Chefe irresistível
Seis
Eu sabia que era errado ligar para Will tão tarde, mas não tinha conseguido falar com ele até então e não queria esperar até de manhã de jeito nenhum. O telefone só tocou uma vez antes de ele atender.
– Ei, Ameixa.
– Ei, você.
– Isso está se tornando um hábito – disse ele em meio aos rangidos da cama.
– Eu sei, temos até diálogos prontos e tudo mais.
– Como foi seu dia? – ele perguntou, com a voz rouca e grave. Nós estávamos bem quando saí para a Caltech, então imaginei que provavelmente estaria dormindo, e não tentando dormir. Olhei para o relógio e senti-me ainda mais culpada por ligar tão tarde.
– Foi ótimo – eu disse, notando, em seguida, a pausa do outro lado da linha. Sempre suspeitei que esse assunto em particular deixava Will ansioso, mas foi só depois daquela última explosão que eu soube exatamente o quão ansioso e o porquê.
Olhando para trás, admito que estava muito concentrada na minha busca de emprego. Eu tinha uma lista de possíveis candidatas e fui eliminando-as, uma a uma, sem tentar formar nenhum tipo de opinião sobre o resultado até que tivesse o máximo de informação possível. Eu estava analisando a situação com o lado lógico do meu cérebro e, francamente, essa parte do meu cérebro era babaca e insensível. Mas agora, levando o ponto de vista de Will em consideração, vi como tinha sido injusta e como aquilo era algo que precisávamos fazer juntos, como um casal, em vez de eu comunicar para ele quando tivesse decidido.
Já fazia um bom tempo que eu suspeitava que Will preferia uma faculdade longe da Califórnia – ou de qualquer lugar na Costa Oeste, na verdade – mas, como é típico dele, Will estava guardando sua opinião até que eu tivesse a chance de expressar a minha. Max estava certo; Will provavelmente faria as malas e me seguiria até a Antártida se eu arranjasse um emprego que adorasse lá.
– Foi ótimo – ele repetiu, com a voz cuidadosa demais. – Bom, isso é… ótimo então, não é?
– Sim, quer dizer, eles foram bastante atenciosos. Acho que também fizeram a pesquisa deles, porque sabiam qual era minha banda favorita na cidade. Eles me levaram para um show no Rose Bowl. De camarote. Quem faz isso?
Ele riu devagar, com seu jeitinho sonolento, e pude imaginá-lo passando a mão no rosto.
– Acho que uma faculdade que quer muito você, Ameixa. Você se divertiu?
– Foi incrível! – eu disse. – Pasadena é muito bonita.
– É mesmo.
O campus era bonito, as casas eram belas, o clima era agradável, mas, assim como em Berkeley, eu não conseguia imaginar meu marido no meio daquilo tudo. Will e palmeiras simplesmente não combinavam. Eu o via à sombra de arranha-céus, parando um táxi e me puxando no meio da multidão e do trânsito enquanto eu falava Deus sabe o quê, sem prestar atenção em tudo o que acontecia ao redor. Ele precisava de restaurantezinhos obscuros e de adrenalina, de uma cidade com história e cultura, quatro estações e invernos que nos permitissem correr na neve. De um lugar em que eu reclamasse do frio e ele fizesse alguma coisa engraçada para me distrair, e onde pudéssemos ver a fumacinha da nossa risada no ar frio. E, enquanto eu pensava sobre isso, percebia que eu também precisava. Pasadena era ótima, mas não era certa para nós.
– Foi incrível – repeti. – Mas acho que não é o lugar para nós.
– Ok, então isso reduz as opções a…
– Acho que decidi – falei para ele. – Se você estiver pronto para ter essa conversa, é claro. Eu sei que está tarde aí. Ou cedo? Para uma cientista, sou mesmo muito ruim com a matemática do fuso horário.
Ouvi o farfalhar do lençol e percebi que Will estava sentando na cama. Eu o imaginei nu, com o lençol bem na altura do quadril e sua pele quente de sono.
Eu estava com tanta saudade que mal podia aguentar.
– Não, não. Definitivamente estou pronto para conversar – disse ele. – Entusiasmado até.
– Está bem – concordei com um suspiro. Eu podia sentir meu pulso acelerado no peito e sabia que este era um momento importante.
– Você tem certeza de que não quer esperar eu voltar? Para falarmos pessoalmente…
– Hanna – ele disse, rindo. – Estou pronto para começar o resto da minha vida com você. Fale comigo.
– Certo, certo. Sim… Como eu disse antes, não consigo imaginar você em Berkeley. E tenho certeza de que não consigo vê-lo em Pasadena. A Caltech é ótima, mas não é para mim. Não é para nós. Tudo bem para você?
– Mais do que bem, Ameixa.
– Sei que ainda estamos esperando algumas respostas, mas acho que gosto de Harvard. O programa deles é incrível e, é claro, a faculdade é excelente. Paga um pouco menos que Princeton, mas acho que tenho espaço para negociar lá, embora eu saiba que Nova Jersey seria muito mais fácil em termos de arranjar onde morar e da mudança toda em nossa vida.
– Você sabe que isso não é um fator importante para mim – disse ele. – Você não passou toda sua vida adulta construindo uma carreira para escolher o que é mais fácil.
– Eu sei e agradeço por você entender isso. E você vai ganhar muitos boquetes no futuro por ser um marido tão incrível e compreensivo. Eu amo você.
– Também te amo – ele fez uma pausa. – Então… Harvard? – ele perguntou, e foi impossível não perceber a empolgação em sua voz.
– Acho que sim. Eles querem mesmo que eu trabalhe lá e acho que eu teria mais flexibilidade, o que é… é uma coisa que quero muito. Equilíbrio. Você se lembra disso, não? – eu disse, sorrindo no quarto escuro do hotel.
– Equilíbrio soa maravilhoso para mim. Então vamos nos mudar para Boston?
– Se você achar que podemos ser felizes lá…
– Acho que eu poderia ser feliz em qualquer lugar que você escolhesse – ele falou, e tive a certeza de que ele também estava sorrindo naquele momento.
Se essa coisa de Harvard não desse certo, Will e eu definitivamente não nos daríamos bem abrindo uma empresa de mudança.
No primeiro fim de semana depois da Caltech e a três dias da nossa lua de mel, acordamos, fizemos café juntos, saímos para correr, encontramos os amigos para um brunch e voltamos para casa. Dali para a frente, tudo se dissolveu num caos.
Às onze da manhã, não tínhamos feito nada além de cobrir a sala com caixas de papelão dobradas. Não sei como, mas consegui grudar meu rabo de cavalo numa caixa e, quando Will finalmente me encontrou tentando tirar a fita adesiva do cabelo, ele acabou me chupando em cima da mesa de centro.
Eu não sei muito bem como aconteceu.
Não que eu estivesse reclamando.
No nosso quarto, decidimos encaixotar a coleção de gibis de Will.
O criado-mudo é onde a maioria das pessoas guarda pornografia. Enquanto eu via Will tirar suas edições preciosas, uma atrás da outra, e empilhá-las com reverência em cima da cama com um olhar vidrado, percebi que sua reação à pornografia era idêntica.
Joguei-me na cama e comecei a folhear um gibi. Na minha visão periférica, podia ver Will me observando, com as sobrancelhas franzidas e o canto da boca torcido.
– Hanna – disse ele, retirando com cuidado algumas revistas nas quais eu podia, sem querer, deitar-me em cima. – Cuidado, querida. Algumas dessas são mais velhas que você.
– Ah, sim. Desculpe.
Will começou a guardá-las com cuidado nas caixas, e peguei um exemplar com uma heroína especialmente peituda na capa.
– Sério, Will? – eu disse, levantando-a para ele ver. Com um decote enorme, ela estava praticamente se derramando para fora da roupa. – Já vi muitas roupas de gosto duvidoso nessas garotas, mas esta é ridícula, beira o obsceno. Como alguém pode lutar contra o crime vestido assim?
– Ah, uau… – ele falou, ignorando totalmente minha crítica e começando a folhear as páginas. – Faz anos que eu não via essa…
– Que raio de poder ela tem? Ela bate nos bandidos com os peitos? Que roupa é essa que ela está usando? Acho que fico mais coberta do que ela quando tomo banho.
– Essa é a Power Girl, e a roupa dela é assim por um motivo.
– O motivo é fazer adolescentes se masturbarem sem ter de comprar pornografia?
Ele não disse nada, e eu arregalei os olhos.
– Ah, meu Deus! – falei.
– Acho que entendo isso – ele murmurou, enquanto guardava os quadrinhos nas caixas com muito menos cuidado do que um minuto antes.
Rolei na cama, aos risos.
– Espere até eu contar para Max que você se masturbava lendo gibi.
– Hanna, a maioria dos caras se masturbava lendo gibi. É o bê-á-bá da masturbação.
– Tá bom, você fez isso parecer muito menos divertido para mim, mas devo dizer que seu fetiche por peitos faz muito mais sentido agora.
E foi assim que, meio-dia e meia, acabamos transando sobre uma pilha de gibis. Ele pode nunca admitir isso, mas acho que o Will adolescente tinha acabado de ticar um item da lista.
Às cinco, Will estava olhando uma caixa de livros na sala quando passei por ele a caminho da cozinha.
– Precisa de ajuda? – ele perguntou, colocando de lado um livro gigante de biologia estrutural e apontando para a caixa que eu carregava.
– Não, esta está leve. São só roupas íntimas, mas percebi que quero experimentar algumas – falei para ele. – Você não está com um exemplar da Power Girl aí no meio, está?
– Que engraçadinha – ele resmungou, virando-se e me seguindo pela sala.
– Posso te deixar sozinho por alguns minutos – ofereci, generosamente.
Coloquei a caixa no aparador e comecei a mexer no conteúdo. Will ficou do meu lado.
– Ah, eu me lembro dessa – ele disse quando eu tirei uma calcinha de seda.
– Lembra?
– Você estava usando na casa dos seus pais quando fui visitá-la na Páscoa.
Ah, sim, a visita fatídica da Páscoa, quando ninguém na minha família sabia que Will e eu estávamos saindo juntos. Eu o atraí para o meu quarto e o convenci a fazer sexo sem camisinha enquanto minha família estava toda reunida lá embaixo.
Deus. A vida inteira de Will passou pelos seus olhos quando Jensen bateu à porta.
– Você não se lembra de comprar sabão em pó, mas se recorda disso? – perguntei.
– Sim. Bem… – Will é bem mais alto que eu, e mesmo estando atrás de mim ele conseguia ver sobre os meus ombros. – Posso? – ele perguntou, mexendo no conteúdo da caixa.
– Divirta-se! – falei e fui até o freezer, voltando com um pote de sorvete. Com a colher na mão, subi no aparador ao lado dele e abri a tampa.
Ele tirou uma calcinha após a outra da caixa, levantando as sobrancelhas e me beijando com vontade sempre que alguma o fazia ter uma lembrança feliz. Aparentemente, tirar as coisas das caixas era muito mais divertido do que guardá-las.
– Espere – disse ele, demorando-se à medida que chegava às mais básicas, no fundo. – Por que nunca vi você usando nenhuma dessas até agora?
Enfiei a colher no pote de sorvete e coloquei na boca.
– Porque essas são as calcinhas para “aqueles dias”.
Os olhos dele voaram para os meus.
– Que dias?
– Menstruação.
Will balançou a cabeça, indiferente, enquanto voltava a olhar a caixa.
– Entendi.
– Você é tão compreensivo às vezes que chega a ser um pouco esquisito. Bonitinho, mas esquisito.
Ele olhou para mim de novo, com um sorrisinho torto.
– Você tem calcinhas especiais para quando está menstruada e eu que sou esquisito?
Dei de ombros.
– Bom, é…
Ele piscou algumas vezes.
– Por que você se importa?
– Hoje em dia eu não quero estragar as minhas calcinhas boas, mas na época do colégio eu não tinha calcinhas boas. – Resfoleguei enquanto pegava outra colherada. – Ninguém via minhas calcinhas na época. Sabe, eu até me lembro de uma empresa que um cara abriu chamada Calcinhas Menstruais. Elas tinham nomes, como Semana do Tubarão e Conde Drácula. Acho que tinha até uma que se chamava Rambo: Programado para Sangrar, com um unicórnio que tinha acabado de sair de uma briga de bar ou algo do tipo. – Coloquei outra colher de sorvete de chocolate na boca enquanto Will me observava. Fiz uma pausa.
– O que foi? – perguntei.
– Não consigo me decidir se isso é horrível ou absolutamente genial.
Concordei, engoli o sorvete e disse:
– Se eu me lembro bem, servia para não ter que espantar os avanços indesejados naquela semana. Então, em vez de dizer “desculpa, querido, estou naquela época do mês”, você podia simplesmente colocar esse aviso perto da vagina e mostrar suas calcinhas menstruais.
Fiz o que parecia um movimento em V com a colher em cima da minha virilha e peguei outra colherada de sorvete.
– Você sempre foi estranha assim? – Will perguntou.
Olhei para ele, sem expressão.
Ele pegou umas calcinhas azuis de algodão.
– O que há de errado com essas?
Saltando do balcão, peguei-as e joguei de volta na caixa.
– Bom, nada, na verdade. Exceto que parecem algo que minha mãe usaria.
– Ah, tá, agora você estragou tudo.
Eu ri, jogando uma calcinha nele.
– Estraguei o quê? Eu sou tão preguiçosa que, se não fosse por Chloe, provavelmente usaria a mesma calcinha até o elástico lacear. Mas nenhum cara acha isso sensual de verdade.
– Você obviamente não entende nada de homens. Ou, mais especificamente, deste aqui.
Eu soltei uma risada.
– Não entendo?
– Não – disse ele, pegando uma calcinha amarela. – Eu não tenho medo de menstruação e você poderia andar por aí com cinco pares das piores calcinhas já vistas e eu ainda assim ia querer transar com você.
– É mesmo?
Will pegou minha colher de sorvete e colocou na boca.
– Com certeza.
Vinte minutos depois, saí do quarto – quase nua, exceto por uma regata branca e cinco pares das calcinhas mais feias para “aqueles dias que eu tinha” – e me sentei no sofá, na frente da TV.
Will parou de fechar a caixa com fita adesiva e olhou para mim.
– Uau, Ameixa.
Cruzei as pernas, peguei o controle remoto e liguei a TV.
– William?
Ele se endireitou, colocou o rolo de fita na estante e levou a caixa para uma pilha perto da porta. Então veio na direção do sofá e sentou-se na beirada da mesa de centro, na minha frente.
– O que você está fazendo?
– Só vendo televisão.
Ele olhou para a tela e para mim.
– Mas não fala espanhol.
Pisquei para ele, encarando-o, e mudei de canal.
– Eu estava lendo a legenda.
Will inclinou a cabeça para o lado, passeando com seus olhos da ponta dos meus pés até o meu rosto.
– Você está bonita.
Eu não tinha muita certeza do que eu estava fazendo e na verdade estava começando a suar um pouco. Por que eu sempre decido provar o meu ponto de vista e só depois refletir sobre ele?
– Obrigada – respondi.
A mão dele se curvou em volta do meu tornozelo, passando o polegar na parte de cima do meu pé. Tirei o pé do lugar e me levantei para ir à cozinha, tentando me lembrar de tudo o que Chloe tinha me dito sobre ser sensual. Acho que rebolei um pouco, mais parecendo que estava com cãibra.
– Você quer uma cerveja? – perguntei, sem chegar ao final da frase.
Will caiu na risada, dobrando-se de gargalhar, e me jogou de volta no sofá.
– Você está tentando provar seu ponto de vista aqui, Ameixa?
– Sim! – gritei, tentando escapar. – Admita que não acha isso nada sensual. Admita!
– Você está brincando? – disse ele, enfiando a cabeça no meu pescoço e cobrindo-me de beijos. Ele fez cócegas na minha barriga e levantou minha blusa até as costelas. – Já faz um tempinho, eu poderia fazer de novo agora.
– Você está falando sério? – gritei, rindo e tentando me esquivar dos dedos dele.
Sobre a blusa, ele beijou todo meu colo e entre os seios. Seus dedos desceram até o elástico das calcinhas e, lentamente, ele tentou tirá-las. Tentou é a palavra certa, porque cinco pares de calcinhas não se ajustam do mesmo jeito que um só…
– Mas que diabos é isso? – ele exclamou, puxando o tecido.
– É só… Ai, meu Deus, Will – eu me dobrei para o lado de tanto rir, com lágrimas nos olhos. Ele conseguiu tirar o primeiro par, segurando-o vitorioso antes de começar a tirar o segundo.
– Caramba! – disse ele, tentando puxar as calcinhas para baixo sem esgarçá-las ou estragar o elástico.
– Você colocou algum tipo de cola nelas?
– Não!
– Ok… Acho que esta não foi a minha melhor ideia. E você, fique parada! É como tentar descascar uma cebola girando!
– Vou morrer de rir e, quando a polícia finalmente chegar aqui, ainda vou estar com essas calcinhas horrorosas. Por que você simplesmente não tira todas de uma vez?
– Você não espera que eu pense quando todo o meu sangue está no meu pau!
– Eu falei que não era sensual. Admita que eu estava certa que eu tiro todas. Admita que sou mais inteligente que você.
– Tá bom, você com certeza é mais inteligente que eu, e elas são sensuais, sim! – ele falou. – E não vejo nenhuma forma de sair perdendo dessa situação. – Ele levantou minha blusa por cima da cabeça e pegou meus peitos em suas mãos.
– Nós nunca vamos conseguir encaixotar as coisas nesse ritmo – falei, observando enquanto ele chupava um mamilo e depois o outro.
– Eu disse que gostaria de ter contratado alguém, mas isso está sendo divertido. Hoje… – Ele beijou meu peito novamente e depois olhou para mim. – Hoje foi um dia sensacional!
– E você não está preocupado em perder isso? Quando nos mudarmos?
Will balançou a cabeça, colocando um cotovelo em cada um dos meus ombros e olhando para mim.
– Lembra-se de San Diego, no casamento de Ben e Chloe?
– Você quer dizer, quando nós mal saímos do quarto?
Will sorriu.
– Exatamente. Você vai detonar em Harvard e será a melhor professora que eles já tiveram. Eu vou resolver as coisas com Max, talvez até abrir um segundo escritório, e tudo vai dar certo. Como sempre dá, Ameixa.
Agarrei seus quadris, apertando o H tatuado ali, e percebi que ele estava certo.
Isso? Isso era uma constante. Nós podíamos nos mudar para o outro lado do mundo e nada mudaria.
Nós iríamos ficar bem.