Celular
— Bem, imagino que tenha um monte…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
E como eles conseguiram continuar fazendo isso, mesmo depois de a energia ter acabado, as cidades pegado fogo e a civilização caído em um mar de sangue? Como eles conseguiram substituir os milhões de fonóides perdidos no primeiro cataclismo e no extermínio dos bandos que se seguiu? Eles conseguiram perseverar porque o Pulso não cessou. Em algum lugar — em um laboratório clandestino ou na garagem de um maluco — alguma engenhoca a bateria ainda estava ligada, algum modem ainda estava transmitindo seu sinal agudo e louco. Enviando-o para os satélites que orbitavam o planeta ou para as torres de retransmissão de microondas que o cercavam como um cinturão de aço. E para que número você poderia ligar e ter certeza de que a ligação ainda seria completada, mesmo que a voz que atendesse estivesse apenas em uma secretária eletrônica a bateria?
911, pelo jeito.
E aquilo quase certamente tinha acontecido com Johnny-Gee.
Ele sabia que sim. Já era tarde demais.
Então por que ele continuava andando para o norte pela noite chuvosa? Newfield ficava logo adiante, e lá Clay trocaria a rota 11 pela 160. Imaginava que depois de algum tempo subindo a rota 160 já não estaria lendo placas de trânsito (ou qualquer outra coisa), então por quê?
Porém, ele sabia por quê, da mesma forma que sabia que aquela batida distante e a buzinada curta e baixa que ouviu mais adiante na escuridão chuvosa significava que um dos sprinters se dera mal. Clay seguia adiante por causa do bilhete na porta de proteção, preso por menos de meio centímetro de fita adesiva quando ele o pegou; todo o resto já tinha se soltado. Seguia adiante por causa do segundo bilhete que encontrou no mural da prefeitura, meio escondido pela mensagem esperançosa de Iris Nolan para sua irmã. O filho dele havia escrito a mesma coisa nas duas vezes, em letras maiúsculas: POR FAVOR VENHA ME BUSCAR.
Se fosse tarde demais para buscar Johnny, talvez ainda houvesse tempo para encontrá-lo e dizer que ele tentou. Talvez ele até consiga manter controle suficiente por tempo suficiente para fazê-lo, mesmo se eles tiverem obrigado o filho a usar um dos celulares.
Quanto às plataformas e às milhares de pessoas observando...
— Kashwak não tem estádio de futebol — disse ele.
Na sua mente, Jordan sussurrou: É um estádio virtual.
Clay afastou o pensamento. Afastou-o para longe. Ele já havia tomado sua decisão. Era loucura, é claro, mas aquele tinha se tornado um mundo louco, e aquilo o colocava em perfeita sintonia.
Às 2h45, com os pés doloridos e molhado apesar do pesado casaco de capuz que roubara da cabana do caseiro em Springvale, Clay chegou à interseção das rotas 11 e 160. Havia vários carros acidentados na encruzilhada, e o Corvette que passara correndo por ele em North Shapleigh agora era um deles. O motorista pendia da janela toda esmagada do lado esquerdo, com a cabeça apontando para baixo e os braços caídos. Quando Clay tentou levantar a cabeça do homem para ver se ele ainda estava vivo, a metade de cima do corpo despencou na estrada, deixando um emaranhado carnoso de entranhas atrás de si. Clay cambaleou até um poste telefônico, fincou a cabeça subitamente febril na madeira e vomitou até não restar nada.
Do outro lado da interseção, onde a 160 seguia na direção norte, ficava o Posto Comercial de Newfield. Uma placa na janela prometia DOCES MELAÇO ARTESANATO INDÍGENA "BIBELÔS". O lugar parecia ter sido destruído e também saqueado, mas era um abrigo contra a chuva e ficava longe do horror casual e inesperado que ele acabara de encontrar. Clay entrou e se sentou com a cabeça baixa até a vontade de desmaiar passar. Havia corpos lá dentro, ele sentia o cheiro, mas alguém os cobrira com uma lona, com exceção de dois, e pelo menos aqueles não estavam em pedaços. A geladeira de cerveja do lugar tinha sido detonada e esvaziada, a máquina de Coca-Cola tinha sido apenas detonada. Ele pegou um refrigerante e bebeu em goladas longas e demoradas, pausando para arrotar. Depois de um tempo, começou a se sentir melhor.
Sentia muita falta dos amigos. O infeliz lá fora e quem quer que estivesse correndo com ele tinham sido os únicos sprinters que Clay vira naquela noite, e ele não encontrara nenhum grupo de refugiados a pé. Passaria a noite inteira apenas com os pensamentos para lhe fazer companhia. Talvez o clima estivesse mantendo os andarilhos fora das ruas, ou talvez tivessem passado a viajar de dia. Não havia motivo para não fazer isso, uma vez que os fonóides tinham passado do assassinato para a conversão.
Ele percebeu que não tinha ouvido aquilo que Alice chamara de música para bandos naquela noite. Talvez todos os bandos estivessem ao sul de onde ele estava, com exceção do grandão (ele imaginava que fosse um grandão) que estava fazendo as conversões de Kashwak. Clay não ligava muito; mesmo sozinho como estava, ainda considerava a pequena folga de Hope You Dance e do tema de Amores Clandestinos uma pequena dádiva.
Clay decidiu andar no máximo mais uma hora e então achar um buraco para se meter. A chuva fria estava de matar. Ele deixou o Posto Comercial de Newfield, decidido a não olhar para o Corvette acidentado ou para os restos mortais ensopados ao lado dele.
Ele acabou andando quase até o amanhecer, em parte porque a chuva parou, mas principalmente porque não havia abrigo na rota 160, apenas mata. Então, por volta das 4h30, passou por uma placa cravada de balas que dizia AQUI COMEÇA GURLEYVILLE, UM DISTRITO NÃO-INCORPORADO. Cerca de dez minutos depois, passou pela raison d'être de Gurleyville, por assim dizer: a Pedreira Gurleyville, uma jazida enorme com alguns barracos, caminhões basculantes e uma garagem ao pé dos muros de granito talhados. Clay pensou por um instante em passar a noite em uma das barracas de ferramentas, mas decidiu que poderia encontrar algo melhor e seguiu em frente. Ainda não tinha visto peregrinos e tampouco ouvido música para bandos, nem mesmo ao longe. Era como se fosse o último homem da terra.
Mas não era. Cerca de dez minutos depois de deixar a pedreira para trás, ele chegou ao topo de uma colina e viu uma pequena vila lá embaixo. O primeiro prédio que alcançou foi o do Corpo de Bombeiros Voluntário de Gurleyville (NÃO SE ESQUEÇA DA DOAÇÃO DE SANGUE DE HALLOWEEN leia-se mais no mural da entrada. Parecia que ninguém ao norte de Springvale sabia escrever), e havia dois fonóides no estacionamento se encarando diante de um deprimente caminhão de bombeiro que devia ter sido novo lá pelo final da Guerra da Coréia.
Eles se viraram lentamente na direção de Clay quando ele os iluminou com a lanterna, mas então voltaram a se encarar. Os dois eram homens, um parecia ter uns 25 anos e outro talvez o dobro. Não havia dúvida de que eram fonóides. As roupas estavam sujas e quase se desfazendo. Seus rostos estavam cortados e esfolados. Uma queimadura grave parecia cobrir um braço inteiro do mais jovem. O olho esquerdo do mais velho brilhava no fundo de bolsas de carne muito inchadas e provavelmente infeccionadas. Porém, a aparência deles não era o mais importante. O mais importante foi o que o próprio Clay sentiu: aquela mesma estranha falta de ar que ele e Tom haviam sentido no escritório do Citgo de Gaiten, onde tinham ido pegar as chaves dos caminhões de gás. Aquela sensação de uma concentração poderosa de força.
E era noite. Com o céu encoberto por nuvens pesadas, a aurora ainda demoraria a chegar. O que aqueles caras estavam fazendo acordados à noite.
Clay desligou a lanterna, sacou o Nickerson calibre 45 e ficou olhando para ver se algo acontecia. Por vários segundos, achou que não iria acontecer nada, que a coisa se limitaria àquela estranha falta de ar, àquela sensação de algo prestes a acontecer. Então, ouviu um lamento agudo, quase como se alguém vibrasse a lâmina de um serrote entre as mãos dele. Clay ergueu os olhos e viu que os fios de eletricidade que passavam em frente ao prédio do corpo de bombeiros estavam se agitando rapidamente; tão rápido que quase não dava para notar.
— Vá-embora!
Foi o mais jovem, e ele parecia arrancar as palavras da boca com um esforço tremendo. Clay levou um susto. Se estivesse com o dedo no gatilho, quase certamente teria atirado. Aquilo não era Aw e Eeen; eram palavras de verdade. Ele achou que as tinha ouvido dentro da sua cabeça também, mas muito baixinho. Apenas um eco distante.
— Você!... Vai! — respondeu o mais velho. Estava usando uma bermuda baggy com uma mancha marrom enorme na bunda. Poderia ser lama ou merda. Falou também com esforço, mas daquela vez Clay não ouviu eco nenhum na cabeça. Paradoxalmente, aquilo o fez ter mais certeza de que ouvira da primeira vez.
Eles haviam esquecido completamente dele. Disso Clay não tinha dúvida.
— Meu! — disse o mais jovem, mais uma vez arrancando a palavra da boca. E ele arrancou mesmo. Seu corpo inteiro pareceu sofrer com o esforço. Atrás dele, várias janelas pequenas na ampla garagem do corpo de bombeiros explodiram para fora.
Houve uma longa pausa. Clay ficou observando, fascinado, completamente esquecido de Johnny pela primeira vez desde Kent Pond. O mais velho parecia estar pensando furiosamente, lutando furiosamente, e Clay achava que a luta era para se expressar da maneira que ele se expressava antes de o Pulso privá-lo da fala.
No topo do prédio do corpo de bombeiros, que não era mais do que uma garagem melhorada, a sirene soou um breve WHOOP, como se uma explosão fantasma de energia tivesse passado por ela. E as luzes do caminhão antigo — os faróis e os pisca-piscas — bruxulearam por um instante, iluminando os dois homens e talhando momentaneamente suas sombras.
— Não senhor! — conseguiu falar o mais velho. Ele cuspiu as palavras como um pedaço de carne preso na garganta.
— Meaminhão!— o mais jovem quase gritou, e na mente de Clay aquela mesma voz sussurrou: Meu caminhão. Era simples, na verdade. Em vez de bolinhos Ana Maria, eles estavam brigando pelo caminhão velho. Só que aquilo estava acontecendo à noite — no fim dela, tudo bem, mas ainda noite fechada —, e eles estavam quase falando novamente. Quase o cacete, eles estavam falando.
Porém, parecia que a conversa tinha acabado. O mais jovem baixou a cabeça, correu até o mais velho e deu-lhe uma cabeçada no peito. O mais velho se estatelou no chão. O mais jovem tropeçou nas pernas dele e caiu de joelhos.
— Não! — gritou ele.
— Porra! — exclamou o outro. Com certeza foi o que ele disse.
Porra é inconfundível.
Eles se levantaram e ficaram a uns 4 metros um do outro. Clay conseguia sentir o ódio dos dois. Estava na cabeça dele; empurrando seus olhos para fora, tentando sair.
O mais jovem falou:
— Aque é... meaminhão!
E, na cabeça de Clay, a voz distante do rapaz sussurrou: Aquele é o meu caminhão.
O mais velho respirou o ar. Levantou espasmodicamente um braço com a pele cheia de cascas. E mostrou o dedo médio para o rapaz.
— Senta. Aqui! — disse ele com total clareza.
Os dois baixaram as cabeças e dispararam um para cima do outro. Suas cabeças se chocaram com um craque surdo que fez Clay se encolher. Daquela vez, todas as janelas da garagem explodiram.
A sirene no telhado deu um longo grito de guerra antes de parar. As luzes fluorescentes do prédio se acenderam por cerca de três segundos, alimentadas pela pura energia da loucura. Houve uma breve explosão de música: Britney Spears cantando Oopsl... I Did It Again. Dois cabos de força arrebentaram com um estalo líquido e caíram quase na frente de Clay, que se afastou deles correndo. Provavelmente eles estavam mortos, deveriam estar mortos, mas...
O mais velho caiu de joelhos com sangue descendo pelos dois lados da cabeça.
— Meu caminhão!— disse ele claramente, e então caiu de cara no chão.
O mais jovem se virou para Clay, como se o convocasse para ser testemunha da sua vitória. Sangue escorria do seu cabelo emaranhado e sujo, descendo pelos olhos, pelos dois lados do nariz e pela boca. Seus olhos, Clay viu, não estavam nem um pouco vazios. Estavam enlouquecidos. Clay compreendeu — de súbito, completa e indiscutivelmente — que se aquele era o fim do ciclo, não havia chance de salvar seu filho.
— Meaminhão!— esgoelou-se o rapaz. — Meaminhão, meaminhão!— A sirene do caminhão soltou um grunhido curto e oscilante, como se concordasse. — MEAMI...
Clay atirou nele, então colocou o calibre 45 de volta no coldre. Que se foda, ele pensou, eles só podem me colocar em um pedestal uma vez. Ainda assim, ele estava tremendo muito, e quando invadiu o único motel de Gurleyville do outro lado da cidade, demorou bastante para dormir. Em vez do Homem Esfrangalhado, foi seu filho quem o visitou em sonho, uma criança suja, de olhos vazios, que respondeu "Vai-inferno, meaminhão”, quando Clay a chamou pelo nome.
Ele acordou deste sonho muito antes do anoitecer, mas já não conseguia mais dormir e decidiu recomeçar a caminhada. E, assim que deixasse Gurleyville para trás — o pouco que existia para deixar para trás —, começaria a dirigir. Não havia motivo para não fazê-lo; àquela altura a estrada parecia quase totalmente livre e provavelmente tinha estado assim desde o acidente feio na interceção com a rota 11. Ele apenas não havia notado por conta da escuridão e da chuva.
O Homem Esfrangalhado e seus amigos limparam o caminho, pensou ele. É claro que sim, é a porra do corredor de gado. Para mim é provavelmente o corredor que leva ao matadouro. Porque eu já sou notícia velha. Eles querem é carimbar PAGO em mim e me arquivarem o mais rápido possível. Sinto muito por Tom, Jordan e os outros três. Será que eles encontraram estradas secundárias suficientes para irem até a região central de New Hampshire...
Ele chegou ao topo de uma ladeira, e esse pensamento se interrompeu de imediato. Um pequeno ônibus escolar amarelo com DISTRITO ESCOLAR 38 MAINE NEWFIELD pintado na lateral estava estacionado na rua lá embaixo. Um homem e um menino estavam recostados nele. O homem estava com o braço em volta dos ombros do menino em um gesto casual de amizade que Clay teria reconhecido em qualquer lugar. Enquanto ele ficava olhando, paralisado, sem acreditar no que via, outro homem contornou a frente rombuda do ônibus. Tinha cabelos longos e grisalhos amarrados em um rabo-de-cavalo. Atrás dele vinha uma grávida vestindo uma camiseta. Era azul-clara em vez da preta Harley Davidson, mas era Denise, sem dúvida.
Jordan o viu e gritou seu nome. Livrou-se do braço de Tom e começou a correr. Clay correu na direção dele. Eles se encontraram a uns 30 metros do ônibus.
— Clay! — exclamou Jordan. Ele estava histérico de alegria. — É você mesmo!
— Sou eu — concordou Clay. Ele girou Jordan no ar e então o beijou. Jordan não era Johnny, mas serviria, pelo menos por enquanto. Clay o abraçou, então o colocou no chão e examinou seu rosto abatido, sem deixar de notar as olheiras marrons de cansaço sob os olhos do menino. — Como vocês vieram parar aqui?
O rosto de Jordan ficou sombrio.
— Não poderíamos... quer dizer, nós sonhamos que...
Tom veio andando. Ignorou mais uma vez a mão estendida de Clay e o abraçou.
— Como você está, Van Gogh? — perguntou ele.
— Bem. Feliz pra caralho em reencontrar vocês, mas não entendo...
Tom sorriu para ele. Era um sorriso ao mesmo tempo cansado e doce, uma bandeira branca.
— O que o ás dos computadores está tentando dizer é que no fim das contas não tivemos escolha. Venha para o ônibus. Segundo Ray, se a estrada continuar livre, e tenho certeza de que vai continuar, podemos chegar a Kashwak ao pôr do sol, mesmo se andarmos a 50 quilômetros por hora. Você já leu A Assombração da Casa da Colina?.
Clay balançou a cabeça, confuso.
— Vi o filme.
— Tem uma frase nele que combina com a nossa situação: "No fim do caminho, os amantes se encontram." Parece que eu vou acabar conhecendo seu filho.
Eles andaram até o ônibus escolar. Dan Hartwick ofereceu a Clay uma latinha de pastilhas de menta com a mão não muito firme. Assim como Jordan e Tom, ele parecia exausto. Clay, sentindo-se como em um sonho, pegou uma.
— E aí, cara — disse Ray. Ele estava atrás do volante do ônibus, com o boné dos Dolphins virado para trás, um cigarro queimando em uma das mãos. Tinha uma aparência pálida e abatida. Não estava olhando para Clay, e sim pelo retrovisor.
— E aí, Ray, meu rei — respondeu Clay.
Ray sorriu por um instante.
— Essa aí eu já ouvi bastante.
— Com certeza, provavelmente umas cem vezes. Eu poderia dizer que estou feliz em te ver, mas, do jeito que as coisas andam, não sei se você gostaria de ouvir.
Ainda olhando pelo retrovisor, Ray respondeu:
— Tem uma pessoa lá na frente que você certamente não vai ficar feliz em ver.
Clay olhou. Todos eles olharam. A menos de meio quilômetro ao norte, a rota 160 subia outra colina. Depois em cima e olhando para eles, o casaco de HARVARD mais sujo do que nunca, mas ainda brilhante contra o céu cinza da tarde, estava o Homem Esfrangalhado. Por volta de outros cinqüenta fonóides o cercavam. O Homem Esfrangalhado viu que eles estavam olhando. Ele ergueu a mão e acenou para o grupo duas vezes, como alguém limpando um retrovisor. Então deu meia-volta e começou a ir embora, seu entourage (seu rebanho, pensou Clay) o seguindo de ambos os lados, como uma espécie de rabo em forma de V. Logo estavam fora de vista.
WORM
Eles pararam em uma área para piquenique mais adiante na estrada. Ninguém estava com muita fome, mas aquela era uma chance para Clay fazer perguntas. Ray não comeu nada, apenas sentou na ponta de uma churrasqueira de pedra a favor do vento e fumou, ouvindo. Não acrescentou nada à conversa. Para Clay, ele parecia completamente desanimado.
— Nós achamos que estamos parando aqui — falou Dan, gesticulando para a pequena área de piquenique, margeada por pinheiros e árvores desfolhadas da cor do outono, com seu riacho sussurrante e sua trilha com uma placa na entrada que dizia SE FOR POR AQUI, LEVE UM MAPA! — Provavelmente estamos parando aqui, porque...
— Ele olhou para Jordan. — Você diria que estamos parando aqui, Jordan? Você parece ter uma percepção mais clara.
— Sim — disse Jordan imediatamente. — Isso é real.
— É — disse Ray, sem erguer os olhos. — Estamos aqui, sim. — Ele bateu com a mão na pedra da churrasqueira, e sua aliança fez um pequeno tink-tink-tink. — Isso aqui é pra valer. Estamos juntos novamente, isso era tudo que eles queriam.
— Não estou entendendo — disse Clay.
— Nós também não, não completamente — falou Dan.
— Eles são muito mais poderosos do que eu poderia imaginar — disse Tom. — Isso eu entendo muito bem. — Ele tirou os óculos e os limpou na camisa. Foi um gesto cansado, distraído. Tom parecia dez anos mais velho do que o homem que Clay conhecera em Boston. — E eles mexeram com a nossa cabeça. E muito. Nunca tivemos a mínima chance.
— Vocês todos parecem exaustos — replicou Clay.
Denise riu.
— É mesmo? Bem, não é para menos. Nós deixamos você e pegamos a rota 11 na direção oeste. Andamos até vermos o dia começar a raiar. Dirigir não fazia o menor sentido porque a estrada estava um caos. Dava pra conseguir meio quilômetro livre, mas então...
— A estrada ficava bloqueada, eu sei — disse Clay.
— Ray disse que ficaria melhor assim que chegássemos a oeste da Spaulding Turnpike, mas decidimos passar o dia em um lugar chamado Twilight Motel.
— Já ouvi falar — disse Clay. — Fica colado no parque Vaughan. É bastante famoso na minha terra.
— Ah, é? Ok. — Ela deu de ombros. — Então a gente vai para lá e o garoto, Jordan, diz: "Vou preparar o maior café-da-manhã que vocês já comeram na vida." E a gente responde vai sonhando, garoto, o que acabou sendo meio engraçado porque de certa forma era isso mesmo que estava acontecendo, mas o lugar tinha luz, e ele prepara mesmo. Me aparece com esse café-da-manhã enorme. A gente cai dentro. É um exagero de café-da-manhã. Estou contando direito?
Dan, Tom e Jordan assentiram. Sentado na churrasqueira, Ray se limitou a acender outro cigarro.
De acordo com Denise, eles comeram na sala de jantar, o que Clay achou fascinante, pois tinha certeza de que o Twilight não tinha sala de jantar. Era só mais um daqueles motéis baratos que margeavam a interestadual Maine New Hampshire. Dizia-se que os únicos atrativos eram duchas de água fria e filmes de sacanagem nas TVs dos quartos minúsculos.
A história ficou mais estranha. Havia uma jukebox. Nada de Lawrence Welk e Debby Boone; estava era cheia de música de festa e, em vez de irem direto para a cama, eles dançaram — animadamente — por duas ou três horas. Então, antes de deitarem, fizeram outra refeição farta, daquela vez com Denise de mestre cuca. Depois de comerem, finalmente, caíram no sono.
— E sonhamos que estávamos andando — acrescentou Dan. Ele falou com uma amargura esgotada que era perturbadora. Aquele não era o mesmo homem que Clay conhecera duas noites atrás, o homem que dissera: Tenho quase certeza de que podemos evitar que eles entrem na nossa cabeça enquanto estamos acordados e temos uma chance de conseguir. Ainda é só o começo para eles. Então ele riu um pouco, um som que não continha humor algum. — Cara, devíamos ter sonhado, porque estávamos andando. Andamos aquele dia todo.
— Nem todo — disse Tom. — Eu sonhei que estava dirigindo...
— É, você dirigiu — disse Jordan baixinho. — Apenas por cerca de uma hora, mas dirigiu. Foi quando também sonhamos que estávamos dormindo naquele motel. O tal do Twilight. Sonhei com você dirigindo também. Foi como um sonho dentro de um sonho. Só que esse foi real.
— Está vendo? — disse Tom, sorrindo para Clay. Ele despenteou o cabelo cheio do menino. — Em algum nível, Jordan sempre soube.
— Realidade virtual — disse Jordan. — Não passava disso. Era quase como estar em um videogame. E nem era tão bem-feito assim. — Ele olhou para o norte, na direção em que o Homem EsfrangaIhado tinha desaparecido. Na direção de Kashwak. — Vai ficar melhor se eles ficarem melhores.
— Os filhos-da-puta não conseguem fazer isso depois que escurece — disse Ray. — Eles têm que ir pra caminha.
— E, no fim do dia, nós também fomos — falou Dan. — Era o que eles queriam. Nos deixar tão esgotados que não perceberíamos o que estava acontecendo, mesmo quando a noite chegasse e eles perdessem o controle. Durante o dia, o Reitor de Harvard estava sempre por perto, junto com um bando de bom tamanho, enviando aquele campo de força mental deles e criando a realidade virtual de Jordan.
— Deve ter sido isso — falou Denise. — Com certeza.
Tudo isso estava acontecendo, calculou Clay, enquanto ele dormia na cabana do caseiro.
— E nos deixar esgotados não era tudo que eles queriam — disse Tom. — Também não queriam apenas trazer a gente de volta para o norte. Eles também nos queriam reunidos.
Os cinco entraram em um motel caindo aos pedaços na rota 47 — a rota 47 do Maine, não muito ao sul do rio Great Works. A sensação de deslocamento, disse Tom, havia sido enorme. O som de música para bandos não muito ao longe não ajudara. Todos tinham uma noção do que provavelmente havia acontecido, mas foi Jordan quem verbalizou, da mesma forma que foi Jordan quem apontou o óbvio: a tentativa de fuga deles falhara. Sim, eles poderiam sair do motel em que se encontravam e voltar a seguir para o oeste, mas até onde chegariam daquela vez? Estavam exaustos. Pior, estavam sem ânimo. Também foi Jordan quem apontou que os fonóides talvez tivessem até mandando alguns espiões normies rastrear seus movimentos noturnos.
— Nós comemos — falou Denise —, porque, além de cansados, estávamos famintos. Então fomos nos deitar de verdade e dormimos até a manhã seguinte.
— Fui o primeiro a acordar — disse Tom. — O próprio Homem Esfrangalhado estava no pátio. Ele fez uma pequena mesura para mim e gesticulou para a estrada. — Clay se lembrava bem daquele gesto. — Acho que poderia ter atirado nele, estava com o Sr. Ligeirinho, mas do que adiantaria?
Clay balançou a cabeça. Não adiantaria nada.
Eles voltaram para a estrada, primeiro subindo a rota 47. Então, contou Tom, sentiram-se mentalmente empurrados para um caminho sem sinalização que parecia na verdade serpentear para o sudoeste.
— Nenhuma visão naquela manhã? — perguntou Clay. — Nenhum sonho?
— Não — respondeu Tom. — Eles sabiam que já tínhamos entendido a mensagem. Afinal de contas, podiam ler nossas mentes.
— Ouviram a gente pedir penico — falou Dan naquele mesmo tom cansado e amargo. — Ray, você pode me dar um cigarro? Parei de fumar, mas estou pensando em retomar o hábito.
Ray atirou o maço para ele sem dizer palavra.
— É como se alguém empurrasse você com a mão, só que dentro do cérebro — disse Tom. — Nem um pouco agradável. É intrusivo de um jeito que nem sei começar a descrever. E o tempo todo havia a sensação do Homem Esfrangalhado e do seu bando nos acompanhando. Às vezes chegávamos a ver alguns deles em meio às árvores; mas na maior parte do tempo, não.
— Então eles não estão apenas formando bandos de dia e de noite agora — disse Clay.
— Não, tudo isso está mudando — falou Dan. — Jordan tem uma teoria; bem interessante e com algumas provas para sustentá-la. Além do mais, nós somos uma exceção. — Ele acendeu o cigarro. Tragou. Tossiu. — Porra, sabia que tinha largado isso por algum motivo. — E então, quase sem pausar. — Sabia que eles flutuam? Levitam. Deve ser uma maneira muito útil de se locomover com as estradas tão entulhadas. É como ter um tapete voador.
Depois de subirem aparentemente em vão o caminho por cerca de um quilômetro e meio, os cinco chegaram a uma cabana com uma picape estacionada na frente. Estava com as chaves. Ray dirigiu; Tom e Jordan seguiram na carroceria. Nenhum deles ficou surpreso quando mais adiante o caminho dobrou novamente para o norte. Logo antes de desaparecer, o farol em suas cabeças mandou-os para um outro caminho, e então para um terceiro, que era pouco mais que uma trilha com mato crescendo no meio. A trilha deu em um trecho pantanoso onde a picape atolou, mas uma hora de luta com a lama os fez sair na rota 11, logo ao sul da interseção daquela estrada com a 160.
— Dois fonóides mortos ali — disse Tom. — Frescos. Cabos de energia caídos, postes quebrados. Os corvos estão fazendo um banquete.
Clay pensou em contar a eles o que vira no Corpo de Bombeiros Voluntário de Gurleyville, mas desistiu. Não via como aquilo poderia estar relacionado com a atual situação. Além do mais, havia muitos que não estavam brigando entre si, e aqueles vinham forçando Tom e os demais a ir adiante.
Aquela força não os havia levado até o ônibus amarelo; Ray o encontrara explorando o Posto Comercial de Newfield enquanto os outros roubavam refrigerantes do mesmo freezer que Clay saqueara. Ray o viu por uma janela dos fundos.
Eles só haviam parado uma vez desde então, para fazer uma fogueira no chão de granito da pedreira Gurleyville e comerem uma refeição quente. Também tinham trocado de sapatos no Posto Comercial de Newfield — a caminhada na chuva deixara todos enlameados até as canelas — e descansado por uma hora. Devem ter passado por Clay no Gurleyville Motel aproximadamente na hora em que ele estava acordando, pois foram forçados a parar logo depois.
— E aqui estamos nós — disse Tom. — Caso quase encerrado. — Ele balançou um braço para o céu, a terra e as árvores. — Um dia, filho, tudo isso vai ser seu.
— Já não estou sentindo mais aqueles empurrões na cabeça, pelo menos por enquanto — falou Denise. — E me sinto grata. O primeiro dia foi o pior, sabia? Quero dizer, Jordan tinha uma idéia mais clara de que algo estava errado, mas acho que todos nós sabíamos que a coisa não estava... direita, sabe?
— É — disse Ray. Ele esfregou a nuca. — Era como estar em uma história infantil em que os pássaros e as cobras falam. Eles dizem coisa tipo: "Você está legal, está bem, esqueça que suas pernas estão tão cansadas, você está chuchubeleza." Chuchubeleza, era assim que costumávamos falar quando eu era criança em Lynn.
— "Lynn, Lynn, cidade do pecado; quando você chegar ao céu, eles não vão deixar você entrar" — cantarolou Tom.
— Você cresceu mesmo no meio dos carolas — disse Ray. — Bem, o garoto sacou, eu saquei, e acho que todos nós sacamos. Se você tivesse alguma coisa na cabeça e ainda acreditasse que iria se safar...
— Eu acreditei até onde pude porque quis acreditar — falou Dan —, mas, sinceramente? Nunca tivemos a mínima chance. Outros normies talvez sim, mas não a gente, não os exterminadores de bandos. Eles querem nos pegar, independentemente do que aconteça com eles.
— O que você acha que eles planejam para nós? — perguntou Clay.
— Nos matar, ora — disse Tom, quase sem interesse. — Pelo menos vou poder dormir direito.
A mente de Clay finalmente alcançou algumas coisas e compreendeu. No início daquela conversa, Dan tinha dito que o comportamento normal deles estava mudando e que Jordan tinha uma teoria a respeito. Ele acabara de dizer independentemente do que aconteça com eles.
— Eu vi dois fonóides se atacarem não muito longe daqui — Clay finalmente contou.
— Foi mesmo? — falou Dan, sem se interessar muito.
— À noite — acrescentou Clay, e então todos olharam para ele. — Estavam brigando por um caminhão de bombeiro. Como duas crianças por um brinquedo. Recebi um pouco daquela telepatia de um deles, mas os dois estavam falando.
— Falando? — perguntou Denise com ceticismo. — Tipo palavras de verdade?
— Palavras de verdade. Nem sempre saíam claras, mas com certeza eram palavras. Quantos cadáveres frescos vocês viram? Só aqueles dois?
Dan falou:
— Já vimos provavelmente uma dúzia desde que recuperamos a noção de onde estamos. — Ele olhou para os demais. Tom, Denise e Jordan assentiram. Ray deu de ombros e acendeu outro cigarro. — Talvez eles estejam revertendo; isso combina com a teoria de Jordan, embora a fala não pareça combinar. Podem ter sido apenas corpos de que os bandos não quiseram se livrar. Desova não é prioridade para eles no momento.
— Nós somos a prioridade, e eles vão nos desovar logo, logo — disse Tom. — Não acho que vamos receber o... vocês sabem, o tratamento do estádio até amanhã, mas tenho certeza de que eles nos querem em Kashwak antes do anoitecer.
— Jordan, qual é a sua teoria? — perguntou Clay.
Jordan respondeu:
— Acho que havia um worm no programa original.
— Não entendi — disse Clay —, mas até aí tudo bem. No computador, eu sabia usar o Word, o Adobe Illustrator e o MacMail. Fora isso, era praticamente analfabeto. Johnny tinha que me ensinar o jogo de paciência que veio com o meu Mac. — Falar sobre aquilo doeu. Lembrar da mão de Johnny se fechando sobre a dele no mouse doeu mais ainda.
— Mas você sabe o que é um worm de computador, certo?
— É um negócio que entra na sua máquina e ferra com todos os programas, não é?
Jordan revirou os olhos, mas disse:
— Quase. Ele pode se esconder, corromper seus arquivos e o disco rígido no caminho. Se entrar em arquivos compartilhados e nas coisas que você envia, até mesmo anexos de e-mail, e eles entram, pode assumir comportamento viral e se espalhar. O worm é mutante e às vezes os filhotes sofrem mais mutações ainda. Ok?
— Ok.
— O Pulso foi um programa de computador enviado por modem; é o único jeito que poderia dar certo. E ainda está sendo enviado assim. Só que ele está com um worm, e o worm está destruindo o programa. Está ficando cada vez mais corrompido a cada dia que passa. GIGO. Você sabe o que é GIGO?
Clay disse:
— Eu nem sei como chegar a San José.
— É uma sigla para garbage in, garbage out, ou seja, "lixo que sai, lixo que entra". Nós achamos que existem pontos de conversão onde os fonóides estão transformando normies...
Clay se lembrou do seu sonho.
— Sobre isso eu já sei bem mais do que vocês.
— Mas agora eles estão recebendo uma programação corrompida. Entende? E faz sentido, porque parece que são os fonóides mais novos que estão caindo primeiro. Brigando, enlouquecendo ou simplesmente caindo mortos.
— Você não tem dados o suficiente para afirmar isso — respondeu Clay de pronto. Estava pensando em Johnny.
Os olhos de Jordan estavam brilhando. Depois do que Clay falou, apagaram-se um pouco.
— Isso é verdade. — Então ele ergueu o queixo. — Mas é uma questão de lógica. Se a premissa estiver certa... se for um worm, algo entrando cada vez mais fundo no programa original... então é tão lógico quanto o latim que eles usam. Os novos fonóides estão reiniciando, mas agora é de um jeito maluco e instável. Recebem a telepatia, mas ainda conseguem falar. Eles...
— Jordan, você não pode tirar essa conclusão baseado apenas nos dois que eu vi...
Jordan não estava prestando atenção. Na verdade, estava falando para si mesmo.
— Eles não formam bandos como os outros, não tão perfeitamen te, porque a ordem de formar bandos não está instalada de forma correta. Em vez disso eles... eles ficam acordados até tarde e levantam cedo. Voltam a agredir uns aos outros. E se isso estiver piorando... você não percebe? Os fonóides mais novos seriam os primeiros a se ferrarem!
— É como em Guerra dos Mundos — falou Tom em um devaneio.
— Hein? — disse Denise. — Eu não vi esse filme. Parecia assustador demais.
— Os invasores foram mortos por micróbios que os nossos corpos toleram sem problemas — disse Tom. — Não seria uma justiça poética se os fonáticos todos morressem por conta de um vírus de computador?
— Eu me contentaria com a hostilidade — falou Dan. — Vamos deixá-los se matarem em uma grande guerra.
Clay ainda estava pensando em Johnny. Em Sharon também, mas principalmente em Johnny. Johnny que escrevera POR FAVOR VENHA ME BUSCAR em letras maiúsculas e então assinara os três nomes, como se aquilo de alguma forma acrescentasse mais peso ao pedido.
Ray Huizenga disse:
— Não vai nos adiantar nada se isso não acontecer hoje à noite. — Ele se levantou e espreguiçou. — Logo, logo eles vão mandar a gente continuar viagem. Vou parar pra fazer uma pequena necessidade enquanto posso. Não vão embora sem mim.
— No ônibus não vai dar — disse Tom enquanto Ray começava a subir a trilha. — As chaves estão no seu bolso.
— Cuidado para o passarinho não voar, Ray — falou Denise com doçura.
— Ninguém gosta de engraçadinhos, querida — disse Ray, sumindo de vista.
— O que eles vão fazer com a gente? — perguntou Clay. — Alguém tem alguma idéia?
Jordan deu de ombros.
— Talvez seja como um circuito fechado de TV, mas com várias áreas diferentes do país participando. Talvez até mesmo o mundo inteiro. O tamanho daquele estádio me faz pensar que...
— E o latim também, é claro — falou Dan. — É uma espécie de língua franca.
— Mas por que eles precisam de uma língua franca? — perguntou Clay. — Eles são telepatas.
— Mas ainda pensam em palavras na maior parte do tempo — disse Tom. — Pelo menos até agora. Seja como for, eles querem nos executar, Clay. Jordan e Dan acham que sim, e eu também.
— E eu também — falou Denise com uma voz baixa e soturna, e acariciou a curva da sua barriga.
Tom falou:
— O latim é mais que uma língua franca. É a língua da justiça, e nós já os vimos usá-la uma vez.
Gunner e Harold. Sim. Clay assentiu.
— Jordan tem outra idéia — disse Tom. — Acho que você precisa ouvi-la, Clay. Por via das dúvidas. Jordan?
Jordan balançou a cabeça.
— Não consigo.
Tom e Dan Hartwick trocaram olhares.
— Bem, um de vocês me conte, então — disse Clay. — Mas que coisa!
No fim das contas, Jordan mesmo contou.
— Por serem telepatas, eles sabem quem são seus entes queridos.
Clay tentou encontrar algo de sinistro naquilo, mas não conseguiu.
— E daí?
— Tenho um irmão em Providence — disse Tom. — Se ele for um deles, ele será o meu carrasco. Quer dizer, se Jordan estiver correto.
— Minha irmã — falou Dan Hartwick.
— Meu monitor — disse Jordan. Ele estava-muito pálido. — O que tem um celular Nokia de 1.0 megapixel que roda vídeos baixados da Internet.
— Meu marido — falou Denise e desatou a chorar. — A não ser que ele esteja morto. Peço a Deus que sim.
Por um instante, Clay continuou sem entender. Então pensou: John? O meu Johnny! Ele viu o Homem Esfrangalhado com a mão sobre a sua cabeça; o ouviu pronunciar a frase: "Ecce homo... insanus." E viu o filho andar em sua direção, com o bonezinho da Liga Juvenil virado para trás e com sua camisa favorita dos Red Sox, a que tinha o nome e o número de Tom Wakefield. Johnny, pequeno sob os olhos de milhões de espectadores pelo milagre da telepatia de circuito fechado, potencializada pelos bandos.
O pequeno Johnny-Gee, sorrindo. De mãos vazias.
Armados apenas com os dentes.
Foi Ray quem quebrou o silêncio, embora nem estivesse presente.
— Ah, meu Deus. — Vindo de um pouco mais adiante na trilha.
— Merda. — E então: — Ei, Clay!
— O que foi?— gritou Clay em resposta.
— Você morou aqui a vida inteira, não é? — Ray não parecia um campista muito feliz. Clay olhou para os outros, que devolveram apenas olhares vazios. Jordan deu de ombros e estendeu as palmas das mãos, tornando-se por um instante de cortar o coração um pré-adolescente em vez de apenas mais um refugiado da Guerra dos Celulares.
— Bem... mais para o interior, mas sim. — Clay se levantou. — O que houve?
— Então você sabe reconhecer sumagres-venenosos e urtigas, certo?
Denise começou a rir e fechou a boca com as duas mãos.
— Sei — disse Clay. Ele não conseguia deixar de sorrir, mas sabia reconhecê-los muito bem. Já tinha mandado Johnny e seus amiguinhos ficarem longe deles muitas vezes no passado.
— Bem, então venha aqui dar uma olhada — disse Ray —, e venha sozinho. — Então, quase sem pausar: — Denise, não preciso de telepatia para saber que você está rindo. Pode ir parando, garota.
Clay saiu da área para piqueniques, passando pela placa que dizia SE FOR POR AQUI, LEVE UM MAPA! e então pela margem do belo riacho. Àquela altura, tudo na mata estava bonito — uma gradação de cores quentes misturadas com o verde forte e imutável dos abetos —, e ele imaginou (não pela primeira vez) que se todo homem e mulher devia uma morte a Deus, havia estações piores do que aquela para se pagar.
Clay tinha esperado encontrar Ray com as calças abertas ou até mesmo nos tornozelos, mas ele estava em pé em um tapete de folhas de pinheiro com as calças abotoadas. Não havia nenhum arbusto onde ele estava, nenhum sumagre-venenoso ou nada do gênero. Ray estava pálido como Alice quando ela saiu correndo para a sala de estar dos Nickerson para vomitar, a pele tão branca que parecia morta. Somente os olhos ainda tinham vida. Estavam queimando no rosto dele.
— Vem cá — ele disse com um sussurro de pátio de presídio. Clay quase não conseguia ouvi-lo por trás do cacarejar barulhento do rio. — Rápido. Não temos muito tempo.
— Ray, que porra...
— Escute o que eu digo. Dan e o seu amigo Tom são espertos demais. Jordy também. Às vezes pensar atrapalha. A Denise é melhor, mas ela está grávida. Não dá pra confiar numa mulher grávida. Então é com você mesmo, Sr. Artista. Não estou gostando porque você ainda está apegado demais ao seu filho, mas o seu filho já era. No fundo você sabe disso. O seu filho rodou.
— Tudo bem aí, meninos? — gritou Denise, e por mais anestesiado que estivesse, Clay conseguia ouvir o sorriso na voz dela.
— Ray, não sei do que...
— Não, e é assim que vai ser. Escute o que eu digo. O que aquele merda de moletom vermelho quer não vai acontecer, se você não deixar. Isso é tudo que você precisa saber.
Ray enfiou a mão no bolso da calça de sarja e tirou um celular e um pedaço de papel. O telefone estava cinza de sujeira, como se tivesse passado boa parte da vida em uma obra.
— Coloque isso no seu bolso. Quando a hora chegar, ligue para o número no papel. Você vai saber a hora certa. Só posso esperar que sim.
Clay pegou o telefone. Era pegar ou largar. O pedacinho de papel escapou de seus dedos.
— Pegue o papel!— sussurrou Ray furiosamente.
Clay se agachou e pegou a tira de papel. Dez números estavam rabiscados nela. Os três primeiros eram o código de área do Maine.
— Ray, eles lêem mentes! Se eu ficar com isso...
A boca de Ray se esticou em uma terrível paródia de sorriso.
— Ah, é?! — sussurrou ele. — Eles vão bisbilhotar na sua cabeça e descobrir que você está pensando numa porra de um celular! E no que mais todo mundo está pensando desde o dia le de outubro? Quer dizer, os que ainda conseguem pensar?
Clay olhou para o celular sujo e maltratado. Havia duas etiquetas na tampa. A de cima dizia SR. FOGARTY. A de baixo dizia PROP. DA PEDREIRA GURLEYVILLE NÃO RETIRAR.
— Coloca no bolso, porra!
Não foi a urgência da ordem que o fez obedecer, e sim a urgência daqueles olhos desesperados. Clay começou a guardar o telefone e o pedaço de papel. Estava usando jeans, o que significava que seu bolso era mais apertado do que o da calça de sarja de Ray. Ele estava olhando para baixo para abrir mais o bolso quando Ray esticou o braço para frente e puxou o calibre 45 de Clay do coldre. Quando Clay ergueu os olhos, Ray já estava com o cano da arma sob o próprio queixo.
— Você vai estar fazendo um favor para o seu filho Clay. Acredite em mim. Isso não é jeito de viver.
— Ray, não!
Ray apertou o gatilho. A bala American Defender de ponta oca arrancou toda a metade de cima da cabeça dele. Uma multidão de corvos abandonou as árvores. Clay nem tinha notado que eles estavam ali, mas agora eles rasgavam o céu de outono com seus gritos que, por um instante, sumiram sob o som do de Clay.
Eles mal tinham começado a cavoucar uma cova para Ray na terra escura e macia sob os abetos quando os fonóides invadiram suas cabeças. Clay estava sentindo aquele poder combinado pela primeira vez. Era como Tom havia dito, como ser empurrado pelas costas por uma mão poderosa. Quer dizer, isso se tanto a mão quanto as costas estivessem dentro da sua cabeça. Nenhuma palavra. Apenas aquele empurrão.
— Deixe a gente terminar! — ele gritou e imediatamente respondeu a si mesmo em um registro um pouco mais agudo que reconheceu de imediato. — Não. Vão. Agora.
— Cinco minutos! — disse Clay.
Desta vez, a voz do bando usou Denise.
— Vão. Agora.
Tom rolou o corpo de Ray — os restos da cabeça enrolados na capa de um dos descansos para cabeça do ônibus — para o buraco e chutou um pouco de terra. Então agarrou os lados da própria cabeça, fazendo uma careta.
— Ok. Ok — disse ele e respondeu imediatamente a si mesmo. — Vão. Agora.
Eles voltaram para a área de piquenique pela trilha, Jordan na frente. Ele estava muito pálido, mas não tanto quanto Ray ficara no último minuto de vida, pensou Clay. Nem de perto. Isso não é jeito de viver: suas últimas palavras.
Do outro lado da rua, à vontade, fonóides faziam uma fila que se estendia até as duas linhas do horizonte, talvez num total de 800 metros. Devia haver quatrocentos deles, mas Clay não viu o Homem Esfrangalhado. Imaginava que ele tinha ido preparar o caminho, pois na casa dele há muitas moradas.
Com uma extensão telefônica em cada uma delas, pensou Clay.
Enquanto eles marchavam em direção ao microônibus, Clay viu três dos fonóides saírem da formação. Dois começaram a se morder, lutar e rasgar as roupas um do outro, rosnando o que poderiam ter sido palavras — Clay achou que tinha ouvido a expressão calaboca, mas imaginou que não passara de uma coincidência de sílabas. O terceiro simplesmente se virou e começou a ir embora, descendo a faixa branca em direção a Newfield.
— É isso mesmo, fora de forma, soldado! — gritou Denise histericamente. — Todos vocês, fora de forma!
Mas eles não obedeceram, e antes de o desertor — se é que era isso que ele era — chegar à curva onde a rota 160 virava para o sul, sumindo de vista, um fonóide idoso, porém corpulento, simplesmente atirou os braços para frente, agarrou a cabeça do andarilho e a torceu para um lado. O andarilho desabou no asfalto.
— Ray estava com as chaves — falou Dan com uma voz cansada. Seu rabo-decavalo estava quase todo solto, e o cabelo caía-lhe sobre os ombros. — Alguém vai ter que voltar e...
— Eu peguei as chaves — disse Clay. — E eu vou dirigir. — Ele abriu a porta lateral do pequeno ônibus, sentindo aquela pulsação e aqueles empurrões constantes na cabeça. Havia sangue e terra nas suas mãos. Ele sentia o peso do celular no bolso e teve um pensamento estranho: talvez Adão e Eva tenham apanhado algumas maçãs antes de serem expulsos do Éden. Uma coisinha para beliscar no decorrer da longa e empoeirada estrada até 7 mil canais de televisão e mochilas com bombas no metrô de Londres. — Vamos entrando, todo mundo.
Tom olhou para ele.
— Não precisa soar tão animadinho, Van Gogh.
— Por que não? — disse Clay, sorrindo. Ele ficou imaginando se aquele sorriso não parecia com o de Ray; aquele terrível ato final. — Pelo menos não vou ter que ouvir as suas besteiras por muito mais tempo. Todos pra dentro. Próxima parada, Kashwak=Sem-Fo.
Antes de entrarem no ônibus, eles foram obrigados a se livrar das armas.
Isso não se deu por meio de um comando mental, tampouco o controle motor deles foi sobrepujado por alguma força superior — Clay não teve que ficar olhando enquanto algo fazia sua mão baixar e tirar o calibre 45 do coldre. Ele não achava que os fonóides pudessem fazer aquilo, pelo menos não por ora; não podiam nem mesmo fazer o truque do ventríloquo sem permissão. Em vez disso, ele sentiu uma espécie de coceira muito forte, quase insuportável, dentro da cabeça.
— Minha Nossa Senhora! — exclamou Denise em voz baixa e atirou o pequeno calibre 22 que carregava no cinto o mais longe possível. Ele foi cair na estrada. Dan jogou sua própria pistola em seguida e então acrescentou a faca de caça para completar. A faca voou com a ponta para frente quase até o outro lado da rota 160, mas nenhum dos fonóides que estavam lá recuou.
Jordan largou o revólver que carregava no chão ao lado do ônibus. Então, resmungando e se contorcendo, enfiou a mão na mochila e jogou longe a arma de Alice. Tom acrescentou o Sr. Ligeirinho.
Clay juntou o calibre 45 às demais armas ao lado do ônibus. Aquela arma vinha trazendo azar para as pessoas desde o Pulso, e ele não estava muito triste em deixá-la para trás.
— Pronto — disse ele. Falou para os olhos que os observavam e para os rostos sujos, muitos deles mutilados, do outro lado da rua, mas era o Homem Esfrangalhado quem estava visualizando. — Isso é tudo. Está satisfeito? — E respondeu a si mesmo de imediato. — Por quê. Ele Fez. Aquilo?
Clay engoliu em seco. Não eram apenas os fonóides que queriam saber; Dan e os outros estavam olhando para ele também. Clay notou que Jordan segurava o cinto de Tom, como se temesse a resposta dele da mesma maneira que um bebê temeria uma rua movimentada. Uma rua cheia de caminhões em alta velocidade.
— Ele disse que o seu jeito não era jeito de viver — disse Clay. — Pegou minha arma e estourou a própria cabeça antes que eu pudesse impedi-lo.
Silêncio, exceto pelo grasnido dos corvos. Então Jordan falou, em um tom monocórdio e declamatório.
— O nosso jeito. É o único jeito.
Dan falou em seguida. No mesmo tom.
Se não estiverem sentindo raiva, eles não sentem nada, pensou Clay.
— Entrem. No ônibus.
Eles entraram. Clay foi para trás do volante e deu a partida no motor. Ele seguiu para o norte pela rota 160. Estava há menos de um minuto na estrada quando percebeu movimento à sua esquerda. Eram os fonóides. Eles estavam indo para o norte pelo acostamento — por sobre o acostamento — em linha reta, como se estivessem em uma esteira a uns 20 centímetros do chão. Então, mais à frente, onde a estrada subia, eles levitaram muito mais alto, talvez a 40 centímetros do solo, descrevendo um arco humano contra o céu sombrio, quase todo nublado. Observar os fonóides desaparecendo para além do topo da colina era como observar um grupo descer o aclive de uma montanha-russa invisível.
Então a graciosa simetria se rompeu. Um dos vultos em suspensão caiu como um pássaro alvejado de uma moita, desabando pelo menos 2 metros até o acostamento. Era um homem vestido com uma roupa de corrida em frangalhos. Ele girava furiosamente no chão, chutando com uma perna, arrastando a outra. Quando o ônibus passou por ele a constantes 25 quilômetros por hora, Clay viu que o rosto do homem estava repuxado em uma careta de fúria e que sua boca se mexia, cuspindo o que quase certamente eram suas últimas palavras.
— Então agora já sabemos — disse Tom com cinismo. Ele estava sentado com Jordan no banco dos fundos do ônibus, em frente ao bagageiro em que as mochilas estavam empilhadas. — Os primatas dão origem ao homem, o homem dá origem aos fonóides, e os fonóides dão origem a telepatas que levitam e sofrem de síndrome de Tourette. Evolução completa.
Jordan perguntou:
— O que é síndrome de Tourette?
Tom respondeu:
— E eu sei lá, filho. — E, incrivelmente, todos começaram a rir.
Logo estavam às gargalhadas, até Jordan, que não sabia do que estava rindo, enquanto o microônibus amarelo seguia lentamente para o norte, com os fonóides ultrapassando-o e então levitando, levitando em uma procissão aparentemente sem fim.