Celular
— Bem, imagino que tenha um monte…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— É George Gendron — disse Clay. Ele conhecia a mochila vermelha de George tão bem quanto a azul com tiras espelhadas de Johnny. — Ele e Johnny construíram uma vila de peregrinos juntos para o projeto de História da quarta série. Tiraram dez. George não pode estar morto. — Mas era quase certo que estivesse. Clay se sentou no alpendre, que rangeu daquele jeito familiar com o seu peso, e colocou o rosto entre as mãos.
A prefeitura ficava no cruzamento da Pond com a Mill Street, em frente à praça municipal e à lagoinha que dava nome à cidadezinha. O estacionamento estava quase vazio, exceto pelas vagas reservadas para os funcionários, pois ambas as ruas que levavam ao grande prédio vitoriano estavam engarrafadas com veículos parados. As pessoas haviam chegado o mais perto possível e então andado o restante do caminho. Para os retardatários como Clay, Tom e Jordan, o progresso era lento. A duas quadras da prefeitura, nem mesmo os gramados estavam livres de carros. Meia dúzia de casas tinham queimado. Algumas ainda estavam fumegantes.
Clay havia coberto o corpo do menino na Livery Lane — tinha sido de fato George, — o amigo de Johnny —, mas eles não podiam fazer nada pelos vários mortos inchados e putrefatos que encontraram enquanto seguiam lentamente em direção à prefeitura de Kent Pond. Havia centenas deles, porém, no escuro, Clay não viu ninguém conhecido. Talvez também não tivesse visto se fosse dia. Os corvos tiveram trabalho de sobra na última semana e meia.
A mente de Clay continuava voltando a George Gendron, que fora encontrado de bruços em uma poça coagulada de sangue e folhas. No bilhete, Jordan havia dito que George e Mitch, o outro amigo que fizera naquele ano, na sétima série, tinham estado com ele. Então, o que quer que tenha acontecido com George deve ter acontecido depois de Johnny colar o bilhete na porta de proteção e os três saírem da casa dos Riddell. E, uma vez que apenas George estava em meio àquelas folhas ensangüentadas, Clay poderia supor que Johnny e Mitch haviam saído da Livery Lane vivos.
É claro que supor é coisa de gente idiota, pensou ele. O evangelho segundo Alice Maxwell, que ela descanse em paz.
E era verdade. O assassino de George pode ter perseguido os dois e os pegado em algum outro lugar. Na Main Street, ou na Dugway Street, talvez próximo ao Laurel Way. Tê-los furado com um cutelo ou com duas antenas de carro...
Eles chegaram à entrada do estacionamento da prefeitura. À esquerda, havia uma picape que tentara alcançar o prédio por terra e acabou atolada em uma vala pantanosa a menos de um metro e meio de um pedaço de asfalto civilizado (e praticamente deserto). À direita, havia uma mulher com a garganta rasgada e o rosto transformado em uma massa de buracos pretos e filetes de sangue pelas bicadas dos pássaros. Ainda estava com o boné de beisebol dos Portland Sea Dogs e a bolsa pendurada no braço.
Os assassinos não estavam mais interessados em dinheiro.
Tom colocou a mão no ombro de Clay, assustando-o.
— Pare de pensar no que pode ter acontecido.
— Como você sabia...
— Não preciso saber ler mentes. Se você encontrar seu filho, o que eu acho difícil, mas se encontrar tenho certeza de que ele vai lhe contar tudo. Se não for assim... tem alguma importância?
— Não. É claro que não. Mas Tom... eu conhecia George Gendron. As crianças costumavam chamá-lo de Connecticut às vezes, por que a família dele veio de lá. Ele comia cachorros-quentes e hambúrgueres no nosso jardim. O pai dele costumava ir lá em casa para assistir aos jogos dos Patriots comigo.
— Eu sei — disse Tom. — Eu sei. — E então com rispidez para Jordan: — Pare de olhar para a mulher, Jordan, ela não vai se levantar e sair andando.
Jordan o ignorou e continuou olhando para o cadáver bicado pelos corvos com o boné dos Sea Dogs.
— Os fonóides começaram a cuidar uns dos outros assim que readquiriram algum nível básico de programação — disse ele. — Mesmo quando apenas os retiravam debaixo das arquibancadas e jogavam no pântano, estavam tentando fazer alguma coisa. Mas eles não tomam conta dos nossos. Deixam os nossos apodrecendo em qualquer lugar. — Ele se virou para encarar Clay e Tom. — Não importa o que digam ou prometam, não podemos confiar neles — disse ele com raiva.
— Não podemos, certo?
— Concordo plenamente — disse Tom.
Clay assentiu.
— Eu também.
Tom meneou a cabeça em direção à prefeitura, onde algumas luzes de emergência com baterias de longa duração ainda estavam acesas, jogando um brilho amarelo doentio sobre os carros dos empregados, que estavam parados sobre rios de folhas.
— Vamos entrar lá e ver o que eles deixaram para trás.
— Sim, vamos. — disse Clay. Tinha certeza de que Johnny não estaria lá, mas uma pequena parte dele, pequena e infantil, que nunca se dá por vencida, ainda esperava ouvir um grito de "papai" e ver o filho pular nos seus braços, uma coisa viva, com peso de verdade em meio àquele pesadelo.
Eles não tiveram mais dúvidas de que a prefeitura estava vazia quando viram o que estava pintado nas portas duplas. Sob o brilho fraco das luzes de emergência, às demãos grossas e desleixadas de tinta vermelha pareciam mais sangue seco:
KASHWAK=SEM-FO
— A que distância fica essa Kashwak? — perguntou Tom.
Clay calculou de cabeça.
— Eu diria uns 130 quilômetros, quase direto para o norte. Você pega a rota 160 a maior parte do caminho, mas quando chega ao TR não sei mais.
Jordan perguntou:
— O que exatamente é um TR?
— TR-90 é um território não-incorporado. Existem algumas vilas, algumas pedreiras e uma reserva minúscula da tribo Micmac mais ao norte, mas é quase tudo floresta, urso e veado. — Clay mexeu na maçaneta e a porta se abriu. — Vou dar uma olhada neste lugar. Vocês realmente não precisam entrar se não quiserem... estão dispensados.
— Não, nós vamos entrar — disse Tom. — Não vamos, Jordan?
— Com certeza. — Jordan suspirou como um garoto confrontado com uma tarefa possivelmente difícil. Então sorriu. — Ei, luzes elétricas. Quem sabe quando vamos ver uma dessas de novo?
Nenhum Johnny Riddell saiu em disparada de um quarto escuro para se jogar nos braços do pai, mas a prefeitura ainda recendia a comida, que tinha sido preparada nas grelhas a gás e hibachis pelas pessoas que haviam se reunido lá depois do Pulso. Fora do grande salão principal, no mural longo em que geralmente ficavam notícias sobre a cidade e seus próximos eventos, talvez duzentos bilhetes haviam sido afixados. Clay, quase ofegante de tensão, começou a examiná-los com o fervor de um estudioso que acredita ter encontrado o evangelho perdido de Maria Madalena. Tinha medo do que poderia encontrar e do que poderia não encontrar. Tom e Jordan se retiraram educadamente para o salão de reuniões principal, que ainda estava entulhado de restos dos refugiados. Aparentemente eles tinham passado várias noites ali, esperando um resgate que nunca chegou.
Nos bilhetes afixados, Clay viu que os sobreviventes haviam começado a acreditar que um resgate não era a única esperança. Por que aquela cidadezinha em especial, quando todo o TR-90 (certamente os quadrantes norte e oeste) não tinha cobertura de transmissão e recepção para celulares? Os bilhetes no mural não deixavam isso claro. A maior parte parecia supor que qualquer pessoa que os lesse não precisaria de explicações; era um caso de "todo mundo sabe, todo mundo está fazendo". E mesmo o mais claro dos correspondentes tinha obviamente lutado para manter o equilíbrio entre o horror e o entusiasmo. A maioria das mensagens não passava de siga a Estrada de Tijolos Amarelos em direção a Kashwak e à salvação o mais rápido possível.
Quase no fim do mural, com a metade escondida por um bilhete de íris Nolan, uma moça que Clay conhecia muito bem (ela havia sido voluntária na pequena biblioteca da cidade), ele viu uma folha com o garrancho redondo e familiar do filho e pensou: Oh, bom Deus, obrigado. Muito obrigado. Arrancou-o da parede, tomando cuidado para não rasgá-lo.
A data no bilhete era 3 de outubro. Clay tentou se lembrar de onde estivera na noite de 3 de outubro, sem muito sucesso. Teria sido no celeiro em North Reading, ou no Sweet Valley Inn, perto de Methuen? Achava que era o celeiro, mas não conseguia ter certeza absoluta — estava tudo embolado e, se ele pensasse demais, começava a parecer que o homem com as lanternas nos lados da cabeça era o mesmo que o rapaz brandindo as antenas de carro; que o Sr. Ricardi tinha se matado engolindo vidro quebrado em vez de se enforcado; e que tinha sido Alice no jardim de Tom, comendo pepinos e tomates.
— Pare — sussurrou ele e se concentrou no bilhete. Tinha menos erros de ortografia e estava um pouco mais bem redigido, mas o sofrimento nele era inconfundível.
3 de out. Querido papai,
Espero que esteja vivo e que receba esse bilhete. Eu e Mitch chegamos bem, mas Hughie Darden pegou George, e acho que matou ele. Eu e Mitch conseguimos correr mais rápido. Fiquei achando que a culpa era minha, mas Mitch disse você não tinha como saber que ele era um Fonóide como os outros e a culpa não é sua.
Papai, agora vem o pior. Mamãe é um deles. Eu a vi com um dos "bandos" hoje. (É assim que estão chamando eles, bandos.) Ela não está tão mal quanto os outros, mas sei que se saísse ela nem ia me reconhecer e me mataria assim que me visse. SE VOCÊ A VIR, NÃO SE DEIXE ENGANAR, SINTO MUITO MAS É VERDADE.
Estamos indo para Kashwak (é para o norte) amanhã ou depois de amanhã, a mãe de Mitch está aqui e eu estou morrendo de inveja dele. Papai, eu sei que você não tem um celular e todo mundo sabe que Kashwak é um lugar seguro. Se você receber esse bilhete, POR FAVOR VENHA ME BUSCAR.
Eu te amo de todo Coração,
Seu filho,
John Gavin Riddell
Mesmo depois da notícia sobre Sharon, Clay estava agüentando firme até chegar ao Eu te amo de todo Coração. Talvez tivesse agüentado firme do mesmo jeito, não fosse por aquele C maiúsculo. Ele beijou a assinatura do filho de 12 anos, olhou para o mural com olhos que tinham se tornado inconfiáveis — as coisas se duplicaram, triplicaram e então se separaram completamente — e soltou um grito rouco de dor. Tom e Jordan vieram correndo.
— O que foi, Clay? — perguntou Tom. — O que aconteceu? —
Ele viu a folha de papel, uma página amarela com pautas, arrancada de um bloco de anotações, e a pegou das mãos de Clay. Ele e Jordan passaram os olhos por ela rapidamente.
— Eu vou para Kashwak — disse Clay com a voz rouca.
— Clay, não acho que essa seja uma boa idéia — disse Jordan, com cautela. — Levando em consideração o que nós fizemos na Academia Gaiten.
— Não me importo. Eu vou para Kashwak. Vou encontrar meu filho.
Os refugiados que haviam se abrigado na prefeitura de Kent Pond deixaram uma boa quantidade de suprimentos para trás quando desfizeram o acampamento, provavelmente em massa, para o TR-90 e Kashwak. Clay, Tom e Jordan fizeram uma refeição que consistia em pão dormido com salpicão de frango enlatado e salada de frutas enlatada de sobremesa.
Quando estavam terminando, Tom se inclinou para Jordan e murmurou alguma coisa. O menino assentiu.
— Você nos daria licença por alguns minutos, Clay? Jordan e eu precisamos ter uma conversinha.
Clay assentiu. Quando eles foram embora, ele abriu outra lata de salada de frutas e releu a carta de Johnny nove ou dez vezes. Estava bem perto de memorizá-la. Lembrava-se da morte de Alice com a mesma clareza, mas aquilo já parecia ter acontecido em outra vida, e a uma versão diferente de Clayton Riddell. Um rascunho anterior, por assim dizer.
Ele terminou a refeição e guardou a carta assim que Tom e Jordan voltaram do hall, onde tinham feito o que Clay imaginava que advogados chamavam de consulta paralela, na época em que havia advogados. Tom estava mais uma vez com o braço em volta dos ombros estreitos de Jordan. Nenhum dos dois parecia feliz, mas ambos pareciam calmos.
— Clay — começou a falar Tom —, nós conversamos sobre o assunto e...
— Vocês não querem ir comigo. Entendo perfeitamente.
Jordan falou:
— Sei que ele é seu filho e tudo, mas...
— E sabe que eu sou a única coisa que lhe restou. A mãe dele... — Clay riu, uma única risada desprovida de humor. — A mãe dele. Sharon. É irônico. Depois de tanto me preocupar com Johnny recebendo uma transmissão daquela maldita cascavel vermelha. Se tivesse que escolher um, escolheria Sharon. — Pronto, ele colocou para fora. Como um pedaço de carne preso na garganta que estava ameaçando sufocá-lo. — E sabe como estou me sentindo? Como se tivesse oferecido um pacto ao diabo, e o diabo tivesse vindo me atender.
Tom ignorou aquilo. Quando falou, foi com cautela, como se estivesse com medo de explodir Clay como uma mina terrestre não detonada.
— Eles nos odeiam. Começaram odiando todo mundo, e então progrediram até odiarem só a gente. O que quer que esteja acontecendo lá em Kashwak, se é idéia deles, boa coisa não pode ser.
— Se eles estão se encaminhando para um nível superior, talvez cheguem ao estágio de viva-e-deixe-viver — disse Clay. Aquilo era inútil, com certeza os dois entendiam isso. Ele tinha que ir.
— Duvido — disse Jordan. — Lembra aquele negócio sobre um corredor conduzindo ao matadouro?
— Clay, nós somos normies, esse é o primeiro problema — disse Tom. — A gente queimou um bando deles. Esse é o segundo e o terceiro problema juntos. Viva e deixe viver não se aplica no nosso caso.
— E por que deveria? — acrescentou Jordan. — O Homem Esfrangalhado diz que somos loucos.
— E que não devemos ser tocados — disse Clay. — Então eu vou ficar bem, certo?
Depois disso, não parecia haver mais nada a dizer.
Tom e Jordan decidiram pegar o caminho para o oeste. Atravessaram New Hampshire até Vermont, deixando KASHWAK = SEM-F0 para trás — e para além do horizonte — o mais rápido possível. Clay disse que a rota 11, que fazia um entroncamento em Kent Pond, serviria tanto para ele quanto para os dois como ponto de partida.
— Ela vai me levar para o norte até a 160 — disse ele —, e vocês podem segui-la até Laconia, no meio de New Hampshire. Não é exatamente uma reta, mas vocês não têm nenhum avião para pegar, não é mesmo?
Jordan enterrou as bases das mãos nos olhos, os esfregou e então tirou o cabelo de cima da testa, um gesto que Clay já conhecia muito bem — significava cansaço e distração. Ele sentiria falta daquilo. Sentiria falta de Jordan. E mais ainda de Tom.
— Gostaria que Alice ainda estivesse aqui — disse Jordan. — Ela convenceria você a desistir disso.
— Eu duvido — disse Clay. Ainda assim, desejava de todo coração que Alice pudesse ter tido a oportunidade. Desejava de todo coração que Alice pudesse ter tido a oportunidade de fazer muitas coisas. Quinze anos não era idade para se morrer.
— Seus planos me lembram do quarto ato de Júlio César — disse Tom. — No quinto ato todos se matam.
Eles estavam contornando (e às vezes escalando) os carros parados que congestionavam a Pond Street. As luzes de emergência da prefeitura morriam lentamente às suas costas. Diante deles, o semáforo apagado que marcava o centro da cidade balançava no vento fraco.
— Não seja tão pessimista, porra — disse Clay. Ele prometera a si mesmo não ficar irritado, se pudesse evitar, não queria se separar dos amigos daquela forma, mas sua determinação estava sendo testada.
— Desculpe-me por estar cansado demais para torcer — disse Tom. Ele parou ao lado de uma placa que dizia ENTRONCAMENTO ROTA 11 3KM. — E, para ser franco, por estar triste em perdê-lo.
— Sinto muito, Tom.
— Se eu achasse que existe uma chance em cinco de você ter um final feliz... diabos, uma em cinqüenta... bem, deixa pra lá. — Tom jogou a luz da lanterna sobre Jordan. — E você? Algum último argumento contra esta loucura?
Jordan refletiu, então balançou a cabeça lentamente.
— O Diretor me disse uma coisa certa vez — falou ele. — Você quer ouvir?
Tom prestou uma continência irônica com a lanterna. O facho de luz resvalou pelo letreiro do cinema Ioka, que estava passando o novo filme do Tom Hanks, e pela farmácia ao lado.
— Manda ver.
— Ele disse que a mente pode calcular, mas o espírito deseja e o coração sabe o que o coração sabe.
— Amém — disse Clay. Ele falou com muita brandura.
Eles seguiram na direção leste, pela Market Street, que também era a rota 11, por 3 quilômetros. Depois do primeiro quilômetro e meio, as calçadas terminaram e começaram as fazendas. No fim da segunda delas, navia outro semáforo apagado e uma placa que marcava o entroncamento com a rota 11. Três pessoas estavam sentadas lá, enfiadas até o pescoço em sacos de dormir na encruzilhada. Clay reconheceu uma delas assim que a iluminou com o facho da lanterna: um senhor idoso com um rosto longo e inteligente e cabelos grisalhos amarrados em um rabo-de-cavalo. O boné dos Miami Dolphins que o outro homem estava usando também parecia familiar. Então, Tom jogou a luz sobre a mulher ao lado do Sr. Rabo-de-cavalo e disse:
— Você.
Clay não tinha como saber se ela estava usando uma camisa Harley-Davidson com as mangas cortadas, o saco de dormir estava muito erguido para tanto, mas sabia que havia uma na pequena pilha de mochilas perto da placa da rota 11 se ela não estivesse. Do mesmo jeito que sabia que a mulher estava grávida. Tinha sonhado com aqueles dois no Whispering Pines Motel, duas noites antes de Alice ser morta. Sonhara com eles no campo longo, sob os refletores, em pé nas plataformas.
O homem de cabelo grisalho se levantou, deixando o saco de dormir deslizar pelo corpo. As provisões deles incluíam rifles, mas ele levantou as mãos para mostrar que estavam vazias. A mulher fez o mesmo, e quando o saco de dormir caiu aos seus pés, não houve dúvidas quanto à sua gravidez. O cara com o boné dos Dolphins era alto e tinha uns 40 anos. Ele também ergueu as mãos. Os três ficaram daquele jeito por alguns segundos sob a luz das lanternas, e então o homem grisalho tirou um par de óculos com armação preta do bolso da frente da camisa amarrotada e o colocou. A respiração dele fazia nuvens brancas no ar noturno gelado, subindo até a placa da rota 11, onde setas apontavam para o oeste e para o norte.
— Ora, ora — disse ele. — O Reitor de Harvard disse que vocês provavelmente viriam por este caminho, e cá estão. É um cara esperto esse Reitor de Harvard, embora seja um pouquinho jovem para o cargo e, na minha opinião, devesse fazer uma plástica antes de ir encontrar doadores generosos em potencial.
— Quem é você? — perguntou Clay.
— Tire essa luz da minha cara, jovem, e ficarei feliz em lhe dizer.
Tom e Jordan baixaram as lanternas. Clay também baixou a dele, mas manteve a mão na coronha do calibre de Beth Nickerson.
— Sou Daniel Hartwick, de Haverhill, Mass — disse o homem grisalho. — A jovem dama é Denise Link, também de Haverhill. O cavalheiro à direita dela é Ray Huizenga, de Groveland, uma cidade vizinha.
— Prazer — disse Ray Huizenga. Ele fez uma pequena mesura que era ao mesmo tempo engraçada, charmosa e desajeitada. Clay deixou a mão soltar a coronha da arma.
— Mas nossos nomes não têm mais importância — disse Daniel Hartwick. — O que importa é o que somos, pelo menos no que diz respeito aos fonóides. — O homem lançou um olhar grave para eles. — Somos loucos. Como vocês.
Denise e Ray improvisaram uma pequena refeição em um fogareiro a gás ("Essas salsichas enlatadas não ficam tão ruins se você as ferver à vera", disse Ray) enquanto eles conversavam. Quer dizer, enquanto Dan falava a maior parte do tempo. Ele começou dizendo que eram 2h20 da manhã, e que às três queria estar de volta à estrada com o seu "corajoso grupinho". Disse que queria fazer o maior número possível de quilômetros antes de o dia nascer, quando os fonóides começavam a perambular.
— Porque eles não saem à noite — disse ele. — Pelo menos isso temos a nosso favor. Mais tarde, quando a programação deles estiver completa, ou perto do fim, talvez consigam sair, mas...
— O senhor concorda que é isso que está acontecendo? — perguntou Jordan. Pela primeira vez desde que Alice morrera, parecia empolgado. Ele agarrou o braço de Dan. — O senhor concorda que eles estão reiniciando, como computadores cujos discos rígidos foram...
— ... apagados, sim, sim — falou Dan, como se aquilo fosse a coisa mais elementar do mundo.
— O senhor é... o senhor era... algum tipo de cientista? — perguntou Tom.
Dan sorriu para ele.
— Eu era todo o departamento de sociologia da Escola de Artes e Tecnologia de Haverhill — disse ele. — Sou o pior pesadelo do Reitor de Harvard, se ele tiver um.
Dan Hartwick, Denise Link e Ray Huizenga tinham destruído não só um, mas dois bandos. Haviam topado com o primeiro por acidente, nos fundos de um ferro-velho de Haverhill, quando o grupo deles contava com meia dúzia de pessoas e eles estavam tentando achar um jeito de sair da cidade. Aquilo fora dois dias depois da transmissão do Pulso, quando o povo dos celulares ainda era composto de fonáticos confusos e propensos a matar uns aos outros tanto quanto qualquer normie que vissem pelo caminho. Aquele primeiro tinha sido um bando pequeno, apenas uns 75, e eles usaram gasolina.
— Da segunda vez, em Nashua, usamos dinamite que arranjamos no galpão de um canteiro de obras — falou Denise. — Já tínhamos perdido Charlie, Ralph e Arthur àquela altura. Ralph e Arthur resolveram seguir sozinhos. Charlie... o pobre Charlie teve um enfarto. De qualquer forma, Ray sabia manipular a dinamite, da época em que ele trabalhava como construtor de estradas.
Ray, agachado sobre o fogareiro e mexendo os feijões ao lado das salsichas, ergueu a mão livre e acenou.
— Depois disso — disse Dan Hartwick —, começamos a encontrar aquelas mensagens que diziam Kashwak=Sem-Fo. Aquilo nos soou bem, não foi, Denni?
— Pode crer — falou Denise. — Um, dois, três, salve todos. Estávamos indo para o norte, assim como vocês, e quando começamos a ver aquelas mensagens, seguimos para lá mais rápido. Eu fui a única que não caiu de amores pela idéia, porque perdi meu marido durante o Pulso. Por conta daqueles desgraçados, meu filho vai crescer sem pai. — Ela viu Clay se retrair e disse: — Desculpe. Sabemos que seu filho foi para Kashwak.
Clay ficou boquiaberto.
— Ah, sim — disse Dan, pegando um prato assim que Ray começou a distribuí-los. — O Reitor de Harvard sabe de tudo, vê tudo, tem dossiês sobre tudo... ou quer que pensemos assim. — Ele piscou para Jordan, que, surpreendentemente, abriu um sorriso.
— Dan me convenceu — falou Denise. — Algum grupo terrorista, ou talvez apenas uma dupla de malucos inspirados trabalhando em uma garagem, desencadeou essa coisa, mas ninguém sabia que chegaria a este ponto. Os fonóides estão somente fazendo a parte deles. Não eram responsáveis quando eram lunáticos, e não são exatamente responsáveis agora, porque...
— Porque estão sob algum imperativo coletivo — disse Tom. — Como uma migração.
— É um imperativo coletivo, mas não é migração — disse Ray, sentando-se com seu prato. — Dan diz que é pura sobrevivência. E acho que ele tem razão. O que quer que seja, temos que encontrar um lugar que sirva de abrigo para a tempestade. Sacou?
— Os sonhos começaram a surgir depois que queimamos o primeiro bando — falou Dan. — Sonhos poderosos. Ecce homo insanuss, típico de Harvard. Então, depois que explodimos o bando de Nashua, o Reitor de Harvard apareceu pessoalmente com uns quinhentos dos seus amigos mais íntimos. — Ele comia com mordidas rápidas e bem-educadas.
— E deixaram um monte de mini systems derretidos em frente à sua porta — disse Clay.
— Alguns estavam derretidos — disse Denise. — A maioria que recebemos estava aos pedaços. — Ela sorriu. Era um fiapo de sorriso. —
Mas tudo bem. Eles têm um péssimo gosto musical.
— Vocês o chamam de Reitor de Harvard, nós o chamamos de Homem Esfrangalhado — disse Tom. Ele colocara o prato de lado e estava abrindo a mochila. Fuçou dentro dela e tirou o desenho que Clay fizera no dia em que o Diretor tinha sido obrigado a se matar.
Denise arregalou os olhos. Ela passou o desenho para Ray Huizenga, que assobiou.
Dan o pegou por último e ergueu os olhos para Tom com respeito renovado.
— Você desenhou isso?
Tom apontou para Clay.
— Você é muito talentoso — falou Dan.
— Eu fiz um curso — disse Clay. — Como Desenhar Fofinho. —
Virou-se para Tom, que também guardava os mapas na mochila. —
Qual a distância entre Gaiten e Nashua?
— Uns 50 quilômetros, no máximo.
Clay assentiu e voltou a olhar para Dan Hartwick.
— E ele falou com o senhor? O cara de casaco vermelho?
Dan olhou para Denise e ela desviou o olhar. Ray voltou a atenção para o seu fogareiro — provavelmente para fechá-lo e guardá-lo na mochila — e Clay entendeu.
— Através de qual de vocês ele falou?
— De mim — respondeu Dan. — Foi horrível. Já aconteceu com você?
— Já. Dá pra evitar, mas não se você quiser saber o que ele está pensando. Você acha que ele faz isso para mostrar como é forte?
— Provavelmente — disse Dan —, mas não acho que seja o único motivo. Acho que eles não conseguem falar. Conseguem vocalizar, e tenho certeza de que pensam... embora não como antes, seria um erro terrível imaginar que eles têm pensamentos humanos... mas não creio que consigam produzir palavras.
— Mesmo assim... — disse Jordan.
— Mesmo assim... — concordou Dan. Ele olhou para o relógio, e aquilo levou Clay a olhar para o seu. Já eram 2h45.
— Ele nos mandou ir para o norte — disse Ray. — Disse Kashwak=Sem-Fo. Falou que já não iríamos mais incendiar bandos porque eles estavam colocando guardas...
— Sim, nós vimos alguns em Rochester — disse Tom.
— E vocês viram Kashwak=Sem-Fo escrito em vários lugares.
Eles assentiram.
— Pensando simplesmente como sociólogo, comecei a questionar aquelas mensagens — falou Dan. — Não a maneira como elas começaram. Estou certo de que as primeiras mensagens Sem-Fo foram escritas logo depois do Pulso, por sobreviventes que escolheram um lugar que, por não ter cobertura celular, seria o melhor refúgio do mundo. O que questionei foi como a idéia, e a pichação, pôde se espalhar tão depressa em uma sociedade caoticamente fragmentada, em que todas as formas de comunicação, exceto a fala e a escuta, é claro, tinham entrado em colapso. A resposta me pareceu clara, uma vez que admiti que uma nova forma de comunicação, disponível apenas para um determinado grupo, havia entrado em cena.
— Telepatia — Jordan quase sussurrou a palavra. — Eles. Os fonóides. Eles querem que a gente vá para o norte, até Kashwak. — Ele lançou os olhos aterrorizados para Clay. — É mesmo um corredor de matadouro. Clay, você não pode ir pra lá! É exatamente isso que o Homem Esfrangalhado quer!
Antes que Clay pudesse responder, Dan Hartwick voltou a falar. Ele o fazia com a arrogância natural de um professor: dissertar era sua responsabilidade, interromper, seu privilégio.
— Desculpem-me, mas infelizmente tenho que apressar as coisas. Temos algo para mostrar a vocês. Algo que o Reitor de Harvard exigiu que mostrássemos a vocês, na verdade...
— Em sonho ou pessoalmente? — perguntou Tom.
— Em sonho — falou baixinho Denise. — Só o vimos em pessoa uma vez, desde que queimamos o bando em Nashua, e de longe.
— Inspecionando a gente — disse Ray. — É o que eu acho.
Dan esperou com uma expressão de paciência irritada o diálogo terminar. Quando terminou, ele prosseguiu.
— Decidimos obedecer, já que a coisa estava no nosso caminho...
— Então vocês estão indo para o norte? — Foi Clay quem interrompeu daquela vez.
Dan, parecendo mais irritado, deu uma outra olhadela rápida no relógio.
— Se você olhar com atenção para aquela placa, vai ver que ela oferece uma opção. Pretendemos ir para o oeste, não para o norte.
— É isso aí, porra — murmurou Ray. — Eu posso ser burro, mas não sou maluco.
— O que vou mostrar a vocês será para o nosso bem, e não para o deles — falou Dan. — E, por sinal, falar que o Reitor de Harvard, ou o Homem Esfrangalhado, se preferirem, aparece em pessoa é provavelmente um erro. Ele não passa de um pseudópode que a mente coletiva, o bando, envia para negociar com os normies comuns e com os normies loucos, como nós. Minha teoria é que existem bandos em todo o mundo a essa altura, e cada um deles deve ter elegido um desses pseudópodes. Talvez mais de um. Mas não cometa o erro de achar que, ao falar com o Homem Esfrangalhado, está falando com um homem de verdade. Você está falando com o bando.
— Por que você não mostra logo o que ele quer que a gente veja? — perguntou Clay. Ele teve que se esforçar para soar calmo. Sua mente estava esbravejando. O único pensamento claro nela era que, se conseguisse alcançar o filho antes de Johnny chegar a Kashwak — e ao que quer que estivesse acontecendo lá —, talvez ainda houvesse uma chance de salvá-lo. A racionalidade lhe dizia que Johnny provavelmente já estava em Kashwak, mas uma outra voz (e que não era de todo irracional) dizia que algo poderia ter atrasado o filho e o grupo com o qual estava viajando. Ou talvez tenham ficado com medo. Era possível. Era até possível que nada mais terrível do que segregação estivesse acontecendo no TR-90, que o povo dos celulares estivesse apenas criando uma reserva para normies. No fim das contas, ele imaginava que era como Jordan tinha dito, citando o Diretor Ardal: a mente pode calcular, mas o espírito deseja.
— Venha por aqui — falou Dan. — É perto.
Ele pegou uma lanterna e começou a andar até o entroncamento da rota 11-Norte com o facho de luz apontado para os pés.
— Perdoem-me por não ir junto — disse Denise. — Eu já vi. Uma vez é o suficiente.
— Acho que era para vocês gostarem disso, de certa forma — falou Dan. — É claro que também serve para frisar, para o meu pequeno grupo e para o seu, que os fonóides estão no poder agora, e que devemos obedecer-lhes. — Ele parou. — Chegamos. Neste sonho em particular, o Reitor de Harvard fez questão de que todos víssemos o cachorro, para que não fôssemos para a casa errada. — O facho de luz revelou uma caixa de correio com um collie pintado na lateral. — Sinto muito que Jordan tenha que ver isto, mas talvez seja melhor vocês saberem com quem estão lidando. — Ele ergueu mais a luz. Ray juntou o facho da sua lanterna ao de Dan. Eles iluminaram a entrada de uma modesta casa de madeira de um andar, assentada em cima de um pequeno jardim.
Gunner havia sido crucificado entre a janela da sala de estar e a porta da frente. Estava nu, exceto por uma cueca samba-canção manchada de sangue. Pregos grandes o bastante para serem pregos de linha projetavam-se de suas mãos, pés, antebraços e joelhos. Talvez fossem pregos de linha, pensou Clay. Sentado com as pernas abertas aos pés de Gunner estava Harold. Como Alice quando eles a conheceram, Harold estava com um babador de sangue, mas o dele não vinha do nariz. A cunha de vidro que usara para cortar a garganta depois de crucificar seu colega de corridas ainda cintilava em uma de suas mãos.
Um pedaço de papelão estava amarrado em volta do pescoço de Gunner, com três palavras rabiscadas em letras de forma pretas: JUSTITIA EST COMMODATUM.
— Caso vocês não saibam latim... — Dan Hartwick começou a falar.
— Lembro o suficiente do ginásio para ler o que está escrito — disse Tom. — "Foi feita justiça." Isso foi por terem matado Alice. Por terem ousado tocar um dos intocáveis.
— Exatamente — disse Dan, desligando a lanterna. Ray fez o mesmo. — Também serve de aviso aos outros. E eles não os mataram, embora certamente pudessem tê-lo feito.
— Nós sabemos disso — disse Clay. — Houve retaliação em Gaiten depois que queimamos o bando deles.
— Eles fizeram o mesmo em Nashua — disse Ray em um tom sombrio. — Vou me lembrar dos gritos até a morte. Foi horrível. Essa merda também. — Ele gesticulou em direção ao vulto da casa. — Eles obrigaram o baixinho a crucificar o grandão, e o grandão a ficar parado. E, quando acabou, mandaram o baixinho cortar a própria garganta.
— Igual com o Diretor — disse Jordan, pegando a mão de Clay.
— Esse é o poder da mente deles — disse Ray —, e Dan acha que, em parte, é esse poder que está fazendo todo mundo ir para o norte, até Kashwak... talvez seja por isso que abestávamos indo para o norte, mesmo quando nos convencemos de que era apenas para mostrar isto para vocês e persuadi-los a se juntarem à gente. Sacou?
Clay disse:
— O Homem Esfrangalhado falou a vocês sobre o meu filho?
— Não, mas se tivesse falado com certeza seria para dizer que ele está com os outros normies, e que vocês dois teriam um alegre reencontro em Kashwak — disse Dan. — Quer saber de uma coisa? Pode esquecer aqueles sonhos em que você fica parado em uma plataforma enquanto o Reitor diz à platéia que você é louco. Este fim não é o seu, não pode ser o seu. Tenho certeza de que a essa altura todos os finais felizes possíveis já passaram pela sua cabeça, o principal deles sendo como Kashwak e Deus sabe quantas outras áreas sem cobertura celular são como reservas naturais para os normies, lugares onde as pessoas que não receberam uma transmissão no dia do Pulso serão deixadas em paz. Acho que o que o seu jovem amigo disse sobre o corredor que dá em um matadouro é bem mais provável, mas, mesmo supondo que os normies vão ser deixados em paz lá no norte, você acha que os fonóides vão perdoar gente como a gente? Os exterminadores de bandos?
Clay não tinha resposta para aquilo.
No escuro, Dan olhou mais uma vez para o relógio.
— Já passa das três — disse ele. — Vamos voltar. Denise já deve ter arrumado nossa bagagem a essa altura. Chegou a hora de nos separarmos ou decidirmos seguir juntos.
Mas, quando você fala em seguirmos juntos, você está me pedindo para abandonar meu filho, pensou Clay. E aquilo ele só faria se descobrisse que Johnny-Gee estava morto.
Ou transformado.
— Como você espera ir para o oeste? — perguntou Clay enquanto eles voltavam para a placa do cruzamento. — As noites ainda podem ser nossas por enquanto, mas os dias são deles, e você sabe do que eles são capazes.
— Tenho quase certeza de que podemos evitar que eles entrem na nossa cabeça enquanto estamos acordados — falou Dan. — Dá um pouco de trabalho, mas é possível. Vamos dormir em turnos, pelos menos por enquanto. Tudo depende de ficarmos longe dos bandos.
— O que significa entrar pela região oeste de New Hampshire e seguir para Vermont o mais rápido possível — disse Ray. — Mantendo distância das áreas urbanas. — Ele iluminou Denise, que estava recostada nos sacos de dormir. — Tudo pronto querida?
— Tudo pronto — respondeu ela. — Só queria que vocês me deixassem carregar alguma coisa.
— Você está carregando seu filho — disse Ray carinhosamente.
— Já é o suficiente. E podemos deixar os sacos de dormir para trás.
Dan falou:
— Em alguns lugares, dirigir pode até ser uma boa idéia. Ray acha que algumas das estradas secundárias podem ter até 20 quilômetros livres. Temos bons mapas. — Ele se apoiou em um joelho e colocou a mochila nos ombros, erguendo os olhos para Clay com um meio-sorriso fraco e amargo ao fazê-lo. — Sei que as chances não são boas. Não pense que sou idiota. Mas nós exterminamos dois bandos, matamos centenas deles, e não quero parar em cima de uma daquelas plataformas.
— Temos uma outra coisa a nosso favor — disse Tom. Clay ficou pensando se Tom notou que tinha acabado de se incluir no grupo de Hartwick. Provavelmente sim, ele não era nada bobo. — Eles nos querem vivos.
— Correto — falou Dan. — Temos uma chance de conseguir. Ainda é só o começo para eles, Clay. Eles ainda estão tecendo a teia, e aposto que ainda existem muitos buracos nela.
— Ora, eles ainda nem mudaram de roupa — acrescentou Denise. Clay a admirava. Parecia estar grávida de seis meses, talvez mais, mas era durona. Ele quis que Alice a tivesse conhecido.
— Nós podemos nos safar — falou Dan. — Atravessar a fronteira para o Canadá por Vermont ou Nova York, talvez. Cinco é melhor do que três, mas seis seria melhor do que cinco: três dormem, três vigiam durante o dia, para combater a má telepatia. Nosso pequeno bando. Então, o que me diz?
Clay balançou a cabeça lentamente.
— Vou procurar o meu filho.
— Reconsidere, Clay — disse Tom. — Por favor.
— Deixe-o em paz — falou Jordan. — Ele já se decidiu. — O menino colocou os braços em volta de Clay e o abraçou. — Espero que você o encontre. Mas, mesmo se o encontrar, acho que nunca mais vai achar a gente de novo.
— É claro que vou — disse Clay. Ele beijou Jordan no rosto, então se afastou. —- Vou capturar um telepata e usá-lo como bússola. Talvez o próprio Homem Esfrangalhado. — Ele se virou para Tom e estendeu a mão.
Tom a ignorou e colocou os braços em volta de Clay. Ele o beijou primeiro em uma bochecha e depois na outra.
— Você salvou minha vida — ele sussurrou no ouvido do outro. Seu hálito era quente e fazia cócegas. A bochecha dele raspou a de Clay. — Deixe-me salvar a sua. Venha com a gente.
— Não posso, Tom. Preciso fazer isto.
Tom se afastou e olhou para ele.
— Eu sei — disse. — Sei que você precisa. — Ele secou os olhos. — Droga, eu sou péssimo em despedidas. Não consegui dar adeus nem para a porra do meu gato.
Clay parou do lado da placa e observou as luzes do grupo desaparecerem. Manteve o olhar fixo na de Jordan, e ela foi a última a sumir. Por alguns instantes, ficou sozinha na primeira colina a oeste, uma única centelha no escuro, como se Jordan tivesse parado para olhar para trás. Ela pareceu acenar. Então também desapareceu, e a escuridão ficou completa. Clay suspirou — um som trêmulo, lacrimoso —, colocou a própria mochila nas costas e começou a andar para o norte pelo acostamento de terra da rota 11. Por volta das 3h45, cruzou a divisa da cidade de North Berwick e deixou Kent Pond para trás.
BINGO DO TELEFONE
Não havia motivo para não retomar uma vida mais normal e começar a viajar de dia. Clay sabia que o povo dos celulares não lhe faria mal. Era proibido tocá-lo e eles o queriam em Kashwak. O problema era que ele havia se acostumado à existência noturna. Só preciso de um caixão e de uma capa para me cobrir quando for deitar nele, pensou.
Quando, na manhã seguinte à separação do grupo, a aurora rompeu vermelha e fria, ele estava nos arredores de Springvale. Havia uma casinha, provavelmente uma cabana de caseiro, próxima ao Museu do Madeireiro da cidade. Parecia aconchegante. Clay forçou o cadeado da porta lateral e entrou. Ficou feliz ao encontrar um forno à lenha e uma bomba d'água na cozinha. Havia também uma pequena e organizada despensa, bem fornida e intocada por saqueadores. Ele celebrou essa descoberta com uma tigela grande de mingau de aveia, feito com leite em pó, montes de açúcar e passas salpicadas em cima.
Na despensa, encontrou também bacon e ovos desidratados em embalagens de alumínio, arrumadinhos na prateleira como se fossem livros. Cozinhou um deles e guardou os demais na mochila. Foi uma refeição muito melhor do que imaginara e, quando chegou ao quarto dos fundos, Clay adormeceu quase imediatamente.
Havia tendas grandes nos dois lados da rodovia.
Aquela não era a rota 11 com suas fazendas, cidades e descampados e lojas de conveniência com bombas d'água a mais ou menos cada 25 quilômetros, mas uma rodovia em algum lugar no meio do nada. A mata fechada ia até os valões da beira da estrada. Pessoas faziam longas filas em ambos os lados da faixa branca central.
Esquerda e direita, dizia uma voz amplificada, Esquerda, direita, formem duas filas.
Parecia um pouco a voz amplificada do cantador de bingo da Feira Estadual de Akron, porém, quando Clay chegou mais perto, seguindo a faixa central da estrada, ele percebeu que o som estava dentro da sua cabeça. Era a voz do Homem Esfrangalhado. Mas o Homem Esfrangalhado era apenas um — do que Dan o havia chamado mesmo? — apenas um pseudópodo. E o que Clay ouvia era a voz do bando.
Esquerda e direita, duas filas, isso mesmo. É assim que se faz.
Onde estou? Por que ninguém olha pra mim e diz: "Ei amigo, não fure a fila, espere a sua vez"?
Mais à frente, as duas fileiras quebravam para lados opostos, como rampas de saída, uma indo para a tenda à esquerda da estrada, e a outra para a tenda à direita. Eram do tipo de tenda grande que as ca-sas de festa montam para abrigar bufês ao ar livre nas tardes de calor. Clay conseguia ver que, logo antes de cada fileira chegar às tendas, as pessoas se dividiam em filas menores de dez ou 12. Pareciam fãs esperando rasgarem seus ingressos para poder entrar em um show.
Parado no meio da rua no local em que a fila dupla se separava e quebrava para a direita e para a esquerda, ainda usando o moletom vermelho puído, estava o próprio Homem Esfrangalhado.
Esquerda e direita, senhoras e senhores. A boca imóvel. Telepatia no volume máximo, amplificada pelo poder do bando. Sigam adiante. Todo mundo vai ter a chance de ligar para um ente querido antes de entrar na zona sem cobertura.
Aquilo estarreceu Clay, mas era um estarrecimento previsível — como o fim de uma boa piada que você ouviu pela primeira vez dez ou vinte anos atrás.
— Onde fica isso? — perguntou ele ao Homem Esfrangalhado. — O que você está fazendo? O que está acontecendo, porra?
Mas o Homem Esfrangalhado não olhou para ele, e Clay sabia muito bem por quê. Era naquele lugar que a rota 160 entrava em Kashwak, e ele estava visitando o local em um sonho. Quanto ao que estava acontecendo...
É o bingo do telefone, pensou ele. É o bingo do telefone, e essas são as tendas em que o jogo acontece.
Continuem andando, senhoras e senhores, transmitiu o Homem Esfrangalhado. Faltam duas horas para o pôr do sol e queremos processar o maior número de gente possível antes de pararmos para a noite.
Processar.
Aquilo era um sonho?
Clay seguiu a fileira que quebrava para a tenda à esquerda, sabendo o que encontraria antes mesmo de ver. No fim de cada uma das filas menores, havia um membro do povo dos celulares, aqueles especialistas em Lawrence Welk, Dean Martin e Debby Boone. Assim que o próximo da fila chegava, o leão-de-chácara — vestindo roupas imundas, muitas vezes mais terrivelmente desfigurado pelas lutas pela sobrevivência dos últimos 11 dias do que o Homem Esfrangalhado — estendia um celular.
Clay observou o homem mais próximo dele pegar o telefone, discar três números e colá-lo ansiosamente no ouvido.
— Alô? — disse ele. — Alô, mãe? Mãe, você está me ouvin...
Então ficou calado. Seus olhos se esvaziaram e o rosto relaxou. O celular desgrudou um pouco da orelha dele. O facilitador — aquela era a melhor palavra que Clay conseguia encontrar — pegou o telefone de volta, empurrou o homem para que ele andasse para a frente e fez sinal para a próxima pessoa da fila se aproximar.
Esquerda e direita, dizia o Homem Esfrangalhado. Continuem andando.
O cara que havia tentado ligar para a mãe se afastou da tenda arrastando os pés. Mais adiante, Clay viu centenas de outras pessoas andando em círculos. Às vezes uma impedia o caminho da outra e as duas trocavam alguns tapas de leve. Porém, nada como antes. Porque...
Porque o sinal foi modificado.
Esquerda e direita, senhoras e senhores, continuem andando, temos que cuidar de muitos de vocês antes do anoitecer.
Clay viu Johnny. Ele estava usando jeans, o boné da Liga Juvenil e sua camisa favorita dos Red Sox, a que tinha o nome e o número de Tim Wakefield nas costas. Havia acabado de chegar ao fim da fila a duas tendas de onde Clay estava.
Clay correu na direção dele, mas o caminho estava obstruído.
— Sai da frente! — ele gritou, mas obviamente o homem que o impedia, pulando de um pé para o outro como se precisasse ir ao banheiro, não podia ouvi-lo. Aquilo era um sonho e, além do mais, Clay era um normie, não possuía telepatia.
Ele se enfiou pelo meio do homem inquieto e da mulher atrás dele. Abriu caminho também pela próxima fila, concentrado demais em alcançar Johnny para se preocupar se as pessoas que empurrava eram de carne e osso ou não. Chegou até onde Johnny estava no momento em que uma mulher — ele viu com um horror cada vez maior que era a nora do Sr. Scottoni, ainda grávida, mas sem um olho — entregava ao menino um celular Motorola.
É só discar 911, disse ela sem mexer a boca. Todas as ligações são feitas pelo 911.
— Não, Johnny, não!— gritou Clay e esticou o braço para pegar o telefone à medida que Johnny-Gee começava a discar o número, um número que, muito tempo atrás, havia aprendido a ligar se estivesse em apuros. — Não faça isso!
Johnny virou para a esquerda, como se quisesse proteger a ligação do olho sem vida da facilitadora grávida, e Clay não conseguiu pegá-lo. Provavelmente não teria conseguido impedir Johnny de qualquer maneira. Afinal de contas, aquilo era um sonho.
Johnny terminou de discar (apertar três teclas não era muito demorado), pressionou o botão de ENVIAR e colocou o telefone no ouvido.
— Alô? Papai? Papai, você está aí? Está me ouvindo? Se estiver me ouvindo, por favor, venha me bus...
Do jeito que o menino estava virado, Clay só conseguia ver um dos olhos do filho, mas um era o suficiente quando se viam as luzes se apagando. Johnny arqueou os ombros. O telefone desgrudou da orelha dele. A nora do Sr. Scottoni pegou o celular com a mão suja e então empurrou Johnny com desprezo pela nuca para fazê-lo seguir para Kashwak, junto com todos os outros que tinham vindo até ali para ficar em segurança. Ela fez sinal para a próxima pessoa da fila se aproximar e fazer sua ligação.
Esquerda e direita, formem duas filas, vociferou o Homem Esfrangalhado no meio da cabeça de Clay, e ele acordou gritando o nome do filho na cabana do caseiro à medida que a luz do fim da tarde vazava pelas janelas.
À meia-noite, Clay chegou à cidadezinha de North Shapleigh. Àquela altura, uma chuva fria e chata, que era quase granizo — o que Sharon chamava de "chuva de sorvete" —, começara a cair. Ele ouviu o som de motores se aproximando e saiu da estrada (ainda a boa e velha rota 11; nada de rodovia do sonho) para o macadame de uma loja de conveniência. Quando os faróis apareceram, transformando a garoa em linhas prateadas, ele viu que era uma dupla de sprinters correndo lado a lado, na verdade, fazendo um pega na escuridão. Clay foi para trás de uma bomba de gasolina, não exatamente se escondendo, mas sem querer dar bandeira. Ele os observou passarem voando como uma visão do além, borrifando água para cima. Um dos carros parecia um Corvette antigo, embora, com apenas a luz de emergência fraca do canto da loja para ver, fosse impossível ter certeza. Os carros passaram batidos pelo que era todo o sistema de controle de tráfego de North Shapleigh (um pisca-pisca apagado), viraram pontos de néon no escuro por um instante e então desapareceram.
Clay pensou novamente: Loucura. Então, voltando para o acostamento: Quem é você para falar de loucura?
Era verdade. Pois o sonho do bingo do telefone não tinha sido um sonho, ou não apenas um sonho. Ele tinha certeza disso. Os fonóides estavam usando suas habilidades telepáticas fortalecidas para rastrear o maior número de exterminadores de bandos possível. Aquilo fazia todo o sentido do mundo. Talvez tivessem mais dificuldade com grupos como os de Dan Hartwick, que estavam tentando resistir, mas duvidava que tivessem alguma dificuldade com ele. A questão era: a telepatia guardava uma estranha semelhança com os telefones — ela parecia ser de mão dupla. O que fazia dele... o quê? O fantasma na máquina? Algo assim. Enquanto os fonóides ficavam de olho nele, ele também era capaz de ficar de olho nos fonóides. Pelo menos enquanto dormia. Em sonho.
Haveria mesmo tendas na divisa de Kashwak, com normies fazendo filas para fritar os miolos? Clay achava que sim, tanto em Kashwak quanto em lugares como Kashwak em todo o país e em todo o mundo. A coisa já estaria mais devagar àquela altura, mas os postos de controle — os postos de transformação — talvez ainda estivessem lá.
Os fonóides usaram telepatia coletiva para coagir os normies a virem. Para que sonhassem em vir. Aquilo tornava os fonóides inteligentes, calculistas? Não, a não ser que você achasse uma aranha inteligente porque ela pode tecer uma teia, ou um crocodilo calculista porque ele pode ficar parado e parecer um tronco. Enquanto andava para o norte pela rota 11 em direção à rota 160, a estrada que o levaria até Kashwak, Clay pensou que o sinal telepático que os fonóides enviavam como um canto de sereia (ou um pulso) deveria conter pelo menos três mensagens diferentes.
Venha e você estará seguro — poderá parar de lutar pela sobrevivência.
Venha e você estará com os seus, em um lugar só para você.
Venha e você poderá falar com seus entes queridos.
Venha. Sim. É isso. E quando se chega perto o suficiente, já não há mais escolha. A telepatia e o sonho da segurança simplesmente tomam conta de você. Você faz uma fila. Obedece quando o Homem Esfrangalhado manda continuar andando, todo mundo vai poder ligar para um ente querido, mas temos muita gente para processar antes de o sol se pôr e aumentamos o volume de Bette Midler cantando The Wind Beneath My Wings.