Cidade dos Anjos Caídos

Cassandra Clare · Capítulo 9 de 22

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Cidade dos Anjos Caídos

7 | Praetor Lupus

7

Praetor Lupus

 

A garrafa escorregou da mão de Simon e caiu no chão, onde estilhaçou, lançando cacos em todas as direções.

— Kyle é um lobisomem?

— Claro que é um lobisomem, seu idiota — disse Jace. Olhou para Kyle. — Não é?

O menino não disse nada. O bom humor relaxado desapareceu de sua expressão. Os olhos âmbar estavam duros e fixos como vidro.

— Quem quer saber?

Jace se afastou da janela. Não havia nada exatamente hostil em sua conduta, e, no entanto, tudo nele sugeria clara ameaça. As mãos estavam largadas nas laterais do corpo, mas Simon se lembrava da maneira como já vira Jace entrar em ação do nada, ao que parecia, entre pensamento e resposta.

— Jace Lightwood — disse. — Do Instituto Lightwood. A que bando é aliciado?

— Jesus — disse Kyle. — Você é um Caçador de Sombras? — Olhou para Simon. — A ruivinha bonitinha que estava com você na garagem... Ela também, não é?

Espantado, Simon assentiu.

— Sabe, algumas pessoas acham que Caçadores de Sombras não passam de mitos. Como múmias ou gênios. — Kyle sorriu para Jace. — Consegue conceder desejos?

O fato de que tinha acabado de chamar Clary de bonitinha não parecia tê-lo tornado mais querido a Jace, cujo rosto enrijeceu assustadoramente.

— Depende — disse. — Quer levar um soco na cara?

— Ai, ai — disse Kyle. — E eu achando que vocês todos estivessem alegrinhos com os Acordos recentemente...

— Os Acordos se aplicam a vampiros e licantropes com alianças definidas — interrompeu Jace. — Diga-me a que bando é filiado, ou terei que presumir que é um trapaceiro.

— Tudo bem, já chega — disse Simon. — Os dois, parem de agir como se estivessem prestes a se bater. — Então olhou para Kyle. — Devia ter me contado que é um lobisomem.

— Não reparei que me contou que é um vampiro. Talvez achasse que não fosse da sua conta.

O corpo inteiro de Simon tremeu, surpreso.

— Quê? — Olhou para o vidro estilhaçado e o sangue no chão. — Eu não... não...

— Não perca seu tempo — disse Jace, baixinho. — Ele pode sentir que você é vampiro. Exatamente como você vai sentir lobisomens e outros integrantes do Submundo quando tiver um pouco mais de prática. Ele sabe o que é desde que o conheceu. Não é verdade? — Encarou os olhos gelados de Kyle, que não disse nada. — E aquela coisa que ele cultiva na varanda, a propósito? É acônito, veneno de lobo. Agora você sabe.

Simon cruzou os braços e encarou Kyle.

— Então que diabos é isso? Alguma espécie de armadilha? Por que me chamou para morar com você? Lobisomens detestam vampiros.

— Eu, não — disse Kyle. — Mas não morro de amores pela espécie dele. — Apontou um dedo para Jace. — Acham que são melhores do que todo mundo.

— Não — disse Jace. — Eu acho que eu sou melhor do que todo mundo. Uma opinião que já foi endossada com grandes evidências.

Kyle olhou para Simon.

— Ele sempre fala assim?

— Sempre.

— E nada cala a boca dele? Além de uma boa surra, é claro.

Jace se afastou da janela.

— Adoraria que tentasse.

Simon se colocou entre os dois.

— Não vou deixar que briguem.

— E o que vai fazer se... Ah. — O olhar de Jace desviou para a testa de Simon, e ele sorriu relutantemente. — Então, basicamente está ameaçando me transformar em algo que se coloca na pipoca se eu não fizer o que está mandando?

Kyle se espantou.

— O quê...

— Só acho que deveriam conversar — interrompeu Simon. — Então Kyle é um lobisomem. Eu sou um vampiro. E você não é exatamente um menino comum — acrescentou para Jace. — Acho melhor entendermos o que está acontecendo, e continuar a partir disso.

— Sua confiança estúpida não tem limites — disse Jace, mas sentou no parapeito, cruzando os braços. Após um instante, Kyle também sentou no futon. Ambos se encararam. Parados, pensou Simon. Progresso.

— Tudo bem — pronunciou-se Kyle. — Sou um lobisomem. Não faço parte de um bando, mas tenho uma aliança. Já ouviu falar em Praetor Lupus?

— Já ouvi falar em lúpus — disse Simon. — Não é uma espécie de doença?

Jace lançou a Simon um olhar arrasador.

— “Lupus” significa “lobo” — explicou. — E os pretorianos eram uma força militar romana de elite. Então presumo que a tradução seja “Lobos Guardiões”. — Deu de ombros. — Já ouvi algo sobre eles, mas é uma organização bastante reservada.

— E os Caçadores de Sombras não? — rebateu Kyle.

— Temos bons motivos.

— Nós também. — Kyle se inclinou para a frente. Os músculos nos braços se flexionaram quando apoiou os cotovelos nos joelhos. — Existem dois tipos de lobisomens — explicou. — Do tipo que nasce lobisomem, com pais licantropes, e do tipo que é infectado com licantropia através de mordida. — Simon olhou para ele, surpreso. Não pensaria que Kyle, o mensageiro preguiçoso e maconheiro, conheceria a palavra “licantropia”, quanto mais que saberia pronunciá-la. Mas este era um Kyle bem diferente: concentrado, atento e direto. — Para aqueles de nós que são transformados por mordida, os primeiros anos são anos-chave. A descendência demoníaca que provoca licantropia causa diversas outras mudanças: ondas de agressão incontroláveis, incapacidade de conter a raiva, fúria suicida e desespero. O bando pode ajudar com isso, mas muitos dos recém-infectados não têm sorte o bastante para encontrar um. Ficam sozinhos, tentando lidar com todas essas coisas, e muitos se tornam violentos, com os outros e consigo mesmos. Há uma taxa alta de suicídio e de violência doméstica. — Olhou para Simon. — O mesmo vale para vampiros, podendo ser até pior. Um incipiente órfão não faz ideia do que aconteceu, literalmente. Sem orientação, não sabe se alimentar com segurança ou sequer que deve ficar longe do sol. É aí que entramos.

— E fazem o quê?

— Localizamos integrantes “órfãos” do Submundo, vampiros e lobisomens que foram Transformados há pouco e ainda não sabem direito o que são. Às vezes até feiticeiros; alguns não entendem o que são por anos. Nós intervimos, tentamos encaixá-los em um bando ou um clã, ajudá-los a controlar os próprios poderes.

— Bons samaritanos, hein? — Os olhos de Jace brilharam.

— Somos sim, na verdade. — Kyle soava como se estivesse se esforçando para manter a voz neutra. — Fazemos a intervenção antes que o novo integrante do Submundo se torne violento e se machuque, ou a outros. Sei o que teria me acontecido se não fosse pelos Guardiões. Fiz coisas ruins. Muito ruins.

— Ruins como? — perguntou Jace. — Ruins do tipo ilegais?

— Cala a boca, Jace — disse Simon. — Você está de folga, OK? Pare de ser um Caçador de Sombras por um instante. — Então voltou-se para Kyle. — Então, como acabou fazendo teste para a porcaria da minha banda?

— Não sabia que você sabia que era uma porcaria.

— Responda a pergunta.

— Recebemos um relatório sobre um vampiro novo, um Diurno, vivendo por conta própria, sem um clã. Seu segredo não é tão secreto quanto pensa. Vampiros Incipientes sem um clã para ajudá-los podem ser muito perigosos. Fui enviado para ficar de olho em você.

— Então, o que está dizendo — concluiu Simon — é que não só não quer que eu saia daqui agora que sei que é um lobisomem, como que não vai deixar eu ir embora?

— Isso — disse Kyle. — Quero dizer, você pode se mudar, mas eu vou junto.

— Não é necessário — disse Jace. — Posso muito bem ficar de olho em Simon, obrigado. Ele é meu integrante neófito do Submundo para zombar e dar ordens, e não seu.

— Calem a boca! — gritou Simon. — Os dois. Nenhum de vocês estava presente quando tentaram me matar hoje mais cedo...

— Eu estava — disse Jace. — Você sabe, uma das vezes.

Os olhos de Kyle brilharam, como os olhos de um lobo à noite.

— Alguém tentou te matar? O que aconteceu?

Os olhos de Simon encontraram os de Jace do outro lado da sala. Um consenso silencioso de não mencionar a Marca de Caim passou entre eles.

— Há dois dias, e hoje, fui seguido e atacado por uns caras com roupas cinzas de treinamento.

— Humanos?

— Não temos certeza.

— E não faz ideia do que queriam com você?

— Definitivamente me querem morto — explicou Simon. — Fora isso, não sei.

— Temos algumas pistas — declarou Jace. — Vamos investigar.

Kyle balançou a cabeça.

— Tudo bem. O que quer que não estejam me contando, vou descobrir eventualmente. — Levantou-se. — Agora estou cansado. Vou dormir. Até amanhã — disse a Simon. — Você — falou para Jace —, bem, imagino que vamos nos encontrar por aí. É o primeiro Caçador de Sombras que já conheci.

— Que pena — disse Jace —, pois todos que conhecer a partir de agora serão uma grande decepção.

Kyle revirou os olhos e saiu, fechando a porta do quarto.

Simon olhou para Jace.

— Não vai voltar para o Instituto — perguntou —, vai?

Jace balançou a cabeça.

— Você precisa de proteção. Quem sabe quando alguém pode tentar te matar outra vez?

— Essa sua coisa de evitar a Clary realmente assumiu proporções épicas — disse Simon, levantando-se. — Algum dia vai voltar para casa?

Jace olhou para ele.

— Você vai?

Simon foi para a cozinha, pegou uma vassoura e varreu os cacos da garrafa destroçada. Era a última. Jogou os pedaços de vidro no lixo e passou por Jace em direção ao próprio quarto, onde tirou o casaco e os sapatos e se jogou no colchão.

Um instante mais tarde, Jace entrou no quarto. Olhou em volta, as sobrancelhas claras erguidas em uma expressão de divertimento.

— Um belo espaço que tem aqui. Minimalista. Gostei.

Simon rolou para o lado e encarou Jace, incrédulo.

— Por favor, não me diga que está planejando ficar no meu quarto.

Jace sentou no parapeito e olhou para ele.

— Você realmente não entende como funciona essa coisa de guarda-costas, não é mesmo?

— Nem achava que gostasse tanto assim de mim — replicou Simon. — Essa é uma daquelas situações de “mantenha os amigos por perto e os inimigos ainda mais perto”?

— Pensei que fosse “mantenha os amigos por perto para ter quem dirigir o carro quando você vai até a casa do seu inimigo vomitar na caixa de correio”.

— Tenho certeza de que não é. E essa coisa de me proteger é mais perturbadora do que tocante, só para avisar. Estou bem. Viu o que acontece com quem tenta me machucar.

— Sim, eu vi — falou Jace. — Mas eventualmente a pessoa que está tentando te matar vai descobrir sobre a Marca de Caim. E então vai desistir ou descobrir outro meio. — Apoiou-se na janela. — E é por isso que estou aqui.

Apesar da exasperação, Simon não conseguia enxergar falhas naquele argumento, ou, pelo menos, nenhuma grande o bastante para se incomodar. Rolou de barriga para baixo e enterrou o rosto nos braços. Em poucos minutos estava dormindo.

Estava caminhando pelo deserto, sobre areias ardentes, passando por ossos embranquecendo ao sol. Nunca sentira tanta sede. Quando engolia, a boca parecia coberta de areia, a garganta repleta de facas.

O apito agudo do celular acordou Simon. Ele rolou e alcançou o casaco, exaurido. Quando conseguiu pegar o telefone do bolso, já tinha parado de tocar.

Virou o aparelho para ver quem tinha ligado. Luke.

Droga. Aposto que minha mãe ligou para a casa de Clary procurando por mim , pensou, sentando-se. O cérebro ainda estava ligeiramente embriagado de sono, e levou um instante para se lembrar de que quando adormecera no quarto; não estava sozinho.

Olhou rapidamente para a janela. Jace ainda estava ali, mas claramente dormia — sentado, com a cabeça apoiada no vidro. A luz clara do alvorecer se filtrava ao redor dele. Parecia muito jovem assim, pensou Simon. Sem deboche na expressão, sem defensivas ou sarcasmo. Era quase possível imaginar o que Clary vira nele.

Estava bastante claro que ele não estava levando as obrigações de guarda-costas muito a sério, mas isso tinha sido óbvio desde o início. Simon ficou imaginando, e não pela primeira vez, que diabos estava se passando entre Clary e Jace.

O telefone começou a zumbir novamente. Levantando-se, Simon foi para a sala, apertando o botão de atender bem a tempo de evitar que a ligação fosse para a caixa postal outra vez.

— Luke?

— Desculpe acordá-lo, Simon. — Luke, como sempre, infalivelmente educado.

— Eu já estava acordado — mentiu Simon.

— Preciso que me encontre na Washington Square Park em meia hora — disse Luke. — No chafariz.

Agora Simon ficou seriamente alarmado.

— Está tudo bem? Clary está bem?

— Tudo bem. Não é nada com ela. — Pôde ouvir um ronco ao fundo. Simon concluiu que Luke estava ligando a picape. — Apenas me encontre no parque. E não leve ninguém com você.

Desligou.

O barulho da caminhonete de Luke saindo despertou Clary de sonhos desconfortáveis. Ela se sentou, encolhendo-se. A corrente do pescoço havia prendido no cabelo enquanto dormia, e ela a tirou por cima da cabeça, libertando-a cuidadosamente dos nós.

Colocou o anel na palma da mão, com a corrente ao redor. O pequeno círculo de prata, estampado com estrelas, parecia piscar para ela, zombeteiro. Lembrava-se de quando Jace lhe dera, enrolado no bilhete que havia deixado para trás quando saiu para caçar Jonathan. Apesar de tudo, não posso suportar a ideia deste anel se perdendo para sempre, não mais do que posso suportar a ideia de deixá-la para sempre.

Fazia quase dois meses. Tinha certeza de que ele a amava, tanta certeza que a Rainha da Corte Seelie não conseguiu tentá-la. Como poderia haver qualquer outra coisa que quisesse, quando tinha Jace?

Mas talvez jamais fosse possível ter alguém, pensava agora. Talvez, independentemente do quanto se amasse, ainda fosse possível que a pessoa escapasse por entre seus dedos como água, sem que houvesse nada para fazer a respeito. Entendia porque as pessoas falavam sobre corações “partidos”; tinha a sensação de que o seu era feito de vidro rachado, e os cacos eram como facas minúsculas no peito quando respirava. Imagine sua vida sem ele, dissera a Rainha Seelie...

O telefone tocou, e por um instante Clary sentiu apenas alívio por alguma coisa, qualquer coisa, interromper seu desespero. O segundo pensamento foi: Jace. Talvez não tivesse conseguido encontrá-la no celular e estivesse ligando para casa. Largou o anel na cabeceira e esticou o braço para alcançar o aparelho. Estava prestes a atender quando percebeu que a ligação já tinha sido interceptada por sua mãe.

— Alô? — A mãe parecia ansiosa e, o que era surpreendente, acordada, apesar de ser tão cedo.

A voz que atendeu era desconhecida, e dotada de um ligeiro sotaque.

— Aqui é Catarina, do hospital Beth Israel. Procuro por Jocelyn.

Clary congelou. O hospital? Será que tinha acontecido alguma coisa, talvez com Luke? Ele tinha saído absurdamente rápido...

— Sou eu. — A mãe não soava assustada, mas parecia que estivera aguardando a ligação. — Obrigada por retornar a ligação tão depressa.

— Claro. Fiquei feliz em receber notícias. Não é comum ver pessoas se recuperando de uma maldição como a que lhe afligiu. — Certo, pensou Clary. A mãe tinha estado no Beth Israel em coma pelos efeitos da poção que tomou para impedir que Valentim a interrogasse. — E qualquer amigo de Magnus Bane é meu amigo.

Jocelyn parecia tensa.

— Meu recado fez sentido? Sabe por que liguei?

— Queria saber sobre a criança — respondeu a mulher do outro lado da linha. Clary sabia que devia desligar, mas não conseguiu. Que criança? O que estava acontecendo? — A que foi abandonada.

A voz de Jocelyn falhou.

— S-sim. Pensei...

— Sinto informar, mas ele está morto. Faleceu ontem à noite.

Por um instante, Jocelyn ficou em silêncio. Clary pôde sentir o susto da mãe através do telefone.

— Morreu? Como?

— Eu mesma não tenho certeza de que entendi. O padre veio ontem para batizar a criança e...

— Meu Deus. — A voz de Jocelyn falhou. — Eu posso... poderia, por favor, passar aí e dar uma olhada no corpo?

Fez-se um longo silêncio. Finalmente a enfermeira respondeu:

— Não tenho certeza. O corpo está no necrotério, esperando transferência para o consultório do médico legista.

— Catarina, acho que sei o que aconteceu com o menino. — Jocelyn estava ofegante. — E se eu pudesse confirmar, talvez possa evitar que volte a acontecer.

— Jocelyn...

— Estou indo — disse a mãe de Clary, e desligou o telefone. A menina encarou, confusa, o objeto por um instante antes de desligar. Então levantou-se, passou uma escova no cabelo, vestiu uma calça jeans e um casaco e deixou o quarto, bem a tempo de encontrar a mãe na sala, escrevendo um bilhete no caderno ao lado do telefone. Ela levantou o olhar quando Clary entrou e deu um pulo de susto, com uma expressão culpada.

— Estava saindo — informou. — Alguns probleminhas de última hora no casamento surgiram e...

— Não perca tempo mentindo para mim — disse Clary, sem preâmbulos. — Estava ouvindo na extensão, e sei exatamente aonde está indo.

Jocelyn empalideceu. Então, lentamente, repousou a caneta.

— Clary...

— Precisa parar de tentar me proteger — falou. — E aposto que também não contou nada a Luke sobre ligar para o hospital.

Jocelyn ajeitou o cabelo, nervosa.

— Me parece injusto com ele. Com o casamento chegando e tudo mais...

— Certo. O casamento. Vão fazer um casamento. E por que isso? Porque vão se casar. Não acha que é hora de começar a confiar em Luke? E em mim?

— Confio em você — disse suavemente.

— Então não vai ligar se eu for com você ao hospital.

— Clary, não acho...

— Sei o que acha. Acha que é a mesma coisa que aconteceu com Sebastian; quero dizer, Jonathan. Acha que talvez alguém esteja por aí fazendo com bebezinhos o que Valentim fez com meu irmão.

A voz de Jocelyn tremeu ligeiramente.

— Valentim está morto. Mas há outros que estavam no Ciclo que nunca foram capturados.

E nunca encontraram o corpo de Jonathan. Não era uma coisa sobre a qual Clary gostava de pensar. Além disso, Isabelle estava lá, e sempre foi firme na declaração de que Jace tinha danificado a espinha de Jonathan com a lâmina da adaga, e que, como resultado, Jonathan morreu bem morrido. Ela foi até a água e verificou, dissera. Sem pulso, sem batimentos cardíacos.

— Mãe — disse Clary. — Ele era meu irmão. Tenho direito de ir também.

Muito lentamente, Jocelyn assentiu.

— Tem razão. Imagino que tenha. — Ela alcançou a bolsa, pendurada em um cabide perto da porta. — Bem, vamos então, e pegue o casaco. A previsão do tempo anunciou que pode chover.

O Washington Square Park era essencialmente deserto nas primeiras horas da manhã. O ar estava frio e limpo, e as folhas já cobriam a rua com camadas espessas de vermelho, dourado e verde-escuro. Simon chutou-as para o lado ao abrir caminho sob o arco de pedra no eixo sul do parque.

Havia poucas pessoas ao redor — alguns desabrigados dormindo em bancos, enrolados em sacos de dormir ou cobertores puídos, e alguns homens com uniformes verdes de limpeza esvaziando as latas de lixo. Tinha um sujeito empurrando um carrinho pelo parque, vendendo rosquinhas, café e pães. E no centro, perto do grande chafariz circular, Luke. Vestia um casaco verde e acenou ao ver Simon.

Simon retribuiu o aceno, um pouco hesitante. Ainda não tinha certeza de que não estava encrencado por alguma razão. A expressão de Luke, à medida que Simon se aproximou, só intensificou seu mau pressentimento. Luke parecia cansado e mais do que um pouquinho estressado. O olhar, ao repousar em Simon, estava carregado de preocupação.

— Simon — disse. — Obrigado por ter vindo.

— Claro. — Simon não estava com frio, mas colocou as mãos nos bolsos do casaco assim mesmo, só para dar a elas uma coisa para fazer. — Qual é o problema?

— Não falei nada sobre um problema.

— Não me arrastaria até aqui no alvorecer se não tivesse um — observou Simon. — Se não é nada com Clary, então...?

— Ontem, na loja de noivas — explicou Luke. — Você me perguntou sobre uma pessoa. Camille.

Um bando de pássaros levantou voo de uma árvore próxima, grasnando. Simon se lembrou de uma rima que a mãe costumava recitar, sobre pombos: um para tristeza, dois para alegria, três para um casamento, quatro para um nascimento; cinco para prata, seis para dourado, sete para um segredo nunca revelado.

— Certo — respondeu Simon. Já tinha perdido a conta do número de pássaros. Sete, supôs. Um segredo nunca revelado. O que quer que isso quisesse dizer.

— Sabe sobre os Caçadores de Sombras que foram encontrados assassinados pela cidade nos últimos dias — disse Luke. — Não sabe?

Simon assentiu lentamente. Estava com um mau pressentimento quanto ao rumo desta conversa.

— Parece que Camille pode ter sido a responsável — revelou Luke. — Não pude deixar de me lembrar que perguntou sobre ela. Ouvir o nome duas vezes, no mesmo dia, após anos sem escutá-lo... pareceu muita coincidência.

— Coincidências acontecem.

— Algumas vezes — disse Luke —, mas raramente são a resposta mais provável. Hoje à noite Maryse vai convocar Raphael para interrogá-lo sobre o papel de Camille nestes assassinatos. Se for revelado que você sabia alguma coisa sobre Camille, que teve contato com ela, não quero que esteja desavisado.

— Então somos dois. — A cabeça de Simon começou a latejar outra vez. Vampiros tinham dor de cabeça? Não conseguia se lembrar da última vez em que tivera uma antes dos eventos destes últimos dias. — Conheci Camille — contou. — Há mais ou menos quatro dias. Pensei que estivesse sendo convocado por Raphael, mas foi ela. Me ofereceu um acordo. Se eu fosse trabalhar para ela, me tornaria o segundo vampiro mais importante da cidade.

— Por que queria que você fosse trabalhar para ela? — O tom de Luke era neutro.

— Ela sabe sobre a minha Marca — explicou. — Disse que foi traída por Raphael e poderia me usar para recuperar o controle do clã. Tive a impressão de que ela não morre de amores por ele.

— Isso é muito curioso — disse Luke. — A história que ouvi é que Camille tirou uma licença de prazo indeterminado da liderança do clã e fez de Raphael o sucessor temporário. Se o escolheu para liderar em seu lugar, por que agiria contra ele?

Simon deu de ombros.

— Não sei. Só estou contando o que ela disse.

— Por que não nos contou sobre ela, Simon? — disse Luke, bem baixinho.

— Ela disse para não contar. — Simon percebeu o quão estúpido soava. — Nunca conheci um vampiro como ela — acrescentou. — Só Raphael, e os outros no Dumont. É difícil explicar como ela é. Tudo o que diz, você quer acreditar. Tudo o que pede, você quer fazer. Eu queria agradá-la, mesmo sabendo que só estava brincando comigo.

O homem com o carrinho de rosquinhas e café estava passando outra vez. Luke comprou um café e um pão e sentou na borda do chafariz. Após um instante, Simon se juntou a ele.

— O homem que me deu o nome de Camille a chamou de “a anciã” — disse Luke. — Ela é, acredito, um dos vampiros muito, muito velhos deste mundo. Imagino que seja capaz de fazer a maioria das pessoas se sentir muito pequena.

— Fez com que eu me sentisse um inseto — disse Simon. — Prometeu que se em cinco dias eu não quisesse trabalhar para ela, nunca mais voltaria a me incomodar. Então eu disse que pensaria a respeito.

— E então? Pensou a respeito?

— Se ela está matando Caçadores de Sombras, não quero nenhuma ligação com ela — respondeu Simon. — Isso eu garanto.

— Tenho certeza de que Maryse ficará aliviada em saber.

— Agora está sendo sarcástico.

— Não estou — disse Luke, parecendo muito sério. Era em momentos como este que Simon conseguia deixar de lado as lembranças de Luke, o mais ou menos padrasto de Clary, o cara que estava sempre por perto, sempre disposto a dar uma carona para casa ou emprestar dez pratas para um livro ou uma entrada de cinema, e lembrar que Luke liderava o principal bando de lobos da cidade, que era alguém que, em momentos cruciais, toda a Clave escutava. — Você esquece o que é, Simon. Esquece o poder que tem.

— Quem dera que eu pudesse esquecer — respondeu Simon com amargura. — Queria que ele simplesmente sumisse se eu não usasse.

Luke balançou a cabeça.

— O poder é um ímã. Atrai aqueles que o desejam. Camille é um deles, mas haverá outros. Tivemos sorte, de certa forma, por ter demorado tanto. — Olhou para Simon. — Acha que se ela o invocar novamente, pode me avisar, ou ao Conclave, informando onde podemos encontrá-la?

— Posso — respondeu Simon, lentamente. — Ela me deu uma forma de entrar em contato, mas não é como se fosse aparecer se eu soprar um apito mágico. Na última vez em que quis conversar comigo, mandou capangas me surpreenderem e me levarem até ela. Então, ter pessoas perto de mim enquanto tento falar com ela não vai dar certo. Conseguirá os subjugados, mas não ela.

— Humm. — Luke pareceu ponderar a questão. — Teremos que pensar em um jeito mais inteligente, então.

— Melhor pensar depressa. Ela disse que me daria cinco dias, e isso quer dizer que até amanhã ela vai esperar alguma espécie de sinal meu.

— Imagino que sim — disse Luke. — Aliás, estou contando com isso.

Simon abriu a porta da frente do apartamento de Kyle com cuidado.

— Olá — disse, entrando e pendurando o casaco. — Tem alguém em casa?

Ninguém respondeu, mas da sala Simon pôde ouvir o familiar zap-bang-crash de um videogame. Foi até lá, segurando na frente de si, como uma oferta de paz, um saco branco de pães que tinha comprado na Bagel Zone, na Avenue A.

— Trouxe café da manhã...

Sua voz falhou. Não sabia ao certo o que esperava que fosse acontecer quando seus autodeclarados guarda-costas percebessem que tinha saído escondido do apartamento. Definitivamente envolvia alguma variação da frase “tente outra vez e eu te mato”. O que não envolvia era Kyle e Jace sentados lado a lado no futon, parecendo melhores amigos. Kyle tinha um controle de videogame nas mãos e Jace estava inclinado para a frente, com os cotovelos nos joelhos, assistindo atentamente. Mal pareceram reparar na chegada de Simon.

— Aquele cara no canto está olhando para o outro lado — observou Jace, apontando para a tela da TV. — Um chute giratório acabaria com ele.

— Não posso chutar nesse jogo. Só atirar. Está vendo? — Kyle apertou alguns botões.

— Que idiotice. — Jace olhou para Simon e pareceu vê-lo pela primeira vez. — De volta da reunião matinal, percebo — disse, num tom não muito acolhedor. — Aposto que se achou muito esperto, fugindo daquele jeito.

— Meio esperto — reconheceu Simon. — Como um cruzamento entre George Clooney em Onze homens e um segredo e aqueles caras dos Caçadores de mitos, só que, você sabe, mais bonito.

— Sempre fico tão feliz por não saber do que está falando — falou Jace. — Me preenche com uma sensação de paz e bem-estar.

Kyle repousou o controle, deixando a tela congelada em um close de uma arma enorme estilo rifle.

— Aceito um bagel.

Simon jogou um para ele, que foi até a cozinha, separada da sala por uma longa bancada, para torrar e passar manteiga no pão. Jace olhou para o saco branco e o dispensou com um aceno.

— Não, obrigado.

Simon se sentou sobre a mesa de centro.

— Precisa comer alguma coisa.

— Olha quem fala.

— Estou sem sangue agora — explicou Simon. — A não ser que esteja oferecendo.

— Não, obrigado. Já passamos por isso, e acho que é melhor continuarmos apenas amigos. — O tom de Jace era levemente sarcástico, como sempre, mas a distância que estava, Simon conseguia ver o quanto estava pálido e com olheiras cinzentas. Os ossos do rosto pareciam mais proeminentes do que antes.

— Sério — disse Simon, empurrando o saco pela mesa em direção a Jace. — Precisa comer alguma coisa. Não estou brincando.

Jace olhou para o saco de comida e fez uma careta. Suas pálpebras estavam cinza-azuladas de exaustão.

— Só de pensar fico enjoado, para ser sincero.

— Você pegou no sono ontem à noite — disse Simon. — Quando deveria estar tomando conta de mim. Sei que essa história de guarda-costas é mais uma brincadeira para você, mas mesmo assim. Há quanto tempo não dorme?

— Tipo, a noite inteira? — Jace considerou. — Duas semanas. Talvez três.

O queixo de Simon caiu.

— Por quê? Quero dizer, o que está acontecendo?

Jace deu um meio sorriso.

— Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito, se não estivesse tendo pesadelos.

— Essa eu conheço. Hamlet. Então está dizendo que não consegue dormir porque vem tendo pesadelos?

— Vampiro — disse Jace, com uma certeza exaurida —, você nem imagina.

— Ei. — Kyle reapareceu e sentou na poltrona cheia de protuberâncias. Mordeu um pedaço do pão. — O que está rolando?

— Fui encontrar com Luke — relatou Simon, e explicou o que tinha acontecido, não vendo motivo para esconder. Não mencionou nada sobre o fato de que Camille o queria não só por ser um Diurno, mas também por causa da Marca de Caim. Kyle assentiu assim que terminou.

— Luke Garroway. Líder do bando da cidade. Já ouvi falar nele. É poderoso.

— O verdadeiro nome dele não é Garroway — disse Jace. — Ele era um Caçador de Sombras.

— Certo. Ouvi isso também. E agora contribuiu para os novos Acordos e tudo mais. — Kyle olhou para Simon. — Você conhece pessoas importantes.

— Pessoas importantes trazem grandes problemas — afirmou Simon. — Camille, por exemplo.

— Quando Luke contar para Maryse o que está acontecendo, a Clave cuidará dela — disse Jace. — Existem protocolos para lidar com os trapaceiros do Submundo. — Com isso, Kyle olhou de lado para ele, mas Jace não pareceu notar. — Já disse que não acho que ela esteja tentando te matar. Ela sabe... — Jace se interrompeu. — Ela sabe que é melhor não.

— Além disso, quer usar você — completou Kyle.

— Bom argumento — disse Jace. — Ninguém vai apagar um recurso valioso.

Simon olhou de um para o outro e balançou a cabeça.

— Quando foi que ficaram tão amiguinhos? Ontem à noite estavam todos “sou o maior guerreiro de elite!”, “não, eu sou o maior guerreiro de elite!”, e hoje estão jogando Halo e se cumprimentando por boas ideias.

— Percebemos que temos algo em comum — respondeu Jace. — Você irrita os dois.

— Por falar nisso, me ocorreu uma coisa — revelou Simon. — Mas acho que nenhum dos dois vai gostar.

Kyle ergueu as sobrancelhas.

— Vamos ver.

— O problema de me observarem o tempo todo — disse Simon — é que assim os sujeitos que estão tentando me matar não tentarão mais, e se não tentarem mais, não saberemos quem são. Além disso, terão que ficar de olho em mim o tempo todo. E presumo que tenham outras coisas que prefiram fazer. Bem — acrescentou na direção de Jace —, talvez você não tenha.

— Então? — indagou Kyle. — Qual é a sua sugestão?

—Vamos atraí-los. Fazer com que ataquem novamente. Tentamos capturar um deles para descobrir quem está por trás.

— Se bem me lembro — declarou Jace —, tive essa ideia no outro dia... e você não gostou muito.

— Eu estava cansado — falou Simon. — Mas andei pensando. E pela minha experiência com malfeitores até agora, sei que eles não vão embora só porque você resolveu ignorá-los. Continuam vindo de outras maneiras. Então, ou faço com que venham até mim logo ou passo a eternidade esperando que ataquem novamente.

— Estou dentro — disse Jace, apesar de Kyle ainda não parecer convencido. — Então quer sair e vagar por aí até que apareçam novamente?

— Pensei em facilitar para eles. Aparecer onde todos sabem que devo estar.

— Quer dizer...? — perguntou Kyle.

Simon apontou para o flyer na geladeira. millenium lint, 16 de outubro, alto bar, brooklyn, 21h.

— Estou falando do show. Por que não? — Ainda estava com uma dor de cabeça muito forte, mas afastou-a, tentando não pensar no quanto estava exausto ou em como sobreviveria ao show. Precisava conseguir mais sangue de algum jeito. Precisava.

Os olhos de Jace estavam brilhando.

— Sabe, até que é uma bela ideia, vampiro.

— Quer que te ataquem no palco? — perguntou Kyle.

— Deixaria o show bem interessante — disse Simon, com mais bravata do que sentia.

A ideia de ser atacado mais uma vez era mais do que podia suportar, mesmo que não temesse por sua segurança pessoal. Não sabia se conseguia aguentar ver a Marca de Caim em ação novamente.

Jace balançou a cabeça.

— Eles não atacam em público. Vão esperar até depois do show. E estaremos lá para lidar com eles.

Kyle balançou a cabeça.

— Não sei...

Fizeram mais algumas rodadas, Jace e Simon de um lado da discussão e Kyle do outro. Simon sentiu um pouco de culpa. Se Kyle soubesse sobre a Marca, seria muito mais fácil persuadi-lo. Eventualmente cedeu à pressão e relutantemente concordou com o que, continuava insistindo, se tratava de um “plano idiota”.

— Mas — falou afinal, levantando-se e limpando farelos de pão da camisa — só estou concordando porque sei que vão fazer o que querem, comigo concordando ou não. Então é melhor que eu esteja lá. — Olhou para Simon. — Quem diria que protegê-lo de si mesmo seria tão difícil?

— Eu poderia ter te dito isso — afirmou Jace, enquanto Kyle vestia um casaco e ia para a porta. Aparentemente ele era de fato um mensageiro; o Pretor Lupus, apesar do nome poderoso, não pagava tão bem. A porta se fechou atrás dele e Jace voltou-se novamente para Simon. — Então, o show é às nove, certo? O que faremos com o resto do dia?

— O que faremos? — Simon o olhou, incrédulo. — Alguma hora pretende ir para casa?

— O quê, já está entediado com a minha companhia?

— Deixa eu fazer uma pergunta — continuou Simon. — Me acha uma pessoa fascinante de se ter por perto?

— Como? — perguntou Jace. — Desculpe, acho que caí no sono por um instante. Por favor, continue com qualquer que seja a coisa memorável que estava falando.

— Pare — disse Simon. — Pare de ser sarcástico por um segundo. Não está comendo, não está dormindo. Sabe quem mais não está fazendo nada disso? Clary. Não sei o que está acontecendo entre vocês, porque, francamente, ela não me contou nada. Presumo que ela também não queira conversar a respeito. Mas está bastante claro que estão brigados. E se vai terminar com ela...

— Terminar com ela? — Jace o encarou. — Está louco?

— Se continuar a evitá-la — rebateu Simon —, ela vai terminar com você.

Jace se levantou. O relaxamento de antes desapareceu; estava inteiramente tenso agora, como um gato caçando. Foi até a janela e mexeu na cortina, ansioso, a luz do fim da manhã entrando pelo buraco e clareando os olhos dele.

— Tenho motivo para as coisas que faço — falou afinal.

— Ótimo — respondeu Simon. — Clary conhece estes motivos?

Jace não disse nada.

— Tudo o que ela faz é te amar e confiar em você — observou Simon. — Deve a ela...

— Existem coisas mais importantes do que honestidade — replicou Jace. — Acha que gosto de machucá-la? Pensa que gosto de saber que estou deixando Clary irritada, talvez fazendo com que me odeie? Por que acha que estou aqui? — Olhou para Simon com uma espécie de raiva fria. — Não posso estar com ela — declarou. — E se não posso estar com ela, pouco me importa onde estou. Posso muito bem ficar com você, pois se pelo menos ela soubesse que estou tentando te proteger, talvez ficasse feliz.

— Então está tentando deixá-la feliz mesmo sabendo que o motivo pelo qual ela está infeliz é você — disse Simon, sem muita gentileza. — Parece contraditório, não?

— O amor é uma contradição — respondeu Jace, e se virou novamente para a janela.