Celular
Kashwak
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Uma hora depois de deixarem a área para piqueniques em que Ray se matara com a arma de Clay, eles passaram por uma placa que dizia:
EXPO DOS CONDADOS DO NORTE 5-15 DE OUTUBRO VENHAM TODOS!!!
VISITE O KASHWAKAMAK HALL
E NÃO SE ESQUEÇA DA EXCLUSIVA "ALA NORTE"
*CAÇA-NÍQUEIS (INCLUINDO PÔQUER TEXANO)
*"BINGO INDÍGENA"
VOCÊ VAI DIZER "UAUÜ!"
— Oh, meu Deus — disse Clay. — A Expo do Kashwakamak Hall. Jesus. É o lugar perfeito para um bando.
— O que é uma expo? — perguntou Denise.
— Uma feira como outra qualquer — respondeu Clay —, só que maior do que a maioria e bem mais desregrada, porque é no TR, que é território não-incorporado. E tem também esse negócio de Ala Norte. Todo mundo no Maine sabe o que é a Ala Norte na Expo dos Condados do Norte. Ao seu estilo, é tão famosa quanto o Twilight Motel.
Tom queria saber o que era a Ala Norte, mas antes de Clay poder explicar, Denise falou:
— Mais dois. Minha Nossa Senhora, sei que eles são fonóides, mas ainda fico enojada.
Um homem e uma mulher jaziam na poeira do acostamento. Haviam morrido abraçados ou em uma briga feia, e abraços não pareciam combinar com o estilo de vida fonóide. Eles tinham passado por meia dúzia de outros corpos no caminho para o norte, quase certamente baixas do bando que viera buscá-los, e tinham visto o dobro disso vagando a esmo para o sul, às vezes sozinhos, às vezes aos pares. Um dos pares, claramente sem saber ao certo para onde queriam ir, chegou a pedir carona para o ônibus.
— Não seria ótimo se todos eles começassem a brigar ou caíssem mortos antes do que planejaram para nós amanhã? — disse Tom.
— Não conte com isso — falou Dan. — Para cada baixa ou desertor que vimos, havia vinte ou trinta que ainda estavam dentro do programa. E só Deus sabe quantos estão esperando lá em Kashwacky.
— Também não desconsidere a hipótese — Jordan disse do seu lugar ao lado de Tom. Ele falou com um pouco de rispidez. — Um bug em um programa, um worm, não é pouca coisa. Pode começar como uma pequena encheção de saco e então bum, perda total. Eu jogo aquele Star-Mag, sabem? Bem, costumava jogar, e um mau perdedor da Califórnia ficou tão puto de sempre perder que colocou um worm no sistema e derrubou todos os servidores em uma semana. Quase meio milhão de jogadores tendo que voltar a jogar cartas por causa daquele babaca.
— Não temos uma semana, Jordan — falou Denise.
— Eu sei — respondeu ele. — E sei que nem todos eles estão propensos a saírem do ar da noite para o dia... mas é possível. E ainda tenho esperanças. Não quero terminar como Ray. Ele parou de ter... bem, esperança. — Uma lágrima solitária desceu pelo rosto de Jordan.
Tom o abraçou.
— Você não vai terminar como Ray — ele disse. — Vai crescer e ficar igual ao Bill Gates.
— Não quero ficar igual ao Bill Gates — disse Jordan com rabugice. — Aposto que ele tem celular. Na verdade, aposto que ele tem uns 12. — Ele se empertigou. — Uma coisa que eu daria tudo para saber é como tantas torres de transmissão de celulares ainda estão funcionando se não há luz.
— FEMA 12 — falou Dan com cinismo.
Tom e Jordan se viraram para olhar para ele. Tom com um esboço de sorriso no rosto. Até mesmo Clay ergueu os olhos para o retrovisor.
— Vocês acham que eu estou brincando — falou Dan. — Quem me dera. Li um artigo sobre o assunto em uma revista enquanto estava no consultório do meu médico, esperando por aquele exame desagradável em que ele coloca uma luva e então começa a explorar...
— Por favor — interrompeu Denise. — As coisas já estão ruins o suficiente. Pode pular essa parte. O que o artigo dizia?
— Que depois do 11 de setembro a FEMA requisitou e conseguiu uma verba do Congresso, não me lembro quanto, mas eram dezenas de milhões, para equipar torres de transmissão de celulares em todo o país com geradores de energia de longa duração para garantir que continuássemos capazes de nos comunicar mesmo no caso de ataques terroristas coordenados. — Dan fez uma pausa. — Parece que deu certo.
12 FEMA — Federal Emergency Management Agency (Agência Federal de Gerenciamento de Emergências). (N. do T.)
— FEMA — disse Tom. — Não sei se é para rir ou para chorar.
— Eu sugeriria que você escrevesse para o seu congressista, mas ele deve estar louco — falou Denise.
— Ele já era louco bem antes do Pulso — respondeu Tom, mas falou distraidamente. Estava esfregando a nuca e olhando pela janela. — FEMA — disse ele. — Sabe, até que faz sentido. A porra da FEMA.
Dan falou:
— Eu daria tudo para saber por que eles fizeram tanta questão de nos colocar na coleira e nos trazer para cá.
— E se certificarem de que o resto de nós não seguisse o exemplo de Ray — acrescentou Denise. — Lembre-se disso. — Ela fez uma pausa. — Não que eu fosse seguir. Suicídio é pecado. Eles podem fazer o que quiserem comigo aqui, mas eu vou para o céu com o meu bebê. Acredito nisso
— O que me dá arrepios é o latim — falou Dan. — Jordan, é possível que os fonóides pudessem pegar coisas antigas, quero dizer, coisas de antes do Pulso, e incorporá-las à nova programação deles? Se estivesse de acordo com suas... hummm, sei lá... com suas metas a longo prazo.
— Acho que sim — respondeu Jordan. — Não sei bem, porque não sabemos que tipo de comando foi codificado no Pulso. Isso é bem diferente de programas de computador comuns. É autogerativo. Orgânico. Como um aprendizado. Acho que é um aprendizado. "É uma definição satisfatória", como diria o Diretor. Só que estão todos aprendendo juntos, por causa...
— Por causa da telepatia — atalhou Tom.
— Isso — concordou Jordan. Ele parecia incomodado.
— Por que o latim te dá arrepios? — perguntou Clay, olhando para Dan pelo retrovisor.
— Tom disse que o latim é a língua da justiça, e acho que é verdade, mas para mim isso parece mais vingança. — Ele se inclinou para frente. Atrás dos óculos, seus olhos pareciam cansados e perturbados. — Porque, com ou sem latim, eles não conseguem pensar de verdade. Estou convencido disso. Pelo menos ainda não. Em vez de dependerem do pensamento racional, eles dependem de um tipo de mente coletiva nascida de pura raiva.
— Objeção, Meritíssimo, especulação freudiana! — disse Tom, um tanto alegremente.
— Talvez Freud, talvez Lorenz — falou Dan —, mas, seja como for, conceda-me o benefício da dúvida. Você ficaria surpreso se uma entidade dessas, uma entidade tão raivosa, confundisse justiça com vingança?
— Isso teria importância? — perguntou Tom.
— Talvez tenha para nós — respondeu Dan. — Como alguém que já deu um curso sobre vigilantismo na América, posso afirmar que a vingança geralmente dói mais.
Pouco depois dessa conversa, eles chegaram a um lugar que Clay reconheceu. O que era perturbador, pois ele nunca estivera naquela parte do estado antes. Exceto uma vez, no sonho das conversões em massa.
KASHWAK=SEM-FO estava escrito na estrada em pinceladas grossas de tinta verde brilhante. A van passou por cima das palavras a constantes 48 quilômetros por hora enquanto os fonóides continuavam a fluir à esquerda em sua procissão imponente e sobrenatural.
Aquilo não foi um sonho, ele pensou, olhando para os montes de lixo presos nos arbustos dos acostamentos e para as latas de cerveja e refrigerante nas valas. Sacos que haviam contido batatas fritas, Doritos e Cheez Doodles estalavam sob os pneus do microônibus. Os normies ficaram parados aqui em fila dupla, comendo seus lanches e tomando suas bebidas, sentindo aquela coceira esquisita dentro da cabeça, aquela sensação estranha de que alguém os empurrava mentalmente pelas costas, esperando sua vez de ligar para algum ente querido que se perdera durante o Pulso. Ficaram aqui e ouviram o Homem Esfrangalhado dizer: Esquerda e direita, isso mesmo, é assim que se faz, vamos continuar andando, temos muitos de vocês para processar antes do anoitecer.
Mais adiante, as árvores se afastavam em ambos os lados da estrada. O que antes tinha sido o arduamente conquistado pasto para vacas ou ovelhas de algum fazendeiro fora esmagado e revolvido até virar terra nua pelos vários pés que o cruzaram. Era quase como se o lugar tivesse sido palco de um show de rock. Uma das tendas sumira — levada pelo vento —, mas a outra se prendera em algumas árvores e batia na luz fosca do começo da noite como uma língua grande e marrom.
— Eu sonhei com esse lugar — disse Jordan. A voz dele estava tensa.
— Foi mesmo? — falou Clay. — Eu também.
— Os normies seguiam os sinais de Kashwak igual a Sem-Fo e era aqui que eles chegavam — disse Jordan. — Eram como cabines de pedágio, certo, Clay?
— Tipo isso — disse Clay. — É, tipo cabines de pedágio.
— Eles tinham caixas de papelão grandes cheias de celulares — disse Jordan. Aquele era um detalhe do sonho de que Clay não se lembrava, mas não duvidou que fosse verdade. — Montes e montes deles. E todo normie tinha direito a uma ligação. Que bando de sortudos.
— Quando você sonhou com isso, Jordy? — perguntou Denise.
— Na noite passada. — Os olhos de Jordan encontraram os de Clay no retrovisor. — Eles sabiam que não iriam falar com as pessoas que queriam. No fundo, sabiam. Mas ligaram assim mesmo. Pegaram os telefones assim mesmo. Pegaram e escutaram. A maioria nem mesmo reagiu. Por que, Clay?
— Porque estavam cansados de lutar, imagino — respondeu Clay. — Cansados de serem diferentes. Queriam ouvir Baby Elephant Walk com novos ouvidos.
Já estavam além dos pastos arruinados que haviam abrigado as tendas. Mais adiante, uma estrada de acesso asfaltada se separava da rodovia. Era mais larga e mais plana do que a interestadual. Os fonóides a estavam subindo e desaparecendo em uma abertura na mata. Assomando-se bem acima das árvores, a uns 800 metros à frente, havia uma estrutura de ferro parecida com uma grua que Clay reconheceu imediatamente dos seus sonhos. Ele achou que só podia ser uma espécie de brinquedo, talvez um Sky Coaster. Havia um outdoor na interseção da rodovia com a estrada de acesso, mostrando uma família sorridente — papai, mamãe, filhinho e irmãzinha — que entrava em um paraíso de brinquedos, jogos e exposições agrícolas.
EXPO DOS CONDADOS DO NORTE
QUEIMA DE GALA DE FOGOS DE ARTIFÍCIO
5 DE OUTUBRO
VISITE O KASHWAKAMAK HALL
"ALA NORTE" ABERTO 24H DE SEGUNDA A
SEGUNDA 5-15 DE OUTUBRO
VOCÊ VAI DIZER "UAUÜ!"
Do lado deste outdoor estava o Homem Esfrangalhado. Ele ergueu uma das mãos e a estendeu em um gesto de pare.
Oh, meu Deus, pensou Clay e estacionou o microônibus ao lado dele. Os olhos do Homem Esfrangalhado, que Clay não conseguira acertar no seu desenho em Gaiten, pareciam ao mesmo tempo confusos e cheio de um interesse malévolo. Clay disse a si mesmo que era impossível que eles aparentassem as duas coisas ao mesmo tempo, mas aparentavam. Às vezes a apatia confusa sobressaía; logo em seguida, parecia ser aquela avidez estranhamente perturbadora.
É impossível que ele queira se dar bem com a gente.
Porém, parecia que era isso que o Homem Esfrangalhado queria. Ele ergueu as mãos até a porta do ônibus com as palmas unidas e então as abriu. O gesto foi bastante bonito — como um homem indicando o pássaro voou —, mas as mãos estavam pretas e sujas, e o dedinho da esquerda tinha se quebrado aparentemente em dois lugares.
Essas são as novas pessoas, pensou Clay. Telepatas que não tomam banho.
— Não o deixe entrar — falou Denise. A voz dela estava tremendo.
Clay, que conseguia notar que o movimento constante, como se em uma esteira, dos fonóides à esquerda do ônibus tinha parado, balançou a cabeça.
— Não temos escolha.
Eles vão bisbilhotar na sua cabeça e descobrir que você está pensando numa porra de um celular!, dissera Ray, quase bufando. E no que mais todo mundo está pensando desde o dia 10 de outubro?
Espero que você tenha razão, Ray, ele pensou, porque ainda falta uma hora e meia para escurecer. Uma hora e meia no mínimo.
Ele baixou a alavanca que abria a porta, e o Homem Esfrangalhado, com o lábio inferior curvado naquele constante sorriso de escárnio, entrou. Ele estava absurdamente magro, o abrigo vermelho imundo pendia do seu corpo como um saco. Nenhum dos normies dentro do ônibus estava particularmente limpo — a higiene já não era prioridade desde l0 de outubro —, mas do Homem Esfrangalhado emanava um fedor podre e intenso que quase fez Clay lacrimejar. Era o cheiro de um queijo forte deixado em uma câmara quente para curar.
O Homem Esfrangalhado se sentou no banco do lado da porta, o que ficava de frente para o assento do motorista, e olhou para Clay. Por um instante, não houve nada além do peso seco dos olhos dele e daquela estranha curiosidade sorridente.
Então Tom falou em uma voz fina e ultrajada que Clay só o ouvira usar uma vez, quando disse: Ah, já chega, pode ir tirando o cavalinho da chuva, para a papa-hóstia gorducha que começou a pregar o sermão do Fim dos Tempos para Alice.
— O que você quer de nós? Você já tem o mundo; o que quer de nós?
A boca arruinada do Homem Esfrangalhado formou a palavra ao mesmo tempo em que Jordan a dizia. Apenas aquela palavra, em um tom monótono e sem emoção.
— Justiça.
— No que diz respeito à justiça — falou Dan —, acho que você nem sabe do que está falando.
O Homem Esfrangalhado respondeu com um gesto, erguendo uma das mãos em direção à estrada de acesso, palma para cima e indicador apontando: Pé na tábua.
Quando o ônibus começou a se mover, a maioria dos fonóides também voltou a andar. Alguns tinham arrumado briga, e pelo retrovisor Clay viu outros voltando para a rodovia pela estrada de acesso da exposição.
— Você está perdendo alguns soldados — disse Clay.
O Homem Esfrangalhado não respondeu em nome do bando. Os olhos dele, apáticos, depois curiosos, depois os dois, continuaram fixos em Clay, que julgava quase sentir aquele olhar caminhando levemente sobre sua pele. Os dedos contorcidos do Homem Esfrangalhado, cinzas de sujeira, estavam no colo do seu jeans azul encardido. Então ele sorriu. Talvez aquilo bastasse como resposta. Dan estava certo, no fim das contas. Para cada fonóide que caía — ou saísse do ar, na língua de Jordan — havia muitos outros. Mas Clay não fazia idéia do que muitos outros significava até meia hora mais tarde, quando a mata se abriu de ambos os lados e eles passaram pelo arco de madeira que dizia BEM-VINDOS À EXPO DOS CONDADOS DO NORTE.
— Bom Deus — falou Dan.
Denise articulou melhor os sentimentos de Clay; ela deu um grito baixinho.
Sentado do outro lado do corredor estreito do ônibus no primeiro banco de passageiros, o Homem Esfrangalhado apenas ficou parado olhando para Clay com a malevolência vaga de uma criança idiota prestes a arrancar as asas de algumas moscas. Gostou?, o sorriso dele parecia dizer. É impressionante, não é? Está todo mundo aqui! É claro que um sorriso daqueles poderia significar aquilo ou qualquer outra coisa. Poderia até significar eu sei o que está no seu bolso.
Além do arco, havia um caminho amplo e uma porção de brinquedos, ambos ainda em construção na época do Pulso, ao que parecia. Clay não sabia quantas tendas de exposição tinham sido montadas, mas algumas haviam sido levadas pelo vento, como as do posto de controle a 10 ou 12 quilômetros atrás, e apenas algumas continuavam de pé, as laterais parecendo respirar na brisa noturna. As Xícaras Malucas ainda estavam inacabadas, assim como a Casa dos Horrores em frente (DESAFIAMOS VOCÊ A estava escrito no único pedaço da fachada erguido; esqueletos dançavam sobre as palavras). Apenas a Roda-gigante e o Sky Coaster do outro lado do que teria sido o caminho principal do parque pareciam terminados e, sem as luzes elétricas para animá-los, Clay os achava medonhos, mais parecidos com instrumentos de tortura gigantes do que com brinquedos. Porém, uma luz estava piscando, ele viu: uma luz de farol, certamente à bateria, bem no topo do Sky Coaster.
Muito além do brinquedo, havia um prédio branco com molduras vermelhas, da largura de uma dúzia de celeiros. Montes de feno tinham sido empilhados nas laterais. Bandeiras americanas, tremulando na brisa noturna, haviam sido fincadas naquele revestimento vagabundo a cada 3 metros. O prédio estava decorado com grinaldas de flâmulas patrióticas e trazia o letreiro EXPO DOS CONDADOS DO NORTE KASHWAKAMAK HALL em tinta azull brilhante.
Mas não foi nada disso que chamou a atenção deles. Entre o Sky Coaster e o Kashwakamak Hall havia vários acres de campo aberto. Clay imaginou que era lá que as grandes multidões se reuniam para as exibições de gado, as corridas de tratores, os shows do último dia da feira, e — é claro — as queimas de fogos que abririam e fechariam a Expo. A área era cercada de postes de luz e mastros com alto-falantes. Agora, aquela esplanada enorme e coberta de grama estava apinhada de fonóides. Eles estavam ombro a ombro e quadril a quadril, seus rostos virados para assistirem à chegada do pequeno ônibus amarelo.
Qualquer esperança que Clay tinha nutrido de encontrar Johnny — ou Sharon — desapareceu num instante. Seu primeiro pensamento foi que devia haver 5 mil pessoas aglomeradas sob aqueles postes de luz apagados. Então viu que eles também haviam transbordado até os estacionamentos adjuntos à área de exposição principal e corrigiu sua estimativa para cima. Oito. Pelo menos 8 mil.
O Homem Esfrangalhado continuou sentado no lugar que pertencia a algum aluno da Escola Primária de Newfield, sorrindo para Clay com os dentes projetando-se do rasgo no lábio. Gostou?, parecia perguntar aquele sorriso, e Clay teve que se lembrar mais uma vez que se podia interpretar de qualquer maneira um sorriso daquele tipo.
— Então, quem vai tocar hoje à noite? Vince Gill? Ou vocês rasparam o cofre e trouxeram Alan Jackson? — Foi Tom quem falou. Ele estava tentando ser engraçado e Clay lhe dava crédito por isso, mas Tom só conseguiu transmitir medo.
O Homem Esfrangalhado ainda estava olhando para Clay, e um vinco começou a aparecer no meio da sua testa, como se algo o intrigasse.
Clay conduziu o microônibus lentamente pelo meio do caminho principal, em direção ao Sky Coaster e à multidão silenciosa além dele. Havia mais corpos ali; eles faziam Clay se lembrar de como você às vezes encontra um monte de insetos mortos no peitoril da janela depois de uma geada inesperada. Ele se concentrou em manter as mãos relaxadas. Não queria que o Homem Esfrangalhado visse os nós dos seus dedos ficarem brancos sobre o volante.
E vá devagar. Tranqüilo e calmo. Ele está sé olhando para você. Quanto aos celulares, em que outra coisa as pessoas estão pensando desde l0 de outubro?
O Homem Esfrangalhado ergueu uma das mãos e apontou um dedo torto e muito gasto para Clay.
— Sem-fo pra você — disse Clay naquela outra voz. — Insanus.
— É, sem-fo-pramim-mim, sem-fo pra nenhum de nós, somos todos palhaços neste ônibus — disse Clay. — Mas você vai dar um jeito nisso, certo?
O Homem Esfrangalhado sorriu, como se concordasse com aquilo... mas a pequena linha vertical ainda estava lá. Como se algo ainda o intrigasse. Talvez algo dando voltas e voltas na mente de Clay Riddell.
Clay ergueu os olhos para o retrovisor à medida que se aproximavam do fim da rua.
— Tom, você me perguntou o que era a Ala Norte — disse ele.
— Desculpe, Clay, mas já não estou muito interessado — disse Tom. — Talvez seja o tamanho do comitê de boas-vindas.
— Não, mas isso é interessante — disse Clay, um pouco exaltado.
— Ok, o que é? — perguntou Jordan. Deus abençoe Jordan. Curioso até o fim.
— As Exposições dos Condados do Norte nunca foram grande coisa no século XX — disse Clay. — Não passavam de feirinhas agro pecuárias cafonas com pinturas, artesanato, produtos e animais lá no Kashwakamak Hall... que é onde eles vão colocar a gente, pelo jeito.
Ele olhou para o Homem Esfrangalhado, mas ele não confirmou nem desmentiu. O Homem Esfrangalhado se limitou a sorrir. A pequena linha vertical desaparecera da sua testa.
— Clay, cuidado — falou Denise com uma voz tensa, controlada.
Ele se virou para olhar pelo párabrisa e pisou no freio. Uma senhora idosa com cortes infeccionados em ambas as pernas saiu cambaleando da multidão silenciosa. Ela contornou a beirada do Sky Coaster, tropeçou nos vários pedaços pré-fabricados da Casa dos Horrores que haviam sido descarregados, mas não montados, na época do Pulso, e então disparou numa corrida desajeitada para cima do ônibus escolar. Quando o alcançou, começou a esmurrar lentamente o párabrisa com as mãos sujas e deformadas pela artrite. O que Clay viu no rosto daquela mulher não era a apatia voraz que ele passara a relacionar com os fõnóides, e sim uma desorientação aterrorizada. E aquilo era familiar. Quem é você?, perguntara a Cabelinho Escuro. A Cabelinho Escuro, que não recebera uma carga direta do Pulso. Quem sou eu?
Nove fonóides em um bem organizado quadrado ambulante vieram atrás da senhora idosa, cujo rosto desvairado estava a menos de um metro e meio do de Clay. A boca da mulher se moveu e ele ouviu quatro palavras, tanto nos seus ouvidos quanto na sua mente:
— Me leve com vocês.
A senhora não vai querer ir para onde nós vamos, pensou Clay.
Então os fonóides a agarraram e levaram-na de volta para a multidão na esplanada. Ela tentou se libertar, mas eles eram implacáveis. Clay viu os olhos dela de relance e pensou que eram os olhos de uma mulher que, se tivesse sorte, estava no purgatório. Era mais provável que fosse o inferno.
Mais uma vez, o Homem Esfrangalhado ergueu a mão, palma para cima e indicador apontando: Andem.
A senhora havia deixado a marca de sua mão, diáfana, mas visível, no párabrisa. Clay olhou através dela e seguiu adiante.
— Enfim — disse Clay —, até 1999, a Expo não era nada demais. Se você vivesse nessa parte do mundo e gostasse de brinquedos e jogos, desses negócios de parque de diversões, tinha que ir até a Freyburg Fair. — Ele ouvia a própria voz como se ela estivesse em uma fita cassete. Falar simplesmente por falar. Aquilo o lembrava dos motoristas dos passeios de Duck Boat em Boston, indicando os vários pontos turísticos. — Então, logo depois da virada do século, a Secretaria Estadual para Assuntos Indígenas fez uma análise territorial. Todo mundo sabia que o terreno da Expo ficava colado à reserva Sockabasin; o que a análise revelou foi que a extremidade norte do Kashwakamak Hall estava na verdade dentro da reserva. Tecnicamente, era território dos índios Micmac. Os donos da Expo não eram idiotas, nem os membros do conselho da tribo Micmac. Eles concordaram em retirar as lojinhas da ala norte do hall e colocar caça-níqueis. De uma hora para outra, a Expo dos Condados do Norte se tornou a maior feira de outono do Maine.
Eles haviam chegado ao Sky Coaster. Clay começou a virar à esquerda e guiar o ônibus por entre a rua e a Casa dos Horrores incompleta, mas o Homem Esfrangalhado fez um gesto com as mãos no ar, com as palmas para baixo. Clay parou. O Homem Esfrangalhado se levantou e virou em direção à porta. Clay baixou a alavanca e ele saiu. Então, virou-se para Clay e fez uma espécie de mesura.
— O que ele está fazendo agora? — perguntou Denise. Ela não conseguia ver de onde estava sentada. Nenhum deles conseguia.
— Ele quer que a gente saia — disse Clay. Ele se levantou. Sentia o celular que Ray o entregara pesar na parte de cima de sua coxa. Se olhasse para baixo, veria a protuberância dele contra o tecido azul do jeans. Clay puxou para baixo a blusa que estava usando, tentando cobri-lo. Um celular, e daí? Todo mundo está pensando neles.
— E nós vamos sair? — Jordan perguntou. Parecia assustado.
— Não temos muita escolha — respondeu Clay. — Vem, gente, vamos para a exposição.
O Homem Esfrangalhado os conduziu em direção à multidão silenciosa. Ela se abriu para eles, formando um corredor estreito — pouco mais que um gargalo — que ia da parte de trás do Sky Coaster até as portas duplas do Kashwakamak Hall. Clay e os demais passaram por um estacionamento repleto de caminhões (EMPR. DE DIVERSÕES NOVA INGLATERRA, pintado nas laterais, junto com o logotipo de uma montanharussa). Então foram engolidos pela turba.
A caminhada parecia interminável para Clay. O cheiro era quase insuportável, intenso e feroz, mesmo com a brisa refrescante levando a primeira camada embora. Estava ciente do movimento das pernas, estava ciente do moletom vermelho do Homem Esfrangalhado à sua frente, mas as portas duplas do hall com suas grinaldas de flâmulas vermelhas, brancas e azuis não pareciam se aproximar. Sentia o cheiro de terra e sangue, urina e merda. Sentia o cheiro de infecções em decomposição, carne queimada, o aroma de ovo podre, de pus secretado. Sentia o cheiro de roupas que apodreciam nos corpos que vestiam. Sentiu o cheiro de outra coisa também — de algo novo. Seria muito fácil chamá-lo de loucura.
Acho que é o cheiro da telepatia. E se for, não estamos preparados para ela. É forte demais para nós. Queima o cérebro de alguma forma, do mesmo jeito que uma corrente muito forte queimaria o circuito elétrico de um carro ou de um...
— Me ajude com ela! — gritou Jordan atrás dele. — Me ajude com ela, ela está desmaiando!
Ele se virou e viu que Denise tinha caído de quatro. Jordan estava na mesma posição do lado dela e passara um dos seus braços pelo pescoço, mas Denise era muito pesada para ele. Tom e Dan não conseguiam se aproximar o suficiente para ajudar. O corredor que cortava a massa de fonóides era muito estreito. Denise levantou a cabeça e, por um instante, seus olhos encontraram os de Clay. O olhar era de atordoada incompreensão, os olhos como os de um bezerro abatido. Ela vomitou uma pasta rala na grama e sua cabeça caiu novamente. O cabelo caiu-lhe sobre o rosto como uma cortina.
— Me ajude! — gritou Jordan novamente. Ele começou a chorar.
Clay voltou e começou a dar cotoveladas nos fonóides para chegar ao outro lado de Denise.
— Saiam da frente! — ele gritou. — Saiam do caminho, ela está grávida, seus idiotas, não estão vendo que ela está grá...
Foi a blusa que ele reconheceu primeiro. A blusa de gola alta e seda branca que ele sempre chamara de blusa de médica de Sharon. De certa forma, ele achava aquela a roupa mais sexy de Sharon, em parte por causa daquela gola alta e chique. Gostava dela nua, mas gostava ainda mais de tocar e apertar seus seios através daquela blusa de gola alta e seda branca. Gostava de endurecer os mamilos até eles ficarem salientes contra o tecido.
Agora a blusa de médica de Sharon estava com listras pretas de sujeira em algumas partes e marrons de sangue em outras. Estava rasgada debaixo do braço. Ela não está tão mal quanto os outros, escrevera Johnny, mas não estava nada bem; certamente não era a Sharon Riddell que saíra para dar aula com sua blusa de médica e saia vermelho-escura, enquanto o ex-marido estava em Boston, prestes a fechar um negócio que poria fim às preocupações financeiras da família e mostraria a ela que todas aquelas reclamações sobre o "hobby caro" dele não tinham passado de medo e má-fé (esse, pelo menos, fora o seu sonho semi-rancoroso). Seu cabelo louro-escuro pendia em fios escorridos. O rosto tinha sido cortado em vários lugares, e metade de uma das orelhas parecia ter sido arrancada; no lugar dela, um buraco coagulado se afundava no lado da cabeça. Algo que Sharon comera, algo escuro, pendia em um coágulo dos dois lados da boca que ele beijara quase todos os dias por quase 15 anos. Ela olhou para Clay, através dele, com aquele meio-sorriso idiota que os fonóides às vezes traziam.
— Clay, me ajude!— quase soluçou Jordan.
Clay acordou. Sharon não estava lá, era disso que ele deveria se lembrar. Sharon não estava lá há quase duas semanas. Desde que tentara fazer uma ligação no celular vermelho de Johnny no dia do Pulso.
— Abra espaço pra mim, sua piranha — disse ele e empurrou de lado a mulher que um dia fora sua esposa. Antes que ela voltasse, Clay tomou o seu lugar. — Esta mulher está grávida; abra espaço pra mim, porra. — Então se agachou, passou o outro braço de Denise pelo pescoço e a ergueu.
— Vá em frente — disse Tom a Jordan. — Deixa comigo, já peguei ela.
Jordan levantou o braço de Denise alto o bastante para Tom passá-lo em volta do próprio pescoço. Ele e Clay a carregaram daquele jeito pelos últimos 80 metros até as portas do Kashwakamak Hall, onde o Homem Esfrangalhado esperava. Àquela altura, Denise murmurava que eles podiam soltá-la, que conseguia andar, que estava bem, mas Tom não queria fazê-lo. Clay tampouco. Se a soltasse, talvez olhasse para trás em busca de Sharon. Não queria fazer isso.
O Homem Esfrangalhado sorriu para Clay e, daquela vez, o sorriso parecia ter mais foco. Era exatamente como se os dois compartilhassem uma piada. Sharon?, pensou ele. Sharon é a piada?
Não parecia ser isso, pois o Homem Esfrangalhado fez um gesto que teria sido bastante familiar a Clay no velho mundo, mas parecia estranhamente fora de lugar naquela situação: mão direita no lado direito do rosto, polegar direito na orelha, dedinho na boca. A mímica do telefone.
— Sem-fò-pravo-você — falou Denise e então, na sua própria voz: — Pare, odeio quando você faz isso!
O Homem Esfrangalhado não deu atenção. Continuou segurando a mão direita no gesto de telefone, polegar na orelha e dedinho na boca, olhando para Clay. Por um instante, Clay teve certeza de que ele também baixou os olhos para o bolso em que o celular estava enfiado. Então Denise repetiu, aquela terrível paródia da velha brincadeira com Johnny-Gee:
— Sem-fo-pravo-você.
O Homem Esfrangalhado imitou uma risada, e sua boca arruinada a tornava medonha. Atrás dele, Clay sentia os olhos do bando como um peso físico.
Então as portas duplas do Kashwakamak Hall abriram sozinhas, e os odores misturados que saíram, embora fracos — fantasmas olfativos de outros anos —, ainda serviam de paliativo para o fedor do bando: temperos, geléias, feno e gado. Também não estava completamente escuro lá dentro; as luzes de emergência a bateria estavam fracas, mas não tinham se apagado por completo. Clay pensou que aquilo era impressionante, a não ser que elas tivessem sido economizadas especialmente para a chegada deles, mas ele duvidava disso. O Homem Esfrangalhado não estava disposto a contar. Apenas sorriu e fez sinal com as mãos para que entrassem.
— Vai ser um prazer, seu doente — disse Tom. — Denise, tem certeza de que consegue andar sozinha?
— Sim. Só tenho que fazer uma coisinha antes. — Ela inspirou e então cuspiu no rosto do Homem Esfrangalhado. — Pronto. Leve isso de volta para Harvard com você, seu merda.
O Homem Esfrangalhado não disse nada. Apenas sorriu para Clay. Dois camaradas que compartilhavam uma piada interna.
Ninguém trouxe nenhuma comida para eles, mas havia um monte de máquinas de salgadinhos, e Dan encontrou um pé-de-cabra no armário do almoxarifado da enorme parte sul do prédio. Os demais estavam parados em volta observando-o arrombar a máquina de doces — É claro que somos loucos, pensou Clay, vamos comer Baby Ruths no jantar e PayDays amanhã no caf é— quando a música começou. E daquela vez não era You Light Up My Fire ou Baby Elephant Walk que saíam dos enormes alto-falantes que circundavam a esplanada lá fora. Era uma música lenta e solene que Clay já tinha ouvido antes, embora não a ouvisse há anos. Ela o encheu de tristeza e fez um arrepio subir pela parte debaixo dos seus braços.
— Oh, meu Deus — falou baixinho Dan. — Acho que é Albinoni.
— Não — disse Tom. — É Pachelbel. O Canon em Ré Maior.
— Sim, é claro — falou Dan, soando constrangido.
— É como se... — começou a falar Denise, então se interrompeu, baixando os olhos para os sapatos.
— O quê? — perguntou Clay. — Pode falar. Você está entre amigos.
— É como o som das memórias — disse ela. — Como se fosse tudo que eles tivessem.
— É verdade — falou Dan. — Imagino que...
— Gente! — chamou Jordan. Estava olhando para fora por uma das janelinhas. Elas eram bem altas, mas ele conseguia alcançá-las, ficando na ponta dos dedos. — Venham ver isso!
Eles se enfileiraram e olharam para a enorme esplanada. A escuridão era quase total. Os alto-falantes e postes de luz agigantavam-se, sentinelas negras contra o céu morto. Mais adiante, havia o vulto em forma de grua do Sky Coaster com sua luz solitária piscando. E na frente dele, bem na frente dele, milhares de fonóides tinham se ajoelhado como muçulmanos prestes a rezar, enquanto Johann Pachelbel enchia o ar com o que poderia ser um substituto da memória. E, quando eles se deitaram, foi como se fossem um só, produzindo um grande e macio som de queda e um deslocamento de ar que fez sacos vazios e copos de refrigerante achatados saírem do chão rodopiando.
— Hora de dormir para todo o exército dos dementes — disse Clay. — Se formos fazer alguma coisa, tem que ser hoje à noite.
— Fazer? O que nós vamos fazer? — perguntou Tom. — As duas portas que tentei abrir estavam trancadas. Tenho certeza de que as outras também vão estar.
Dan ergueu o pé-de-cabra.
— Duvido — disse Clay. — Esse negócio pode funcionar muito bem nas máquinas, mas lembre-se de que este lugar era um cassino. — Ele apontou para a ala norte do hall, luxuosamente acarpetada e cheia de fileiras de caça-níqueis, o aço cromado deles opaco sob as luzes de emergência bruxuleantes. — Acho que você vai descobrir que as portas são à prova de pés-de-cabra.
— E as janelas? — perguntou Dan, então olhou mais de perto e respondeu à própria pergunta. — Jordan, talvez.
— Vamos comer alguma coisa — disse Clay. — Então vamos nos sentar e ficar quietos um pouquinho. Não temos feito muito isso ultimamente.
— E fazer o quê? — perguntou Denise.
— Bem, vocês podem fazer o que quiserem — respondeu Clay. — Eu não desenho há quase duas semanas, e estou sentindo falta. Acho que vou desenhar.
— Mas você não tem papel — contestou Jordan.
Clay sorriu.
— Quando não tenho papel, desenho na cabeça.
Jordan olhou para ele em dúvida, tentando descobrir se estava sendo sacaneado ou não. Quando decidiu que não, falou:
— Isso não pode ser tão bom quanto desenhar no papel, não é?
— Às vezes é até melhor. Em vez de apagar, eu apenas repenso.
Ouviu-se um estrondo, e a porta da máquina de doces abriu.
— Bingo! — exclamou Dan e ergueu o pé-de-cabra sobre a cabeça. — Quem disse que professores universitários não servem para nada no mundo real?
— Olhem só — falou Denise avidamente, ignorando Dan. — Uma prateleira inteira de Júnior Mints! — E caiu dentro.
— Clay? — perguntou Tom.
— Humm?
— Você não viu o seu filho, viu? Ou a sua mulher? Sandra?
— Sharon — disse Clay. — Não vi nenhum dos dois. — Ele olhou em volta do quadril largo de Denise. — Aquilo são Butterfingers?
Meia hora depois eles já haviam comido sua cota de doces e atacado a máquina de refrigerantes. Tentaram abrir as outras portas e descobriram que estavam todas trancadas. Dan tentou usar o pé-de-cabra, mas não conseguiu um ponto de apoio nem mesmo no fundo. Tom achava que, embora as portas parecessem de madeira, muito provavelmente tinham um núcleo de aço.
— E devem ter alarmes também — disse Clay. — É só mexer muito com elas que os guardas da reserva vêm atrás de você.
Em seguida, os quatro sentaram-se em um pequeno círculo no carpete macio do cassino entre os caça-níqueis. Clay se sentou no concreto, recostado nas portas duplas pelas quais o Homem Esfrangalhado os havia conduzido com aquele gesto zombeteiro — Vocês primeiro, nos vemos pela manhã.
Os pensamentos de Clay queriam voltar àquele outro gesto zombeteiro — a mímica de telefone com o polegar e o dedinho —, mas ele não deixou, pelo menos não diretamente. A experiência lhe havia ensinado há muito tempo que a melhor maneira de abordar aquele tipo de coisa era pela porta dos fundos. Então Clay recostou a cabeça na madeira com o núcleo de aço escondido dentro e fechou os olhos, visualizando uma splash page. Não uma página do Dark Wanderer — o Dark Wanderer estava acabado e ninguém sabia disso melhor do que ele —, mas de uma nova revista. Vamos chamá-la de Celular, na falta de um título melhor; uma empolgante saga apocalíptica sobre as hordas dos fonóides contra os últimos normies remanescentes...
Porém, aquilo não estava correto. Parecia correto se você olhasse de relance, do mesmo jeito que as portas daquele lugar pareciam de madeira, mas não eram. As tropas dos fonóides tinham que estar muito reduzidas — tinham que estar. Quantos foram perdidos no surto de violência que se seguiu imediatamente ao Pulso? Metade? Ele recordou a fúria daquele surto e pensou: Talvez mais. Talvez 60 ou até 70%. E mais as perdas devido a ferimentos graves, infecções, exposição às intempéries, mais violência e pura burrice. Além, é claro, dos exterminadores de bandos; quantos eles teriam eliminado? Quantos bandos grandes como aquele ainda restavam?
Clay pensou que talvez descobrissem no dia seguinte, se todos os que sobraram se reunissem para um grande espetáculo de execução dos loucos. Essa.informação seria de muita utilidade para eles.
Não importa. Simplifique. Se você quiser que sua splash tenha um pano de fundo, a situação deve ser simplificada até caber em um único quadro narrativo. Aquela era uma regra não-escrita. A situação dos fonóides poderia ser resumida em duas palavras: baixas graves. Eles pareciam muitos — porra, eles pareciam uma multidão —, mas os pombos selvagens também devem ter parecido muitos até o fim. Porque viajavam em bandos de escurecer o céu até o fim. O que ninguém percebeu é que havia cada vez menos daqueles bandos gigantes. Quer dizer, até todos terem sido exterminados. Extintos. Finito. Tchau tchau.