Cidade dos Anjos Caídos

Cassandra Clare · Capítulo 19 de 22

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Cidade dos Anjos Caídos

16 | Anjos de Nova York

16

Anjos de Nova York

 

— Chegamos — disse Maureen a Simon.

A menina tinha parado no meio da calçada e estava olhando para um prédio enorme de vidro e pedra que se erguia diante deles. Fora claramente projetado para se parecer com um daqueles edifícios luxuosos construídos no Upper East Side antes da Segunda Guerra Mundial, mas os toques modernos denunciavam — as janelas altas, os telhados metálicos sem nenhum toque de verdete, os anúncios caindo pela frente do prédio prometendo apartamentos luxuosos a partir de us$750.000 . Aparentemente a compra de um deles garantiria o uso de um jardim no telhado, uma academia, uma piscina aquecida e serviço de porteiro 24 horas, a partir de dezembro. No momento o local ainda estava em construção, e havia placas de afaste-se: propriedade privada pelos andaimes que o cercavam.

Simon olhou para Maureen. Ela parecia estar se acostumando a ser vampira com grande rapidez. Atravessaram a Queensboro Bridge e a Second Avenue para chegarem ali, e os chinelos brancos estavam rasgados. Mas não diminuiu o ritmo em nenhum momento, e nem pareceu se surpreender por não se cansar. Agora estava olhando para o edifício com uma expressão beatífica, o pequeno rosto cheio do que Simon só podia imaginar se tratar de ansiedade.

— Este local está fechado — disse ele, sabendo que estava relatando o óbvio. — Maureen...

— Silêncio. — Ela esticou a mão pequena para empurrar um letreiro preso a um canto do andaime. O objeto se soltou com um ruído de gesso sendo rasgado e pregos arrancados. Alguns deles caíram no chão aos pés de Simon. Maureen jogou o letreiro de lado e sorriu para o buraco que acabara de abrir.

Um senhor que passeava com um poodle vestido com uma roupa xadrez, parou e os encarou.

— Deveria arrumar um casaco para a sua irmãzinha — disse a Simon. — Magrinha desse jeito, vai congelar neste frio.

Antes que Simon pudesse responder, Maureen voltou-se para o sujeito com um sorriso feroz, exibindo todos os dentes, inclusive os caninos.

— Não sou irmã dele — sibilou.

O homem empalideceu, pegou o cachorro e se apressou para longe.

Simon balançou a cabeça para Maureen.

— Não precisava fazer isso.

As presas tinham perfurado o lábio inferior, coisa que já tinha acontecido com Simon tantas vezes que ele já estava até acostumado. Gotas finas de sangue escorreram pelo queixo.

— Não me diga o que fazer — respondeu com impertinência, mas as presas se retraíram. Passou a mão no queixo num gesto infantil, espalhando o sangue. Em seguida voltou-se novamente para o buraco que abrira. — Vamos.

Atravessou-o, e ele foi atrás. Passaram pelo que obviamente era a área onde a equipe de construtores jogava o lixo. Havia ferramentas quebradas por todos os lados, tijolos esmagados, sacos plásticos e latas de coca-cola sujando o chão. Maureen levantou a saia e passou cuidadosamente pelo lixo, com um olhar de nojo no rosto. Pulou por cima de uma vala e subiu alguns degraus de pedra quebrados. Simon a seguiu.

Os degraus levavam a um par de portas de vidro, abertas. Através destas havia uma recepção de mármore. Um lustre imenso pendurava-se do teto, apesar de não haver luz para refletir nos pingentes de cristal. O local estava escuro demais para que um humano sequer o visse. Tinha uma mesa de mármore para o porteiro, uma espreguiçadeira verde sob um espelho de bordas douradas, e fileiras de elevadores em ambos os lados da portaria. Maureen apertou o botão do elevador, que, para surpresa de Simon, acendeu.

— Para onde estamos indo? — perguntou.

O elevador apitou e Maureen entrou, com Simon logo atrás. Era decorado em dourado e vermelho, com espelhos em cada parede.

— Para cima. — Ela apertou o botão para o telhado e riu. — Para o Céu — disse, e as portas se fecharam.

— Não estou encontrando Simon.

Isabelle, apoiada em um pilar dos Grilhões, tentando não se preocupar, levantou a cabeça e viu Jordan se erguendo diante dela. Ele era realmente muito alto, pensou. Devia ter pelo menos 1,90 m. O achou bonito na primeira vez em que o viu, com os cabelos escuros desalinhados e os olhos esverdeados, mas agora que sabia que era ex-namorado de Maia, o movera para o espaço mental destinado a meninos proibidos.

— Bem, eu não o vi — disse ela. — Pensei que fosse o guardião dele.

— Ele me disse que voltava logo. Isso foi há quarenta minutos. Achei que tivesse ido ao banheiro.

— Que espécie de guardião você é? Não deveria ter ido ao banheiro com ele? — perguntou.

Jordan pareceu horrorizado.

— Caras — explicou — não vão com outros caras ao banheiro.

Isabelle suspirou.

— O pânico homossexual latente acaba com vocês em qualquer ocasião — declarou. — Vamos. Vamos procurá-lo.

Circularam pela festa, movimentando-se entre os convidados. Alec estava se lamuriando sozinho em uma mesa, brincando com uma taça de champanhe vazia.

— Não, não vi — respondeu quando perguntaram. — Mas é bem verdade que não estava procurando.

— Bem, pode nos ajudar a procurar — disse Isabelle. — Terá alguma coisa para fazer além de parecer infeliz.

Alec deu de ombros e se juntou a eles. Decidiram se separar e vasculhar a festa. Alec subiu para procurar nas passarelas e no segundo andar. Jordan saiu para checar as varandas e a entrada. Isabelle se encarregou da área da festa. Estava ponderando se procurar embaixo das mesas seria ridículo quando Maia apareceu atrás dela.

— Está tudo bem? — inquiriu. Olhou para cima em direção a Alec, e em seguida para onde Jordan havia ido. — Reconheço uma equipe de buscas quando vejo uma. O que estão procurando? Algum problema?

Isabelle relatou a situação de Simon.

— Acabei de falar com ele, há meia hora.

— O Jordan também, mas agora ele sumiu. E considerando que pessoas têm tentado matá-lo ultimamente...

Maia repousou o copo sobre a mesa.

— Eu ajudo.

— Não precisa. Sei que não está morrendo de amores pelo Simon no momento...

— Isso não significa que não quero ajudar se ele estiver com problemas — falou, como se Isabelle estivesse sendo ridícula. — O Jordan não deveria estar de olho nele?

Isabelle jogou as mãos para o alto.

— Deveria, mas aparentemente caras não vão com outros caras ao banheiro ou coisa parecida. Não estava falando coisa com coisa.

— Meninos nunca falam — disse Maia, e foi atrás dela. Entraram e saíram da multidão, apesar de Isabelle já estar praticamente certa de que não encontrariam Simon. Tinha um friozinho no estômago que estava se tornando maior e mais intenso. Quando todos voltaram à mesa original, ela sentia como se tivesse engolido um copo de água gelada.

— Ele não está aqui — disse ela.

Jordan xingou, em seguida olhou com uma expressão culpada para Maia.

— Desculpe.

— Já ouvi coisa pior — disse ela. — Então, qual é o próximo passo? Alguém já tentou ligar para ele?

— Cai direto na caixa postal — relatou Jordan.

— Alguma ideia de para onde possa ter ido? — perguntou Alec.

— Na melhor das hipóteses, voltou para o apartamento — respondeu Jordan. — Na pior, as pessoas que andavam atrás dele finalmente o alcançaram.

— Pessoas que o quê? — Alec ficou estarrecido; apesar de Isabelle ter contado a história de Simon a Maia, ainda não tinha atualizado o irmão.

— Vou voltar para o apartamento e procurar lá — disse Jordan. — Se estiver, ótimo. Se não, ainda é o local por onde devo começar. Eles sabem onde ele mora; têm mandado recados para lá. Talvez tenha alguma mensagem. — Não parecia muito esperançoso.

Isabelle tomou a decisão em uma fração de segundo:

— Vou com você.

— Não precisa...

— Sim, preciso. Eu disse a ele que poderia vir para cá hoje à noite; sou responsável. Além disso, estou achando esta festa um saco.

— É — concordou Alec, parecendo aliviado com a possibilidade de sair de lá. — Eu também. Talvez todos devêssemos ir. Devemos contar para Clary?

Isabelle balançou a cabeça.

— É a festa da mãe dela. Não seria justo. Vamos ver o que conseguimos fazer só os três.

— Três? — perguntou Maia, com um tom delicado de irritação na voz.

— Quer vir conosco, Maia? — Quem perguntou foi Jordan. Isabelle congelou; não sabia ao certo como Maia reagiria ao fato do ex-namorado ter falado diretamente com ela. A boca da licantrope se encolheu um pouco, e por apenas um instante ela olhou para Jordan não como se o detestasse, mas de maneira pensativa.

— É o Simon — disse, finalmente, como se isso decidisse tudo. — Vou buscar meu casaco.

As portas do elevador se abriram para uma mistura de ar escuro e sombras. Maureen soltou mais uma risada aguda e dançou pela escuridão, e Simon a seguiu com um suspiro.

Encontravam-se em uma grande sala de mármore sem janelas. Não havia lâmpadas, mas a parede à esquerda do elevador tinha uma porta de vidro dupla. Através delas Simon viu a superfície lisa do telhado, e no alto o céu negro marcado por estrelas que brilhavam fracamente.

O vento soprava forte outra vez. Seguiu Maureen através das portas em direção à rajada de ar frio, o vestido da menina esvoaçando como uma mariposa batendo as asas contra uma ventania. O jardim do telhado era tão elegante quanto garantiam as placas. Azulejos lisos e hexagonais compunham o piso; havia canteiros de flores brotando sob vidro e arbustos em forma de monstros e animais. A passarela através da qual seguiam era adornava com pequenas luzes brilhantes alinhadas. Ao redor erguiam-se condomínios altos, as janelas avermelhadas com eletricidade.

O caminho acabava em degraus de ladrilho que davam em um ambiente quadrado e amplo envolto em três lados pela parede alta que cercava o jardim. Claramente tratava-se de uma área onde futuros moradores socializariam. Havia um grande bloco de concreto no centro, que provavelmente teria uma grelha, concluiu Simon, e a área era cercada por canteiros de rosas cuidadosamente aparados que floresceriam em junho, assim como as grades nuas emoldurando as paredes um dia desapareceriam sob uma coberta de folhas. Eventualmente seria um local muito bonito, um jardim em uma cobertura no Upper East Side onde seria possível relaxar em uma espreguiçadeira, com o East River brilhando sob o pôr do sol e a cidade se estendendo diante dos espectadores num um mosaico de luzes cintilantes.

Só que... O chão de azulejos fora desfigurado, com uma espécie de líquido preto e pegajoso utilizado para desenhar um círculo, dentro de um círculo maior. O espaço entre os dois círculos fora preenchido com símbolos rabiscados. Apesar de Simon não ser um Caçador de Sombras, já tinha visto símbolos Nephilim o bastante para reconhecer os que eram oriundos do Livro Gray. Estes não eram. Pareciam ameaçadores e errados, como uma maldição escrita em uma língua desconhecida.

No centro do círculo havia um bloco de concreto. No topo deste, um objeto volumoso e retangular, coberto com um pano escuro. O formato não diferia muito do de um caixão. Mais símbolos se espalhavam ao redor da base do bloco. Se o sangue de Simon circulasse, teria gelado.

Maureen uniu as mãos.

— Oh — disse com a vozinha fina. — Que bonito.

— Bonito? — Simon olhou rapidamente para a forma encolhida em cima do bloco de concreto. — Maureen, que diabos...

— Então o trouxe. — Foi a voz de uma mulher que falou; educada, forte e... familiar. Simon se virou. Na passarela atrás dele encontrava-se uma mulher alta com cabelos curtos e escuros. Era muito magra e trajava um casaco escuro comprido, com um cinto no meio como uma femme fatale de um filme de espionagem dos anos 1940. — Obrigada, Maureen — prosseguiu. Tinha um rosto rijo e belo, de ângulos precisos e com maçãs do rosto altas e olhos escuros e grandes. — Muito bem. Pode ir agora. — Então voltou o olhar para Simon. — Simon Lewis — disse. — Obrigada por ter vindo.

No instante em que pronunciou o seu nome, Simon a reconheceu. Na última vez em que a vira, ela estava sob a chuva forte do lado de fora do Alto Bar.

— Você. Eu me lembro de você. Me deu seu cartão. A promotora musical. Uau, deve realmente querer promover minha banda. Nem achei que fôssemos tão bons assim.

— Não seja sarcástico — disse a mulher. — Não adianta nada. — Olhou para o lado. — Maureen. Pode ir. — A voz soou firme desta vez, e Maureen, que estava circulando como um fantasminha, soltou um ganido e correu de volta pelo caminho que os trouxera. Ele assistiu enquanto ela desaparecia pelas portas que levavam até o elevador, quase lamentando por vê-la se retirar. Maureen não era grande companhia, mas sem ela se sentiu muito sozinho. Quem quer que fosse esta estranha, emitia uma aura clara de poder negro que Simon não notara antes por estar sob os efeitos do sangue humano.

— Me deu trabalho, Simon — disse ela, e agora a voz vinha de outra direção, a alguns metros de distância. Simon girou e viu que ela estava ao lado do bloco de concreto, no centro do círculo. As nuvens passavam rapidamente pela lua, projetando uma estampa de sombras ambulantes no rosto da mulher. Porque estava no primeiro degrau, Simon tinha que esticar a cabeça para trás para olhar para ela. — Pensei que colocar as mãos em você seria fácil. Lidar com um simples vampiro. E um recentemente transformado, aliás. Mesmo um Diurno não é nada que eu não tenha encontrado antes, apesar de não ver um há cem anos. Sim — acrescentou com um sorriso ao ver o olhar no rosto dele. — Sou mais velha do que pareço.

— Parece bem velha.

A mulher ignorou o insulto.

— Mandei meus melhores serventes atrás de você, e apenas um retornou, com um conto balbuciado sobre fogo sagrado e ira de Deus. Depois disso se tornou um completo inútil. Tive que sacrificá-lo. Foi bastante irritante. Então resolvi que teria que lidar pessoalmente com você. Segui você até seu showzinho musical estúpido, e depois, quando me aproximei de você, vi. Sua Marca. Como alguém que conheceu Caim pessoalmente, estou intimamente familiarizada com a forma.

— Conheceu Caim pessoalmente? — Simon balançou a cabeça. — Não pode esperar que eu acredite nisso.

— Acredite ou não — declarou —, não faz a menor diferença para mim. Sou mais velha do que os sonhos da sua espécie, garotinho. Caminhei pelo Jardim do Éden. Conheci Adão antes de Eva. Fui sua primeira esposa, mas não fui obediente, então Deus me descartou e fez uma nova mulher para ele, uma fabricada do seu próprio corpo, para ser sempre subserviente. — Sorriu fracamente. — Tenho muitos nomes. Mas pode me chamar de Lilith, a primeira de todos os demônios.

Com isso, Simon, que não sentia frio há meses, finalmente estremeceu. Já tinha ouvido o nome Lilith antes. Não conseguia lembrar exatamente onde, mas sabia que era um nome associado à escuridão, maldade e coisas terríveis.

— Sua Marca me colocou numa difícil questão — disse Lilith. — Preciso de você, Diurno, entenda. Da sua força de vida, de seu sangue. Mas não podia forçá-lo, ou machucá-lo.

Disse isso como se o fato de precisar do sangue dele fosse a coisa mais natural do mundo.

— Você... bebe sangue? — perguntou Simon. Estava tonto, como se estivesse preso em um sonho estranho. Certamente isto não podia estar acontecendo de fato.

Ela riu.

— Sangue não é o alimento de demônios, criança tola. O que quero de você não é para mim. — Estendeu uma mão esguia. — Aproxime-se.

Simon balançou a cabeça.

— Não vou entrar nesse círculo.

Ela deu de ombros.

— Muito bem, então. Pretendia apenas lhe oferecer uma visão melhor. — Mexeu os dedos ligeiramente, de forma quase negligente, como o gesto de alguém abrindo uma cortina. O pano preto cobrindo o objeto em forma de caixão entre eles desapareceu.

Simon encarou fixamente o que fora revelado. Não estivera enganado quanto à forma de caixão. Tratava-se de uma caixa grande de vidro, comprida e larga o suficiente para uma pessoa se deitar. Um caixão de vidro, pensou, como o da Branca de Neve. Mas este não era um conto de fadas. O interior do caixão continha um líquido nebuloso, e, flutuando no líquido — nu da cintura para cima, os cabelos louro-esbranquiçados boiando como algas claras — estava Sebastian.

Não havia nenhum recado na porta do apartamento de Jordan, embaixo do tapete de boas-vindas, ou imediatamente óbvio no interior do apartamento. Enquanto Alec montava guarda lá embaixo e Maia e Jordan verificavam a mochila de Simon na sala, Isabelle, na entrada do quarto de Simon, olhava silenciosamente para o lugar onde ele vinha dormindo nos últimos dias. Era muito vazio — apenas quatro paredes, despidas de qualquer decoração; um chão sem nada além de um futon e um cobertor branco dobrado no pé; e uma única janela com vista para a Avenue B.

Podia ouvir a cidade — a cidade onde crescera, cujos ruídos sempre a cercaram, desde que era um bebê. Tinha achado a quietude de Idris terrivelmente estranha, sem os barulhos de alarmes de carro, pessoas gritando, sirenes de ambulâncias e a música tocando; coisas que em Nova York nunca cessavam, mesmo tarde da noite. Mas agora, parada ali, olhando para o pequeno quarto de Simon, pensou no quão solitário e distantes soavam estes barulhos, e se ele próprio tinha se sentido sozinho à noite, deitado aqui, olhando para o teto, sem ninguém.

Mas também, não era como se já tivesse visto o quarto de Simon na casa dele, que provavelmente era coberto por pôsteres de bandas, troféus de esporte, caixas daqueles jogos que ele gostava de jogar, instrumentos musicais, livros — todos os fragmentos de uma vida normal. Nunca tinha pedido para ir até lá, e ele nunca sugerira. Tinha ficado tímida quanto a conhecer a mãe dele ou fazer qualquer coisa que pudesse indicar um compromisso maior do que estava disposta a aceitar. Mas agora, olhando para este quarto vazio, com o agito escuro da cidade ao seu redor, sentiu uma pontada de medo por Simon — misturada a uma quantidade equivalente de arrependimento.

Voltou-se para o restante do apartamento, mas parou ao escutar um murmúrio baixo de vozes vindo da sala. Reconheceu a de Maia. Não soava irritada, o que em si era surpreendente, considerando o quanto parecia detestar Jordan.

— Nada — dizia ela. — Chaves, alguns papéis com placares de jogos anotados. — Isabelle se inclinou através da porta. Conseguiu ver Maia, em um dos lados da bancada da cozinha, com a mão no bolso da mochila de Simon. Jordan, do outro lado, a observava. Observava Maia em si, pensou Isabelle, não o que estava fazendo; daquele jeito que os meninos olham quando gostam tanto da pessoa que cada movimento os fascina. — Vou verificar a carteira.

Jordan, que havia trocado a roupa formal e colocado calça jeans e uma jaqueta de couro, franziu o rosto.

— Estranho que tenha deixado para trás. Posso ver? — Ele esticou a mão através da bancada.

Maia recuou tão depressa que derrubou a carteira, a mão se afastando velozmente.

— Não ia... — Jordan recolheu a própria mão lentamente. — Desculpe.

Maia respirou fundo.

— Ouça — disse —, conversei com Simon. Sei que não teve a intenção de me Transformar. Sei que não sabia o que estava acontecendo com você. Lembro como foi. Lembro que fiquei apavorada.

Jordan colocou as mãos lenta e cuidadosamente sobre a bancada. Era estranho, pensou Isabelle, ver alguém tão alto tentando parecer pequeno e inofensivo.

— Deveria ter estado lá para você.

— Mas o Praetor não deixou — disse Maia. — E sejamos sinceros, você não sabia nada sobre ser licantrope; seríamos como duas pessoas vendadas tropeçando em um círculo. Talvez tenha sido melhor que não estivesse por perto. Fez com que eu fugisse para onde pude encontrar ajuda. Com o Bando.

— Inicialmente, torci para que o Praetor Lupus a trouxesse — sussurrou ele. — Para poder vê-la novamente. Depois percebi que estava sendo egoísta, e deveria estar torcendo para não ter transmitido a doença para você. Sabia que as chances eram meio a meio. Pensei que pudesse ter tido sorte.

— Bem, não tive — disse ela, com naturalidade. — E ao longo dos anos montei uma imagem sua na cabeça como uma espécie de monstro. Pensei que soubesse o que estava fazendo quando fez isso comigo. Achei que fosse vingança por eu ter beijado aquele menino. Então o odiei. E odiá-lo tornou tudo mais fácil. Ter a quem culpar.

— Deve me culpar — disse. — A culpa é minha.

Ela passou o dedo na bancada, evitando os olhos dele.

— E culpo. Mas... não como antes.

Jordan levantou as mãos e agarrou o próprio cabelo com os punhos, puxando com força.

— Não tem um dia em que não pense no que fiz. Eu mordi você. Te Transformei. Fiz de você o que é. Levantei a mão para você. Te machuquei. A pessoa que mais amava no mundo.

Os olhos de Maia brilhavam com lágrimas.

— Não diga isso. Não ajuda. Acha que ajuda?

Isabelle limpou a garganta alto, entrando na sala.

— Então. Encontraram alguma coisa?

Maia desviou o olhar, piscando rapidamente. Jordan, abaixando as mãos, respondeu:

— Não. Estávamos prestes a revistar a carteira dele. — Pegou-a de onde Maia havia derrubado. — Aqui. — Jogou para Isabelle.

Ela a pegou e abriu. Carteira da escola, identidade, uma palheta vazia que deveria ser destinado a cartão de crédito. Uma nota de dez dólares e um recibo. Então outra coisa chamou a atenção — um cartão de visitas, guardado de maneira descuidada atrás de uma foto de Simon e Clary, do tipo que se tiraria em uma cabine de uma farmácia barata. Ambos sorriam.

Isabelle pegou o cartão e o analisou. Tinha um desenho curvilíneo, quase abstrato, de uma guitarra flutuando contra as nuvens. Abaixo um nome.

Satrina Kendall. Promotora de Bandas . Abaixo, um número de telefone e um endereço no Upper East Side. Isabelle franziu o cenho. Alguma coisa, uma lembrança, surgia no fundo da mente.

Isabelle levantou o cartão para Jordan e Maia, que estavam ocupados não olhando um para o outro.

— O que acham disto?

Antes que pudessem responder, a porta do apartamento se abriu e Alec entrou. Estava com a cara fechada.

— Encontraram alguma coisa? Estou lá embaixo há meia hora, e nada sequer remotamente ameaçador passou. A não ser que se leve em conta os alunos da NYU que vomitaram nos degraus da frente.

— Aqui — disse Isabelle, entregando o cartão para o irmão. — Veja isto. Não parece ter alguma coisa estranha?

— Além do fato de que nenhuma promotora de bandas poderia ter algum interesse na porcaria da banda do Lewis? — perguntou Alec, pegando o cartão entre os dedos. Ele estreitou os olhos. — Satrina?

— Esse nome significa alguma coisa para vocês? — perguntou Maia. Seus olhos ainda estavam vermelhos, mas a voz soou firme.

— Satrina é um dos 17 nomes de Lilith, a mãe de todos os demônios. É por causa dela que feiticeiros são chamados de filhos de Lilith — respondeu Alec. — Porque ela é mãe dos demônios, que por sua vez criaram a raça dos feiticeiros.

— E você sabe os 17 nomes de cabeça? — Jordan parecia incrédulo.

Alec o olhou friamente.

— Quem é você mesmo?

— Ah, cala a boca, Alec — disse Isabelle, com o tom que só usava com o irmão. — Olha, nem todos temos a memória que você tem para coisas chatas. Não suponho que se lembre dos outros nomes de Lilith?

Com um olhar superior, Alec despejou:

— Satrina, Lilith, Ita, Kali, Batna, Talto...

— Talto! — gritou Isabelle. — É isso. Sabia que estava me lembrando de alguma coisa. Sabia que tinha uma ligação! — Rapidamente contou a eles sobre a Igreja de Talto, o que Clary tinha encontrado lá, e como se relacionava ao bebê metade demônio no Beth Israel.

— Gostaria que tivesse me contado isto antes — disse Alec. — Sim, Talto é outro nome de Lilith. E Lilith sempre esteve associada a bebês. Foi a primeira mulher de Adão, mas fugiu do Jardim do Éden porque não queria obedecer a ele ou a Deus. Mas Deus a amaldiçoou por desobediência: qualquer criança que gerasse, morreria. Reza a lenda que ela tentou ter filhos de todas as maneiras, mas todos nasciam mortos. Eventualmente jurou que se vingaria de Deus enfraquecendo e matando bebês humanos. Pode-se dizer que ela é a deusa demônio das crianças mortas.

— Mas você disse que ela era mãe dos demônios — observou Maia.

— Ela conseguiu criar demônios espalhando gotas do próprio sangue na terra de um lugar chamado Edom — explicou Alec. — E porque nasceram do seu ódio a Deus e à humanidade, se tornaram demônios. — Ciente de que todos o estavam encarando, deu de ombros. — É só uma história.

— Todas as histórias são verdadeiras — afirmou Isabelle. Esta era a base de suas crenças desde a infância. Todos os Caçadores de Sombras acreditavam nisso. Não existia apenas uma religião, apenas uma verdade, e nenhum mito era desprovido de significado. — Você sabe disso, Alec.

— Sei de mais uma coisa — disse Alec, devolvendo o cartão. — Esses telefone e endereço são inúteis. Chance zero de serem reais.

— Talvez — disse Isabelle, enfiando o cartão no bolso. — Mas não temos outro lugar por onde começar. Então vamos começar por lá.

Simon só conseguia olhar. O corpo boiando no caixão — o corpo de Sebastian — não parecia vivo; pelo menos, não estava respirando. Mas também não estava exatamente morto. Fazia dois meses. Se estivesse morto, Simon tinha quase certeza, estaria com uma aparência muito pior. O corpo estava muito branco, como mármore; uma das mãos era um cotoco atado, mas fora isso não havia marcas. Parecia estar dormindo, os olhos fechados, os braços soltos nas laterais. Apenas o fato de que o peito não fazia movimentos de subida e descida indicava que havia alguma coisa muito errada.

— Mas — disse Simon, sabendo que soava ridículo — ele está morto. Jace o matou.

Lilith colocou uma das mãos claras na superfície de vidro do caixão.

— Jonathan — disse, e Simon lembrou que este era, de fato, seu nome. A voz da mulher tinha um aspecto suave estranho ao falar o nome, como se estivesse cantando para uma criança. — Ele é lindo, não é?

— Hum — disse Simon, olhando com desprezo para a criatura dentro do caixão, o garoto que assassinara Max Lightwood, de 9 anos. A coisa que matara Hodge. Que tentara matar todos eles. — Não faz muito o meu tipo, na verdade.

— Jonathan é único — afirmou. — É o único Caçador de Sombras que já conheci que é parte Demônio Maior. Isto faz dele alguém muito poderoso.

— Ele está morto — rebateu Simon. Tinha a sensação de que, de algum jeito, era importante reafirmar este argumento, apesar de Lilith não parecer absorvê-lo.

Lilith, olhando para Sebastian, franziu o rosto.

— É verdade. Jace Lightwood chegou por trás e o apunhalou pelas costas, através do coração.

— Como você...

— Eu estava em Idris — respondeu Lilith. — Quando Valentim abriu a porta para os mundos dos demônios, atravessei. Não para lutar naquela batalha estúpida. Foi mais por curiosidade do que por qualquer outra razão. Que Valentim pudesse ter tanta arrogância... — interrompeu-se, dando de ombros. — O Céu o destruiu por isso, é claro. Vi o sacrifício que fez; vi o Anjo se elevar e voltar-se contra ele. Vi o que foi retribuído. Sou a mais velha dos demônios, conheço as Leis Antigas. Uma vida por uma vida. Corri para Jonathan. Já era quase tarde demais. A parte humana dele morreu instantaneamente: o coração deixou de bater, os pulmões de inflar. As Leis Antigas não foram o suficiente. Tentei trazê-lo de volta ali. Mas já era tarde. Tudo que consegui fazer foi isto. Preservá-lo para este momento.

Simon pensou brevemente sobre o que aconteceria se fugisse — se passasse pela mulher-demônio insana e se jogasse do telhado. Não podia ser ferido por outra criatura humana devido à Marca, mas duvidava que o poder se estendesse a protegê-lo contra o solo. Mesmo assim, era um vampiro. Se caísse de quarenta andares e quebrasse todos os ossos do corpo, poderia se curar? Engoliu em seco e viu Lilith olhando entretida para ele.

— Não quer saber — disse, com a voz fria e sedutora — de que momento estou falando? — Antes que tivesse a chance de responder, ela se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos no caixão. — Suponho que conheça a história de como os Nephilim passaram a existir? Como o Anjo Raziel misturou o próprio sangue ao sangue dos homens e deu para um homem beber, tornando-o o primeiro dos Nephilim?

— Já escutei.

— Como consequência, o Anjo criou uma nova raça. E agora, com Jonathan, uma nova raça nasceu novamente. Assim como o primeiro Jonathan liderou os primeiros Nephilim, este Jonathan liderará a nova raça que pretendo criar.

— A nova raça que pretende... — Simon ergueu as mãos. — Quer saber, se quer criar uma nova raça começando com um cara morto, vá em frente. Não sei o que isto tem a ver comigo.

— Ele está morto agora. Mas não precisa continuar assim. — A voz de Lilith era totalmente fria e sem emoção. — Existe, é claro, uma espécie de criatura do Submundo cujo sangue oferece a possibilidade de, digamos, ressurreição.

— Vampiros — disse Simon. — Quer que eu transforme Sebastian em um vampiro?

— O nome dele é Jonathan. — O tom saiu severo. — E sim, de certa forma. Quero que o morda, beba seu sangue, e dê a ele o seu em troca...

— Não vou fazer isso.

— Tem certeza?

— Um mundo sem Sebastian — Simon utilizou o nome propositalmente — é melhor do que um com ele. Não o farei. — Raiva fervia em Simon em uma corrente veloz. — E mesmo assim, não poderia se quisesse. Ele está morto. Vampiros não podem ressuscitar os mortos. Deveria saber disso, se sabe tanta coisa. Uma vez que a alma deixa o corpo, nada pode trazê-lo de volta. Ainda bem.

Lilith fixou os olhos nele.

— Realmente não sabe, né? — disse. — Clary nunca lhe contou.

Simon estava ficando de saco cheio.

— Nunca me contou o quê?

Ela riu.

— Olho por olho, dente por dente, vida por vida. Para prevenir o caos, é preciso que haja ordem. Se uma vida é dada à Luz, uma vida é devida às Trevas.

— Eu — disse Simon de forma lenta e deliberada — realmente não faço ideia do que esteja falando. E não me importo. Vocês, vilões, e seus programas de eugenia arrepiantes estão começando a me entediar. Então vou embora agora. Sinta-se à vontade para tentar me conter me ameaçando ou me machucando. Recomendo que vá em frente e tente.

Ela olhou para ele e riu.

— Caim se ergueu. — disse. — Você é um pouco como aquele cuja Marca possui. Ele era teimoso, como você. Audacioso, também.

— Ele enfrentou... — Simon engasgou com a palavra. Deus. — Eu só estou lidando com você. — E virou-se para se retirar.

— Eu não viraria as costas, Diurno — disse Lilith, e alguma coisa na voz o fez olhar para ela, apoiada no caixão de Sebastian. — Pensa que não pode ser ferido — falou com desdém. — E de fato não posso levantar a mão contra você. Não sou tola; já vi o fogo sagrado do divino. Não tenho o menor desejo de vê-lo voltado contra mim. Não sou Valentim para me meter com o que não entendo. Sou um demônio, mas sou muito antiga. Conheço a humanidade melhor do que pode imaginar. Entendo a fraqueza do orgulho, da sede de poder, do desejo pela carne, da cobiça, da vaidade e do amor.

— O amor não é uma fraqueza.

— Ah, não? — disse ela, e olhou para além dele com um olhar frio e aguçado como um sincelo.

Simon se virou, sem querer, sabendo que devia, e olhou para trás.

Ali na passagem de tijolos, estava Jace. Vestia um terno escuro e uma camisa branca. Diante dele encontrava-se Clary, ainda com o vestido dourado bonito da festa nos Grilhões. Os longos cabelos ruivos e ondulados haviam se soltado do penteado, e espalhavam-se ao redor dos ombros. Estava completamente imóvel em um círculo formado pelos braços de Jace. Quase poderia parecer uma foto romântica, não fosse pelo fato de que em uma de suas mãos, Jace segurava uma faca comprida e brilhante com cabo de osso, e a ponta estivesse contra a garganta de Clary.

Simon olhou para Jace completamente chocado. Não havia emoção no rosto dele, nenhuma luz nos olhos. Parecia completamente vazio.

Muito levemente, Jace inclinou a cabeça.

— Trouxe-a, Lady Lilith — disse ele. — Conforme me pediu.