Chefe irresistível

Christina Lauren · Capítulo 5 de 7

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Chefe irresistível

Cinco

 

Hanna foi embora antes de o sol nascer na quarta-feira, inclinando-se para beijar minha testa antes de sair.

– Tchau, meu lindo – ela sussurrou, pensando que eu ainda estava dormindo. – Vejo você na sexta-feira.

Ela se virou para ir embora, mas levantei-me e fui atrás dela até a porta da frente, onde já estava com a mala e o laptop prontos para sair.

– Posso te fazer um café? – murmurei, piscando para ela. – Coloco na xícara para viagem.

Ela riu quando eu me cocei por cima da cueca, desatento. Sacudindo a cabeça, ela me falou:

– Volte para a cama, seu dorminhoco.

– Acho que vou sair para correr.

Ela deu um passo à frente e me beijou, e não foi rápida o suficiente para fugir quando a puxei para perto, pela cintura, segurando-a com força contra o meu corpo.

Hanna sorriu enquanto me beijava, com os braços em volta de meu pescoço.

– Você está tão quente.

– Quando você volta para casa na sexta-feira? – perguntei, beijando-a.

– Humm… tarde. Por volta das dez…

Dei um passo para trás, coçando os olhos.

– Espere. Para onde você vai nessa viagem?

Rindo novamente, ela se esticou para beijar meu queixo.

– Berkeley. – Ela me deu mais um beijinho e se afastou. – Meu táxi está esperando lá fora. Te ligo quando chegar lá.

–

 

– Você está muito quieto aí.

A voz de Jensen tirou-me de meus pensamentos e pisquei para ele do outro lado da mesa. Ele tinha vindo de Boston e encontramos Max e Bennett para um almoço no Le Bernardin, no começo da tarde.

– Só estou pensando em como Hanna está se saindo – falei. – Ela está fazendo aquela entrevista de trabalho neste exato momento. – Virei meu pulso e olhei para o relógio, corrigindo: – Não, terminou há cerca de uma hora. – Peguei meu telefone e percebi que ela não tinha nem mesmo mandado uma mensagem para dizer se havia chegado bem.

– O que ela disse? – perguntou Bennett, interpretando mal minha atenção ao celular.

– Ah, só que… – Fiz um gesto de deixa para lá, balançando a cabeça. – Nenhuma notícia ainda. Tenho certeza de que foi muito bem.

– Tenho certeza de que estão implorando para ela aceitar uma oferta – disse Max, sorrindo de um jeito reconfortante. Entre os três, era ele quem tinha me observado mais de perto durante o dia e ouvido Hanna e eu falarmos constantemente sobre a procura de emprego, a ideia de nos mudarmos, a ideia de ficar e sobre como seria nossa vida alguns meses depois.

Max certamente não queria que nos mudássemos, mas também não parecia muito preocupado com isso. Eu podia fazer meu trabalho de qualquer lugar, embora isso fosse mais fácil em algumas cidades do que em outras.

– Ela não acredita em mim quando digo que a escolha será dela – disse a eles.

– Bem – disse Jensen –, onde você acha que ela vai parar?

Dei de ombros.

– Na verdade, não sei.

– E quando vocês estão planejando se mudar? – perguntou Bennett.

– Bom, pode ser que nem…

Bennett fez um gesto para esquecer aquilo.

– Quero dizer, quando ela espera começar onde quer que seja?

– Provavelmente no próximo outono. Embora pareça que algumas faculdades querem começar no período de inverno.

– Will – Max disse, direto. – No inverno? Isso é em outubro.

Concordei, mexendo em meu prato.

– É em outubro – ele repetiu –, e alguns lugares querem que ela comece em janeiro. E vocês não têm nem ideia do lugar para onde vão?

– Ela não visitou todas as faculdades ainda. – A explicação pareceu pouco convincente até para os meus ouvidos, mas foi a única que ela me deu todas as vezes.

Meus amigos concordaram como se tudo fizesse sentido e, graças a Jensen, mudamos de assunto, mas dispersei-me depois de algumas opiniões sobre uma fusão entre duas grandes companhias farmacêuticas.

Hanna e eu tínhamos estado tão focados no casamento e no começo da carreira dela que, na verdade, não tínhamos discutido o como.

Tudo parecia tão frenético que o mote “resolver isso depois do casamento” foi um jeito fácil de postergar qualquer decisão.

E ali estávamos nós, casados, apaixonados e prestes a mudar praticamente tudo em nossa vida. E ainda assim não fazíamos ideia de como seria isso.

–

 

Peguei uma cerveja da geladeira, tirei a tampa e ouvi satisfeito o barulho do gás saindo.

– Você não está bebendo meu refrigerante de baunilha, está? – Hanna perguntou do outro lado da linha.

– Acha mesmo que vou roubar seu refrigerante? – respondi, acomodando-me no sofá. – Posso ser novo nisso, mas eu sei como funciona um casamento.

Ela riu.

– Bom. Eu estava guardando para mim.

– Sabe – eu disse a ela, sentindo falta do calor do seu corpo junto ao meu no sofá –, mesmo que ele acabe, você pode comprar outro.

– Ah… Eu gosto da expectativa.

– Eu sei que você é assim – resmunguei.

– Will… – Meu nome, sozinho, era um pedido silencioso, um tiro de largada no começo de uma corrida.

Dobrei o braço sobre o rosto, tentando não me distrair com a ideia de fazer sexo por telefone.

– Vamos brincar daqui a pouco. Conte como foi o seu dia.

Ela respirou fundo e soltou o ar e começou a contar.

– Beeeem. Vejamos. Acho que minha entrevista foi bem. Tivemos discussões muito interessantes. E gosto do espaço do laboratório que eles sugeriram.

Esperei-a falar mais.

Hanna ficou em silêncio.

– E? – eu instiguei. – Você gostou da faculdade?

– Parece ótima!

Mudando meu braço de posição, olhei para o teto.

– Hanna?

– O quê?

– Você não está nem um pouco entusiasmada com esse processo?

– De verdade? – ela perguntou incrédula. – Estou extasiada.

– É que não é do seu feitio ficar tão calada assim.

Ela suspirou e disse:

– Estou tentando ser mais contida.

– Comigo?

Eu quase podia vê-la dar de ombros, sem saber o que dizer.

– Estou tentando guardar as opiniões momentâneas para mim. Pensei que falaríamos sobre isso depois de termos todas as informações.

– Sim, você mencionou isso, mas eu ainda prefiro saber de tudo à medida que acontece – falei para ela. – Quer dizer, sei que você tirou todo o domingo para pensar, Hanna, mas não me disse muita coisa sobre o que esteve pensando, além do fato de estar irritada comigo. É uma mudança grande – fiz uma pausa e acrescentei – para nós dois.

– Max me lembrou de me preocupar com o emprego, não com o lugar – ela disse. – Quer dizer, você pode trabalhar de qualquer canto.

Sentei-me, passando rapidamente de uma conversa relaxada para a irritação.

– Ah, então Max disse isso?

– Bom, você também disse – ela acrescentou rápido. – No começo, você falou para não nos preocuparmos com o lugar e apenas esperar para ver como tudo se desenrolaria.

– Talvez porque eu esperasse falar sobre isso com você à medida que as coisas acontecessem – argumentei, levantando-me para andar pela sala. – Mas toda vez que o assunto vem à tona, você diz: “vamos esperar e ver quais são as opções”. Nesse ponto, Hanna, as opções estão por toda a porra do globo. Podemos pelo menos eliminar algumas? Começar a fazer um plano?

– Eu ainda não sei qual lugar tem a melhor oferta! – ela respondeu irritada.

Soltei um riso incrédulo.

– Bom, podemos avaliar o quadro até agora. Quer dizer, minha opinião não conta em nada?

– É claro, mas nem temos as ofertas de todas as faculdades ainda.

– Hanna, podemos assumir que todos os lugares aos quais você foi são uma opção!

Era um saco ter essa conversa por telefone, mas eu estava muito ansioso para esperar o retorno dela. Depois de ver a reação dos meus amigos no almoço, eu sabia que era absurdo que ainda não tivéssemos nenhuma ideia do local para onde iríamos. Eu não queria mais adiar.

Ouvi Hanna respirar para se acalmar e dizer:

– Sinto que planejar agora é colocar o carro na frente dos…

– Ah, pelo amor de Deus! – eu a cortei. – Você é a porra do carro! Você é a porra do boi! Você está dirigindo isso. Todas as faculdades querem você!

– Will.

Suspirei, apertando a base do meu nariz. Ela parecia tão vulnerável, mas seu tom pacificador acabou com a pouca paciência que me restava.

– O quê?

– Não grite comigo. Eu não quero brigar.

Eu estava muito irritado para deixar isso de lado imediatamente.

– Nesse ponto, parar de falar comigo no telefone ou deixar o assunto de lado não significa que não estamos brigando. O fato de você já ter feito oito entrevistas e de eu não ter ideia do que você quer já é um problema. Quero falar sobre isso.

Hanna ficou em silêncio do outro lado da linha e por fim soltou um “tudo bem” seco.

Tentando me acalmar, falei:

– Querida, não há nada de errado em brigar. Às vezes nós não concordamos. Às vezes discordamos muito sobre como lidar com algo. Precisamos encarar numa boa o fato de ter uma briga.

– Bom, nós brigamos neste fim de semana também. E esta briga agora parece grande – ela falou.

– Porque é! – respondi, com um riso incrédulo – Quer dizer, é só o nosso futuro, né?

Ela não respondeu. Tudo o que pude ouvir foi um barulho do outro lado: o hábito nervoso de Hanna bater a caneta na perna.

Encostando-me na parede, falei:

– Hanna, preciso que me diga alguma coisa.

– Não tenho certeza do que dizer porque não sinto que posso tomar uma decisão ainda. Eu não fui à Caltech. Também não tive resposta de Harvard, Berkeley ou Rice ainda.

– E tudo bem – eu falei para ela. – Tudo o que estou pedindo é para conversarmos sobre isso, porque você tem ofertas de cinco faculdades, mas nem discute as hipóteses comigo. Você amou Harvard, amou Princeton, mas ficou em dúvida quanto a trabalhar em Hopkins e no MIT. Certo?

– Certo.

E então ela não disse mais nada.

– Você só tem mais uma entrevista – lembrei-a, mais calmo. – Você já teve resposta de todas as faculdades, exceto três. Então, quais são suas três favoritas?

– Baseado em quê? – ela perguntou, ficando claramente irritada. – Localização? Recursos? Salário? Quantidade de aulas? Como você quer que eu avalie essas coisas?

Deixei minha cabeça cair para trás contra a parede com um baque surdo.

– Jesus, Hanna. É como se você fosse patologicamente incapaz de tomar uma decisão. Você pode avaliar isso comigo, passo a passo.

– Mas é complicado, Will. Este não é um processo simples. Há milhões de fatores aqui.

– Jura que você vai dar uma de superior comigo agora? – falei, irritado, desencostando-me da parede para andar pelo apartamento. – Eu sei quais faculdades está visitando quando sai de casa, e você geralmente me conta os detalhes das entrevistas quando volta, mas me diz o que achou depois? Não! Então, sim, eu sei que é um processo complicado, mas você parece não saber.

– Talvez eu esteja simplesmente tentando manter a mente aberta.

– Foda-se a mente aberta! – gritei. – Tenha a mente aberta quando estiver na entrevista. Dentro desse casamento, quero que me conte todos os apertos, medos e esperanças. Não preciso da versão bonitinha. Quero saber das coisas grandes e pequenas, das coisas ruins e sensacionais. Agora, sei quais perguntas fizeram para você nas entrevistas, qual seria o tamanho do laboratório, qual seria o financiamento inicial, mas não tenho nenhuma ideia do que você gostou. E você não me perguntou nenhuma vez onde eu gostaria de morar, o que eu gostaria de fazer. Eu vou segui-la para qualquer lugar, Hanna, mas quero fazer isso como seu parceiro.

Ela ficou muito quieta, e por alguns instantes me perguntei se tivera o desplante de desligar na minha cara. Mas então ouvi um pequeno soluço e percebi que estava chorando.

– Não estou querendo ser egoísta – disse ela. – Você sabe disso, certo?

– Claro que sei – falei, mais calmo. – Mas, olha só, você tem de resolver isso comigo, como o casal que somos. O seu desejo de manter a mente aberta significa que não está se permitindo gostar de nenhum lugar. E sua incapacidade de expressar uma preferência, não importa quão preliminar seja, está tornando totalmente impossível a possibilidade de eu me envolver nesse processo. – Ouvi-a assoar o nariz ao fundo. – E, agora, sua falta de vontade de lidar com qualquer tipo de confronto está deixando de ser ingenuidade e se transformando em falta de consideração. Eu não gostava do jeito que você evitava lidar com as coisas, isso quase terminou com o nosso relacionamento antes mesmo de começarmos, e odeio isso agora.

Ela fungou.

– Só quero desligar o telefone.

Meu coração parou.

– Hanna. O que é isso?

– Você está me fazendo sentir como se eu fosse uma criança. Vejo você na sexta à noite.

Ouvi o clique do telefone, e nada além do silêncio chegou pela linha. Ela havia desligado. Gritei com ela e ela desligou. Parabéns, Will.

Atravessei a sala com o peito cheio de culpa, irritação e puro medo e joguei-me de volta no sofá. Minha cerveja ainda estava na mesa de centro à minha frente, ainda cheia, e a água havia se condensado em torno da garrafa e escorrido pelo vidro até formar uma poça na madeira. Peguei-a e levei-a à boca.

Aquela ia ser uma noite muito longa.

 

–

 

Jensen corria ao meu lado na trilha.

– Sim, eu provavelmente sou a pior pessoa para você falar sobre isso – disse ele. – Tive que aguentar a Hanna enfiar a cabeça na areia durante anos.

– Não, então… – eu falei, olhando para ele. – É nessa hora que você tem que me dizer que é normal ter uma briga assim uma semana depois de se casar.

Isso fez ele rir, seco, e só então percebi o que eu tinha dito.

Parei de repente, no meio da trilha.

– Jens, desculpe, eu não quis dizer…

– Você quer que eu fale o que é normal uma semana depois do casamento? – ele perguntou, inclinando-se e colocando as mãos nos joelhos, enquanto recuperava o fôlego.

– Desculpe – falei, balançando a cabeça. – Cara, isso foi muita falta de consideração. Sou um babaca mesmo.

Ele fez um gesto de deixa para lá e se levantou.

– Levando em conta que minha mulher, que foi minha namorada por nove anos, me disse uma semana depois do nosso casamento que não tinha certeza se deveríamos ficar juntos, eu diria que você e Hanna estão muito bem. Que estão enfrentando um período muito estressante, só isso.

– Acho que sim. – Olhei para a trilha mais à frente e para a fila de mães com carrinhos de bebê vindo em nossa direção. Fazia horas que eu estava me sentindo nauseado.

Saímos do caminho, pisando na grama, e Jensen tirou uma garrafa de água do seu desajeitado cinto de corrida.

– Hanna tem uma concentração de raio laser – disse ele, tomando um gole. – É por isso que é tão boa no que faz e péssima em fazer várias coisas ao mesmo tempo. Acho que você devia dar algum crédito a ela por ser sempre tão coerente.

Não aguentei e dei risada.

– Ela está só tentando ser adulta – disse ele. – Talvez ache que é assim que os adultos lidam com as coisas. De um jeito meio imperturbável.

Resmunguei, sabendo que ele estava certo, e espantado com a facilidade com que tinha chegado a essa conclusão.

– Bom, isso faz sentido; ontem à noite ela reclamou que eu a estava tratando como criança.

A risada de Jensen retumbou no ar frio da manhã.

– Boa sorte com isso aí, Will! – Ele fingiu que estava secando uma lágrima. – Caramba, acho que ver vocês dois com dificuldades no casamento sempre vai ser uma novidade.

 

–

 

Acordei assustado, com o celular tocando no criado-mudo. Peguei o telefone, passei o dedo pela tela e vi o relógio: três e pouco da manhã.

A última vez que eu tinha olhado para o relógio fazia apenas quinze minutos.

– Ei, Ameixa.

– Ei, você.

Uma onda de alívio percorreu meu corpo.

– Você está bem? – perguntei.

Ela deixou escapar um soluço e disse, chorosa:

– Não muito… – e fez uma pausa. – Você estava dormindo? Sua voz está bem sonolenta.

Sacudindo a cabeça, falei:

– Dei uma cochilada alguns minutos atrás.

Ela começou a pedir desculpas, e a interrompi.

– Não, não, estou feliz que você ligou.

– Também não conseguia dormir – ela admitiu, com a voz um pouco abafada, como se estivesse deitada de lado. – Sinto sua falta e odeio o fato de estarmos brigando.

Deixei minha cabeça cair no travesseiro e passei a mão no rosto.

– Desculpe. Fui um idiota hoje.

– Você não foi… Você estava certo.

Balancei a cabeça, com a mão no rosto. Eu estava certo e sabia disso, mas poderia ter sido mais gentil. Como Hanna era tão equilibrada em vários aspectos, era fácil esquecer que tinha apenas vinte e cinco anos e estava prestes a escolher em qual universidade de prestígio deveria trabalhar. Falar com Jensen ajudou a me lembrar de que Hanna tinha passado voando pela faculdade em três anos, pela pós-graduação em outros três e tinha feito um pós-doutorado em apenas um ano, e ainda estava aprendendo como administrar escolhas de carreira que muitos de nós só tivemos de fazer muito mais tarde.

– Então, como foi o resto do seu dia? – perguntei à minha mulher.

Ajeitei-me de novo na cama enquanto ela respirou fundo e começou uma descrição detalhada da entrevista de trabalho: o que perguntaram durante a conversa, as reuniões com outros docentes depois e, mais tarde, o jantar com o chefe de departamento em um restaurante japonês pequeno, mas aparentemente fantástico, em São Francisco.

Ela falou sobre o que comeram, sobre as fofocas inocentes que compartilharam e as estranhas coincidências ao longo do dia, que, francamente, eram comuns nos círculos de pesquisa.

Enquanto ela falava sem parar, eu a ouvia e tentava nos imaginar lá.

Eu tentava visualizar nós dois morando lá.

Como cresci no Noroeste do Pacífico, podia imaginar uma mudança para a baía de São Francisco. Só não tinha certeza de que queria me mudar para a Califórnia. Eu gostava das nossas estações. Gostava do nosso caos urbano. Não queria ter de dirigir para todo lugar.

Eu não queria mesmo deixar a Costa Leste, e foi só neste momento que percebi que esse sentimento era muito forte.

Merda.

– Mas eu não sei – disse ela, tirando-me dos meus pensamentos. – Não consigo nos imaginar lá! – Ela fez uma pausa, e perguntei-me se eu não tinha dito nada daquilo acidentalmente. – Não consigo imaginar você aqui – ela acrescentou.

Engoli em seco, tentando colocar as palavras na ordem certa, de forma que eu não concordasse muito rápido e a fizesse sentir que não poderia escolher uma faculdade na Califórnia. Eu tinha falado a verdade, a seguiria para qualquer lugar, mas não tinha como negar que uma grande parte de mim esperava não ter que segui-la para lá.

– Não consegue? – perguntei, cauteloso.

– Não – ela disse e pareceu se virar na cama. – Você precisa estar numa cidade grande, maior que Berkeley.

– Você ainda tem um monte de opções de cidades – lembrei-a.

– Tenho.

– Então, Berkeley está fora? – perguntei com cuidado.

Ela respirou fundo e, por fim, sussurrou:

– É… Acho que sim. Gostei daqui, mas não o bastante.

Ficamos em silêncio e imediatamente fiquei sonolento ao ouvir o som de sua respiração tranquila. De vez em quando, eu ficava assustado ao perceber como tinha ficado dependente dos sons dela dormindo ao meu lado.

– Eu amo tanto você – ela murmurou.

– Eu também te amo – declarei-me. – Volte para casa.

Então dormimos, sem nos preocupar em desligar o telefone.

 

–

 

Sem falar nada, cancelei o carro que Hanna tinha agendado para buscá-la no aeroporto e eu mesmo fui encontrá-la. Num rompante, decidi dirigir o velho Subaru de Manhattan até o JFK.

A realidade dessa ideia estúpida – o trânsito, a simples logística de estacionar no aeroporto – reafirmou minha vontade de não ter de dirigir todo santo dia.

Mas quando ela desceu as escadas rolantes, exausta, linda e amarrotada… Caramba! Eu teria atravessado qualquer congestionamento para encontrá-la. Surpresa, ela correu para os meus braços, com um perfume doce e quente que pedia sexo.

– O que você está fazendo aqui? – ela perguntou, com a voz abafada pela minha jaqueta.

– Vim levar você.

– Para casa? – ela perguntou.

Fiz que não.

– Nós vamos passar o fim de semana no interior.

Afastando-se para olhar para mim, ela perguntou:

– Por quê?

Peguei sua mala e a guiei para a saída.

– Quando desligamos o telefone de madrugada – acrescentei, rindo –, não consegui parar de pensar sobre como eu queria que você estivesse em casa para que pudéssemos conversar e relaxar e voltar à normalidade. Era essa estranha apreensão e percebi… que nossa vida vai mudar. E preciso saber que podemos conversar sobre tudo isso em outro lugar que não na nossa casa. Preciso saber que podemos ser nós dois, não importa onde estivermos.

Ela se virou, esticando-se para me beijar, ao lado do carro, e lutei contra a tentação de não abrir a porta de trás para transar com ela naquele estacionamento nada seguro.

A viagem para o interior foi uma tortura, com a mão dela brincando na minha calça jeans aberta, fingindo que ia me masturbar, sem chegar às vias de fato. Em vez disso, ela me provocava com os dedos e com a boca no meu pescoço, depositando depois o peso de sua cabeça em meu ombro enquanto descansava deixando a mão quente na minha barriga enquanto cochilava.

Já era tarde quando finalmente chegamos na pousada e fizemos o check-in, deixamos a conversa de lado e atravessamos o corredor nas pontas dos pés, tentando não fazer barulho, até nosso quarto.

O quarto era arejado e cheirava a grama molhada recém-cortada. Lá fora, grilos cantavam e o vento fazia ranger os galhos das árvores ao lado da janela. De fato, não era nada parecido com o nosso apartamento em Manhattan. E então os olhos de Hanna se encontraram com os meus e ela sorriu.

O mundo inteiro se abriu.

Tirei suas roupas com as mãos trêmulas e a joguei na cama barulhenta. Sua boca se curvou num sorriso e seus braços pálidos me convidaram sobre as cobertas.

O cheiro dela, o gosto da sua pele nos meus lábios.

Acendi o abajur para vê-la melhor; o calor subiu pelo seu pescoço quando coloquei meu rosto entre seus peitos, gemendo.

Os músculos de sua barriga se contraíram sob os meus lábios enquanto eu descia pelo seu corpo, beijando, lambendo e chupando até que Hanna me puxou pelos cabelos para cima dela, arrancando minhas roupas com mãos sedentas e impacientes.

Foi rápido e… caralho! Provavelmente um pouco rude demais. Mas adorei o jeito como os peitos dela se mexeram quando segurei suas mãos acima da cabeça e a fodi com toda a força.

Eu não sabia o que tinha dado em mim.

Uma chave havia sido ligada, um gatilho antigo havia sido puxado. Ela tinha viajado. E eu precisava lembrá-la, lembrar minhas mãos, minha boca e meu cacete de que isso era o normal: nós dois. O lugar pouco importava.

Ela gozou, mas só depois de mim. Não sei como consegui fazê-la chegar lá sem cair de cansaço. Ela arranhou meu pescoço quando estava perto, tirando sangue e me fazendo ver estrelas.

Caí sobre ela, pesado, e consegui não esmagá-la com os cotovelos, enfiados no colchão perto da sua cabeça.

– Fizemos muito barulho? – ela perguntou, ofegante.

– Não tenho energia para me preocupar com isso.

Ela riu debaixo de mim.

– Amanhã teremos um café da manhã constrangedor na pousada.

Eu a virei, passando a mão por seu tronco suado.

– Você acha que vou deixá-la sair deste quarto?

Ela acomodou seu corpo junto ao meu, beijando o arranhão que tinha deixado na minha pele.

– Maridinho querido?

Meu sangue vibrou com suas palavras.

– Hum?

– Nós estamos bem?

Agora, isso – isso me fez rir.

– Ameixa – estiquei-me para beijá-la. – Não importa o que acabamos de fazer nesta cama minúscula, nós sempre estamos bem.

Levantando-se, Hanna andou até a porta, tirou um caderno da bolsa e voltou para a cama.

– Vire-se – ela disse, empurrando meu ombro.

Fiquei de bruços e descansei o rosto no braço dobrado. Ela colocou o caderno frio nas minhas costas e levei um pequeno susto.

– O que está fazendo?

– Preciso fazer uma lista do que a Caltech precisa me oferecer para superar Harvard.

Virei o rosto, mal conseguindo vê-la por sobre o ombro. Eu gostava do fato de ela acreditar que todas as faculdades a queriam. Mas também não queria que ficasse mal se não recebesse uma oferta de sua favorita.

Perguntei-me se a havia pressionado demais para que elencasse as suas preferidas, como se tivesse a chance de escolher.

– Quando você acha que terá uma resposta de Harvard?

Ela sorriu, esticando-se para beijar meu rosto.

– Eles me ligaram hoje.