Celular

Stephen King · Capítulo 2 de 5 · parte 2/3

Páginas do PDF

Celular

— Sei que não foi igual nos…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Mais pessoas começaram a seguir na direção oeste, e algumas estavam mastigando comida roubada de algum mercado, provavelmente o Safeway que Tom mencionara. A nora do Sr. Scottoni, Judy, carregava um tubo gigante de sorvete de chocolate derretido, que cobria a frente do seu guarda-pó, lambuzando-a dos joelhos ao piercing no nariz; todo aquele chocolate no rosto a deixava parecida com aqueles atores brancos com a cara pintada de preto dos shows de antigamente. E, àquela altura, qualquer crença vegetariana que o Sr. Potowami possa ter tido um dia desaparecera, pois ele andava se refestelando em um grande punhado de carne de hambúrguer crua. Um gordo de terno sujo carregava o que parecia ser uma perna de carneiro parcialmente degelada e, quando Judy Scottoni tentou pegá-la, o gordo a usou para dar-lhe uma bela porrada no meio da testa. Ela caiu tão silenciosa quanto um bezerro abatido, batendo primeiro com a barriga grávida, em cima do tubo de chocolate Breyers praticamente destruído.

Havia bastante pancadaria àquela altura, e bastante violência para acompanhar, mas nada que remetesse à selvageria da tarde anterior. Pelo menos não ali. No Centro Comercial de Malden, o alarme, que começara fraco, já tinha parado de soar há muito. Ao longe, tiros continuavam a pipocar esporadicamente, mas ele não ouvira nada próximo desde aquele disparo isolado vindo do centro da cidade. Clay ficou de olho para ver se algum dos lunáticos tentaria invadir uma das casas, mas, embora às vezes andassem pelos gramados, nenhum deu sinal de evoluir de invasão de propriedade para invasão de domicílio. Na maior parte do tempo, limitavam-se a vagar, às vezes tentavam roubar a comida um do outro e, de vez em quando, brigavam e se mordiam. Três ou quatro — a nora de Scottoni entre eles — estavam caídos na rua, mortos ou inconscientes. Clay imaginava que, graças a Deus, a maioria dos que tinham passado pela casa de Tom mais cedo ainda estava na praça central, fazendo um baile de rua ou talvez o Primeiro Festival Anual de Carne Crua de Malden. Porém, a maneira como aquele ar de propósito — aquele ar de bando — parecia ter afrouxado e desaparecido era estranha.

Depois do meio-dia, quando Clay começou a se sentir muito sonolento, ele foi até a cozinha e encontrou Alice cochilando na mesa com a cabeça entre os braços. Ela segurava com os dedos frouxos o pequeno tênis, aquele que chamara de Nike de bebê. Quando ele a acordou, ela olhou grogue para o sapatinho e o trouxe para junto do peito, agarrando-o como se temesse que Clay tentasse levá-lo embora.

Ele perguntou se Alice poderia vigiar um pouco do fim do corredor sem pegar no sono de novo ou ser vista. Ela disse que sim. Clay confiou na palavra da garota e levou uma cadeira para ela. Alice parou por um instante na porta da sala de estar.

— Olhe só — ela disse.

Clay olhou para dentro da sala por sobre o ombro dela e viu que Rafe, o gato, estava dormindo na barriga de Tom. Clay resmungou, achando divertido.

Alice se sentou onde ele colocara a cadeira, longe o bastante da porta para que quem olhasse para a casa da rua não conseguisse vê-la. Depois de olhar para fora só uma vez, ela falou:

— Eles não estão mais em bando. O que aconteceu?

— Não sei.

— Que horas são?

Ele olhou para o relógio.

— Meio-dia e vinte.

— Que horas você percebeu que eles estavam em bando?

— Não sei, Alice. — Estava tentando ser paciente com ela, mas mal conseguia manter os olhos abertos. — Seis e meia? Sete? Não sei. Qual é a importância?

— Seria muito bom se pudéssemos calcular o padrão deles, você não acha?

Ele respondeu que pensaria naquilo depois de dormir um pouco.

— Só algumas horas, então me acorde ou ao Tom — ele disse. — Mais cedo, se acontecer alguma coisa de errado.

— Não pode dar muito mais errado do que isso — ela falou baixinho. — Vá lá pra cima. Você está um trapo.

Ele subiu até o quarto de hóspedes, tirou os sapatos e se deitou. Pensou por um instante no que ela falara. Se pudéssemos calcular o padrão deles. Talvez fosse uma boa idéia. Pouco provável, mas talvez...

Era um quarto agradável, muito agradável, bem ensolarado. Deitado em um quarto como aquele, era fácil esquecer que havia um rádio no armário que você não tinha coragem de ligar. Já não era tão fácil esquecer que a sua mulher, que você ainda amava apesar da separação, poderia estar morta, e seu filho — que você não só amava, mas adorava — poderia estar louco. Ainda assim, o corpo tem seus imperativos, não é mesmo? E aquele era o quarto ideal para uma soneca à tarde. O rato surtado se contorceu, mas não fincou os dentes, e Clay dormiu quase imediatamente após fechar os olhos.

Daquela vez foi Alice quem o acordou. Enquanto ela o sacudia, o pequeno tênis roxo balançava para frente e para trás. Ela o amarrara em volta do pulso esquerdo, transformando-o em um talismã muito sinistro. A luz no quarto havia mudado. Fora para o outro lado e diminuíra. Ele tinha virado na cama e precisava urinar, um sinal confiável de que dormira por um bom tempo. Sentou-se depressa e ficou surpreso — quase pasmo — ao ver que eram 18hl5. Tinha dormido mais de cinco horas. Porém, a noite anterior não havia sido a primeira de sono entrecortado; também dormira mal na noite retrasada. Nervosismo, por conta da reunião com o pessoal da Dark Horse comics.

— Está tudo bem? — ele perguntou, pegando-a pelo pulso. — Por que me deixou dormir tanto?

— Porque você precisava — ela respondeu. — Tom dormiu até as duas e eu dormi até as quatro. Ficamos vigiando juntos até agora. Desça e venha ver. É bem impressionante.

— Eles estão em bando de novo?

Ela assentiu.

— Mas agora estão indo para o outro lado. E não é só isso. Venha ver.

Ele esvaziou a bexiga e desceu correndo as escadas. Tom e Alice estavam parados na porta da varanda com os braços em volta um do outro. Já não havia necessidade de se esconder; o céu se encobrira e a varanda de Tom estava imersa em sombras. De qualquer maneira, havia poucas pessoas na Salem Street. Todas estavam indo para o oeste, sem correr, mas num ritmo constante. Um grupo de quatro passou pelo meio da rua, marchando sobre vários corpos esparramados e um monte de sobras de comida, que incluíam a perna de carneiro, agora roída até o osso; um mar de sacolas de celofane rasgadas e caixas de papelão, além de frutas e vegetais jogados fora. Atrás deles, veio um grupo de seis, os últimos usando as calçadas. Não olhavam uns para os outros, mas estavam tão perfeitamente juntos que, quando passaram pela casa de Tom, pareceram por um instante ser um homem só, e Clay notou que até seus braços balançavam em uníssono. Depois deles, veio um rapaz de uns 14 anos, mancando, soltando mugidos inarticulados e tentando alcançá-los.

— Eles deixaram para trás os mortos e os que estavam completamente inconscientes — disse Tom —, mas ajudaram alguns que estavam se mexendo.

Clay procurou a grávida e não a viu.

— E a Sra. Scottoni?

— Foi uma das que eles ajudaram — disse Tom.

— Então eles voltaram a agir feito gente?

— Não se engane — disse Alice. — Um dos homens que eles tentaram ajudar não conseguia andar e, depois que ele caiu algumas vezes, um dos caras que o estava levantando cansou de fazer papel de escoteiro e simplesmente...

— Matou o sujeito — disse Tom. — E não foi com as mãos, como o cara no jardim. Foi com os dentes. Rasgou a garganta dele.

— Eu vi o que estava para acontecer e desviei o olhar — disse Alice —, mas ouvi. Ele... guinchou.

— Calma — disse Clay. Ele apertou o braço dela com delicadeza. — Acalme-se.

As ruas tinham ficado quase vazias. Mais dois homens aparece-ram e, embora estivessem andando quase lado a lado, mancavam tanto que não havia impressão de uníssono entre eles.

— Para onde eles estão indo? — perguntou Clay.

— Alice acha que estão procurando abrigo — respondeu Tom, parecendo empolgado. — Antes de anoitecer. Talvez ela tenha razão.

— Onde? Onde fica o abrigo deles? Vocês viram algum entrar nas casas deste quarteirão?

— Não — os dois falaram juntos.

— Nem todos voltaram — disse Alice. — Com certeza nem todo mundo que desceu a Salem Street hoje de manhã voltou. Então um monte ainda deve estar no Centro Comercial de Malden, ou mais adiante. Talvez tenham sido atraídos para locais públicos, como quadras esportivas escolares.

Quadras esportivas escolares. Clay não gostou daquilo.

— Você viu aquele filme, Despertar dos Mortos! — ela perguntou.

— Vi — respondeu Clay. — Não vai me dizer que deixaram você ver.

Ela olhou para Clay como se ele fosse maluco. Ou velho.

— Um dos meus amigos tem o DVD. A gente assistiu quando estava na oitava série. — Na época em que o Correio ainda era a cavalo e as planícies eram cheias de búfalos, dizia o tom dela. — Nesse filme, todos os mortos... bem, nem todos, mas um monte deles... voltam para o shopping depois que acordam.

Por um instante, Tom McCourt olhou para ela com os olhos arregalados, então disparou a rir. E não era uma risadinha, e sim uma série de gargalhadas, um riso tão forte que ele teve que recostar no muro para se apoiar, e Clay achou que seria melhor fechar a porta entre o corredor e a varanda. Não dava para saber quão bem aquelas criaturas que subiam a rua escutavam; tudo em que conseguia pensar naquele momento era na audição extremamente aguçada do narrador louco do conto "O coração delator", de Poe.

— Era o que eles faziam — disse Alice, colocando as mãos nas cadeiras. O tênis de bebê balançou. — Iam direto para o shopping.

Tom riu mais forte ainda. Os joelhos dele dobraram e ele escorregou lentamente até o chão do corredor, urrando e batendo com as mãos na camisa.

— Eles morreram... — falou arquejando — ... e voltaram... para ir ao shopping. Jesus Cristo, será que Jerry F-Falwell...7 — Teve outro acesso de riso. Lágrimas desciam aos borbotões pelo seu rosto. Ele conseguiu se controlar o bastante para terminar a piada: — Será que Jerry Falwell sabe que o paraíso fica no shopping Newcastle?

Clay também começou a rir. Alice também, embora Clay achasse que ela estava um pouco irritada por sua referência não ter sido recebida com interesse ou mesmo com risos comedidos, mas com gargalhadas. Porém, quando as pessoas começam a rir, é difícil não se juntar a elas. Mesmo quando se está irritado.

Quando estavam quase parando, Clay disse, sem motivo aparente:

— 8 If heaven ain't a lot like Dixie, I don't want to goes.

E começaram a rir de novo, todos os três. Alice ainda estava rindo quando falou:

— Se eles estão em bando e indo passar a noite em quadras esportivas, igrejas e shoppings, é possível metralhálos às centenas.

Clay foi o primeiro a parar de rir. Depois Tom parou e olhou para ela, secando o bigodinho bem aparado com a mão.

Alice assentiu. As risadas tinham corado suas faces e ela ainda estava sorrindo. Havia passado de bonitinha para uma verdadeira beldade.

— Talvez aos milhares, se estiverem todos indo para o mesmo lugar.

— Meu Deus — disse Tom. Ele tirou os óculos e começou a limpá-los também. — Você não brinca em serviço.

— É uma questão de sobrevivência — disse Alice casualmente. Ela baixou os olhos para o tênis amarrado no pulso e então olhou para os homens. Assentiu mais uma vez. — Temos que calcular o padrão deles. Descobrir se eles estão em bando e quando estão em bando. Se estão buscando abrigo e onde estão se abrigando. Porque se pudermos calcular o padrão...

Clay os conduzira para fora de Boston, mas quando os três saíram da casa na Salem Street cerca de 24 horas mais tarde, não havia dúvida de que era Alice Maxwell, de 15 anos de idade, quem estava no comando. Quanto mais Clay pensava naquilo, menos surpreso ficava.

7 Famoso televangelista dos Estados Unidos. (N. do T.) 8 “Se o paraíso não se parece com Dixie, eu não quero ir.” Música do cantor de country americano Hank Williams Jr. Apelido que data da Guerra Civil, Dixie se refere ao sul dos Estados Unidos. (N. do T.)

Não faltava a Tom o que os primos ingleses dele chamavam de colhões, mas ele não era e nunca seria um líder nato. Clay tinha algumas qualidades de liderança, mas naquela tardinha Alice tinha uma vantagem a mais, além da inteligência e desejo de sobreviver: sofrerá perdas e começava a superá-las. Ao deixar a casa na Salem Street, os dois homens estavam lidando com novas privações. Clay começara a sentir uma depressão bastante assustadora que, a princípio, creditou simplesmente à decisão — inevitável, é verdade — de deixar o portfolio para trás. No entanto, à medida que a noite avançava, ele percebeu que era um medo profundo do que poderia encontrar se e quando chegasse a Kent Pond.

Para Tom, era mais simples. Ele odiava ter que abandonar Rafe.

— Deixe a porta aberta para ele — disse Alice, a nova e mais durona Alice, que a cada minuto que passava parecia mais decidida. — É muito provável que ele fique bem, Tom. Têm mantimentos de sobra por aí. Vai demorar muito até os gatos morrerem de fome ou os fonáticos terem que recorrer à carne de gato.

— Ele vai ficar selvagem — disse Tom. Estava sentado no sofá da sala de estar, elegante e triste com sua capa de chuva com cinto e chapéu de feltro. Rafer estava no colo dele, ronronando e parecendo entediado.

— É, é isso que eles fazem — disse Clay. — Pense em todos os cachorros, os pequenininhos e os grandes demais, que vão simplesmente morrer.

— Ele está comigo há tanto tempo. Desde que era filhote, na verdade. — Tom ergueu os olhos, e Clay viu que o homem estava à beira das lágrimas. — E além disso, acho que penso nele como meu amuleto da sorte. Meu talismã. Ele salvou minha vida, lembra?

— Agora nós somos o seu talismã — disse Clay. Não quis lembrar que ele também quase certamente já salvara a vida de Tom, mas era verdade. — Certo, Alice?

— Sim, senhor — ela disse. Tom tinha encontrado um poncho para Alice, e ela carregava uma mochila nas costas, embora não tivesse nada dentro além de pilhas para as lanternas... e, Clay tinha quase certeza, aquele sapatinho sinistro, que pelo menos não estava mais amarrado no pulso dela. Clay também estava carregando pilhas na sua mochila, e um lampião. Alice sugeriu que não levassem mais nada. Disse que não havia motivo para carregar o que poderiam pegar no caminho. — Nós somos os Três Mosqueteiros, Tom; um por todos e todos por um. Agora vamos até a casa dos Nickleby ver se conseguimos arranjar uns mosquetes.

— Nickerson. — Ele ainda estava acariciando o gato.

Ela era esperta o suficiente, e talvez sensível o suficiente também, para não dizer algo como "tanto faz"; mas Clay notou que a paciência dela estava chegando ao limite. Ele disse:

— Tom. Temos que ir.

— É, acho que sim. — Ele começou a afastar o gato, então o apanhou e deu-lhe um beijo forte entre as orelhas. Rafe suportou aquilo apertando um pouco os olhos. Tom o largou no sofá e ficou parado. — Dose dupla de ração na cozinha, do lado do fogão, amigo — ele falou. — E mais uma tigela grande de leite, com o resto do creme nele de lambuja. A porta dos fundos está aberta. Tente se lembrar onde fica a sua casa, e talvez... ei, talvez a gente volte a se ver.

O gato pulou para o chão e foi em direção à cozinha com o rabo levantado. E, fiel à sua natureza, não olhou para trás.

O portfolio de Clay, envergado e com um vinco horizontal que ia para os dois lados a partir do meio, onde a faca tinha cortado, estava recostado na parede da sala. Clay olhou para ele no caminho e resistiu à vontade de tocá-lo. Pensou por um instante nas pessoas lá dentro que viviam com ele há tanto tempo, tanto em seu pequeno estúdio quanto no território muito mais amplo (modéstia à parte) da sua imaginação: Flak, o Mago; Gene Dorminhoco; Jumping Jack Flash; Sally Venenosa. E o Dark Wanderer, é claro. Dois dias atrás, ele achou que aqueles personagens seriam estrelas. Agora eles tinham um buraco no meio e o gato de Tom para fazer companhia.

Ele pensou em Gene Dorminhoco saindo da cidade montado em Robbie, o Cavalo-robô, dizendo: Até lo-logo amimigos! Tatatalvez eu vo-volte um um-dia!

— Até logo, amigos — ele falou em voz alta; um pouco constrangido, mas não muito. Afinal de contas, não era o fim do mundo. Não era uma grande despedida, mas teria que servir... E Gene Dorminhoco também teria dito: Dó-dói mamais que u-um fefer-ferrete em brabrasa bebem no o-olho.

Clay saiu para a varanda atrás de Alice e Tom, adentrando o som da chuva fraca de outono.

Tom estava com o seu chapéu de feltro, o poncho de Alice tinha capuz, e Tom achara para Clay um boné dos Red Sox que manteria sua cabeça seca pelo menos por um tempo, se a chuva não ficasse mais forte. E se ficasse... bem, havia mantimentos de sobra, como apontara Alice. Isso certamente incluía acessórios para tempo ruim. Do altinho da varanda, eles conseguiam ver quase duas quadras inteiras da Salem Street. Era impossível ter certeza com o dia escurecendo, mas ela parecia completamente deserta, exceto por alguns corpos e restos de comida que os lunáticos tinham deixado para trás.

Cada um dos três carregava uma faca nas bainhas que Clay tinha feito. Se Tom estivesse certo em relação aos Nickerson, logo estariam mais bem fornidos. Clay esperava que sim. Talvez conseguisse usar de novo o cutelo da Soul Kitchen, mas ainda não tinha certeza se conseguiria fazê-lo a sangue frio.

Alice trazia uma lanterna na mão esquerda. Ela olhou para se certificar de que Tom também estava com uma e assentiu.

— Ok — ela disse. — Leve a gente até a casa dos Nickerson, certo?

— Certo — respondeu Tom.

— E, se virmos alguma pessoa no caminho, paramos no ato e jogamos a luz em cima dela. — Ela olhou um pouco nervosa para Tom e depois para Clay. Já tinham passado por aquilo. Clay imaginou que ela agia daquele mesmo jeito obsessivo antes de provas importantes... e sem dúvida aquela era uma delas.

— Certo — disse Tom. — Nós falamos: "Nossos nomes são Tom, Clay e Alice. Somos normais. Como vocês se chamam?"

Clay falou:

— Se eles tiverem lanternas iguais às nossas, podemos praticamente supor...

— Nós não podemos supor nada — ela disse agitada, quase se exaltando. — Meu pai diz que supor é coisa de gente idiota.

— Tudo bem — disse Clay.

Alice esfregou os olhos, e Clay não soube dizer se foi para limpar a água da chuva ou lágrimas. Ele imaginou, por um doloroso instante, se Johnny estaria em algum lugar chorando por ele naquele momento. Clay esperava que sim. Esperava que o filho ainda fosse capaz de chorar. E de se lembrar das coisas.

— Se eles responderem e falarem os nomes, estão bem e provavelmente podemos confiar neles — disse Alice. — Certo?

— Certo — respondeu Clay.

— É — concordou Tom, um pouco distante. Estava olhando para a rua, onde não havia ninguém e nenhuma luz de lanterna se mexendo, perto ou longe de onde estavam.

Em algum lugar mais afastado, tiros pipocaram. Pareciam fogos de artifício. O ar fedia a queimado e coisas carbonizadas, e tinha sido assim o dia todo. Clay achou que o cheiro estava mais forte por conta da chuva. Ele imaginou quanto tempo levaria para o bafio de carne em decomposição que pairava sobre a Grande Boston se transformar em uma fedentina. Calculava que iria depender do calor que fizesse nos próximos dias.

— Se encontrarmos pessoas normais e elas perguntarem quem somos, o que estamos fazendo ou para onde estamos indo, lembrem-se do que combinamos — ela falou.

— Estamos procurando sobreviventes — disse Tom.

— Isso mesmo. Porque eles são nossos amigos e vizinhos. Qualquer pessoa que encontrarmos vai estar só de passagem. Ela vai querer seguir adiante. Mais tarde, talvez seja melhor nos juntarmos a outras pessoas normais, porque quanto mais gente, mais segurança, mas por enquanto...

— Por enquanto nós vamos pegar aquelas armas — disse Clay.

— Se elas estiverem lá. Vamos logo com isso, Alice.

Ela olhou com preocupação para ele.

— O que houve? O que eu fiz de errado? Pode me falar, eu sei que sou só uma menina.

Calmamente, com toda a paciência que nervos que pareciam cordas de guitarra esticadas demais permitiram, Clay falou:

— Não tem nada de errado, querida. Eu só quero resolver isso logo. De qualquer maneira, não acho que vamos encontrar ninguém. Acho que está cedo demais pra isso.

— Espero que você tenha razão — ela disse. — Meu cabelo está horrível e eu quebrei uma unha.

Os dois olharam para Alice em silêncio por um instante e então riram. Depois daquilo as coisas melhoraram entre eles e continuaram boas até o fim.

— Não — disse Alice. Ela golfou. — Não. Não vou conseguir. — Uma golfada mais forte. — E então: — Vou vomitar, desculpe.

Ela se afastou correndo da luz do lampião e adentrou a escuridão da sala de estar dos Nickerson, que era separada da cozinha por um grande arco. Clay ouviu o som abafado dos joelhos de Alice batendo no carpete, seguido por mais golfadas. Uma pausa, um arquejo e ela estava vomitando. Ele se sentiu quase aliviado.

— Oh, Cristo — disse Tom. Ele inspirou longamente, com muito esforço, e então falou em um jorro de ar vacilante que era quase um uivo. — Oh, Criiiiiisto.

— Tom — disse Clay. Ele viu que o homenzinho estava cambaleando e prestes a desmaiar. Por que não? Aqueles restos sanguinolentos tinham sido seus vizinhos.

— Tom! — Ele pisou entre Tom e os dois corpos no chão da cozinha, entre Tom e a maior parte do sangue derramado, que parecia tão preto quanto nanquim sob a luz branca e inclemente do lampião. Deu tapinhas no rosto de Tom com a mão livre. — Não desmaie!— E quando viu que Tom estava com os pés firmes, baixou um pouco a voz. — Vá até a sala e cuide de Alice. Deixe a cozinha comigo.

— Por que você quer entrar lá? — perguntou Tom. — Aquela é Beth Nickerson com os miolos... com os mimiolos espalhados... — Ele engoliu saliva. A garganta dele fez um clique alto. — O rosto dela está quase todo destruído, mas dá pra reconhecer o avental azul com flocos de neve. E aquela é a Heidi caída na ilha do meio. A filha deles. Posso reconhecê-la, mesmo com... — Ele balançou a cabeça, como se quisesse clareá-la, e então repetiu: — Por que você quer entrar lá?

— Tenho quase certeza de que estou vendo o que a gente veio pegar — disse Clay. Ele estava pasmo com a calma que parecia transmitir.

— Na cozinha!

Tom tentou olhar mais adiante, e Clay saiu da frente.

— Confie em mim. Vá cuidar de Alice. Se ela tiver condições, vocês dois podem começar a procurar mais armas. Gritem se acharem alguma coisa. E tenham cuidado, o Sr. Nickerson também pode estar por aqui. Quero dizer, podemos supor que ele estava no trabalho quando tudo isso aconteceu, mas como diz o pai da Alice...

— Supor é coisa de gente idiota — disse Tom. Ele conseguiu sorrir debilmente. — Beleza. — Começou a ir para o outro lado, e então voltou. — Não quero saber para onde vamos, Clay, mas não quero ficar aqui mais do que o necessário. Não morria de amores por Arnie e Beth Nickerson, mas eles eram meus vizinhos. E me tratavam muito melhor do que aquele babaca do Scottoni.

— Combinado.

Tom ligou sua lanterna e seguiu para a sala de estar dos Nickerson. Clay o ouviu murmurando para Alice, tranqüilizando-a.

Criando coragem, Clay foi em direção à cozinha com o lampião erguido, desviando das poças de sangue no piso de madeira. Ele já tinha secado, mas mesmo assim Clay queria pisar no mínimo possível.

A garota deitada de costas na ilha do meio era alta, mas tanto os rabos-de-cavalo quanto as extremidades do corpo sugeriam que se tratava de uma criança dois ou três anos mais nova do que Alice. A cabeça dela estava em um ângulo forçado, quase imitando um sinal de interrogação, e seus olhos mortos estavam arregalados. O cabelo era de um louro sujo, mas as mechas do lado esquerdo da cabeça — o lado que havia levado a pancada que a matara — tinham ficado todas da mesma cor marrom-escura das manchas no chão.

A mãe dela estava recostada debaixo do balcão à direita do fogão, onde os simpáticos armários de cerejeira se juntavam, formando um ângulo. As mãos estavam fantasmagoricamente brancas de farinha e as pernas ensangüentadas e mordidas, abertas de maneira indecorosa. Uma vez, antes de começar a trabalhar em uma revista de tiragem limitada chamada Inferno da Guerra, Clay acessou uma série de fotos de mortes por armas de fogo na Internet, achando que poderia encontrar algo de útil. Não encontrou nada. As lesões por armas de fogo possuíam uma terrível linguagem própria, e lá acontecia a mesma coisa. Beth Nickerson era basicamente uma mistura de líquidos e cartilagem do olho esquerdo para cima. O olho direito rolara até a parte de cima da órbita, como se ela tivesse morrido tentando olhar dentro da própria cabeça. O cabelo da nuca e uma boa quantidade de massa encefálica estavam emplastados no armário de cerejeira no qual ela recostara em seus breves instantes de agonia. Algumas moscas voavam ao seu redor.

Clay começou a golfar. Virou a cabeça e cobriu a boca. Disse a si mesmo para manter o controle. Na sala, Alice tinha parado de vomitar — na verdade, ele conseguia ouvi-la conversando com Tom enquanto os dois entravam mais na casa — e Clay não queria que ela voltasse por causa dele.

Pense neles como manequins, bonecos em um filme, ele disse a si mesmo, mas sabia que era impossível.

Quando se virou de volta, procurou olhar para as outras coisas no chão. Aquilo ajudou. Já tinha visto a arma. A cozinha era espaçosa e a arma estava na outra extremidade, entre a geladeira e um dos armários, com o tambor para fora. O primeiro impulso que teve ao ver a mulher e a menina mortas foi desviar o olhar; ele parou no tambor da arma por acidente.

Mas talvez eu já soubesse que tinha que haver uma arma ali.

Ele até viu onde ela ficava antes: em um suporte na parede entre a tevê embutida e o abridor de latas industrial. Eles são tão doidos por engenhocas quanto por armas, Tom tinha dito, e uma arma pendurada em um suporte na cozinha pronta para pular na sua mão... ora, se aquilo não era o melhor de dois mundos, o que era?

— Clay? — Era Alice. Chamando de longe.

— O quê?

Em seguida veio o som de pés subindo depressa um lance de escadas, e depois Alice chamando da sala de estar.

— Tom falou que você pediu pra gente avisar se achasse alguma coisa. Acabamos de achar. Deve ter uma dúzia de armas no gabinete do andar de baixo. Tanto rifles quanto pistolas. Estão em um armário com um adesivo de uma empresa de alarmes, então a gente vai acabar sendo preso... foi uma piada. Você está vindo?

— Já vou, querida. Não venha para cá.

— Não se preocupe. Você é que tem que sair daí para não passar mal.

Ele estava além de passar mal, muito além. Havia dois objetos caídos no chão de madeira ensangüentado da cozinha dos Nickerson. Um era um rolo de massa, o que fazia sentido. Havia uma forma de torta, uma tigela e uma lata amarela com FARINHA escrito na ilha do meio. O outro objeto no chão, que estava mais ou menos perto de uma das mãos de Heidi Nickerson, era um celular de que somente uma adolescente poderia gostar; azul e cheio de margaridas laranja e grandes decalcadas.

Clay conseguia entender o que tinha acontecido, por menos que quisesse. Beth Nickerson está fazendo uma torta. Será que ela sabe que algo terrível começou a acontecer na Grande Boston, na América, talvez no mundo? Está passando na tevê? Se estiver, a tevê não enviou uma mensagem para ela enlouquecer, Clay estava certo disso.

Porém, a filha recebeu uma daquelas mensagens. Ah, recebeu. E Heidi atacou a mãe. Será que Beth Nickerson tentou discutir com a filha antes de derrubá-la com uma pancada do rolo de massa? Ou simplesmente bateu? Não por ódio, mas por conta da dor e do medo. Em todo caso, não foi suficiente. E Beth não estava de calças. Estava usando um vestido, e as pernas estavam nuas.

Clay baixou a saia da morta. Com cuidado, cobrindo a calcinha simples, de ficar em casa, que ela sujara no fim.

Heidi, que certamente não tinha mais de 14 anos, talvez 12, devia estar rosnando naquela língua selvagem e sem sentido que eles pareciam aprender imediatamente depois de receber a dose completa de Sai-Pra-Lá-Juízo dos celulares, dizendo coisas como rast e eilá e kazalá. O primeiro golpe do rolo de massa derrubou a menina, mas não a fez perder os sentidos, e ela começou a morder as pernas da mãe. E não foram mordidinhas, mas dentadas fundas, dilacerantes; algumas chegaram até o osso. Clay não via apenas marcas de dentes, mas também tatuagens apagadas, que deviam ter sido feitas pelo aparelho ortodôntico de Heidi. E então — provavelmente gritando, sem dúvida em agonia, e quase certamente sem se dar conta do que fazia — Beth Nickerson dera outro golpe, muito mais forte. Clay quase podia ouvir o som abafado do pescoço da menina quebrando. A filha adorada, morta no chão da cozinha moderna, com aparelho nos dentes e o celular moderno na mão estendida.

E será que a mãe refletiu antes de arrancar a arma do suporte entre a tevê e o abridor de latas, onde estivera esperando há sabe-se lá quanto tempo por um ladrão ou estuprador aparecer naquela cozinha limpa e bem iluminada? Clay achava que não. Clay achava que ela não hesitou, que quis alcançar a alma da filha enquanto a explicação para o que fez ainda estava na ponta da sua língua.

Clay andou até a arma e a pegou. De um fissurado em engenhocas como Arnie Nickerson, ele esperava uma automática — talvez até com mira a laser —, mas aquele era um bom e velho revólver Colt calibre 45. Clay pensou que fazia sentido. A mulher dele talvez se sentisse mais à vontade com aquele tipo de arma; sem aquela história de se certificar de que estava carregada se precisasse dela (ou perder tempo resgatando um pente de trás das espátulas ou dos temperos se não estivesse), e depois puxar o ferrolho para garantir que tem uma bala pronta na câmara. Não, com aquela belezinha bastava girar o tambor para fora, o que Clay fez sem problemas. Ele desenhara milhares de variações daquela mesma arma para o Dark Wanderer. Como tinha imaginado, apenas uma das seis câmaras estava vazia. Ele balançou o tambor para tirar uma das balas, sabendo exatamente o que iria encontrar. O calibre 45 de Beth Nickerson estava carregado com balas mortíferas altamente ilegais. Projéteis de ponta oca. Não era de se admirar que o topo da cabeça dela tivesse explodido. O impressionante era a cabeça ainda estar lá. Ele baixou os olhos para os restos da mulher recostada no canto e começou a chorar.

— Clay? — Era Tom, subindo as escadas do porão. — Cara, Arnie tinha de tudo! Tem uma automática que aposto que garantiria a ele umas férias na cadeia... Clay? Você está bem?

— Já estou indo — disse Clay, limpando os olhos. Travou o revólver e o enfiou no cinto. Então tirou a faca e a deixou no balcão de Beth Nickerson, ainda na sua bainha improvisada. Parecia que estavam fazendo uma troca. — Me dê mais dois minutos.

— Yo.

Clay ouviu os passos de Tom descendo de volta para o depósito de armas de Nickerson e sorriu, apesar das lágrimas que desciam pelo seu rosto. Aquilo sim era algo digno de nota: mostre um porão cheio de armas para brincar a um gay bonzinho de Malden e ele começa a falar yo igual ao Sylvester Stallone.

Clay começou a vasculhar as gavetas. Na terceira que abriu encontrou uma caixa vermelha pesada com os dizeres IM2-PENDEI! CALIBRE 45 50 TIROS. Estava embaixo dos panos de prato. Ele colocou a caixa no bolso e foi se juntar a Tom e Alice. Queria sair de lá naquele instante, e o mais rápido possível. O difícil seria tirá-los de lá sem que tentassem levar toda a coleção de armas de Nickerson junto.

Quando chegou à metade do arco, ele parou e olhou para trás, segurando alto o lampião e fitando os corpos. Baixar a saia do avental da mulher não ajudou muito. Eles ainda eram apenas cadáveres, as feridas tão nuas quanto Noé quando seu filho o pegou de porre. Clay podia encontrar alguma coisa para cobri-los, mas se começasse a cobrir corpos, quando aquilo iria acabar? Quando? Quando chegasse a vez de Sharon? Do seu filho?

— Deus me livre — sussurrou Clay, duvidando que Deus o faria só porque ele pediu. Baixou a lanterna e seguiu os fachos de luz de Tom e Alice, que dançavam no andar de baixo.

Os dois usavam cintos com pistolas de alto calibre nos coldres e aquelas eram automáticas. Tom também jogara uma cartucheira sobre o ombro. Clay não sabia se ria ou se começava a chorar de novo. Parte dele tinha vontade de fazer os dois ao mesmo tempo. É claro que se fizesse aquilo eles achariam que ele estava tendo um ataque histérico. E é claro que estariam certos.

A tevê de plasma presa na parede do porão era grande — muito grande —, irmã da que estava na cozinha. Outra tevê, um pouco menor, tinha uma entrada para vários tipos de videogame que Clay, em um passado distante, adoraria ter examinado. Babado em cima, talvez.

Para equilibrar, havia uma jukebox Seeberg no canto perto da mesa de pingue-pongue dos Nickerson, com todas as suas cores fabulosas apagadas e mortas. E, obviamente, havia os armários com as armas, dois, ainda trancados, mas com os vidros da frente quebrados.

— Eles tinham barras de proteção, mas Nickerson guardava uma caixa de ferramentas na garagem — disse Tom. — Alice usou um pé-de-cabra para quebrá-las.

— Foi moleza — disse Alice com modéstia. — Isso aqui estava na garagem atrás da caixa de ferramentas, enrolado em um pedaço de cobertor. É o que eu acho que é?

— Puta merda — falou Clay. — Isso é... — Ele apertou os olhos para ler as letras em altorelevo sobre o guardamato. — Acho que é russo.

— Tenho certeza que sim — disse Tom. — Você acha que é uma Kalashnikov?

— Sei lá. Vocês acharam balas para ela? Quero dizer, caixas com a mesma coisa que está escrita na arma?

— Meia dúzia. Caixas pesadas. É uma metralhadora, não é?

— Pode-se dizer que sim. — Clay moveu uma alavanca. — Tenho quase certeza de que uma dessas posições é para um tiro e a outra é para rajada.

— Quantos tiros ela dá por minuto? — perguntou Alice.

— Não sei — disse Clay —, mas acho que o certo é tiros por segundo.

— Uau. — Ela arregalou os olhos. — Será que você consegue aprender a usá-la?

— Alice, tenho certeza de que eles ensinam matutos de 16 anos de idade a usá-las. Sim, consigo aprender. Posso gastar uma caixa de munição, mas consigo aprender. — Por favor, Deus, não deixe que ela exploda nas minhas mãos, ele pensou.

— Um negócio desse é legal em Massachusetts? — ela perguntou.

— Agora é, Alice — disse Tom sem sorrir. — Vamos?

— Sim — disse ela, e então, talvez não se sentindo ainda totalmente confortável em ser a pessoa encarregada das decisões, olhou para Clay.

— Sim — disse ele. — Para o norte.

— Por mim, tudo bem — disse Alice.

— Isso — disse Tom. — Norte. Vamos nessa.

 

ACADEMIA GAITEN

Quando o dia chuvoso nasceu na manha seguinte, Clay, Alice e Tom estavam acampados no celeiro anexo a um haras abandonado em North Reading. Eles observaram da porta os primeiros grupos de gente doida aparecerem, formando bandos na rota 62 em direção a Wilmington. As roupas deles estavam uniformemente encharcadas e surradas. Alguns estavam descalços. Ao meio-dia, tinham sumido. Por volta das quatro, à medida que o sol surgiu por entre as nuvens em raios longos e entrecortados, eles começaram a se juntar novamente, voltando pelo caminho que tinham ido. Muitos estavam mastigando. Alguns ajudavam os que tinham dificuldade de andar sozinhos. Se houve assassinatos naquele dia, Clay, Tom e Alice não viram.

Cerca de meia dúzia de lunáticos arrastava objetos grandes que Clay achava familiares; Alice encontrara um no armário do quarto de hóspedes de Tom. Os três tinham ficado parados diante dele, com medo de ligá-lo.

— Clay? — perguntou Alice. — Por que alguns deles estão carregando rádios?

— Não sei — respondeu ele.

— Não gosto disso — disse Tom. — Não gosto do fato de eles se juntarerm em bando, de estarem ajudando uns aos outros e muito menos de vê-los com esses mini systems.

— Só alguns estão com... — começou a falar Clay.

— Olhe só aquela lá — interrompeu Tom, apontando para uma mulher de meia-idade que mancava pela rodovia 62 abraçando um rádio/CD-player do tamanho de um pufe. Ela o segurava contra os seios como se fosse um bebê adormecido. O fio saía da parte de trás do aparelho e se arrastava na rua às suas costas. — E você não está vendo nenhum deles carregando lustres ou torradeiras, ou está? E se eles foram programados para montar rádios a pilha, ligá-los e começarem a transmitir aquele tom, pulso, mensagem subliminar ou o que quer que seja? E se quiserem pegar os que se safaram da primeira vez?

Eles. O sempre popular e paranóico eles. Alice tirara o seu sapatinho de algum lugar e o apertava com a mão, mas quando falou a voz saiu calma o bastante.

— Não acho que seja o caso — disse ela.

— Por que não? — perguntou Tom.

Ela balançou a cabeça.

— Não sei dizer. Mas não me parece que seja isso.

— Intuição feminina? — Ele estava sorrindo, mas sem tirar sarro.

— Talvez — disse ela —, mas acho que uma coisa é óbvia.

— O quê, Alice? — perguntou Clay. Ele tinha uma idéia do que ela iria falar e estava certo.

— Eles estão ficando mais espertos. Não individualmente, mas porque estão pensando juntos. Isso pode parecer loucura, mas acho mais provável do que eles estarem juntando um monte de mini systems a pilha para deixar todo mundo biruta.

— Pensamento coletivo por telepatia — disse Tom. Alice o observou enquanto ele considerava a hipótese. Clay, que já havia decidido que ela tinha razão, observou o fim do dia pela porta do celeiro. Estava pensando que precisavam parar em algum lugar para pegar um mapa rodoviário.

Tom assentia.

— Ei, por que não? Afinal, é provavelmente isso que significa se movimentar em bando: pensamento coletivo por telepatia.

— Você acha mesmo ou está só falando para me...

— Acho mesmo — disse ele. Esticou o braço para tocar a mão dela, que passara a apertar o sapatinho depressa. — Acho mesmo, de verdade. Dê um descanso para essa coisa, sim?

Ela deu um sorriso fugidio e distraído. Clay o viu e pensou mais uma vez em como ela era bonita, bonita de verdade. E como estava perto de um colapso.

— Aquele monte de feno parece macio e eu estou cansada. Acho que vou tirar um bom cochilo.

— Vai fundo — disse Clay.

Clay sonhou que estava fazendo um piquenique com Sharon e Johnny-Gee nos fundos da casinha deles em Kent Pond. Sharon estendera seu cobertor navajo na grama. Comiam sanduíches e bebiam chá gelado. De repente, o dia ficou escuro. Sharon apontou para trás de Clay e disse: "Cuidado! Telepatas!" Mas quando ele se virou, viu apenas um bando de corvos, um deles tão grande que tapou o sol. Então uma melodia começou a soar. Parecia o caminhão do Mister Softee tocando o tema de Vila Sésamo, e Clay ficou apavorado no sonho. Virou-se e Johnny-Gee tinha sumido. Quando perguntou a Sharon onde ele estava — já com medo, sabendo qual seria a resposta —, ela disse que Johnny se enfiara embaixo do cobertor para atender o celular. Havia uma protuberância no cobertor. Clay entrou debaixo dele, sentindo o cheiro esmagador de feno. Gritou para Johnny não atender e esticou o braço para pegá-lo, mas encontrou apenas a circunferência fria de uma bola de vidro: o peso de papel que comprara na Pequenos Tesouros, o que tinha uma penugem de dente-de-leão enfiada bem no meio, flutuando como uma névoa de bolso.

Então sentiu Tom sacudi-lo, dizendo que já passava das nove no relógio dele, que a lua estava no céu e que se quisessem andar mais um pouco, era melhor começarem logo. Clay nunca se sentira tão feliz em acordar. No geral, preferia os sonhos com a Tenda de Bingo.

Alice estava olhando esquisito para ele.

— O que foi? — disse Clay, conferindo se as armas automáticas deles estavam travadas; aquilo já se tornara um hábito.

— Você falou dormindo. Ficou dizendo: "Não atenda, não atenda."

— Ninguém devia ter atendido — disse Clay. — Estaríamos todos muito melhor.

— Ah, mas quem resiste a um telefone tocando? — perguntou Tom. — E aí pronto, acabou a festa.

— Assim falou a porra do Zaratustra — disse Clay.

Alice riu até chorar.

Com a lua entrando e saindo de trás das nuvens — como uma ilustração num livro infantil sobre piratas e tesouros escondidos, pensou Clay —, eles deixaram o haras para trás e retomaram a caminhada para o norte. Naquela noite, voltaram a encontrar outras pessoas iguais a eles.

Porque essa é a nossa hora, pensou Clay, trocando o rifle automático de mãos. Totalmente carregado, era pesado pra cacete. O dia é dos fanáticos; quando as estrelas aparecem, é a nossa vez. Somos como vampiros. Fomos banidos para a noite. De perto, nos reconhecemos porque ainda conseguimos falar; a poucos passos, nos identificamos sem erro por conta das mochilas e das armas que cada vez mais de nós carregamos; porém, a distância, a única garantia é a luz oscilante de uma lanterna. Três dias atrás, não só dominávamos a Terra, como trazíamos a culpa dos sobreviventes em relação a todas as espécies que exterminamos na nossa escalada em direção ao nirvana dos canais de notícia a cabo 24 horas e da pipoca de microondas. Agora somos o Povo das Lanternas.

Ele olhou para Tom.

— Para onde eles vão? — ele perguntou. — Para onde vão os lunáticos depois que o sol se põe?

Tom olhou feio para ele.

— Para o pólo norte. Todos os gnomos morreram da doença da rena louca e esses caras estão dando uma força até a nova leva chegar.

— Meu Deus — disse Clay. — Alguém levantou pelo lado errado do monte de feno hoje.

Porém, Tom continuou sem sorrir.

— Estou pensando no meu gato — disse ele. — Imaginando se ele está bem. Tenho certeza de que você deve achar isso uma idiotice.

— Não — disse Clay, embora achasse um pouco, já que tinha um filho e uma mulher para se preocupar.

Conseguiram um mapa rodoviário em uma papelaria na cidade de dois semáforos de Ballardvale. Estavam seguindo na direção norte e bastante satisfeitos por terem decidido ficar no V mais ou menos bucólico entre as rodovias interestaduais 93 e 95. Os outros viajantes que encontraram — a maior parte deles indo para o oeste, para longe da I-95 — falavam de engarrafamentos e acidentes terríveis. Um dos poucos peregrinos que estavam indo para o leste disse que um carro tanque tinha batido perto da saída da I-93 para Wakefield e o fogo causara uma série de explosões que incineraram mais de um quilômetro e meio de carros que seguiam para o norte. O fedor, ele disse, era como "o de um churrasco no inferno".

Encontraram mais membros do Povo das Lanternas à medida que se arrastavam pelos arredores de Andover e ouviram um boato tão recorrente que já era repetido com a segurança de um fato: a fronteira para New Hampshire estava fechada. A polícia estadual de New Hampshire e agentes especiais estavam atirando primeiro e fazendo perguntas depois. Sem se importarem se você estava maluco ou são.

— É só uma nova versão da porra do lema que eles têm naquelas merdas de placas de carro desde sempre — disse um idoso de expressão amarga que andou junto com eles por um tempo. Ele carregava uma pequena mochila em cima de um sobretudo caro e tinha uma lanterna de cilindro longo. A coronha de uma pistola saía do bolso do seu sobretudo. — Se você estiver em New Hampshire, tem o direito de viver livremente. Se quiser ir para New Hampshire 9 , tem o direito é de morrer.

— Isso é... difícil de acreditar — disse Alice.

— Acredite no que quiser, senhorita — falou o companheiro temporário deles. — Eu encontrei algumas pessoas que tentaram ir para o norte como vocês, e eles voltaram correndo para o sul quando viram algumas

9 O lema em questão é "Live Free or Die" (em tradução livre, "Liberdade ou Morte"). Nos Estados Unidos, cada estado tem um lema escrito nas placas dos carros. (N. do T.) pessoas sendo alvejadas indiscriminadamente enquanto tentavam entrar em New Hampshire pelo norte de Dunstable.

— Quando? — perguntou Clay.

— Na noite passada.

Clay pensou em fazer várias outras perguntas, mas, em vez disso, segurou a língua. Em Andover, o homem de expressão amarga e a maioria das pessoas que havia dividido com eles a mesma rota repleta de veículos (mas possível de atravessar) viraram para a rodovia I-33, em direção a Lowell e outros lugares a oeste. Clay, Tom e Alice ficaram na rua principal de Andover — deserta à exceção de alguns transeuntes com lanternas — com uma decisão a tomar.

— Você acredita nisso? — Clay perguntou a Alice.

— Não — respondeu ela e olhou para Tom.

Tom balançou a cabeça.

— Nem eu. Para mim, a história dele é tipo aquela do crocodilo no esgoto.

Alice assentia.

— As notícias já não se espalham tão rápido. Não sem telefones.

— É — disse Tom. — Essa é definitivamente a lenda urbana da próxima geração. Ainda assim, estamos falando sobre o que um amigo meu chama de New Hamster. O que me faz pensar que devíamos cruzar a fronteira pelo local mais escondido que conseguirmos achar.

— Boa idéia — disse Alice e, depois daquela conversa, eles voltaram a andar, usando a calçada enquanto ainda estavam na cidade e ainda havia uma calçada para usar.

Nos arredores de Andover, um homem com um par de lanternas amarradas na cabeça por uma espécie de arreio (uma em cada têmpora) saiu da vitrine quebrada do supermercado IGA. Após acenar de maneira amistosa, veio em direção a eles, atravessando um congestionamento de carrinhos de compra enquanto jogava enlatados no que parecia uma sacola de jornaleiro. Parou do lado de uma picape virada de lado, se apresentou como Sr. Roscoe Handt, de Methuen, e perguntou para onde estavam indo. Quando Clay disse Maine, Handt balançou a cabeça.

— A fronteira de New Hampshire está fechada. Encontrei duas pessoas há menos de meia hora que foram obrigadas a voltar. Disseram que eles estão tentando diferenciar os fonáticos das pessoas como a gente, mas sem se esforçarem muito.

— Essas duas pessoas viram isso acontecer com os próprios olhos? — perguntou Tom.

Roscoe Handt olhou para Tom como se ele fosse louco.

— A gente tem que acreditar na palavra dos outros, cara — disse ele. — Quero dizer, não dá para ligar para ninguém e verificar, não é? —

Fez uma pausa. — Eles estão queimando corpos em Salem e Nashua, foi

o que esses caras me disseram. E está fedendo feito um churrasco. Eles me falaram isso também. Estou levando um grupo de cinco para o oeste e queremos rodar alguns quilômetros antes de o sol nascer. O caminho para o oeste está livre.

— É o que estão dizendo por aí? — perguntou Clay.

Handt olhou para ele com um leve desprezo.

— E o que estão dizendo, sim. E uma palavra basta para o sábio, minha mãe costumava dizer. Se quiserem mesmo ir para o norte, é melhor chegarem à fronteira no meio da noite. Os lunáticos não saem depois do anoitecer.

— Nós sabemos — disse Tom.

O homem com as lanternas presas nos lados da cabeça ignorou Tom e continuou falando com Clay. Tomara-o como líder do trio.

— E eles não carregam lanternas. Balancem as suas. Falem. Gritem. Eles também não fazem essas coisas. Duvido que as pessoas na fronteira deixem vocês passarem, mas, se tiverem sorte, também não vão ser fuzilados.

— Eles estão ficando mais espertos — disse Alice. — O senhor sabe disso, não sabe Sr. Handt?

Handt riu com desdém.

— Eles estão se deslocando em grupo e não estão mais matando uns aos outros. Não sei se isso os torna mais espertos ou não. Mas eles ainda estão matando a gente. Disso eu sei.

Handt deve tér notado a dúvida no rosto de Clay, porque sorriu. A luz das lanternas transformou o sorriso em algo desagradável.

— Eu os vi pegarem uma mulher hoje de manhã — falou ele. — Com meus próprios olhos, certo?

Clay assentiu.

— Certo.

— Acho que sei por que ela estava na rua. Foi em Topsfield, a uns 15 quilômetros daqui. Eu e o meu grupo estávamos em um Motel. Ela estava indo para lá. Mas não estava andando normal. Estava apertando o passo. Quase correndo. Olhando para trás. Eu a vi porque não conseguia dormir. — Ele balançou a cabeça. — Se acostumar a dormir de dia é foda.

Clay pensou em dizer para Handt que todos eles iriam se acostumar, mas ficou quieto. Ele viu que Alice estava segurando seu talismã de novo. Não queria que ela ouvisse aquilo, mas sabia que era inevitável. Em parte porque era informação útil para a sobrevivência (e, ao contrário dos boatos sobre a fronteira de New Hampshire, ele tinha quase certeza de que aquela informação era verdadeira); em parte porque o mundo estaria cheio de histórias como aquelas por um tempo. Se ouvissem um bom número delas, algumas talvez começassem a convergir e gerar padrões.

— Provavelmente estava só procurando um lugar melhor para ficar. Nada mais que isso. Viu o Motel e pensou: "Ei, um quarto com cama. Bem ali, perto do posto Exxon. A uma quadra de distância." Mas antes de chegar à metade do caminho, um monte deles apareceu na esquina. Estavam andando... sabe como eles estão andando agora?

Roscoe Handt veio na direção deles com o corpo duro, como um soldado de chumbo, com a sacola de jornaleiro balançando. Não era daquele jeito que os fonáticos andavam, mas eles sabiam o que ele queria mostrar e assentiram.

Continuar: parte 3 de 3