Cidade dos Anjos Caídos

Cassandra Clare · Capítulo 18 de 22

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Cidade dos Anjos Caídos

15 | Beati Bellicosi

15

Beati Bellicosi

 

O interior dos Grilhões estava vivo com cordas de luzes multicoloridas. Vários dos convidados já estavam sentados, mas também havia muitos circulando, com taças de champanhe cheias do líquido claro e espumante nas mãos. Garçons — que também eram lobisomens, Simon notou; todo o evento parecia equipado por membros do bando de Luke — passavam em meio aos convidados, entregando flautas de champanhe. Simon recusou. Desde a experiência na festa de Magnus, não se sentia seguro bebendo nada que não tivesse preparado pessoalmente.

Maia estava perto de um dos pilares de tijolo, conversando com outros dois lobisomens e rindo. Trajava um vestido de cetim laranja brilhante que realçava sua pele morena, e os cabelos formavam uma moldura de cachos castanho-dourados ao redor do rosto. Ela viu Simon e Jordan e virou de costas deliberadamente. A parte de trás do vestido tinha um decote em V profundo que deixava muita pele nua a mostra, incluindo uma tatuagem de borboleta na lombar.

— Acho que ela não tinha aquilo quando a conheci — disse Jordan. — A tatuagem.

Simon olhou para Jordan. Ele estava fitando a ex-namorada com uma espécie de nostalgia que Simon achou que faria com que Isabelle lhe desse um soco na cara se não fosse cuidadoso.

— Vamos — disse ele, colocando a mão nas costas de Jordan e empurrando levemente. — Vamos ver onde é nossa mesa.

Isabelle, que estava observando os dois por cima do ombro, deu um sorriso malicioso.

— Boa ideia.

Abriram caminho pela multidão até a área onde se situavam as mesas, apenas para descobrir metade delas já estava ocupada. Clary estava em um dos assentos, olhando para uma taça de champanhe cujo conteúdo parecia ser refrigerante. Ao lado estavam Alec e Magnus, ambos com os ternos escuros que usavam desde o retorno de Viena. Magnus parecia brincar com as franjas do cachecol branco. Alec, com os braços cruzados, olhava emburrado para o nada.

Clary, ao ver Simon e Jordan, se levantou, o alívio evidente em sua expressão.

Circulou a mesa para cumprimentar Simon, e ele viu que ela usava um vestido dourado de seda e sandálias baixas. Sem salto alto, parecia minúscula. O anel Morgenstern estava no pescoço, a prata brilhando contra a corrente que o sustentava. Esticou os braços para abraçá-lo e murmurou:

— Acho que Alec e Magnus estão brigando.

— É o que parece — murmurou ele de volta. — Cadê o seu namorado?

Com isso, soltou os braços do pescoço dele.

— Ficou preso no Instituto. — Virou-se. — Oi, Kyle.

Ele sorriu, meio sem jeito.

— É Jordan, na verdade.

— Fiquei sabendo. — Clary gesticulou para a mesa. — Bem, é melhor sentarmos. Logo logo vão começar os brindes e tudo mais. E depois, espero, a comida.

Todos se sentaram. Fez-se um silêncio longo e desconfortável.

— Então — disse Magnus afinal, passando um dedo branco e comprido na borda da taça de champanhe. — Jordan. Soube que faz parte do Praetor Lupus. Vejo que está com um dos medalhões. O que está escrito?

Jordan assentiu. Estava ruborizado, os olhos âmbar brilhando, a atenção, era claro, apenas parcialmente voltada para a conversa. Estava seguindo Maia com o olhar, os dedos se abrindo e fechando nervosamente da borda da toalha. Simon duvidava que Jordan tivesse consciência disso.

— Beati bellicosi: abençoados são os guerreiros.

— Bela organização — disse Magnus. — Conheci o fundador, no século XIX. Woolsey Scott. Uma antiga e respeitável família de lobisomens.

Alec emitiu um ruído feio com o fundo da garganta.

— Dormiu com ele também?

Os olhos felinos de Magnus se arregalaram.

— Alexander!

— Bem, não sei nada sobre o seu passado, sei? — indagou Alec. — Não me conta nada; só diz que não tem importância.

O rosto de Magnus estava sem expressão, mas havia um leve toque de irritação em sua voz.

— Isto quer dizer que cada vez que eu mencionar qualquer pessoa que tenha conhecido, vai me perguntar se tive um caso com ela?

A expressão de Alec era de teimosia, mas Simon não pôde deixar de se solidarizar um pouco; a dor por trás dos olhos azuis era clara.

— Talvez.

— Encontrei Napoleão uma vez — disse Magnus. — Mas não tivemos um caso. Surpreendentemente, ele era pudico para um francês.

— Conheceu Napoleão? — Jordan, que não aparentava estar acompanhando quase nada da conversa, pareceu impressionado. — Então é verdade o que dizem sobre feiticeiros, não?

Alec o olhou, desagradado.

— O que é verdade?

— Alexander — disse Magnus friamente, e Clary encontrou o olhar de Simon do outro lado da mesa. Os dela estavam arregalados, verdes e com uma expressão de Uh-oh. — Não pode ser grosso com todo mundo que falar comigo.

Alec fez um gesto largo e abrangente.

— E por que não? Estou atrapalhando seu estilo? Digo, talvez estivesse querendo flertar com o lobisomem aqui. Ele é bastante atraente, se gosta do tipo cabelos desgrenhados, ombros largos, bonitão.

— Ei, calma — disse Jordan levemente.

Magnus enterrou a cabeça entre as mãos.

— Ou então, há muitas meninas bonitas aqui, já que aparentemente seu gosto é amplo. Existe alguma coisa que você não curta?

— Sereias — respondeu Magnus entre os dedos. — Sempre têm cheiro de alga.

— Não tem graça — irritou-se Alec e, chutando a cadeira para trás, levantou-se e misturou-se à multidão.

Magnus ainda estava com a cabeça entre as mãos, os cabelos negros arrepiados atravessando os dedos.

— Só não entendo — disse a ninguém em particular — por que o passado tem que importar.

Para surpresa de Simon, foi Jordan quem respondeu.

— O passado sempre importa — declarou. — É o que lhe dizem quando se junta aos Praetor. Não pode esquecer o que fez no passado, ou jamais aprenderá com ele.

Magnus levantou o olhar, os olhos verde-dourados brilhando através dos dedos.

— Quantos anos você tem? — inquiriu. — Dezesseis?

— Dezoito — disse Jordan, parecendo ligeiramente assustado.

A idade de Alec, pensou Simon, suprimindo um sorriso interior. Não achava o drama de Alec e Magnus engraçado de verdade, mas era difícil não se sentir amargamente entretido com a expressão de Jordan. Ele devia ter o dobro do tamanho de Magnus — apesar de alto, Magnus era esguio quase a ponto de ser esquelético —, mas claramente temia o feiticeiro. Simon virou para trocar um olhar com Clary, mas ela estava olhando para a porta da frente, o rosto subitamente branco como osso. Derrubando o guardanapo na mesa, murmurou:

— Com licença. — E se levantou, praticamente correndo.

Magnus ergueu as mãos.

— Bem, se vai haver um êxodo em massa... — disse, e se levantou com graça, jogando o cachecol em torno do pescoço. Desapareceu na multidão, teoricamente procurando por Alec.

Simon olhou para Jordan, que estava fitando Maia outra vez. A menina estava de costas para eles, conversando com Luke e Jocelyn, rindo e jogando os cabelos cacheados para trás.

— Nem pense nisso — disse Simon, e se levantou. Então apontou para Jordan. — Fique aqui.

— Fazendo o quê? — quis saber Jordan.

— O que quer que Praetor Lupus façam nesta situação. Medite. Contemple seus poderes Jedi. Qualquer coisa. Volto em cinco minutos, e é melhor que ainda esteja aqui.

Jordan se inclinou para trás, cruzando os braços sobre o peito de um jeito claramente rebelde, mas Simon já tinha parado de prestar atenção. Virou e foi para a multidão, seguindo Clary. Ela era um pontinho vermelho e dourado entre os corpos em movimento, coroada pelos cabelos brilhantes.

Ele a alcançou perto de um dos pilares e colocou a mão no ombro da amiga, que se virou com uma expressão de espanto, olhos arregalados, a mão erguida como se fosse combatê-lo. Relaxou ao ver quem era.

— Você me assustou!

— Claramente — disse Simon. — O que está acontecendo? Por que está tão agitada?

— Eu... — Clary abaixou a mão, dando de ombros; apesar de forçar um olhar de despreocupação casual, a pulsação no pescoço parecia um martelo. — Achei que tivesse visto Jace.

— Foi o que imaginei — revelou. — Mas...

— Mas?

— Parecia muito assustada. — Não sabia ao certo por que falou aquilo, ou o que esperava que ela respondesse.

Clary mordeu o lábio, como sempre fazia quando estava nervosa. Por um instante seu olhar ficou distante; era um olhar familiar a Simon. Uma das coisas que sempre amou em Clary era a capacidade que ela tinha de se perder na própria imaginação, a facilidade em se distanciar em mundos ilusórios de maldições, príncipes, destinos e magia. Em outra época fora capaz de fazer o mesmo, de habitar universos imaginários muito mais emocionantes por serem seguros, por serem fictícios. Agora que o real e o imaginário haviam colidido, imaginava se ela, como ele, sentia saudades do passado, do normal. Imaginou se a normalidade seria algo como a visão ou o silêncio, que não se percebe ser algo precioso até que se perca.

— Ele está passando por um mau momento — contou, com a voz baixa. — Estou preocupada.

— Eu sei — disse Simon. — Veja, não quero me intrometer, mas... ele descobriu o que tem de errado? Alguém descobriu?

— Ele... — interrompeu-se. — Ele está bem. Só está tendo dificuldades para aceitar algumas coisas sobre Valentim. Você sabe.

Simon sabia. Também sabia que ela estava mentindo. Clary, que quase nunca escondia nada dele. Encarou-a severamente.

— Ele anda tendo pesadelos — continuou ela. — Ficou preocupado que houvesse algum envolvimento demoníaco...

— Envolvimento demoníaco? — repetiu Simon, incrédulo. Sabia que Jace vinha tendo pesadelos, ele mesmo havia revelado, mas nunca mencionara nada sobre demônios.

— Bem, aparentemente existem espécies de demônios que tentam atingi-lo através dos sonhos — disse Clary, parecendo lamentar ter tocado no assunto —, mas tenho certeza de que não é nada. Todo mundo tem pesadelos às vezes, não? — Colocou a mão no braço de Simon. — Só vou ver como ele está. Já volto. — Seu olhar já estava desviando dele, direcionando-se à porta que levava ao terraço; Simon recuou com um acenou de cabeça e deixou que ela fosse, observando-a enquanto adentrava a multidão.

Parecia tão pequena — pequena como no primeiro ano do fundamental, quando a levou até a porta de casa e a observou subindo as escadas, pequena e determinada, a merendeira batendo no joelho. Sentiu o coração, que não batia mais, se contrair, e ficou imaginando se havia alguma coisa no mundo tão dolorosa quanto não poder proteger as pessoas que amava.

— Parece péssimo — disse uma voz atrás dele. Era rouca, familiar. — Pensando na pessoa horrível que você é?

Simon se virou e viu Maia apoiada no pilar atrás dele. Tinha um fio das pequenas luzes brancas e brilhantes no pescoço e o rosto ruborizado pelo champanhe e o calor do recinto.

— Ou talvez devesse dizer — prosseguiu ela —, no vampiro horrível que você é. Exceto que assim parece que você é ruim em ser vampiro.

— Sou ruim em ser vampiro — disse Simon. — Mas isso não significa que eu também não seja ruim como namorado.

Maia deu um sorriso torto.

— O Morcego disse que eu não deveria ter sido tão dura com você — observou. — Disse que os homens fazem coisas estúpidas quando há meninas envolvidas. Principalmente os mais nerds que não tiveram tanta sorte com as mulheres anteriormente.

— É como se ele enxergasse a minha alma.

Maia balançou a cabeça.

— É difícil sentir raiva de você — revelou ela. — Mas estou tentando. — Virou-se de costas.

— Maia — disse Simon. Sua cabeça tinha começado a doer e ele estava um pouco tonto. No entanto, se não falasse com ela agora, não falaria mais. — Por favor. Espere.

Ela virou novamente e olhou para ele, as duas sobrancelhas elevadas de forma questionadora.

— Desculpe pelo que fiz — falou. — Sei que já disse isso antes, mas estou sendo sincero.

Ela deu de ombros, sem expressão, não oferecendo nada em troca.

Simon engoliu em seco, ignorando a dor de cabeça.

— Talvez o Morcego tenha razão — continuou ele. — Mas acho que é mais do que isso. Queria ficar com você porque, e isso vai soar muito egoísta, você fazia com que eu me sentisse normal. Como a pessoa que eu era antes.

— Sou licantrope, Simon. Não é exatamente normal.

— Mas você... você — disse, tropeçando um pouco nas palavras. — É espontânea e verdadeira, uma das pessoas mais verdadeiras que já conheci. Queria ir pra minha casa jogar Halo. Conversar sobre quadrinhos, ir a shows, sair para dançar e fazer coisas normais. Nunca me chamou de Diurno, ou vampiro, nem nada além de Simon.

— Essas são atividades de amiga — disse Maia. Estava apoiada no pilar outra vez, os olhos brilhavam suavemente enquanto falava. — Não de namorada.

Simon apenas olhou para ela. A dor de cabeça pulsava como um batimento cardíaco.

— Aí aparece — acrescentou — trazendo Jordan. O que passou pela sua cabeça?

— Isso não é justo — protestou Simon. — Não fazia ideia de que ele era seu ex...

— Eu sei. Isabelle me contou — interrompeu Maia. — Mas achei que devesse brigar por isso também.

— Ah, é? — Simon olhou para Jordan, que estava sentado sozinho à mesa redonda, como alguém cujo par do baile de formatura não tinha aparecido. E de repente se sentiu muito cansado; cansado de se preocupar com todo mundo, de sentir culpa pelas coisas que havia feito e que provavelmente faria no futuro. — Bem, a Izzy contou que ele escolheu trabalhar comigo para ficar perto de você? Precisava ouvir o jeito como pergunta de você. Até a forma como diz seu nome. Cara, o jeito que brigou comigo quando achou que eu estivesse te traindo...

— Não estava me traindo. Não éramos exclusivos. Traição é diferente...

Simon sorriu quando Maia parou de falar, enrubescendo.

— Acho que é bom que desgoste tanto de Jordan a ponto de ficar do meu lado contra ele independentemente de qualquer coisa — disse Simon.

— Faz muitos anos — disse ela. — Ele nunca tentou entrar em contato. Nenhuma vez.

— Tentou — revelou Simon. — Sabia que a noite em que te mordeu foi a primeira vez que ele se Transformou?

Maia balançou a cabeça, fazendo os cachos balançarem, os olhos escuros muito sérios.

— Não. Pensei que ele soubesse...

— Que era lobisomem? Não. Sabia que estava perdendo o controle de alguma forma, mas quem imagina que está virando um licantrope? Um dia após ter te mordido, foi procurá-la, mas os Praetor o contiveram. Mantiveram-no longe de você. E mesmo assim não deixou de procurá-la. Acho que não se passou um único dia nos últimos dois anos em que não tenha pensado sobre seu paradeiro...

— Por que está defendendo ele? — sussurrou Maia.

— Porque precisa saber — disse Simon. — Fui um péssimo namorado, e devo isso a você. Precisa saber que ele não teve a intenção de abandoná-la. Só me aceitou como tarefa porque seu nome foi mencionado nas anotações do meu caso.

Os lábios de Maia se abriram. Ao balançar a cabeça, as luzes brilhantes do colar piscaram como estrelas.

— Só não sei o que devo fazer com isso, Simon. O que devo fazer?

— Não sei — respondeu ele. Sentia como se pregos estivessem sendo martelados no crânio. — Mas posso dizer uma coisa. Sou o último sujeito a quem deveria pedir conselhos amorosos. — Apertou a mão contra a testa. — Vou lá fora. Respirar um pouco. Jordan está sentado ali se quiser falar com ele.

Apontou para as mesas e virou-se de costas, para longe dos olhos inquisidores, dos olhos de todos no recinto, do barulho das vozes elevadas e das risadas, e cambaleou para a porta.

Clary abriu as portas que levavam ao terraço e foi recebida por uma corrente de ar frio. Estremeceu, desejando que estivesse com o casaco, mas sem vontade de perder tempo voltando até a mesa para buscá-lo. Então saiu, fechando a porta.

O terraço era uma ampla área de ladrilho cercada por grades de ferro. Tochas esculpidas queimavam em grandes suportes de peltre, mas não ajudavam muito a aquecer o ar — o que provavelmente explicava por que ninguém além de Jace estava ali fora. Ele estava perto da grade, olhando para o rio.

Clary queria correr até ele, mas não conseguia deixar de hesitar. Ele usava um terno escuro, o blazer aberto sobre uma camisa branca e a cabeça estava virada para o lado, para longe dela. Nunca o tinha visto usando esse tipo de roupa, e o visual o deixava mais velho e reservado. A brisa do rio levantava seus cabelos claros, e ela viu a cicatriz do lado da garganta onde Simon o mordera uma vez, lembrando que Jace havia se deixado morder, arriscado a própria vida, por ela.

— Jace — disse ela.

Ele se virou, olhou para ela e sorriu. O sorriso era familiar e pareceu destrancar alguma coisa nela, libertando-a para correr pelos ladrilhos até ele e jogar os braços em volta de seu corpo. Ele a pegou, segurando-a um pouco acima do chão por um bom tempo, o rosto enterrado em seu pescoço.

— Você está bem — disse Clary afinal quando ele a colocou no chão. Ela esfregou ferozmente as lágrimas que haviam escapado dos olhos. — Digo, os Irmãos do Silêncio não o liberariam se não estivesse bem, mas pensei que tivessem dito que o ritual ia demorar? Dias, até?

— Não demorou. — Ele colocou as mãos uma de cada lado do rosto e sorriu para ela. Atrás dele a Queensboro Bridge erguia-se sobre a água. — Conhece os Irmãos do Silêncio. Gostam de exagerar sobre tudo o que fazem. Mas na verdade a cerimônia é bem simples. — Jace sorriu. — Me senti um pouco tolo. É uma cerimônia para criancinhas, mas fiquei pensando que se acabasse depressa, poderia vê-la com seu vestido sexy de festa. Foi o que me fez aguentar. — Seus olhos percorreram Clary da cabeça aos pés. — E vou te contar, não me decepcionei. Você está linda.

— Você também está muito bonito. — Clary riu um pouco em meio às lágrimas. — Nem sabia que tinha um terno.

— Não tinha. Precisei comprar. — Passou os dedos pelas maçãs do rosto de Clary, onde as lágrimas o haviam molhado. — Clary...

— Por que veio aqui para fora? — perguntou ela. — Está um gelo. Não quer voltar lá para dentro?

Ele balançou a cabeça.

— Queria falar com você a sós.

— Então fale — disse Clary, quase sussurrando. Tirou as mãos dele do rosto e as colocou na sua cintura. A necessidade de ser abraçada por ele era quase sufocante. — Mais algum problema? Você vai ficar bem? Por favor, não me esconda nada. Depois de tudo que aconteceu, deve saber que aguento qualquer notícia ruim. — Sabia que estava tagarelando de nervoso, mas não conseguia evitar. Seu coração parecia bater a mil quilômetros por minuto. — Só quero que fique bem — disse, o mais calmamente que conseguiu.

Os olhos dourados de Jace escureceram.

— Não paro de olhar aquela caixa. A que era do meu pai. Não sinto nada. As cartas, as fotos. Não sei quem eram aquelas pessoas. Não parecem reais para mim. Valentim era real.

Clary piscou; não era o que esperava que ele dissesse.

— Lembra, eu disse que ia demorar...

Ele não pareceu escutar.

— Se eu realmente fosse Jace Morgenstern, me amaria assim mesmo? Se eu fosse Sebastian, me amaria?

Clary apertou as mãos de Jace.

— Você jamais seria assim.

— Se Valentim tivesse feito comigo o que fez com Sebastian, você me amaria?

Tinha uma urgência na pergunta que Clary não compreendia. Ela disse:

— Mas aí não seria você.

A respiração dele falhou, quase como se o que ela disse o tivesse machucado — mas como poderia? Era verdade. Ele não era como Sebastian. Ele era ele.

— Não sei quem sou — disse Jace. — Me olho no espelho e vejo Stephen Herondale, mas me comporto como um Lightwood e falo como meu pai, como Valentim. Então vejo quem sou aos seus olhos e tento ser essa pessoa, porque você tem fé nessa pessoa, e acho que a fé pode bastar para fazer de mim o que você quer.

— Já é o que quero. Sempre foi — disse Clary, mas não conseguia se livrar da sensação de que estava falando com uma sala vazia. Era como se Jace não pudesse escutá-la, independentemente de quantas vezes dissesse que o amava. — Entendo que tem a sensação de não saber quem é, mas eu sei. E um dia você também vai saber. Enquanto isso, não pode ficar se preocupando em me perder, porque isso não vai acontecer nunca.

— Existe um jeito... — Jace levantou os olhos para encontrar os dela. — Me dê a mão.

Surpresa, Clary estendeu a mão, lembrando-se da primeira vez em que ele a tinha tocado daquele jeito. Tinha o símbolo agora, o símbolo do olho aberto na parte de trás da mão, a que ele estava procurando naquela ocasião, mas não encontrou. Seu primeiro símbolo permanente. Virou a mão dela, mostrando o pulso, a pele vulnerável do antebraço.

Clary estremeceu. A brisa do rio parecia penetrar em seus ossos.

— Jace, o que está fazendo?

— Você se lembra do que falei sobre casamentos de Caçadores de Sombras? Como em vez de trocar anéis, nos Marcamos com símbolos de amor e compromisso? — Ela a encarou, os olhos arregalados e vulneráveis sob cílios dourados espessos. — Quero Marcá-la de um jeito que nos una, Clary. É só uma Marca pequena, mas é permanente. Está disposta?

Ela hesitou. Um símbolo permanente, quando eram tão jovens — a mãe ficaria furiosa. Mas nada mais parecia funcionar; nada do que dizia o convencia. Talvez isso convencesse. Silenciosamente, Clary sacou a própria estela e entregou a ele. Ele a pegou, tocando as pontas dos seus dedos ao fazê-lo. Ela tremia mais agora, sentindo frio por todo o corpo, exceto onde ele a tocou. Jace segurou o braço dela contra o próprio corpo e abaixou a estela, encostando-a levemente em sua pele, movendo-a suavemente para cima e para baixo, e então, quando ela não protestou, com mais força. Devido ao frio que sentia, o calor da estela foi quase bem-vindo. Assistiu enquanto as linhas escuras surgiam a partir da ponta, formando um desenho de linhas firmes e angulares.

Os nervos de Clary tremeram com um alarme súbito. O desenho não parecia falar de amor e compromisso; havia alguma outra coisa ali, mais sombria, algo que falava em controle e submissão, em perda e escuridão. Será que ele estava desenhando o símbolo errado? Mas este era Jace; certamente sabia o que estava fazendo. No entanto, uma dormência já começava a se espalhar pelo braço a partir de onde a estela havia tocado — um formigamento dolorido, como nervos despertando — e ela se sentiu tonta, como se o chão estivesse se movendo embaixo dela.

— Jace. — A voz se elevou, transparecendo ansiedade. — Jace, acho que não está certa...

Ele soltou o braço dela. Equilibrava levemente a estela na mão, com a mesma graça com a qual seguraria uma arma.

— Sinto muito, Clary — disse. — Quero estar ligado a você. Jamais mentiria quanto a isso.

Ela abriu a boca para perguntar de que diabos ele estava falando, mas nenhuma palavra saiu. A escuridão subia rápido demais. A última coisa que sentiu foram os braços de Jace ao seu redor enquanto caía.

Após o que pareceu uma eternidade vagando por uma festa que considerava extremamente chata, Magnus finalmente encontrou Alec, sentando sozinho à uma mesa no canto, atrás de um arranjo de rosas brancas artificiais. Havia algumas taças de champanhe sobre a mesa, a maioria pela metade, como se convidados as tivessem abandonado lá ao passar. O próprio Alec parecia abandonado. Estava com o queixo apoiado nas mãos, e olhava irritado para o nada. Não levantou o olhar, nem quando Magnus passou o pé em torno de uma cadeira na frente da dele, girou-a e sentou, apoiando os braços no encosto.

— Quer voltar para Viena? — ofereceu.

Alec não respondeu, apenas continuou encarando o vazio.

— Ou podemos ir para outro lugar — sugeriu Magnus. — Onde quiser. Tailândia, Carolina do Sul, Brasil, Peru... ih, não, fui banido do Peru. Tinha me esquecido. É uma longa história, mas divertida, se quiser ouvir.

A expressão de Alec revelava que não queria ouvir. Deliberadamente, virou e olhou pelo salão, como se o quarteto de cordas dos lobisomens o fascinasse.

Como estava sendo ignorado por Alec, Magnus decidiu se entreter mudando as cores do champanhe nas taças. Fez uma azul, a seguinte rosa, e estava trabalhando em uma verde quando Alec esticou a mão e bateu no pulso dele.

— Pare com isso — comandou. — As pessoas estão olhando.

Magnus olhou para os próprios dedos, que soltavam faíscas azuis. Talvez fosse um tanto óbvio. Encolheu os dedos.

— Bem — declarou. — Tenho que fazer alguma coisa para não morrer de tédio, considerando que não está falando comigo.

— Não estou — disse Alec. — Não falando com você, quero dizer.

— Ah, é? — respondeu Magnus. — Acabei de perguntar se queria ir para Viena, para a Tailândia, ou para a lua, e não me lembro de você ter dado uma resposta.

— Não sei o que quero.

Alec, com a cabeça abaixada, estava brincando com um garfo de plástico abandonado. Apesar de os olhos estarem desafiadoramente voltados para baixo, a cor azul clara era visível mesmo através das pálpebras abaixadas, que eram claras e finas como pergaminho. Magnus sempre achara os humanos mais bonitos que todas as outras criaturas da Terra, e sempre se perguntou por quê. Apenas alguns anos antes da dissolução, Camille dissera. Mas era a mortalidade que fazia deles quem eram, a chama era mais brilhante por causa das oscilações. A morte é a mãe da beleza, dizia o poeta. Imaginou se o Anjo teria cogitado fazer seus servos, os Nephilim, imortais. Mas não; apesar de toda a força, eles sucumbiam como os humanos sempre sucumbiram nas batalhas através de todas as eras do mundo.

— Está com aquele olhar outra vez — Alec observou, rabugento, levantando os olhos por entre os cílios. — Como se estivesse encarando alguma coisa que não consigo enxergar. Está pensando em Camille?

— Na verdade, não — respondeu. — Quanto da minha conversa com ela você escutou?

— Quase tudo. — Alec cutucou a toalha de mesa com o garfo. — Estava ouvindo atrás da porta. O suficiente.

— Nem perto do suficiente, na minha opinião. — Magnus fixou o olhar no garfo, que saltou da mão de Alec e atravessou a mesa em direção a ele. Bateu a mão sobre ele e disse: — Pare com a inquietação. O que foi que eu disse para Camille que o incomodou tanto?

Alec levantou os olhos azuis.

— Quem é Will?

Magnus exalou uma espécie de risada.

— Will. Santo Deus. Isso foi há muito tempo. Will era um Caçador de Sombras, como você. E sim, lembrava você, mas não é nada como ele. Jace é muito mais parecido, pelo menos no quesito personalidade, e minha relação com você não é nada como a que tive com Will. É isso que está te incomodando?

— Não gosto de pensar que só está comigo porque pareço com um morto de quem gostava.

— Nunca disse isso. Camille insinuou. Ela é mestre em insinuação e manipulação. Sempre foi.

— Você não disse que ela estava enganada.

— Se deixar, Camille ataca por todas as frentes. Defenda uma, e ela ataca outra. A única maneira de lidar com ela é fingir que ela não está conseguindo atingi-lo.

— Ela disse que meninos bonitos eram sua ruína — disse Alec. — O que faz parecer que sou apenas mais um em uma linha de brinquedos seus. Um morre ou vai embora, você arruma outro. Não sou nada. Sou... trivial.

— Alexander...

— O que — prosseguiu Alec, encarando a mesa novamente — é particularmente injusto, porque você não é nada trivial para mim. Mudei minha vida inteira por você. Mas nada muda no seu caso, muda? Acho que é isso que significa viver para sempre. Nada nunca precisa importar tanto assim.

— Estou dizendo que você importa...

— O Livro Branco — disse Alec, de repente. — Por que o queria tanto?

Magnus olhou para ele, confuso.

— Sabe por quê. É um livro de feitiços muito poderoso.

— Mas o queria para alguma coisa específica, não era? Um feitiço que ele possui? — A respiração de Alec estava irregular. — Não precisa responder; dá para ver pelo seu rosto que sim. Era... era um feitiço para me tornar imortal?

Magnus ficou completamente abalado.

— Alec — sussurrou. — Não. Não, eu... não faria isso.

Alec fitou-o com um olhar perfurante.

— Por que não? Por que ao longo de todo os anos e de todas as relações que teve nunca tentou transformar alguém em imortal, como você? Se pudesse ter a mim ao seu lado para sempre, não quereria?

— Claro que quereria! — Magnus, percebendo que estava quase gritando, diminuiu a voz com esforço. — Mas você não entende. Não se consegue alguma coisa em troca de nada. O preço de viver eternamente...

— Magnus. — Era Isabelle, apressando-se em direção a eles com o telefone na mão. — Magnus, preciso falar com você.

— Isabelle. — Normalmente Magnus gostava da irmã de Alec. No momento, não tanto. — Adorável, maravilhosa Isabelle. Poderia se retirar, por favor? Não é uma boa hora.

Isabelle olhou de Magnus para o irmão, então para o feiticeiro outra vez.

— Então não quer que eu lhe diga que Camille acabou de fugir do Santuário e minha mãe está exigindo que volte ao Instituto para ajudar a encontrá-la?

— Não — respondeu Magnus. — Não quero que me diga isso.

— Bem, que péssimo — disse ela. — Porque é verdade. Quero dizer, suponho que não tenha que ir, mas...

O resto da frase pairou pelo ar, mas Magnus entendia o que ela não estava falando. Se ele não fosse, a Clave desconfiaria que ele tinha algum envolvimento na fuga de Camille, e essa era a última coisa de que precisava. Maryse ficaria uma fera, complicando ainda mais a relação com Alec. E, no entanto...

— Ela fugiu? — ecoou Alec. — Ninguém jamais escapou do Santuário antes.

— Bem — disse Isabelle —, agora escaparam.

Alec se encolheu ainda mais no assento.

— Vá — disse Alec. — É uma emergência. Apenas vá. Podemos conversar mais tarde.

— Magnus... — Isabelle parecia quase pedir desculpas, mas não tinha como esconder a urgência na voz.

— Tudo bem. — Magnus se levantou. — Mas — acrescentou, pausando ao lado da cadeira de Alec e se inclinando para perto dele — você não é trivial.

Alec enrubesceu.

— Se está dizendo — falou.

— Estou dizendo — respondeu Magnus, e se virou para seguir Isabelle para fora do salão.

Lá fora, na rua deserta, Simon estava apoiado na parede, contra o tijolo coberto de marfim, olhando para o céu. As luzes da ponte ofuscavam as estrelas, então não havia nada a ser visto além de um lençol de negritude aveludada. Desejou com uma ferocidade repentina que pudesse respirar o ar frio para clarear a mente, que pudesse senti-lo no rosto, na pele. Vestia apenas uma camisa fina, e não fazia a menor diferença. Não podia tremer, e mesmo a lembrança de como era tremer aos poucos o estava deixando, a cada dia, se afastando como lembranças de outra vida.

— Simon?

Ele congelou onde estava. Aquela voz, fraca e familiar, flutuando como um fio no ar gélido. Sorria. Fora essa a última palavra que dissera a ele.

Mas não podia ser. Estava morta.

— Não vai olhar para mim, Simon? — A voz era pequena como sempre, mal um suspiro. — Estou bem aqui.

Uma sensação de pavor subiu por sua espinha. Abriu os olhos e virou a cabeça lentamente.

Maureen estava envolta em um círculo de luz emitido por um poste de rua na esquina do Vernon Boulevard. Trajava um longo e virginal vestido branco. Os cabelos estavam penteados sobre os ombros, brilhando em amarelo à luz do poste. Ainda tinha um pouco de sujeira de cemitério nele. Usava chinelos brancos nos pés. O rosto estava completamente pálido, com círculos vermelhos pintados nas maçãs do rosto e a boca rosa escura como se tivesse sido desenhada com pilot.

Os joelhos de Simon cederam. Ele deslizou pela parede onde se apoiava até estar sentado no chão, com os joelhos dobrados. A cabeça parecia prestes a explodir.

Maureen soltou uma risadinha feminina e saiu da frente do poste. Foi em direção a ele e olhou para baixo; o rosto trazia uma expressão de satisfação entretida.

— Achei que fosse se surpreender — revelou.

— Você é uma vampira — disse Simon. — Mas... como? Eu não fiz isso com você. Sei que não fiz.

Maureen balançou a cabeça.

— Não foi você. Mas foi por causa de você. Pensaram que eu fosse sua namorada, sabia? Me tiraram do meu quarto à noite e me deixaram em uma jaula o dia seguinte inteiro. Mandaram eu não me preocupar, pois você iria me buscar. Mas não foi. Não apareceu.

— Eu não sabia. — A voz de Simon falhou. — Teria ido se soubesse.

Maureen jogou os cabelos louros por cima do ombro em um gesto que fez com que Simon se lembrasse repentina e dolorosamente de Camille.

— Não tem importância — disse com a voz juvenil. — Quando o sol se pôs, disseram que eu podia morrer, ou escolher viver assim. Como vampira.

— Então escolheu isso?

— Não queria morrer — suspirou. — E agora serei bonita e jovem para sempre. Posso passar a noite toda fora, e não preciso voltar para casa nunca. E ela toma conta de mim.

— De quem está falando? Quem é ela? Está se referindo a Camille? Veja bem, Maureen, ela é louca. Não deveria dar ouvidos a ela. — Simon se levantou, cambaleando. — Posso ajudar. Encontrar um lugar para você ficar. Ensinar a ser vampira...

— Ah, Simon. — Maureen sorriu, e os dentinhos brancos se mostraram em uma fileira perfeita. — Acho que você também não sabe ser vampiro. Não queria me morder, mas mordeu. Eu me lembro. Seus olhos ficaram pretos com os de um tubarão, então me mordeu.

— Sinto muito. Se me deixar ajudar...

— Poderia vir comigo — disse ela. — Isso me ajudaria.

— Ir com você para onde?

Maureen olhou de um lado para o outro da rua vazia. Parecia um fantasma com o vestido branco e fino. O vento o balançava ao redor do corpo, mas ela claramente não sentia frio.

— Você foi escolhido — disse. — Porque é um Diurno. Os que fizeram isto comigo querem você. Mas sabem que tem a Marca agora. Não podem te ter a não ser que escolha ir. Então, me enviaram como mensageira. — Ela inclinou a cabeça para o lado, como um passarinho. — Posso não ser alguém que importe para você — disse —, mas na próxima vez, será. Continuarão indo atrás das pessoas que ama até que não sobre ninguém, então é melhor vir comigo e descobrir o que querem.

— Você sabe? — perguntou Simon. — O que querem?

Ela fez que não com a cabeça. Estava tão pálida sob a luz difusa do poste que parecia quase transparente, como se o olhar de Simon pudesse passar direto por ela. Da maneira como, supôs, sempre fizera.

— Importa? — perguntou ela, e estendeu a mão.

— Não — respondeu. — Não, suponho que não. — E segurou a mão dela.