Cidade dos Anjos Caídos

Cassandra Clare · Capítulo 14 de 22

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Cidade dos Anjos Caídos

11 | Nossa Espécie

11

Nossa Espécie

 

O demônio avançou para Clary e ela parou de gritar abruptamente, se jogando para trás por cima do altar — um salto perfeito, e por um instante bizarro desejou que Jace estivesse ali para ver. Caiu no chão agachada, exatamente no momento em que algo atingiu com força o chão, fazendo a pedra vibrar.

Um uivo ressoou através da igreja. Clary se ajoelhou desajeitadamente e espiou por sobre a beira do altar. O demônio não era tão grande quanto pareceu inicialmente, mas também não era pequeno — mais ou menos do tamanho de uma geladeira, com três cabeças em caules oscilantes. As cabeças eram cegas, com mandíbulas enormes abertas das quais se dependuravam fios esverdeados de saliva. O demônio parecia ter batido a cabeça esquerda no altar quando tentou agarrá-la, pois estava balançando-a para frente e para trás como se tentasse clarear os pensamentos.

Clary olhou para cima descontroladamente, mas as figuras de cinza continuavam no lugar. Nenhuma delas se mexeu. Pareciam observar tudo que se passava com um interesse alheio. Girou e olhou para trás, mas ao que tudo indicava, não havia saída da igreja além da porta pela qual entrara. Percebendo que estava desperdiçando segundos preciosos, levantou-se e agarrou o athame. Arrancou-o do altar e desviou para trás na hora em que o demônio tentou atacar novamente. Clary rolou para o lado enquanto uma cabeça, balançando sobre um pescoço espesso, mirou o altar, com a língua preta para fora, procurando por ela. Com um grito, enfiou o athame no pescoço da criatura e então o soltou, recuando e saindo do caminho.

A coisa gritou, a cabeça sacudindo para trás, sangue negro espirrando do machucado que Clary provocara. Mas não foi um ataque mortal. Mesmo enquanto a menina observava, o ferimento começou a se curar lentamente, a carne verde enegrecida se remendando como um tecido sendo costurado. Seu coração despencou. Claro. A razão pela qual os Caçadores de Sombras utilizavam armas com símbolos, era porque eles impediam que demônios se curassem.

Pegou a estela no cinto com a mão esquerda, soltando-a exatamente quando o demônio atacou outra vez. Saltou para o lado e se jogou dolorosamente pelas escadas, rolando até chegar à primeira fila de bancos. O demônio se virou, arrastando-se um pouco ao se mover, então avançou outra vez. Percebendo que ainda estava agarrando a estela e a adaga — aliás, a adaga a cortara em algum momento enquanto rolava, e o sangue estava manchando rapidamente a frente do casaco — transferiu a adaga para a mão esquerda, a estela para a direita e, com uma velocidade desesperada, talhou um símbolo enkeli no cabo do athame.

Os outros símbolos no cabo começaram a derreter e escorrer enquanto o símbolo do poder angelical se firmava. Clary levantou o olhar; o demônio estava quase chegando, as três cabeças a alcançando, bocas abertas. Levantando-se, impulsionou o braço para trás e jogou a adaga com toda força. Para sua grande surpresa, atingiu a cabeça do meio em cheio, afundando até o cabo. A cabeça se debateu enquanto o demônio berrava — Clary sentiu o coração na garganta — e em seguida a cabeça simplesmente caiu, atingindo o chão com uma batida horrorosa. O demônio continuou avançando mesmo assim, agora arrastando a cabeça morta e flácida atrás de si enquanto se aproximava de Clary.

O ruído de muitos passos veio de cima. Clary olhou. As figuras de roupa cinza tinham desaparecido, e as galerias ficaram vazias. A visão não a tranquilizou. Com o coração batendo desgovernadamente no peito, Clary se virou e correu para a porta da frente, mas o demônio foi mais veloz. Com um rugido de esforço, ele se lançou por cima dela e aterrissou diante da porta, bloqueando a saída. Emitindo um ruído sibilado, foi na direção dela e levantou, se erguendo ao máximo para atacar...

Alguma coisa brilhou pelo ar, uma chama certeira de ouro prateado. As cabeças dos demônios giraram; o silvo elevou-se a um grito, mas era tarde demais — a coisa prateada que as envolvera puxou com firmeza e, com um esguicho de sangue preto, as duas cabeças remanescentes foram decepadas. Clary rolou para fora do caminho enquanto o sangue respingava nela, queimando a pele. Em seguida desviou a cabeça quando o corpo sem cabeça cambaleou e caiu na direção dela...

E desapareceu. Enquanto sucumbia, o demônio sumiu, sugado de volta à própria dimensão. Clary levantou a cabeça cautelosamente. As portas da igreja estavam abertas, e na entrada estava Isabelle, de botas e vestido preto, com o chicote de electrum na mão. Enrolava-o com cuidado no pulso, olhando em volta ao fazê-lo, as sobrancelhas escuras aproximadas em uma carranca de curiosidade. Ao fixar o olhar em Clary, sorriu.

— Caramba, garota — disse. — No que foi se meter dessa vez?

O toque das mãos dos serventes da vampira na pele de Simon era frio e leve, como o toque de asas geladas. Ele estremeceu em pouco ao desenrolarem a venda de sua cabeça, sentindo as peles secas e ásperas contra a dele, antes de recuarem, curvando-se em reverência ao fazerem.

Olhou em volta, piscando. Há poucos instantes estava à luz do sol, na esquina da 78th Street com a Second Avenue — a uma distância grande o suficiente do Instituto para julgar seguro utilizar a terra de cemitério para entrar em contato com Camille sem levantar suspeitas. Agora estava em um recinto mal-iluminado, bastante amplo, com chão liso de mármore e pilares elegantes que sustentavam um teto alto. Ao longo da parede esquerda corria uma fileira de cubículos com frentes de vidro, cada qual com uma placa de bronze pendurada que dizia caixa . Outra placa metálica na parede dizia que este era o douglas national bank. Camadas espessas de poeira se acumulavam sobre o chão e os balcões, outrora utilizados por pessoas que passavam cheques ou recibos de saques, e os lustres de base metálica que se penduravam do teto estavam cobertos de verdete.

No centro da sala havia uma poltrona alta, e na cadeira sentava-se Camille. Os cabelos louro-prateados estavam soltos e desciam sobre os ombros como fios de prata. O rosto belo não tinha maquiagem, mas os lábios ainda estavam muito vermelhos. Na escuridão do banco, era quase a única cor que Simon conseguia enxergar.

— Normalmente não concordaria com um encontro durante o dia, Diurno — comentou ela. — Mas como é você, abri uma exceção.

— Obrigado. — Notou que não havia cadeira para ele, então continuou de pé, desajeitadamente. Se seu coração ainda batesse, pensou, estaria a mil por hora. Quando concordou em fazer isso pelo Conclave, tinha se esquecido do quanto Camille o assustava. Talvez não tivesse a menor lógica (o que ela poderia, afinal, fazer com ele?), mas era um fato.

— Presumo que isto signifique que considerou minha oferta — disse Camille. — E que aceitou.

— O que a faz pensar que aceitei? — questionou Simon, torcendo muito para que ela não atribuísse a fatuidade da pergunta ao fato de que ele estava tentando ganhar tempo.

A vampira aparentava uma ligeira impaciência.

— Dificilmente comunicaria em pessoa a decisão de me recusar. Teria medo do meu temperamento.

— Devo temer seu temperamento?

Camille recostou-se na cadeira, sorrindo. A cadeira parecia moderna e luxuosa, diferente de tudo no banco abandonado. Devia ter sido trazida de outro lugar, provavelmente pelos servos de Camille, que no momento estavam um de cada lado, como estátuas silenciosas.

— Muitos temem — respondeu. — Mas você não tem motivo para isso. Estou muito satisfeita com você. Apesar de ter esperado até o último segundo para entrar em contato, sinto que tomou a decisão certa.

O telefone de Simon escolheu aquele instante para começar a vibrar insistentemente. Ele deu um pulo, sentindo uma gota de suor frio descendo pela coluna, em seguida pescou o aparelho do bolso da jaqueta apressadamente.

— Desculpe — disse, abrindo-o. — Telefone.

Camille ficou horrorizada.

— Não atenda.

Simon começou a levantar o aparelho para o ouvido. Ao fazê-lo, conseguiu apertar o botão da câmera diversas vezes.

— Não vai levar nem um segundo.

— Simon.

Apertou o botão para enviar e em seguida fechou o telefone rapidamente.

— Desculpe. Não pensei.

O peito de Camille subia e descia de raiva, apesar de ela não respirar.

— Exijo mais respeito dos meus serventes — sibilou. — Jamais fará isso outra vez, senão...

— Senão o quê? — perguntou Simon. — Não pode me machucar mais do que qualquer outro. E me falou que eu não seria um servente. Disse que seria um parceiro. — Fez uma pausa, para dar o tom certo de arrogância à voz. — Talvez deva repensar minha aceitação.

Os olhos de Camille escureceram.

— Ora, pelo amor de Deus. Não seja tolo.

— Como consegue falar essa palavra? — Simon exigiu saber.

Camille ergueu uma sobrancelha delicada.

— Que palavras? Não gostou que o chamasse de tolo?

— Sim. Bem, não, mas não foi isso que quis dizer. Você falou “ora, pelo amor de...” — interrompeu-se, a voz falhando. Ainda não conseguia pronunciar. Deus.

— Porque não acredito nele, bobinho — respondeu Camille. — E você ainda acredita. — Inclinou a cabeça para o lado, olhando para ele como um pássaro olharia para uma minhoca na calçada que considerasse comer. — Acho que talvez seja hora de um juramento de sangue.

— Um... juramento de sangue? — Simon ficou imaginando se tinha escutado direito.

— Esqueço que seu conhecimento sobre os costumes da nossa espécie é muito limitado. — Camille balançou os cabelos prateados. — Farei com que assine um juramento, com sangue, de que é leal a mim. Evitará que me desobedeça no futuro. Considere como uma espécie de... acordo pré-nupcial. — Sorriu, e Simon pôde ver o brilho dos caninos. — Venha. — Estalou os dedos imperiosamente, e os capangas foram até ela, as cabeças cinzentas abaixadas. O primeiro que a alcançou entregou algo que parecia uma caneta antiquada de vidro, do tipo que tinha uma ponta de espiral feita para reter tinta. — Terá que se cortar e tirar o próprio sangue — instruiu Camille. — Normalmente eu mesma faria isso, mas a Marca me impede. Portanto, teremos que improvisar.

Simon hesitou. Aquilo era ruim. Muito ruim. Conhecia o suficiente do mundo sobrenatural para saber o que juramentos significavam no Submundo. Não eram apenas promessas vazias que podiam ser quebradas. Eles prendiam as pessoas de verdade, como algemas virtuais. Se assinasse o juramento, realmente seria leal a Camille. Possivelmente por toda a eternidade.

— Venha — disse Camille, uma pontinha de impaciência surgindo na voz. — Não há necessidade de perder tempo.

Engolindo em seco, Simon deu um passo muito relutante para a frente, e depois mais um. Um servente se colocou diante dele, bloqueando a passagem. Estava estendendo uma faca a Simon, um objeto de aparência perversa, com uma lâmina afiada. Simon a pegou e a levantou sobre o pulso. Então o abaixou.

— Sabe — comentou —, não sou muito fã de sentir dor. Ou de facas...

— Faça — rugiu Camille.

— Tem que haver outra maneira.

Camille se ergueu da cadeira, e Simon viu que as presas estavam completamente expostas. Estava realmente enfurecida.

— Se não parar de desperdiçar meu tempo...

Ouviu-se uma leve implosão, um ruído como algo imenso rasgando no meio. Um painel brilhante apareceu na parede oposta. Camille se virou na direção dele, os lábios abrindo-se em choque ao ver o que era. Simon sabia que ela reconhecia, assim como ele. Só podia ser uma coisa.

Um Portal. E, por ele, pelo menos uma dúzia de Caçadores de Sombras entrava.

— Tudo bem — disse Isabelle, guardando o kit de primeiros socorros com um gesto rápido. Estavam em um dos muitos quartos vazios do Instituto, destinados a membros visitantes da Clave. Cada um contava com uma cama, uma cabeceira e um armário, além de um pequeno banheiro. E, claro, cada qual era equipado com um kit de primeiros socorros: ataduras, cataplasmas e até estelas extras. — Já está muito “iratzada”, mas vai demorar até que alguns destes machucados desapareçam. E estas — passou a mão sobre as queimaduras no antebraço de Clary, onde o sangue do demônio havia respingado — provavelmente não desaparecerão por completo até amanhã. Mas se descansar, vão se curar mais depressa.

— Tudo bem. Obrigada, Isabelle. — Clary olhou para as mãos; a direita estava envolta em ataduras, e a camisa ainda estava rasgada e suja de sangue, apesar de os símbolos de Izzy terem curado os cortes abaixo. Supunha que pudesse ter feito os iratzes sozinha, mas era bom ter alguém que cuidasse dela, e Izzy, apesar de não ser a pessoa mais calorosa que Clary conhecia, era capaz e gentil quando queria. — E obrigada por aparecer e, você sabe, salvar a minha vida do que quer que aquilo fosse...

— Um demônio Hydra. Já disse. Eles têm muitas cabeças, mas são muito burros. E você não estava se saindo tão mal quando apareci. Gostei do que fez com o athame. Pensou bem sob pressão. Isso é tão parte de ser Caçadora de Sombras quanto aprender a abrir buracos com socos. — Isabelle foi para a cama ao lado de Clary e suspirou. — É melhor eu ir e descobrir o que puder sobre a Igreja de Talto antes que o Conclave retorne. Talvez nos ajude a descobrir o que está acontecendo. A coisa do hospital, os bebês... — Ela estremeceu. — Não gosto disso.

Clary havia revelado a Isabelle o máximo possível sobre as razões pelas quais tinha ido à igreja, até mesmo sobre o bebê demônio no hospital, apesar de ter fingido que a desconfiança partira dela, deixando a mãe de fora. Isabelle pareceu nauseada quando Clary descreveu que o bebê parecia normal, exceto pelos olhos negros e as garras no lugar das mãos.

— Acho que estavam tentando fazer outro bebê como... como o meu irmão. Acho que fizeram a experiência em uma pobre mundana — opinou Clary. — Mas ela não aguentou quando a criança nasceu e enlouqueceu. Mas... quem faria uma coisa assim? Um dos seguidores de Valentim? Os que não foram capturados, talvez tentando continuar com a obra dele?

— Talvez. Ou simplesmente uma seita de adoração demoníaca. Existem muitos. Apesar de eu não conseguir imaginar por que alguém ia querer fazer mais criaturas como Sebastian. — A voz assumiu um tom de ódio ao pronunciar o nome dele.

— O nome dele na verdade é Jonathan...

— Jonathan é o nome de Jace — afirmou Isabelle duramente. — Não vou chamar aquele monstro pelo nome do meu irmão. Para mim será sempre Sebastian.

Clary precisava admitir que Isabelle tinha uma bom argumento. Também tinha dificuldades de pensar nele como Jonathan. Supunha que não fosse justo com o verdadeiro Sebastian, mas ninguém o conheceu. Era mais fácil atribuir o nome de um estranho ao filho maldoso de Valentim do que se referir a ele de uma forma que o deixasse mais próximo de sua família, de sua vida.

Isabelle conversava com leveza, mas Clary sabia que a mente da amiga estava trabalhando, percorrendo diversas possibilidades:

— Seja como for, fiquei feliz que tenha me mandado uma mensagem naquela hora. Deu para perceber que alguma coisa estranha estava rolando, e para ser sincera, eu estava entediada. Todo mundo saiu para alguma função secreta com o Conclave, e eu não queria ir, porque Simon vai estar lá, e eu o detesto agora.

— Simon está com o Conclave? — Clary se espantou. Tinha percebido que o Instituto parecia mais vazio do que o normal quando chegaram. Jace, é claro, não estava lá, mas ela não esperava que fosse estar, apesar de não saber o porquê. — Falei com ele hoje de manhã, mas não me contou nada sobre fazer alguma coisa para eles —acrescentou ela.

Isabelle deu de ombros.

— Tem alguma coisa a ver com política de vampiros. É tudo que sei.

— Acha que ele está bem?

Isabelle soou exasperada.

— Ele não precisa mais de sua proteção, Clary. Tem a Marca de Caim. Poderia ser bombardeado, levar um tiro, ser afogado e esfaqueado que continuaria bem. — Olhou severamente para Clary. — Percebi que não me perguntou por que odeio o Simon — declarou. — Presumo que soubesse da vida dupla?

— Sabia — admitiu Clary. — Desculpe.

Isabelle dispensou a confissão com um aceno.

— Você é a melhor amiga dele. Seria estranho se não soubesse.

— Deveria ter contado — disse Clary. — É que... nunca tive a impressão de que você levasse tão a sério a história com Simon, sabe?

Isabelle franziu o rosto.

— Não levava. É que... pensei que ele fosse levar a sério, pelo menos. Considerando que sou muita areia para o caminhãozinho dele e tudo mais. Acho que esperava mais dele do que espero de outros caras.

— Talvez — respondeu Clary, baixinho — Simon não devesse sair com alguém que se acha tão melhor do que ele. — Isabelle olhou para Clary, que se sentiu enrubescendo. — Desculpe. Seu relacionamento não é da minha conta.

Isabelle estava enrolando o cabelo em um coque, algo que fazia quando estava tensa.

— Não, não é. Quero dizer, poderia perguntar por que me mandou a mensagem pedindo para encontrá-la na igreja, em vez de para Jace, mas não disse nada. Não sou burra. Sei que tem alguma coisa errada entre vocês, independentemente das sessões passionais de beijos em becos. — Lançou em olhar cheio de significado para Clary. — Vocês já dormiram juntos?

Clary sentiu o sangue fluir para o próprio rosto.

— O quê... Quero dizer, não, mas não sei o que isso tem a ver.

— Não tem nada a ver — respondeu Isabelle, afagando o cabelo no lugar. — Apenas curiosidade lúbrica. Qual é o empecilho?

— Isabelle... — Clary ergueu os joelhos, abraçou-os e suspirou. — Nenhum. Só estamos indo devagar. Eu nunca... você sabe.

— Jace já — relatou Isabelle. — Digo, presumo que sim. Não tenho certeza. Mas se algum dia precisar de alguma coisa... — Deixou a frase pairando no ar.

— Precisar de alguma coisa?

— Proteção. Você sabe. É bom tomar cuidado — disse Isabelle. Falava com tanta praticidade como se conversasse sobre botões extras. — O Anjo poderia ter sido suficientemente presciente e nos dar um símbolo anticoncepcional, mas não.

— Claro que eu seria cuidadosa — balbuciou Clary, sentindo as bochechas ruborizarem. — Mas chega. Isso é muito constrangedor.

— Isso é conversa de meninas — afirmou Isabelle. — Só acha que é constrangedor porque passou a vida inteira tendo Simon como único amigo. E não pode conversar com ele sobre Jace. Isso seria constrangedor.

— E Jace não disse nada? Sobre o que está incomodando ele? — perguntou Clary, com a voz baixa. — Jura?

— Não precisou — respondeu Isabelle. — A maneira como você vem agindo, e com Jace andando por aí como se alguém tivesse acabado de morrer, não tinha como deixar de notar que algo estava errado. Devia ter vindo conversar comigo antes.

— Ele está bem, pelo menos? — perguntou Clary, bem baixinho.

Isabelle se levantou da cama e olhou para ela.

— Não — disse. — Não está nada bem. E você?

Clary balançou a cabeça.

— Não pensei que estivesse — concluiu Isabelle.

Para surpresa de Simon, Camille, ao ver os Caçadores de Sombras, nem tentou se defender. Gritou e correu para a porta, apenas para congelar ao perceber que estava dia lá fora, e que sair do banco a incineraria rapidamente. Ela exclamou e se encolheu em uma parede, os caninos expostos, um sussurro baixo vindo da garganta.

Simon recuou enquanto os Caçadores de Sombras se agrupavam ao redor, todos vestidos de preto como um bando de corvos; ele viu Jace, a face pálida e dura como mármore branco, cortar com uma espada um dos serventes humanos ao passar por ele, com a casualidade de um pedestre matando uma mosca. Maryse foi na frente, os cabelos negros esvoaçantes fazendo Simon se lembrar de Isabelle. Ela despachou o segundo capanga encolhido com um movimento chicoteado da lâmina serafim, e avançou para cima de Camille, a lâmina brilhante esticada. Jace estava ao lado dela, e outro Caçador de Sombras — um homem alto com símbolos pretos se enroscando como vinhas nos antebraços —, do outro.

O restante havia se espalhado, todos revistando o banco, varrendo-o com aquelas coisas estranhas que utilizavam — Sensores — e verificando cada canto à procura de atividade demoníaca. Ignoraram os corpos dos serventes humanos de Camille, deitados imóveis sob as piscinas de sangue que já secavam. Também ignoraram Simon. Podia ser apenas mais um pilar, a julgar pela atenção dispensada a ele.

— Camille Belcourt — disse Maryse, a voz ecoando nas paredes de mármore. — Você transgrediu a Lei e está sujeita aos castigos dela. Vai se render e vir conosco ou lutar?

Camille estava chorando, sem fazer qualquer tentativa de cobrir as lágrimas tingidas de sangue. Elas marcavam o rosto pálido com linhas vermelhas enquanto soluçava.

— Walker... e meu arqueiro...

Maryse se espantou. Virou-se para o homem à esquerda.

— Do que ela está falando, Kadir?

— Dos serventes humanos — respondeu. — Acho que está pranteando as mortes.

Maryse acenou com indiferença.

— É contra a Lei tornar humanos serventes.

— Os fiz antes de os integrantes do Submundo serem submetidos às suas malditas leis, sua vaca. Estavam comigo há duzentos anos. Eram como filhos para mim.

A mão de Maryse se apertou sobre o cabo da lâmina.

— O que sabe sobre filhos? — sussurrou. — O que a sua espécie sabe a respeito de qualquer coisa além de destruição?

O rosto sujo de lágrimas de Camille brilhou com triunfo por um instante.

— Eu sabia — disse ela. — O que quer que diga, independentemente das mentiras que conte, detesta a nossa espécie. Não é mesmo?

O rosto de Maryse se enrijeceu.

— Peguem-na — ordenou. — Levem-na ao Santuário.

Jace foi rapidamente até Camille e a segurou; Kadir pegou o outro braço. Juntos, prenderam-na entre eles.

— Camille Belcourt, você está sendo acusada de homicídio de humanos — entoou Maryse. — E do homicídio de Caçadores de Sombras. Será conduzida ao Santuário, onde passará por interrogatório. A pena pelo assassínio de Caçadores de Sombras é a morte, mas é possível que, caso colabore conosco, tenha a vida poupada. Entendeu? — inquiriu Maryse.

Camille balançou a cabeça desafiadoramente.

— Só respondo a um homem — afirmou. — Se não o trouxer até mim, não direi nada. Pode me matar, mas não digo nada.

— Muito bem — disse Maryse. — Que homem é esse?

Camille mostrou os dentes.

— Magnus Bane.

— Magnus Bane? — Maryse pareceu estarrecida. — O Alto Feiticeiro do Brooklyn? Por que deseja falar com ele?

— Responderei a ele — repetiu Camille. — Ou não respondo a ninguém.

E assim foi. Não disse mais uma palavra. Enquanto a vampira era arrastada por Caçadores de Sombras, Simon assistia. Não se sentiu triunfante, como achou que se sentiria. Sentia-se vazio e estranhamente enjoado. Olhou para os corpos dos serventes assassinados; também não gostava muito deles, mas as criaturas não pediram para ser o que eram de fato. De certa forma, talvez nem Camille. Mas era um monstro para os Nephilim ainda assim. E talvez não apenas por ter matado Caçadores de Sombras; talvez não houvesse como pensarem nela como outra coisa.

Camille foi empurrada pelo Portal; Jace estava do outro lado, gesticulando impacientemente para que Simon os seguisse.

— Você vem ou não? — chamou.

O que quer que diga, independentemente das mentiras que conte, detesta a nossa espécie.

— Vou — respondeu Simon, e avançou com relutância.