Celular

Stephen King · Capítulo 2 de 5 · parte 3/3

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Celular

— Sei que não foi igual nos…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— E ela... — Ele recostou na picape virada e esfregou brevemente o rosto com as mãos. — É isso que eu quero que vocês entendam, ok? É por isso que vocês não podem se deixar enganar, não podem achar que eles estão ficando normais porque de vez em quando um deles dá a sorte de apertar os botões certos de um mini system e bota um CD para tocar...

— Você viu isso acontecer? — perguntou Tom. — Ouviu isso acontecer?

— Sim, duas vezes. O segundo cara que eu vi estava andando com um rádio, balançando o treco de um lado para o outro com tanta força que o CD estava pulando pra cacete, mas estava tocando. Então eles gostam de música, e é claro, talvez estejam reavendo alguns de seus parafusos, mas é por isso mesmo que vocês têm que ter cuidado, entendem?

— O que aconteceu com a mulher? — perguntou Alice. — A que se deixou enganar.

— Ela tentou fingir que era um deles — disse Handt. — E eu pensei, parado em frente à janela do quarto onde eu estava: "É isso aí, garota, talvez você tenha uma chance se continuar fingindo que é um deles para depois fugir, entrar em algum lugar." Porque eles não gostam de entrar nos lugares, já perceberam isso?

Clay, Tom e Alice assentiram. O homem fez o mesmo.

— Eles entram, já vi acontecer, mas não gostam.

— Como identificaram a mulher? — Alice voltou a perguntar.

— Não sei direito. Sentiram o cheiro dela, sei lá.

— Talvez tenham conseguido ouvir os pensamentos dela — disse Tom.

— Ou não tenham conseguido — disse Alice.

— Disso eu não sei — falou Handt —, mas sei que eles a despedaçaram na rua. Quero dizer, literalmente fizeram picadinho dela.

— E quando isso aconteceu? — perguntou Clay. Ele viu que Alice estava vacilando e colocou um braço em volta dela.

— Às nove da manhã de hoje. Em Topsfield. Então, se você vir um bando deles subindo a estrada de Tijolos Amarelos com um mini system tocando Why Can't We Be Friends... — Ele os examinou com a cara fechada sob a luz das lanternas presas na cabeça. — Eu não sairia gritando sabe, é só o que tenho a dizer. — Ele fez uma pausa. — E também não iria para o norte. Mesmo se eles não atirarem em você na fronteira, é uma perda de tempo.

Porém, depois de uma pequena conferência na entrada do estacionamento do IGA, eles foram para o norte assim mesmo.

Eles pararam perto de North Andover, na passarela sobre a rota 495. As nuvens estavam voltando a ficar mais espessas, mas o luar as atravessava o suficiente para revelar seis pistas de tráfego silencioso. Perto da ponte em que eles estavam, nas pistas ao sul, um caminhão capotado jazia como um elefante morto. Estava cercado por cones laranja, o que mostrava que alguém pelo menos tomara uma atitude simbólica, e havia duas viaturas policiais depois deles, uma de cada lado. O caminhão estava estorricado da metade para trás. Não havia sinal de corpos, não sob a luz momentânea da lua. Algumas pessoas seguiam para o oeste pelo acostamento, mas mesmo lá o movimento era devagar.

— Isso meio que deixa as coisas mais reais, não é? — disse Tom.

— Não — disse Alice. Ela soava indiferente. — Para mim parece um efeito especial em algum filme arrasa quarteirão. Compre um balde de pipoca e uma Coca e veja o mundo acabar em... como eles chamam mesmo? Imagem gerada por computador? CGI? Fundo azul? Uma porra dessas. — Ela ergueu o sapatinho por um dos laços. — Isso é tudo o que preciso para deixar as coisas mais reais. Uma coisa pequena o bastante para carregar na mão. Vamos.

Havia um monte de veículos abandonados na rodovia 28, mas comparada à 495 ela estava vazia. Às quatro, eles se aproximavam de Methuen, a cidade do Sr. Roscoe Handt, o homem das lanternas estéreo. Os três acreditavam na história de Handt o suficiente para quererem encontrar abrigo bem antes de o dia nascer. Escolheram um motel na interseção da 28 com a 110. Cerca de uma dúzia de carros estava parada em frente aos vários apartamentos, mas Clay achava que eles pareciam abandonados. E por que não estariam? Dava para passar pelas duas estradas, mas somente a pé. Clay e Tom pararam na entrada do estacionamento, balançando as lanternas no ar.

— Estamos bem! — gritou Tom. — Pessoas normais! Estamos entrando!

Eles aguardaram. Não houve resposta do que a placa identificava como sendo o Sweet Valley Inn, Banheira Aquecida, HBO, Diárias Especiais.

— Vamos — disse Alice. — Meus pés estão doendo. E o dia está para nascer, não está?

— Olhem só isso — disse Clay. Ele pegou um CD da entrada para carros do motel e o iluminou com a lanterna. Era Love Songs, de Michael Bolton.

— E você ainda diz que eles estão ficando mais espertos — disse Tom.

— Não se precipite — disse Clay ao começarem a andar em direção aos apartamentos. — Quem quer que fosse o dono, jogou fora, não jogou?

— É mais provável que tenha perdido — disse Tom.

Alice jogou a luz da lanterna dela sobre o CD.

— Quem é esse cara?

— Minha querida — disse Tom —, nem queira saber.

Ele pegou o CD e jogou por sobre o ombro.

Eles arrombaram as portas de três apartamentos contíguos — com o maior cuidado possível, para que pudessem pelo menos correr o ferrolho depois que entrassem — e, com camas para dormir, dormiram o dia quase inteiro. Não foram incomodados, embora Alice tenha dito naquela tarde que pensara ter ouvido música vindo de longe. Porém, ela admitiu, poderia ter sido de um sonho.

Havia mapas mais detalhados do que o mapa rodoviário à venda no saguão do Sweet Valley Inn. Estavam dentro de um armário com porta de vidro que havia sido quebrado. Clay pegou um de Massachusetts e outro de New Hampshire, enfiando a mão com cuidado para não se cortar, e viu um rapaz deitado do outro lado do balcão da recepção ao fazê-lo. Os olhos dele fitavam sem ver. Por um instante, Clay achou que alguém tinha colocado um buquê de cor estranha na boca do cadáver. Então viu as pontas esverdeadas saindo das bochechas do rapaz morto e percebeu que elas eram da mesma cor dos estilhaços de vidro que cobriam as prateleiras do armário dos mapas. O cadáver usava um crachá que dizia MEU NOME É HANK, PERGUNTE-ME SOBRE OS PACOTES SEMANAIS. Clay pensou brevemente no Sr. Ricardi enquanto olhava para Hank.

Tom e Alice esperavam por ele logo em frente à porta do saguão. Eram 21hl5 e estava um breu lá fora.

— O que você achou? — perguntou Alice.

— Esses aqui devem ajudar — disse ele. Entregou os mapas a Alice e então ergueu o lampião para que ela e Tom pudessem analisá-los, compará-los com o mapa rodoviário e planejar a viagem da noite. Ele estava tentando cultivar um senso de fatalidade em relação a Johnny e Sharon, tentando focar a mente na verdade nua e crua da situação atual da sua família: o que aconteceu em Kent Pond aconteceu. Ou o filho e a mulher estavam bem, ou não. Ou ele os encontraria, ou não.

Nem sempre esse tipo de pensamento semi mágico dava resultado.

Quando começava a falhar, ele dizia a si mesmo que tinha sorte de estar vivo, e isso sem dúvida era verdade. O que depunha contra a sua boa sorte era o fato de que ele estava em Boston, a mais de 150 quilômetros de Kent Pond pela via mais rápida (que definitivamente não era a que eles estavam pegando) quando o Pulso aconteceu. Mas ainda assim, encontrara pessoas boas. Isso não podia negar. Pessoas que ele podia considerar amigas. Várias outras — o Cara do Barril de Cerveja e a Senhora Gorducha da Bíblia, e o Sr. Roscoe Handt de Methuen também — não tiveram essa sorte.

Se ele encontrou você, Share, se Johnny encontrou você, você tem que estar cuidando bem dele. Tem quê.

Porém, e se ele estivesse com o telefone? E se tivesse levado o celular vermelho para a escola? Ele não poderia estar levando o aparelho com mais freqüência ultimamente? Porque quase todos seus coleguinhas levam os deles?

Deus.

— Clay? Você está bem? — perguntou Tom.

— Claro. Por quê?

— Não sei. Você parece um pouco... soturno.

— O cara morto atrás do balcão. Não era nada bonito.

— Olhem só — disse Alice, seguindo uma linha no mapa. Ela serpeava pela fronteira do estado e então parecia se juntar à rota 38 de New Hampshire um pouco ao leste de Peham. — Acho que é uma boa. Se pegarmos essa rodovia aqui na direção oeste por uns 12 ou 14 quilômetros — ela apontou para a 110, onde a garoa fazia tanto os carros quanto o asfalto emitirem um brilho fraco —, a gente chega lá. O que vocês acham?

— Acho uma boa idéia — disse Tom.

Ela olhou de Tom para Clay. Tinha guardado o sapatinho — provavelmente na mochila —, mas Clay percebia que ela queria apertá-lo. Ele pensou que ainda bem que Alice não era fumante, ela estaria à base de quatro maços por dia.

— Se a fronteira estiver vigiada... — ela começou a falar.

— Vamos nos preocupar com isso se houver necessidade — disse Clay, mas ele não estava preocupado. Ele iria para o Maine de qualquer maneira. Se isso significasse se arrastar no mato como um trabalhador ilegal cruzando a fronteira com o Canadá para colher maçãs em outubro, ele faria. Se Tom e Alice decidissem ficar para trás, azar. Ele ficaria triste em deixá-los... mas seguiria adiante. Porque tinha que saber.

A tortuosa linha vermelha que Alice achara nos mapas do Sweet Valley tinha um nome — Dostie Stream Road — e estava quase toda livre. Era uma caminhada de pouco mais de 6 quilômetros até a fronteira, e eles não encontraram mais de cinco ou seis veículos abandonados e apenas um acidente. Também passaram por duas casas em que viram luzes acesas e ouviram o barulho de geradores. Pensaram em parar nelas, mas logo desistiram.

— Acabaríamos trocando tiros com algum sujeito a fim de defender a família e o lar — disse Clay. — Isso supondo que tenha alguém lá dentro. Aqueles geradores provavelmente estavam programados para ligar quando a energia do município caiu e vão continuar ligados até o gás acabar.

— Mesmo que tivessem pessoas sãs lá dentro e elas nos deixassem entrar, o que não seria nada sensato, o que a gente iria fazer? — disse Tom. — Pedir para usar o telefone?

Eles discutiram a possibilidade de parar em algum lugar e pilhar um carro (pilhar foi a palavra que Tom usou), mas acabaram desistindo dessa idéia também. Se a fronteira estivesse sendo protegida por policiais ou vigilantes, chegar a ela em um Chevy Tahoe talvez não fosse a melhor saída.

Então eles andaram e, obviamente, não havia nada na fronteira além de um outdoor (pequeno, adequado a uma estrada de asfalto de duas pistas que cruzava o interior) com os dizeres VOCÊ ESTÁ ENTRANDO EM NEW HAMPSHIRE e BIENVENUE! Os únicos sons que ouviam era o gotejar do orvalho nos bosques que os cercavam e o ocasional suspiro do vento. Talvez o ruído de algum animal se movendo. Eles pararam por um instante para ler a placa e seguiram em frente, deixando Massachusetts para trás.

Qualquer sensação de estarem sozinhos acabou junto com a Dostie Stream Road, em uma placa que dizia ROTA 38 NH e MANCHESTER 30KM. Ainda havia poucos viajantes na 38, mas quando eles foram para a 128 — uma estrada larga, repleta de destroços, que levava quase diretamente ao norte —, meia hora depois, aquele fio d'água se transformou em um fluxo constante de refugiados. Em sua maioria, eles seguiam em pequenos grupos de três e quatro, com o que pareceu a Clay um desinteresse mesquinho por qualquer outra pessoa que não eles mesmos.

Encontraram uma mulher de cerca de 40 anos e um homem talvez vinte anos mais velho empurrando carrinhos de compras, cada um com uma criança dentro. O que estava no carrinho do homem era um menino, grande demais para o transporte, embora tenha achado um jeito de se enrolar dentro dele e dormir. Enquanto Clay e seu grupo passavam por aquela família improvisada, uma roda se soltou do carrinho do homem. Ele tombou de lado, cuspindo o menino para fora, que parecia ter uns 7 anos de idade. Tom o agarrou pelo ombro e evitou o pior da queda, mas o garoto ralou um dos joelhos. E é claro que estava assustado. Tom o levantou do chão, mas o menino não o conhecia e tentou fugir, chorando mais forte ainda.

— Está tudo bem, obrigado. Nós o pegamos — disse o homem.

Ele apanhou a criança e sentou no meio-fio com ela, onde o menino fez um escândalo sobre o que chamava de dodói, um termo que Clay achava que não ouvia desde que ele tinha 7 anos. O homem disse:

— Gregory vai dar um beijo e o dodói vai sarar.

Ele beijou o machucado da criança e o menino deitou a cabeça no ombro do homem. Já iria voltar a dormir. Gregory sorriu para Tom e Clay e assentiu. Ele parecia quase morto de cansaço, um homem que na semana passada talvez fosse um sessentão em boa forma estava com a aparência de um judeu de 70 anos de idade, tentando dar o fora da Polônia enquanto ainda dava tempo.

— Nós vamos ficar bem — disse ele. — Podem ir agora.

Clay abriu a boca para dizer: Por que não vamos todos juntos? Por que não nos juntamos? O que você acha, Greg? Era o tipo de coisa que os heróis dos romances de ficção científica que ele lera quando adolescente sempre diziam: Por que não nos juntamos?

— É, vão embora, o que vocês estão esperando? — perguntou a mulher antes que ele pudesse dizer aquilo ou qualquer outra coisa. No carrinho de compras dela, uma garota de uns 5 anos ainda dormia. A mulher ficou do lado do carrinho com um ar protetor, como se tivesse pegado um produto fabuloso em uma loja e temesse que Clay ou um de seus amigos tentassem arrancá-lo das suas mãos. — Estão achando que a gente tem alguma coisa que vocês querem?

— Pare, Natalie — disse Gregory com uma paciência cansada.

Mas Natalie não parou, e Clay percebeu o que era tão deprimente naquela pequena cena. Não era o fato de estar levando um esporro — na calada da noite — de uma mulher cujo esgotamento e terror levara à paranóia; isso era compreensível e perdoável. O que acabou com o ânimo dele foi a maneira como as pessoas simplesmente continuavam andando, balançando as lanternas e falando baixo entre si em seus grupinhos, trocando as malas de uma mão para outra. Algum pitboy em uma minimoto elétrica subiu a rua desviando dos destroços e passando por cima dos entulhos, e as pessoas abriram caminho para ele, resmungando de raiva. Clay pensou que não faria diferença se o garotinho tivesse caído do carrinho e quebrado o pescoço, em vez de apenas ralado o joelho. Pensou que tampouco faria diferença se aquele gordo lá na frente, andando ofegante pelo acostamento com uma mochila sobrecarregada, desabasse por conta de uma trombose coronária.

Ninguém nem se deu o trabalho de gritar: É isso aí, moça! ou Ei, cara, por que você não manda essa mulher calar a boca? Simplesmente continuaram andando.

— ... porque essas crianças são tudo o que eu tenho, uma responsabilidade que não pedimos quando mal conseguimos tomar conta de nós mesmos. Ele tem um marca-passo, você pode me dizer o que a gente vai fazer quando a pilha acabar? E agora essas crianças! Você quer uma criança? — Ela olhou ao redor freneticamente. — Ei! Alguém quer uma criança?

A garotinha começou a se mexer.

— Natalie, você está perturbando Portia — disse Gregory.

A mulher chamada Natalie começou a rir.

— Bem, azar o dela! O mundo é perturbador pra cacete!

Em volta deles, as pessoas continuaram fazendo o Passo dos Refugiados. Ninguém prestava atenção, e Clay pensou: Então é assim que nós agimos. É isso que acontece quando a coisa fica preta. Quando não tem nenhuma câmera filmando, nenhum prédio em chamas, nenhum Anderson Cooper dizendo: "Agora voltamos aos estúdios da CNN em Atlanta." Então é assim quando o Departamento de Segurança Nacional é fechado por falta de sanidade.

— Me dêem o menino — disse Clay. — Posso carregá-lo até vocês acharem algo melhor para ele ficar. Esse carrinho já era. — Ele olhou para Tom. Tom deu de ombros.

— Fique longe de nós — disse Natalie e, de repente, ela estava com uma arma na mão. Não era grande, provavelmente uma calibre 22, mas até uma calibre 22 poderia dar conta do recado se a bala entrasse no lugar certo.

Clay ouviu o som de armas sendo sacadas dos dois lados dele e compreendeu que Tom e Alice estavam apontando as pistolas que pegaram da casa de Nickerson para a mulher chamada Natalie. Pelo jeito, era assim também.

— Guarde a arma, Natalie — ele disse. — Nós estamos indo embora agora.

— Pode apostar que sim — ela disse, tirando um cacho de cabelo rebelde de cima da vista com a mão livre. Não parecia se dar conta de que o rapaz e a moça que acompanhavam Clay estavam apontando armas para ela. Naquele momento, as pessoas que passavam olharam, mas a única reação que tiveram foi se afastar do local do confronto e potencial derramamento de sangue um pouco mais depressa.

— Vamos, Clay — disse Alice baixinho. Ela colocou a mão livre no pulso dele. — Antes que alguém leve um tiro.

Eles começaram a andar novamente. Alice caminhava com a mão no pulso de Clay, quase como se ele fosse seu namorado. Um simples passeio à meia-noite, pensou Clay, embora não fizesse idéia de que horas eram e tampouco se importasse. O coração dele batia forte. Tom os acompanhava, mas, até dobrarem a curva seguinte, ele andou de costas, com a arma ainda apontada. Clay imaginou que Tom queria estar preparado para atirar de volta caso Natalie decidisse usar sua arma de brinquedo. Porque era isso mesmo atirar de volta, uma vez que o serviço de telefonia havia sido interrompido até segunda ordem.

Nas horas que precederam o amanhecer, enquanto andavam pela rota 102 ao leste de Manchester, eles começaram a ouvir música, tocando muito baixinho.

— Meu Deus — disse Tom, parando de andar. — É a Baby Elephant Walk.

— É o que? — perguntou Alice. Ela parecia ter achado aquilo divertido.

— Um jazz instrumental da época em que a gasolina custava 25 centavos. Les Brown & His Band of Renown, se não me engano. Minha mãe tinha o disco.

Dois homens os alcançaram e pararam para recuperar o fôlego. Ambos eram velhos, mas pareciam estar em boa forma. Como uma dupla de carteiros recém-aposentados caminhando pelas Cotswolds, pensou Clay. O que quer que elas sejam. Um deles carregava uma mochila — e não era uma mochilinha qualquer, e sim do tipo que ia até a cintura, com armação — e o outro estava com uma bolsa pendurada no ombro direito. Pendurado no esquerdo, via-se o que parecia ser uma calibre 30.

O Mochileiro limpou o suor da testa enrugada com o antebraço e disse:

— A sua mãe podia ter uma versão de Les Brown, filho, mas é mais provável que fosse a de Don Costa ou Henry Mancini. Essas é que eram populares. A que está tocando — ele inclinou a cabeça em direção à melodia fantasmagórica — é a de Lawrence Welk 10, tenho certeza absoluta.

— Lawrence Welk — disse Tom com um suspiro, em um tom quase reverente.

— Quem?— perguntou Alice.

— Ouça aquele elefantinho andar — disse Clay, rindo. Estava cansado e se sentindo palhaço. Ocorreu a ele que Johnny adoraria aquela música.

O Mochileiro lançou um olhar de desprezo momentâneo para Clay e então voltou a olhar para Tom.

— É o Lawrence Welk mesmo — falou ele. — Meus olhos já não prestam pra nada, mas meu ouvido está ótimo. Minha mulher e eu costumávamos assistir ao programa dele todo santo sábado.

— Dodge também se divertia à beca — disse o Cara da Bolsa. Foi a única coisa que ele acrescentou à conversa, e Clay não fazia idéia do que aquilo significava.

— Lawrence Welk e a Champagne Band — disse Tom. — Vejam só.

 

10 Músico americano que comandou um popular programa de tevê da década de 1950 até o começo dos anos 80. The Lawrence Welk Show contava com uma banda própria que tocava os maiores sucessos da época. (N. do T.)

— Lawrence Welk e os Champagne Music Makers — falou o Mochileiro. — Jesus Cristo.

— Não se esqueça das Lennon Sisters e da adorável Alice Lon — disse Tom.

Ao longe, a música fantasmagórica mudou.

— Essa é Calcutta — disse o Mochileiro. Ele suspirou. — Bem, nós vamos indo. Foi um prazer passar um pedaço do dia com vocês.

— Da noite — disse Clay.

— Não — disse o Mochileiro. — Estes são os nossos dias agora. Você não notou? Tenham um bom dia, rapazes. Você também, senhorita.

— Obrigada — a senhorita entre Clay e Tom falou com a voz fraca.

O Mochileiro voltou a andar. O Cara da Bolsa o seguiu com passos firmes. Ao redor deles, um desfile constante de fachos de lanterna oscilantes conduzia as pessoas mais para dentro de New Hampshire. Então o Mochileiro parou e se virou para dizer uma última coisa.

— É melhor não ficarem na rua por muito mais tempo — disse ele. — Encontrem uma casa ou um motel e entrem. Você sabe dos sapatos, certo?

— O que têm os sapatos? — perguntou Tom.

O Mochileiro olhou com paciência para ele, da maneira que provavelmente olharia para qualquer pessoa que não conseguia deixar de ser uma imbecil. Bem ao longe na estrada, Calcutta — se é que era essa música mesmo — dera lugar a uma polca. Ela parecia uma loucura naquela noite nevoenta e chuvosa. E, para completar, aquele velho com uma mochila enorme nas costas falando sobre sapatos. — Quando entrarem em algum lugar, deixem os sapatos em frente à porta — disse o Mochileiro. — Não se preocupem que os malucos não vão pegá-los. Isso serve para mostrar às outras pessoas que o lugar está ocupado e elas devem procurar outro. Evita... — Ele baixou os olhos para a arma automática pesada que Clay estava carregando.

— Evita acidentes.

— Houve acidentes? — perguntou Tom.

— Oh, sim — respondeu o Mochileiro, com uma indiferença gélida. — Do jeito que as pessoas são, sempre acontecem acidentes. Mas têm lugares de sobra. Então não há necessidade de vocês sofrerem um acidente. Apenas deixem os sapatos do lado de fora.

— Como o senhor sabe disso? — perguntou Alice.

O Mochileiro abriu um sorriso que melhorou incrivelmente a cara dele. Mas era difícil não sorrir para Alice; ela era jovem e, até as três da manhã, ainda era bonita.

— As pessoas falam, eu escuto. Eu falo e às vezes as outras pessoas escutam. Você escutou?

— Sim — disse Alice. — Escutar é um dos meus maiores talentos.

— Então espalhe a notícia. Já basta termos que lutar contra eles. — O Mochileiro não precisava ser mais específico. — Não precisamos de acidentes., entre nós ainda por cima.

Clay pensou em Natalie apontando a arma. Ele falou:

— O senhor tem razão. Obrigado.

Tom disse:

— Essa que está tocando é The Beer Barrel Polka, não é?

— Isso mesmo, filho — respondeu o Mochileiro. — Myron Floren no acordeão. Deus o tenha. Talvez seja melhor vocês pararem em Gaiten. É um vilarejo simpático a uns 3 ou 4 quilômetros mais adiante.

— É para lá que os senhores estão indo? — perguntou Alice.

— Oh, eu e Rolfe devemos ir um tiquinho mais longe — respondeu ele.

— Por quê?

— Porque nós podemos, senhorita, só por isso. Tenha um bom dia.

Daquela vez eles não o contradisseram e, embora os dois homens já devessem estar perto dos 70, logo sumiram de vista, seguidos pelo facho da única lanterna, que o Cara da Bolsa — Rolfe — carregava.

— Lawrence Welk e os Champagne Music Makers — admirou-se Tom.

— Baby Elephant Walk — disse Clay, rindo.

— Por que Dodge também se divertia à beca? — quis saber Alice.

— Acho que é porque ele podia — disse Tom e disparou a rir da perplexidade no rosto dela.

A música vinha de Gaiten, o vilarejo simpático em que o Mochileiro tinha recomendado que eles parassem. Não era nem de perto tão alta quanto o show do AC/DC a que ele assistira em Boston na adolescência — que o havia deixado com os ouvidos zumbindo por dias —, mas era alta o bastante para fazê-lo pensar nos concertos de verão da banda municipal a que assistira com os pais em South Berwick. Na verdade, Clay estava achando que eles descobririam que a música vinha da praça municipal de Gaiten — provavelmente algum velho, não transformado em fonático, mas apenas abalado pelo desastre, que enfiara na cabeça usar um monte de alto-falantes a pilha para presentear aquele êxodo com uma serenata de músicas antigas.

Havia uma praça municipal em Gaiten, mas estava deserta, a não ser por algumas pessoas jantando tarde, ou tomando café-da-manhã cedo, à luz de lanternas e lampiões. A música vinha de algum lugar mais ao norte. Àquela altura, Lawrence Welk dera lugar a alguém tocando um trompete tão suavemente que chegava a dar sono.

— É Wynton Marsalis, não é? — perguntou Clay. Estava pronto para fechar o expediente e achou que Alice parecia quase morta de cansaço.

— Ou ele ou Kenny G — disse Tom. — Sabe o que o Kenny G falou quando saiu do elevador?

— Não — disse Clay —, mas tenho certeza de que você vai me dizer.

— "Cara, que puta som!"

Clay falou:

— Isso foi tão engraçado que acho que o meu senso de humor acabou de implodir.

— Não entendi — disse Alice.

— Nem vale a pena explicar — disse Tom. — Pessoal, temos que parar por hoje. Estou pregado.

— Eu também — disse Alice. — Achei que o futebol tinha me deixado em forma, mas estou exausta.

— É — concordou Clay. — Eu também.

Já tinham passado pelo centro comercial de Gaiten e, de acordo com as placas, a Main Street — que também era a rota 120 — tinha se tornado a Academy Avenue. Aquilo não surpreendeu Clay, pois a placa nos arredores da cidade proclamava Gaiten lar da Histórica Academia Gaiten, uma instituição sobre a qual Clay ouvira vagamente falar. Ele imaginava que fosse uma daquelas escolas preparatórias da Nova Inglaterra para crianças que não conseguem entrar para Exeter ou Milton. Supunha que logo os três estariam de volta à terra dos Burger Kings, lojas de conserto de amortecedores e cadeias de motéis, mas aquela parte da rota 102 de New Hampshire era ladeada por casinhas muito bonitas. O problema era que havia sapatos — às vezes chegando até a quatro pares — em frente à maioria das portas.

O número de transeuntes diminuíra consideravelmente à medida que outros viajantes encontravam abrigo para o dia que ia nascer. Porém, quando eles passaram pelo posto de gasolina Citgo da Academia Grove e se aproximaram dos pilares de pedra que flanqueavam a entrada da Academia Gaiten, começaram a alcançar um trio que estava logo adiante: dois homens e uma mulher, todos bem avançados na meia-idade. Enquanto andavam lentamente calçada acima, aqueles três inspecionavam cada casa, buscando uma sem sapatos em frente à porta. A mulher mancava muito, e um dos homens estava com o braço em volta da cintura dela.

A Academia Gaiten ficava à esquerda, e Clay percebeu que era de lá que a música saía (naquele momento, uma versão monótona, repleta de cordas, de Fly Me to the Moori). Ele notou mais duas coisas. Uma era que havia muito mais lixo naquela parte — sacolas rasgadas, vegetais comidos pela metade, ossos roídos —, e a maior parte do lixo seguia pela entrada de cascalho da Academia. A outra era que havia duas pessoas paradas lá. Uma era um velho curvado sobre uma bengala. O outro era um menino com uma lanterna a pilha posicionada entre os sapatos. Não parecia ter mais de 12 anos e cochilava recostado em um dos pilares. Usava o que parecia ser um uniforme escolar: calças cinza, suéter cinza e um paletó marrom com um brasão.

À medida que o trio na frente de Clay e seus amigos se aproximou ombro a ombro da entrada da Academia, o velho — que vestia um paletó de tweed com cotoveleiras — dirigiu-lhes a palavra em uma voz forte, do tipo vão “me ouvir até a última fileira da sala de aula".

— Olá, olá, meus caros! Por que vocês não entram aqui? Podemos oferecer abrigo, porém, o mais importante é que temos que...

— Não "temos que" nada, senhor — disse a mulher. — Estou com quatro bolhas, duas em cada pé, e mal consigo andar.

— Mas temos espaço de sobra — começou a falar o velho. O homem em que a mulher se apoiava lançou um olhar para ele que deve ter sido feio, pois o velho se calou. O trio passou pela entrada, pelos pilares e pela placa em um suporte de ferro antiquado com ganchos em forma de S que dizia: ACADEMIA GAITEN, FUNDADA EM 1846 " Uma Mente Jovem É uma Luz na Escuridão."

O velho voltou a se curvar sobre a bengala, então viu Clay, Tom e Alice chegando e se empertigou mais outra vez. Esteve a ponto de saudá-los, mas pelo jeito decidiu que a sua abordagem de palestrante não estava dando resultado. Em vez disso, cutucou seu companheiro nas costelas com a ponta da bengala. O menino se endireitou com uma expressão desnorteada, enquanto atrás dos dois, onde prédios de tijolos se erguiam na escuridão da encosta de uma pequena colina, Fly me to the Moon dava lugar a uma versão igualmente lerda de algo que um dia talvez tenha sido Get a Kick out of You.

— Jordan! — ele disse. — Sua vez! Convide-os.

O menino chamado Jordan deu um pulo, pestanejou para o velho e então olhou para o novo trio de estranhos que se aproximava com uma desconfiança melancólica. Clay pensou na Lebre de Março e no Rato do Campo em Alice no País das Maravilhas. Talvez aquilo fosse errado — provavelmente era —, mas ele estava muito cansado.

— Ah, com eles não vai ser diferente, senhor — disse o menino. — Eles não vão entrar. Vamos tentar de novo na noite que vem. Estou com sono.

E Clay soube que, apesar do cansaço, eles tinham que descobrir o que o velho queria — isto é, a não ser que Tom e Alice se recusassem terminantemente. Em parte porque o companheiro do velho fazia com que ele se lembrasse de Johnny, sem dúvida, mas principalmente porque o menino enfiara na cabeça que ninguém iria ajudar naquele nada admirável novo mundo — ele e o homem que chamava de senhor estavam sozinhos porque era assim que as coisas eram. Só que se aquilo fosse verdade, logo não haveria mais nada que valesse a pena salvar.

— Fale — o homem o incentivou. Ele cutucou Jordan com a ponta da bengala mais uma vez, porém sem força. Sem machucar. — Diga-lhes que podemos oferecer abrigo, que temos bastante espaço, mas que eles precisam ver antes. Alguém tem que ver isso. Se eles se recusarem, nós desistimos por hoje.

— Certo, senhor.

O velho sorriu, expondo uma boca cheia de dentes de cavalo enormes.

— Obrigado, Jordan.

O menino veio na direção deles completamente sem ânimo, arrastando os sapatos sujos, com a ponta da camisa aparecendo debaixo da bainha ao suéter. Ele segurou a lanterna em uma das mãos e ela chiou baixinho. Jordan estava com olheiras pretas sob os olhos e precisava lavar o cabelo com urgência.

— Tom? — perguntou Clay.

— Vamos ver o que ele quer — disse Tom —, porque estou vendo o que você quer, mas...

— Senhores? Com licença, senhores.

— Só um segundo — disse Tom ao menino, e então se virou para Clay. O rosto dele estava sério. — O dia vai nascer dentro de uma hora. Talvez menos. Então é melhor o velho estar falando sério sobre ter lugar para a gente.

— Oh, temos sim, senhor — disse Jordan. Ele parecia não querer mostrar esperança, mas não conseguia evitar. — Muitos lugares. Centenas de dormitórios, isso sem contar com a Casa Cheatham, Tobias Wolff veio aqui no ano passado e ficou lá. Veio dar uma palestra sobre o livro dele, Meus Dias de Escritor.

— Eu li esse livro — disse Alice, soando desconcertada.

— Os meninos que não tinham celulares fugiram todos. Os que tinham...

— Nós sabemos o que aconteceu com eles — disse Alice.

— Eu sou bolsista. Morava em Holloway. Não tinha celular. Tinha que usar o telefone do dormitório sempre que queria ligar para casa e os outros meninos ficavam me zoando.

— Me parece que você riu por último, Jordan — falou Tom.

— Sim, senhor — disse ele respeitosamente, mas à luz da lanterna que chiava Clay não viu alegria, apenas desgosto e cansaço. — Os senhores não querem entrar para conhecer o Diretor?

E, embora também estivesse bastante cansado, Tom respondeu com perfeita educação, como se estivessem em uma varanda ensolarada — talvez em um Chá para os Pais — em vez de na beira cheia de lixo da Academy Avenue às 4hl5 da manhã.

— O prazer será todo nosso, Jordan. — disse ele.

— Eu costumava chamá-los de interfone do diabo — disse Charles Ardal, que era presidente do Departamento de Inglês da Academia Gaiten há 25 anos e diretor interino de toda a Academia no momento do Pulso. Agora ele manquejava com surpreendente rapidez colina acima, mantendo-se na calçada e evitando o rio de lixo que cobria o acesso à Academia. Jordan andava atento ao lado dele, os outros três o seguiam. O menino estava com medo de que o velho perdesse o equilíbrio. Clay estava com medo de o homem ter um enfarto ao tentar conversar ao mesmo tempo em que subia uma colina, por menos íngreme que fosse.

— Não falava sério, é claro; era uma piada, um chiste, um exagero cômico, mas, para dizer a verdade, nunca gostei daquelas coisas, especialmente em um ambiente acadêmico. Eu poderia ter tentado proibir o uso deles na escola, mas naturalmente sairia derrotado. Seria mais fácil tentar legislar contra a subida da maré, não é mesmo? — Ele bufou rapidamente várias vezes. — Meu irmão me deu um de aniversário de 65 anos. A bateria acabou. — Mais bufadas e arquejos. — E nunca mais recarreguei. Sabiam que eles emitem radiação? É verdade que a quantidade é minúscula, mas ainda assim... uma fonte de radiação tão perto da cabeça de uma pessoa... do cérebro...

— Senhor, talvez seja melhor esperar até chegarmos ao Tonney — disse Jordan. Ele endireitou Ardal quando a bengala do Diretor derrapou em um pedaço de fruta podre e ele pendeu momentaneamente (mas em um ângulo preocupante) para bombordo.

— Essa é provavelmente uma boa idéia — disse Clay.

— Sim — concordou o Diretor. — Só que... eu nunca confiei neles, é aí que quero chegar. Com o meu computador foi diferente. Acostumei-me a ele como um pato à água.

No topo da colina, o caminho principal do campus se dividia em um Y. A bifurcação esquerda serpeava até prédios que quase certamente serviam de dormitórios. A da direita seguia em direção a salas de aula, um grupo de prédios administrativos e um arco cuja brancura brilhava no escuro. O rio de lixo e embalagens descartadas passava por baixo dele. O Diretor Ardal os conduziu por aquele caminho, contornando os entulhos da melhor forma possível, com Jordan segurando-lhe o cotovelo. A música — agora era Bette Midler cantando Wind Beneath My Wings — vinha de além do arco, e Clay viu dezenas de CDs no chão entre os ossos e sacos de batata frita vazios. Ele estava começando a ter um mau pressentimento em relação àquilo.

— Hã, senhor? Diretor? Talvez seja melhor a gente...

— Vamos ficar bem — respondeu o Diretor. — Você brincou de dança das cadeiras quando era criança? É claro que brincou. Bem, enquanto a música estiver tocando, não temos com que nos preocupar. Vamos dar uma olhadinha rápida e então vamos para a Casa Cheatham. É a residência do Diretor. Fica a menos de 200 metros do estádio Tonney. Pode confiar em mim.

Clay olhou para Tom, que deu de ombros. Alice assentiu. Jordan calhou de estar olhando para trás (bastante ansioso) e viu aquela interação colegial.

— Vocês precisam ver — disse ele. — O Diretor tem razão. Enquanto não virem, não têm como saber.

— Ver o quê, Jordan? — perguntou Alice.

Mas Jordan apenas olhou para ela — os olhos grandes e jovens na escuridão.

— Espere — respondeu ele.

— Puta merda — disse Clay. Na mente dele, aquelas palavras soavam como um brado a plenos pulmões de surpresa e horror, talvez com uma pitada de ultraje, mas na verdade saíram mais como um débil gemido. Parte disso talvez se devesse ao fato de que àquela distância a música estivesse quase tão alta quanto o show do AC/DC de anos atrás (embora Debby Boone cantando You Light Up My Fire como uma colegial fosse bem diferente de Hell’s Bells, mesmo no volume máximo), mas o maior culpado era um estado de puro choque. Clay tinha pensado que depois do Pulso e da subseqüente fuga de Boston estava preparado para tudo, mas se enganara.

Ele não imaginava que escolas preparatórias como aquela se permitissem algo tão plebeu (e tão vulgar) quanto futebol americano, mas, pelo jeito, lá eles davam bastante importância ao futebol de bola redonda. As arquibancadas que se estendiam por ambos os lados do estádio Tonney pareciam capazes de comportar umas mil pessoas, e eram enfeitadas com bandeiras que só agora começavam a ficar com um aspecto sujo, por conta do tempo chuvoso dos últimos dias. Havia um placar caprichado na extremidade do campo com letras grandes enfileiradas em cima. Por conta da escuridão, Clay não conseguia ler o que estava escrito, e provavelmente também não teria conseguido à luz do dia. Mas havia luz o bastante para enxergar o campo propriamente dito, e era isso que importava.

Cada centímetro de grama estava coberto por fonáticos. Eles estavam deitados de costas como sardinhas enlatadas, perna a perna, cintura a cintura e ombro a ombro. Os rostos deles fitavam o céu escuro de antes do amanhecer.

— Meu Senhor Jesus Cristo — disse Tom. A voz saiu abafada, pois ele apertava um punho contra a boca.

— Segurem a garota! — gritou o Diretor. — Ela vai desmaiar!

— Não... eu estou bem — disse Alice, mas quando Clay a enlaçou com um braço, ela se curvou contra o corpo dele, respirando rápido. Estava com olhos abertos, porém fixos, como se estivesse drogada.

— Tem mais deles debaixo das arquibancadas também — disse Jordan. Ele falou com uma calma estudada, quase exibida, na qual Clay não acreditou nem por um minuto. Era a voz de um menino garantindo aos amigos que não estava com nojo dos vermes que pululavam nos olhos de um gato morto... logo antes de dobrar os joelhos e botar o almoço para fora. — A gente acha que é ali que eles colocam os feridos que não vão melhorar.

— Nós achamos, Jordan.

— Desculpe, senhor.

Debby Boone alcançou a catarse poética e se calou. Houve uma pausa, e então os Champagne Music Makers de Lawrence Welk voltaram a tocar Baby Elephant Walk. Dodge também se divertia à beca, pensou Clay.

— Quantos desses mini systems eles conseguiram ligar juntos? — ele perguntou ao Diretor Ardal. — E como fizeram isso? Pelo amor de Deus, eles são idiotas; são zumbis! — Uma idéia terrível lhe veio à mente, ao mesmo tempo ilógica e persuasiva. — Foi o senhor! Para mantê-los quietos, ou... sei lá...

— Não foi ele — disse Alice. Ela falou baixinho, de dentro da proteção que o braço de Clay oferecia.

— Não, e as duas premissas estão erradas — falou o Diretor.

— As duas? Não estou...

— Eles devem adorar música mesmo — refletiu Tom —, porque não gostam de entrar em locais fechados. Mas é neles que estão os CDs, não é?

— Isso sem falar nos mini systems — disse Clay.

— Não há tempo para explicações agora. O céu já está começando a clarear e... diga a eles, Jordan.

Jordan falou com obediência, com o ar de quem recita uma lição que não compreende:

— Todo bom vampiro deve entrar antes de o galo cantar, senhor.

— Isso mesmo, antes de o galo cantar. Por enquanto, apenas olhem. É tudo o que precisam fazer. Vocês não sabiam da existência de lugares como esse, sabiam?

— Alice sabia — disse Clay.

Eles olharam. E, como a noite tinha começado a clarear, Clay percebeu que os olhos em todos aqueles rostos estavam abertos. Ele tinha quase certeza de que não viam nada; estavam apenas... abertos.

Observar os corpos espremidos e os rostos inexpressivos (a maioria deles branca, afinal, eles estavam na Nova Inglaterra) era horrível, mas os olhos vazios fitando o céu noturno o encheram de um horror irracional. Em algum lugar, não muito distante, o primeiro pássaro da manhã começou a cantar. Não era um corvo, mas o Diretor se assustou e então perdeu o equilíbrio. Daquela vez foi Tom quem o segurou.

— Vamos — falou o Diretor. — A Casa Cheatham fica perto daqui, mas é melhor irmos andando. A umidade deixa minhas juntas mais duras do que nunca. Segure meu cotovelo, Jordan.

Alice soltou Clay e foi para o outro lado do velho. Ele abriu um sorriso um tanto intimidador e balançou a cabeça.

— Jordan consegue tomar conta de mim sozinho. Nós cuidamos um do outro agora; certo, Jordan?

— Sim, senhor.

— Jordan? — perguntou Tom. Eles se aproximavam de uma residência enorme (e um tanto pretensiosa), estilo Tudor, que Clay imaginava ser a Casa Cheatham.

— Senhor?

— A mensagem em cima do placar; não consegui lê-la. O que dizia?

— BEM-VINDOS AO FIM DE SEMANA DOS ALUMNI. — Jordan quase sorriu, mas então se lembrou de que não haveria Fim de Semana dos Alumni naquele ano, as bandeiras nas arquibancadas já tinham começado a esfarrapar, e o brilho abandonou o rosto dele. Se não estivesse tão cansado, talvez tivesse conseguido manter a compostura, mas era muito tarde, quase de manhã, e enquanto eles subiam a passarela que levava à casa do Diretor, o último aluno da Academia Gaiten, ainda vestido de marrom e cinza, desatou a chorar.

— Estava uma delícia, senhor — disse Clay. Ele assumira muito naturalmente o modo de falar de Jordan. Tom e Alice também. — Obrigado.

— É mesmo — disse Alice. — Obrigada. Nunca tinha comido dois hambúrgueres de uma vez na vida... pelo menos não tão grandes assim.

Eram três da tarde do dia seguinte. Eles estavam na varanda dos fundos da Casa Cheatham. Charles Ardal — o Diretor, como Jordan o chamava — havia preparado os hambúrgueres em uma pequena grelha a gás. Ele disse que podiam comer a carne sem medo porque o gerador que alimentava o freezer do refeitório funcionara até o meio-dia do dia anterior (e, de fato, os hambúrgueres que ele tirara do refrigerador, e que Tom e Jordan tinham trazido da despensa, ainda estavam brancos de gelo e duros como discos de hóquei). Ardal disse que não haveria problema em grelhar a carne até as cinco da tarde, embora a prudência os obrigasse a comer cedo.

— Eles sentiriam o cheiro da comida? — perguntou Clay.

— Digamos que não estamos interessados em descobrir — respondeu o Diretor. — Estamos, Jordan?

— Não, senhor — disse Jordan e deu uma mordida em seu segundo hambúrguer. Estava comendo mais devagar, mas Clay achou que ele conseguiria dar conta do recado. — A gente quer estar dentro de casa quando eles acordam e dentro de casa quando eles voltam da cidade. É pra lá que eles vão, para a cidade. Estão limpando tudo, como pássaros em um milharal. É o que diz o Diretor.

— Eles estavam voltando em bando para casa mais cedo quando estávamos em Malden — disse Alice. — Não que soubéssemos onde era a casa deles antes. — Ela estava olhando para uma bandeja com formas de pudim. — Posso comer um desses?

— É claro. — O Diretor empurrou a bandeja na direção dela. — E outro hambúrguer também, se quiser. O que não comermos logo vai estragar.

Alice gemeu e balançou a cabeça, mas pegou um pudim. Tom fez o mesmo.

— Eles parecem sair no mesmo horário todas as manhãs, mas têm mesmo voltado para casa mais cedo — disse Ardal, pensativo. — Por que será?

— Menos comida? — perguntou Alice.

— Talvez... — Ele deu uma última mordida no hambúrguer e então cuidadosamente cobriu o resto com um guardanapo. — Existem muitos bandos. Talvez uma dúzia em um raio de 80 quilômetros. Pessoas que estavam indo para o sul nos informaram que há bandos em Sandown, Fremont e Candia. Durante o dia, eles saem procurando quase a esmo, talvez não só por comida, mas também por música, e então voltam para o lugar de origem.

— Isso o senhor sabe com certeza — falou Tom. Ele terminou um pudim e partiu para outro.

Ardal balançou a cabeça.

— Não podemos ter certeza de nada, Sr. McCourt. — O cabelo dele, um emaranhado de fios longos e brancos (sem dúvida o cabelo de um professor de inglês, pensou Clay), balançou um pouco na brisa suave da tarde. As nuvens tinham sumido. A varanda dos fundos tinha uma boa vista para o campus, que até então estava deserto. Jordan dava a volta na casa a intervalos regulares para inspecionar a colina que descia até a Academy Avenue e declarava que tudo estava tranqüilo daquele lado também. — Vocês não viram nenhum dos outros locais de aglomeração?

— Não — disse Tom.

— Mas estávamos viajando no escuro — Clay o recordou —, e agora o escuro é escuro de verdade.

— Sim — concordou o Diretor. Ele falava quase como se devaneasse. — Como le Moyen Age. Traduza, Jordan.

— A Idade Média, senhor.

— Muito bem. — Ele deu um tapinha no ombro do menino.

— Mesmo os bandos grandes passariam despercebidos — disse Clay. — Nem precisariam estar escondidos.

— Não, eles não estão se escondendo — concordou o Diretor Ardal, juntando os dedos em forma de triângulo. — Ainda não, pelo menos. Eles se agrupam... procuram comida... e a consciência coletiva talvez se desfaça um pouco enquanto estão procurando... mas talvez em menor escala. Talvez em menor escala a cada dia.

— Manchester queimou inteira — disse Jordan de repente. — Dava pra ver o fogo daqui, não dava, senhor?

— Dava — concordou o Diretor. — Foi muito triste e assustador.

— É verdade que as pessoas que estão tentando entrar em Massachusetts estão levando tiros na fronteira? — perguntou Jordan. — É o que estão falando por aí. As pessoas estão dizendo que o melhor é ir para Vermont, só por lá é seguro.

— Isso é bobagem — disse Clay. — Ouvimos a mesma coisa sobre a fronteira de New Hampshire.

Jordan o encarou com os olhos arregalados por um instante, então disparou a rir. O som soava límpido e bonito no ar parado. Então, ao longe, uma arma disparou. E, mais próximo de lá, alguém gritou de raiva ou horror.

Jordan parou de rir.

— Conte-nos sobre aquele estado esquisito em que eles estavam na noite passada — falou Alice baixinho. — E sobre a música. Todos os outros bandos escutam música à noite?

O Diretor olhou para Jordan.

— Sim — disse o menino. — Eles só escutam músicas lentas, nada de rock, country...

— Imagino que nada de música clássica, também — acrescentou o Diretor. — Não as mais desafiadoras, pelo menos.

— São as canções de ninar deles — disse Jordan. — É o que a gente acha, não é senhor?

— Nós achamos, Jordan.

— Isso, nós achamos, senhor.

— Mais é isso mesmo que achamos — concordou o Diretor. — Embora eu suspeite que exista algo mais além disso. Sim, muito mais.

Clay estava bestificado. Mal sabia como continuar. Olhou para os amigos e viu nos rostos deles o que ele estava sentindo — não só perplexidade, mas uma terrível relutância em aceitar aquele esclarecimento.

Inclinando-se para frente, o Diretor Ardal disse:

— Posso ser franco? Preciso ser franco; é um hábito que me acompanhou a vida toda. Quero que vocês nos ajudem a fazer uma coisa terrível aqui. Acredito que temos pouco tempo para fazê-lo, e embora uma ação solitária como essa possa não dar em nada, nunca se sabe, não é mesmo? Nunca se sabe que tipo de comunicação pode surgir entre esses... bandos. Seja como for, não vou ficar parado enquanto essas... coisas... roubam de mim não só a escola, mas a própria luz do dia. Já teria tentado antes, mas sou velho e Jordan é muito jovem. Jovem demais. O que quer que sejam agora, eles eram humanos há pouco. Não vou deixar que o menino se envolva nisto.

— Eu posso fazer a minha parte, senhor! — disse Jordan. Ele falou com a convicção, pensou Clay, de qualquer adolescente muçulmano que já afivelou um cinto suicida cheio de explosivos.

— Saúdo a sua coragem, Jordan — o Diretor disse a ele —, mas acho melhor não. — Ele olhou para o menino com afeto, mas quando se virou para os demais, seus olhos tinham endurecido consideravelmente. — Vocês têm armas, armas boas, e eu tenho apenas um rifle calibre 22 de um tiro só que talvez nem funcione mais, embora o cano esteja desobstruído, eu olhei. Mesmo que funcione, os cartuchos que tenho talvez não disparem. Mas tenho uma bomba de gasolina na garagem da nossa pequena frota de veículos, e gasolina talvez sirva para matá-los.

Ele deve ter visto o horror nos rostos dos seus companheiros, porque assentiu. Para Clay, Ardal não parecia mais o adorável Mr. Chips; estava mais para um velho puritano em uma pintura a óleo. Do tipo que condenaria um homem ao tronco sem pestanejar. Ou mandaria uma mulher para a fogueira para ser queimada como bruxa.

Ele assentiu para Clay em especial. Clay tinha certeza disso.

— Tenho consciência do que estou falando. Sei como soa aos ouvidos de vocês. Mas não seria assassinato, não exatamente; seria extermínio. E não tenho poder para forçá-los a fazer nada. Mas, de qualquer forma... quer vocês queiram me ajudar a queimá-los, quer não, precisam passar uma mensagem adiante.

— Para quem? — perguntou Alice com a voz fraca.

— Para todas as pessoas que encontrarem, Srta. Maxwell. — Ele se inclinou sobre os restos da refeição, aqueles olhos inquisidores penetrantes, pequenos e inflamados. — Precisam dizer o que está acontecendo com eles; com os que receberam a mensagem infernal do interfone do diabo. Precisam passar isto adiante. Todos que foram privados da luz do dia têm que ouvir, e antes que seja tarde demais. — Ele passou uma das mãos sobre a parte debaixo do rosto e Clay notou que seus dedos tremiam um pouco. Seria fácil considerar aquilo um sinal da idade do homem, mas ele não tinha visto nenhuma tremedeira antes. — Tememos que logo vai ser. Não é, Jordan?

— Sim, senhor. — Jordan sem dúvida parecia saber de algo; ele parecia aterrorizado.

— O quê? O que está acontecendo com eles? — perguntou Clay.

— Tem alguma coisa a ver com a música e com aqueles mini systems ligados juntos, não tem?