Cidade dos Anjos Caídos

Cassandra Clare · Capítulo 16 de 22

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Cidade dos Anjos Caídos

13 | Garota encontrada morta

13

Garota Encontrada Morta

 

— Sua namorada? — Alec parecia estarrecido. Maryse também. Simon não podia dizer que ele próprio não estava. — Você namorou uma vampira? Uma mulher vampira?

— Foi há 130 anos — disse Magnus. — Não a vejo desde então.

— Por que não me contou? — inquiriu Alec.

Magnus suspirou.

— Alexander, faz centenas de anos que estou vivo. Já estive com homens, com mulheres, com fadas, feiticeiros e vampiros, e até mesmo um ou dois gênios. — Olhou de lado para Maryse, que aparentava estar levemente horrorizada. — Revelei demais?

— Tudo bem — disse ela, apesar parecer um pouco descorada. — Preciso discutir uma coisa com Kadir um instante. Já volto. — Chegou para o lado, juntando-se a Kadir, então desapareceram por uma entrada. Simon recuou alguns passos também, fingindo analisar um dos vitrais atentamente, mas sua audição vampiresca era suficientemente boa para que pudesse ouvir cada palavra que Magnus e Alec diziam um ao outro, querendo ou não. Camille também estava escutando, sabia. Estava com a cabeça inclinada para o lado enquanto ouvia, os olhos pesados e pensativos.

— Quantas outras pessoas? — perguntou Alec. — Mais ou menos.

Magnus balançou a cabeça.

— Não sei quantas, e não tem importância. A única coisa importante é o que sinto por você.

— Mais de cem? — indagou Alec. O rosto de Magnus não demonstrava expressão. — Duzentas?

— Não posso acreditar que estamos tendo esta conversa agora — disse Magnus, a ninguém em particular. Simon estava inclinado a acreditar, e desejou que não estivessem conversando na frente dele.

— Por que tantas? — Os olhos de Alec estavam muito claros à pouca luz. Simon não sabia dizer se ele estava irritado. Não soava irritado, apenas intenso, mas Alec era uma pessoa contida, e talvez isto fosse o mais irritado que ficasse. — Enjoa das pessoas depressa?

— Eu vivo eternamente — Magnus respondeu, baixinho. — Mas ninguém mais vive.

Alec aparentava ter sido agredido.

— Então você fica com elas enquanto estão vivas, depois encontra outra?

Magnus não disse nada. Olhou para Alec, os olhos brilhando como os de um gato.

— Preferia que eu passasse a eternidade sozinho?

A boca de Alec estremeceu.

— Vou encontrar Isabelle — declarou, e sem mais uma palavra virou e voltou para o Instituto.

Magnus observou-o partir com olhos tristes. Não uma tristeza humana, pensou Simon. Seus olhos pareciam conter uma tristeza centenária, como se as bordas afiadas da tristeza humana tivessem sido desgastadas e suavizadas pelo efeito do tempo, do jeito que a água do mar gastava pontas afiadas de vidro.

Como se soubesse o que Simon estava pensando, Magnus o olhou de lado.

— Ouvindo a conversa alheia, vampiro?

— Não gosto quando me chamam assim — disse Simon. — Tenho um nome.

— Suponho que seja melhor eu lembrar. Afinal de contas, daqui a cem, duzentos anos, seremos só nós dois. — Magnus olhou pensativamente para Simon. — Só sobraremos nós.

A ideia fez Simon se sentir como se estivesse em um elevador que havia se soltado das amarras repentinamente e começado a cair, mil andares abaixo. Já tinha pensado nisso, é claro, mas sempre afastara o pensamento. A noção de que permaneceria com 16 anos enquanto Clary crescia, Jace crescia, todos os conhecidos cresciam e tinham filhos e nada mudaria para ele era grande e terrível demais para ser contemplada.

Ter 16 anos para sempre parecia bom até que se parasse para pensar de fato. Então não parecia mais um grande prospecto.

Os olhos de gato de Magnus eram de um verde dourado claro.

— Encarar a eternidade — disse Magnus. — Não é tão divertido, é?

Antes que Simon pudesse responder, Maryse estava de volta.

— Onde está Alec? — perguntou confusa, olhando ao redor.

— Foi ver Isabelle — respondeu Simon antes que Magnus precisasse se pronunciar.

— Muito bem. — Maryse alisou a frente do blazer, apesar de não estar amarrotado. — Se não se importa...

— Falo com Camille — disse Magnus. — Mas quero fazer isso sozinho. Se quiser me esperar no Instituto, posso encontrá-la quando acabar.

Maryse hesitou.

— Sabe o que perguntar?

O olhar de Magnus tinha total firmeza.

— Sei como conversar com ela, sim. Se estiver disposta a dizer alguma coisa, dirá a mim.

Ambos pareciam ter se esquecido de que Simon estava lá.

— Devo sair também? — perguntou ele, interrompendo o campeonato de troca de olhares.

Maryse olhou para ele, meio distraída.

— Ah, sim. Obrigada pela ajuda, Simon, mas não precisamos mais de você. Pode ir para casa, se desejar.

Magnus não disse nada. Simon deu de ombros, virou-se e foi para a porta que levava à sacristia e à saída. Na porta pausou e olhou para trás. Maryse e Magnus continuavam conversando, apesar de o guarda já estar mantendo a porta do Instituto aberta, pronto para se retirar. Apenas Camille parecia se lembrar da presença de Simon. Estava sorrindo para ele do pilar, os lábios curvados nos cantos, os olhos brilhando como uma promessa.

Simon saiu e fechou a porta.

— Acontece toda noite. — Jace estava sentado no chão, as pernas levantadas, as mãos entre os joelhos. Tinha posto a faca na cama ao lado de Clary; a menina manteve uma mão sobre o objeto enquanto ele falava, mais para reconfortá-lo do que por precisar se defender. Toda a energia parecia ter se esvaído de Jace, e mesmo a voz soava vazia e distante enquanto conversava, como se falasse de longe. — Sonho que você entra no meu quarto e nós... começamos a fazer o que estávamos fazendo. E aí eu te machuco. Corto, enforco ou esfaqueio, e você morre, me olhando com esses olhos verdes enquanto sua vida se esvai em sangue entre minhas mãos.

— São apenas sonhos — disse Clary, suavemente.

— Acabou de ver que não são — discordou Jace. — Eu estava completamente acordado quando peguei a faca.

Clary sabia que ele estava certo.

— Tem medo de estar enlouquecendo?

Ele balançou a cabeça lentamente. O cabelo caiu no olho e ele o puxou para trás. Os cabelos de Jace tinham crescido demais; fazia algum tempo que não os cortava, e Clary ficou imaginando se seria porque não se importava. Como pôde não prestar mais atenção às olheiras, às unhas roídas e a aparência completamente exausta do namorado? Esteve tão preocupada pensando se ele ainda a amava ou não que não teve olhos para mais nada.

— Não estou tão preocupado com isso, sinceramente — disse. — Fico preocupado em machucá-la. Estou preocupado que qualquer que seja o veneno invadindo meus sonhos vá penetrar minha vida e eu... — Sua garganta pareceu fechar.

— Jamais me machucaria.

— Essa faca estava na minha mão, Clary. — Olhou para ela, e em seguida desviou o olhar. — Se machucá-la... — interrompeu-se. — Caçadores de Sombras morrem jovens, muitas vezes — disse. — Todos nós sabemos disso. E você quis ser Caçadora de Sombras, e eu jamais a impediria, pois não é minha competência dizer o que deve fazer com sua vida. Principalmente quando corro os mesmos riscos. Que espécie de pessoa eu seria se dissesse que não tem problema arriscar a minha vida, mas a sua tem? Então pensei em como seria para mim se você morresse. Aposto que já pensou nisso.

— Sei como seria — disse Clary, lembrando-se do lago, da espada e do sangue de Jace se espalhando pela areia. Ele havia morrido, e o Anjo o trouxera de volta, mas aqueles haviam sido os piores minutos de sua vida. — Queria morrer. Mas sabia o quão decepcionado ficaria se eu simplesmente desistisse.

Ele deu um meio sorriso.

— E pensei a mesma coisa. Se você morresse, eu não ia querer viver. Mas não me mataria, pois o que quer que aconteça conosco depois da morte, quero estar com você. E se eu me matasse, sei que nunca mais falaria comigo. Em vida nenhuma. Então viveria e tentaria fazer alguma coisa com a minha vida, até poder estar novamente com você. Mas se eu te machucasse, se eu fosse a causa da sua morte, nada me impediria de me destruir.

— Não diga isso. — Clary se sentiu gelada até os ossos. — Jace, devia ter me contado.

— Não podia. — A voz soou seca, definitiva.

— Por que não?

— Achei que fosse Jace Lightwood — falou. — Pensei que fosse possível que minha criação não tivesse me afetado. Mas agora fico imaginando se talvez as pessoas não sejam capazes de mudar. Talvez eu sempre vá ser Jace Morgenstern, filho de Valentim. Ele me criou, durante dez anos, e talvez essa mancha não saia nunca mais.

— Acha que isto é por causa do seu pai — disse Clary, e o pedaço da história que Jace contou uma vez passou por sua cabeça: amar é destruir. E em seguida lhe ocorreu o quanto era estranho chamar Valentim de pai de Jace, quando o sangue dele corria em suas veias, e não nas do namorado. Mas nunca sentiu por Valentim o que uma pessoa sentiria por um pai. Ao contrário de Jace. — E não queria que eu soubesse?

— Você é tudo que quero — declarou. — E talvez Jace Lightwood mereça tudo que deseja. Mas Jace Morgenstern não. Em algum lugar de mim, sei disso. Ou não estaria tentando destruir o que temos.

Clary respirou profunda e lentamente.

— Não acho que esteja tentando.

Jace levantou a cabeça e piscou.

— O que quer dizer?

— Acha que é psicológico — explicou Clary. — Que tem alguma coisa errada com você. Bem, eu não acho. Acho que tem alguém fazendo isso com você.

— Eu não...

— Ithuriel me mandava sonhos — contou Clary. — Talvez alguém esteja te fazendo sonhar.

— Ithuriel enviou sonhos para tentar ajudar. Para guiá-la até a verdade. Qual é o objetivo destes sonhos? São doentios, sem significado, sádicos...

— Talvez tenham algum significado — disse Clary. — De repente o significado não é o que pensa. Ou talvez o responsável pelo envio esteja tentando machucá-lo.

— Quem faria isso?

— Alguém que não goste muito da gente — respondeu Clary, e afastou uma imagem da Rainha Seelie.

— De repente — falou Jace suavemente, olhando para as próprias mãos. — Sebastian...

Então ele também não quer chamá-lo de Jonathan, pensou Clary. Não o culpava. Também era o nome dele.

— Sebastian está morto — disse, um pouco mais abrupta do que pretendia. — E se ele tivesse este tipo de poder, teria utilizado antes.

Dúvida e esperança pareceram lutar na expressão de Jace.

— Realmente acha que outra pessoa poderia estar fazendo isso?

O coração de Clary batia acelerado. Não tinha certeza; queria tanto que fosse verdade, mas se não fosse, teria dado esperança a Jace à toa. Teria dado esperança aos dois.

Mas então teve a sensação de que fazia tempo que Jace não se sentia esperançoso em relação a nada.

— Acho que devemos ir até a Cidade do Silêncio — disse. — Os Irmãos podem entrar na sua cabeça e descobrir se alguém andou mexendo nela. Como fizeram comigo.

Jace abriu a boca e fechou novamente.

— Quando? — perguntou, finalmente.

— Agora — respondeu Clary. — Não quero esperar. Você quer?

Ele não respondeu; apenas se levantou e pegou a camisa. Olhou para Clary, quase sorrindo.

— Se vamos até a Cidade do Silêncio, é melhor se vestir. Quero dizer, eu gosto do visual calcinha e sutiã, mas não sei se os Irmãos do Silêncio vão gostar. Só sobraram alguns, e não quero que morram de emoção.

Clary se levantou da cama e jogou um travesseiro nele, principalmente de alívio. Alcançou as roupas e começou a vestir a camisa. Logo antes de passá-la sobre a cabeça, viu a faca sobre a cama, brilhando como um raio de chama prateada.

— Camille — disse Magnus. — Quanto tempo, não?

Ela sorriu. A pele parecia mais pálida do que o feiticeiro lembrava, e veias escuras e difusas começavam a aparecer sob a superfície. O cabelo ainda tinha cor de prata, e os olhos eram verdes como os de um gato. Continuava linda. Ao olhar para ela, transportou-se para Londres novamente. Viu o lampião e sentiu o cheiro de fumaça, sujeira e cavalos, o gosto metálico da névoa, as flores no Kew Gardens. Viu um menino com cabelos negros e olhos azuis como os de Alec. Uma menina com longos cachos castanhos e um semblante sério. Em um mundo onde tudo o deixava eventualmente, Camille era uma das poucas constantes remanescentes.

E lá estava ela.

— Senti sua falta, Magnus — disse.

— Não, não sentiu. — Ele sentou-se no chão do Santuário. Sentiu o frio das pedras através das roupas. Ficou feliz por ter pegado o cachecol. — Então, por que o recado para mim? Tentando ganhar tempo?

— Não. — Inclinou-se para a frente, as correntes tilintando. Ele quase conseguia escutar o chiado de onde o metal bento tocava a pele dos pulsos. — Ouvi coisas a seu respeito, Magnus. Ouvi que está sob a proteção dos Caçadores de Sombras atualmente. Ouvi que conquistou o amor de um deles. O menino com quem estava conversando, suponho. Mas seus gostos sempre foram diversificados.

— Tem ouvido boatos a meu respeito — disse Magnus. — Mas poderia ter simplesmente me perguntado. Durante todos estes anos estive no Brooklyn, nada longe, e nunca tive notícias suas. Nunca a vi em uma das minhas festas. Havia um muro de gelo entre nós dois, Camille.

— Eu não o construí. — Os olhos verdes se arregalaram. — Sempre o amei.

— Você me deixou — disse. — Fez de mim um bichinho de estimação e depois me abandonou. Se o amor fosse comida, eu teria passado fome com os ossos que me deu. — Falava com naturalidade. Fazia muito tempo.

— Mas tínhamos toda a eternidade — protestou Camille. — Devia saber que eu voltaria para você...

— Camille — falou Magnus, com total paciência. — O que quer?

O peito dela subiu e desceu rapidamente. Como não tinha necessidade de respirar, Magnus sabia que era apenas um efeito.

— Sei que tem os ouvidos dos Caçadores de Sombras — falou. — Quero que fale com eles a meu favor.

— Quer que arrume um acordo para você — traduziu Magnus.

Ela fixou os olhos nele.

— Sua linguagem sempre foi lamentavelmente moderna.

— Estão dizendo que matou três Caçadores de Sombras — disse Magnus. — Matou?

— Eram membros do Ciclo — revelou, o lábio inferior tremendo. — Mataram e destruíram minha espécie no passado...

— Foi por isso? Vingança? — Quando ela ficou calada, Magnus disse: — Sabe o que fazem com aqueles que matam Nephilim, Camille.

Os olhos de Camille se acenderam.

— Preciso que interceda por mim, Magnus. Quero imunidade. Quero uma promessa assinada da Clave de que se eu der informações, pouparão minha vida; e me libertarão.

— Nunca vão libertá-la.

— Então nunca saberão por que seus colegas tiveram que morrer.

— Tiveram que morrer? — ponderou Magnus. — Colocação interessante, Camille. Estou certo em concluir que há mais do que os olhos podem ver? Mais do que sangue ou vingança.

Camille se manteve em silêncio, olhando para ele, o peito subindo e descendo artisticamente. Tudo nela era artístico — a cascata de cabelos prateados, a curva da garganta, até o sangue nos pulsos.

— Se quer que converse com eles por você — disse Magnus —, precisa, no mínimo, me contar alguma coisinha. Uma demonstração de boa-fé.

Ela sorriu alegremente.

— Sabia que falaria com eles, Magnus. Sabia que o passado não estava completamente morto para você.

— Considere-o vivo se quiser — respondeu Magnus. — E a verdade, Camille?

A vampira passou a língua pelo lábio inferior.

— Pode revelar a eles — disse — que estava cumprindo ordens quando matei aqueles Caçadores de Sombras. Não me incomodei em fazê-lo, afinal mataram minha espécie, e foram mortes merecidas. Mas não faria a não ser que alguém ordenasse, alguém muito mais poderoso do que eu.

O coração de Magnus acelerou. Não estava gostando daquilo.

— Quem?

Mas Camille balançou a cabeça.

— Imunidade, Magnus.

— Camille...

— Vão me levar para o sol e me deixar morrer — disse. — É o que fazem com quem mata os Nephilim.

Magnus se levantou. O cachecol estava empoeirado por ter tocado o chão. Olhou pesarosamente para as manchas.

— Farei o que puder, Camille. Mas não posso prometer.

— Jamais prometeria — murmurou, com olhos semicerrados. — Venha cá, Magnus. Aproxime-se de mim.

Ele não a amava, mas ela era um sonho do passado, então se aproximou até que pudesse tocá-la.

— Lembra — disse suavemente. — Lembra-se de Londres? Das festas de De Quincey? Lembra-se de Will Herondale? Sei que sim. Aquele seu menino, aquele Lightwood. São até parecidos.

— São? — disse Magnus, como se jamais tivesse pensado a respeito.

— Meninos bonitos sempre foram sua ruína — declarou. — Mas o que uma criança mortal pode oferecer? Dez anos? Vinte, antes de a ruptura alcançá-los? Quarenta, cinquenta anos, antes de a morte levá-los. Posso lhe dar toda a eternidade.

Magnus tocou a bochecha de Camille. Era mais fria do que o chão.

— Podia me dar o passado — disse, um pouco triste. — Mas Alec é meu futuro.

— Magnus... — começou.

A porta do Instituto se abriu. Maryse estava na entrada, contornada pela luz enfeitiçada atrás. Ao seu lado, Alec, com os braços cruzados. Magnus ficou imaginando se Alec teria escutado a conversa entre ele e Camille através da porta... Certamente não?

— Magnus — disse Maryse Lightwood. — Chegaram a algum acordo?

Magnus abaixou a mão.

— Não tenho certeza se chamaria de acordo — disse, voltando-se para Maryse. — Mas acho que temos alguns assuntos a discutir.

Vestida, Clary foi com Jace até o quarto dele, onde arrumou uma pequena bolsa de lona com coisas para levar até a Cidade do Silêncio; como se, pensou, estivesse indo a uma sombria festa do pijama. Eram armas, essencialmente — algumas lâminas serafim, a estela de Jace, e, quase como uma decisão de última hora, a faca de cabo prateado, com a lâmina agora limpa. Jace vestiu uma jaqueta de couro preta, e ela observou enquanto ele fechava o zíper, soltando mechas de cabelo dourado do colarinho. Quando virou para olhar para ela, passando a bolsa pelo ombro, deu um sorriso frágil, e ela viu a lasca singela no incisivo esquerdo da frente que sempre achara adorável; um pequeno defeito em uma aparência que do contrário seria perfeita. Seu coração se contraiu, e por um instante desviou os olhos dele, mal conseguindo respirar.

Jace estendeu a mão para ela.

— Vamos.

Não havia como convocar os Irmãos do Silêncio para buscarem-nos, então Jace e Clary pegaram um táxi em direção a Houston e ao Cemitério de Mármore. Clary achou que poderiam ter atravessado um Portal até a Cidade dos Ossos — já tinha ido lá antes, sabia como era —, mas Jace falou que havia regras para tais coisas, e Clary não conseguia espantar a sensação de que os Irmãos do Silêncio poderiam achar grosseiro.

Jace se sentou ao lado dela no banco de trás do táxi, segurando uma de suas mãos e traçando desenhos com os dedos. Isto a distraía, mas não o suficiente para impedir que prestasse atenção enquanto ele contava sobre o que vinha acontecendo com Simon, a história de Jordan, a captura de Camille, e a exigência da vampira em ver Magnus.

— Simon está bem? — perguntou, preocupada. — Não sabia. Ele esteve no Instituto e sequer o vi...

— Não esteve no Instituto; só no Santuário. E parece estar bem. Melhor do que eu imaginava para alguém que há tão pouco tempo era mundano.

— Mas o plano parece perigoso. Digo, Camille; ela é completamente louca, não é?

Jace passou os dedos nas juntas de Clary.

— Precisa parar de pensar em Simon como o menino mundano que conhecia. O que vivia precisando ser salvo. Está quase impossibilitado de se ferir. Não viu aquela Marca que deu a ele em ação. Eu vi. É como a fúria de Deus visitando o mundo. Deveria se sentir orgulhosa.

Ela estremeceu.

— Não sei. Fiz porque tinha que fazer, mas não deixa de ser uma maldição. E não sabia que ele estava passando por tudo isso. Não me falou nada. Sabia que Isabelle e Maia tinham descoberto tudo, mas nem imaginava sobre Jordan. Que era ex-namorado de Maia, nem... nada. — Porque não perguntou. Estava ocupada demais se preocupando com Jace. Nada legal.

— Bem — disse Jace —, contou para ele o que está acontecendo com você? Porque é uma via de mão dupla.

— Não. Na verdade, não falei para ninguém — revelou Clary, e contou a Jace sobre a ida com Luke e Maryse à Cidade do Silêncio, do que descobriram no necrotério do Beth Israel e a subsequente descoberta da Igreja de Talto.

— Nunca ouvi falar — comentou. — Mas Isabelle tem razão, existem todos os tipos de seitas demoníacas bizarras por aí. A maioria nunca consegue de fato invocar um. Parece que essa conseguiu.

— Acha que o demônio que matamos era o que estavam idolatrando? Acha que agora talvez... parem?

Jace balançou a cabeça.

— Aquele foi só um demônio Hydra, uma espécie de cão de guarda. Além disso, “ninguém que vai a ela voltará”. Parece um demônio fêmea. E são as seitas que idolatram demônios femininos que normalmente fazem coisas horríveis com bebês. Têm todos os tipos de ideias distorcidas sobre fertilidade e crianças. — Acomodou-se para trás no assento, semicerrando os olhos.

— Tenho certeza de que o Conclave irá até a igreja verificar, mas aposto vinte contra um que não vão encontrar nada. Vocês mataram o demônio-guarda, então a seita vai limpar tudo e se livrar das provas. Talvez tenhamos que esperar até arrumarem um lugar novo.

— Mas... — O estômago de Clary se embrulhou. — Aquele bebê. E as fotos que vi no livro. Acho que vão tentar fazer mais crianças como... como Sebastian.

— Não podem — disse Jace. — Injetaram sangue de demônio em um bebê humano, o que é péssimo, sim. Mas só se arruma alguma coisa como Sebastian se utilizar sangue de demônio em crianças Caçadoras de Sombras. Em vez disso, o neném morreu. — Jace apertou singelamente a mão dela, para confortá-la. — Não são boas pessoas, mas não imagino que tentarão novamente, considerando que não deu certo.

O táxi freou cantando pneu na esquina da Houston com a Second Avenue.

— O taxímetro está quebrado — disse o motorista. — Dez dólares.

Jace, que em outras circunstâncias provavelmente teria feito algum comentário sarcástico, deu uma nota de vinte ao motorista e saltou, segurando a porta aberta para Clary.

— Está pronta? — perguntou, enquanto se dirigiam ao portão de ferro que levava à Cidade.

Clary assentiu.

— Não posso dizer que minha última visita tenha sido muito legal, mas, sim, estou pronta. — Pegou a mão dele. — Desde que estejamos juntos, estou pronta para qualquer coisa.

Os Irmãos do Silêncio estavam esperando por eles na entrada da Cidade, quase como se aguardassem a visita. Clary reconheceu o Irmão Zachariah em meio ao grupo. Estavam em uma fila silenciosa, bloqueando a entrada da Cidade a Clary e Jace.

Por que vieram aqui, filha de Valentim e filho do Instituto? Clary não tinha certeza quanto a qual deles falava em sua cabeça, ou se eram todos. Não é comum crianças entrarem na Cidade do Silêncio sem supervisão.

A designação “crianças” doeu, apesar de Clary saber que no que se referia a Caçadores de Sombras, todos os menores de 18 anos eram crianças e sujeitos a regras diferentes.

— Precisamos de ajuda — respondeu Clary quando ficou claro que Jace não ia dizer nada. Estava olhando de um Irmão do Silêncio para o outro com uma indiferença curiosa, como alguém que já tivesse recebido incontáveis diagnósticos terminais de diferentes médicos, e agora, chegando ao fim da linha, aguardava sem muita esperança o veredito de um especialista. — Não é essa a função de vocês; ajudar Caçadores de Sombras?

No entanto, não somos serventes à sua disposição. E nem todos os problemas fazem parte da nossa jurisdição.

— Mas este faz — argumentou Clary com firmeza. — Acredito que alguém esteja invadindo a mente de Jace, alguém poderoso, e mexendo com as lembranças e os sonhos dele. Fazendo com que faça coisas que não quer.

Hipnomancia, disse um dos Irmãos do Silêncio. A magia dos sonhos. Território somente dos maiores e mais poderosos usuários de magia.

— Como os anjos — concordou Clary, e foi recompensada com um silêncio rígido e surpreso.

Talvez, disse o Irmão Zachariah, finalmente, devessem vir conosco até as Estrelas Falantes. Não se tratava de um convite, claramente, mas de uma ordem, pois viraram-se imediatamente e começaram a caminhar para o coração da Cidade, sem esperar para ver se Jace e Clary seguiram.

Chegaram ao pavilhão das Estrelas Falantes, onde os Irmãos assumiram seus lugares atrás da mesa preta de pedra de basalto. A Espada Mortal estava de volta ao lugar, brilhando na parede atrás deles como a asa de um pássaro prateado. Jace foi para o centro do recinto e olhou para a estampa de estrelas metálicas cauterizadas nos azulejos vermelhos e dourados no chão. Clary olhou para ele, com dor no coração. Era difícil vê-lo assim, com toda a energia ardente de sempre apagada, como luz enfeitiçada sufocando sob uma coberta de cinzas.

Ele então levantou a cabeça loura, piscando, e Clary soube que os Irmãos do Silêncio estavam se manifestando na mente dele, dizendo palavras que ela não podia ouvir. Viu Jace balançando a cabeça e o escutou falando:

— Não sei. Achei que não passassem de sonhos comuns. — A boca de Jace então enrijeceu, e Clary não pôde deixar de imaginar o que estariam perguntando. — Visões? Acho que não. Sim, encontrei o Anjo, mas foi Clary que teve os sonhos proféticos. Não eu.

Clary ficou tensa. Estavam muito perto de perguntar sobre o que acontecera com Jace e o Anjo naquela noite perto do Lago Lyn. Não tinha pensado nisso. Quando os Irmãos do Silêncio entravam na sua mente, o que viam? Só o que estavam procurando? Ou tudo?

Jace então assentiu.

— Tudo bem. Estou pronto se vocês estiverem.

Fechou os olhos, e Clary, assistindo, relaxou um pouco. Deve ter sido assim para Jace, pensou, quando ele a viu nesta posição na primeira vez em que os Irmãos do Silêncio investigaram sua mente. Enxergou detalhes que não havia notado naquela ocasião, pois estava envolvida nas redes das mentes dos Irmãos e na própria, passeando pelas lembranças, alheia ao mundo.

Viu Jace enrijecer completamente, como se o tivessem tocado com as mãos. A cabeça foi para trás. As mãos, nos lados do corpo, se abriram e fecharam, enquanto as estrelas no chão brilhavam com uma luz prateada. Clary piscou, afastando lágrimas causadas pela claridade; Jace era um contorno escuro contra uma folha de prata luminosa a ponto de quase cegar, como se estivesse no coração de uma cachoeira. Ao redor deles havia um ruído, um sussurro suave e incompreensível.

Enquanto Clary observava, ele caiu de joelhos, as mãos apoiadas no chão. Seu coração apertou. Quando os Irmãos do Silêncio estiveram na cabeça dela, quase desmaiou, mas Jace era mais forte, não era? Ele lentamente se curvou, com as mãos na barriga e agonia em cada linha do rosto, apesar de não ter soltado nenhum grito. Clary não aguentou mais — correu na direção dele através dos lençóis de luz e se ajoelhou ao lado do namorado, jogando os braços ao redor de seu corpo. As vozes sussurradas ao redor elevaram-se a uma tempestade de protestos quando Jace virou a cabeça e olhou para ela. A luz prateada havia desaparecido dos olhos do rapaz, que estavam lisos e brancos como ladrilhos de mármore. Os lábios formaram o nome de Clary.

E então sumiu... a luz, o som, tudo, e eles ficaram ajoelhados juntos no chão, cercados por silêncio e sombra. Jace estava tremendo, e quando as mãos dele se soltaram, Clary viu que estavam sangrando onde as unhas haviam rasgado a pele. Ainda segurando-o pelo braço, ela olhou para os Irmãos do Silêncio, lutando contra a própria raiva. Sabia que era o equivalente a sentir raiva de um médico que precisava administrar um tratamento doloroso, porém necessário. Mas era difícil — tão difícil — ser razoável quando se tratava de alguém que amava.

Existe algo que não nos contou, Clarissa Morgenstern, disse o Irmão Zachariah. Um segredo que vocês dois estão retendo.

Uma mão gelada se fechou em torno do coração de Clary.

— O que quer dizer?

A marca da morte está neste rapaz. Era outro Irmão falando; Enoch, supôs Clary.

— Morte? — disse Jace. — Quer dizer que vou morrer? — Não parecia muito surpreso.

Queremos dizer que esteve morto. Passou pelo portal para os reinos de sombra, teve a alma descolada do corpo.

Clary e Jace trocaram um olhar. Ela engoliu em seco.

— O Anjo Raziel... — começou Clary.

Sim, a marca dele está por todo o corpo do menino também. A voz de Enoch não tinha emoção. Só existem duas maneiras de trazer de volta os mortos. A forma da necromancia: a magia negra de sino, livro e vela. Isso devolve uma ilusão de vida. Mas somente um Anjo da própria mão direita de Deus poderia devolver uma alma humana ao corpo com a mesma facilidade com que a vida foi dada ao primeiro dos homens. Balançou a cabeça. O equilíbrio entre vida e morte, entre bem e mal, é delicado, jovens Caçadores de Sombras. Vocês o perturbaram.

— Mas Raziel é o Anjo — disse Clary. — Pode fazer o que quiser. Vocês os idolatram, não? Se ele escolheu fazer isto...

Escolheu?, perguntou outro Irmão. Ele escolheu?

— Eu... — Clary olhou para Jace. Eu poderia ter pedido qualquer coisa no universo. Paz mundial, a cura de uma doença, vida eterna. Mas a única coisa que queria era você.

Conhecemos o ritual dos Instrumentos, disse Zachariah. Sabemos que aquele que os possui, que é o seu Senhor, pode fazer um pedido ao Anjo. Não acho que poderia ter recusado.

Clary empinou o queixo.

— Bem — disse ela —, já está feito.

Jace deu uma risada sem alegria.

— Podem me matar, você sabe — declarou. — Restaurar o equilíbrio.

As mãos de Clary apertaram o braço dele.

— Não seja ridículo. — Mas a voz saiu fraca.

Ficou ainda mais tensa quando Zachariah se afastou do grupo de Irmãos do Silêncio e se aproximou deles, os pés deslizando silenciosamente até as Estrelas Falantes. Alcançou Jace, e Clary teve que lutar contra o impulso de empurrá-lo quando se ajoelhou e colocou os longos dedos sob o queixo de Jace, erguendo sua cabeça para perto da própria. Os dedos de Zachariah eram esguios, sem linhas: dedos de um jovem. Nunca tinha parado para pensar na idade dos Irmãos do Silêncio antes, presumindo que fossem todos alguma espécie de velhos encarquilhados.

Jace, ajoelhado, olhou de baixo para Zachariah, que olhava para ele com sua expressão cega e impassível. Clary não pôde deixar de pensar em pinturas medievais de santos ajoelhados, olhando para o alto, os rostos inundados de luz dourada brilhante.

Queria ter estado aqui, disse a voz surpreendentemente suave, quando estava crescendo. Teria enxergado a verdade em seu rosto, Jace Lightwood, e sabido quem era.

Jace pareceu confuso, mas não se afastou.

Zachariah se virou para os outros.

Não podemos e tampouco devemos machucar o menino. Laços antigos existem entre os Herondale e os Irmãos. Devemos ajuda a ele.

— Ajuda com o quê? — perguntou Clary. — Está enxergando alguma coisa errada com ele, alguma coisa dentro da cabeça?

Quando um Caçador de Sombras nasce, um ritual é executado, diversos feitiços de proteção são colocados sobre a criança, pelos Irmãos do Silêncio e pelas Irmãs de Ferro.

As Irmãs de Ferro, Clary sabia por causa dos estudos, eram a seita irmã dos Irmãos do Silêncio; ainda mais reservadas que eles, responsabilizavam-se pela fabricação das armas dos Caçadores de Sombras.

O Irmão Zachariah continuou.

Quando Jace morreu e depois foi reerguido, ele nasceu uma segunda vez, despido destas proteções e rituais. Deve tê-lo deixado tão aberto quanto uma porta destrancada — sujeito a qualquer tipo de influência demoníaca ou mal-intencionada.

Clary lambeu os lábios secos.

— Possessão, quer dizer?

Possessão, não. Influência. Desconfio que um poder demoníaco forte sussurre aos seus ouvidos, Jonathan Herondale. Você é forte e o combate, mas isso te desgasta como o oceano desgasta a areia.

— Jace — sussurrou ele, através de lábios brancos. — Jace Lightwood, não Herondale.

Clary, prendendo-se aos aspectos práticos, disse:

— Como pode ter certeza de que se trata de um demônio? E o que podemos fazer para que o deixe em paz?

Enoch, soando pensativo, falou:

O ritual deve ser executado novamente, as proteções aplicadas uma segunda vez, como se ele tivesse acabado de nascer.

— Podem fazer isso?

Zachariah inclinou a cabeça.

Pode ser feito. As preparações precisam ser realizadas, uma das Irmãs de Ferro convocadas, um amuleto fabricado... Interrompeu-se. Jonathan precisa ficar conosco até que o ritual seja completo. Este é o lugar mais seguro para ele.

Clary olhou novamente para Jace, procurando uma expressão — qualquer expressão — de esperança, alívio, alegria, qualquer coisa. Mas o rosto estava impassível.

— Por quanto tempo? — perguntou.

Zachariah abriu as mãos.

Um dia, talvez dois. O ritual é feito para bebês; teremos que mudá-lo, modificá-lo para funcionar com um adulto. Se tivesse mais de 18 anos, seria impossível. Como é, já será difícil. Mas não está além de qualquer salvação.

Não está além de qualquer salvação. Não era o que Clary esperava; queria ouvir que o problema era simples, que seria facilmente resolvido. Olhou para Jace. Estava com a cabeça abaixada, os cabelos caindo para a frente; a nuca parecia tão vulnerável para ela que fez com que seu coração doesse.

— Tudo bem — disse ela suavemente. — Eu fico aqui com você...

Não. Os Irmãos se pronunciaram como um grupo, as vozes inexoráveis. Ele deve ficar aqui sozinho. Para o que precisamos fazer, ele não pode se dar o luxo de se deixar distrair.

Clary sentiu o corpo de Jace enrijecer. Na última vez em que ele tinha estado sozinho na Cidade do Silêncio, havia sido injustamente aprisionado, testemunhado as mortes terríveis da maioria dos Irmãos do Silêncio, e atormentado por Valentim. Não podia imaginar que a ideia de outra noite sozinho na Cidade fosse algo menos do que terrível para ele.

— Jace — sussurrou Clary. — Faço qualquer coisa que queira. Se quiser ir...

— Eu fico — disse. Tinha levantado a cabeça, e a voz saiu forte e clara. — Fico. Faço o que tiver que fazer para consertar isso. Só preciso que ligue para Izzy e Alec. Diga a eles... diga que estou na casa de Simon para ficar de olho nele. Diga que os vejo amanhã ou depois.

— Mas...

— Clary. — Gentilmente, Jace pegou as mãos dela e segurou-as entre as dele. — Você tinha razão. Alguma coisa está fazendo isto comigo. Conosco. Sabe o que isso significa? Se posso ser... curado... não precisarei ter medo de mim quando estiver perto de você. Passaria mil noites na Cidade do Silêncio para isso.

Clary se inclinou para a frente, sem se incomodar com a presença dos Irmãos do Silêncio, e o beijou; um rápido toque dos próprios lábios nos dele.

— Voltarei — sussurrou ela. — Amanhã à noite, depois da festa nos Grilhões, volto para vê-lo.

A esperança nos olhos dele foi o suficiente para quebrar o coração de Clary.

— Talvez até lá já esteja curado.

Ela tocou o rosto dele com as pontas dos dedos.

— Talvez esteja.

Simon acordou ainda se sentindo exausto após uma longa noite de pesadelos. Rolou para ficar de costas e olhou para a luz que entrava pela janela solitária do quarto.

Não pôde deixar de imaginar se dormiria melhor caso fizesse o que faziam os outros vampiros e dormisse durante o dia. Apesar de o sol não lhe causar nenhum mal, sentia o apelo das noites, o desejo de sair sob o céu escuro e as estrelas brilhantes. Havia algo nele que queria viver nas sombras — assim como havia algo que queria sangue. E veja no que lutar contra isso tinha dado.

Levantou-se cambaleando e se vestiu, então foi até a sala. O local cheirava a torrada e café. Jordan estava sentado em um dos bancos à bancada, os cabelos arrepiados como sempre, os ombros encolhidos.

— Oi — cumprimentou Simon. — E aí?

Jordan olhou para ele. Estava pálido por baixo do bronzeado.

— Temos um problema — revelou.

Simon piscou. Não via o colega de apartamento lobisomem desde o dia anterior. Voltara do Instituto e desmaiara de exaustão. Jordan não estava em casa, e Simon concluiu que estivesse trabalhando. Mas talvez alguma coisa tivesse acontecido.

— O que houve?

— Puseram isto embaixo da nossa porta. — Jordan empurrou um jornal dobrado para Simon. Era o New York Morning Chronicle , dobrado em uma das páginas. Havia uma foto terrível perto do topo, uma imagem granulosa de um corpo em uma calçada, membros magros curvados em ângulos estranhos. Mal parecia humano, como acontecia às vezes com cadáveres. Simon estava prestes a perguntar para Jordan por que tinha que olhar para isso quando o texto abaixo da foto captou seu olhar.

GAROTA ENCONTRADA MORTA

A polícia diz que está investigando pistas sobre a morte de Maureen Brown, de 14 anos, cujo corpo foi encontrado na noite de domingo, às 23 horas, enfiado em uma lata de lixo do lado de fora da lanchonete Big Apple Deli, na Third Avenue. Apesar de nenhuma causa de morte oficial ter sido liberada pelo médico legista, o dono do estabelecimento, Michael Garza, que encontrou o corpo, disse que a garganta da menina estava cortada. A polícia ainda não localizou nenhuma arma...

Sem conseguir continuar lendo, Simon desabou em uma cadeira. Agora que sabia, a foto era claramente de Maureen. Reconheceu as mangas de arco-íris, o chapéu cor-de-rosa bobo que estava usando quando a viu pela última vez. Meu Deus, queria dizer. Ah, Deus. Mas nenhuma palavra saiu.

— Aquele bilhete não dizia — indagou Jordan, com a voz gelada — que se não fosse àquele endereço, cortariam a garganta da sua namorada?

— Não — sussurrou Simon. — Não é possível. Não.

Mas lembrava.

A amiga da priminha do Eric. Como ela chama? A que gosta do Simon. Ela vai a todos os nossos shows e diz para todo mundo que é namorada dele.

Simon se lembrou do telefone cor-de-rosa e cheio de adesivos e da forma como o segurou para tirar uma foto deles. Da sensação da mão dela em seu ombro, leve como uma borboleta. Catorze anos. Encolheu-se, cruzando os braços sobre o peito, como se conseguisse se encolher o suficiente até desaparecer.