Chefe irresistível
Três
– Você tem certeza de que não se importa em adiar a lua de mel? – No sofá, ao meu lado, Hanna virou o rosto para mim, piscando com o sol do fim da tarde que penetrava pela janela da sala. – Você não acha que pode ser um pouco… brochante?
Um casamento frenético, uma noite de núpcias insone, mais uma entrevista riscada da lista, e lá estávamos nós: uma semana depois, já de volta ao nosso apartamento, de volta à nossa vida cotidiana.
Havia algo de reconfortante em dar aquele passo monumental e voltar imediatamente ao nosso ritmo de vida. Isso reafirmava o que eu dissera a Hanna o tempo todo: o “nós” por trás de tudo aquilo não precisava mudar. Podíamos ser exatamente quem éramos antes. Pessoas casadas definitivamente ficavam de cuecas, curtindo a preguiça numa tarde de sábado.
– Não ligo de esperar. – Beijei o nariz dela e a puxei para perto. – Desde que não marque mais nenhuma entrevista de trabalho nesse meio-tempo.
Nossa nova viagem de lua de mel já estava marcada para pouco mais de um mês depois do casamento – no fim de outubro –, sem entrevistas de trabalho na semana anterior para dar tempo de fazer as malas, terminar algum trabalho importante no laboratório e fazer reuniões inadiáveis. Eu queria o máximo de tempo possível com Hanna.
Percebi que ela hesitou um pouco, retraindo-se.
– Hanna?
– Nem mesmo para a Caltech? – ela perguntou com jeitinho.
Que sentimento estranho: eu estava cansado daquilo, querendo bufar quando minha mulher – caramba, minha mulher – recebia um convite de entrevista para a C-a-l-t-e-c-h!
– E quando seria isso? – perguntei.
– No fim de outubro… Ainda teríamos uns dias para nos preparar para a viagem. – O sorriso dela foi tão doce, tão esperançoso e genuíno, como eu poderia dizer não?
Como eu poderia, de qualquer forma? Era a carreira dela, o sonho dela. Hanna estava sendo disputada por instituições acadêmicas do mundo inteiro. Suas primeiras entrevistas haviam sido em universidades próximas: Princeton, Harvard, MIT, Johns Hopkins. Mas então os convites se espalharam: Cal, em Stanford, Max Plank, na Alemanha, Oxford, na Inglaterra, e agora a Caltech.
O problema era que ainda não tínhamos conversado sobre como seria se ela quisesse se mudar. Estávamos em modo de espera, presos numa conversa em pausa.
Respondi com mais um beijo em seu nariz.
– Isso significa que sim? – ela perguntou, estudando-me com um sorrisinho.
– Significa que nunca vou dizer não para você, Ameixa. Acho que deve visitar todas as universidades nas quais gostaria de trabalhar. – Beijando sua boca, perguntei: – Você acha que tem alguma favorita até agora?
Ela torceu o nariz.
– Humm… Acho que não…
Hanna piscou algumas vezes, com um vestígio de pânico vibrando em sua respiração. O processo era intimidante. Lembro-me de quando passei por esse momento: havia terminado o pós-doutorado e estava pronto para embarcar na próxima fase da minha carreira, mas ainda assim não conseguia acreditar que aguentaria entrar e sair todo santo dia de um laboratório, não importavam quão bons fossem meus artigos ou quantas entrevistas eu tivesse feito. Pesquisa é algo assustador, e a pesquisa acadêmica é cruel.
Esse foi um dos motivos pelos quais fui para a indústria: eu confiava mais na minha capacidade de reconhecer se uma tecnologia podia gerar lucro – e, consequentemente, fazer algo para obtê-lo – do que na minha capacidade de criar algo inovador por si só.
Da mesma forma, Hanna conhecia seus pontos fortes: sua criatividade técnica era quase infinita e ela tinha uma capacidade rara de integrar tudo o que lia no contexto científico mais amplo. Seria uma excelente professora. Eu só temia que aquilo lhe exigisse muito mais do que ela imaginava.
Melhor atravessar a ponte quando chegarmos a ela.
Ela respirou fundo e desviou o olhar para o teto.
– A chefe de departamento da Caltech parece incrível. Ela parece muito feliz! Fico imaginando um departamento cheio de nerds velhos e estranhos, mas aparentemente não é nada assim.
– Não?
– Bom, pelo menos não a princípio. Tenho certeza de que ainda tem muitos velhos nerds e estranhos. – Balançando a cabeça, ela continuou: – O nome dela é Linda Albert. Ela me fez acreditar que vou ter muito tempo para outras coisas fora do laboratório, o que nunca ouvi nesses telefonemas. Ela perguntou de você, do seu trabalho e como você está encarando todo esse processo de entrevistas.
– Perguntou?
Hanna assentiu, tomou um gole de chá e se esticou para colocar a xícara na mesa de centro. Então voltou a se aninhar nos meus braços.
– Eu disse que você é sensacional. Falei que é o homem mais competente que conheço.
Afastei-me, olhando-a. Minha boca se abriu num sorriso.
– Você falou assim mesmo?
Hanna mexeu a cabeça, confusa.
– Assim como?
– Como se houvesse categorias de competência, e um homem competente é uma categoria inferior.
Ela riu, levantando as mãos.
– Não, não… Eu…
Eu me inclinei, fiz cócegas em sua cintura, e ela se encostou de volta no sofá.
– Como, por exemplo… Até que não dirijo mal… para um cachorro.
Ela riu mais alto, lutando contra os meus dedos em meio a um ataque de cócegas.
– Basicamente, você disse à chefe de biotecnologia da Caltech que seu marido é um esquilo que faz esqui aquático.
Ela sorriu, e parei com as cócegas, inclinando-me para beijá-la. Deslizei meus lábios pelos dela, sentindo sua boca se abrir em contato com a minha.
Subi minha mão por sua cintura e pousei dois dedos acima da clavícula, sentindo sua pulsação ali.
– Amo você – ela murmurou com a voz lânguida e os olhos fechados.
– Também amo você.
Ela relaxou no sofá, ao som dos carros e das pessoas do lado de fora. A brisa precoce de outono entrou pela janela, refrescando à medida que a noite se aproximava.
– É tão bom no silêncio – disse Hanna.
– É sempre bom. – Eu sorri e cantarolei distraído uma canção que eu sabia que ela gostava, enquanto ouvia o ritmo de sua respiração.
Ela passou a ponta do dedo na tatuagem de meu braço e deslizou-a para baixo, até a letra H preta no meu quadril, sua favorita.
– O que você quer fazer hoje à noite? – ela perguntou.
Encolhi os ombros e passei os dedos entre seus cabelos, levemente embaraçados.
– Isso. Estar casado. Talvez ver um filme. Pedir comida. Ir para a cama e trepar por um tempo.
– Posso mudar um pouco essa ordem? – ela perguntou, passando os dedos sob o elástico da minha cueca.
Mas, como se o universo tivesse escutado nossos planos e dado risada dessa bobagem, ouvimos o barulho de passos do lado de fora, no corredor, e uma sinfonia de batidas na porta.
Hanna assustou-se e levantou num pulo.
– Que raios? – ela exclamou, virando-se para mim.
– Bergstrom-Sumner! – Max gritou do corredor. – Abram a porta!
– Acho que eles adotaram Sumner-Bergstrom – ouvi George corrigi-lo.
Meu estômago deu um nó.
Antes do casamento, não tínhamos tido tempo para festas: Hanna estava viajando, eu trabalhando, a vida estava muito corrida para aquela bobagem de despedida de solteiro. E, para ser franco, nenhum de nós precisava daquilo; não precisávamos de nenhuma despedida dos dias de solteirice – para a frustração dos nossos amigos, que fizeram um drama. Na semana anterior, tínhamos voltado à rotina e planejado um fim de semana pós-casamento sossegado, em casa. Hanna queria que ficássemos juntos no apartamento antes de entrar no frenesi das viagens de trabalho.
Nossos amigos sabiam disso.
Eles sabiam que estávamos em casa.
Merda.
Eles tinham nos prometido uma festa depois do casamento.
– Acho que sei o que é isso. – Levantei, fui até a porta e nem me importei por estar só de cueca. Eles chegaram sem avisar? Então iam ver o que não queriam.
A porta se abriu e revelou Chloe e Bennett, Max e Sara e George, segurando um monte de bebida nos braços.
– Surpresa! – todos gritaram em jogral.
Todos, menos George, que olhava para a minha cueca.
– É como se você soubesse que eu estava chegando! – ele exclamou.
– Uau! Oi, pessoal! – falei, sem muito entusiasmo.
– Vocês não têm escolha a não ser se embebedar com a gente – disse Chloe, com os braços cheios de lingerie rendada. – Algumas dessas são para Hanna, mas a maioria delas George escolheu para você.
– Tá bom, então, entrem logo! – eu disse, abrindo caminho.
Max e Bennett se demoraram no corredor, com cara de culpados. Levantei as sobrancelhas e olhei para eles com expectativa.
– Vocês vão entrar ou…
Eles hesitaram e olharam um para o outro.
– Nossas mulheres acharam… – Max começou a falar, observando meu traje minimalista.
– Não, tudo bem, não tem problema – eu disse, com um grande sorriso falso no rosto. – Minha mulher e eu estávamos prestes a desfrutar do sexo de recém-casados, mas, olha só, isso aqui é muito melhor.
– Viu, talvez nós devêssemos ter ligado antes, mas Chloe… – disse Bennett.
– Ligado antes? – eu ri, segurando-os pelos ombros com força e puxando-os para dentro. Aqueles tontos iam ficar tão bêbados que não iam conseguir voltar para casa. – Não precisa telefonar! Vocês são bem-vindos para chegar em casa sem avisar e ficar aqui comigo e minha mulher de roupas íntimas a qualquer hora!
Max ficou envergonhado e riu baixo.
– Puxa, que merda.
– Primeiras doses para estes cavalheiros – eu disse, colocando um braço sobre o ombro de cada um deles. – Eles gostariam de começar logo essa festança!
Chloe seguiu George até a cozinha, enquanto Sara foi para a sala abraçar Hanna, que ainda estava surpresa, e colocar uma música. Um rock agitado invadiu o apartamento, e as duas voltaram para onde estávamos reunidos.
Hanna abraçou minha cintura, olhando-me nos olhos.
– O que acabou de acontecer? – ela perguntou, rindo.
Em sua expressão, eu podia ver a pergunta: Nós estamos a fim disso?
E, na verdade, nós tínhamos uma vida inteira de tranquilas noites de domingo juntos. E era difícil de resistir ao entusiasmo no rosto de nossos amigos.
Inclinei-me e dei-lhe um beijo.
– Acho que essa noite vai sair do controle muito rápido – falei, com a boca encostada na dela.
Ela riu.
– Acho que você pode estar certo.
Chloe saiu da cozinha com uma bandeja cheia de copos de tequila e entregou um para mim, um para Hanna e um para George. Bennett e Max receberam dois copos cada.
– Boa esposa – eu disse a Chloe.
Sara tirou a tampa de sua garrafa de água, e Chloe nos chamou mais para perto.
– Agora venham aqui e levantem esses malditos copos!
Todos os copos tilintaram juntos.
– Aos recém-casados, Will e Hanna Sumner-Bergstrom. Preparem-se para uma vida inteira de muita sacanagem!
A tequila esquentou o percurso entre meus lábios e o estômago. Olhei para Hanna e vi seu primeiro arrepio à medida que a bebida descia, seguido de um tremor de aversão.
– Oh, Deus, isso é horrível! – ela reclamou.
– Então você só precisa tomar mais – disse George, que correu para a cozinha e voltou alguns minutos depois com outra rodada.
– Isso é loucura – eu disse a eles. – Vocês chegaram aqui faz cinco minutos e estão na entrada de casa, virando doses como um bando de estudantes idiotas.
Bennett concordou balançando a cabeça, mas tomou sua terceira dose assim mesmo.
– Você não deixou que o torturássemos com uma despedida de solteiro… – Max observou, levantando o copo. – Bennet teve uma em Vegas. Vocês todos fizeram a minha naquela espelunca de bar do Meatpacking District.
– Uma descrição adequada, se não me falha a memória – Bennett acrescentou. – Acho que muitos clientes fizeram sexo no banheiro aquela noite.
– Além disso, quando foi a última vez que todos nós chapamos juntos?
O grupo ficou em silêncio.
– Acho que nunca! – Hanna sugeriu e virou mais uma dose, engasgando e apertando os olhos. – Acho que não gosto de tequila.
Observei suas bochechas rosadas e seus lábios molhados da bebida e fui até a cozinha pegar um limão e o saleiro.
– Aqui – eu disse, puxando-a para perto de mim.
– Aí, sim! – George ronronou atrás de nós. – Já vamos entrar na brincadeira das doses no corpo!
– Dê uma lambida no meu pescoço – falei para ela, e Hanna já estava tão tonta que fez isso na frente dos nossos amigos, sem hesitar. – Coloque um pouco de sal agora.
Senti uma cascata de sal cair pelo meu peito nu.
– Ok – disse Hanna. – E agora?
– Lamba o sal, tome a dose e depois chupe o limão na minha boca.
– Será que podemos registrar que Will ainda está de cueca? – Sara falou, do outro lado da sala, onde aumentou o volume do som estéreo. – Alguém mais está um pouco constrangido?
– Meu Snapchat está bombando hoje! – George murmurou e tirou uma foto antes que eu me esticasse e arrancasse o telefone da mão dele com um tapa.
A boca de Hanna se aproximou do meu pescoço em meio a assovios e palmas, então ela tomou a dose e se inclinou, chupando o limão preso entre meus lábios.
Ai, caralho.
Ela deu um passo para trás enquanto chupava a metade do limão e sorria para mim com os olhos.
– Melhor? – perguntei.
Ela tirou o limão da boca e balançou a cabeça.
– Não, ainda é nojento.
Ela me beijou, e sua boca tinha gosto de tequila e limão. Eu podia ficar saboreando seus lábios o dia inteiro e ainda pedir mais.
Mas ela colocou uma mão no meu peito, empurrando-me suavemente.
– Vá vestir suas calças. Você está… um pouco entusiasmado. – Ela sorriu para mim e apontou com a cabeça para minha cueca, e percebi que estava a caminho de uma ereção bem no meio da sala, cercado pelos meus amigos.
Bennett riu, virando-se.
– Fodam-se vocês! – eu falei, batendo no ombro dele e saindo para o quarto.
–
Não demorou quase nada e todos, menos Sara, estavam bêbados de cair. Até Hanna, que eu já tinha visto alegrinha em mais de uma ocasião, só parava de rir quando era tomada por uma onda de soluços de sacudir o corpo. A mesa de centro estava coberta de canudinhos de coquetel, baralhos, copos de tequila e garrafas de cerveja. Um pacote de salgadinhos de milho estava a um palmo de uma tigela quase vazia, e ninguém parecia se importar com o fato de a mesa estar cheia de molho respingado.
– Hanna. Para que tantas entrevistas de emprego? – Bennett perguntou, no seu melhor estilo bêbado-inconveniente.
Hanna levantou três dedos e falou:
– Tenho mais duas entrevistas.
– Onde? – Sara perguntou, empurrando um copo de água para perto dela.
Minha esposa, adoravelmente bêbada, fez um esforço para se concentrar em seus dedos, dobrando um a um:
– Berkeley. Caltech.
Chloe fez uma careta de raiva.
– Se vocês se mudarem para a Costa Oeste, vou fazer uma arma com isso aqui – ela disse bêbada, sacudindo um canudinho no ar e olhando para o resto da mesa –, e com esses amendoins e esse copo, e vou atirar no seu pau, Will!
Estremeci com a imagem.
– Uau! – exclamei.
– No pau, Will!
– Tá bom, uau! Deu para imaginar. Mas não sou eu quem está fazendo entrevistas de trabalho.
– Mas sua opinião tem peso – Max me lembrou.
– Não importa – abanei uma mão bêbada, sentindo um pânico silencioso começar a crescer em mim.
– Hanna vai praticamente morar no laboratório, de qualquer jeito.
– Uau… – Ela virou a cabeça para mim de um jeito lânguido. – Isso não é justo.
– Mas é verdade. – Apoiei um cotovelo na mesa, descansando o queixo sobre a mão fechada. Era como se eu tivesse um lençol cobrindo a pilha de preocupações que só aumentavam na minha cabeça, e o álcool o tivesse retirado e jogado de lado. – Queria que você escolhesse um emprego só de professora para que eu pudesse vê-la de vez em quando. Mas você não está atrás disso.
Ela jogou a cabeça para trás, fechando um pouco os olhos.
– Eu não quero um emprego “só de professora”. Também quero coordenar um laboratório.
– Eu sei – falei, erguendo os ombros. – Entendo. Mas é a escolha que você está fazendo.
A minúscula parte do meu cérebro que não estava bêbada mandou um sinal de alerta. Uma pequena voz no fundo da minha mente me disse que eu estava sendo um babaca.
Mas não liguei. Era verdade, não era? A ideia de Hanna assumir um cargo em uma grande instituição de pesquisa me assustava. Era um dos motivos pelos quais eu mesmo não tinha aceitado um emprego assim: a pressão para publicar em revistas bem conceituadas é cruel. Não deixa tempo para mais nada.
Até que ela tivesse estabilidade – o que poderia levar anos –, sua vida inteira seria o laboratório.
Além disso, ela havia feito entrevistas por todo canto e ainda não tinha me dado nenhuma indicação de onde ela gostaria de ir. Talvez tivéssemos de desmontar toda a nossa casa em questão de meses a fim de mudar para o outro lado do país, e eu ainda não tinha ideia do lugar para onde iríamos.
Estávamos casados havia uma semana, e eu já estava me preparando para ficar em segundo lugar em relação à carreira dela.
– Vamos continuar o Verdade ou Desafio – sugeriu George, falando bem alto e tirando-nos de uma possível briga.
– É sua vez – disse Bennett para Hanna.
– Tá bom – falou Hanna, olhando para mim –, mas nós não terminamos de discutir isso…
– Vocês podem esperar a gente ir embora, pelo menos? – perguntou Bennett.
– Desculpe por eu ter perguntado.
– Falou o homem que briga e transa com a mulher em público todo santo dia – respondeu Max.
Hanna bateu palmas, chamando nossa atenção de volta ao jogo.
– Verdade ou desafio, senhor Sumner-Bergstrom?
Inclinei-me para a frente, sorrindo.
– Aaaah, desafio!
Hanna não conseguiu segurar sua risadinha de satisfação.
– Eu desafio você a beijar George.
Todos nós viramos para George, que tinha ficado branco como papel.
– O quê? – disse ele. – Espere. O que foi que ela disse?
– Vem cá… – eu murmurei, encenando para a turma.
George sacudiu a cabeça, sem acreditar, dizendo:
– Ai, meu Deus, ai, meu Deus…
Agarrando seus cabelos, inclinei-me e virei sua cabeça para perto da minha. Os olhos dele se arregalaram.
Mordisquei seu lábio inferior.
– Respire, George.
– Você quer acabar comigo? – ele me perguntou, com a voz aguda e rouca.
– Com certeza, vou tentar – disse a ele, e então movi-me para a frente, cobrindo sua boca com a minha, e – caralho, como eu estava bêbado! – passei a língua lá dentro para provocar um pouquinho.
Colado em mim, George pareceu derreter-se, com a boca ainda aberta quando recuei.
Todos aplaudiram com entusiasmo.
– Você está bem? – perguntei.
– Vou ficar bem para sempre agora – disse ele, pasmo.
Virei-me para trás e olhei para Hanna, que parecia querer me devorar. Cheguei mais perto dela e dei-lhe um beijo. – Está bom pra você?
Ela assentiu, fingindo indiferença.
– Nada mal.
Seu pescoço estava corado; sua respiração, curta e irregular. Que safadinha a minha mulher…
– Você deve estar bem molhadinha agora – eu disse em voz baixa.
Ela assentiu novamente, curvando sua boca num sorriso lento.
– Ainda está brava comigo? – perguntei.
Seus olhos ficaram frios quando ela se lembrou.
– Não quero falar sobre isso agora. Estou muito bêbada.
Na verdade, eu não tinha me preocupado muito com a coisa toda até ela dizer isso. Hanna e eu brigávamos em trinta segundos: um dizia alguma coisa, o outro discordava, e então decidíamos se valia a pena discutir ou não.
Hanna odiava conflito mais do que qualquer outra coisa no mundo.
Nós não gritávamos.
Nós não deixávamos para discutir alguma coisa mais tarde.
Nós simplesmente não brigávamos; mas parte de mim queria muito que isso acontecesse.
Senti meu estômago embrulhar na hora.
–
Seguiram-se horas de bebedeira, ou assim me pareceu. Chloe e Sara tinham planejado todo tipo de brincadeiras adolescentes, entre elas uma partida barulhenta de Duvido (Max ganhou), um jogo de dardos totalmente fajuto (não se sabe quem venceu) e uma brincadeira de Eu Nunca, que deixou todos nós com medo de que Chloe ou Bennett derramassem sangue no nosso tapete persa novinho.
Às três da manhã, todos já estávamos com o olhar perdido no teto, deitados com as pernas emaranhadas embaixo da mesa de centro.
– Temos que ir – Bennett balbuciou, levantando-se com um esforço óbvio. – Só temos trinta horas para recuperar uma aparência profissional plausível.
– Vou ficar de ressaca – Chloe resmungou. – Quem eu posso pagar para voltar no tempo e desfazer três doses de tequila? Talvez quatro…
Sara, que tinha dormido em nossa cama, saiu do quarto se alongando.
– Acabei de chamar uns táxis. Vamos lá, seus bêbados.
Na porta, Hanna parou e abraçou um a um.
– Obrigada por isso. Foi mesmo muito divertido fazer bobagem com vocês por umas horas.
– Estamos todos felizes por vocês – Max acenou da porta.
– E vocês quase nunca recebem os amigos em casa – acrescentou Chloe. – Fico contente que tenham tirado uma noite para relaxar um pouco.
Com um tapinha na cabeça de Hanna, ela se virou e acompanhou os outros para fora de casa.
Hanna se aproximou e encostou a cabeça no meu ombro.
– Eu trabalho mesmo tanto assim? O tempo todo?
Encolhi os ombros e beijei o topo da sua cabeça.
– Mais ou menos – respondi. A frustração que eu havia sentido mais cedo se dissipara.
Era uma das coisas que eu admirava em Hanna: ela estava entrando como um furacão no mundo acadêmico. Mas era também a coisa que mais perturbava a minha visão para o nosso futuro. Por mais que eu odiasse admitir, adorava a ideia de Hanna estar em casa comigo à noite, Hanna grávida dos nossos filhos no futuro, Hanna sempre comigo depois do trabalho.
Ela não tinha vocação para ser esposa em primeiro lugar, acima de tudo, e sabia disso – sempre soube e, caramba, eu nunca imaginei que fosse querer isso numa mulher –, mas alguma parte pouco evoluída de mim desejava mais tempo e mais atenção dela, antes mesmo de perdê-los.
– Achei que tinha consertado isso no ano passado – disse ela. – Jensen pegou tanto no meu pé. Achei que tinha saído um pouco do laboratório, conseguido um homem, feito alguma coisa.
Virei-me e acompanhei Hanna até o banheiro para escovarmos os dentes.
– Os velhos hábitos são os mais difíceis de mudar.
Ela balançou a cabeça enquanto enfiava a escova de dentes na boca, apertando os olhos.
– Não quero falar sobre isso nesta noite.
As palavras saíram abafadas, e ela escovou os dentes com força. Mas, de qualquer forma, acabou falando:
– Você me deixou brava quando disse que eu deveria aceitar um emprego de professora.
Inclinando-me para cuspir, perguntei:
– O que há de errado em ser professora? Você provavelmente teria um horário mais regular, o que seria melhor para nós.
Ela olhou para mim com a boca cheia de espuma, os olhos arregalados e vidrados, e então se virou para cuspir na pia e lavar a boca.
– Você vai fazer eu me sentir culpada por isso?
– Não – respondi, mas tive que ser honesto. – Mas acho que eu tenho uma opinião sobre isso, afinal de contas. Sinto que não tenho ideia de qual é o plano. Sim, eu posso trabalhar de qualquer lugar, mas seria bom ter uma região em mente.
Ela limpou a boca com a toalha e ficou parada, respirando fundo, de olhos fechados.
– Está bem. Não vamos falar sobre isso agora. Meu cérebro está todo bêbado.
Com um gesto decisivo com a cabeça, ela olhou de volta para mim.
– Vamos deixar isso de lado agora.
Dei um passo em sua direção e inclinei-me para beijá-la.
– Vamos deixar de lado.
Quando minha língua tocou a sua, ela recuou, rindo.
– Ai, meu Deus, acabei de lembrar que fiz você beijar George!
– Fez mesmo.
– Ele gostou.
Isso me fez rir.
– Você acha?
– E você, o que acha?
– Quer dizer, não foi horrível. Mas não era você.
Eu a segui até o quarto, e entramos debaixo das cobertas.
– Você acha que ele está apaixonado por você?
Balancei a cabeça.
– Não. Mas acho que ele quer que eu transe com ele!
Hanna riu e subiu em cima de mim, beijando meu peito nu.
– Aposto que ele ia adorar isso. – Ela desceu pelo meu corpo, tirou minha cueca e jogou-a no chão do quarto. Sua boca tocou a cabeça do meu pau, provocando-me com a língua. – Adoro lamber você. – Ela me chupou, bêbada e ousada. – Como você está molhado! É como se o seu corpo estivesse implorando para gozar.
Senti meu coração disparar num trovão e gemi:
– Hanna.
– Nossa, Will. Como está duro. – Ela me masturbou, batendo meu pau em sua língua. – Ele é tão reto e liso. George ia perder a cabeça.
– Eu quero somente a sua boca.
Ela olhou para mim com um jeitinho malicioso.
– Mas eu gosto de ter você quando outras pessoas o desejam. Isso faz com que eu me sinta poderosa.
– E é assim que eu sei que você confia no meu amor. Você não teria dito isso um ano e meio atrás.
Ela riu, soltando o ar quente no meu pau.
– Você está usando a minha aliança. Você tatuou o meu nome. Dão em cima de você o tempo todo e você fica todo desajeitado. Eu o envenenei para as outras mulheres.
Meus quadris se levantaram na cama, sedentos.
– Não fale comigo sobre outras pessoas agora. Eu gosto dessa selvagem que está brincando comigo neste momento. Quero que a safadinha da minha mulher chupe o meu cacete.
Ela arrastou os dentes para baixo no meu pau.
– Assim?
– Isso.
– Você gosta que eu fale como adoro te lamber? Tão duro e liso ao mesmo tempo. – Ela me sugou com força, soltando com um ruído de sucção, e disse: – Quero chupar até você gozar.
– Caralho. – Hanna bêbada tinha uma boquinha bem suja.
– E aqui embaixo? – Ela lambeu as minhas bolas. – Você adora ser tocado aqui. Acho que você é muito mau, William. Acho que gosta da ideia da minha língua aqui não só porque é gostoso, mas porque gosta de ver uma sacanagem.
Respondi com um gemido. Ela fechou os olhos e voltou a me abocanhar de novo, mais fundo, para cima e para baixo, apertando-me com os lábios. Ela sabia, conhecia meu corpo tão bem que estar com ela daquele jeito era como respirar.
A conversa que precisávamos ter estava esquecida por enquanto, à espera.
Mas era fácil deixar a preocupação de lado quando ela estava lá, quente e molhada, escorregando sobre mim, com gemidinhos que faziam meu pau vibrar. Eu disse o que ia fazer com ela depois que terminasse, como ia cair de boca e chupá-la inteira, como ia pegá-la de jeito e deixá-la mole de tanto prazer.
O desespero arranhava como uma fera por baixo da minha pele.
Fiquei um pouco assustado por perceber que eu não estava me acostumando com isso. Ao contrário, estava cada dia mais desesperado por ela. Eu a tinha. Eu vivia com ela. Havia me casado com ela. Mas a intensidade de meus sentimentos por Hanna era estranha para mim, e o nosso futuro desconhecido me deixava inquieto.
Fechei os olhos e agarrei seus cabelos, sentindo sua presença sólida sobre mim. Eu precisava de algo maior e mais profundo do que qualquer coisa que ela pudesse me dar nesta noite.