Com amor, a garota chamada Estrela

Jerry Spinelli · Capítulo 3 de 3 · parte 4/4

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Com amor, a garota chamada Estrela

Parte 3

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Tagarelei sem parar com Arnold. Acho que havia descoberto que o mais perto que conseguiria chegar de reviver o passado era contar minha história a alguém, ao alguém certo.

Foi maravilhoso isso de contar, de voltar no tempo. Quando retornei ao presente, Tom estava no ombro de Arnold e estávamos do outro lado da cidade. Subi na minha bicicleta. Pedalei rente por um minuto.

“Arnold?”, disse eu. Ele não respondeu. “Acho que a resposta é sim. Sim, estava te procurando. Fico feliz de ter te encontrado.”

Arnold não deu nenhum sinal de que tivesse me ouvido. Fiquei para trás enquanto ele se arrastava para fora da cidade. Pequenas nuvens de ar congelado saíram do nariz de Tom.

6 de dezembro

A terra na Montanha do Calendário está realmente dura e fria agora. Tive de perfurar com uma chave de fenda para colocar o marcador hoje. Só faltam dois marcadores. Mais duas quintas-feiras. Mais duas oportunidades de enviar minha pergunta a você.

Pensamento repentino: e se estiver nublado no solstício e não houver nenhum sol? E se nevar? E se a neve ficar muito alta e cobrir as pás das espátulas?

“Sol girassol”, disse minha mãe.

“Neve de leve”, disse meu pai. “Qué será, será.”

“Espanhol?”, disse eu.

“Sim”, disse ele. “Significa não se preocupe com as pequenas coisas.”

Alvina e Dootsie estão na fase 2 de suas tarefas: prender a base autoadesiva dos alfinetes às costas dos broches de sol. Dootsie continua errando os centros dos broches. Alvina continua dizendo a Dootsie que está demitida, mas Dootsie sabe que sou a verdadeira chefe, então ela apenas faz uma careta para Alvina e continua fazendo bagunça.

Dias até o solstício: 15

10 de dezembro

A cidade está uma confusão. Ou pelo menos você pensaria que sim se tudo que fizesse fosse ler a Folha de Lenape.

Olha o que aconteceu:

Toda época de Natal, a Igreja Luterana da Graça ergue um presépio no gramado da frente. Os bonecos são de tamanho real, o celeiro grande o suficiente para José e Maria, e para a manjedoura, vacas e ovelhas. A palha é real. É possível sentir o cheiro. Da rua não dá para ver o boneco que representa Jesus, mas é possível ver a manta azul-celeste caindo sobre as laterais da manjedoura. Com os holofotes, mesmo nas noites mais frias, o presépio parece quente e acolhedor. Os carros passando diminuem a velocidade. Alguns param.

Na sexta-feira passada, a secretária da igreja descobriu que a manta da manjedoura tinha sumido. E o bebê Jesus estava nu na cama de palha.

BERÇÁRIO VANDALIZADO

BONECO DEIXADO NO FRIO

dizia a chamada na Folha de Lenape.

O jornal de hoje fez um segmento “Opinando na Calçada”, onde transeuntes eram perguntados sobre o assunto local do momento. Uma pessoa disse: “É um ultraje. Será que nada mais é sagrado?”. Outro disse: “Quando descobrirem quem fez isso, deviam prendê-lo numa cela e jogar a chave fora”. E outro: “Isso é uma vergonha para toda a cidade.” E outro: “Ei, aquele não é Jesus de verdade. É um boneco de plástico. Alô-ÔÔôô? Arrumem o que fazer”.

Tenho certeza de que sei quem fez isso. Mas não consigo imaginar o motivo.

Enquanto isso, a manjedoura ganhou uma nova manta azul.

DAOS: 11

11 de dezembro

A previsão do tempo de longo prazo diz que vai nevar no dia 21 de dezembro, o solstício. Índios no Velho Oeste fizeram danças da chuva. Chamei Dootsie e Alvina para fora e fizemos uma dança antineve. Dootsie se esbaldou. Primeiro, Alvina disse que era “estúpido”, mas cinco minutos depois de Dootsie e eu pararmos, ela ainda estava dançando.

Meu pai continua tentando acalmar minha ansiedade a respeito do clima. Ele disse que mesmo se estivesse muito nublado para ver, o sol nasceria do mesmo jeito e ainda estaria lá.

“Mas o objetivo principal é esse”, disse eu. “Ver o sol.”

“Será mesmo?”, disse ele.

DAOS: 10

12 de dezembro

A confusão na cidade seguiu o caminho de todas as confusões: ela passou. Mas ainda penso sobre o assunto. E ainda me perguntou o porquê.

DAOS: 9

13 de dezembro

Coloquei o marcador de sol no calendário esta manhã. Só falta um marcador. Mais uma chance de enviar a pergunta a você.

Mais tarde, vi Perry caminhando pelo centro da cidade. Nada novo nisso, só mais um de seus “dias ruins”, exceto pelo fato de que... ele estava empurrando um carrinho de bebê! Quase bati minha bicicleta no meio-fio.

Nós olhamos fixamente um para o outro. Ele parecia perfeitamente normal, como se isso acontecesse todos os dias. Ele também parecia diferente – novo, mais velho. Meu primeiro pensamento foi: Ele é pai!

Depois: Qual das abelhas é a mãe?

Depois: Então por que ele estava dando em cima de mim?

Finalmente, riu. “Você devia ver sua cara.”

Eu murmurei algo que nem me lembro.

“Bem”, disse ele, virando o carrinho para que eu pudesse ver o rosto do bebê dormindo, “essa é a Clarissa. Minha irmã.” Colocou um braço do tamanho de um braço de boneca para fora da manta – a manta azul-celeste –, abanou uma mãozinha para mim e disse com uma voz infantil: “Oi, Estrela”.

Meus olhos se encheram de lágrimas. Acenei de volta. “Oi, Clarissa.” Espero ter sorrido. Meu juízo estava voltando lentamente. “Qual a idade?”

A resposta veio de uma só vez, sem cálculos. “Tenho 22 dias e 7 horas.”

Estiquei a mão. Afaguei os dedinhos. “Nunca me contou.”

Ele apenas deu de ombros. Cobriu a mão dela de volta com a manta.

Os transeuntes diminuíam o ritmo, espiando o carrinho, sorrindo. Alguns olhavam para Perry, para mim.

“Perry...”, falei somente para preencher o silêncio desagradável quando, de repente, caiu a ficha. Seguida por mais algumas fichas caindo no lugar. Manta de bebê... moça grávida... Perry na loja da Margie com...

“Perry...”, hesitei. “Neva? Da Margie? Meu Deus... ela é... a sua mãe?”

Ele sorriu e apontou para mim, os dedos como uma pistola. “Bingo.”

Devo tê-lo encarado como uma idiota por uma hora. Uma centena de perguntas gritavam para serem feitas, mas no final tudo que eu disse foi “Bela manta”.

Ele olhou para ela, deu um sorriso travesso, ciente que eu sabia.

“É.”

“É preciso ter uma bela manta quentinha para uma nova irmãzinha bebê ficar aquecida nos dias frios de inverno, certo?”

Ele foi embora, virou de volta: “Você que está dizendo”.

Margie demorou um minuto para conseguir parar de rir. “Prisão?”, ela repetiu. “Campo de treinamento? Criminoso?” E ela se sentou em um banco do balcão e riu mais um bocado. “Quem te disse isso?”

Eu forcei uma resposta através da minha estupidez e vergonha: “Alvina”.

“Bem”, disse ela, “você devia ter me perguntado. Ele ficou fora com uma tia em Scranton. Ganhando dinheiro para ajudar sua mãe. Ele tinha três empregos.” Ela sacudiu a cabeça. “Campo de treinamento.”

Durante a hora seguinte, Margie me atualizou com a Vida de Perry Delloplane: ele voltou de Scranton porque a mãe dele – Neva – sentia muito a falta dele.

Ela sofre de depressão. Por isso as mudanças de humor. Ela toma medicamentos para isso.

O pai dele, que se chama Roy, é o ponto fraco incurável de sua mãe. E a jogatina o ponto fraco incurável de Roy. Perdeu todo seu dinheiro apostando nos cassinos de Atlantic City. Então pediu empréstimos a agiotas que não conseguiu pagar de volta, e os agiotas vieram atrás dele por conta do dinheiro e Roy se mandou de vez. Isso aconteceu quando Perry tinha 5 anos.

Só que ele nem sempre fica longe. De vez em quando, quando dá vontade, ele aparece. E para o desgosto de Perry, Neva sempre o deixa entrar.

Roy é o pai da Clarissa.

Não Ike. Ike os deixa ficar atrás de sua oficina de graça. Ele costuma ser o namorado de Neva quando Roy não está na área.

Perry odeia Roy. Quando Roy passa a noite lá, Perry dorme no telhado. Não porque está muito quente na casa. E Margie me disse que tem algo que nem mesmo o Perry sabe: pensa que está roubando, mas muitas vezes é o único que acha isso. Alguns comerciantes do centro da cidade conhecem a situação de Perry – “graças à minha boca grande”, disse Margie com uma risada – e olham para o outro lado quando o veem pegando um limão, um bloco, um sabonete.

Assim como eu, Margie soube quem havia pegado a manta azul assim que ouviu a respeito.

DAOS: 8

15 de dezembro

Meus pobres dedos. Passei todo o dia de ontem escrevendo os convites.

A lista de convidados inclui praticamente todo mundo que mencionei nessa carta infinita. Se todos aparecerem, não haverá espaço na tenda. Mas isso nunca acontecerá. Por que fiz tantos broches?

Olha só o que diz o convite:

Venha para a comemoração do

SOLSTÍCIO DE INVERNO!

No cruzamento entre a Rota 113 e a rua Rapps Dam

21 de dezembro

Antes do sol nascer!

Decidi não chamá-lo de Solstrela, como Perry sugeriu no telhado àquela noite. Quem sou eu para mudar seu nome?

DAOS: 6

17 de dezembro

Passei boa parte dos últimos dois dias entregando os convites. Alvina e Dootsie me ajudaram. Meu pai também, no seu percurso de entrega de leite.

Quando entreguei o convite de Charlie no cemitério, ele o leu, me devolveu e disse: “Tenho que ficar aqui”. Enfiei o papel no bolso dele. Desci da minha bicicleta e beijei-o na bochecha. Enfiei a mão em seu bolso, peguei o aparelho auditivo, coloquei-o nele e sussurrei no seu ouvido: “Ela não estará aqui nesse dia. Ela estará lá”. Pedalei embora.

Estava quase escuro quando entreguei o último dos convites. Pedalei até o penhasco com vista para a velha siderúrgica, para o local onde a lenda diz que a donzela de Lenape saltou para a morte. Com um pedido de desculpas a Perry por violar meus próprios princípios antissujeira, deixei o convite dela no chão e pedalei para casa.

DAOS: 4

18 de dezembro

Fiquei na minha o dia inteiro. À medida que o momento se aproxima, sinto a necessidade de estar sozinha, de me preparar. Compus uma canção para ser acompanhada pelo ukulele. Só vou pinçar as cordas ocasionalmente, nada de dedilhar. Estou ensaiando uma dança. Fiz uma coroa de flores vermelhas e amarelas de frutos agridoces para enquadrar o local do sol. Escrevi algumas palavras.

Ainda assim, tenho a sensação de que está faltando algo, de que estou deixando alguma coisa passar.

A única pessoa que fico tentada a visitar é a Betty Lou. Estou louca para saber se ela virá ao solstício, se ela sairá de casa pela primeira vez em nove anos. Mas não quero pressioná-la. Se ela vier, será de livre e espontânea vontade.

Estou tentando ignorar o fato de estar nevando em Chicago.

DAOS: 3

19 de dezembro

Estou com medo de que ninguém apareça. Bem, não exatamente ninguém. Sei que Dootsie e Alvina estarão lá. E meus pais. E Margie. E o Canela. Mas não tenho certeza sobre mais ninguém.

Já ensaiei a música.

E a dança.

As palavras.

Está nevando em Pittsburgh.

DAOS: 2

20 de dezembro

Exceto por armar a tenda, eu esperava que hoje fosse um dia principalmente de reclusão e contemplação, a preparação silenciosa da alma antes do grande evento.

Não foi assim que aconteceu.

Por hoje ser uma quinta-feira, minha mãe cambaleou pela escada antes do sol nascer murmurando: “Uma última vez, uma última vez...”, e pela última vez ela se sentou na cadeira de balanço e me observou caminhar pelo corredor de luzes externas congeladas até a Montanha do Calendário.

Somente minha lanterna iluminava o campo nessa noite nublada e sem lua. Pela última vez, puxei a corda a partir da estaca de croqué e coloquei o último marcador. Uma luz sombria apareceu, mas não o sol. Por 150 milhões de quilômetros a luz do sol viajava somente para ser bloqueada por nuvens cobrindo essa montanha no planeta Terra. E assim, o posicionamento da minha última espátula, o mais importante posicionamento de todos, foi imperfeito. Tudo que pude fazer foi observar com cuidado o longo arco de marcadores que iam de julho a dezembro e arriscar meu melhor palpite de onde o último deveria ir.

Odeio ter que recorrer à adivinhação. Se a posição da espátula ficar errada, todo o projeto irá entrar pelo cano. A arrumação será como essas câmeras estenopeicas para visualizar indiretamente um eclipse. A luz do sol nascendo – Por favor, que haja um nascer do sol amanhã – atingirá o painel frontal da tenda de Blackbone. A luz será afunilada por um pequeno buraco redondo no painel e flutuará pela tenda como um raio de sol dourado. Ela pousará como um ponto circular de luz do sol – O Momento Solstício – no painel negro no fundo, com alguma esperança, no centro da guirlanda agridoce. Mas se o alinhamento do buraco na tenda até a cortina dos fundos estiver fora do lugar, o raio do sol errará a marca e flutuará para fora da Rota 113 e além, e todos nós estaremos olhando para uma parede vazia e preta.

Eu me sentei no solo e fechei os olhos, mas não conseguia tirar o clima e o problema do posicionamento da espátula da cabeça. Minha limpeza de mente foi um fiasco. Quando finalmente desisti e abri os olhos, minhas palmas voltadas para cima estavam molhadas dos primeiros flocos de neve. Virei-me para o oeste para enviar minha mensagem final a você, minha pergunta, mas estava tão distraída que, receio, ela saiu incompreensível.

Lá se vai a minha contemplação silenciosa.

Meu pai se apressou por sua rota de entrega de leite hoje, então, perto do início da tarde eu estava de volta à montanha ajudando-o a armar a tenda. A neve já cobria o alto dos nossos sapatos. Perto da borda do campo, as ruínas carbonizadas da casa dos Van Buren estavam se tornando brancas.

Nós afastamos a neve com os pés e cavamos quatro buracos para os mastros. Meu pai usava um martelo pesado e uma chave de fenda para quebrar o chão congelado. Nós empurramos a estaca de croqué, e era esse o lugar onde a parede dos fundos da barraca ficaria.

Havia cinco painéis de Blackbone: quatro paredes e o telhado. Eles eram pesados e totalmente intransponíveis pela luz. Minha mãe tinha dobrado as pontas para resistir a rasgos e tinha montado os buracos das cordas das estacas e dos mastros com anéis metálicos de reforço. Não sei como o equipamento de costura dela conseguiu perfurar o material.

Eu mal conseguia fazer um sanduíche, muito menos uma tenda, por isso só estava muito feliz de ser uma trabalhadora braçal enquanto meu pai dava as ordens. Além disso, com a neve caindo pesada, eu trabalhava para me impedir de me lamuriar sobre o clima.

“A tempestade está se movendo rapidamente”, meu pai continuava dizendo. “Estará claro amanhã.”

Eu não acreditava nele.

Escolhi um lugar frontal, o painel voltado para leste, diretamente em cima da espátula de hoje. Usando um molde de papelão que havia feito em casa, tracei um círculo no Blackbone com um marcador amarelo. Um círculo pequeno, do tamanho aproximado de uma bola de golfe. Meu pai cortou e abriu o buraco. Apertou um pouco de material plástico em torno dele para a borda não esfiapar. Quanto mais preciso o círculo, melhor o raio de sol.

A última coisa que fiz foi retirar os marcadores. Eles haviam feito seu trabalho. Haviam nos levado ao ponto certo.

* * *

Estava escurecendo quando subimos no caminhão de leite para a corrida curta até em casa. Na entrada, meu pai disse: “Você entra. Vou tirar neve com a pá.” Aquilo me pareceu estranho, porque ele implica com o senhor Cantello, nosso vizinho do lado, sobre ser tolice trazer sua pá para fora antes de a neve parar de cair. Mas eu não estava no clima de debater.

No momento em que abri a porta da frente, senti o cheiro, que reconheceria em qualquer lugar: tabaco de cachimbo com aroma de cereja. Gritei “Archie!” e corri para as luzes da cozinha. Lá estava ele na mesa com minha mãe, ambos sorrindo para mim. Apertei-o até ele implorar para que eu parasse. Minhas emoções reprimidas sobre o dia seguinte transbordaram na forma de lágrimas de alegria. Acariciei meu nariz em sua nova barba branca, que já deve ser assunto velho para você.

Archie me disse que havia decidido há muito tempo comparecer ao meu solstício. Meus pais tinham conspirado para manter a surpresa. A primeira coisa que notou foi que eu não estava usando meu cordão de fóssil como uma participante em situação regular da Ordem Leal do Osso de Pedra. Disse a ele que o havia entregado para uma boa causa de 1o de abril. “Mandarei outro para você”, disse ele, e apertou minha mão. “O Señor Saguaro manda lembranças” – e a perturbação persistente dos meus sonhos com o cacto desapareceram.

Nós não chegamos a sair da cozinha. Meus pais se sentaram conosco por um tempo, depois foram para cama. O Canela perambulou pela mesa, cheirou a bolsa de tabaco, e finalmente se enrolou para dormir em uma peça de jogo americano.

Archie adorou olhar para a parede da cozinha e não encontrar nenhum relógio lá. “Meu estilo de casa”, disse ele. “Estou precisamente no Período Carbonífero, de qualquer modo.” E arremessou seu relógio de pulso na lixeira.

Ele me atualizou sobre os acontecimentos em Mica. Contou-me sobre o Baile do Ocotillo na última primavera. “Eles fizeram sua dança do coelho”, disse ele, “direto pelas quadras de tênis e entrando na escuridão do campo de golfe. Mas me disseram que não era o mesmo sem você. Está se tornando um tipo de lenda naquelas festas.”

Eu sacudi meus dedos e fiz voz de fantasma: “Oooo. A misteriosa visitante que apareceu e desapareceu”.

Ele riu. “Não se superestime. Deixe-me fazer isso.” Fiz uma pose melodramática. “Quando falar de mim, professor, diga a eles: ‘Ela é apenas uma garota antiquada’.” Ele pousou sua mão sobre a minha. Sorriu e assentiu. “Mais do que imagina, querida.”

Acho que ele estava abrindo uma porta para mim, mas eu não estava pronta para entrar.

Nós conversamos sem parar. Então, em algum ponto ao longo do papo, percebi que a conversa tinha parado e que Archie estava me olhando com uma cara levada.

“Que foi?”, perguntei.

Socou o tabaco no bojo de seu cachimbo e ateou fogo em outra rodada de cerejas. “Não faz seu estilo.”

Eu estava confusa. “Como assim?”

“Desonestidade.”

Como diria Betty Lou, desorientada. “Hein?”

“Para seus padrões, de qualquer modo.” Cutucou o Canela adormecido. “Não é seu estilo pensar ou sentir algo por tanto tempo e não expressar isso.”

O-ou.

Olhei fixamente para ele por cinco ou seis eternidades. Dei um pio estremecido: “Estou com medo”.

Tragou seu cachimbo e produziu duas palavras bufantes cinza: “Não fique”.

Respirei fundo. “Tudo bem, perguntarei então... como vai o Leo?”

O sorriso dele apagou meus medos. “O Leo”, disse ele, e me animei só de ouvi-lo pronunciar seu nome, “está bem. Ele fala mais de você do que de fósseis!” Nós rimos disso. “Sente sua falta. Está amadurecendo. Começando a mostrar sinais de que um dia possa até merecê-la.”

Disse-me o que eu já sabia pela Dori Dilson, que você foi com a Dori ao Baile do Ocotillo, não como namorado e namorada, mas como “amigos da Estrela”. Ele me disse que você e Dori comentaram de ir a Phoenix um dia no próximo verão, onde irão parar e comer na primeira caminhonete-lanchonete prateada que virem pela frente.

Disse-me que você voltou da faculdade e está em casa agora para as férias. Disse que você está pensando em se graduar em design. Disse que há dias em que você não consegue ir para a aula sem vestir a gravata de porco-espinho que te dei.

Estava voraz por informações. Espremi cada gota que podia de Archie, sequei-o até não ter nada além de casca. Que foi quando ele ergueu a mão e disse: “Muito bem, chega desse garoto. E sobre amanhã?”. Mostrei minha lista de convidados. “Uau”, disse ele. “Deixou de convidar alguém?”

“Convidei todo mundo que eu sabia o nome”, disse a ele. “E alguns que eu não sabia.”

Apontou um nome. “Dootsie. Sua amiguinha?”

“Minha melhor amiga. Tem 5 anos.”

Ele assentiu, sem surpresa. Contei sobre Dootsie, Alvina, Betty Lou, Charlie e Arnold. Ia atualizá-lo sobre Perry e eu, mas entrei em desespero. “Estou com medo de que ninguém apareça”, disse eu. “Com medo de que metade não vá porque não se importa, e a tempestade de neve impeça o restante, inclusive o sol. E mesmo se houver um nascer do sol, estou com medo de perder o alvo porque baguncei o último marcador.”

Ele me olhou por um tempo, depois disse: “Acabou?”.

Eu assenti.

Ele sacudiu a cabeça e riu abafado.

“Obrigado por seu apoio”, disse eu. Levantei-me da cadeira.

“Onde vai?”, disse ele.

“Varanda. Verificar a neve.”

“Não.”

Parei no lugar com o jeito que ele falou. Sentei de volta.

Olhou para mim do outro lado da mesa. “Preocupações bobas não fazem seu estilo. Já te contei da minha implicância envolvendo animais de estimação?”

“Não”, disse eu.

“Pessoas que vestem seus animais de estimação com terninhos antigos, ou os fantasiam de caubóis, palhaços, bailarinas. Como se não fosse suficiente simplesmente ser um cão, um gato ou uma tartaruga. Vestir a natureza.”

Ele baforou fumaça. “Bushwah.”

“Bushwah?”

“Profanidade. Origem desconhecida.”

Os olhos dele perfuraram os meus, transmitindo seu significado para mim. Posso ser bastante tonta às vezes, mas estava começando a entender.

Quando me deitei para dormir, estava em paz. Archie sempre teve esse efeito em mim. Ouvi-lo falar de você só não foi melhor do que ter você na mesa da cozinha junto conosco – talvez, por enquanto, ainda melhor. Minha ansiedade sobre o clima havia partido. E eu havia tomado uma decisão sobre o dia seguinte.

DAOS: 1

23 de dezembro

Acabou.

Nunca acabará.

Duas manhãs se passaram desde então. Elas nunca param de vir, não é?

Archie caminhou até a montanha comigo e com Canela sob as estrelas do solstício – sim, o céu estava limpo! A neve cobria a terra como se fosse um amontoado de luz da lua. Meus pais já se encontravam lá. Minha mãe retirava neve do painel que formava o telhado com uma vassoura – “estava cedendo muito” – e meu pai estava cortando um painel lateral com um estilete.

“O que está fazendo?”, perguntei.

“Vi sua lista de convidados na mesa da cozinha”, disse ele.

“Não tem como caber todo mundo do lado de dentro.” Então ele estava cortando os dois painéis laterais de Blackbone, de modo que não houvesse um “lado de dentro” para as pessoas serem deixadas do lado de fora. Fiquei tentada a dizer que teríamos sorte de encher metade da tenda, mas não disse nada.

O cachimbo de Archie chamejou: luz da fogueira na luz do luar na luz da neve.

“Poderia ler um livro aqui hoje à noite”, disse ele.

“Se a noite não estiver escura”, disse eu, “como podemos ter um nascer do sol adequado?”

Ele zombou de mim. “Lá vem você de novo, sua pessimista.”

“Desculpe.” Soquei minha mão.

Meu pai havia praticamente terminado de retirar os painéis laterais quando ouvimos uma voz: “Estrela!”.

Não precisei olhar. “Essa”, disse a Archie, “é a Dootsie.”

Ao longe, silhuetas se moviam pela neve. Duas delas, do tamanho de adultos, estavam caminhando, uma puxando um trenó. No trenó havia uma forma encolhida que assumi ser a Dootsie, exceto pelo fato de que era grande demais para ser apenas ela. Em seguida, a forma amontoada se dividiu e Dootsie veio correndo pela neve. De repente, engoli em seco e meus olhos se encheram de lágrimas porque eu sabia quem devia ser a silhueta do amontoado remanescente. Corri para cumprimentar Dootsie, peguei-a no colo e corri para o trenó. Em algum lugar no embrulho de cobertas, dois olhos brilhando com o luar espiavam para fora. “É você aí, Betty Lou?”, disse eu.

Uma voz trêmula e fraquinha respondeu com uma baforada de frio: “Sim”.

“A Dootsie invadiu sua casa de manhã e a arrastou para fora da cama, e depois te obrigou a vir aqui?”

“Sim.”

Dootsie gritou: “Fui eu! Fui eu!”.

“Gostaria de estar de volta à sua casa?”

“Sim.”

“Sente-se insegura?”

“Sim.”

Dootsie enfiou o rosto dela no embrulho. Ouvi sua voz abafada: “Não se preocupe, Betty Lou. Não deixaremos nada acontecer a você”.

“Puxem-na para cá”, eu disse ao senhor e à senhora Pringle, apontando para dentro da tenda. “Ela merece o melhor lugar.”

Conforme puxavam o trenó, outras silhuetas foram aparecendo na borda do campo, atravessando a neve: Alvina, seu irmãozinho Thomas e seus pais. Arnold, Tom e a mãe de Arnold, Rita. Tom estava no bolso do casaco de Arnold. Levantei a aba do bolso do meu casaco para apresentar Canela ao Tom, e quando me dei conta Canela estava se juntando ao Tom no bolso do Arnold. Arnold estava se divertindo, então os deixei em paz.

Ike, o homem da oficina de bicicletas e cortadores de grama.

Meus vizinhos de iluminação de varanda ao longo da rua Rapps Dam.

A repórter do Folha de Lenape.

Um grupo de meninos, os torturadores de Alvina, incluindo o loiro em quem ela havia batido no Festival de Dogwood e cuja foto ficava pendurada na porta do quarto dela.

As abelhas.

Margie.

Charlie.

E, em seguida, um casal que me deixou perplexa. Mesmo de longe, eu podia dizer que eram velhos. Eles se seguravam um no outro enquanto atravessaram lentamente a neve. Quando vi seus rostos, me lembrei deles de algum lugar – e então descobri. Os Huffelmeyers da rota de entrega de leite da sexta-feira: 1 litro de leite, 1 litro de achocolatado. Eles eram muito mais novos na maioria das fotos na sala de jantar. Era como se tivessem saído andando de um álbum de família. Eles me viram e vieram direto a mim. Eu estava olhando para os dois. O senhor Huffelmeyer disse: “Isso é ideia sua?”.

“É sim”, disse eu. “Sou a garota do solstício. E a garota do leite também. Meu pai dirige o caminhão de laticínios.” Falei para eles. “Sextas-feiras. Rua White Horse, 214, 1 leite, 1 achocolatado.”

“Isso aí”, disse a senhora Huffelmeyer.

“Posso perguntar uma coisa?”, disse eu. “Venho pensando nisso há meses.”

O senhor Huffelmeyer assentiu. “Manda.”

“Quem fica com o leite e quem fica com o achocolatado?”

Eles riram, mais do que eu havia imaginado que pessoas da idade deles conseguiriam sem desmontar. “Os dois”, disse a senhora Huffelmeyer. “Nós misturamos os dois. É nossa grande diversão.”

Ela girou o dedo no ar. “Iupii.”

“Obrigado pelo bom serviço”, disse o marido dela.

“Agradeça ao seu pai também.”

“Não”, disse eu. “Eu que agradeço. Por nos deixar entrar em sua casa. Obrigada por confiar em nós.”

Estiquei minha mão para cumprimentá-los, mas eles não retribuiriam nada disso. Apenas abraços demorados e apertados serviriam. Eu os coloquei em um lugar perto da Betty Lou.

Continuei procurando por Perry. Por que ele não havia dado as caras?

A multidão estava ficando maior a cada minuto. Meu pai tinha razão, eles já estavam transbordando dos limites da tenda.

Será que eu o tinha ofendido com algo quando nos encontramos na rua uma semana atrás? Será que tinha se ofendido com minha reação à tatuagem de Dootsie? Ele havia desistido de garotas que não se tornam abelhas?

O céu estava cinza perolado no leste quando vi as luzes da viatura da polícia piscando. Encontrei o policial no meio do caminho do campo.

“Você está no comando?”, disse ele.

“Acho que sim”, falei.

Ele olhou por sobre meu ombro, para a multidão. “O que está havendo?”

“Solstício de inverno”, disse eu. “Estamos aqui para ver o nascer do sol.”

Ele me encarou.

Atrás de mim, a voz de Margie: “E aí, Mike?”.

O policial assentiu. “Margie.”

“Algum problema?”

“Encontro público? Autorização?”

Margie riu. “Isso não é uma manifestação. Ninguém está perturbando a paz. Estamos aqui para ver um raio de sol, Mike. Um raio de sol!” Ela o pegou pelo braço e o levou em direção à viatura. “Vamos apagar essas luzes e pode se juntar a nós.” E foi assim que lidamos com a lei.

E então vi Perry. Perry e a pequena Clarissa enrolada na manta azul em seus braços, e sua mãe Neva. Olhei para o céu ao leste. Bruma iluminada pelo sol flutuava sobre a copa das árvores. “Depressa!”, chamei. “Estão quase atrasados.” Praticamente tive de arrastá-los pelo caminho.

Coloquei-os na frente, perto dos Huffelmeyers.

Ainda assim, eles continuavam vindo, muitos deles rostos que não reconheci. Durante esse tempo, Dootsie e Alvina distribuíam broches amarelos de sol. Havíamos ultrapassado bem o número de convidados, o número de broches que havia pedido a elas para fazer, e mesmo assim os broches continuavam aparecendo. Pensei no milagre da multiplicação dos peixes. Descobri mais tarde que Alvina tinha comprado mais espuma amarela e alfinetes por conta própria e continuado a fazer os broches. “Você é tão bobinha”, disse ela. “Eu sabia que ia ficar lotado.”

Havia chegado a hora. Caminhei pela neve pisoteada até as pessoas. Fiquei no painel frontal da tenda. Todo mundo olhava para mim e para o painel com o buraco redondo e o céu oriental ao fundo. Avancei na direção do painel traseiro. A multidão abriu caminho. Não podia acreditar que tanta gente tinha aparecido. Eu não havia oferecido explicações ou persuadido ninguém nos convites. Assumi que, fora Perry, Archie e alguns outros, a maioria deles sabia pouco ou nada sobre os fatos astronômicos que nos levaram a esse lugar nessa época do ano. Ainda assim, eles estavam lá. E preciso te contar que havia outras pessoas lá também: a donzela de Lenape, o garoto por quem ela se jogou e a Grace, a Grace de Charlie, e muito mais gente, muito mais do que uma câmera poderia revelar. Tanta gente, e eu não conseguia entender por quê.

Fiquei em pé em frente ao painel traseiro. Alguns ainda olhavam para o leste. “Olhem para cá”, disse eu. “O buraco irá comprimir a primeira luz do inverno e transformá-la em um raio que pousará”, respirei fundo e apontei, “aqui.”

Então me afastei, e foi tudo o que fiz. Na noite anterior, após falar com Archie, havia decidido que não haveria show nem cerimônia. Eu não vestiria roupas especiais. Não cantaria. Não dançaria. Havia rasgado o poema que tinha escrito, deixado a guirlanda agridoce e o ukulele em casa. Eu não fantasiaria o cachorro. Deixaria a natureza falar por si mesma.

Quando penso nisso retroativamente, não sei ao certo qual foi o ponto alto para mim – o nascer do sol ou os momentos antes dele. Fiquei em pé de um lado, perto de Archie, com o trenó de Betty Lou perto de mim. Nunca havia imaginado que tantas pessoas poderiam ficar em silêncio. Era mais do que a ausência de sol. Era uma presença. Uma expectativa. Uma reverência. Todos nós olhando para a parede vazia da tenda, a cortina preta que não encobriria o show, mas que se tornaria o próprio show, observando, esperando, como a mais pura espera que já havia conhecido. Eu nunca o senti chegando – ele simplesmente não estava lá, e depois estava lá: um longo e fino feixe de luz da largura do pulso miúdo de Dootsie, um presente dourado do sol que viaja 150 milhões de quilômetros para marcar um círculo dourado perfeito no painel de Blackbone. Suspiros irromperam atrás de mim. O círculo borrou enquanto lágrimas enchiam meus olhos. Alguém soluçou: “Meu Deus”. Alguém gritou suavemente: “É lindo!”. Muitos de nós poderiam ter tocado o raio dourado. Ninguém fez isso.

Senti um puxão. Era Betty Lou. Ela estava chegando para trás, puxando minha mão, me arrastando. Eu me inclinei para a frente. Ela sussurrou: “Obrigada”.

Archie pegou minha outra mão. Alguém se movia do outro lado do raio dourado. Era Perry. Deu um passo para o lado e ergueu sua nova irmãzinha até sua manta azul cortar a luz, interceptando o raio. Ele a moveu até o broche de sol na sua manta se alinhar com o círculo do raio de sol, e quando eles se uniram, formaram um par perfeito. O bebê, de olhos arregalados observando na multidão, parecia saber que aquele era um momento único. Perry a ergueu daquele jeito rapidamente, olhou para mim, sorriu e assentiu, e depois a levou de volta para seu lugar.

Então, o raio de sol começou a se dissipar, enquanto o sol clareava o horizonte e inundava o mundo de luz. Ainda assim, as pessoas ficaram, assistiram ao círculo de sol se desgastar e se dissolver pelo Blackbone. Parecia um filme que é tão bom que o público apenas fica lá olhando para os créditos subindo após as luzes se acenderem. De repente, a simples frase “outro dia” tinha um novo significado.

Com o tempo, as pessoas começaram a se mexer e a voltar a seus carros e bicicletas. Havia alguns sussurrando entre eles, mas não muitos. Muitos estavam secando seus olhos. A senhora Huffelmeyer me abraçou. E também o Charlie, e outros. Alvina e Dootsie discutiram sobre os broches que haviam sobrado. Vi Alvina no meio do campo de neve. Ela estava andando atrás do garoto loiro. Ela o alcançou e... Oh não! Pensei... e então sorri, porque ela não bateu nele, simplesmente tocou no ombro dele e se afastou. Ela estava tocando o inimigo. O garoto se virou para olhar para ela, mas eu não conseguia ver a expressão em seu rosto.

Dootsie me chamou: “Estrela, olha aqui!”. Ela segurava a bebê Clarissa. Perry parecia um pouco nervoso, mas Neva sorria feliz enquanto segurava o braço de Ike. Em seguida, Dootsie gritou “Sua vez!” e começou a correr para mim. “Fique aí!”, gritei. Perry deu uma arrancada, mas cheguei primeiro e segurei o bebê. Nunca tinha visto um rosto tão cheio de gratidão quanto o de Perry naquele momento. Falei com Clarissa, nós aproveitamos para nos conhecermos mais e concordamos em nos encontrar novamente. E então Perry e sua família partiram, e a mãe de Arnold, Rita, veio me devolver o Canela, e quando me virei novamente, todo mundo tinha partido, menos Archie, meus pais e Dootsie.

Nada é mais desolador, mais inútil, do que um calendário que chega ao fim. Meu pai estava desenterrando as estacas das cordas da tenda, e minha mãe vinha até mim com ambos os braços esticados, dizendo: “Estou tão orgulhosa de você!”. Ela me abraçou e perdi a compostura. Explodi em lágrimas. Estava surpresa. Não tinha antecipado isso. Só fui fazendo e fazendo. Curiosamente, ninguém tentou me impedir. Deixei minha mãe e caminhei sozinha pelo campo de neve, chorando. Não havia chegado muito longe e uma mãozinha deslizou na minha. Sei que Dootsie era nova demais para entender o que estava acontecendo – caramba, eu era nova demais – e ainda assim sabia que ela e eu estávamos, de alguma forma, sentindo a mesma coisa. Ela não disse nada, apenas caminhou devagar comigo pela neve até o horizonte no oeste, onde o sol mais tarde iria encerrar esse dia. Quando paramos e voltamos, as folhas de Blackbone estavam desmontadas e o último dos mastros da tenda caía.

24 de dezembro

Archie foi para casa hoje. Não queria que o Señor Saguaro passasse o Natal sozinho.

Ontem conversamos até tarde da noite. Em algum ponto perto do bojo de seu cachimbo ser cheio pela terceira vez com tabaco de cereja, ele disse: “Sabe por que chorou no outro dia?”.

“Sim e não”, disse eu.

“Muitas razões, hum?”

“Sim.”

“É difícil dar um nome a elas.”

“Sim.”

“Mas uma razão...”

“Sim.”

“...tem um nome.”

Eu olhei para ele. “Sim.”

Ele puxou um pequeno envelope dobrado do bolso de sua camisa.

“Ele me pediu para te entregar isso. Ele sabia sobre seu solstício, tinha ouvido de mim e de sua amiga Dori Dilson. Disse para te entregar depois que o evento tivesse acabado. Não queria distraí-la. Talvez tenha sido um erro, mas”, deu de ombros, “só faço o que me pedem.” E me entregou o envelope.

Estava prestes a rasgá-lo, então fiquei com medo de rasgar seu conteúdo também. Peguei uma faca na gaveta. Não confiava em mim mesma. Dei a faca e o envelope a Archie. “Você abre. Tenha cuidado.”

Ele abriu o envelope com uma incisão e o devolveu a mim. Minhas mãos estavam tremendo. Era uma única folha de papel branca, pequena, dobrada em quatro partes, do modo que crianças dobram uma carta.

Dobra por dobra, eu a abri. Havia uma única palavra, em tinta de marcador azul brilhante, toda em letras maiúsculas:

SIM

Meu coração disparou. Você me ouviu, não ouviu, querido Leo? Todas essas manhãs sob o nascer do sol, quando eu me sentava na Montanha do Calendário com os olhos fechados, quando dava as costas para o sol nascente e virada para o oeste, te enviando minha mensagem, com minha pergunta:

Nós nos encontraremos novamente?

E você a recebeu – eu sabia que iria, sabia, eu sabia! – e agora você me respondeu.

“Oh, não, não de novo!”, Archie dizia, mas ele estava brincando, porque podia ver que minhas lágrimas eram de felicidade dessa vez. Ri e contei tudo a ele enquanto o Canela mordiscava as bordas do SIM.

2 de janeiro

O Natal e o Ano Novo foram meio desperdiçados por mim dessa vez. Imagine por quê.

Recentemente, tenho sonhado acordada um monte, dado longas caminhadas, longos passeios de bicicleta. Fui à Montanha do Calendário uma última vez. Ela parecia tão comum agora, só mais outro campo em outra montanha. Fiquei em pé lá no meio, onde a estaca de croqué tinha estado. Tentei conjurar a mágica daquela manhã, mas não consegui. Mas senti outra coisa, uma presença duradoura das pessoas que haviam estado lá. E um aumento repentino de afeto por eles. Eu os via usando seus broches de sol pela cidade. Margie tinha feito alguns e os dava para cada cliente que pedia uma dúzia de donuts.

Nada havia realmente mudado e, ainda assim, de um jeito difícil de explicar, tudo tinha. Dootsie me implora cinco vezes por dia para que eu a deixe me serrar ao meio. Ela ganhou um kit de mágica de Natal. Alvina fez 12 anos. Eu lhe dei uma boneca de presente de aniversário. Minha mãe fez duas roupas para ela: um vestido e um quimono de caratê. Arnold vagueia diariamente, esperando ser encontrado. Charlie senta-se com seu cachecol vermelho e amarelo e conversa com Grace.

Na primeira semana após o solstício, Betty Lou só saía de casa se alguém a puxasse em um trenó ou carrinho. No Ano Novo, Dootsie e eu nos unimos e passeamos com ela pelo quarteirão. Esta manhã, ela me ligou, empolgada: “Acabei de caminhar até a caixa de correio! Sozinha!”. Perry empurra o carrinho com sua nova irmãzinha pela cidade, e às vezes também faço isso. Tornei-me babá-chefe. Eles se referem a mim como tia Estrela. A segunda casa de Clarissa se tornou a loja de Margie, onde Neva voltará a trabalhar na próxima semana.

Ah sim, o Canela. Recebi um telefonema da mãe de Arnold, Rita. Parece que Tom, apesar do nome, está prenha. Aparentemente, Arnold tem um bolso de casaco fértil. O Canela será papai!

E minha carroça feliz está se aguentando com dezessete seixos.

E assim os dias passam, doze deles após o sol começar sua jornada de volta ao verão. Dias comuns, criaturas comuns. Vida comum, ordinária, de todo dia – e ainda assim ela parece tão especial agora, com os gestos mais comuns salpicados de brilho, como se uma faísca de feixe dourado tivesse se agarrado a cada pessoa que foi à Montanha do Calendário naquela manhã.

Enquanto ficava em pé naquele último momento na montanha, decidi que sim, que enviarei a você pelo correio esta carta mais longa do mundo. Sei que você também esteve lá, naquela manhã, com tanta certeza quanto estiveram a donzela de Lenape e a Grace de Charlie. Sua resposta foi um novo nascer do sol para mim, meu próprio solstício, o amanhecer de uma estação que, como Betty Lou diria, viverá um dia de cada vez. Navegarei nas asas do mistério e não olharei para trás. Ah, sim, realmente amo Arnold, mas sou muito parecida com ele. Nós, Arnolds, nossos corações são saudosistas. Ansiamos por sermos encontrados, desejando que aqueles que nos procuram não tenham desistido e ido para casa. Mas não desejo mais ser encontrada, Leo. Não me siga! Sejamos simplesmente fabulosos onde estivermos e com quem estivermos. Você será você e eu serei eu, hoje e hoje e hoje, e vamos confiar o amanhã ao futuro. Desta vez, nós é que guiaremos as estrelas. Vamos construir nossas próprias órbitas e confiar que elas nos encontrarão. Que nosso reencontro não seja uma mera conclusão, mas uma doce colisão de destinos!

Com amor, amor e mais amor,

A garota chamada Estrela

Você terminou Com amor, a garota chamada Estrela

Jerry Spinelli

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