Celular
Kashwak
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Jordan estava falando alguma coisa. Clay não conseguia ouvir por conta dos gritos, dos urros e do estalar cada vez mais alto do fogo às suas costas, então se inclinou mais para perto.
— A gente tinha que fazer isso, era o único jeito — disse Jordan.
Ele olhou para uma mulher sem cabeça, para um homem sem pernas e para algo tão arregaçado que se tornara uma canoa de carne cheia de sangue. Mais adiante, outros dois bancos do ônibus estavam caídos sobre um casal de mulheres em chamas que haviam morrido enlaçadas.
— A gente tinha que fazer isso, era o único jeito. A gente tinha que fazer isso, era o único jeito.
— Isso mesmo, meu querido, que tal colocar o rosto contra o meu corpo e ir andando assim? — disse Clay, e Jordan enterrou imediatamente o rosto nas costelas de Clay. Era desconfortável andar daquele jeito, mas não impossível.
Eles contornaram a beirada do acampamento do bando, em direção ao que teria sido um parque de diversões completo se o Pulso não tivesse entrado no caminho. Enquanto andavam, o Kashwakamak Hall queimava com mais intensidade, jogando mais luz sobre a esplanada. Vultos negros — muitos nus ou seminus, as roupas tinham sido arrancadas de seus corpos — mancavam e arrastavam os pés. Clay não fazia idéia quantos. Alguns passaram perto do pequeno grupo, mas não demonstraram interesse nele; eles ou continuavam seguindo até o caminho principal ou mergulhavam na mata a oeste do terreno da Expo, onde Clay tinha certeza de que morreriam de frio a não ser que conseguissem restabelecer algum tipo de consciência coletiva. Ele não achava que conseguiriam. Em parte por conta do vírus, mas principalmente por conta da decisão de Jordan de guiar o ônibus até o meio deles, alcançando uma zona de extermínio máxima, como o tinham feito com os caminhões de gás.
Se eles soubessem que matar um velho poderia levar a isso..., pensou Clay e então: Mas como saberiam?
Eles chegaram ao estacionamento de terra em que os funcionários do parque tinham estacionado seus caminhões e campers. Lá, cabos de força serpeantes cobriam o chão, e os espaços entre os campers estavam repletos de acessórios das famílias que viviam na estrada: churrasqueiras, grelhas a gás, cadeiras de quintal, uma rede, um pequeno varal com roupas que deviam estar penduradas há quase duas semanas.
— Vamos descobrir alguma coisa que esteja com as chaves dentro e dar o fora daqui — falou Dan. — Eles limparam a estrada de acesso e, se tivermos cuidado, aposto que podemos seguir para o norte pela 160 até quando bem entendermos. — Ele apontou. — Lá para cima quase tudo é sem-fo.
Clay vira um furgão com LEM BOMBEIRO HIDRÁULICO E PINTOR na traseira. Testou as portas e elas abriram. O interior estava cheio de engradados de leite, a maioria cheia de ferramentas de encanador, mas uma delas tinha o que ele queria: latas de tinta spray. Clay pegou quatro delas depois de checar que estavam cheias ou quase cheias.
— Pra que você quer isso? — perguntou Tom.
— Depois eu conto — respondeu Clay.
— Vamos dar o fora daqui, por favor — falou Denise. — Não estou agüentando mais. Minhas calças estão encharcadas de sangue. — Ela começou a chorar.
Eles entraram no caminho principal entre as Xícaras Malucas e o trenzinho para crianças chamado Charlie, Choochoo.
— Oh... meu... Deus — falou baixo Dan.
Os restos de um moletom vermelho chamuscado e fumegante — do tipo que às vezes é chamado de capuzinho — estavam presos como uma bandeira no topo da bilheteria do trenzinho. Uma mancha de sangue cobria a frente em torno de um buraco provavelmente feito por um pedaço do ônibus escolar voador. Antes de o sangue tomar conta de tudo, cobrindo o que restava, Clay pôde ver três letras, a última risada do Homem Esfrangalhado: HAR.
— A porra do casaco não tem ninguém dentro e, pelo tamanho do buraco, ele sofreu uma cirurgia cardíaca sem direito a anestesia — falou Denise —, então, quando vocês cansarem de olhar...
— Tem um outro estacionamento pequeno do outro lado do parque — disse Tom. — Lá tem uns carros bonitos. Estilo manda-chuva. Talvez a gente dê sorte.
Eles deram sorte, mas não com um carro bonito. Uma van pequena, com os dizeres TYCO ESPECIALISTAS EM PURIFICAÇÃO DE ÁGUAS, estava estacionada atrás de vários dos carrões, bloqueando-os com eficiência. Provavelmente por isso mesmo, o cara da Tyco teve a consideração de deixar as chaves na ignição. Assim, Clay os guiou para além do fogo, da carnificina e dos gritos, descendo com lenta cautela a estrada de acesso até a interseção marcada pelo outdoor que mostrava o tipo de família feliz que não existia mais (se é que um dia existira). Então Clay parou e colocou o câmbio em ponto morto.
— Um de vocês vai ter que pegar a direção agora — disse ele.
— Por que, Clay? — perguntou Jordan, mas Clay notou pela voz do menino que ele já sabia.
— Porque é aqui que eu desço.
— Não!
— Sim. Vou procurar pelo meu filho.
Tom disse:
— É quase certo que ele esteja morto lá atrás. Não estou querendo ser durão, só realista.
— Eu sei, Tom. Também sei que existe uma chance de que ele não esteja, e você também. Jordan falou que eles estavam andando para todo lado, como se estivessem completamente perdidos.
Denise falou:
— Clay... querido... mesmo que ele esteja vivo, pode estar dando voltas na mata com metade da cabeça estourada. Detesto dizer isso, mas você sabe que é verdade.
Clay assentiu.
— Também sei que ele pode ter fugido antes, enquanto estávamos trancados no Hall, e pego a estrada para Gurleyville. Alguns chegaram até lá; eu os vi. E vi outros no caminho. E vocês também.
— Impossível discutir com um artista, não é? — perguntou Tom com pesar.
— É — disse Clay —, mas será que você e Jordan poderiam descer comigo por um instante?
Tom suspirou.
— Por que não? — disse.
Vários fonóides, parecendo perdidos e desnorteados, passaram por eles enquanto estavam do lado da pequena van da purificadora de águas. Clay, Tom e Jordan não deram atenção a eles, e os fonóides retribuíram o favor. Ao noroeste, o horizonte ficava cada vez mais laranja-avermelhado à medida que o Kashwakamak Hall compartilhava seu fogo com a floresta atrás dele.
— Sem grandes despedidas dessa vez — disse Clay, fingindo não ver as lágrimas nos olhos de Jordan. — Estou esperando ver vocês de novo. Aqui, Tom. Tome isso. — Ele estendeu o celular que usara para detonar a explosão. Tom o pegou. — Vá para o norte daqui. Fique conferindo se o aparelho consegue sinal. Se encontrar obstáculos, abandone o que estiver dirigindo, ande até a estrada ficar desbloqueada e depois pegue outro carro ou furgão e volte a dirigir. Você deve conseguir sinal por volta de Rangeley... as pessoas velejavam lá no verão, caçavam no outono e esquiavam no inverno... mas depois a barra deve ficar limpa, e deve ser seguro viajar de dia.
— Aposto que já é seguro agora — disse Jordan, secando os olhos.
Clay assentiu.
— Talvez você tenha razão. Enfim, vocês é que sabem. Quando estiverem a uns 150 quilômetros de Rangeley, procurem uma cabana, um casebre, ou algo do gênero, abasteçam o lugar com provisões e se preparem para o inverno. Já sabem o que o inverno vai fazer com aquelas criaturas, não sabem?
— Se a mente coletiva pifar e eles não migrarem, quase todos vão morrer — disse Tom. — Pelo menos os que estiverem ao norte da linha Masondixon.
— É, acho que sim. Coloquei aquelas latas de tinta spray no console central. A cada 30 quilômetros, mais ou menos, pintem T-J-D na estrada, bem grande. Entenderam?
— T-J-D — disse Jordan. — Tom, Jordan, Dan e Denise.
— Isso. Escrevam em letras gigantes, com uma seta, se mudarem de estrada. Se forem pegar uma estrada de terra, pintem nas árvores, sempre do lado direito, que é onde eu vou procurar. Entendido?
— Sempre do lado direito — disse Tom. — Venha com a gente Clay, por favor.
— Não. Não torne isso mais difícil para mim do que já é. Todas as vezes que tiverem que abandonar um veículo, deixe-o no meio da rua e pintem T-J-D nele. Ok?
— Ok — respondeu Jordan. — É melhor você nos encontrar.
— Vou encontrar, sim. O mundo vai ser um lugar perigoso por um tempo, mas não tão perigoso quanto antes. Jordan, preciso perguntar uma coisa para você.
— Manda.
— Se eu encontrar Johnny e o pior que tiver acontecido seja uma passagem pelo ponto de conversão deles, o que eu devo fazer?
Jordan ficou boquiaberto.
— E como é que eu vou saber? Meu Deus, Clay! Tipo... meu Deus!
— Você sabia que eles estavam reiniciando — disse Tom.
— Foi um palpite!
Clay sabia que tinha sido muito mais do que isso. Muito melhor do que isso. Também sabia que Jordan estava exausto e apavorado. Ele se apoiou em um joelho na frente do menino e pegou a mão dele.
— Não tenha medo. A coisa não pode ficar pior para ele do que já está. Deus sabe que não.
— Clay, eu... — Jordan olhou para Tom. — Pessoas não são como computadores, Tom! Diz isso pra ele!
— Mas computadores são como pessoas, não são? — disse Tom.
— Porque a gente cria a partir do que conhece. Você sabia que eles estavam reiniciando e sabia sobre o worm. Então dê o seu palpite. Ele nem deve encontrar o menino mesmo. E se encontrar... — Tom deu de ombros. — É como ele disse. Não tem como ficar pior.
Jordan pensou naquilo, mordendo o lábio. Aparentava um cansaço terrível, e havia sangue na sua camisa.
— Vocês vêm ou não vêm? — chamou Dan.
— Só mais um minuto — disse Tom. E então, com mais brandura: — Jordan?
Jordan ficou mais um instante calado. Então olhou para Clay e disse:
— Você vai precisar de outro celular. E vai ter que levar seu filho para um lugar que tenha cobertura...
SALVAR NO SISTEMA
Clay ficou parado no meio da rota 160, no que teria sido a sombra do outdoor em um dia ensolarado, e observou os faróis traseiros até eles sumirem de vista. Não conseguia se livrar do pensamento de que jamais voltaria a ver Tom e Jordan (as rosas murcharam, sussurrou sua mente), mas recusou-se a deixar aquilo virar uma premonição. Afinal de contas, tinham se encontrado duas vezes, e as pessoas não diziam que três era o número da sorte?
Um fonóide que passava topou nele. Era um homem com sangue coagulando em um lado do rosto — o primeiro refugiado ferido da Expo dos Condados do Norte que ele via. Veria mais se não se adiantasse a eles, então partiu pela rota 160, indo para o sul novamente. Não tinha motivo para achar que o filho seguira naquela direção, mas esperava que algum vestígio da mente de Johnny — da sua antiga mente — tivesse dito a ele que sua casa ficava para lá. E pelo menos era um caminho que Clay conhecia.
Quase um quilômetro ao sul da estrada de acesso, encontrou outro fonóide, daquela vez uma mulher, andando rapidamente de um lado para o outro da rodovia como um capitão na proa de um navio. Ela virou o rosto para Clay com um olhar tão penetrante que ele ergueu aí mãos, preparado para se engalfinhar com a mulher se ela o atacasse.
Não atacou.
— Quem fa-Pa? — perguntou ela e, em sua mente, com muita clareza, Clay ouviu: Quem caiu? Papai, quem caiu?
— Não sei — respondeu ele, deixando-a para trás. — Não vi.
— Onde gora? — perguntou ela, andando mais furiosamente ainda, e Clay ouviu em sua mente: Onde estou agora? A isso ele não tentou responder, mas pensou na Cabelinho Escuro perguntando: Quem é você? Quem sou eu?
Clay apertou o passo, mas não o suficiente. A mulher gritou atrás dele, gelando seu sangue:
— Quem é Cabe Escu?
E, em sua mente, ele ouviu a pergunta ecoar com aterrorizante clareza. Quem é Cabelinho Escuro?
A primeira casa que Clay arrombou não tinha armas, mas tinha uma lanterna de cilindro longo que ele usou para iluminar cada fonóide errante que encontrava, sempre fazendo a mesma pergunta, tentando ao mesmo tempo jogá-la em sua mente como um slide de lanterna mágica numa tela: Você viu um menino?
Na segunda casa, havia um belo Dodge Ram parado na entrada para carros, mas Clay não teve coragem de pegá-lo. Se Johnny estivesse naquela estrada, estaria andando. Se fosse de carro, talvez deixasse de vê-lo, mesmo dirigindo devagar. Na despensa, Clay encontrou um presunto enlatado, o abriu puxando o anel da tampa e comeu enquanto voltava a pegar a estrada. Estava prestes a jogar o resto na mata depois de ficar satisfeito quando viu um fonóide idoso parado do lado de uma caixa de correio com um olhar triste e faminto. Clay estendeu o presunto e o velho o pegou. Então, falando devagar e com clareza, tentando criar uma imagem de Johnny em sua mente, Clay disse:
— Você viu um menino?
O homem mastigou o presunto. Engoliu. Pareceu refletir. Disse:
— Ganei o deseio.
— O deseio — disse Clay. — Certo. Obrigado. — E seguiu caminho.
Na terceira casa, cerca de um quilômetro e meio mais ao sul, encontrou um rifle calibre 30-30 no porão, junto com três caixas de balas. No aparador da cozinha, achou um celular no carregador. O carregador estava morto — é claro — mas quando ele apertou o botão do telefone, o aparelho apitou e ligou imediatamente. Clay conseguiu apenas uma barra de sinal, mas isso não o surpreendeu. Os fonóides tinham instalado o ponto de conversão no limite da área de cobertura.
Estava andando em direção à porta com o rifle carregado em uma das mãos, a lanterna na outra e o celular preso ao cinto quando foi tomado pela mais pura estafa. Ele cambaleou para o lado como se tivesse levado uma martelada na cabeça. Queria prosseguir, mas o pouco bom senso que sua mente cansada conseguiu juntar disse que ele deveria dormir, e talvez dormir até fizesse sentido. Se Johnny estivesse lá fora, o mais provável era que ele também estivesse dormindo.
— Mude para o turno do dia, Clayton — murmurou ele. — Você não vai achar merda nenhuma no meio da noite com uma lanterna.
Aquela era uma casa pequena — lar de um casal idoso, pensou ele, a julgar pelas fotografias na sala de estar, pelo único quarto e pelas barras de segurança ao lado do vaso sanitário do único banheiro. A cama estava bem arrumada. Clay se deitou nela sem abrir os lençóis, tirando apenas os sapatos. E, assim que bateu no colchão, a fadiga pareceu se instalar sobre ele como um peso. Não conseguia se imaginar levantando por nada. O quarto cheirava a alguma coisa; a sachê de mulher velha, ele pensou. Um cheiro de avó. Parecia tão fraco quanto ele. Deitado naquele silêncio, a carnificina no terreno da Expo parecia-lhe distante e irreal, como uma idéia para uma revista que jamais escreveria. Horrível demais. Continue com o Dark Wanderer, teria dito Sharon — sua velha e doce Sharon. Continue com os seus caubóis do apocalipse.
A mente de Clay pareceu se erguer e flutuar sobre o corpo. Ela voltou — preguiçosamente, sem pressa — para os três parados ao lado da van da Purificadora de Águas Tyco, logo antes de Jordan e Tom entrarem de volta no veículo. Jordan repetira o que havia dito ainda em Gaiten, sobre como os cérebros humanos não passam de enormes discos rígidos e que o Pulso os apagara. Jordan disse que o Pulso agira nos cérebros humanos como um pulso eletromagnético.
Só sobrou o núcleo, dissera Jordan. E o núcleo era assassinato. Mas porque os cérebros são discos rígidos orgânicos, eles começaram a se reconstruir. A reiniciar. Só que o sinal-código estava com um bug. Não tenho provas, mas estou certo de que a formação de bandos, a telepatia, a levitação... tudo isso nasceu desse bug. Ele estava lá desde o início, então se tornou parte da reinicialização. Estão me acompanhando?
Clay assentira. Tom, também. O menino olhava para eles, seu rosto manchado de sangue cansado e grave.
Mas, enquanto isso, o Pulso continua pulsando, certo? Porque em algum lugar existe um computador a bateria, e ele fica rodando esse programa. O programa está corrompido, então o bug nele não pára de sofrer mutações. Uma hora o sinal vai acabar parando, ou o programa vai acabar fechando de tão corrompido. Mas por enquanto... talvez você consiga usá-lo. Eu disse talvez, entendeu? Tudo depende de os cérebros fazerem o que computadores superprotegidos fazem quando recebem um pulso eletromagnético.
Tom perguntara o que eles faziam. E Jordan abriu um sorriso fraco.
Eles salvam no sistema. Todos os dados. Se for isso que acontece com as pessoas, e se você conseguir apagar a programação fonóide, talvez a velha programação acabe reiniciando.
— Ele estava falando da programação humana — murmurou Clay no quarto escuro, sentindo o aroma doce e fraco de sachê. — A programação humana, salva em algum lugar bem lá no fundo. Intacta. — Já estava perdendo a consciência, adormecendo. Se fosse sonhar, esperava que não fosse com a carnificina na Expo dos Condados do Norte.
Seu último pensamento antes de cair no sono foi que talvez, a longo prazo, os fonóides se tornassem uma opção melhor. Sim, eles tinham nascido em meio à violência e ao horror, mas nascimentos eram geralmente difíceis, quase sempre violentos e, às vezes, horríveis. Depois que começaram a formar bandos e desenvolver uma só mente, a violência diminuíra. Até onde ele sabia, os fonóides não tinham exatamente declarado guerra aos normies, a não ser que a conversão forçada fosse considerada um ato de guerra;« retaliação que se seguiu à destruição dos bandos deles tinha sido grotesca, mas perfeitamente compreensível. Se deixados em paz, talvez eles até se provassem melhores caseiros da Terra do que os supostos normies. Eles certamente não ficariam fissurados em comprar utilitários esportivos bebedores de gasolina, não com suas habilidades de levitação (ou com seus desejos consumistas um tanto primários). Ora, até o gosto musical deles estava melhorando no final.
Mas que outra escolha eles tinham?, pensou Clay. A sobrevivência é igual ao amor. Os dois são cegos.
Então ele caiu no sono e não sonhou com o massacre na Expo. Sonhou que estava em uma tenda de bingo e, quando o locutor cantou B-12 — É a vitamina da luz solar—, Clay sentiu alguém puxar uma das pernas de sua calça. Ao olhar debaixo da mesa, viu que Johnny estava lá, sorrindo para ele. E, em algum lugar, um telefone tocava.
Nem toda a raiva tinha se dissipado dos fonóides refugiados, assim como seus talentos fantásticos também não haviam desaparecido por completo. Por volta do meio-dia do dia seguinte, que foi frio e úmido, com um gostinho de novembro no ar, Clay parou para olhar dois deles brigarem furiosamente à beira da estrada. Eles trocaram socos, então se arranharam e finalmente se engalfinharam, batendo cabeças e se mordendo nas bochechas e nos pescoços. Durante a briga, começaram a se desprender lentamente da calçada. Clay ficou olhando, boquiaberto, os dois atingirem uma altura de aproximadamente 3 metros, ainda lutando, os pés separados e retesados, como se estivessem em uma plataforma invisível. Então, um deles enfiou os dentes no nariz do oponente, que usava uma camisa esfarrapada e manchada de sangue com as palavras CARGA PESADA escritas na frente. O Papa-Nariz empurrou CARGA PESADA para trás. CARGA PESADA cambaleou, então caiu como uma pedra em um poço. Sangue jorrava para cima de seu nariz rasgado enquanto ele despencava. O Papa-Nariz olhou para baixo, parecendo finalmente notar que estava à altura de um andar da estrada, e desabou também. Como Dumbo depois de perder a pena mágica, pensou Clay. O Papa-Nariz torceu o joelho e ficou caído na estrada, compôs dentes manchados de sangue arreganhados, rosnando para Clay ao vê-lo passar.
Porém, esses dois eram uma exceção. E quase todos os fonóides que cruzaram o caminho de Clay (ele não viu nenhum normie naquele dia, nem durante toda a semana seguinte) pareciam perdidos e desnorteados sem uma mente coletiva que os sustentasse. Clay não conseguia tirar da cabeça algo que Jordan dissera antes de voltar para a van e seguir para as florestas do norte, onde não havia cobertura celular: Se o worm continuar em mutação, os convertidos mais recentes não vão ser nem fonóides, nem normies, pelo menos não exatamente.
Para Clay, aquilo significava que ficariam parecidos com Cabelinho Escuro, só que um pouquinho mais perdidos. Quem é você? Quem sou eu? Ele conseguia ver aquelas perguntas nos olhos deles e suspeitava — não, sabia — que eram elas que estavam tentando fazer quando despejavam aquele falatório.
Ele continuou perguntando: Vocês viram um menino, e tentando transmitir a imagem de Johnny, mas não tinha esperanças de obter uma resposta que fizesse sentido àquela altura. Na maioria das vezes, não recebia resposta alguma. Passou a noite seguinte em um trailer cerca de 8 quilômetros ao norte de Gurleyville e, pela manhã, um pouco depois das nove, divisou um pequeno vulto sentado no meio-fio em frente do Gurleyville Café, no meio do centro comercial de uma quadra da cidade.
Não pode ser, pensou ele, mas começou a andar mais rápido e, quando chegou um pouco mais perto — perto o suficiente para ter quase certeza de que o vulto era o de uma criança, e não o de um adulto pequeno —, passou a correr. A mochila nova começou a subir e descer nas suas costas. Seus pés tocaram o início da pequena calçada do café e começaram a bater no concreto.
Era um menino.
Um menino muito magro, com cabelo longo quase na altura dos ombros da camisa dos Red Sox.
— Johnny!— gritou Clay. — Johnny, Johnny-Gee!
O menino virou na direção do grito, assustado. Sua boca estava aberta, numa expressão apalermada. Não havia nada nos seus olhos além de um vago choque. Parecia estar pensando em correr, mas antes mesmo que pudesse preparar as pernas, Clay já o havia erguido e cobria-lhe o rosto sujo e indiferente e a boca frouxa de beijos.
— Johnny — disse Clay. — Johnny eu vim te buscar. Eu vim. Vim te buscar. Vim te buscar.
E em um determinado momento — talvez apenas porque o homem que o segurava tinha começado a girá-lo no ar — o menino colocou as mãos em volta do pescoço de Clay para se segurar. Ele disse algo, também. Clay se recusou a crer que era uma vocalização vazia, tão sem sentido quanto o vento passando pelo gargalo de uma garrafa esvaziada de refrigerante. Foi uma palavra. Poderia ter sido taeii, mas também poderia ter sido paeii, que era como ele, aos 16 meses de idade, tinha chamado pela primeira vez seu pai.
Clay decidiu se agarrar a isto. Decidiu acreditar que a criança pálida, suja e desnutrida que estava agarrada ao seu pescoço o chamara de pai.
Agora o menino dormia em um catre dentro de um armário, porque Johnny sossegou nele e porque Clay estava cansado de tirá-lo debaixo da cama. O abrigo quase uterino do armário pareceu acalmá-lo. Talvez fizesse parte da conversão pela qual ele e os demais passaram. Que bela conversão. Os fonóides de Kashwak haviam transformado seu filho em um débil mental obsessivo sem ao menos um bando para confortá-lo.
Lá fora, sob um céu noturno cinzento, a neve respingava. Um vento frio a fazia ondular pela rua principal sem luz de Springvale. Parecia cedo demais para neve, mas é claro que não era, principalmente tão ao norte. Quando ela vinha antes do Dia de Ação de Graças, você sempre reclamava, e quando vinha antes do Halloween você reclamava em dobro, então alguém o lembrava que você vivia no Maine, e não na ilha de Capri.
Clay imaginou onde estariam Tom, Jordan, Dan e Denise naquela noite. Imaginou como Denise faria quando chegasse a hora de ter o bebê. Achava que ela provavelmente ficaria bem — aquela sim era uma mulher durona. Imaginou se Tom e Jordan pensavam tanto nele quanto ele pensava, nos dois, e se sentiam sua falta tanto quanto ele sentia a deles — dos olhos solenes de Jordan, do sorriso irônico de Tom. Não tinha chegado nem perto de ver aquele sorriso tanto quanto queria; as coisas pelas quais passaram não tinham sido tão engraçadas.
Ele imaginou se aquela última semana com o filho não teria sido a mais solitária de sua vida. Chegou à conclusão de que a resposta era sim.
Clay baixou os olhos para o celular em sua mão. Aquilo o intrigava mais do que qualquer outra coisa. Devia ou não fazer outra ligação? As barras de sinal apareciam no pequeno mostrador quando ele ligava o aparelho, três belas barras, mas a bateria não duraria para sempre, e ele sabia disso. E tampouco podia esperar que o Pulso continuasse eternamente. As baterias que estavam enviando o sinal para os satélites (se é que era isso que estava acontecendo, e se é que ainda estava acontecendo) poderiam acabar. Ou o Pulso poderia se transformar em uma simples onda condutora, em um zumbido idiota ou no tipo de chiado agu-do que você recebia quando ligava para o fax de alguém por engano.
Neve. Neve no dia 21 de outubro. Era mesmo 21 de outubro? Ele perdera a conta dos dias. Se havia uma coisa de que tinha certeza era de que os fonóides estavam morrendo lá fora, mais deles a cada noite. Johnny teria sido um deles, se Clay não o tivesse encontrado.
A questão era, o que ele tinha encontrado?
O que tinha salvado?
Paeii.
Pai?
Talvez.
Certamente o menino não tinha dito nada remotamente parecido com uma palavra desde então. Andava de bom grado com Clay... mas também tendia a vagar para onde bem entendesse. Quando fazia isso, Clay tinha que agarrá-lo mais uma vez, do jeito que se agarra uma criancinha que tenta sair correndo pelo estacionamento de um super-mercado. Toda vez que isso acontecia, Clay se lembrava de um robô de dar corda que ele teve quando criança, e como o brinquedo sempre ia para um canto e ficava lá subindo e descendo os pés inutilmente até você virá-lo de volta na direção do meio da sala.
Johnny armou uma pequena e desesperada briga quando Clay encontrou um carro com as chaves dentro, más depois que ele conseguiu colocar o cinto no menino, trancá-lo no veículo e começar a andar, Johnny já estava calmo novamente e parecia quase ter caído em transe. Ele até encontrou o botão que descia a janela e deixou o vento bater no seu rosto, fechando os olhos e erguendo um pouco a cabeça. Clay observou o vento jogar o cabelo longo e sujo do filho para trás e pensou: Deus tenha piedade de mim, é como dirigir com um cachorro.
Quando chegaram a um obstáculo na estrada que não conseguiam contornar e Clay ajudou Johnny a sair do carro, ele descobriu que o filho tinha molhado as calças. Ele esqueceu como ir ao banheiro junto com a fala, pensou Clay com desolação. Cruz credo. E aquilo era mesmo verdade, mas as conseqüências não foram tão complicadas ou medonhas quanto Clay pensara. Johnny não sabia mais como ir ao banheiro, mas se você parasse e o levasse até um espaço aberto, ele urinaria se estivesse com vontade. Ou se tivesse que se agachar, faria isso, olhando em devaneio para o céu enquanto esvaziava os intestinos. Talvez traçando o caminho que os pássaros faziam lá em cima. Talvez não.
Não sabia ir ao banheiro, mas tinha aprendido a não fazer cocô dentro de casa. Novamente, Clay não conseguiu deixar de pensar nos cachorros que tivera.
Só que cachorros não acordavam no meio de todas as noites e gritavam por 15 minutos.
Naquela primeira noite eles tinham ficado em uma casa perto do Posto Comercial de Newfield e, quando os gritos começaram, Clay achou que Johnny estava morrendo. Embora o menino tivesse adormecido nos seus braços, ele havia sumido quando Clay acordou de um pulo. Johnny não estava mais na cama, e sim debaixo dela. Clay se arrastou até lá, entrando em uma sufocante caverna de bolinhas de poeira, com a parte de baixo do colchão a uns 2 centímetros da cabeça, e agarrou um menino esguio que mais parecia uma barra de ferro. Os gritos tinham sido mais intensos do que pulmões tão pequenos poderiam produzir, e Clay compreendeu que os estava ouvindo amplificados na sua cabeça. Todos os cabelos de Clay, até os pêlos pubianos, pareciam estar de pé e rijos.
Johnny gritara por quase 15 minutos debaixo da cama, então se calou tão abruptamente quanto havia começado. O corpo dele ficou flácido. Clay teve que apertar a cabeça contra o lado do menino (um dos braços dele de alguma forma passados por sobre seu pescoço naquele espaço incrivelmente pequeno) para se certificar de que o filho ainda estava respirando.
Ele arrastara Johnny para fora, mole como um saco de correio vazio, e colocara o corpo empoeirado e sujo de volta na cama. Ficou acordado ao lado dele por quase uma hora antes de também cair pesadamente no sono. Pela manhã, estava mais uma vez sozinho na cama. Johnny voltara a se arrastar para baixo dela. Como um cachorro depois de uma surra, procurando o menor abrigo possível. Aquilo parecia o total oposto do comportamento fonóide anterior... mas, obviamente, Johnny não era como eles. Johnny era algo novo. Que Deus o ajudasse.
Agora eles estavam em uma confortável cabana de caseiro perto do Museu do Madeireiro de Springvale. Havia bastante comida, um forno a lenha e água fresca da bomba manual. Tinha até um banheiro químico (embora Johnny não o usasse; Johnny usava o quintal dos fundos). Todas as conveniências modernas, de cerca 1908.
Foi um período tranqüilo, exceto pelas gritarias noturnas de Johnny. Clay teve tempo para refletir e, agora, parado em frente à janela da sala de estar, observando a neve soprar pela rua enquanto o filho dormia em seu pequeno esconderijo no armário, teve tempo de perceber que já era hora de parar de refletir. Nada iria mudar a não ser que ele agisse.
Você vai precisar de outro celular, dissera Jordan. E vai ter que levar seu filho para um lugar que tenha cobertura...
Havia cobertura ali. Ainda havia cobertura. As barras de sinal no celular estavam lá para provar.
Não tem como ficar pior, dissera Tom. E dera de ombros. Mas é claro que ele podia dar de ombros, não é? Johnny não era filho dele. Ele tinha um filho próprio agora.
Tudo depende de os cérebros fazerem o que computadores superprotegidos fazem quando recebem um pulso eletromagnético, tinha dito Jordan. Eles salvam no sistema.
Salvar no sistema. Uma frase de impacto.
Mas seria preciso apagar o programa fonóide antes para abrir espaço para uma altamente teórica segunda reinicialização, e a idéia de Jordan — atingir Johnny com o Pulso mais uma vez, como atear um contrafogo — parecia tão assustadora, tão absurdamente perigosa, diante do fato de que Clay não tinha como saber em que tipo de programa o Pulso tinha se transformado àquela altura... supondo (supor é coisa de gente idiota, sim, sim, sim) que ele ainda estivesse funcionando...
— Salvar no sistema — suspirou Clay. Lá fora, já estava quase escuro, e o soprar da neve parecia mais fantasmagórico do que nunca.
O Pulso estava diferente àquela altura, Clay tinha certeza. Ele se lembrou dos primeiros fonóides que encontrara acordados à noite, os do Corpo de Bombeiros Voluntário de Gurleyville. Eles estavam brigando pelo velho caminhão dos bombeiros, mas estavam fazendo muito mais do que isso; estavam falando. Não só fazendo vocalizações vazias que poderiam ser palavras, falando. Não tinha sido muita coisa, nenhum bate-papo brilhante de coquetel, mas uma conversa de verdade, mesmo assim. Vá embora. Você vai. Não, senhor. E o inesquecível Meaminhão. Aqueles dois tinham sido diferentes dos fonóides originais — os fonóides da Era do Homem Esfrangalhado —, e Johnny era diferente daqueles dois. Por quê? Porque o worm ainda estava fazendo estrago, porque o Pulso ainda estava em mutação? Provavelmente.
A última coisa que Jordan disse antes de dar um beijo de despedida em Clay e seguir para o norte foi: Se você instalar uma nova versão do programa em cima do que Johnny e os outros receberam no ponto de conversão, eles podem comer um ao outro. Porque é isso que os worms fazem. Eles comem. E então, se a velha programação estiver lá... se tiver sido salva no sistema.
Clay notou que sua mente conturbada se voltava para Alice — Alice, que perdera a mãe, Alice que encontrara uma maneira de ser corajosa transferindo seus medos para um tênis de criança. A umas quatro horas de Gaiten, na rota 156, Tom perguntara a um outro grupo de normies se eles gostariam de compartilhar o local para piquenique da beira da estrada. São eles, um dos homens falara. É o bando de Gaiten. Outro mandara Tom ir para o inferno. E Alice tinha saltado de pé. Saltado de pé e falado:
— Pelo menos nós fizemos alguma coisa — disse Clay olhando para a rua que escurecia. — Então perguntou: "O que vocês fizeram, porra?
Então lá estava a resposta que ele procurava, cortesia de uma menina morta. Johnny-Gee não iria melhorar. No fim das contas, as escolhas de Clay eram duas: continuar na mesma situação ou tentar mudá-la enquanto havia tempo. Se é que havia.
Clay usou uma lanterna a bateria para iluminar o caminho até o quarto. A porta do armário estava entreaberta, e ele conseguia ver o rosto de Johnny. Adormecido, com a bochecha em uma das mãos e o cabelo embaraçado em cima da testa, ele estava quase igual ao garoto cujo rosto Clay beijara antes de partir para Boston com seu portfolio do Dark Wanderer mil anos atrás. Um pouco mais magro; afora isso, bonito do mesmo jeito. Apenas quando ele estava acordado dava para notar as diferenças. A boca caída e os olhos vazios. Os ombros curvados e as mãos pendendo dos braços.
Clay escancarou a porta do armário e se ajoelhou diante do catre. Johnny se agitou um pouco quando a luz da lanterna bateu no seu rosto, então sossegou de volta. Clay não era de rezar, e os acontecimentos das semanas anteriores não aumentaram em muito sua fé em Deus, mas não podia negar que encontrara o filho, então mandou uma oração lá para cima para o que quer que estivesse ouvindo. Era curta e ia direto ao ponto: Antônio, Antônio, onde está você, perdemos uma coisa que não quer aparecer.
Ele abriu o celular e apertou o botão de liga/desliga. O aparelho apitou baixinho. A luz âmbar do mostrador se acendeu. Três barras. Ele hesitou por um instante, mas havia apenas um número que podia arriscar: o que o Homem Esfrangalhado e seus amigos tinham discado.
Depois de discar os três dígitos, ele esticou o braço e sacudiu o ombro de Johnny. O menino não queria acordar. Ele gemeu e tentou se afastar. Então tentou virar de lado. Clay não o deixou fazer nada daquilo.
— Johnny! Johnny-Gee! Acorde! — Ele o sacudiu com mais força e continuou sacudindo até o menino finalmente abrir os olhos vazios e olhá-lo com desconfiança, mas sem curiosidade humana alguma.
Era o tipo de olhar que você receberia de um cachorro maltratado, e Clay ficava com o coração partido sempre que o via.
Mas qual tinha sido a probabilidade de encontrar Johnny em primeiro lugar? E de Johnny abandonar o bando de Kashwakamak antes da explosão? Uma em mil? Uma em 10 mil? Ele conviveria com aquele olhar desconfiado, porém sem curiosidade, à medida que Johnny completasse 13 anos, depois 15 e depois 21, para sempre dormindo no armário e cagando no quintal dos fundos?
Pelo menos nós fizemos alguma coisa, dissera Alice Maxwell.
Ele olhou para o mostrador sobre o teclado. Nele, os números 911 se destacavam tão brilhantes e negros quanto um destino anunciado.
Os olhos de Johnny estavam fechando. Clay deu outra sacudidela nele para mantê-lo acordado. Fez isso com a mão esquerda. Com o polegar da direita, apertou o botão CHAMAR do aparelho. Não houve tempo para contar os segundos antes de a mensagem CHAMANDO na janelinha iluminada mudar para CONECTADO. Quando isso aconteceu, Clayton Riddell não se permitiu ter tempo para pensar.
— Ei, Johnny-Gee — disse ele. — Pra-pravo-você. — E apertou o celular contra a orelha do filho.
30 de dezembro de 2004 — 17 de outubro de 2005 Center Lovell, Maine Chuck Verrill editou o livro e fez um ótimo trabalho. Obrigado, Chuck.
Robin Furth fez a pesquisa sobre celulares e forneceu várias teorias sobre o que pode haver no núcleo da psique humana. As informações corretas são dela; os erros de compreensão são meus. Obrigado, Robin.
Minha mulher leu o primeiro manuscrito e me incentivou. Obrigado, Tabby.
Os habitantes de Boston e da Nova Inglaterra notarão que tomei algumas liberdades geográficas. O que posso dizer? Não dá para fugir delas.
Até onde sei, a FEMA não destinou nenhuma verba para equipar torres de transmissão de celulares com geradores reservas, mas devo acrescentar que muitas torres de transmissão possuem geradores reservas para o caso de apagões.
S.K.
Stephen King vive no Maine com sua mulher, a romancista Tabitha King. Ele não possui telefone celular.
Você terminou Celular
Stephen King
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