Celular

Stephen King · Capítulo 5 de 5 · parte 2/3

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Celular

Kashwak

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Além do mais, pensou ele, agora eles têm aquele outro problema, aquela falha na programação. Aquele worm. Que tal essa? No fim das contas, esses caras podem acabar durando menos que os dinossauros, com telepatia, levitação e tudo.

Ok, já chega de pano de fundo. Qual é a sua ilustração? Qual é o seu retrato, aquele que vai prender o leitor e arrastá-lo para dentro da história? Ora, Clay Riddell e Ray Huizenga, é lógico. Os dois estão na mata. Ray está com o cano do calibre 45 de Beth Nickerson sob o queixo e Clay está segurando...

Um celular, claro. O que Ray roubou da pedreira Gurleyville.

CLAY (aterrorizado): Ray, PARE! Isso não faz sentido! Você se esqueceu? Kashwak é uma ÁREA SEM COBERTURA CE... Inútil! KA-POW! Em maiúsculas amarelas e dentadas no primeiro plano da splash, e aquela chegava a fazer splash mesmo, pois Arnie Nickerson foi atencioso o bastante para abastecer a mulher com o tipo de bala de ponta oca vendida na Internet nos sites Paranóia Americana, e o topo da cabeça de Ray parece um gêiser vermelho. Ao fundo — um daqueles detalhes que talvez tivessem tornado Clay Riddell famoso em um mundo em que o Pulso jamais tivesse acontecido — um único corvo aterrorizado levanta vôo de um galho de pinheiro.

Uma bela splash page, pensou Clay. Sanguinolenta, com certeza — jamais teria sido aprovada nos velhos tempos do Código de Ética —, mas imediatamente sedutora. E embora Clay nunca tivesse falado aquilo sobre os celulares não funcionarem depois do local de conversão, ele teria dito se tivesse pensado na hora. Ray se matara para que o Homem Esfrangalhado e seus amigos fonóides não vissem o telefone na mente dele, o que era de uma ironia amarga. O Homem Esfrangalhado já sabia do celular cuja existência Ray morrera para proteger. Sabia que estava no bolso de Clay... e não dava a mínima.

Parado diante das portas duplas do Kashwakamak Hall. O Homem Esfrangalhado fazendo aquele gesto — polegar na orelha, dedos enrolados perto da bochecha rasgada e áspera, dedinho na frente da boca. Usando Denise para repetir, para reforçar o ponto: Sem-fo-pravo-você.

Isso mesmo. Porque Kashwak=Sem-Fo.

Ray morrera em vão... então por que isso não o incomodava naquele instante?

Clay notou que estava cochilando, como era comum quando desenhava com a cabeça. Desligando-se. E não tinha problema. Porque era daquele jeito que ele sempre se sentia logo antes de o desenho e a história se fundirem — feliz, como as pessoas se sentem antes de uma esperada volta para casa. Antes de os amantes se encontrarem no fim do caminho. Não tinha o menor motivo para se sentir daquela maneira, mas se sentia.

Ray Huizenga morrera por um celular inútil.

Ou por mais de um? Agora, Clay via outro quadrinho. Aquele era um quadrinho de flashback, dava para notar por conta das margens retorcidas.

Close na mão de RAY, segurando o celular sujo e uma tira de papel com um número de telefone rabiscado nela. Os dedos de RAY tampam tudo menos o código de área do Maine.

RAY (FORA DE CENA): Quando a hora chegar, ligue para o número no papel Você vai saber a hora certa. Espero que sim.

Não dá pra ligar pra ninguém de celular em Kashwakamak, Ray, porque Kashwak=Sem-fo. É só perguntar para o Reitor de Harvard.

E para reforçar o ponto, eis mais um quadrinho de flashback com aquelas margens retorcidas. Rota 160. Em primeiro plano, o pequeno ônibus amarelo com DISTRITO ESCOLAR 38 MAINE NEWFIELD pintado na lateral. À meia distância, pintado na estrada, KASHWAK=SEMFO. Novamente, os detalhes são impecáveis: latas de refrigerante vazias caídas na vala, uma blusa descartada presa em uma moita e, ao longe, uma tenda balançando numa árvore como uma enorme língua marrom. Sobre o microônibus, quatro balões em off. Não foi exatamente aquilo que eles falaram (mesmo cochilando sua mente sabia), mas essa não era a questão. O roteiro não era a questão, não naquela hora.

Ele achou que saberia qual era a questão quando topasse com ela.

DENISE (EM OFF): Foi aqui que eles...?

TOM (EM OFF): Fizeram as conversões, isso mesmo. Você entra na fila, um normie faz sua ligação, e quando estiver indo para o bando da Expo, já é um deles. Que furada.

DAN (EM OFF): Por que aqui? Por que não no terreno da Expo?

CLAY (EM OFF): Já esqueceu? Kashwak=Sem-Fo. Eles juntaram todo mundo no limite da cobertura celular. Depois daqui, nada. Neca de pitibiriba. Zero.

Outro quadrinho. Close no Homem Esfrangalhado em toda sua glória pestilenta. Sorrindo com a boca mutilada e trazendo tudo à tona com um gesto. Ray teve uma idéia brilhante que dependia de uma ligação de celular. Era tão brilhante que ele esqueceu completamente que aqui não tem cobertura. Eu provavelmente teria que ir para Quebec para conseguir sinal no telefone que ele me deu. É hilário, mas sabe o que é mais hilário ainda? Eu peguei o aparelho! Que trouxa!

Então Ray morreu em vão? Talvez, mas outro desenho estava se formando. Lá fora, Pachelbel dera lugar a Fauré, e Fauré dera lugar a Vivaldi. Jorrando de alto-falantes em vez de mini systems. Alto-falantes negros contra um céu morto, com os brinquedos inacabados ao fundo; em primeiro plano, o Kashwakamak Hall com suas flâmulas e revestimento vagabundo de feno. E, como toque final, o pequeno detalhe que já estava tornando Clay Riddell famoso...

Ele abriu os olhos e se sentou direito. Os outros ainda estavam sentados em círculo no carpete da extremidade norte. Clay não sabia quanto tempo tinha ficado recostado na porta, mas fora tempo suficiente para deixar sua bunda dormente.

Gente, ele tentou dizer, mas a princípio nenhum som saía. Estava com a boca seca. Seu coração batia forte. Ele pigarreou e tentou mais uma vez.

— Gente! — disse, e eles olharam em volta. Algo em sua voz fez Jordan se levantar de um pulo, e Tom quase fez o mesmo.

Clay andou até eles com pernas que nem pareciam as suas — estavam dormentes. Tirou o celular do bolso no caminho. O telefone pelo qual Ray morrera porque no calor do momento se esquecera do fato mais óbvio sobre Kashwakamak: lá na Expo dos Condados do Norte, aqueles negócios não funcionavam.

— Para que serve isso, se não funciona? — perguntou Dan. Ele ficara empolgado com a empolgaçao de Clay, mas logo se desanimou quando viu que o objeto na mão de Clay não era uma carta Você Está Livre da Prisão, mas apenas outro maldito celular. Um Motorola velho e sujo com a capa rachada. Os outros olharam para ele com uma mistura de medo e curiosidade.

— Tenha um pouco de paciência comigo — disse Clay. — Pode ser?

— Nós temos a noite inteira — respondeu Dan. Ele tirou os óculos e começou a limpá-los. — Temos que passar o tempo de algum jeito.

— Vocês pararam naquele Posto Comercial de Newfield para arranjar algo para comer e beber — disse Clay. — E acharam o ônibus escolar amarelo.

— Parece que foi um zilhão de anos atrás — falou Denise. Ela esticou o lábio inferior e soprou o cabelo de cima da testa.

— Ray encontrou o ônibus — disse Clay. — Ele tinha uns vinte lugares...

— Dezesseis, na verdade — atalhou Dan. — Está escrito no painel. Cara, as escolas daqui devem ser minúsculas.

— Dezesseis lugares, com espaço na traseira para mochilas ou bagagem leve para passeios fora da escola. Então vocês continuaram viagem. E, quando chegaram à pedreira Gurleyville, aposto que foi Ray quem teve a idéia de parar lá.

— Foi isso mesmo — disse Tom. — Ele achou que a gente estava precisando de uma refeição quente e de uma descansada. Como você sabe, Clay?

— Eu sei porque desenhei — respondeu Clay, e era quase verdade; ele via a cena enquanto falava. — Dan, você, Denise e Ray exterminaram dois bandos. O primeiro com gasolina, mas no segundo usaram dinamite. Ray sabia mexer nela porque já tinha usado explosivos quando trabalhava como construtor de estradas.

— Puta merda — exalou Tom. — Ele pegou dinamite naquela pedreira, não pegou? Enquanto estávamos dormindo. Pode ter pegado; a gente dormiu feito uma pedra.

— Foi Ray quem nos acordou — falou Denise.

Clay disse:

— Não sei se foi dinamite ou algum outro explosivo, mas tenho quase certeza de que ele transformou aquele ônibus amarelo em uma bomba ambulante enquanto vocês estavam dormindo.

— Está na traseira — disse Jordan. — No bagageiro.

Clay assentiu.

As mãos de Jordan tinham se fechado em punhos.

— Quanto você acha que tem?

— Só vamos saber quando explodir — disse Clay.

— Deixe-me ver se estou entendendo — disse Tom. Lá fora, Vivaldi dera lugar a Mozart: Pequena Serenata Noturna. Os fonóides haviam definitivamente superado Debby Boone. — Ele escondeu uma bomba na traseira do ônibus... então deu um jeito de acoplar um celular como detonador?

Clay assentiu.

— É o que eu acredito. Acho que ele encontrou dois celulares no escritório da pedreira. Imagino que devia ter uma meia dúzia, para os funcionários usarem. Enfim, ele acoplou um deles a um detonador nos explosivos. Era o que os insurgentes faziam para detonar bombas de beira de estrada no Iraque.

— Ele fez tudo isso enquanto a gente estava dormindo? — perguntou Denise. — E não nos contou?

Clay disse:

— Ele escondeu de vocês para que a informação não ficasse em suas mentes.

— E se matou para que ela não ficasse na dele — falou Dan. Então soltou uma gargalhada amarga. — Ok, ele é um herói! A única coisa que se esqueceu é que celulares não pegam além do lugar em que eles colocaram aquelas malditas tendas de conversão. Aposto que mal funcionavam lá!

— Certo — disse Clay. Ele estava sorrindo. — É por isso que o Homem Esfrangalhado me deixou ficar com esse telefone. Ele não sabia para que eu o queria; e nem sei se o que eles fazem é exatamente pensar...

— Não igual a gente — disse Jordan. — E nunca vão conseguir.

— ... mas ele não se importou, porque sabia que não iria funcionar. Eu nem poderia me dar uma dose de Pulso com ele, porque Kashwak é igual a sem-fo. Sem-fo-pramim-mim.

— Então por que o sorriso? — perguntou Denise.

— Porque eu sei algo que ele não sabe — respondeu Clay. — Algo que eles não sabem. — Ele se virou para Jordan. — Você sabe dirigir?

Jordan pareceu surpreso.

— Ei, eu tenho 12 anos. Acorda, cara.

— Você nunca dirigiu um kart? Um ATV? Um carro de neve?

— Bem, já... tem uma pista de terra para kart num minicampo de golfe depois de Nashua, e uma vez ou outra...

— Ótimo. Não vai ser para muito longe. Quer dizer, levando em conta que eles tenham deixado o ônibus no Sky Coaster. E aposto que deixaram. Eles devem saber dirigir tanto quanto sabem pensar.

Tom falou:

— Clay, você ficou maluco?

— Não — respondeu ele. — Eles podem fazer as execuções em massa de exterminadores de bando que quiserem naquele estádio virtual amanhã, mas nós não vamos fazer parte delas. Nós vamos dar o fora daqui.

As janelinhas eram grossas, mas o pé-de-cabra de Dan deu conta do vidro. Ele, Tom e Clay se revezaram com ele até derrubarem todos os cacos. Então Denise tirou o suéter que estava usando e cobriu a parte de baixo da moldura.

— Você está tranqüilo quanto a isso, Jordan? — perguntou Tom.

Jordan assentiu. Ele estava assustado — seus lábios estavam completamente sem cor —, mas parecia calmo. Lá fora, a música de ninar dos fonóides tinha voltado ao Canon de Pachelbel — o que Denise chamara de som das memórias.

— Estou bem — disse Jordan. — Vou ficar, pelo menos. Eu acho. Assim que começar.

Clay falou:

— Tom talvez consiga passar apertado...

Atrás do ombro de Jordan, Tom olhou para a janelinha, com menos de 45 centímetros de largura, e balançou a cabeça.

— Vou ficar bem — disse Jordan.

— Certo. Repita para mim.

— Dou a volta e olho na traseira do ônibus. Confiro se os explosivos estão lá, mas não encosto neles. Procuro pelo outro celular.

— Isso. E confere se ele está ligado. Se não estiver...

— Já sei, eu ligo. — Jordan olhou para Clay com uma cara de "não sou idiota". — Depois dou a partida no motor...

— Não, não se apresse...

— Empurro o assento do motorista para frente para poder alcançar os pedais, depois dou a partida no motor.

— Isso.

— Sigo entre o Sky Coaster e a Casa dos Horrores. Vou superdevagar. Vou passar por cima de alguns pedaços da Casa dos Horrores e talvez eles quebrem, partam sob os pneus, mas não vou deixar isso me impedir.

— É isso aí.

— Chego o mais perto deles possível.

— Sim, isso mesmo. Então volta para os fundos, até essa janela. Para que o hall fique entre você e a explosão.

— O que esperamos que seja uma explosão — falou Dan.

Clay poderia ter passado sem essa, mas não deu atenção. Ele se abaixou e beijou Jordan na bochecha.

— Eu te amo, sabia? — disse ele.

Jordan deu um abraço rápido e forte em Clay. Depois em Tom. E depois em Denise.

Dan estendeu a mão e falou:

— Ah, que se dane. — E deu um quebra-costelas em Jordan.

Clay, que nunca fora muito fã de Dan Hartwick, passou a gostar mais dele depois disso.

Clay fez uma escadinha com as mãos e impulsionou Jordan para cima.

— Lembre-se — disse ele —, vai ser como um mergulho, só que em feno em vez de água. Mãos para cima e esticadas.

Jordan colocou as mãos sobre a cabeça, estendendo-as para a noite além da janela quebrada. Sob a cascata de cabelos grossos, seu rosto estava mais pálido do que nunca; as primeiras marcas vermelhas da adolescência sobressaindo como pequenas queimaduras. Ele estava assustado, e Clay não o culpava. Estava prestes a encarar uma queda de 3 metros e, mesmo com o feno, a aterrissagem tendia a ser dura. Clay esperava que Jordan se lembrasse de manter as mãos esticadas e a cabeça encolhida; de nada adiantaria se ele acabasse caindo do lado do Kashwakamak Hall com o pescoço quebrado.

— Quer que eu conte até três, Jordan? — perguntou ele.

— Não, porra! Vai logo antes que eu mije nas calças.

— Então mantenha as mãos esticadas, vai — gritou Clay e lançou suas mãos entrelaçadas para cima. Jordan varou a janela e desapareceu. Clay não o escutou aterrissar; a música estava muito alta.

Os demais se amontoaram na janela, que estava logo acima de suas cabeças.

— Jordan? — chamou Tom. — Jordan, tudo bem?

Por um instante, nada aconteceu e Clay teve certeza de que Jordan quebrara mesmo o pescoço. Então ele falou com a voz tremida.

— Estou aqui. Putz, que dor. Machuquei o cotovelo. O esquerdo. O braço está todo esquisito. Esperem um instante...

Eles esperaram. Denise pegou a mão de Clay e a apertou forte.

— Está se mexendo — disse Jordan. — Parece que está tudo bem, mas acho que vou procurar a enfermeira da escola.

Todos riram alto demais.

Tom amarrara a chave de ignição do ônibus em um fio duplo da sua camisa, e o fio na fivela do cinto. Clay enlaçou os dedos novamente e Tom subiu.

— Vou descer a chave para você, Jordan. Está preparado?

— Estou.

Tom agarrou a beirada da janela, olhou para baixo e então desceu o cinto.

— Pronto, já pegou — disse ele. — Agora ouça o que eu vou dizer. Tudo que pedimos é: faça se você puder. Se não puder, não tem castigo. Entendeu?

— Entendi.

— Então vai. Chispa. — Ele ficou olhando por um instante; então disse: — Ele já foi. Deus o ajude, ele é um garoto corajoso. Me põe no chão.

Jordan saíra pelo lado do prédio oposto ao bando adormecido. Clay, Tom, Denise e Dan atravessaram o salão até o lado do caminho principal. Os três homens viraram de lado a já vandalizada máquina de salgadinhos e a empurraram contra a parede. Clay e Dan conseguiam olhar com facilidade pelas janelas altas em cima dela; Tom precisava ficar na ponta dos pés. Clay acrescentou um caixote para Denise também poder ver, rezando para que ela não caísse de cima dele e entrasse em trabalho de parto.

Eles viram Jordan andar até a beirada da multidão adormecida, ficar parado lá um instante como se estivesse pensando e então seguir para a esquerda. Clay achou que continuava a ver movimento bem depois de sua mente racional ter lhe dito que Jordan já deveria ter sumi-do, contornando a beirada do bando maciço.

— Quanto tempo você acha que ele vai levar para voltar? — perguntou Tom.

Clay balançou a cabeça. Ele não sabia. Dependia de muitas variáveis — o tamanho do bando era apenas uma delas.

— E se eles checaram a traseira do ônibus? — perguntou Denise.

— E se Jordy checar a traseira do ônibus e não encontrar nada? — falou Dan, e Clay teve que se controlar para não mandar o homem guardar suas vibrações negativas para si.

O tempo passou, arrastando-se centímetro a centímetro. A luzinha vermelha no topo do Sky Coaster piscou. Pachelbel mais uma vez deu lugar a Fauré, que deu lugar a Vivaldi. Clay se surpreendeu recordando o menino adormecido que fora jogado do carrinho de compras, como o homem que estava com ele — que provavelmente não era seu pai — tinha se sentado ao seu lado na beira da estrada e dito: Gregory vai dar um beijo e o dodói vai sarar. Lembrou-se do homem com a bolsa ouvindo Baby Elephant Walk e dizendo: Dodge também se divertia à beça. Lembrou-se de como, nas tendas de bingo da sua infância, o homem com o microfone exclamava invariavelmente: É a vitamina da luz solar! Quando tirava B-12 de dentro do globo com as bolas de pingue-pongue dançantes dentro. Embora a vitamina da luz do sol fosse a D.

Agora, o tempo parecia se arrastar de meio em meio centímetro, e Clay começou a perder as esperanças. Se fossem ouvir o som do motor do ônibus, já deveriam ter ouvido àquela altura.

— Alguma coisa deu errado — disse Tom em voz baixa.

— Talvez não — disse Clay. Ele tentou afastar da voz o peso que sentia no coração.

— Não, Tommy está certo — falou Denise. Estava à beira das lágrimas. — Eu o amo até a morte, e ele tinha mais colhões do que lorde Satanás na sua primeira noite no inferno, mas se estivesse vindo, já estaria chegando.

A reação de Dan foi surpreendentemente positiva.

— Não sabemos o que ele pode ter encontrado. Respirem fundo e tentem manter a imaginação sob controle.

Clay tentou fazer isso e não conseguiu. Os segundos passaram a gotejar. Ave-Maria de Schubert ribombava dos enormes alto-falantes para shows. Ele pensou: Eu venderia minha alma por um bom rock-and-roll; Chuck Berry cantando Oh, Carol, U2 cantando When Love Comes to Down...

Lá fora, apenas a escuridão, as estrelas e aquela minúscula luz a bateria.

— Me levanta até lá em cima — disse Tom, descendo da máquina de salgadinhos. — Vou dar um jeito de passar por aquela janela e ver se consigo buscá-lo.

Clay começou a falar:

— Tom, se eu me enganei sobre os explosivos na traseira do ônibus...

— Que se dane a traseira do ônibus e que se danem os explosivos! — disse Tom, enlouquecido. — Só quero encontrar Jor...

— Ei! — exclamou Dan, e então: — Ei, é isso aí! MANDA VER! — Ele esmurrou a parede próxima à janela.

Clay se virou e viu que faróis haviam surgido na escuridão. Uma névoa começara a emanar do tapete de corpos comatosos nos acres da esplanada, e os faróis do ônibus pareciam estar cortando fumaça. Eles ficavam brilhantes, foscos, e então brilhantes novamente, e Clay conseguia ver Jordan com muita clareza, sentado no assento do motorista do microônibus, tentando descobrir quais controles faziam o quê.

As luzes começaram a se mover para frente. Faróis altos.

— Isso, meu bem — suspirou Denise. — Você consegue, querido. — De pé no caixote, ela agarrou a mão de Dan de um lado e a de Clay do

outro. — Maravilha, continue vindo.

Os faróis se afastaram deles, passando a iluminar as árvores bem à esquerda da área aberta com o tapete de fonóides.

— O que ele está fazendo? — quase gemeu Tom.

— É o pedaço em que a Casa dos Horrores dá uma virada — disse Clay. — Está tudo bem. — Ele hesitou. — Acho que sim. — Se o pé dele não escorregar. Se ele não confundir o freio com o acelerador, bater com o ônibus no lado da porra da Casa dos Horrores e ficar preso nela.

Eles aguardaram, e os faróis giraram de volta, acertando a lateral do Kashwakamak Hall ao nível do chão. E o brilho dos faróis altos fez Clay compreender por que Jordan demorara tanto. Nem todos os fonóides estavam dormindo. Dezenas deles — os que receberam a programação corrompida, ele imaginou — estavam de pé e se movendo. Andavam sem rumo para todas as direções possíveis, vultos negros se espalhando em ondulações crescentes, lutando para atravessar os corpos dos adormecidos, tropeçando, caindo, se levantando e voltando a andar enquanto a Ave de Schubert enchia a noite. Um deles, um jovem com um longo talho vermelho cortando-lhe o meio da testa como uma ruga, alcançou o Hall e tateou pela parede como um cego.

— Já está bom, Jordan — murmurou Clay à medida que os faróis se aproximavam dos alto-falantes do outro lado da área aberta. — Pare o ônibus e volte para cá.

Era como se Jordan tivesse escutado. Os faróis pararam. Por um instante, as únicas coisas que se moviam lá fora eram os vultos inquietos dos fonóides acordados e a névoa que emanava dos corpos quentes dos demais. Então eles ouviram o motor do ônibus dar partida — mesmo com a música eles ouviram —, e os faróis saltaram para frente.

— Não, Jordan, o que você está fazendo?— gritou Tom.

O ônibus foi aos solavancos para dentro do bando adormecido. Para cima do bando adormecido. Os faróis começaram a saltar para cima e para baixo, ora apontando para eles, ora se erguendo levemente, ora voltando ao nível do chão. O ônibus girou para a esquerda, voltou a seguir reto, então virou para a direita. Por um instante, um dos sonâmbulos foi iluminado pelos quatro faróis brilhantes tão claramente quanto um recorte numa cartolina preta. Clay viu o fonóide erguer os braços, como se quisesse mostrar que marcou um gol, e então foi arrastado para baixo da grade do veículo.

Jordan guiou o ônibus até o meio deles e parou, faróis acesos, grade pingando. Erguendo uma das mãos para tapar o excesso de luz, Clay conseguiu ver um pequeno vulto negro — distinguível dos demais por conta de sua agilidade e determinação — emergir da porta lateral do ônibus e começar a seguir em direção ao Kashwakamak Hall. Então Jordan caiu, e Clay achou que ele já era. Logo depois, Dan gritou: "Lá está ele, lá!', e Clay o enxergou novamente, uns 10 metros mais próximo e bastante à esquerda de onde ele perdera o menino de vista. Jordan deve ter se arrastado um pouco por sobre os corpos adormecidos antes de se arriscar a ficar de pé novamente.

Quando Jordan voltou para dentro do cone de luz esfumaçado que os faróis do ônibus produziam, eles conseguiram vê-lo com clareza pela primeira vez, junto à ponta de uma sombra de mais de 10 metros. Não o rosto, por conta da luz que vinha de trás, mas a maneira louca graciosa como ele corria por sobre os corpos dos fonóides. Os que estavam no chão ainda estavam mortos para o mundo. Os que estavam acordados, mas distantes de Jordan, não deram atenção. Porém, muitos dos que estavam perto tentaram agarrá-lo. Jordan desviou de dois destes, mas o terceiro, uma mulher, o pegou pela cabeleira embaraçada.

— Largue-o — rugiu Clay. Não conseguia vê-la, mas tinha uma certeza louca de que era a mulher que um dia fora sua esposa. — Largue o menino!

Ela não largou, mas Jordan agarrou seu pulso, o torceu, caiu com um joelho no chão e saiu catando cavaco. A mulher tentou pegá-lo de novo, errou por pouco a parte de trás da camisa dele, e então seguiu cambaleando seu próprio caminho.

Clay notou que muitos dos fonóides infectados tinham se juntado ao redor do ônibus. Os faróis pareciam atraí-los.

Clay saltou da máquina de salgadinhos (daquela vez foi Dan Hartwick quem salvou Denise de um tombo) e pegou o pé-de-cabra. Ele pulou de volta para cima da máquina e quebrou a janela pela qual estivera olhando.

— Jordan!— ele berrou. — Para os fundos! Vá para os fundos!

Jordan ergueu os olhos ao som da voz de Clay e tropeçou em alguma coisa — uma perna, um braço, talvez um pescoço. Quando estava se levantando, a mão de alguém saiu da escuridão pulsante e agarrou a garganta do menino.

— Por favor, Deus, não — sussurrou Tom.

Jordan se jogou para frente como um fullback tentando uma primeira descida, impulsionando-se com as pernas, e conseguiu se soltar. Seguiu adiante aos trambolhões. Clay conseguia ver seus olhos e a maneira como seu peito arfava. Quando Jordan se aproximou do hall, Clay conseguia ouvi-lo arquejando.

Nunca vai conseguir, pensou ele. Nunca. E está tão perto, tão perto.

Mas conseguiu. Os dois fonóides que estavam mancando daquele lado do prédio não se interessaram nem um pouco por Jordan quando ele passou pela dupla correndo e deu a volta para o outro lado. Os quatro saíram ao mesmo tempo da máquina de salgadinhos e atravessaram o hall em disparada como uma equipe de revezamento, Denise e sua barriga na frente.

— Jordan!— gritou ela, saltitando na ponta dos dedos. —Jordan, Jordy, você está aí? Pelo amor de Deus, garoto, diga que você está aí!

— Estou — ele respirou bastante ar — aqui. — Respirou mais uma vez. Clay tinha uma vaga noção de que Tom ria e batia nas suas costas. — Nunca imaginei — Whooo-ooop!— que passar por cima de gente fosse tão... difícil.

— O que você pensou que estava fazendo? — gritou Clay. Era uma agonia não poder agarrar o menino, primeiro abraçá-lo, depois sacudi-lo e depois beijar todo aquele rosto corajoso e idiota. Uma agonia não poder nem vê-lo. — Eu disse para chegar perto, não para subir em cima deles, porra!

— Fiz — Whooo-ooop!— pelo Diretor. — Além da falta de ar, havia também rebeldia na voz de Jordan. — Eles mataram o Diretor. Eles e o Homem Esfrangalhado. Eles e aquele Reitor de Harvard idiota. Queria que pagassem por isso. Quero que ele pague.

— Por que você demorou tanto? — perguntou Denise. — Esperamos um tempão!

— Tem dezenas deles andando por aí — disse Jordan. — Talvez centenas. O que quer que esteja errado com eles... ou certo... ou apenas diferente... está se espalhando muito rápido. Eles estão zanzando de um lado para o outro, perdidinhos. Tive que ficar mudando o percurso. Acabei tendo que andar desde a metade do caminho principal até o ônibus. E aí... — Ele riu sem fôlego. — O ônibus não pegava! Dá pra acreditar? Eu rodava e rodava a chave e só conseguia um clique. Quase entrei em pânico, mas não deixei isso acontecer. Porque sabia que o Diretor ficaria desapontado se eu deixasse.

— Ah, Jordy... — suspirou Tom.

— Sabe o que era? Eu tinha que colocar a droga do cinto. Não precisa se você estiver nos bancos de passageiros, mas o ônibus só dá partida se o motorista estiver com o dele colocado. Enfim, desculpem-me por demorar tanto, mas aqui estou eu.

— E então podemos supor que o bagageiro não estava vazio? — perguntou Dan.

— Podem supor isso até o eu fazer bico. Está cheio do que parecem ser tijolo. Pilhas e pilhas deles. — Jordan já estava recuperando o fôlego. — Estão debaixo de um cobertor. Tem um celular em cima deles. Ray o amarrou a dois tijolos daqueles com uma corda elástica, tipo uma correia. O telefone está ligado, e é do tipo que tem uma entrada, tipo para fax ou para passar arquivos pra um computador. O cabo desce pelo meio dos tijolos. Eu não vi, mas aposto que o detonador está no meio. — Ele inspirou fundo mais uma vez. — E o telefone estava com sinal. Três barras de sinal.

Clay assentiu. Ele estava certo desde o início. Era para Kashwakamak ser uma zona sem cobertura celular assim que você passasse da estrada de acesso que dava na Expo dos Condados do Norte. Os fonóides arrancaram essa informação das cabeças de alguns normies e a usaram. A pichação Kashwak=Sem-Fo tinha se espalhado feito varíola. Porém, será que algum fonóide tentou fazer uma ligação de celular para celular no terreno da Expo? É claro que não. E por que tentariam? Se você é telepata, os telefones se tornam obsoletos. E quando você é um membro do bando — uma parte do todo —, eles se tornam duplamente obsoletos, se é que isso é possível.

Porém, os celulares funcionavam naquela pequena área, e por quê? Porque os funcionários estavam montando o parque, eis o porquê — funcionários que trabalhavam para uma companhia chamada Empresa de Diversões Nova Inglaterra. E no século XXI, esse tipo de funcionário — como roadies de shows de rock, montadores de palco e equipes de filmagem em locação — dependia de celulares, principalmente em locais isolados, onde havia poucas linhas fixas. Não existem torres de telefonia celular para enviar e receber sinal? Beleza, eles pirateiam o programa necessário e instalam uma torre própria. Ilegal? É claro, mas, a julgar pelas três barras de sinal que Jordan dizia ter visto, funcionava e, uma vez que era a bateria, ainda estava funcionando. Tinha sido instalada no ponto mais alto da Expo.

No topo do Sky Coaster.

Dan atravessou o hall de volta, subiu na máquina de salgadinhos e olhou para fora.

— Tem três camadas deles em volta do ônibus — relatou ele. — Quatro em frente aos faróis. É como achassem que algum grande pop star está escondido lá dentro. Os fonóides debaixo deles devem estar sendo esmagados. — Ele se virou para Clay e assentiu olhando para o Motorola sujo que Clay segurava nas mãos. — Se for fazer isso, sugiro que tente agora, antes que algum deles decida entrar e tente levar a porra do ônibus embora.

— Eu devia ter desligado o motor, mas achei que os faróis iriam apagar se eu desligasse — falou Jordan. — E precisava deles para enxergar.

— Não tem problema, Jordan — disse Clay. — Não faz mal. Eu vou...

Mas não havia nada no bolso do qual ele tirara o celular. O pedaço de papel com o número de telefone tinha sumido.

Clay e Tom estavam procurando por ele no chão — procurando desesperadamente por ele no chão —, e Dan relatava com desânimo de cima da máquina de salgadinhos que o primeiro fonóide acabara de entrar no ônibus, quando Denise berrou:

— Parem! CALEM A BOCA!

Todos eles pararam o que estavam fazendo e olharam para ela. O coração de Clay batia rapidamente na garganta. Não conseguia acreditar no próprio descuido. Ray morreu por isso, seu merda!, parte dele não parava de gritar para o resto. Ele morreu por isso e você perdeu o papel!

Denise fechou os olhos e juntou as mãos sobre a cabeça abaixada. Então, entoou muito rapidamente:

— Antônio, Antônio, onde está você, perdemos uma coisa que não quer aparecer.

— Que porra é essa7.

— Uma prece a Santo Antônio — disse ela com calma. — Aprendi no colégio de freiras.

— Dá um tempo — quase grunhiu Tom.

Ela o ignorou concentrando toda a atenção em Clay.

— Não está no chão, está?

— Acfio que não.

— Mais dois acabaram de entrar no ônibus — relatou Dan. — E as setas estão ligadas. Então um deles deve estar sentado no...

— Você pode, por favor, calar a boca, Dan? — falou Denise. Ela ainda estava olhando para Clay. Com a mesma calma. — E se você perdeu o papel no ônibus, ou lá fora, já era, certo?

— Sim — respondeu ele com desânimo.

— Então sabemos que não está em nenhum desses lugares.

— Por quê?

— Porque Deus não permitiria.

— Acho... que a minha cabeça vai explodir — disse Tom em uma voz estranhamente calma.

Ela o ignorou mais uma vez.

— Então em qual bolso você não olhou?

— Eu olhei em todos... — começou a falar Clay e então se interrompeu. Sem desgrudar os olhos de Denise, ele investigou o bolsinho costurado dentro do bolso direito da frente do jeans. E encontrou o pedaço de papel. Ele não se lembrava de tê-lo guardado no bolsinho, mas estava lá. Tirou-o. O seguinte número estava escrito na má caligrafia do morto: 207-919-9811.

— Agradeça a Santo Antônio por mim — disse ele.

— Se isso funcionar — respondeu ela. — Vou pedir a Santo Antônio para agradecer a Deus.

— Deni? — disse Tom.

Ela se virou para encará-lo.

— Agradeça a ele por mim, também.

Os quatro se sentaram juntos contra as portas duplas através das quais tinham entrado, contando com os núcleos de aço para protegê-los. Jordan estava agachado nos fundos do prédio, sob a janela quebrada que usara para sair.

— O que a gente vai fazer se a explosão não abrir nenhum buraco na lateral deste lugar? — perguntou Tom.

— A gente dá um jeito — respondeu Glay.

— E se a bomba de Ray não explodir? — perguntou Dan.

— Penalidade máxima — falou Denise. — Vai logo, Clay. Não precisa esperar a música tema.

Ele abriu o celular, olhou para o mostrador e percebeu que deveria ter conferido se aquele aparelho estava com sinal antes de mandar Jordan lá para fora. Não tinha pensado naquilo. Nenhum deles tinha pensado. Idiota. Quase tão idiota quanto esquecer que tinha colocado o pedaço de papel com o número no bolsinho da calça. Ele apertou o botão de liga/desliga. O telefone apitou. Por um instante, não apareceu nada. Então três barras surgiram, brilhantes e claras. Ele discou o número, então pousou o polegar de leve no botão que dizia CHAMAR.

— Jordan, está preparado aí atrás?

— Sim!

— E vocês? — perguntou Clay.

— Vai logo antes que eu tenha um ataque do coração — disse Tom.

Uma imagem surgiu na mente de Clay, de uma clareza horripilante: Johnny-Gee deitado quase exatamente debaixo do lugar onde o ônibus carregado de explosivos parará. Deitado de costas com os olhos abertos e com as mãos fechadas sobre o peito da camisa dos Red Sox, ouvindo a música enquanto sua mente se reconstruía de uma nova e estranha maneira.

Ele a afastou.

— Antônio, Antônio, onde está você? — ele disse sem motivo algum, e então apertou o botão que ligaria para o celular na traseira do microônibus.

Não houve tempo para ele contar os segundos antes que o mundo inteiro do lado de fora do Kashwakamak Hall parecesse explodir, o rugido engolindo o Adágio de Tomaso Albinoni em um estrondo voraz. Todas a janelinhas que se estendiam pelo lado do prédio que dava para o bando explodiram para dentro. Uma luz rubra brilhante jorrou pelos buracos, e então toda a ala sul do prédio foi pelos ares em uma chuva de tábuas, vidro e redemoinhos de feno. As portas em que estavam apoiados pareceram entortar para trás. Denise protegeu a barriga com os brados. Um terrível grito de dor começou a vir do lado de fora. Por um instante, aquele som cortou a cabeça de Clay como a lâmina de uma serra elétrica. Então parou. Os gritos continuaram a soar nos ouvidos dele. Era o som de pessoas queimando no inferno.

Algo aterrissou no telhado. Algo pesado o bastante para fazer todo o prédio tremer. Clay puxou Denise de pé. Ela olhou para Clay desnorteada, como se não soubesse mais onde estava.

— Venham!— Ele estava gritando, mas mal conseguia ouvir a própria voz. Ela parecia estar sendo filtrada por chumaços de algodão. — Venham, vamos sair!

Tom estava de pé. Dan começou a se levantar, caiu sentado, tentou mais uma vez e conseguiu. Ele agarrou a mão de Tom. Tom agarrou a de Denise. Em uma corrente de três, eles arrastaram os pés até o buraco aberto no fim do Hall. Lá encontraram Jordan parado ao lado de um monte de feno incendiado, olhando para o que um único celular tinha feito.

O pé de gigante que parecia ter pisado no telhado do Kashwakamak Hall tinha sido um grande pedaço do ônibus escolar. As telhas estavam em chamas. Logo diante delas, além da pequena pilha de feno incandescente, havia dois assentos de ponta-cabeça, também em chamas. Suas molduras de aço tinham virado espaguete. Roupas caíam do céu como grandes flocos de neve: blusas, chapéus, calças, shorts, um suporte atlético, um sutiã pegando fogo. Clay viu que o feno empilhado ao longo da parte debaixo do hall logo se tornaria um fosso de fogo; eles estavam saindo bem a tempo.

Montinhos de fogo salpicavam a esplanada que havia sido palco de shows, danças ao ar livre e várias competições, mas os pedaços do ônibus explodido tinham voado para mais longe ainda. Clay viu chamas tremulando alto em árvores que estavam a pelo menos 250 metros. Logo ao sul de onde estavam, a Casa dos Horrores começara a queimar, e ele viu algo — achou que provavelmente era um tronco humano — pendurado em chamas no meio da estrutura do Sky Coaster.

O bando em si tornara-se um bolo de carne crua de fonóides mortos e moribundos. A telepatia deles havia parado de funcionar (embora às vezes pequenas correntes daquela estranha força psíquica o atraíssem, eriçando-lhe os cabelos e arrepiando-lhe a pele), mas os sobreviventes ainda conseguiam gritar e encheram a noite com seus lamentos. Clay teria agido até se tivesse sido capaz de imaginar o tamanho do estrago — mesmo durante os primeiros segundos ele não quis se enganar a esse respeito —, mas aquilo estava além da sua imaginação.

A luz do fogo era suficiente para mostrar a eles mais do que queriam ver. As mutilações e as decapitações eram ruins — as poças de sangue, os membros pelo chão —, mas as roupas espalhadas e os sapatos descalçados eram, de certa forma, piores, como se a explosão tivesse sido violenta o bastante para vaporizar parte do bando. Um homem andou na direção deles com as mãos na garganta, tentando impedir o fluxo de sangue que jorrava por sobre e entre seus dedos — o sangue parecia laranja sob o brilho incandescente do telhado em chamas do Hall —, enquanto seus intestinos balançavam de um lado para o outro na altura da virilha. Mais anéis molhados foram saindo enquanto o homem passava por eles com os olhos arregalados e cegos.

Continuar: parte 3 de 3