Chefe irresistível
Quatro
Ainda meio dormindo, pisquei com a luz. Era quase de manhã, cedo o bastante para que os primeiros indícios de claridade no céu começassem a se infiltrar nas sombras, mas muito, muito cedo para acordar.
Joguei o cobertor sobre a cabeça, enterrando o rosto no travesseiro e fechando bem os olhos. As ruas lá fora estavam relativamente calmas, e Will dormia tranquilo ao meu lado, mas eu quase podia ouvir minha dor de cabeça.
Desisti e rolei para o lado, procurando com os dedos a pele morna de Will entre os lençóis e…
Ai. Aquela não era uma boa ideia. Contei até dez e respirei pelo nariz enquanto esperava o quarto parar de girar. Meu estômago definitivamente não tinha gostado da mudança de posição.
Resmunguei e esfreguei meus olhos fechados, enquanto me sentava na cama. Parecia que eu tinha um pedaço de algodão na boca, e por pouco não botei para fora tudo o que tinha bebido na noite anterior. Mas assim era melhor… A vertical era definitivamente uma escolha melhor.
Will murmurou alguma coisa e virou de lado, e olhei-o por sobre o ombro. Ele respirava suavemente, com o travesseiro entre os braços, dormindo tranquilo de novo. A aliança reluzia em contraste com sua pele bronzeada; estendi a mão e passei um dedo sobre o metal frio. Uma semana – ele estava usando aquela aliança havia uma semana, e eu tinha plena certeza de que podia passar um milhão de semanas como aquela.
Fiz um esforço para levantar e me arrastei até o banheiro.
Usei a privada e lavei minhas mãos, escovei os dentes – graças a Deus – e bebi pelo menos um litro de água diretamente da torneira. Nunca mais queria ver tequila na vida!
Sentindo-me um pouco melhor, voltei para o quarto e olhei ao redor, seguindo a trilha de roupas descartadas que levava da porta até a cama. A noite passada foi louca, pensei. Eu me lembrava do álcool – muito álcool –, dos nossos amigos, e tinha uma vaga lembrança de Will beijando George e de eu ter ficado totalmente excitada com isso?! Definitivamente, eu teria que perguntar para Sara, que estava sóbria. E me lembrava da sugestão de Will, de que eu devia escolher um cargo de professora.
E assim, minha mente ficou clara de repente. Senti a pele começar a coçar quando me lembrei dos comentários de Will sobre eu passar a vida no laboratório, como se ele tivesse certeza de que isso aconteceria. Por que não era um problema se ele trabalhasse muito? E se ele dedicasse tudo à sua carreira? Will sempre me dava muito apoio e ficava orgulhoso do que eu tinha conquistado… De onde vinha essa queixa? Nós nos casamos, sim, mas nunca assinei um contrato para me transformar numa Amélia dona de casa nem para deixar de ser quem eu era. Sacrifiquei minha vida inteira pela minha carreira e estava muito orgulhosa do equilíbrio que eu tinha conquistado desde que conheci Will e me apaixonei, e casei com ele. Será que ele tinha tão pouca confiança na minha capacidade de conciliar as duas coisas?
Irritada de novo, fui até a cômoda, peguei umas roupas e as vesti tentando fazer o mínimo de barulho. Achei meus sapatos debaixo da cama e meu telefone, chaves e carteira de motorista espalhados pelo apartamento, no meio dos vestígios da bebedeira da noite anterior. Coloquei tudo no bolso da jaqueta e fechei o zíper, voltei para o quarto e desliguei o despertador de Will.
Eu ia correr sozinha; Will podia ficar em casa.
Da mesma forma que naquela primeira corrida com Will, mais de um ano atrás – se é que se pode chamar aquilo de corrida –, fiquei andando para a frente e para trás, esperando. Ao longo do ano, eu tinha mudado a nossa rota, começando em pontos diferentes para subir as colinas no começo da corrida em alguns dias e no final em outros. Em vez de entrar no parque pelo Portão dos Engenheiros, na 5th Avenue, fiquei andando para cá e para lá num trecho da trilha próximo ao Columbus Circle.
Andar é natural para mim. Eu fazia isso em casa sempre que estava estressada com alguma coisa, e tenho quase certeza de que gastei o piso entre a porta da frente do laboratório e a parede oposta. Quando eu era pequena, meu pai dizia que ia prender o cortador de grama em mim, pelo menos assim a grama ficaria cortada, e eu não pisotearia o tapete da cozinha até estragá-lo. Imaginei que Max já estivesse acordado por causa de Annabel e, logo que saí do apartamento, mandei uma mensagem de texto para ele. Felizmente, ele estava, e não se queixou de começar nossa corrida um pouco mais cedo. Embora “pouco” talvez tivesse sido um eufemismo.
Ainda estava escuro – principalmente dentro do parque –, o céu nublado cor de ameixa ia ficando iluminado perto do horizonte à medida que o sol se levantava, lentamente, por trás das árvores.
Eu adorava aquele lugar a esta hora da manhã, quando o ar ainda estava frio e fresco e não havia quase ninguém para ver; nada a fazer a não ser desligar meu cérebro e movimentar meu corpo. Will e eu corremos por essas trilhas quase todos os dias desde aquela primeira manhã, e Max passou a nos acompanhar com Annabel pouco tempo depois que ela nasceu. Ele dizia que a menina dormia pesado nos dias em que ele a levava para correr, mas nós sabíamos o verdadeiro motivo. Max adorava esses momentos com a filha, e Sara, por sua vez, adorava as manhãs livres sem a menina.
Ouvi as rodas do carrinho de bebê antes de ver Max vindo na minha direção.
– Bom dia, senhora Sumner-Bergstrom – disse ele, parando na minha frente. E, apesar da minha irritação com Will, senti um friozinho na barriga ao ouvir meu nome de casada.
– Bom dia! – Minhas bochechas esquentaram quando afastei a coberta e me ajoelhei para dar um beijo naquela bebê adorável, presa ao requintado carrinho para corrida. – E bom dia para você, senhorita Anna. Como vai a menininha mais bonita de Nova York? Como ela está?
Annabel deu uma risadinha e agarrou as pontas soltas do meu cabelo para me puxar para perto.
– Bem descansada – disse Max. – Infelizmente, não se pode dizer o mesmo do resto da família…
Suspirei, dramática.
– Você acordou os adultos de ressaca, bebezinha linda? – perguntei para ela, fingindo devorar seu pezinho.
Max resmungou.
– Acordou com o primeiro raio de sol e depois dormiu o caminho inteiro até aqui. Agora está feliz como ninguém.
– Bem, por que não estaria? – eu disse e me levantei. Tentando dar um jeito no meu cabelo, alisei as mechas embaraçadas para trás com os dedos e usei um elástico que estava no pulso para prendê-lo no topo da cabeça. – Tem alguém empurrando-a pelo Central Park e satisfazendo todas as suas vontades. Todos nós devíamos ter essa sorte.
– Concordo com você nesse ponto. Embora imagino que William faria o mesmo se você pedisse com jeitinho.
– Ah! – Eu olhei para o lado, na direção de uma fileira de árvores que parecia infinita.
– Falando nele… Onde está Will hoje? – Max perguntou, seguindo meu olhar pelo parque.
– Ah… ele… ainda está dormindo – eu disse, tirando a poeira dos meus joelhos de um jeito exagerado e me virando em direção à trilha. Percebi a irritação na minha própria voz… Tinha certeza de que Max também. Will ainda estava dormindo porque eu queria correr sem lutar contra a vontade de empurrá-lo no lago. Eu definitivamente não ia mencionar isso para Max.
– Ainda dormindo – Max repetiu, com um ar satisfeito. Não era preciso ser nenhum gênio para saber que mais tarde Max ia ou parabenizar Will ou lhe dar uma bronca épica.
– Pronto para ir? – perguntei, e Max assentiu, educado o bastante para ignorar minha estranheza.
Começamos na estátua USS Maine – com Max e Anna ao meu lado –, pelo caminho que levava à via principal. A trilha seguia por uma ladeira e continuava com a subida leve e constante de Cat Hill. Eu ouvia o zumbido dos pneus do carrinho no asfalto perto de mim, enquanto me preparava para subir Harlem Hill.
Harlem Hill sempre foi um bom barômetro para dias ruins como este. Numa manhã decente eu conseguia chegar até o topo e ainda xingava algumas vezes no meio do caminho – o suficiente para fazer Will dar risada. Se minha semana tivesse sido particularmente difícil, eu subia sem dizer nenhuma palavra, com o cérebro vazio exceto por um pensamento: corra até cair de cansaço.
Will me conhecia bem o suficiente para avaliar meus humores e aparentemente Max também.
– Ei, ei! Espere um pouco aí, campeã olímpica! – ele exclamou, atrás de mim.
Eu estava correndo como uma velocista pela trilha e o pobre Max estava com dificuldades em me acompanhar.
– Desculpa – murmurei e reduzi a velocidade para que ele me alcançasse. – Eu meio que esqueci que você estava aí. E empurrando um carrinho. Deus, sou uma babaca.
Max fez um gesto de “deixa para lá” e começamos a caminhar um ao lado do outro, para esfriar um pouco.
– Posso não estar com uma forma tão boa como o sei-lá-como-ele-chama, mas, Jesus, Hanna, você estava correndo como se o seu traseiro estivesse em chamas. Qual é o problema?
– Fiquei um pouco perdida em meus pensamentos – eu disse, e foi só quando desaceleramos que percebi meus quadris queimando e meu estômago embrulhado. – Ah… Acho que eu vou vomitar.
– Está com um pouco de ressaca hoje, imagino – Max comentou, rindo baixo.
Eu resmunguei e respondi:
– Pode-se dizer que sim.
– Ressaca da tequila ou do marido?
– Dos dois.
Ele soltou um “hum” do fundo da garganta, compreensivo.
Anna começou a ficar inquieta e Max ajeitou suas cobertas.
– Parece que tem algo aí.
– Não estou acostumada a ficar irritada com Will. Nós nunca brigamos, então talvez seja por isso que estou um pouco… inquieta com a situação.
– É compreensível – disse ele, abrindo caminho e sorrindo para um homem que passou por nós. – Mas, para ser honesto, o que eu ouvi na noite passada não pareceu muito uma briga para mim.
– Nós nos damos tão bem. Não estou nem um pouco acostumada com o fato de ele ficar irritado comigo. Meu cérebro entra em pane quando acontece algo assim.
– Hanna, casar é estressante. Procurar emprego é estressante. Mudar de casa é extremamente estressante. E fazer tudo isso junto pode deixar você louca, com diagnóstico e tudo mais. Dê um tempo para vocês, certo?
Concordei e chutei uma pedra que estava na minha frente.
– Eu sei. Só é estranho quando não resolvemos as coisas com facilidade.
Max balançou a cabeça.
– Eu nunca achei que fosse encontrar um casal que combinasse de um jeito tão estranho quanto Bennett e Chloe… Mas você e Will podem ter superado os dois. Embora seja possível que vocês dois sejam robôs. Pensando bem…
– Muito engraçado – falei e dei um soquinho no ombro dele. – Não acredito que Will pensa que eu aceitaria um trabalho sem nenhum componente de pesquisa – acrescentei. – Ele não sabe que eu amo o laboratório? Ele não sabe que a vida inteira eu sonhei em coordenar um laboratório?
– Bom, ele é maluco por você, e estar apaixonado transforma até os homens mais inteligentes em idiotas. Com certeza vocês, cientistas, têm um jargão para isso. – Ele olhou para mim e riu alto. – Têm, não têm?
– Quer dizer, existe uma neuroquímica básica da paixão, ou do tesão, na verdade, e foi demonstrado que isso afeta o funcionamento do cérebro… – eu percebi o que estava fazendo e sorri para ele, culpada.
– Vocês dois são absolutamente perfeitos um para o outro.
Não disse nada e olhei para o caminho à nossa frente. Max estava certo; Will e eu éramos perfeitos juntos. Pelo menos eu sentia isso, e nunca fui tão feliz em toda minha vida quanto no tempo em que estávamos juntos. Mas minha carreira também era importante para mim e, se alguém tivesse que compreender isso, achei que seria ele. O laboratório era importante para mim, assim como minha pesquisa. E ele também.
Por que eu não poderia ter ambos?
– Então, como estão indo as entrevistas? – Max perguntou, chamando minha atenção de volta para a conversa. Estávamos perto de Columbus Circle de novo, e o número de pessoas na trilha e no parque tinha aumentado.
– Bem – respondi –, viajo na quarta-feira para Berkeley.
– Um campus maravilhoso.
– Você já esteve lá?
Ele fez que sim.
– Tenho alguns clientes que moram por aqueles lados. É lindo, então tento passar mais uma noite ou duas quando posso… Ultimamente não tanto – ele acrescentou, sorrindo com carinho para a bebê.
– Eu só estive lá algumas vezes, em viagens de família. Pode ser bom – falei.
– Então, não é sua favorita?
– Eu não tenho uma favorita, para ser honesta. – O som de uma sirene atravessou o ar a alguns quarteirões dali, ficando cada vez mais alto à medida que se aproximava do parque, antes de desaparecer a distância. Quando parou, olhei para Max e encolhi os ombros, acrescentando: – Acho que estou tentando passar pelas entrevistas primeiro e, ao mesmo tempo, imaginar onde Will gostaria de morar.
– Acredite em mim, seu marido acha você fora de série. Você poderia dizer que escolheu uma faculdade na Antártida que ele perguntaria se já podiam começar a fazer as malas.
– É… Acho que sim… – eu falei. – Quer dizer, sei que ele me ama, é claro, mas o resto… Escolher onde nós vamos morar? É uma decisão tão importante…
– Bom, antes que tudo isso acontecesse, quer dizer, Will e o casamento, onde você se imaginava?
Soltei o ar com força e vi uma nuvem branca se condensar na frente dos meus lábios. O que eu queria antes de Will? Eu tinha um plano – eu sempre tinha um plano –, mas era difícil me lembrar da época antes de Will. Eu conseguia ver, mas tudo parecia empoeirado e distorcido, de certa forma, sem graça.
– Eu nunca me imaginei em uma faculdade específica – respondi. – Sempre gostei de Harvard… Caltech, talvez…
– Massachusetts – disse ele, e fez uma pausa, pensativo, unindo as sobrancelhas enquanto considerava. – Harvard certamente seria interessante. Imagine quantas vezes eu poderia lembrar Will da vez que ele tentou transar com você na casa dos seus pais.
Quase engasguei com a palavra tentou.
Will fez mais do que tentar naquela viagem a Massachusetts, e eu basicamente o ataquei logo que entramos no meu antigo quarto.
Meu coração deu um salto ao me lembrar daquela noite. Olhando para trás, percebi que Will tinha basicamente declarado seu amor por mim, e eu tinha sido tão tapada, ou estava deslumbrada demais pelo sexo sensacional que fizemos no chão, que nem ouvi. Meu rosto ficou quente e vermelho, e logo mudei de assunto.
– Então não vai ser mesmo um problema para a Stella & Sumner? Se nós mudarmos?
Max olhou para mim como se eu tivesse acabado de dizer algo absurdo.
– As coisas seriam um pouco mais complicadas, mas precisam fazer o que for melhor para vocês. Nós faremos o resto funcionar. – Então ele deu um sorriso largo. – Esta é a vantagem de sermos os chefes.
Depois de deixar Max e Annabel no parque, eu ainda não estava pronta para voltar para casa e encarar Will. Na verdade, não estava certa do que diria para ele. Em vez disso, virei a esquina na direção da 59th Street e da estação Columbus Circle e decidi pegar o metrô para o laboratório.
Só duas coisas tinham sido fáceis na minha vida até então: uma era a ciência e a outra era Will. Fora do meu círculo normal, eu nunca tinha sido muito boa com pessoas. Eu tinha a tendência de me abrir demais, e meu filtro verbal entrava em curto-circuito noventa e oito por cento das vezes. Mas com Will, de certa forma, isso não teve importância. Ele gostava do fato de eu falar sem parar, e nunca tive que ser outra pessoa com ele a não ser eu mesma. Sempre foi fácil.
Mas na noite anterior… Não tenho certeza de onde veio tudo aquilo. Eu sabia que Will não gostava do meu horário imprevisível, mas isso fazia parte de coordenar um laboratório. Sempre pensei que, como ele próprio era um cientista, entenderia isso. Will queria que eu assumisse um cargo de professora, mas isso é algo que você faz quando sua carreira está desacelerando, não quando está começando. Eu queria fazer pesquisa e publicar artigos, contribuir com o conhecimento científico mais amplo. Queria fazer diferença. Todo o começo do nosso relacionamento não foi baseado em Will me ajudar a encontrar o equilíbrio? Eu fiz isso naquela época, então por que ele duvidaria de mim agora?
Destranquei a porta e entrei na sala escura, quebrando o silêncio com o barulho de vidro estilhaçado debaixo dos meus pés.
Estava claro o suficiente para ver que uma prateleira perto da porta tinha caído e todo seu conteúdo tinha se esparramado pelo chão.
– Que maravilha – murmurei, jogando minhas chaves no balcão e acendendo a luz. Imediatamente me arrependi de estar lá. Havia vidro e papéis por todo o chão, alguns cacos menores tinham voado até o outro lado da sala. E como eu era a única ali àquela hora, parecia que a presidente da equipe de limpeza seria eu.
A despensa no fim do corredor tinha uma vassoura, uma pá e alguns sacos de lixo para tudo o que teria de ser jogado fora. Levei mais tempo do que imaginava para limpar, reorganizar e guardar tudo em outros lugares, mas me senti bem fazendo algo que não exigisse pensar, assim podia esvaziar a cabeça.
Depois que terminei, coloquei os materiais de limpeza de volta no armário, sentei à minha escrivaninha e liguei o computador. Havia alguns e-mails para responder, alguns detalhes de último minuto para finalizar e uma série de dados que eu precisava checar. Havia até mesmo outro pedido de entrevista que eu tinha arquivado até poder checar minha agenda e ver onde poderia encaixá-lo. Eu não tinha mencionado esse para Will e, por um segundo, hesitei, me lembrando da nossa conversa da noite anterior.
Mas tudo daria certo. Eu poderia fazer todas as entrevistas e conversaríamos sobre isso quando eu tivesse ofertas de verdade para discutir, em vez de ficarmos estressados por causa de um monte de variáveis hipotéticas.
Resolvido isso, fui até a capela do laboratório para alimentar algumas células e checar algumas culturas, sem me dar conta de que não tinha comido nada nem tomado uma xícara de café. Quando finalmente voltei a mim foi por causa do som do meu estômago roncando na sala vazia. Já tinha passado da hora do almoço, e quando olhei em volta pela primeira vez depois de horas, percebi que ainda estava sozinha. Levei um tempo para perceber o porquê disso: era domingo.
O resto do mundo provavelmente tinha tomado café tarde ou passado a manhã de pijama, vendo TV sem pensar, abraçado a alguém – ou seja, não num laboratório, tentando ignorar a ressaca e fazer cálculos que poderiam facilmente ser deixados para segunda-feira.
Droga. Talvez Will estivesse certo.
O apartamento estava silencioso quando cheguei em casa. E, logo notei, sem nenhum lixo da festa. Franzi a testa, sentindo-me uma idiota por ter deixado a bagunça para ele limpar, e fiz uma nota mental para me lembrar de agradecê-lo mais tarde.
Deixei a porta fechar suavemente atrás de mim e espiei a sala. Ainda estava bem parecida com o que era antes de Will se mudar: estantes e livros por toda parte, fotos de família em todas as prateleiras e a velha escrivaninha do meu pai num canto. Mas agora os livros de Will se misturavam aos meus: meu primeiro sofá de verdade da vida adulta ao lado das poltronas de couro dele, em frente à televisão que compramos juntos – nossa primeira compra de casal. As fotografias da minha família ainda estavam penduradas na parede do corredor, mas as dele agora estavam ao lado das minhas, e logo acrescentaríamos as fotos do nosso casamento.
Quer dizer, até começarmos a fazer as malas para onde quer que eu nos levasse, e… eu mal conseguia pensar nisso naquele momento. Ignorava a pilha cada vez maior de caixas de papelão que tinham sido entregues e que parecia tomar mais e mais espaço a cada dia, mas sabia que não podia evitá-la por muito tempo. Eu estava chegando ao fim das minhas entrevistas, o que significava que estava quase na hora de tomar uma decisão, mas – ai – eu só queria me perder no corpo de Will por algumas horas. Varrer tudo do meu cérebro exceto o toque, o cheiro e a voz dele…
A descarga soou no fim do corredor, seguida pelo som de água corrente e depois pelo ruído da porta se abrindo. Os passos seguiram pelo chão de madeira, e então Will apareceu e parou na entrada, com os olhos arregalados.
– Você chegou – ele disse, sem se mover.
Coloquei minhas chaves na mesa perto da porta e tirei os sapatos.
– Sim… Desculpe.
– Meu Deus, Ameixa – disse ele, cruzando a sala e me envolvendo com os braços. – Onde, diabos, você esteve?
Senti que afundava em seu corpo, perdida no aroma reconfortante e familiar de sua pele, e o abracei também.
– Fui correr.
– De manhã. Você foi correr de manhã – ele disse, afastando-se o suficiente para ver meus olhos. – Faz horas que eu falei com Max.
Coloquei minhas mãos em seu peito e senti seus músculos rígidos por baixo dos meus dedos e o calor da sua pele contra o tecido.
– Depois fui para o laboratório – expliquei.
– Por que você não me ligou nem respondeu a minhas mensagens e meus telefonemas?
– Ah… O telefone estava no bolso da jaqueta, acho, talvez no modo silencioso. Mas eu te mandei uma mensagem dizendo que ia sair por um tempo. – Meus olhos desceram para o pescoço dele e tive que resistir à vontade de diminuir a distância entre nós de novo e enterrar meu rosto ali.
Ele suspirou e viu o jeito com que minhas mãos espelhavam o movimento do seu torso.
– Hanna – disse ele cansado.
– Desculpa, eu devia ter tido mais consideração.
Ele concordou.
Passei a mão em sua barriga.
– Eu ainda estava chateada.
Will se desvencilhou de mim e sentou no braço do sofá, esperando.
– Por causa da noite passada?
– É. Não gostei de você ter assumido que eu devia escolher um cargo de professora numa faculdade pequena.
– Ameixa, eu não assumi nada. É o que eu prefiro? Acredite ou não, eu gosto de você. Gosto de passar meu tempo com você. – Ele balançou a cabeça, rindo um pouco. – Quer dizer, hoje é um ótimo exemplo do que eu estou falando.
– Admito que eu não deveria ter saído o dia todo, mas te avisei, e eu precisava pensar.
– Bom, não quero ser um babaca e dizer o óbvio, mas você sempre vai para o laboratório aos domingos. Não só quando precisa pensar. E nós nos casamos faz uma semana.
Ai… Tudo bem, essa doeu um pouco. Dei um passo para trás, abri o zíper da jaqueta e a coloquei sobre a poltrona.
– Ir para o laboratório é o meu trabalho.
– Sei que é o seu trabalho, e eu amo o fato de você levá-lo a sério e de ser muito boa nele. Mas também estou tentando expressar o quanto eu também quero o seu tempo. E gostaria que você levasse isso em consideração quando analisar tudo isso. Queria que falasse comigo sobre isso.
Minha cabeça caiu para trás e eu olhei para o teto.
– Nós vamos brigar de novo?
Senti seu silêncio estupefato antes de ele dizer:
– O que aconteceu ontem não foi uma briga. Nós podemos discutir alguma coisa – até de um jeito acalorado – sem que seja uma briga. Dito isso, o que há de errado em discutir? Não significa que estamos mal só porque somos duas pessoas com opiniões diferentes sobre como lidar com algum assunto.
– Se eu fosse homem, estaríamos tendo essa mesma discussão? Será que um homem teria que escolher um cargo de professor em vez de coordenar um grande laboratório acadêmico?
Seus olhos se arregalaram de choque.
– Sim! Você não está dizendo seriamente que isso tem a ver com o fato de você ser mulher, está?
– Não, quero dizer… claro que não. Eu sei que você não faria isso. Eu só quero… Não quero que a gente brigue por uma coisa sem saber exatamente sobre o motivo de estarmos brigando ou discutindo… Sei lá! – eu disse frustrada. – Nem sei quais são todas as opções, então como é que dá para ter uma discussão lógica sobre isso? Não podemos simplesmente esperar? Por favor?
Will suspirou, estendendo a mão para tirar uma mecha de cabelo do rosto. Ele olhou para mim com um olhar suave e paciente e então concordou, segurando minhas mãos.
– Venha cá – disse ele, e dei alguns passos em sua direção.
Era isto que eu queria: essa proximidade, a certeza que senti quando ele me envolveu em seus braços. O resto das coisas estava no ar, mas isto, isto era a minha constante.
– Senti sua falta – ele disse, segurando-me contra seu corpo, alisando meu cabelo com a mão. – Não gosto de acordar sem você aqui, principalmente com a dor de cabeça que eu estava hoje de manhã. – Ele se afastou e colocou as mãos no meu rosto, examinando-o. – Deus, deve ter sido uma corrida puxada!
– Max tem sorte que eu não o atropelei – confessei, virando minha cabeça para beijar a palma da mão dele e depois sua aliança. – Eu não quero beber nunca mais. Sou péssima nisso.
– Você é mesmo – ele concordou, me observando. – Mas você está bem agora?
– Muito bem – falei. – Muito – beijo – muito – beijo – bem. – Ele inspirou curto quando pressionei meus lábios contra o seu pulso, primeiro de um jeito casto, depois mais molhado, chupando, abrindo minha boca para sentir seus batimentos na minha língua.
Sua reação veio na forma de uma inspiração forte, e meu olhar flutuou ao encontro do dele.
– Isso… – ele falou, e arranhei sua pele com os dentes, pressionando até que suas sobrancelhas se levantassem um pouco com a dor. – Aqui mesmo?
Concordei, dei um passo para trás e tirei minha camiseta. Os olhos dele acompanharam o movimento, e observei suas feições se relaxarem, até o último vestígio de tensão deixar seu rosto.
– Aqui mesmo – respondi.
Nós dois sabíamos do que o outro gostava. Will curtia que eu fosse um pouco rude às vezes, e eu gostava de ser guiada, que ele me dissesse onde me queria e o que queria que eu fizesse.
Will agarrou sua camisa pelo colarinho e a tirou num puxão, jogando-a displicentemente no sofá.
– Vire-se, então – ele disse, girando o dedo no ar.
Fiz o que ele pediu, virando-me de frente para a velha poltrona de couro atrás de mim. Eu adorava aquela poltrona, e ele também. Adorava me enrodilhar nela enquanto trabalhava, com as pernas cruzadas e o laptop equilibrado no braço da poltrona. Eu adorava quando Will sentava nessa poltrona e eu na outra e nós dois ficávamos em silêncio, sem precisar falar, enquanto líamos ou assistíamos à TV. E eu adorava especialmente quando ele me deixava sentar no seu colo, enfiando-me debaixo da coberta, para ver um filme. E apesar de ter feito sexo em quase todos os móveis da casa, nunca tínhamos transado ali, numa das coisas que ele mais gostava – a poltrona que levou consigo de casa em casa durante toda sua vida adulta.
Dei um passo para a frente.
– Assim? – perguntei, afundando-me na poltrona, com os joelhos pressionando a almofada e as costas viradas para ele.
– Assim mesmo. – As mãos quentes de Will soltaram meu sutiã e o puxaram do meu corpo. Os dedos dele fizeram cócegas nas minhas costelas e depois passaram para o elástico da minha calça, brincando com ele por um momento antes de puxá-la junto com a calcinha pelas minhas coxas, até os joelhos.
O ar frio tocou a minha pele e me senti nua para ele, exposta. Fechei os olhos enquanto seus dedos tamborilavam na minha coluna, contando cada vértebra, registrando cada arrepio. Quando chegou ao pescoço, passou a mão pelo meu cabelo, torcendo o rabo de cavalo meio solto no alto da cabeça, agarrando-o firme e usando-o para me empurrar para a frente, até me deixar com o tronco, a barriga e os peitos encostados no couro frio.
– Bom… – ele murmurou e, pelo farfalhar das roupas, percebi que havia se afastado e se despia atrás de mim. Eu queria virar e olhar, mas, quando finalmente tive coragem de fazer isso, a almofada afundou de novo e ele estava lá, quente, em contato com a parte de trás do meu corpo. Seus lábios encontraram meu ombro, meu rosto. Senti Will chupar meu pescoço (com certeza ia deixar uma marca). – Amo você.
Virei-me para beijá-lo e ofeguei ao sentir o contraste entre o couro frio na minha barriga e seios e o calor incendiário de seu corpo nas minhas costas.
Will estendeu a mão entre nós dois e pegou seu pau, passando a cabeça – quente e um pouco molhada na ponta – entre as minhas pernas para esfregar meu clitóris. Para a frente e para trás, para a frente e para trás.
– Quero que abra as pernas – disse, e eu fiz como ele instruiu. – Um pouco mais.
Afastei meus joelhos o máximo que pude, encostando-os nos braços da poltrona. Satisfeito, ele deu um beijo suave no meu nariz.
– Você quer isso? – ele perguntou, parado bem onde eu precisava dele, apenas a cabeça escorregando para dentro e para fora de mim. – Quer que eu brinque um pouco ou simplesmente meta em você?
– Mete em mim! – implorei, balançando o quadril em busca daquela sensação, tentando fazê-lo mover-se. – Will.
– Quietinha – disse ele. – Eu tenho você.
Ele me provocou de qualquer forma, lambuzando-se todo em mim antes de avançar.
Will costumava perder um pouco o controle de si quando me penetrava, às vezes xingava ou dizia meu nome, sussurrava incoerências na minha pele, como se estivesse tão tomado pelo fato de estar dentro de mim que podia gozar a qualquer segundo. Dessa vez não foi uma exceção, e ele gemeu nos meus cabelos, com a respiração curta e explosões de tesão enquanto se movia devagar, centímetro por centímetro, até que sua pélvis estivesse encostada à minha bunda, sua barriga musculosa pressionada contra a curva das minhas costas.
– Está tão bom – ele disse, mordiscando meu ombro e movendo os quadris em círculos lentos e provocantes. – Tão quente e gostoso… – Ele chupou minha pele e pegou meus peitos com as mãos, apertando-os, pinçando meus mamilos. Então, deslizou a mão entre as minhas pernas.
Eu estava molhada e escorregadia, e seus dedos migraram para baixo, bem lá onde eu os queria.
– Aí.
– É? – Will perguntou e eu fiz que sim, gemendo enquanto sentia meu corpo o apertando. Tentei me movimentar ao contrário, tentei segurá-lo dentro de mim antes que ele tirasse de novo. Nós nos movíamos juntos assim, preenchendo a sala com o som do sexo, interrompido apenas por um baque ocasional ou pela voz de pessoas nos apartamentos vizinhos.
Ele acelerou, incansável, e procurei algo em que me segurar, para me ancorar de alguma forma. Estendi a mão para trás e agarrei seu quadril com uma mão enquanto a outra caía por cima do encosto da poltrona; meu rosto virado e encostado no couro frio. Sua pele estava escorregadia de suor e enterrei minhas unhas nele, sabendo que isso só o deixaria mais excitado.
Will xingou com a respiração ofegante e quente nas minhas costas, e implorei, sem me importar se as pessoas no apartamento de cima podiam ouvir, se as pessoas do outro lado das paredes podiam ouvir.
– Mais forte. Mais forte, Will. Por favor.
– Caralho, Ameixa. – Ele acelerou, frenético, e pude ouvir os estalos de sua pele batendo na minha, o barulho da poltrona à medida que as pernas de trás saíram da borda do tapete e raspavam no chão de madeira.
– Ai, meu Deus – eu gemi –, ai… Ahhhh…
Fechei os olhos, sentindo uma onda de calor se irradiar do meio das minhas pernas e pela superfície da minha pele antes de tudo explodir em sensações. Will mordia meu pescoço, e suas mãos seguravam meus peitos, seus gemidos selvagens me diziam que ele ia gozar a porra toda a qualquer segundo, então ele ficou mais brutal e frenético e meteu tão fundo em mim que seu corpo pressionava toda a extensão do meu, das coxas aos ombros.
Deitamos pelados no sofá, eu de costas, com a cabeça de Will descansando na minha barriga.
– Desculpe eu ter saído hoje de manhã – falei, enrolando os dedos no seu cabelo. – Eu sei que você disse que tudo bem, mas eu queria pedir desculpas de novo.
Ele olhou para cima, descansando o queixo perto do osso do meu quadril.
– Eu sei, Ameixa. E, para deixar registrado: você tem o direito de ficar brava e de precisar do seu espaço.
– Eu desliguei o alarme. Não fui muito legal.
Ele riu e se esticou sobre o braço do sofá e pegou minha mochila.
– Tenho certeza de que vamos dizer ou fazer coisas não muito legais um para o outro nos próximos cinquenta anos. Se todas elas forem tão abomináveis quanto dar ao outro umas horas a mais de sono, acho que vamos nos sair muito bem.
– O que você está fazendo? – perguntei, observando enquanto ele xeretava o bolso da frente da mochila. Ele pegou uma caneta e colocou a mochila no chão, e então tirou a tampa. – Vai me decorar de novo?
Ele respondeu com a boca fechada e começou a desenhar.
Uma árvore, raízes que começavam na ponta do osso do quadril e desciam se espalhando. Ele preencheu o desenho, com os olhos estreitos de concentração, enquanto a ponta fina da caneta se movia para cima e para baixo, até as extremidades da figura.
Levantei a cabeça, espiando meu corpo para ver melhor.
– É igual à sua – eu falei, apontando para a árvore em seu bíceps, cujas raízes se enrolavam em volta do músculo.
– Um pouco.
– Nós devíamos mesmo procurar uns livros de colorir para você – falei, sorrindo e descansando a cabeça sobre meu braço.
– Não seria a mesma coisa, não é?
Passei meus dedos pelos cabelos dele de novo, observando a forma como as cores mudavam à luz do entardecer. Eu sentia a caneta se mover, o cheiro da tinta e, quando olhei novamente, vi que ele estava desenhando cada folha com todo cuidado.
– Agora, quando você for embora na quarta-feira, ainda estarei com você – disse ele.
– Você está sempre aqui – respondi, tocando seu rosto, dando batidinhas leves para que ele olhasse para mim.
Os olhos azuis de Will estavam quase negros nessa luz, tão abertos e honestos que eu não tinha certeza se conseguiria sair pela porta de manhã, quanto mais entrar num avião e voar até a Califórnia em três dias.