperar algum controle, mas ele era tênue. Da finura de uma página de jornal, sua mãe jogadora de bingo diria. Embora também fosse uma criança, Alice foi capaz de se manter otimista, mais por conta do outro menino, para que ele não entregasse os pontos por completo.

O outro menino. Jordan.

Clay voltou correndo para o hall de entrada, notou que ainda não havia uma quarta sacola recostada na porta e viu Tom descendo as escadas. Sozinho.

— Onde está o garoto? — perguntou Clay. A audição dele tinha começado a clarear, mas sua voz ainda soava muito distante e como a de um desconhecido. Imaginava que continuaria daquele jeito por um tempo. — Você deveria estar ajudando Jordan a juntar algumas coisas pra levar... Ardal falou que ele trouxe uma mochila daquele dormitório...

— Ele não quer ir. — Tom esfregou um lado do rosto. Parecia cansado, triste, distraído. Sem metade do bigode, parecia também ridículo.

— O quê?

— Fale mais baixo, Clay. Eu não faço as notícias, só transmito.

— Então me diga o que isso quer dizer, pelo amor de Deus.

— Jordan não vai sem o Diretor. Ele falou: "Você não pode me obrigar." E se você estiver falando sério sobre ir embora hoje à noite, acho que ele tem razão.

Alice irrompeu da cozinha. Tinha tomado um banho, prendido o cabelo e colocado uma blusa nova — que ia quase até os joelhos —, mas a pele dela irradiava a mesma queimação que Clay sentia na sua. Ele imaginou que deveriam se considerar sortudos por não estarem cheios de bolhas.

— Alice — ele começou a falar. — Preciso que você exerça seus poderes femininos sobre Jordan. Ele está...

Ela passou batida, como se ele não tivesse falado nada, ajoelhou-se, apanhou sua mochila e a abriu. Clay observou, perplexo, Alice começara a tirar coisas de dentro da bagagem. Ele olhou para Tom e viu uma expressão de compreensão e solidariedade surgir no rosto do outro.

— O que foi? — perguntou Clay. — O que foi, pelo amor de Deus? — Ele sentira aquele mesmo incômodo exasperado em relação a Sharon no decorrer do último ano em que viveram juntos, com muita freqüência, e se odiou por aquilo ter vindo à tona logo naquela hora. Mas cacete, outra complicação era a última coisa de que precisavam. Ele passou as mãos pelo cabelo. — O que foi?

— Olhe para o punho dela — disse Tom.

Clay olhou. O pedaço sujo de cadarço ainda estava lá, mas o tênis sumira. Ele teve uma sensação de absurdo. Ou talvez não fosse tão absurdo assim. Se era importante para Alice, então ele imaginava que era mesmo importante. E daí que fosse apenas um tênis?

A blusa extra e a camiseta que ela havia guardado (GAITEN BOOSTERS' CLUB estampado na frente) saíram voando. As pilhas rolaram pelo chão. A lanterna sobressalente bateu no assoalho e a tampa da lente rachou. Aquilo foi suficiente para convencer Clay. Não era igual a um dos ataques de Sharon Riddell porque o café de sabor avelã ou o sorvete Chunky Monkey tinham acabado; aquilo era puro terror.

Ele foi até Alice, ajoelhou ao lado dela e pegou seus punhos. Conseguia sentir os segundos voando, tornando-se minutos que eles deveriam estar usando para deixar aquela cidade para trás, mas também conseguia sentir a velocidade alucinante da pulsação de Alice sob seus dedos. E conseguia ver os olhos dela. Já não havia pânico neles, e sim agonia, e ele compreendeu que a menina colocara tudo naquele tênis: a mãe e o pai, os amigos, Beth Nickerson e a filha, o inferno do estádio Tonney, tudo.

— Não está aqui! — gritou ela. — Achei que tinha guardado, mas não guardei. Não estou achando em lugar nenhum!

— Não? querida, eu sei. — Clay ainda segurava os punhos dela. Então ergueu o que estava com o cadarço em volta. — Está vendo? —

Ele esperou até ter certeza de que os olhos de Alice tinham focado e balançou as pontas embaixo do nó, onde antes havia um segundo nó.

— Está muito longo agora — disse ela. — Não estava tão longo antes.

Clay tentou se lembrar da última vez em que vira o tênis. Disse a si mesmo que era impossível lembrar uma coisa daquelas, levando em conta todas as coisas que estavam acontecendo, mas então percebeu que se lembrava. E com muita clareza, também. Foi quando ela ajudara Tom a levantá-lo depois que o segundo caminhão explodira. Naquela hora, ele estava pendurado no cadarço, balançando. Ela estava coberta de sangue, retalhos de tecido e pedacinhos de carne, mas o tênis ainda estava no pulso. Ele tentou se lembrar se ainda estava lá quando ela chutou o tórax em chamas da rampa. Achava que não. Talvez estivesse enganado, mas achava que não.

— Ele se soltou, querida — disse ele. — Se soltou e caiu.

— Eu o perdi. — Os olhos dela, incrédulos. As primeiras lágrimas. — Tem certeza.

— Tenho certeza, sim.

— Era o meu talismã — sussurrou ela, as lágrimas transbordando.

— Não — disse Tom, colocando um braço em volta dela. — Nós somos o seu talismã.

Alice olhou para ele.

— Como você sabe?

— Porque você nos encontrou primeiro — disse Tom. — E nós ainda estamos aqui.

Ela abraçou os dois e eles ficaram daquele jeito por um tempo, os três, nos braços uns dos outros no hall, com os poucos pertences de Alice espalhados pelo chão em volta.

O incêndio se espalhou até um auditório que o Diretor identificou como Hackery Hall. Então, por volta das quatro da manhã, o vento diminuiu e ele não foi mais além. Quando o sol nasceu, o campus Gaiten fedia a propano, madeira carbonizada e inúmeros corpos queimados. O céu claro de uma perfeita manhã de outubro da Nova Inglaterra foi coberto por uma coluna de fumaça cinza-escuro. E a Casa Cheatham ainda estava ocupada. No fim das contas, foi um efeito dominó: o Diretor só poderia viajar de carro, e isso era impossível, e Jordan não iria sem o Diretor. Tampouco Ardal foi capaz de persuadi-lo. Alice, embora resignada com a perda do seu talismã, se recusou a ir sem Jordan. Tom não iria sem Alice. E Clay relutava em partir sem os dois, embora a idéia de que aqueles recém-conhecidos parecessem, pelo menos temporariamente, mais importantes do que seu próprio filho o horrorizasse, e embora continuasse convencido de que pagariam um preço alto pelo que fizeram no estádio Tonney se ficassem naquela cidade, quanto mais na cena do crime.

Ele achou que talvez fosse se sentir melhor a respeito disso ao raiar do dia, mas não se sentiu.

Os cinco observaram e esperaram diante da janela da sala de estar, mas, obviamente, nada saiu das ruínas fumegantes. O único som era o estalar baixo do fogo devorando as entranhas dos escritórios e vestiários do Departamento de Atletismo, ao mesmo tempo em que terminava de consumir as arquibancadas superiores. Os cerca de mil fonáticos que tinham se agrupado ali tinham virado, como dissera Alice, churrasco. O cheiro deles era forte e horrível, do tipo que não sai da garganta. Clay vomitara uma vez e sabia que os demais também o fizeram — até o Diretor.

Cometemos um erro, ele voltou a pensar.

— Vocês deveriam ter ido embora — disse Jordan. — Nós ficaríamos bem... ficamos antes, não foi, senhor?

O Diretor Ardal ignorou a pergunta. Estava estudando Clay.

— O que aconteceu ontem quando você e Tom estavam no posto de gasolina? Acredito que alguma coisa aconteceu lá para deixar você como está agora.

— Ah, é? E como eu estou, senhor?

— Como um animal que fareja uma armadilha. Aqueles dois na rua viram vocês?

— Não foi bem isso — disse Clay. Não gostava de ser chamado de animal, mas não podia negar que era isso mesmo: entram oxigênio e comida, saem dióxido de carbono e merda, e bingo.

O Diretor começara a esfregar com impaciência o lado esquerdo do diafragma com uma de suas mãos grandes. Clay achou que, como muitos dos gestos do velho, aquele possuía uma estranha teatralidade; não exatamente forçado, mas feito para ser visto da última fileira do auditório.

— Então o que exatamente aconteceu?

E, uma vez que proteger os demais já não parecia mais ser uma questão de escolha, Clay contou ao Diretor exatamente o que tinham visto no escritório do posto Citgo — uma luta por uma caixa de doces velhos que de repente virou outra coisa. Ele contou sobre os papéis tremulantes, as cinzas que começaram a girar no cinzeiro como água descendo pelo ralo de uma banheira, as chaves tilintando no mural, a mangueira que caiu da bomba de gasolina.

— Isso eu vi — disse Jordan, e Alice assentiu.

Tom mencionou a sensação de falta de ar, e Clay concordou. Os dois tentaram explicar a impressão de que algo poderoso se acumulava na atmosfera. Clay disse que era a mesma sensação de antes de uma tempestade. Tom disse que o ar parecia de alguma forma carregado. Pesado demais.

— Então ele deixou a mulher pegar um pouco daquela merda e tudo isso parou — disse Tom. — As cinzas pararam de girar, as chaves pararam de tilintar e o ar já não parecia estar mais carregado. — Ele olhou para Clay em busca de confirmação. Clay assentiu.

Alice falou:

— Por que vocês não contaram isso pra gente antes?

— Porque não teria mudado nada — disse Clay. — Nós tentaríamos queimar o ninho de qualquer maneira.

— É verdade — disse Tom.

Jordan falou de repente:

— Você acha que os fonáticos estão virando psiônicos, não acha?

Tom disse:

— Não sei o que essa palavra significa, Jordan.

— Pessoas que conseguem mover objetos só com o pensamento, por exemplo. Ou por acidente, quando as emoções delas fogem do controle. Habilidades psiônicas como telecinese e levitação...

— Levitação?— Alice quase gritou.

Jordan não deu atenção.

— ... são apenas ramificações. O tronco da árvore psiônica é a telepatia, e é disso que você está com medo, não é? Da telepatia.

Tom levou os dedos até o local em cima da sua boca em que metade do bigode sumira e tocou a pele avermelhada.

— Bem, o pensamento passou pela minha cabeça. — Ele fez uma pausa, inclinando a cabeça. — Essa frase foi engraçada. Não foi?

Jordan ignorou aquilo também.

— Digamos que eles sejam. Quero dizer, que eles sejam telepatas de verdade, e não apenas zumbis com um instinto coletivo. E daí? O bando da Academia Gaiten está morto, e eles morreram sem fazer idéia de quem os queimou, porque morreram durante o que chamam de sono, então, se você estiver preocupado com o fato de eles terem enviado um fax telepático com nossos nomes e descrições para os colegas nos estados vizinhos da Nova Inglaterra, pode ficar tranqüilo.

— Jordan... — começou a falar o Diretor. Ainda estava esfregando o diafragma.

— Sim? O senhor está bem?

— Estou. Pegue o meu Zantac do banheiro do andar debaixo, sim? E uma garrafa de água mineral. Bom menino.

Jordan saiu correndo para cumprir a ordem.

— Não é uma úlcera, é? — perguntou Tom.

— Não — respondeu o Diretor. — É estresse. Um velho... eu não chamaria de amigo... conhecido?

— O seu coração é bom?

— Imagino que sim — concordou o Diretor, arreganhando os dentes num sorriso de uma jovialidade desconcertante. — Se o Zantac não funcionar, podemos imaginar outra coisa... mas, até agora, o Zantac tem funcionado, e não preciso me preocupar em arranjar problemas com tantos à disposição. Ah, Jordan, obrigado.

— Disponha, senhor. — O menino entregou o comprimido e o copo para ele com o sorriso de sempre.

— Acho que você deveria ir com eles — disse Ardal para o menino depois de engolir o Zantac.

— Senhor, com todo o respeito, eles não têm como saber, de jeito nenhum.

O Diretor lançou um olhar inquisidor para Tom e Clay. Tom ergueu as mãos. Clay apenas deu de ombros. Ele poderia dizer o que achava em voz alta, poderia articular o que eles certamente sabiam que ele sentia — cometemos um erro, e ficarmos aqui significa pactuar com ele —, mas não via motivo. Uma camada de determinação e inflexibilidade escondia o pavor no rosto de Jordan. Eles não conseguiriam persuadi-lo. E, além do mais, era dia novamente. O dia era a hora deles. Ele despenteou o cabelo do menino.

— Se você diz, Jordan. Vou tirar uma soneca.

Jordan demonstrou um alívio quase sublime.

— Boa idéia. Acho que eu também.

— Vou tomar uma caneca do mundialmente famoso chocolate morno da Casa Cheatham antes de subir — disse Tom. — E acho que vou raspar o resto deste bigode. Os choros e lamentos que vocês vão ouvir serão meus.

— Posso ver? — perguntou Alice. — Sempre quis ver um homem feito chorar e se lamentar.

Clay e Tom dividiam um pequeno quarto no terceiro andar; Alice tinha ficado com o único que sobrara. Enquanto Clay tirava os sapatos, ouviu uma batida rápida na porta, seguida imediatamente pelo Diretor. Duas manchas coradas ardiam nas suas faces. Fora isso, o rosto dele estava pálido como a morte.

— O senhor está bem? — perguntou Clay, levantando-se. — Então é mesmo o coração?

— Fico feliz que tenha feito essa pergunta — respondeu o Diretor. — Não estava convencido de que tinha plantado a semente, mas parece que sim. — Ele olhou por sobre os ombros para o corredor, então fechou a porta com a ponta da bengala. — Ouça com atenção, Sr. Riddell... Clay... e não pergunte nada a não ser que ache absolutamente necessário. Vocês irão me encontrar morto na minha cama no fim desta tarde ou no começo da noite, e você dirá que então era mesmo o meu coração, e que o que fizemos na noite passada deve ter sido o estopim. Entendido?

Clay assentiu. Ele entendeu e refreou o protesto automático. Talvez fizesse sentido no mundo antigo, mas não fazia nenhum naquele lugar. Ele sabia por que o Diretor estava propondo aquilo.

— Se Jordan ao menos suspeitar que tirei minha própria vida para livrá-lo do que ele, de forma admirável e pueril, considera uma obrigação sagrada, talvez faça o mesmo. No mínimo, mergulharia no que os anciãos da minha infância chamariam de fuga negra. Ele irá sofrer profundamente de qualquer maneira, mas isso é admissível. A idéia de que cometi suicídio para tirá-lo de Gaiten, não. Você compreende isto?

— Sim — disse Clay. E então: — Senhor, espere mais um dia. O que o senhor tem em mente... pode não ser necessário. Pode ser que consigamos sair dessa. — Ele não acreditava naquilo e, fosse como fosse, Ardal estava convencido do que iria fazer; toda a verdade de que Clay precisava estava no rosto abatido daquele homem, nos lábios cerrados e nos olhos brilhantes. Ainda assim, ele tentou mais uma vez. — Espere mais um dia. Talvez nenhum deles venha.

— Você ouviu aqueles gritos — respondeu o Diretor. — Aquilo era raiva. Eles virão.

— Talvez, mas...

O Diretor ergueu a bengala para impedi-lo.

— E se vierem, e se puderem ler nossas mentes da mesma forma que lêem as deles próprios, o que lerão na sua, se a sua ainda estiver aqui para ser lida?

Clay não respondeu, apenas fitou o rosto do Diretor.

— Mesmo que não possam ler mentes — prosseguiu o diretor —, o que você sugere? Ficarmos aqui, dia após dia, semana após semana? Até a neve cair? Até que eu morra de velhice? O meu pai viveu até os 97 anos. Por outro lado, você tem mulher e filho.

— Minha mulher e meu filho ou estão bem, ou não estão. Já estou conformado em relação a isso.

Aquilo era mentira, e talvez Ardal a tenha notado no rosto de Clay, pois sorriu aquele sorriso perturbador.

— E você acredita que seu filho está conformado em não saber se o pai está vivo, morto ou louco? Depois de apenas uma semana?

— Isso foi um golpe baixo — disse Clay. Sua voz já não estava tão firme.

— É mesmo? Não sabia que estávamos brigando. Seja como for, não existe juiz. Só a gente para contar história, como dizem. — O Diretor olhou para a porta fechada, então voltou a olhar para Clay. — A equação é bem simples. Você não pode ficar e eu não posso ir. É melhor Jordan ir com você.

— Mas abater o senhor como um cavalo com a perna quebrada...

— Não é nada disso — interrompeu o Diretor. — Cavalos não fazem eutanásia, pessoas sim. — A porta se abriu, Tom entrou e, quase sem hesitar, o Diretor prosseguiu: — E você já considerou fazer arte publicitária, Clay? Quero dizer, para livros?

— Meu estilo é muito espalhafatoso para a maioria das casas editoriais — disse Clay. — Eu fiz capas para algumas editoras pequenas de fantasia, como Grant e Eulalia. Alguns livros de Marte de Edgar Rice Burroughs.

— Barsoom! — exclamou o Diretor e brandiu a bengala vigorosamente no ar. Então esfregou o plexo solar e fez uma careta. — Maldita azia! Com licença, Tom, só vim bater um papinho antes de me deitar.

— Toda — disse Tom e o observou ir embora. Quando o som da bengala do Diretor ficou bem distante no corredor, ele se virou para Clay e disse: — Ele está bem? Estava muito pálido.

— Acho que sim. — Ele apontou para o rosto de Tom. — Pensei que você fosse raspar a outra metade.

— Desisti com Alice por perto — falou Tom. — Gosto dela, mas ela pode ser cruel de vez em quando.

— É paranóia sua.

— Obrigado, Clay, estava precisando disso. Faz só uma semana e já estou sentindo falta do meu analista.

— Combinada com mania de perseguição e delírios de grandeza. — Clay passou os pés para cima de uma das camas estreitas do quarto, colocou as mãos atrás da cabeça e olhou para o teto.

— Você queria que estivéssemos fora daqui, não é? — perguntou Tom.

— Pode apostar. — Ele falou em um tom monocórdio.

— Vai ficar tudo bem, Clay. De verdade.

— É o que você diz, mas tem mania de perseguição e delírios de grandeza.

— É — disse Tom —, mas isso é compensado por uma péssima auto-imagem e menstruação de ego a mais ou menos cada seis semanas. E, de qualquer forma...

— ... tarde demais, pelo menos por hoje — concluiu Clay.

— Isso mesmo.

Havia até uma certa concórdia em relação àquilo. Tom disse algo mais, parem Clay só ouviu "Jordan acha..." e então adormeceu.

Ele acordou gritando, pelo menos foi o que pensou a princípio. Somente depois de olhar alucinadamente para a outra cama, onde Tom ainda dormia em paz com algo dobrado sobre os olhos — uma toalha de rosto, talvez —, Clay se convenceu de que o berro tinha sido dentro da cabeça dele. Talvez algum tipo de grito tenha escapado da sua boca, mas, se fosse o caso, não havia sido alto o suficiente para acordar o colega de quarto.

O quarto não estava nem um pouco escuro — estavam no meio da tarde —, mas Tom baixara a cortina antes de cair no sono, e havia pelo menos uma penumbra. Clay ficou do jeito que estava por um instante, deitado de barriga para cima, com a boca seca como serragem, os batimentos cardíacos rápidos no peito e entre os ouvidos, onde pareciam passos em disparada numa superfície de veludo. Fora isso, a casa continuava silenciosa. Talvez ainda não tivessem trocado completamente a noite pelo dia, mas a noite anterior fora extraordinariamente estafante e, naquele momento, não se ouvia um ruído sequer na Casa. Lá fora, um pássaro cantou e, em algum lugar bem afastado — fora de Gaiten, ele pensou —, um alarme teimoso soava sem parar.

Continuar: parte 3 de 3