Cidade dos Anjos Caídos
3 | Sete vezes
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Sete Vezes
— Sabe o que é incrível? — disse Eric, repousando as baquetas. — Ter um vampiro na nossa banda. É isso que vai nos colocar no topo.
Kirk, abaixando o microfone, revirou os olhos. Eric vivia falando sobre levar a banda às alturas, e até agora nada tinha se materializado. O melhor que já tinham conseguido foi um show na Knitting Factory e só quatro pessoas compareceram. E uma delas foi a mãe de Simon.
— Não sei como chegaremos ao topo se não podemos contar para ninguém que ele é um vampiro.
— É uma pena — disse Simon. Ele estava sentado em um dos amplificadores, ao lado de Clary, que se concentrava em mandar mensagens de texto para alguém, provavelmente Jace. — Ninguém vai acreditar mesmo, porque olha só: aqui estou. Luz do dia. — Ele ergueu os braços para indicar a luz do sol entrando pelos buracos no telhado da garagem de Eric, que era o atual local de ensaios.
— Isso realmente tem certo impacto sobre nossa credibilidade — disse Matt, tirando o cabelo ruivo da frente dos olhos e apertando-os para encarar Simon. — Talvez você pudesse utilizar uma dentadura falsa.
— Ele não precisa de dentadura — disse Clary irritadiça, abaixando o telefone. — Ele tem presas de verdade. Você já viu.
Isto era verdade. Simon teve que exibir as presas quando revelou a notícia para a banda. Primeiro acharam que ele tinha sofrido uma batida na cabeça, ou um colapso mental. Depois que ele mostrou as presas, todos se convenceram. Eric até admitiu que não estava muito surpreso.
— Sempre soube que vampiros existiam, cara — dissera ele. — Porque, você sabe, há pessoas que, tipo, sabe, têm sempre a mesma aparência, mesmo quando têm, tipo, cem anos de idade? Tipo o David Bowie? É porque são vampiros.
Simon não tinha contado a eles que Clary e Isabelle eram Caçadoras de Sombras. Não era um segredo dele para que pudesse revelar. Também não sabiam que Maia era licantrope. Simplesmente acreditavam que Maia e Isabelle fossem duas gatas que inexplicavelmente tinham concordado em sair com Simon. Atribuíram o fato ao que Kirk classificava de “charme sexy de vampiro”. Simon não se importava com o nome que usavam, contanto que jamais escorregassem e contassem para Maia ou Isabelle sobre a outra. Até agora tinham tido sucesso em convidá-las para shows alternados, de modo que nunca apareciam no mesmo.
— Talvez pudesse mostrar as presas no palco? — sugeriu Eric. — Só, tipo, uma vez, cara. Mostra para a multidão.
— Se ele fizesse isso, o líder do clã de vampiros de Nova York mataria todos vocês — disse Clary. — Sabem disso, não sabem? — Balançou a cabeça na direção de Simon. — Não posso acreditar que contou a eles que é um vampiro — acrescentou, diminuindo a voz para que somente Simon pudesse ouvi-la. — São idiotas, caso não tenha percebido.
— São meus amigos — murmurou Simon.
— São seus amigos, e são idiotas.
— Quero que as pessoas com as quais me importo saibam a verdade a meu respeito.
— Ah, é? — disse Clary, sem muita gentileza. — Então, quando vai contar para sua mãe?
Antes que Simon pudesse responder, ouviram uma batida alta na porta da garagem, e um instante mais tarde esta deslizou para cima, permitindo que mais luz outonal entrasse. Simon olhou para cima, piscando. Isso era um reflexo, na verdade, dos tempos em que era humano. Seus olhos não levavam mais do que uma fração de segundo para se ajustar à escuridão ou à luz.
Havia um menino na entrada da garagem, iluminado por trás pelo sol brilhante. Trazia um pedaço de papel na mão. Olhou para baixo, incerto, e em seguida novamente para a banda.
— Olá — disse. — É aqui que posso encontrar a banda Mancha Perigosa?
— Somos Lêmure Dicotômica agora — disse Eric, dando um passo à frente. — Quem quer saber?
— Sou o Kyle — respondeu o menino, se abaixando sob a porta da garagem. Endireitando-se, ele tirou o cabelo castanho da frente dos olhos, e entregou o pedaço de papel a Eric. — Vi que estavam procurando um vocalista.
— Opa — disse Matt. — Colocamos esse flyer há, tipo, um ano. Tinha me esquecido completamente.
— É — disse Eric. — Estávamos fazendo umas coisas diferentes naquela época. Agora basicamente revezamos nos vocais. Você tem experiência?
Kyle — que era muito alto, percebeu Simon, apesar de nada desengonçado — deu de ombros.
— Na verdade, não. Mas já me disseram que canto bem. — Tinha uma dicção lenta, ligeiramente arrastada, mais de surfista do que sulista.
Os integrantes da banda se entreolharam incertos. Eric coçou atrás da orelha.
— Pode nos dar um segundo, cara?
— Claro. — Kyle saiu da garagem, fechando a porta atrás de si. Simon podia ouvi-lo assobiando fracamente do lado de fora. Parecia “She’ll Be Coming Round the Mountain”. E também não estava particularmente afinado.
— Não sei — falou Eric. — Não tenho certeza se precisamos de alguém novo agora. Porque, quero dizer, não podemos contar para ele sobre a história de você ser vampiro, podemos?
— Não — respondeu Simon. — Não podem.
— Bem, então. — Matt deu de ombros. — É uma pena. Precisamos de um vocalista. Kirk é péssimo. Sem ofensa, Kirk.
— Vá se ferrar — disse Kirk. — Não sou péssimo nada.
— É sim — disse Matt. — Você é incrivelmente, terrivelmente...
— Eu acho — interrompeu Clary, levantando a voz — que vocês deveriam deixá-lo fazer um teste.
Simon a encarou.
— Por quê?
— Porque ele é muito gato — respondeu Clary, para surpresa de Simon. Ele não tinha ficado muito impressionado com a aparência de Kyle, mas talvez não fosse o melhor juiz para beleza masculina. — E sua banda precisa de um pouco de sex appeal.
— Obrigado — disse Simon. — Em nome de todos nós, muito obrigado.
Clary emitiu um ruído impaciente.
— Sim, sim, todos vocês são rapazes bonitos. Principalmente você, Simon. — Ela afagou a mão dele. — Mas Kyle é gato do tipo “uau”. Só estou falando. Minha opinião objetiva como menina é que se acrescentarem Kyle à banda, vão dobrar o número de fãs.
— O que quer dizer que teremos duas fãs em vez de uma — disse Kirk.
— Qual? — Matt parecia verdadeiramente curioso.
— A amiga da priminha do Eric. Como ela chama? A que gosta do Simon. Ela vai a todos os nossos shows e diz para todo mundo que é namorada dele.
Simon franziu o cenho.
— Ela tem 13 anos.
— É seu charme sexy de vampiro trabalhando, cara — disse Matt. — As meninas não resistem a você.
— Ah, pelo amor de Deus — disse Clary. — Não existe charme sexy de vampiro. — Apontou o dedo para Eric. — E nem diga que Charme Sexy de Vampiro parece um nome de banda, ou eu...
A porta da garagem levantou novamente.
— Hã, caras? — Era Kyle de novo. — Ouçam, se não quiserem que eu faça o teste, tudo bem. De repente mudaram o som, sei lá. É só falar que eu vou embora.
Eric inclinou a cabeça para o lado.
— Entre e vamos dar uma olhada em você.
Kyle entrou na garagem. Simon o encarou, tentando aferir o que tinha feito Clary chamá-lo de gato. Era alto, tinha ombros largos, magro, com maçãs do rosto altas, cabelos negros e cacheados, mais para longos, caindo sobre a testa e o pescoço, e o tom de pele de quem ainda não tinha perdido o bronze do verão. Os cílios longos e espessos sobre olhos verde-âmbar o faziam parecer um astro do rock do tipo bonitinho e rebelde. Vestia uma camisa verde justa e calças jeans, e se entrelaçando nos dois braços nus havia tatuagens — não eram Marcas, apenas tatuagens comuns. Pareciam escrituras circulando a pele, desaparecendo por dentro das mangas da camisa.
Tudo bem, Simon tinha que admitir. Ele não era horrendo.
— Sabe — disse Kirk afinal, rompendo o silêncio. — Eu consigo ver. Ele é bem gato.
Kyle piscou e olhou para Eric.
— Então, querem que eu cante ou não?
Eric tirou o microfone do stand e entregou a ele.
— Vá em frente — disse. — Tenta.
— Sabe, ele mandou muito bem — disse Clary. — Estava mais ou menos brincando sobre incluir Kyle na banda, mas ele tem voz.
Estavam andando pela Kent Avenue, em direção à casa de Luke. O céu tinha escurecido de azul para cinza, em preparação para o crepúsculo, e havia algumas nuvens baixas sobre o rio East River. Clary estava passando as mãos enluvadas pela grade de corrente que as separava do aterro de concreto, fazendo o metal tilintar.
— Só está falando isso porque o achou bonito — disse Simon.
Ela sorriu.
— Não tão gato assim. Não é o cara mais gato que já vi. — Esse, imaginou Simon, seria Jace, apesar de ela ter tido a gentileza de não falar. — Mas acho que seria uma boa ideia tê-lo na banda, honestamente. Se Eric e o resto deles não podem contar a ele que você é vampiro, também não podem contar para ninguém. Com sorte, isso vai acabar com essa ideia ridícula.
Estavam quase na casa de Luke; Simon conseguia enxergá-la do outro lado da rua, as janelas acesas em amarelo contra a escuridão que se aproximava. Clary parou no buraco na grade.
— Lembra quando matamos um monte de demônios Raum aqui?
— Você e Jace mataram demônios Raum. Eu quase vomitei. — Simon se lembrava, mas não estava com a cabeça nisso; estava pensando em Camille, sentada diante dele no jardim, dizendo É amigo de Caçadores de Sombras, mas nunca pode ser um deles. Sempre será diferente e de fora. Simon olhou de lado para Clary, imaginando o que ela diria se ele contasse sobre a reunião com a vampira, e sobre a oferta. Ele imaginava que provavelmente ficaria apavorada. O fato de que ele não podia ser atingido ainda não a tinha impedido de se preocupar com sua segurança.
— Não se assustaria agora — disse ela suavemente, como se estivesse lendo a mente dele. — Agora tem a Marca. — Clary se virou para olhar para ele, ainda apoiada na grade. — Alguém percebe ou pergunta sobre ela?
Ele balançou a cabeça.
— Meu cabelo cobre quase toda, e, de qualquer forma, desbotou bastante. Está vendo? — Ele então puxou o cabelo para o lado.
Clary esticou o braço e tocou a testa dele, e a Marca sinuosa desenhada ali. Ela estava com uma expressão triste, como no dia em que estiveram no Salão dos Acordos em Alicante, quando cortou a mais antiga maldição do mundo na pele de Simon.
— Dói?
— Não. Não dói. — E Caim disse ao Senhor, meu castigo é maior do que posso suportar. — Sabe que não a culpo, não sabe? Salvou a minha vida.
— Eu sei. — Os olhos de Clary estavam brilhando. Ela abaixou a mão que estivera na testa dele e esfregou as costas da luva no rosto. — Droga. Detesto chorar.
— Bem, é melhor se acostumar — disse ele e, quando ela arregalou os olhos, acrescentou apressadamente: – Estou falando do casamento. Quando é? Sábado que vem? Todo mundo chora em casamentos.
Ela deu um riso de desdém
— E como estão sua mãe e Luke?
— Irritantemente apaixonados. Um horror. Então... — Afagou-o no ombro. — É melhor eu entrar. Nos vemos amanhã?
Ele assentiu.
— Claro. Amanhã.
Ele a observou enquanto ela corria pela rua e subia as escadas para a porta da frente de Luke. Amanhã. Ficou imaginando quanto tempo fazia desde a última vez em que passara mais de alguns dias sem ver Clary. Pensou sobre ser um fugitivo e um andarilho na terra, como Camille dissera. Como Raphael dissera. O sangue do teu irmão me chama da terra. Ele não era Caim, o homem que matou o irmão, mas a maldição acreditava que sim. Era estranho, ele achava, ficar à espera de perder tudo, sem saber se aconteceria ou não.
A porta se fechou atrás de Clary. Simon virou para descer a Kent Street, para a estação de metrô da linha G na Lorimer Street. Estava quase completamente escuro agora, o céu acima um redemoinho de cinza e preto. Simon ouviu pneus cantando na estrada atrás dele, mas não se virou. Carros dirigiam rápido demais nesta rua o tempo todo, apesar das rachaduras e das poças. Foi só quando a van chegou do lado dele e freou com um rangido que virou para olhar.
O motorista da van arrancou as chaves da ignição, desligando o motor, e abriu a porta. Era um homem — um homem alto, com uma roupa de ginástica cinza de capuz e tênis, com o capuz tão abaixado que escondia quase todo o rosto. Saltou do banco do motorista, e Simon viu que tinha uma faca grande e brilhante na mão.
Mais tarde Simon pensaria que deveria ter corrido. Era um vampiro, mais rápido do que qualquer humano. Seria mais veloz do que qualquer um. Devia ter corrido, mas estava espantado demais; ficou parado enquanto o sujeito, com a faca na mão, veio em direção a ele. O homem disse alguma coisa com uma voz baixa e gutural, algo em uma língua que Simon não entendia.
Simon deu um passo para trás.
— Veja — disse, alcançando o bolso. — Pode levar minha carteira...
O homem avançou para Simon, apertando a faca contra seu peito. Simon olhou incrédulo. Tudo pareceu acontecer muito lentamente, como se o tempo tivesse se estendido. Viu a ponta da faca perto do peito, a ponta furando o couro da jaqueta — e em seguida ela se moveu para o lado, como se alguém tivesse agarrado o braço do agressor e puxado. O homem gritou quando foi lançado para o ar como uma marionete sendo controlada pelas cordas. Frenético, Simon olhou em volta — certamente alguém devia ter visto ou percebido a comoção, mas ninguém apareceu. O homem continuou gritando e se debatendo, enquanto a camisa rasgava na frente, como se tivesse sido destruída por uma mão invisível.
Simon ficou encarando, horrorizado. Hematomas enormes apareciam no tronco do sujeito. A cabeça voou para trás, e sangue foi cuspido da boca. Ele parou de gritar subitamente... — e caiu, como se a mão invisível se tivesse aberto, soltando-o. O homem atingiu o chão e estilhaçou como vidro em mil pedaços brilhantes que se espalharam pela calçada.
Simon caiu de joelhos. A faca com que tentaram matá-lo estava jogada no chão, um pouco afastada, ao alcance de seu braço. Era tudo que restava do agressor, exceto pela pilha de cristais brilhantes que já começavam a voar ao vento frio. Ele tocou uma delas cautelosamente.
Era sal. Olhou para as mãos. Estavam tremendo. Sabia o que tinha acontecido, e por quê.
E Deus disse a ele, Portanto, quem quer que mate Caim, sofrerá uma vingança sete vezes pior.
Então sete vezes era assim.
Mal conseguiu chegar até a sarjeta antes de se curvar e vomitar sangue na rua.
No instante em que abriu a porta, Simon soube que tinha calculado mal. Achou que a mãe já estaria dormindo a essa hora, mas não. Estava acordada, sentada na poltrona diante da porta da frente, com o telefone na mesa ao lado, e viu o sangue na jaqueta dele imediatamente.
Para surpresa de Simon, ela não gritou, mas sua mão voou para a boca.
— Simon.
— O sangue não é meu — disse rapidamente. — Eu estava na casa de Eric, e Matt teve um sangramento no nariz...
— Não quero ouvir. — O tom agudo era um que raramente utilizava; fazia com que ele se lembrasse da maneira como ela falava durante aqueles últimos meses em que o pai esteve doente, a ansiedade como uma faca em sua voz. — Não quero ouvir mais mentiras.
Simon jogou as chaves na mesa perto da porta.
— Mãe...
— Só o que você faz é mentir para mim. Cansei disso.
— Não é verdade — respondeu, mas sentiu-se nauseado, sabendo que era. — Minha vida está muito confusa, é só.
— Eu sei. — A mãe se levantou; sempre fora uma mulher magra, e parecia esquelética agora, os cabelos pretos, da mesma cor do dele, marcados com mais linhas grisalhas do que ele se lembrava ao redor do rosto. — Venha comigo, rapazinho. Agora.
Confuso, Simon a seguiu até a cozinha amarela brilhante. A mãe parou e apontou para a bancada.
— Se importa de explicar isso?
A boca de Simon ficou seca. Alinhadas no balcão, como uma fileira de soldadinhos de brinquedo, estavam as garrafas de sangue que ele guardava no minibar dentro do armário. Uma estava pela metade, as outras completamente cheias, o líquido vermelho nelas brilhava como uma acusação. Ela também tinha encontrado as bolsas vazias de sangue que ele tomara, lavando-as e depois colocado cuidadosamente em uma sacola de compras antes de jogá-las na lata de lixo. Também estavam espalhadas pela bancada, como uma decoração grotesca.
— Primeiro achei que fossem garrafas de vinho — disse Elaine Lewis, com a voz trêmula. — Depois encontrei as sacolas. Então abri uma das garrafas. É sangue. Não é?
Simon não disse nada. Sua voz parecia ter fugido.
— Tem estado muito estranho ultimamente — prosseguiu a mãe. — Sempre na rua, nunca come, mal dorme, tem amigos que nunca conheci, de quem nunca ouvi falar. Acha que não sei quando está mentindo para mim? Eu sei, Simon. Achei que estivesse usando drogas.
Simon encontrou a voz.
— Então revistou meu quarto?
A mãe enrubesceu.
— Eu tive que fazer isso! Achei... achei que se encontrasse drogas, poderia ajudar, te inscrever em um programa de reabilitação, mas isto? — gesticulou desgovernadamente para as garrafas. — Não sei nem o que pensar sobre isto. O que está acontecendo, Simon? Entrou em uma espécie de seita?
Simon balançou a cabeça.
— Então, me conte — disse a mãe, com os lábios tremendo. — Porque as únicas explicações que consigo pensar são horríveis e doentias. Simon, por favor...
— Sou um vampiro — disse Simon. Não fazia ideia de como tinha dito, nem mesmo por quê. Mas lá estava. As palavras pairavam no ar entre os dois como um gás venenoso.
Os joelhos da mãe pareceram ceder, e ela afundou em uma cadeira na cozinha.
— O que você disse? — sussurrou ela.
— Sou um vampiro — disse Simon. — Há mais ou menos dois meses. Sinto muito por não ter contado antes. Não sabia como.
O rosto de Elaine Lewis estava branco como giz.
— Vampiros não existem, Simon.
— Sim — disse. — Existem. Olha, eu não pedi para ser um vampiro. Fui atacado. Não tive escolha. Eu mudaria isso se pudesse. — Rapidamente, ele pensou no panfleto que Clary havia lhe dera há tanto tempo, sobre sair do armário e contar para os pais. Na época pareceu uma analogia engraçada; agora não.
— Acha que é um vampiro — disse a mãe de Simon, entorpecida. — Acha que bebe sangue.
— Eu bebo sangue — declarou Simon. — Bebo sangue animal.
— Mas você é vegetariano. — A mãe parecia à beira das lágrimas.
— Era. Não sou mais. Não posso ser. É o sangue que me mantém vivo. — A garganta de Simon parecia apertada. — Nunca machuquei uma pessoa. Jamais beberia o sangue de alguém. Continuo sendo o mesmo. Continuo sendo eu.
A mãe parecia estar lutando para se controlar.
— Seus novos amigos... também são vampiros?
Simon pensou em Isabelle, Maia, Jace. Não podia explicar Caçadores de Sombras e lobisomens também. Era demais.
— Não. Mas sabem que sou.
— Eles... eles te deram drogas? Fizeram você tomar alguma coisa? Alguma coisa que provocasse alucinações? — Ela mal parecia ter escutado a resposta do filho.
— Não. Mãe, é verdade.
— Não é — sussurrou. — Você acha que é. Meu Deus. Simon. Sinto muito. Devia ter notado. Vamos buscar ajuda. Vamos encontrar alguém. Um médico. Qualquer que seja o preço...
— Não posso ir ao médico, mãe.
— Pode sim. Precisa ir a algum lugar. Talvez um hospital...
Simon esticou o pulso para ela.
— Verifique meu pulso — disse.
Ela olhou para ele, espantada.
— O quê?
— Meu pulso — disse. — Pode checar. Se sentir alguma coisa, tudo bem, vou ao hospital com você. Caso contrário, terá que acreditar em mim.
Ela esfregou as lágrimas dos olhos e lentamente se esticou para verificar o pulso dele. Após tanto tempo cuidando do pai de Simon quando ele estava doente, sabia fazer isso tão bem quanto qualquer enfermeira. Pressionou o indicador na parte interna do pulso do filho e esperou.
Ele observou conforme o rosto dela mudava, de tristeza e irritação para confusão, e depois pavor. Ela se levantou, largando a mão dele, afastando-se. Os olhos eram enormes e escuros em seu rosto branco.
— O que é você?
Simon se sentiu enjoado.
— Já disse. Sou um vampiro.
— Você não é meu filho. Não é o Simon. — Estava tremendo. — Que espécie de criatura viva não tem pulsação? Que tipo de monstro você é? O que você fez com meu filho?
— Sou o Simon... — Ele deu um passo em direção a mãe.
Ela gritou. Ele nunca a tinha ouvido gritar assim, e nunca mais queria. Era um som horrível.
— Afaste-se de mim. — A voz falhou. — Não se aproxime mais. — Começou a sussurrar. — Barukh ata Adonai sho’me’a’t’fila...
Estava rezando. Simon percebeu, com choque. Tinha tanto medo dele que estava rezando para que se afastasse, fosse banido. E o pior de tudo era que ele podia sentir. O nome de Deus lhe embrulhava o estômago e fazia a garganta doer.
Ela tinha razão em rezar, pensou Simon, completamente enjoado. Era amaldiçoado. Não pertencia ao mundo. Que espécie de criatura viva não tem pulsação?
— Mãe — sussurrou Simon. — Mãe, pare.
Ela olhou para ele, os olhos arregalados, os lábios ainda se movendo.
— Mãe, não precisa ficar tão perturbada. — Ouviu a própria voz como que de longe, suave e calmante, a voz de um estranho. Manteve os olhos fixos na mãe ao falar, capturando seu olhar com o próprio como um gato capturaria um rato. — Não aconteceu nada. Você dormiu na poltrona da sala. Está tendo um pesadelo de que voltei para casa e contei que sou um vampiro. Mas isso é loucura. Jamais aconteceria.
Ela tinha parado de rezar. Piscou os olhos.
— Estou sonhando — repetiu.
— É um pesadelo — disse Simon. Foi em direção a ela e colocou a mão no ombro da mãe. Ela não recuou. Estava com a cabeça caída, como a de uma criança cansada. — Só um sonho. Não encontrou nada no meu quarto. Não aconteceu nada. Está apenas dormindo, só isso.
Pegou a mão da mãe. Ela permitiu que ele a levasse para a sala, onde a colocou na poltrona. Ela sorriu quando o filho colocou um cobertor sobre ela, e fechou os olhos.
Simon voltou para a cozinha e, rápida e metodicamente, jogou as garrafas de sangue em uma sacola de lixo. Amarrou a parte superior e levou para o quarto, onde trocou a jaqueta sangrenta por uma nova, e jogou algumas coisas rapidamente em uma mochila. Apagou a luz e saiu, fechando a porta.
A mãe já estava adormecida quando passou pela sala. Esticou o braço e tocou a mão dela.
— Vou me ausentar por alguns anos — sussurrou. — Mas você não vai se preocupar. Não vai esperar que eu volte. Você acha que estou em um passeio da escola. Não precisa ligar. Está tudo bem.
Ele retirou a mão. À luz fraca a mãe parecia ao mesmo tempo mais velha e mais nova do que estava acostumado. Era tão pequena quanto uma criança, encolhida sob a coberta, mas havia novas rugas no rosto, das quais não se lembrava.
— Mãe — sussurrou Simon.
Tocou a mão dela, e ela se mexeu. Não querendo que ela acordasse, Simon se afastou e foi silenciosamente para a porta, pegando as chaves na mesa ao passar.
O Instituto estava quieto. Vivia quieto ultimamente. Jace tinha passado a deixar a janela aberta à noite, para poder escutar os ruídos do tráfego passando, sirenes ocasionais de ambulâncias e as buzinas da York Avenue. Também ouvia coisas que os mundanos não conseguiam escutar, e estes barulhos penetravam a noite e invadiam seus sonhos — a corrente de ar deslocada pela motocicleta aérea de um vampiro, as batidas das asas de fadas aladas, o uivo distante de lobos em noites de lua cheia.
A lua estava apenas na fase crescente agora, emitindo luz o suficiente para que ele pudesse ler jogado em cima da cama. Estava com a caixa de prata do pai aberta diante de si, examinando o conteúdo. Uma das estelas do pai estava ali, e uma adaga de cabo de prata com as iniciais SWH no cabo e — o que mais interessava a Jace — uma pilha de cartas.
Ao longo das últimas seis semanas tinha passado a ler mais ou menos uma carta por noite, tentando entender melhor o homem que era seu pai biológico. Uma imagem começou a emergir lentamente, de um jovem gentil com pais severos que fora atraído por Valentim e o Ciclo porque lhe ofereciam uma oportunidade de se destacar no mundo. Continuou escrevendo para Amatis mesmo depois do divórcio, fato que ela não tinha mencionado antes. Naquelas cartas, seu desencanto com Valentim e o nojo das atividades do Ciclo eram claros, apesar de ele raramente mencionar a mãe de Jace, Céline — se é que ele o fez. Fazia sentido — Amatis não ia querer ouvir sobre sua substituta — e, no entanto, Jace não conseguia deixar de odiar o pai um pouco por isso. Se não gostava da mãe dele, por que se casara com ela? Se detestava o Ciclo tanto assim, por que não o deixou? Valentim foi um louco, mas pelo menos respeitava os próprios princípios.
E então é claro que Jace só se sentia pior por preferir Valentim a seu pai verdadeiro. Que tipo de pessoa isso o tornava?
Uma batida na porta o arrancou de suas autorrecriminações; então ele se levantou e foi atender, esperando que fosse Isabelle, pedindo algo emprestado, ou reclamando de alguma coisa.
Mas não era Isabelle. Era Clary.
Não estava vestida como de costume. Usava uma camiseta preta com decote profundo com uma blusa branca folgada aberta por cima, e uma saia curta, curta o suficiente para exibir as curvas da perna até o meio da coxa. Os cabelos ruivos brilhantes estavam presos em tranças, alguns cachos soltos grudados na têmpora, como se estivesse chovendo um pouco lá fora. Ela sorriu ao vê-lo, erguendo as sobrancelhas. Eram cúpricas, como os cílios finos que emolduravam seus olhos verdes.
— Não vai me deixar entrar?
Ele olhou de um lado para o outro no corredor. Não havia mais ninguém ali, graças a Deus. Pegando Clary pelo braço, puxou-a para dentro e fechou a porta. Apoiando-se contra ela, disse:
— O que está fazendo aqui? Está tudo bem?
— Tudo bem. — Ela tirou os sapatos e se sentou na beira da cama. A saia levantou quando ela se inclinou para trás, apoiando-se nas mãos, revelando mais da coxa. Não estava ajudando muito na concentração de Jace. — Fiquei com saudade. E minha mãe e Luke estão dormindo. Não vão perceber que saí.
— Não deveria estar aqui. — As palavras saíram como uma espécie de resmungo. Detestava dizê-las, mas sabia que precisavam ser ditas, por razões que ela sequer conhecia. E ele esperava que nunca soubesse.
— Bem, se quiser que eu vá embora, eu vou. — Ela se levantou. Seus olhos eram de um ofuscante brilho verde. Deu um passo em direção a ele. — Mas vim até aqui. Você poderia ao menos me dar um beijo de despedida.
Ele esticou o braço, puxou-a para perto e beijou-a. Havia coisas que precisavam ser feitas, mesmo que não fosse uma boa ideia. Ela caiu em seus braços como seda delicada. Ele passou os dedos pelos cabelos dela, soltando as tranças até os cabelos caírem sobre os ombros como ele gostava. Lembrava-se que quisera fazer isso na primeira vez em que a viu, e que descartara a ideia como uma loucura. Era uma mundana, uma estranha, não fazia sentido querê-la. E depois a beijara pela primeira vez na estufa, o que quase o enlouqueceu. Tinham descido e sido interrompidos por Simon, e ele nunca quis matar alguém tanto quanto quis matar Simon naquela ocasião, apesar de saber, racionalmente, que ele não tinha feito nada errado. Mas o que sentia não tinha nada de racional, e quando a imaginou deixando-o por Simon, esse pensamento o enojou e assustou de uma forma que demônio nenhum jamais havia feito.
E depois Valentim lhe disse que eram irmãos, e Jace percebeu que havia coisas piores, infinitamente piores do que Clary deixá-lo por outra pessoa — era saber que a forma como a amava era de alguma forma cosmicamente errada; que o que parecia a coisa mais pura e irrepreensível em sua vida tinha sido contaminada além de qualquer redenção. Lembrou-se do pai dizendo que quando anjos caíam, caíam angustiados, pois já tinham visto o rosto de Deus, e jamais o veriam novamente. E achou que sabia como era a sensação.
Porém isso não fez com que a quisesse menos; apenas transformou querê-la em tortura. Às vezes a sombra dessa tortura surgia nas lembranças mesmo quando a beijava, como agora, e isso lhe fez apertá-la com mais força. Ela emitiu um ruído de surpresa, mas não protestou, mesmo quando Jace a levantou, carregando-a até a cama.
Esparramaram-se juntos sobre ela, amassando algumas das cartas, Jace empurrando a própria caixa para abrir espaço para os dois. Seu coração batia forte contra as costelas. Nunca tinham estado juntos na cama assim, não de verdade. Teve aquela noite no quarto dela em Idris, mas mal se tocaram. Jocelyn tinha o cuidado de nunca permitir que um passasse a noite onde o outro morava. Não gostava muito dele, Jace desconfiava, e não podia culpá-la por isso. Duvidava que ele próprio fosse gostar de si se estivesse no lugar dela.
— Eu te amo — sussurrou Clary. Tinha tirado a camiseta dele, e estava passando as pontas dos dedos nas cicatrizes das costas de Jace, e a cicatriz em forma de estrela no ombro, igual à dela, uma relíquia do anjo cujo sangue compartilhavam. — Não quero perdê-lo nunca.
Ele deslizou a mão para baixo para desatar o nó que segurava a blusa de Clary. A outra mão, apoiada no colchão, tocou o metal frio da adaga de caça; devia ter caído na cama com o resto do conteúdo da caixa.
— Isso não vai acontecer nunca.
Ela olhou para ele com olhos brilhantes.
— Como pode ter tanta certeza?
A mão de Jace se fechou sobre o cabo da faca. A luz da lua que jorrava pela janela refletiu na lâmina quando a levantou.
— Tenho certeza — respondeu ele, e abaixou a adaga bruscamente. A lâmina cortou a carne de Clary como se fosse papel, e quando sua boca se abriu em forma de O, em choque, e a frente da camisa branca ficou ensopada de sangue, ele pensou Meu Deus, de novo não.
Acordar do pesadelo foi como estilhaçar uma janela de vidro. Os cacos afiados pareciam cortá-lo mesmo enquanto se libertava e se sentava, engasgando. Rolou para fora da cama, instintivamente querendo escapar, e atingiu o chão de pedra sobre as mãos e joelhos. Ar frio entrava pela janela aberta, fazendo-o tremer, mas livrando-o dos restos do sonho.
Olhou para as próprias mãos. Não tinham sangue. A cama estava uma bagunça, os lençóis e cobertores enrolados em uma bola, de tanto Jace que se revirar, mas a caixa com as coisas do pai continuava na cabeceira, onde a havia deixado antes de ir dormir.
Nas primeiras vezes em que teve o pesadelo, ele tinha acordado e vomitado. Agora tomava o cuidado de não comer algumas horas antes de dormir, então o corpo se vingava com espasmos de náusea e febre. Quando seu corpo se contorceu num desses espasmos, ele se encolheu, arquejando e arfando até passar.
Quando acabou, pressionou a testa contra o chão frio de pedra. O suor estava esfriando em seu corpo, a camisa grudada na pele, e ele considerou, a sério, se eventualmente os sonhos o matariam. Tinha tentado de tudo para evitá-los — remédios para dormir e poções, marcas de sono, marcas de paz e cura. Nada adiantou. Os sonhos eram como venenos em sua mente, e não havia nada que pudesse fazer para afastá-los.
Mesmo enquanto estava acordado, achava difícil olhar para Clary. Ela sempre conseguira ver através dele como ninguém, e Jace mal podia imaginar o que ela pensaria se soubesse o que ele vinha sonhando. Rolou para o lado e encarou a caixa na cabeceira, refletindo a luz da lua. E pensou em Valentim. Valentim, que havia torturado e aprisionado a única mulher que amou na vida, que ensinou o filho — os filhos — que amar alguma coisa era destruí-la para sempre.
Sua mente girava freneticamente ao dizer as palavras para si mesmo, repetidas vezes. Havia se tornado uma espécie de mantra para ele, e como qualquer mantra, as palavras tinham começado a perder o significado individual.
Não sou como Valentim. Não quero ser como ele. Não serei como ele. Não serei.
Viu Sebastian — Jonathan, na verdade — seu mais–ou-menos-irmão, sorrindo para ele através de um emaranhado de cabelos branco-prateados, os olhos negros brilhando com júbilo impiedoso. E viu a própria faca entrar em Jonathan e sair, e o corpo de Jonathan caindo em direção ao rio embaixo, o sangue se misturando às ervas daninhas e à grama na margem do rio.
Não sou como Valentim.
Não se arrependera de ter matado Jonathan. Se precisasse, faria outra vez.
Não quero ser como ele.
Sem dúvida não era normal matar alguém — matar o próprio irmão adotivo — e não sentir nada.
Não serei como ele.
Mas seu pai havia lhe ensinado que matar sem piedade era uma virtude, e talvez fosse impossível esquecer o que os pais ensinavam. Independentemente do quanto quisesse.
Não serei como ele.
Talvez as pessoas jamais pudessem mudar de fato.
Não serei.