Celular
— Sei que não foi igual nos…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Sei que não foi igual nos filmes — disse Tom —, mas nunca imaginei que tivesse um poder tão enorme, ou que fosse tão brusco... e o barulho quando os miolos... os miolos...
Ele se inclinou para frente de súbito, uma das mãos pequenas enroscada sobre a boca. O movimento assustou Rafe, que pulou para o chão. Tom emitiu três sons de náusea baixos e guturais, e Clay se preparou para o vômito que quase certamente viria em seguida. Ele não queria começar a vomitar também, mas achava que não ia ter jeito. Sabia que estava perto de fazê-lo, muito perto. Pois ele sabia do que Tom estava falando. O tiro e, depois, o borrifo líquido e pegajoso no asfalto.
Ninguém vomitou. Tom se controlou e ergueu a cabeça com os olhos úmidos.
— Desculpe — ele falou. — Não devia ter falado sobre isso.
— Não precisa se desculpar.
— Acho que, se quisermos passar pelo que quer que seja que nos espere, é melhor acharmos um jeito esconder nossas sensibilidades mais nobres. Acho que as pessoas que não conseguirem fazer isso... — Ele se interrompeu e então voltou a falar. — Acho que as pessoas que não conseguirem fazer isso... — Parou uma segunda vez. Na terceira, conseguiu terminar. — Acho que as pessoas que não conseguirem fazer isso podem morrer.
Eles se encararam sob a luz do lampião.
— Depois que deixamos a cidade, não vi ninguém armado — disse Clay. — No começo, não estava prestando atenção, mas depois passei a prestar.
— Você sabe por quê, não sabe? Com exceção talvez da Califórnia, Massachusetts tem a lei mais rigorosa para armas do país.
Clay se lembrava de ter visto outdoors anunciando aquilo na divisa do estado alguns anos atrás. Então eles foram substituídos por outros que diziam que, se você fosse pego dirigindo alcoolizado, passaria a noite na prisão.
Tom disse:
— Se os policiais encontrarem uma arma escondida no seu carro, tipo no porta-luvas com os seus documentos, você pode pegar sete anos de prisão, eu acho. Se for parado com um rifle na sua picape, mesmo na temporada de caça, pode ganhar uma multa de 10 mil dólares e dois anos de serviço comunitário. — Ele pegou o resto do sanduíche, deu uma olhada nele e o largou de novo. — Você pode ter uma arma em casa se não for um criminoso, mas uma licença de porte? Pode até conseguir a assinatura do padre O'Malley4 do Boys' Club, mas talvez nem assim.
— A falta de armas pode ter salvado algumas vidas, quando as pessoas estavam saindo da cidade.
— Concordo plenamente com você — disse Tom. — Aqueles dois caras brigando pelo barril de cerveja. Graças a Deus que nenhum dos dois tinha um calibre 38.
Clay assentiu.
Tom recostou na cadeira, cruzou os braços sobre o peito estreito e olhou ao redor. Seus óculos cintilaram. O círculo de luz que o lampião emitia era brilhante, mas pequeno.
— Só que agora eu bem que gostaria de ter uma arma. Depois de ver o estrago que elas fazem. E eu me considero um pacifista.
— Há quanto tempo você mora aqui, Tom?
— Quase 12 anos. Tempo suficiente para ver Malden descer boa parte da ladeira até a Merdolândia. Ainda não chegou lá, mas está perto.
— Certo, então pense bem. Quais dos seus vizinhos podem ter armas em casa?
Tom respondeu de imediato.
4 Referência ao personagem do padre no filme de 1944 O Bom Pastor, que organiza um coro de jovens delinqüentes. (N. do T.)
— Arnie Nickerson, do outro lado da rua, três casas mais adiante. Adesivo da NRA55 no pára-choque do carro, junto com umas duas fitinhas amarelas de apoio às nossas tropas decalcadas e um adesivo Bush-Cheney antigo...
— Não precisa falar mais nada...
— E na picape dois adesivos da NRA, que ele equipa com um bagageiro para acampar em novembro, e vai caçar lá na sua terra.
— E nós ficamos felizes em receber a renda da licença de caça para os que moram fora do estado — disse Clay. — Vamos arrombar a casa dele amanhã e pegar as armas.
Tom McCourt olhou para Clay como se ele estivesse louco.
— Esse cara não é paranóico como aqueles sujeitos metidos a paramilitares em Utah... quero dizer, ele mora em Massachusetts, o reino dos impostos... mas tem um daqueles alarmes contra roubo com sensores no gramado que diz basicamente TÁ SE SENTINDO SORTUDO, VAGABUNDO?, e tenho certeza de que você conhece a política do NRA a respeito de quando vão conseguir tirar as armas deles.
— Acho que tem a ver com arrancá-las de seus dedos mortos...
— É isso mesmo.
Clay se inclinou para frente e expôs o que para ele tinha ficado óbvio desde o instante em que desceram a rampa da Route One: Malden havia se tornado apenas mais uma cidade ferrada nos Estados Unicelulares da América, e que o país estava fora de área, desligado, sentimos muito, tente mais tarde. Salem Street estava deserta. Ele tinha sentido isso quando eles estavam chegando... não tinha?
Não. Mentira. Você se sentiu observado.
É mesmo? E mesmo que aquilo fosse verdade, seria aquele o tipo de intuição em que se podia confiar, se basear para agir, depois de um dia como aquele? A idéia era ridícula.
— Ouça, Tom. Um de nós vai até a casa desse tal de Nackleson amanhã, assim que o dia estiver claro.
— É Nickerson, e não acho que seja uma idéia muito boa, o vidente McCourt o vê ajoelhado atrás da janela da sala de estar com um rifle automático que estava guardando para o fim do mundo. Que parece ter chegado.
5 5NRA — National Rifle Association (Associação Nacional de Armas), entidade que defende o direito ao porte de armas nos Estados Unidos. (N. do T.)
— Eu vou — disse Clay. — Mas não vou se escutarmos tiros da casa de Nickerson hoje à noite ou amanhã de manhã. Certamente não vou se vir corpos no gramado do sujeito, com ou sem ferimentos de bala. Eu também assisti a todos aquele episódios antigos de Além da Imaginação, aqueles em que se descobre que a civilização não passa de uma fina camada de verniz.
— Se é isso — disse Tom de modo sombrio. — Idi Amin, Polpot, dou o caso por encerrado.
— Vou até lá com as mãos levantadas. Vou tocar a campainha. Se alguém atender, falarei que só quero conversar. O pior que pode acontecer é ele me mandar cair fora.
— Não, o pior que pode acontecer é ele te matar bem em cima da porra do capacho de Boas-vindas e me deixar sozinho com uma adolescente órfã — disse Tom com rispidez. — Pode fazer quantas piadinhas quiser sobre episódios antigos de Além da Imaginação, mas não se esqueça daquelas pessoas que viu hoje, brigando em frente à estação de metrô em Boston.
— Aquilo foi... não sei o quê foi aquilo, mas aquelas pessoas estavam loucas de pedra. Não tenha dúvida, Tom.
— E quanto à Papa-hóstias Maluca? E os dois homens brigando pelo barril? Eles estavam loucos?
Não é claro que não, mas se houvesse uma arma naquela casa do outro lado da rua, ele ainda a queria. E se tivesse mais de uma, queria que Tom e Alice ficassem com elas também.
— Estava pensando em ir uns 150 quilômetros para o norte — disse Clay. — Talvez a gente possa roubar um carro e dirigir um pedaço, mas acho que vamos ter de andar todo o caminho. Você quer ir protegido só com facas? Estou perguntando de um homem sensato para outro, porque algumas das pessoas que vamos encontrar estarão armadas. Você sabe disso.
— Sim — disse Tom. Ele passou a mão pelo cabelo bem aparado, despenteando-o de um jeito engraçado. — E sei que Arnie e Beth provavelmente também estão fora de casa. Eles são tão doidos por engenhocas quanto por armas. Arnie vivia tagarelando no celular quando passava naquela picape Dodge Ram grande e fálica dele.
— Está vendo? Prontinho.
Tom suspirou.
— Tudo bem. Vai depender de como as coisas vão estar pela manhã. Ok?
— Ok. — Clay pegou o sanduíche de novo. Sentia um pouco mais de vontade de comer agora.
— Onde eles foram parar? — perguntou Tom. — Os que você chama de fonáticos. Onde eles foram parar?
— Não sei.
— Vou dizer o que eu acho — disse Tom. — Acho que eles entraram nas casas e edifícios depois do pôr do sol e morreram.
Clay olhou para ele com incredulidade.
— Pense com calma sobre a coisa e você vai ver que eu tenho razão — falou Tom. — Isso foi quase certamente algum tipo de ato terrorista, concorda?
— Essa parece ser a explicação mais provável, embora não faça a menor idéia de como qualquer sinal, por mais subversivo que seja, possa ter sido programado para fazer o que esse fez.
— Você é cientista?
— Você sabe que não. Sou um artista.
— Então quando o governo diz que é capaz de guiar bombas inteligentes computadorizadas de porta-aviões que podem estar a mais de 3 mil quilômetros de distância até a porta de bunkers debaixo do deserto, tudo o que você pode fazer é oihar para as fotos e aceitar que a tecnologia existe.
— Tom Clancy não mentiria para mim — disse Clay, sem sorrir.
— E se esse tipo de tecnologia existe, por que não aceitar essa outra, pelo menos provisoriamente?
— Ok, pode falar. Em poucas palavras, por favor.
— Por volta das três da tarde, uma organização terrorista, talvez até um governo de meia tigela, gerou um tipo de sinal ou pulso. Por ora, temos que supor que este sinal foi transmitido por todas as operadoras de celular do mundo. Vamos torcer para que não seja o caso, mas, por ora, acho que temos que supor o pior.
— A transmissão acabou?
— Não sei — disse Tom. — Quer pegar um celular para descobrir?
— Tuchim — falou Clay. — É assim que o meu filhinho fala touché. — E, por favor Deus, é assim que ele continua falando.
— Mas, se esse grupo pode transmitir um sinal que deixaria todos que o ouvissem loucos — prosseguiu Tom —, não haveria a possibilidade de que o sinal também contivesse uma diretriz que mandasse todos os que o recebessem se matarem cinco horas depois? Ou talvez simplesmente irem dormir e pararem de respirar.
— Eu diria que isso é impossível.
— Eu teria dito que um louco vir para cima de mim do Four Seasons Hotel com uma faca é impossível — disse Tom. — E que Boston ser consumida pelo fogo enquanto toda a população... quero dizer, a parcela da população que tem a sorte de não ter celulares... foge pelas pontes Mystic e Zakim.
Ele se inclinou para frente, olhando para Clay com atenção. Ele quer acreditar nisso, Clay pensou. Não desperdice muito tempo tentando dissuadi-lo, porque ele quer muito acreditar, muito mesmo.
— De certa forma, isso não é diferente do bioterrorismo que o governo tanto temia depois do 11 de setembro — ele disse. — Através dos celulares, que se tornaram a forma cotidiana de comunicação dominante, é possível transformar a população em um exército particular, um exército que literalmente não tem medo de nada, porque é louco, ao mesmo tempo em que destrói a infra-estrutura. Onde está a Guarda Nacional hoje à noite?
— No Iraque? — arriscou Clay. — Na Louisiana?
Não foi uma piada muito boa e Tom não sorriu.
— Em lugar nenhum. Como se usa uma força interna que hoje em dia depende quase totalmente da rede de celulares até para se mobilizar? Quanto aos aviões, o último que vi voando foi aquele pequeninho que caiu na esquina da Charles com a Beacon. — Ele fez uma pausa e então prosseguiu, olhando através da mesa direto para os olhos de Clay. — Tudo isso que eles fizeram... quem quer que sejam eles. Eles olharam para nós de onde quer que vivam e adorem seus deuses, e o que viram?
Clay balançou a cabeça, fascinado pelos olhos de Tom, que brilhavam por trás dos óculos. Eram quase os olhos de um visionário.
— Eles viram que tínhamos reconstruído a Torre de Babel... e sustentada apenas por teias eletrônicas. E, em questão de segundos, eles varreram essas teias e nossa Torre caiu. Eles fizeram tudo isso, e nós três somos como insetos que calharam, por pura sorte, de evitar o pisão de um gigante. Eles fizeram tudo isso, e você acha que não poderiam ter codificado um sinal que mandasse os afetados simplesmente irem dormir e pararem de respirar? Qual é o mistério, se comparado com o primeiro? Não muito grande, eu diria.
Clay disse:
— Acho que está na hora de irmos dormir.
Por um instante, Tom ficou como estava, um pouco curvado sobre a mesa, olhando para Clay como se incapaz de entender o que ele tinha dito. Então riu.
— É — ele disse. — É, você está certo. Eu me empolguei. Desculpe.
— Sem problema — disse Clay. — Espero que tenha razão quanto aos lunáticos estarem mortos. — Fez uma pausa e então falou: — Quero dizer... a não ser que meu filho... Johnny-Gee... — Não conseguiu terminar. Em parte, ou principalmente, porque se Johnny tivesse tentado usar o telefone naquela tarde e tivesse recebido a mesma ligação que a Cabelinho Claro e a Mulher do Terninho de Poderosa, Clay não tinha certeza se queria que o filho ainda estivesse vivo.
Tom estendeu o braço até o outro lado da mesa e Clay envolveu com as duas mãos a mão delicada e de dedos longos do outro homem. Ele viu isso acontecer como se estivesse fora do corpo e, quando falou, não parecia ser ele mesmo falando, embora sentisse a boca se mexendo e as lágrimas que haviam começado a cair dos seus olhos.
— Estou com tanto medo por ele — sua boca dizia. — Estou com medo pelos dois, mas principalmente pelo meu filho.
— Vai ficar tudo bem — disse Tom, e Clay sabia que a intenção dele era boa, mas as palavras encheram-lhe o coração de terror da mesma forma, pois era apenas uma daquelas coisas que você fala quando não resta mais nada a dizer. Como Você vai superar, ou ele está em lugar melhor.
Os gritos de Alice acordaram Clay de um sonho confuso mas agradável em que ele estava em uma Tenda de Bingo na Feira Estadual de Akron. No sonho, voltara aos 6 anos de idade — com certeza não mais que isso, mas talvez fosse até mais novo —, agachado debaixo da mesa em que a mãe estava, olhando para uma floresta de pernas femininas e sentindo o cheiro de serragem enquanto o locutor entoava: "B12, jogadores, B12! É a vitamina da luz solar!
Por um instante o seu subconsciente tentou integrar os gritos da menina ao sonho, insistindo que o que ele ouvia era o apito de meio-dia de sábado, mas apenas por um instante. Clay se permitira dormir na varanda de Tom depois de uma hora de vigília, pois estava convencido de que nada iria acontecer lá fora, pelo menos não naquela noite. Porém, ele deveria estar convencido também de que Alice não dormiria a noite toda, pois não ficou confuso quando sua mente identificou os gritos pelo que eram e tampouco precisou se esforçar para saber onde estava ou o que estava acontecendo. Em um momento ele era um garotinho agachado debaixo de uma mesa de bingo em Ohio; no outro, estava saindo do sofá confortavelmente longo na varanda coberta de Tom McCourt com o cobertor ainda enroscado nas pernas. E, em algum lugar da casa, Alice Maxwell, berrando em um registro quase agudo o bastante para quebrar cristal, articulava todo o horror do dia que acabara de passar, insistindo com um grito depois do outro que tais poisas não deveriam ter acontecido de forma alguma e precisavam ser negadas.
Clay tentou desembaraçar as pernas do cobertor sem sucesso. Ele se viu pulando na direção da porta e agitando a maçaneta em uma espécie de pânico, enquanto olhava para a Salem Street, convicto de que as luzes começariam a acender por todo o quarteirão, mesmo sabendo que não havia energia, convicto de que alguém — talvez aquele sujeito que tinha armas e adorava engenhocas, o Sr. Nickerson, que morava mais adiante — sairia para o gramado e gritaria para alguém pelo amor de Deus calar a boca daquela menina. Não me obrigue a ir até aí! Berraria Arnie Nickerson. Não me obrigue a ir até aí dar um tiro nela!
Ou os gritos atrairiam os fonáticos como mariposas para uma luz. Tom poderia achar que eles estavam mortos, mas Clay acreditava nisso tanto quanto na fábrica do Papai Noel no Pólo Norte.
Porém, a Salem Street — pelo menos o quarteirão em que estavam, logo a oeste do centro e depois da parte de Malden que Tom chamava de Granada Highlands — permaneceu escura, silenciosa e sem movimento. Até o brilho do fogo em Revere parecia ter diminuído.
Clay finalmente se livrou do cobertor, entrou e ficou ao pé da escada, olhando para a escuridão acima. Agora conseguia escutar a voz de Tom — não as palavras, mas o tom, baixo, calmo e tranqüilizador. Os gritos arrepiantes da garota começaram a ser cortados por arquejos, e então por soluços e exclamações inarticuladas que se tornaram palavras. Clay entendeu uma delas: pesadelo. Tom continuou falando sem parar, contando mentiras em uma ladainha reconfortante: estava tudo bem, ela iria ver só, as coisas pareceriam melhores pela manhã. Clay os visualizava sentados lado a lado na cama do quarto de hóspedes, os dois vestindo pijamas com monogramas com as iniciais TM nos bolsos da frente. Poderia tê-los desenhado daquela forma. A idéia o fez sorrir.
Quando teve certeza de que ela não recomeçaria a gritar, Clay voltou para a varanda, que estava um pouco fria, mas confortável assim que ele se enrolou no aconchego do cobertor. Sentou-se no sofá, inspecionando o que conseguia ver da rua. À esquerda, a leste da casa de Tom, havia um centro comercial. Ele achou que podia ver o semáforo que marcava a entrada da praça central. Do outro lado — que era o caminho pelo qual tinham vindo —, mais casas. Todas ainda naquela escuridão profunda.
— Onde estão vocês? — ele murmurou. — Sei que alguns foram para o norte ou para o oeste ainda com a cabeça no lugar. Mas para onde foram os outros?
Nenhuma resposta veio da rua. Poxa, talvez Tom tivesse razão — os celulares mandaram uma mensagem para as pessoas enlouquecerem às três e caírem mortas às oito. Parecia bom demais para ser verdade, mas ele se lembrava que tinha pensado o mesmo sobre CDs graváveis.
Silêncio vindo da rua à frente dele; silêncio vindo da casa às suas costas. Um instante depois, Clay recostou no sofá e deixou os olhos se fecharem. Pensou que talvez pudesse cochilar, mas não achava que conseguiria pegar no sono novamente. Porém, acabou conseguindo, e desta vez sem sonhos. Logo antes do dia raiar, um vira-lata subiu pela entrada de Tom McCourt, olhou para ele roncando no seu casulo de cobertor e voltou a seguir adiante. Não estava com pressa, não faltavam restos de comida nas ruas de Malden naquela manhã e continuaria sendo assim por muito tempo.
— Clay. Acorde.
A mão de alguém, sacudindo-o. Clay abriu os olhos e viu Tom, usando jeans e uma camisa de botão cinza, inclinando-se sobre ele. A varanda estava iluminada por uma luz pálida e forte. Clay olhou para seu relógio de pulso à medida que tirava o pé de cima do sofá e viu que eram 6h20.
— Você tem que ver isto — disse Tom. Ele estava pálido, ansioso e com os dois lados do bigode grisalhos. Um dos lados da ponta da camisa estava para fora do cinto e a parte de trás do cabelo ainda estava de pé.
Clay olhou para a Salem Street, viu um cachorro com algo na boca passando aos trotes por alguns carros abandonados a meia quadra na direção oeste; era a única coisa que se mexia. Sentia um cheiro fraco de fumaça no ar e imaginou que fosse de Boston ou Revere. Talvez de ambos, mas pelo menos o vento parará. Virou-se para Tom.
— Aqui não — disse Tom. Ele manteve a voz baixa. — No quintal dos fundos. Vi quando fui para a cozinha fazer café, antes de lembrar que não dá para ligar a cafeteira, pelo menos por enquanto. Talvez não seja nada, mas... cara, não estou gostando disso.
— Alice ainda está dormindo? — Clay estava tateando sob o cobertor, atraí das meias.
— Sim, e isso é bom. Esqueça as meias e os sapatos, não vamos jantar no Ritz. Venha.
Ele seguiu Tom, que usava um par de chinelos que pareciam confortáveis, pelo corredor até a cozinha. Havia um copo meio vazio de chá gelado no aparador.
Tom falou:
— Não consigo começar o dia sem um pouco de cafeína de manhã, sabe? Então me servi de um copo daquela coisa, aliás, pode pegar, ainda está bom e gelado, e abri a cortina em cima da pia para dar uma olhada no jardim. Sem motivo, só queria ter contato com o mundo exterior. E vi... olhe você mesmo.
Clay olhou para fora pela janela da pia. Nos fundos, havia um bem cuidado pátio de ladrilhos com uma grelha a gás. Depois do pátio, ficava o quintal de Tom, metade gramado, metade jardim. Mais além, havia uma cerca alta e larga com um portão. O portão estava aberto. Pelo visto, estivera fechado a ferrolho, pois agora ele estava caído de lado, parecendo a Clay um pulso quebrado. Ocorreu-lhe que Tom poderia ter feito o café na grelha, não fosse pelo homem sentado no jardim, ao lado do que só podia ser um carrinho de mão ornamental, comendo a polpa de uma abóbora partida e cuspindo as sementes. Usava um macacão de mecânico e um boné seboso com um B apagado nele. Escrito em letras vermelhas apagadas no bolso esquerdo do macacão estava o nome tye&upe. Clay ouvia os sons baixos de sucção que o rosto dele fazia toda vez que o enfiava na abóbora.
— Merda — disse Clay baixinho. — É um deles.
— É. E se tem um, pode haver vários.
— Ele arrombou o portão para entrar?
— Claro que sim — disse Tom. — Não o vi fazendo, mas garanto que estava trancado quando eu saí ontem. Não tenho o melhor relacionamento do mundo com Scottoni, o cara que mora do outro lado. Ele não precisa de "sujeitinhos como eu", como já me disse várias vezes. — Ele fez uma pausa, então prosseguiu com a voz mais baixa. Já estava falando baixo antes, mas agora Clay tinha que chegar perto dele para ouvir. — Sabe o que é mais esquisito? Eu conheço aquele cara. Ele trabalha no posto Texaco, lá no Centro Comercial. É o único posto de gasolina da cidade que ainda faz consertos. Ou fazia. Ele trocou uma mangueira de radiador para mim uma vez. Me contou que foi com o irmão para o estádio dos Yankees no ano passado e viu Curt Schilling acabar com o 6 Big Unit. Parecia um sujeito legal. Agora olhe só para ele! Sentado no meu jardim comendo uma abóbora crua!
— O que está acontecendo, gente? — perguntou Alice atrás deles.
Tom se virou, aparentando desânimo.
— Você não vai querer ver isso — ele disse.
— Não senhor — disse Clay. — Ela tem que ver.
Ele sorriu para Alice, o que não era tão difícil assim. Não havia monograma no bolso do pijama que Tom lhe emprestara, mas ele era azul, como Clay tinha imaginado, e ela ficava terrivelmente bonita nele, descalça, com a bainha da calça levantada até as canelas e o cabelo desgrenhado pelo sono. Apesar dos pesadelos, Alice parecia mais descansada do que Tom. Clay poderia apostar que ela parecia mais descansada do que ele também.
— Não é um acidente de carro nem nada — falou ele. — É só um cara comendo uma abóbora no quintal do Tom.
Ela se enfiou entre os dois, colocando as mãos na beirada da pia, e ficou na ponta dos pés para olhar pela janela. O braço dela roçou o de Clay e ele sentiu a quentura do sono que ainda irradiava da sua pele. Alice ficou olhando por um bom tempo e então se virou para Tom.
— Você disse que todos eles tinham se matado — ela falou, e Clay não soube dizer se estava acusando Tom ou dando uma bronca de mentirinha. Provavelmente ela mesma não sabe, ele pensou.
— Eu não falei com certeza — respondeu Tom, soando pouco convincente.
— Você me pareceu ter bastante certeza. — Ela voltou a olhar para fora. Pelo menos, pensou Clay, ela não está surtando. Na verdade, Alice parecia extraordinariamente tranqüila, até mesmo chapliniana, naquele pijama um pouco grande demais. — Uh... gente?
— O quê? — eles falaram juntos.
— Olhem o carrinho de mão do lado dele. Vejam só a roda.
Clay já tinha visto o que ela estava falando — os restos de casca, polpa e sementes de abóbora.
— Ele bateu com a abóbora na roda para abri-la e comer o que estava dentro — disse Alice. — Acho que é um deles...
— Ah, ele é um deles com certeza — disse Clay. George, o mecânico, estava sentado no jardim com as pernas abertas, revelando a Clay
6 Big Unit: apelido de Randy Johnson, jogador do time de beisebol New York Yankees. (N. do T.) que desde a tarde de ontem esquecera tudo que mamãe tinha ensinado sobre baixar as calças antes de fazer xixi.
— ... mas ele usou aquela roda como ferramenta. Não acho que um doido faria uma coisa dessas.
— Um deles estava usando uma faca ontem — disse Tom. — E tinha outro cara brandindo duas antenas de carro.
— Eu sei, mas... isso parece diferente.
— Mais pacífico, você quer dizer? — Tom olhou de volta para o intruso no jardim. — Não estou a fim de ir lá fora para descobrir.
— Não, não é isso. Não quis dizer pacífico. Não sei bem como explicar.
Clay achou que entendia o que ela estava falando. A agressão que eles haviam testemunhado no dia anterior fora uma atitude cega, impulsiva. Uma coisa do tipo o-que-cair-na-minha-mão-eu-uso. Sim, teve o homem de negócios com a faca e o rapaz musculoso brandindo as antenas enquanto corria, mas também teve o homem no parque que arrancou a orelha do cachorro com os dentes. A Cabelinho Claro também usara os dentes. Aquilo parecia muito diferente, e não só porque ele estava comendo em vez de matando. Mas, assim como Alice, Clay não conseguia entender como era diferente.
— Oh, meu Deus, mais dois — disse Alice.
Pelo portão aberto dos fundos entrou uma mulher de cerca de 40 anos com um terninho cinza sujo e um idoso vestindo um short de caminhada e uma camiseta com GRAY POWER escrito na frente. A mulher de terninho usava uma blusa verde em frangalhos, revelando as taças de um sutiã verde claro. O idoso estava mancando bastante, jogando os ombros para frente enquanto fazia uma espécie de sapateado a cada passo para manter o equilíbrio. Sua esquelética perna esquerda estava coberta de sangue seco e o pé estava sem o tênis de corrida. Os restos de uma meia atlética, encardida de sujeira e sangue, pendiam do tornozelo esquerdo. O cabelo branco um tanto longo do velho lhe caía sobre o rosto inexpressivo como um capuz. A mulher de terninho emitia um barulho repetitivo que soava como "Goom! Goom!" enquanto examinava o quintal e o jardim. Olhou para George, o Comedor de Abóbora, como se ele nem existisse, e então passou por ele em direção aos pepinos restantes. Ajoelhou-se diante deles, arrancou um da sua haste e começou a comê-lo. O velho com a camiseta GRAY POWER marchou até o final do jardim e então ficou parado um instante, como um robô cujo óleo finalmente acabara. Usava óculos dourados minúsculos — óculos de leitura, pensou Clay — que cintilavam na luz da manhã. Para Clay ele parecia como alguém que um dia fora muito inteligente e agora era muito idiota.
As três pessoas na cozinha se espremeram, olhando pela janela, mal respirando.
O olhar do velho parou em George, que jogou para longe um pedaço de casca de abóbora, examinou o resto e então meteu o rosto de volta nele, retomando o café-da-manhã. Em vez de se portar agressivamente em relação aos recém-chegados, nem mesmo pareceu notá-los.
O velho mancou para a frente, se agachou e começou a puxar uma abóbora do tamanho de uma bola de futebol. Estava a menos de um metro de George. Clay, recordando a batalha campal em frente à estação do metrô, prendeu a respiração e esperou.
Ele sentiu Alice agarrar seu braço. Toda a quentura do sono desaparecera da mão dela.
— O que ele vai fazer? — ela perguntou baixinho.
Clay apenas balançou a cabeça.
O velho tentou morder a abóbora e só conseguiu bater com o nariz. Era para ser engraçado, mas não foi. Seus óculos ficaram tortos e ele os colocou de volta no lugar. Foi um gesto tão normal que por um breve momento Clay teve certeza de que era ele que estava louco.
— Goom!— gritou a mulher de blusa rasgada e atirou longe o pepino meio comido. Divisara alguns tomates temporões e rastejou na direção deles com o cabelo caído sobre o rosto. A parte de trás da sua calça estava toda suja.
O velho achara o carrinho de mão ornamental. Levou a abóbora até ele, então pareceu notar George, que estava sentado ao lado. Olhou para o homem, com a cabeça torta. George gesticulou com a mão pintada de laranja para o carrinho, um gesto que Clay já tinha visto milhares de vezes.
— A vontade — murmurou Tom. — Minha nossa.
O velho se ajoelhou no jardim, um movimento que obviamente lhe causou muita dor. Fez uma careta, ergueu o rosto vincado para o céu resplandecente e proferiu um grunhido de aborrecimento. Então segurou o fruto sobre a roda. Estudou o ângulo de descida por vários segundos, bíceps velhos tremendo, e lançou a abóbora para baixo, partindo-a. Ela se abriu em duas metades polpudas. O que aconteceu em seguida foi rápido. George largou sua própria abóbora quase completamente devorada no colo, se jogou para frente, agarrou a cabeça do velho com as mãos grandes e manchadas de laranja e a torceu. O barulho do pescoço do velho quebrando atravessou o vidro da janela e chegou aos ouvidos dos três. O cabelo branco e longo dele voou. Os pequenos óculos desapareceram no que Clay achava que eram beterrabas. O corpo sofreu um espasmo, e então ficou flácido. George o largou. Alice começou a gritar e Tom cobriu a boca da menina. Ela ficou observando por sobre a mão dele com os olhos arregalados. Lá fora, no jardim, George pegou um pedaço fresco de abóbora e começou a comer com tranqüilidade.
A mulher de blusa rasgada olhou ao redor por um instante, casualmente, e então arrancou outro tomate e o mordeu. Suco vermelho desceu pelo seu queixo e escorreu pelo vinco sujo do pescoço. Ela e George ficaram sentados no jardim dos fundos de Tom McCourt comendo legumes e, por algum motivo, o nome de um dos quadros favoritos de Clay veio-lhe à mente: O Reino Pacífico.
Clay não percebera que havia falado alto até Tom olhar para ele com frieza e dizer:
— Não mais.
Os três ainda estavam em pé diante da janela da cozinha cinco minutos depois quando um alarme começou a soar a alguma distância dali. Parecia fraco e rouco, como se estivesse prestes a cessar.
— Alguma idéia do que pode ser? — perguntou Clay. No jardim, George tinha abandonado as abóboras e desenterrado uma batata grande. Isso o levou mais para perto da mulher, mas ela não despertou seu interesse. Pelo menos não por ora.
— Meu palpite seria que o gerador do Safeway no Centro Comercial acabou de parar — disse Tom. — Eles provavelmente têm um alarme a bateria caso isso aconteça, por conta de todos os alimentos perecíveis. Mas é só um palpite. Até onde eu sei, pode ser o First Malden Banke...
— Olhem! — disse Alice.
A mulher parou de arrancar um outro tomate, se levantou e saiu andando em direção ao lado direito da casa de Tom. George se ergueu quando ela passou, e Clay teve certeza de que ele pretendia matá-la como matou o velho. A expectativa fez Clay se encolher e ele viu Tom se preparando para desviar Alice da cena. Mas George apenas seguiu a mulher, dando a volta na casa atrás dela e sumindo de vista.
Alice se virou e saiu correndo para a porta da cozinha.
— Não deixe que eles vejam você — exclamou Tom em uma voz baixa e urgente, seguindo-a.
— Não se preocupe — ela disse.
Clay os acompanhou, preocupando-se com todos.
Eles alcançaram a sala de jantar a tempo de ver a mulher com seu terninho sujo e George com seu macacão mais sujo ainda passarem pela janela, os corpos segmentados pelas venezianas que estavam baixadas, mas não fechadas. Nenhum dos dois olhou para dentro da casa, e George estava tão perto da mulher que poderia morder sua nuca. Alice, seguida por Tom e Clay, subiu o corredor até o pequeno escritório de Tom. Lá, as venezianas estavam fechadas, mas Clay viu as sombras dos dois passarem rapidamente por elas. Alice continuou seguindo pelo corredor, em direção à porta aberta que dava para a varanda. O cobertor estava metade em cima e metade fora do sofá, como Clay o havia deixado. A luz brilhante da manhã inundava a varanda. Parecia queimar o assoalho.
— Alice, tenha cuidado! — disse Clay. — Tenha...
Mas ela parara. Estava apenas olhando. E então Tom estava ao lado dela, quase da mesma altura que a menina. Vistos daquela maneira, poderiam ser irmãos. Nenhum dos dois se preocupou em tentar se esconder.
— Puta merda — disse Tom. Parecia ter levado um balde de água fria. Ao lado dele, Alice começou a chorar. Era o tipo de choro sem fôlego que uma criança cansada choraria. Uma criança que está se acostumando a ser castigada.
Clay os alcançou. A mulher de terninho estava cruzando o gramado de Tom. George ainda estava atrás dela, seguindo-a passo a passo. Estavam quase marchando em fileira. O ritmo quebrou um pouco no meio-fio, quando George foi para a esquerda da mulher, deixando de ser uma sombra para ladeá-la.
Salem Street estava cheia de loucos.
À primeira vista, Clay achou que poderia haver centenas deles, ou mais. Então seu lado observador assumiu o controle — o olho frio do artista — e ele percebeu que aquilo era um exagero, causado pela surpresa de se deparar com uma pessoa que fosse quando esperava ver uma rua vazia e pelo choque de perceber que todos eram eles. Era impossível não reconhecer os rostos vazios, os olhos que pareciam ver através de tudo, as roupas sujas, manchadas de sangue, desalinhadas (em muitos casos não havia roupa alguma), os ocasionais grasnidos ou gestos convulsivos. Havia o homem vestindo apenas uma cueca apertadinha e uma camisa pólo e que parecia estar acenando sem parar; a mulher gorda cujo lábio inferior estava partido, formando dois bifes que pendiam revelando todos os dentes de baixo; o adolescente alto de bermuda jeans que andava até o meio da Salem Street carregando o que parecia ser uma chave de roda ensangüentada em uma das mãos, um senhor indiano ou paquistanês que passou pela casa de Tom mexendo a mandíbula de um lado para o outro e ao mesmo tempo batendo os dentes, um menino — meu Deus, um menino da idade de Johnny — que caminhava sem o mínimo sinal de dor, embora um dos seus braços estivesse balançando da junta deslocada do ombro, uma bela jovem de minissaia e top sem mangas que parecia estar comendo do estômago vermelho de um corvo. Alguns gemiam, outros emitiam sons que talvez tenham sido palavras um dia, e todos seguiam para o leste. Clay não fazia idéia se eles estavam sendo atraídos pelo alarme ou pelo cheiro de comida, mas estavam todos indo na direção do Centro Comercial de Malden.
— Meu Deus, é o paraíso dos zumbis — disse Tom.
Clay não se deu o trabalho de responder. As pessoas lá fora não eram exatamente zumbis, mas Tom quase acertou. Se qualquer um deles olhar para cá, nos enxergar e decidir vir atrás da gente, estamos ferrados. Não vamos ter a mínima chance. Nem se nos entrincheirarmos no porão. E quanto àquelas armas do outro lado da rua? Pode esquecer.
A idéia de que sua esposa e filho poderiam estar — muito possivelmente estavam — tendo que lidar com aquele tipo de criatura o encheu de horror. Mas aquilo não era uma história em quadrinhos e ele não era herói: não podia fazer nada. Os três talvez estivessem seguros na casa, mas, em se tratando do futuro próximo, ele, Tom e Alice não iriam para lugar nenhum.
— Eles são como pássaros — disse Alice. Ela limpou as lágrimas do rosto com as mãos. — Um bando de pássaros.
Clay entendeu o que ela queria dizer e a abraçou impulsivamente. Ela identificara algo que ele tinha percebido quando observou George, o mecânico, seguir a mulher em vez de matá-la, como fizera com o velho. Os dois eram obviamente cabeças-ocas, mas pareciam ter ido lá para frente mediante algum tipo de acordo tácito.
— Não estou entendendo — disse Tom.
— Você não deve ter visto A Marcha dos Pingüins — disse Alice.
— Na verdade eu vi — respondeu Tom. — Se quiser ver alguém andar engraçado de smoking, vou a um restaurante francês.
— Mas você já notou como os pássaros se comportam, especialmente na primavera e no outono? — perguntou Clay. — Já deve ter visto. Eles ficam todos pousados na mesma árvore, ou no mesmo fio de um poste...
— Às vezes são tantos que o fio chega a envergar — disse Alice. —
E então todos saem voando na mesma hora. Meu pai diz que eles
devem ter um líder, mas o Sr. Sullivan, meu professor de ciências, quer dizer, quando eu estava no ginásio, disse que é uma espécie de consciência coletiva, tipo quando as formigas saem todas juntas de um formigueiro, ou quando as abelhas saem da colméia.
— O bando faz curva para a direita ou para a esquerda, todos ao mesmo tempo, e os pássaros nunca batem um no outro — falou Clay.
— Às vezes eles deixam o céu preto e o barulho é de enlouquecer. — Ele fez uma pausa. — Pelo menos onde eu moro, no interior. — Outra pausa. — Tom, você... você reconhece alguma dessas pessoas?
— Algumas. Aquele lá é o Sr. Potowami, da padaria — ele disse, apontando o indiano que balançava a mandíbula e batia os dentes. — Aquela moça bonita... acho que ela trabalha no banco. E lembra que eu falei sobre o Scottoni, o meu vizinho de quadra?
Clay assentiu.
Tom, que ficara muito pálido, apontou para uma mulher visivelmente grávida usando apenas um guarda-pó sujo de comida que ia até a parte de cima das coxas. Cabelo loiro caía sobre suas bochechas cheias de espinhas e um piercing brilhava no nariz.
— Aquela é a nora dele — ele falou. — Judy. Ela já fez questão de ser gentil comigo. — Ele acrescentou em um tom casual: — Me dá um
aperto no coração.
Da direção do centro da cidade, veio um som alto de tiro. Alice gritou, mas desta vez Tom não precisou cobrir-lhe a boca, ela mesma o fez. De qualquer forma, nenhuma das pessoas da rua olhou para lá. Nem o estrondo — Clay achava que tinha sido um tiro — pareceu incomodá-los. Eles simplesmente continuaram andando, nem mais rápido, nem mais devagar. Clay esperou outro tiro. Em vez disso, ouviu um grito, muito breve; durou só um instante, como se tivesse sido interrompido.
Os três nas sombras logo atrás da varanda ficaram observando, sem conversar. Todos que passavam estavam indo para o leste, e, embora não andassem exatamente em formação, havia sem dúvida uma espécie de ordem. Para Clay, o que deixava isso claro não era a visão dos próprios fonáticos, que quase sempre mancavam e às vezes se arrastavam, que balbuciavam e faziam gestos esquisitos, e sim a passagem silenciosa e ordeira das suas sombras no asfalto. Elas o fizeram pensar naqueles cinejornais sobre a Segunda Guerra Mundial que tinha visto, nos quais um grupo de bombardeiros depois do outro cruzava o céu. Ele contou 250 antes de desistir. Homens, mulheres, adolescentes. Um bom número de crianças da idade de Johnny, também. Mais crianças do que velhos, embora tenha visto umas poucas crianças com menos de 10 anos. Não gostava de pensar sobre o que deveria ter acontecido com os garotinhos e garotinhas que não tinham ninguém para cuidar deles quando o Pulso aconteceu.
Ou com os garotinhos e garotinhas que estavam aos cuidados de pessoas com celulares.
Quanto às crianças com o olhar vazio que via, Clay imaginou quantas delas tinham infernizado os pais pedindo celulares com toques especiais no ano anterior, como o fizera Johnny.
— Uma só mente — disse após um instante. — Você acredita mesmo nisso?
— Eu meio que acredito — falou Alice. — Porque... tipo... que mente própria eles têm?
— Ela tem razão — disse Clay.
A migração (uma vez que se via aquilo daquela maneira, era difícil imaginar que fosse outra coisa) diminuiu, mas não parou, mesmo depois de meia hora, três homens passaram ombro a ombro — um vestindo uma camisa de jogador de boliche, um com os restos de um terno e outro com o pouco que sobrou da parte de baixo do rosto transformado em uma massa de sangue seco — e, em seguida, dois homens e uma mulher andando em fila, como se dançassem uma conga desajeitada, e então uma mulher de meia-idade que parecia uma bibliotecária (quer dizer, se você ignorasse o seio nu que balançava ao vento) enfileirada com uma adolescente desengonçada que poderia ser uma auxiliar de biblioteca. Houve um intervalo e então apareceu mais uma dúzia deles, parecendo formar uma espécie de quadrado, como uma unidade militar das Guerras Napoleônicas. E, ao longe, Clay começou a ouvir sons de guerra — o barulho de tiros de pistola ou rifle e uma vez (perto deles, talvez do bairro vizinho de Medford ou de Malden mesmo) o rugido longo e rascante de uma arma automática de alto calibre. E também mais gritos. A maioria vinha de longe, mas Clay tinha, certeza de que eram gritos.
Ainda havia outras pessoas sãs por ali, muitas delas, e algumas tinham conseguido pegar em armas. Era muito provável que aquela gente estivesse atirando nos loucos. Outros, porém, não tiveram a sorte de estarem abrigados quando o sol nasceu e os malucos apareceram. Ele pensou em George, o mecânico, pegando a cabeça do velho em suas mãos laranja, a torção, o estalo, os pequeninos óculos de leitura voando para cima das beterrabas, onde ficariam. E ficariam. E ficariam.
— Acho que vou para a sala me sentar — disse Alice. — Não quero mais olhar para eles. Nem ouvir. Está me fazendo mal.
— Claro — disse Tom. — Pode ir. Eu vou ficar aqui observando mais um pouco. Acho que um de nós tem que ficar observando, não acha?
Clay assentiu. Ele achava que sim.
— Então daqui a uma hora mais ou menos a gente reveza. Podemos fazer um rodízio.
— Ok. Combinado.
Enquanto eles voltavam pelo corredor, Clay com os braços em volta dos ombros de Alice, Tom disse:
— Mais uma coisa.
Eles olharam para trás.
— Acho melhor descansarmos o máximo que pudermos hoje. Quero dizer, se ainda quisermos ir para o norte.
Clay olhou para ele com atenção, para se certificar de que Tom ainda estava com a cabeça no lugar. Parecia que sim, mas...
— Você notou o que está acontecendo lá fora? — ele perguntou.
— Ouviu os tiros? Os... — Clay não queria dizer os gritos na frente de Alice, embora obviamente fosse um pouco tarde para tentar proteger as sensibilidades que ainda restavam nela — ... os berros?
— Claro que sim — disse Tom. — Mas os loucos se abrigaram na noite passada, não foi?
Por um instante, nem Clay nem Alice se mexeram. Então Alice começou a bater as mãos em um aplauso baixinho, quase inaudível. E Clay começou a sorrir. O sorriso pareceu duro e estranho em seu rosto, e a esperança que ele trazia era quase dolorosa.
— Tom, você deve ser um gênio — ele falou.
Tom não retribuiu o sorriso.
— Não aposte nisso — ele disse. — Nunca me dei muito bem no vestibular.
Sentindo-se claramente melhor — e aquilo só podia ser uma coisa boa, calculou Clay —, Alice foi até o andar de cima procurar algo para vestir entre as roupas de Tom. Clay se sentou no sofá, pensando em Sharon e Johnny, tentando decidir o que eles teriam feito e para onde teriam ido, sempre supondo que tiveram a sorte de se encontrar. Ele cochilou e os viu com clareza na Escola Primária de Kent Pond, o co-légio em que Sharon dava aula. Estavam entrincheirados no ginásio, com mais duas ou três dúzias de pessoas, comendo sanduíches do refeitório e bebendo aquelas caixinhas de leite. Eles...
Alice o acordou, chamando do segundo andar. Ele olhou para o relógio de pulso e viu que dormira no sofá por quase vinte minutos. Seu queixo estava babado.
— Alice? — Ele foi até o pé da escada. — Está tudo bem? — Notou que Tom também estava olhando.
— Sim, mas você pode subir um instante?
— Claro.
Ele olhou para Tom, deu de ombros e subiu as escadas.
Alice estava em um quarto de hóspedes que não parecia ter sido muito usado, embora os dois travesseiros sugerissem que Tom passara a maior parte da noite com ela, e as roupas de cama reviradas sugerissem, além disso, um sono muito agitado. Encontrara uma calça caqui quase do tamanho certo e uma blusa com CANOBIE LAKE PARK escrito na frente, sob o desenho de uma montanha russa. No chão, havia o tipo de aparelho de som portátil grande que um dia Clay e seus amigos desejaram ardentemente, do mesmo jeito que Johnny-Gee desejara aquele celular vermelho. Clay e seus amigos chamavam aqueles rádios de estoura tímpanos.
— Estava no armário e parece que as pilhas estão novas — ela disse. — Pensei em ligá-lo e procurar por uma estação de rádio, mas fiquei com medo.
Ele olheu para o estoura tímpanos no belo chão de madeira de lei do quarto de hóspedes e também teve medo. Poderia ter sido uma arma carregada. Mas ele sentiu um ímpeto de esticar a mão e passar o botão de CD para FM. Imaginou que Alice tivesse sentido o mesmo e que o chamara por isso. O ímpeto de tocar uma arma carregada não teria sido nem um pouco diferente.
— Minha irmã me deu dois aniversários atrás — disse Tom da porta, e os dois deram um pulo. — Coloquei pilhas nele julho passado e o levei para a praia. Quando éramos crianças, costumávamos ir todos à praia e ficar ouvindo rádio, só que eu nunca tive um desse tamanho.
— Nem eu — disse Clay. — Mas bem que eu queria.
— Eu fui com ele para Hampton Beach em New Hampshire com um monte de CDs do Van Halen e da Madonna, mas não foi a mesma coisa. Nem de longe. Está parado desde então. Imagino que todas as rádios estejam fora do ar, vocês não acham?
— Aposto que algumas ainda estão no ar — disse Alice. Ela mordia o lábio inferior. Clay pensou que se ela não parasse logo com aquilo ele começaria a sangrar. — As que os meus amigos chamam de estações robôs. Elas têm nomes bonitinhos tipo BOB e FRANK, mas todas vêm de um computador gigante em Colorado e são transmitidas via satélite. Pelo menos é o que dizem os meus amigos. E... — Ela passou a língua no lugar em que mordera. O sangue brilhava logo embaixo da pele. — E é assim que os sinais de celular são enviados, não é? Via satélite?
— Não sei — disse Tom. — Acho que os de longa distância sim... e os que fazem chamadas transatlânticas com certeza... e imagino que um certo gênio poderia enviar o sinal de satélite errado para todas aquelas torres de microondas que existem por aí... aquelas que espalham os sinais...
Clay sabia de que torres eles estavam falando, esqueletos de aço cobertos de pratos que mais parecem ventosas cinza. Elas pipocaram em todo canto nos últimos dez anos.
Tom falou:
— Se conseguirmos sintonizar uma rádio local, talvez possamos conseguir informação. Alguma idéia sobre o que fazer, para onde ir...
— Sim, mas e se o rádio também estiver transmitindo aquilo? — disse Alice. — É disso que eu estou falando. E se a gente sintonizar na freqüência que a minha... — Ela passou a língua nos lábios mais uma vez, e então voltou a mordiscar. — ... a minha mãe ouviu? E meu pai? Ele também, ah, sim, ele tinha um celular novinho em folha, com tudo a que tinha direito, vídeo, autodiscagem, conexão com a Internet, ele adorava aquela coisinha! — Ela deu uma risada que era ao mesmo tempo histérica e triste, uma combinação desconcertante. — E se vocês sintonizarem no que eles escutaram? Meus pais e aquelas pessoas lá fora? Vocês querem arriscar?
A princípio, Tom ficou calado. Então falou, cuidadosamente, como se estivesse testando a idéia:
— Um de nós poderia arriscar. O outro sairia e esperaria até...
— Não — disse Clay.
— Por favor, não — disse Alice. Ela estava quase chorando de novo. — Eu quero vocês dois. Preciso de vocês dois.
Eles ficaram diante do rádio, olhando para ele. Clay se viu pensando nos romances de ficção científica que lera quando adolescente (às vezes na praia, ouvindo Nirvana em vez de Van Halen no rádio). Em boa parte deles, o mundo acabava. E então os heróis o reconstruíam. Não sem lutas e contratempos, mas sim, eles usavam os apare-lhos e as tecnologias disponíveis e o reconstruíam. Não se lembrava de nenhum em que os heróis ficavam plantados em um quarto olhando para um rádio. Mais cedo ou mais tarde alguém vai usar um aparelho ou ligar um rádio, ele pensou, porque alguém vai ter que fazer isso.
Sim. Mas não naquela manhã.
Sentindo-se um traidor de algo maior do que podia entender, Clay pegou o estoura tímpanos de Tom, colocou-o de volta no armário e fechou a porta.
Mais ou menos uma hora depois, a migração ordeira para o leste começou a se desmantelar. Clay estava de vigia, e Alice, na cozinha, comendo um dos sanduíches que eles haviam trazido de Boston — ela disse que eles tinham que acabar de comê-los antes de partirem para os enlatados na despensa de Tom, pois não sabiam quando encontrariam carne fresca de novo —, e Tom dormia na sala de estar, no sofá. Clay podia ouvi-lo roncar alegremente.
Ele notou algumas pessoas andando contra o fluxo para o leste e então percebeu que a ordem se afrouxara um pouco na Salem Street. Era uma mudança tão sutil que seu cérebro registrou o que os olhos viram apenas como uma intuição. A princípio, ele achou que era uma falsa impressão causada pelos poucos errantes — mais desorientados ainda do que os outros — que seguiam na direção oeste, em vez de para o leste, mas então olhou para as sombras. O padrão que tinha observado antes começara a se distorcer. E logo já não havia padrão algum.