Com amor, a garota chamada Estrela
Parte 3
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
“Não”, disse eu.
Minha mãe pareceu um pouco envergonhada. Ela disse que tinha visto, e que a escondeu de mim. Eu entendia o motivo. A repórter tinha mudado o foco do meu “heroísmo” para minha “angústia com meu rato de estimação perdido”.
“Eu não queria aborrecê-la mais do que já estava”, disse minha mãe.
Eu olhei para ela. “E quem contou à repórter sobre o Canela?”
Minha mãe ergueu a mão, de mansinho. “Ela não desiste, aquela repórter. Ela me ligou quando você estava tirando um cochilo.”
Eu li a reportagem. Ela era surpreendentemente legal e gentil, considerando o quão desagradável fui com a repórter.
“Assim que a li”, disse Rita, “soube a quem o rato pertencia.”
Agora, minha mãe e eu estávamos praticamente encharcando o tapete com nossas lágrimas de felicidade.
“Por favor!”, Rita sorriu. “Vocês vão me fazer chorar. Não posso ficar de maquiagem borrada na frente de um cliente. Vamos, Arnold.”
Enquanto eles seguiam para a porta, estiquei Canela para Arnold. Com a ponta de seu dedo gorducho acariciou a cabeça do meu rato. Passei o Canela para minha mãe e abracei o Arnold. Permaneceu duro como uma pedra, mas não me importei. Pressionei meu rosto na lã escura de seu casaco. Olhei nos olhos dele, que ainda não conseguiam me encontrar. “Obrigada, Arnold”, disse eu. “Se não fosse por você, o Canela teria virado jantar de coruja. Você o salvou.”
Rita abriu a porta. “Vamos a um pet shop no shopping amanhã. Vamos comprar um para ele.” Ela pegou a mão do filho e o levou pela varanda. “Não vamos, Arnold?”
Minha mãe, eu e Canela ficamos parados na soleira e os observamos partir. Então liguei para Dootsie para lhe contar as novidades.
13 de novembro
Estou sem muletas. Sem a tala. A cor do meu tornozelo clareou para um amarelo feioso. Faço meus exercícios todo dia. Às vezes ainda tusso quando respiro fundo para valer. Ou rio. Tenho rido um bocado desde o retorno do Canela para casa. Só posso caminhar se não for muito longe. E andar de bicicleta.
Fui até a Margie. Ela tinha a história do jornal presa com fita na janela.
“Tire isso daí”, disse a ela.
“Cuide da sua vida”, ela me respondeu. “A loja é minha.”
Neva, a nova ajudante, vestia um suéter bege para grávidas e parecia maior do que antes, se é que isso era possível. Ela sorriu quando me viu, arrumou um lugar para mim, tirou minha jaqueta e fez um milhão de perguntas sobre o incêndio e tudo mais. Mais tarde, sussurrei para Margie: “Ela não é mais tímida”.
Margie riu. “Ela não cala a boca.”
Margie me empurrou uma dezena de donuts. De graça. “Vai acelerar sua recuperação”, disse ela.
Visitei Betty Lou. Nós nos abraçamos e choramos como irmãs há muito perdidas.
Pedalei até o cemitério para visitar Charlie. Só ver aquele cachecol xadrez vermelho e amarelo já me animou. Eu tinha dado a Betty Lou metade dos donuts. Passei o restante a Charlie. Colocou seu aparelho auditivo, protegeu os olhos e olhou para mim.
“Era você, não era?”
“Eu o quê?”
“No incêndio. A criança era você.”
Estiquei meus pulsos como se fosse ser algemada. “Culpada.”
Ele sacudiu o dedo na direção da lápide. “Viu só? Te falei. Era a menina com o nome engraçado.” Olhou para mim.
“Qual é mesmo? Lua...?”
“Estrela.”
“Ah, viu só? Estrela. Te falei.”
Ele me ofereceu a cadeira, mas sentei no chão ao lado dele. Nós conversamos. Ou melhor, ele falou. Sobre Grace. Sobre como se conheceram quando tinham 6 anos por causa de um peixe. Naquela época havia uma peixaria onde hoje fica a loja de tudo por 1,99. Ambos estavam lá com suas mães. E os dois queriam o mesmo peixe. Charlie se lembra com precisão: “Era um linguado. Do Alaska”. Mas as duas mães eram tão legais que ambas insistiram para a outra levá-lo.
“Você leva.”
“Não, você.”
Até aquele momento, eles eram todos desconhecidos uns dos outros.
Enquanto o pescador permanecia lá em pé com seu arpão branco, as mães continuavam a tentar uma a ser mais gentil do que a outra.
“Você leva.”
“Não, você.”
Charlie riu todas as vezes que dizia isso. Mesmo o seu sorriso era áspero.
Por fim, Grace, que era pequena e gritona, ergueu as duas mãos e parou a loja inteira com um berro trovejante: “Eu pego ele!”.
Enquanto contava isso, Charlie se levantou de sua cadeira e ergueu as mãos dele no ar. O cemitério reverberou com nossa risada.
Após se sentar novamente em sua cadeira, limpando a risada de seus olhos, ele disse: “Então a mãe de Grace pegou o peixe”.
Não foi minha intenção. Eu não queria ser impertinente ou passar do limite. Simplesmente saiu:
“E você pegou a garota!”
Ele virou a cabeça para mim. O grisalho no seu rosto brilhou como uma lã angelical. Leo, nunca alguém sorriu desse jeito para mim. Ele falou por horas com aquela voz áspera dele. Disse-me que ele e Grace tinham uma filha. Que era como ia para o cemitério e voltava para casa – a filha dele dava carona para ele no seu caminho de ida e volta para o trabalho.
Ele contou uma história atrás da outra sobre ele e Grace. Eles se casaram aos 18 anos. Ficaram cinquenta e dois anos juntos.
Não... sessenta e quatro anos se você começar a contar pelo linguado.
Não... sessenta e oito, se você somar o tempo desde que ela veio para o cemitério.
Assim como Neva, Charlie não parava de falar. Enquanto tagarelava, comecei a entender que ele estava fazendo mais que falar, mais que simplesmente relembrar. Estava revivendo, de um modo que só podia ser feito ao se compartilhar isso com mais alguém. E estava me concedendo a maior honra de todas: estava me apresentando à Grace.
Quando me levantei para ir embora, ele ainda demorou um tempão para soltar minha mão. Levei a sacola vazia de donuts comigo. Queria me lembrar desse dia.
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15 de novembro
Sem brigas dessa vez. Minha mãe vagueou grogue pela escada e se encolheu na cadeira de balanço na varanda. Eu a cobri com um cobertor. Os dias estavam ficando mais frios.
As luzes da varanda ao longo da rua Rapps Dam iluminavam meu caminho até a Montanha do Calendário. O campo estava especialmente escuro essa manhã, apenas uma lâmina da lua aparecendo. Chamei minha mãe: “Estrela aterrissou. Câmbio e desligo”. E mirei a lanterna para as ruínas da casa dos Van Buren, mas a luz não chegou lá. O terreno estava batido e ressecado. Comecei a desejar ter trazido minha muleta.
Pego pelo feixe da luz, o quase completo quarto de círculo de pás brancas de espátulas parecia ser de outro mundo, como um artefato alienígena ou de ancestrais antigos. Eu vinha numerando os marcadores com uma caneta hidrocor. Tinha chegado ao número 15 antes do incêndio. Contando o intervalo de três semanas, eu tinha o número 19 no meu bolso. Fui até o último marcador. Ajoelhei do lado dele. Mirei a luz para ele, ambos os lados. Algo estava errado. Esperava ver o número 15, mas não havia nenhum número. Olhei para o anterior. Mesma coisa, nenhum número. A mesma coisa com o anterior a ele. Somente quando virei a lanterna para o quarto marcador a partir do final, vi meu último número: 16.
O que estava acontecendo? Alguém tinha colocado marcadores na minha ausência? Óbvio que sim, mas quem? Minha mãe! Estava prestes a chamá-la no walkie-talkie quando ouvi uma voz vinda da escuridão: “Heroínas estudantes domiciliares não dormem à noite?”.
Perry.
Ele entrou no feixe de luz.
“O que está fazendo aqui?”, perguntei.
Ele ergueu uma espátula. “O mesmo que você.”
Apontei a luz para os marcadores sem números. “Você fez isso?”
Ele deu de ombros. “Alguém tinha de fazer.”
“Você sabia como?”
“Não é preciso ser nenhum gênio.”
Ele acendeu sua própria lanterna. Nossos feixes se fundiram.
O tempo passou. Estrelas se moveram.
Ele riu.
“Que foi?”, perguntei.
“Você. Você está parada aí com a boca aberta como se eu tivesse três cabeças ou algo parecido.”
“É que não consigo acreditar que fez isso. Especialmente...”
“... por eu não ter aparecido da última vez?”
“Algo assim.”
“Longa história.” Ele desligou sua lanterna. Deu meia-volta.
“O céu está cinza. É melhor fazermos isso logo.”
Desliguei minha lanterna. Ele puxou a corda a partir da estaca. Passei minha espátula de jardinar para ele, que eu trazia agora que o solo estava endurecendo. Ficamos lá em pé, um do lado do outro, olhando para o leste. Ao primeiro vislumbre de sol, ele cavou o buraco e firmei o marcador. Quando me levantei, meu cabelo roçou na bochecha dele. Ele estava tão próximo. Tudo estava caindo aos meus pés – a espátula, seu marcador, a corda. E foi aí que me beijou. Lá no final do arco do meu calendário, na quadragésima sexta quinta-feira do ano, na tricentésima nonagésima manhã, trinta e seis dias até o solstício de inverno. Muitas meninas já foram cortejadas sob a lua, e não quero dizer que o luar é superestimado, mas acho que poucas conheceram a mágica de um beijo ao nascer do sol.
Nós demos as mãos enquanto caminhávamos pelo campo. Na Rota 113 viramos em direções opostas e fomos para nossas casas.
18 de novembro
Querido Leo,
Era assim que ia começar o relato de hoje, então percebi que soaria muito como “Querido John”. Então rabisque isso.
É domingo de tarde. Estou sentada na varanda vestindo uma camisola. Eles chamam um dia como esse de verão indiano. Imagino como Lenape o chamaria.
Estou olhando para o fim da rua. Consigo ver apenas uma esquina do campo. Não vejo a ruína carbonizada dos Van Buren. Eles têm autorização de reconstruí-la se quiserem, mas ainda não decidiram. Nesse meio tempo, estão morando em um trailer na calçada de um parente.
Enquanto sento aqui na varanda, estou tendo uma nova apreciação da experiência da minha mãe toda quinta-feira de manhã. Ela me observa – a filha dela, sua única filha – se afastar por um corredor de luzes externas. Ela me vê ficar cada vez mais tênue até quase desaparecer na escuridão além do último feixe de luz – quase, porque ela ainda vê o pequeno lampejo tranquilizador da minha lanterna. O balanço trêmulo da mão de sua filha enquanto ela atravessa a Rota 113 para dentro do campo. E então a tremulação também desaparece enquanto ela segue para o calendário. Um momento de ansiedade, de perda, e aí o walkie-talkie ganha vida de repente e é a voz de sua filha, perfeitamente comum, nenhuma pista de ter flertado com o esquecimento, a voz de sua filha ao mesmo tempo comum e insubstituível dizendo: “Estrela aterrissou. Câmbio e desligo”.
Parece que estou divagando? Pois estou. Por três dias agora venho divagando, tombando, deslizando como a folha que estou vendo ser levada pelo vento ao longo da rua. A rajada de vento tem sido meus sentimentos, e eles têm me soprado em todas as direções, e agora penso, enfim, eles deram uma trégua e me deixaram botar os pés no chão e encontrar as palavras para descrevê-los.
Que, realmente, simplesmente e finalmente é o seguinte: ainda te amo. Eu não amo o Perry.
VOCÊ: Estou surpreso.
EU: Você não é o único.
VOCÊ: Considerando o que tem dito recentemente.
EU: Eu sei.
VOCÊ: Se importa de me explicar?
EU: Bem, a coisa mais óbvia é que se estivesse aqui o tempo inteiro, não haveria competição desde o início. Mas... você está lá e ele aqui, e, conforme disse Betty Lou, eu estava solitária e vulnerável. Ela também me disse para habitar meus momentos, viver o hoje, abraçar a incerteza, o mistério de Perry. Então acho que foi o que fiz no outro dia na Montanha do Calendário. Mergulhei no momento. Deixei-me afogar nele. O ambiente, o nascer do sol – isso que é momento!
Quem resistiria? E aquele momento simplesmente perdurou pelo restante do dia e pelo próximo. Mas depois comecei a notar uma coisa engraçada. O momento começou a se desgastar numa ponta e a se desligar de uma de suas principais partes – nominalmente, ele, Perry – até haver um espaço claro entre eles: o momento aqui, Perry lá.
Eles não eram um só e o mesmo. E comecei a sentir de novo algo de que só estive vagamente consciente antes. Era uma sensação pequena e surpreendente de decepção inclusive enquanto me beijava, mas os violinos estavam tão altos que naquele momento eu não podia ouvir mais nada. Agora aquela decepção estava voltando, e com ela a percepção de que a mágica tinha vindo apenas do momento, não dele. Foi diferente com você, Leo. Nos olhos e ouvidos do meu coração, você e a mágica são uma coisa só. O cenário nunca foi importante. Na calçada em frente à minha casa, no lugar encantado no deserto, caminhando pelos corredores da escola – sempre que eu estava com você, ouvia violinos.
VOCÊ: Uau. Não sei o que dizer. Não te mereço.
EU: Você está certo, pelo menos dessa vez.
VOCÊ: Depois disso tudo, como posso não retribuir seu amor?
EU: Não faço a menor ideia.
VOCÊ: Certo, vou dizer isso: Eu te amo.
EU: Não! Não quero ouvir isso! Não desse jeito. Não quero ouvir essas palavras jamais a menos que venham dos seus lábios. Você em carne e osso, não o você que fantasio.
VOCÊ: Pensei que queria que eu dissesse. Você não está fazendo sentido.
EU: O coração não faz sentido.
VOCÊ: Então o que você quer de mim?
EU: A resposta está na sua pergunta – eu quero de você. Quero que você diga as palavras porque elas estão voando da sua boca, porque, talvez, não possa impedi-las, não porque te levei a um passo de dizê-las. E quero saber que elas estão sendo ditas para mim. Para mim. Não para alguma garota nos filmes ou em um livro. Não para alguma ideia de garota que você pegou ao longo do caminho de outros garotos e outras garotas. Para mim. Estrela. Você me conhece, Leo? Me conhece de verdade?
VOCÊ: Você está dificultando dizer sim.
EU: Tudo bem, curso de curta duração, preste atenção... Aula de Introdução à Susan Julia Ratinha Torta de Lama Hullygully Estrela Caraway I. Ela sonha pra caramba. Ela sonha com sereias, donzelas em queda e casas pegando fogo à noite. Mas procure em seus sonhos o quanto quiser e nunca encontrará o Príncipe Encantado. Nenhum cavaleiro em um cavalo branco galopa em seus sonhos para levá-la embora. Quando ela sonha com amor, ela sonha com purê de batata. Ela ama purê de batata, e ela sonha que ela e o Menino Estrela estão comendo purê de batata, possivelmente em um lençol em uma praia deserta, e enquanto o Menino Estrela cava outra colherada cheia, deixa cair a colher e abre a boca (mostrando alguma massoca de purê de batata, mas ela acha isso fofo), e ele olha para ela de um jeito que ela nunca foi olhada antes – ele a vê! – e ela pode praticamente ver as palavras fervendo dentro dele – é impossível pará-las – e lá vem elas, jorrando sobre o purê: “Eu te amo, Estrela!”.
Elas continuam vindo enquanto partículas de batata voam – “Eu te amo, Estrela! Eu te amo, Estrela!” – como um cacto cereus florescendo não apenas uma vez, mas de novo e de novo milhares de vezes em uma única noite.
Entende o que estou dizendo, Leo?
VOCÊ: Está dizendo que o amor cria sua própria mágica.
EU: Louvado seja. Existe esperança.
VOCÊ: Acho que gostaria de participar do curso Estrela II.
EU: O Estrela II é o mesmo objeto de análise, mas do ponto de vista do Menino Estrela. A lição é: ele precisa ouvir violinos também, o mesmo que ela ouve.
VOCÊ: Ele ouvia. Eu ouvia.
EU: Talvez sim. Mas você também ouvia a bateria de outros. E a bateria superou os violinos.
VOCÊ: Eu posso mudar.
EU: Espero que sim.
19 de novembro
Estou em pânico. Faltam apenas 32 dias para o solstício e não sei nem o que farei. Escrevi para Archie, pedindo ideias a ele. É claro, existe uma coisa que já sei: o evento central, o Momento dos Momentos, será quando o sol começar a surgir sobre o horizonte (reze por um céu limpo!). Afunilarei aquela luz por um buraco em uma tenda – minha mãe irá costurá-la – e quando ela sair do outro lado do buraco ela será um único arpão dourado de luz.
Mas o resto todo ainda é dúvida. Onde o arpão dourado cairá? Precisa haver uma cerimônia, mas do que ela consistirá? Quem devo convidar? Àquela hora do dia, alguém aparecerá?
(L)_(B)Ringgold335(C)
20 de novembro
Estava prestes a entrar na loja de Margie hoje quando vi Perry lá dentro.
Ele estava sentado no balcão, falando com Neva. Continuei andando pela rua. Estou nervosa quanto a vê-lo novamente. O que deveria dizer? Como ele se sente? Não quero machucá-lo, mas também não quero dar falsas esperanças a ele.
A tenda será mais ou menos o tamanho e a forma da minha cama. Minha mãe tem inúmeros bons contatos na área de tecidos e encontrou esse material chamado Blackbone. Ele é firmemente tecido e revestido e, como a cortina de uma janela escura, ele bloqueia a luz. É o que quero. Quero um total breu dentro da barraca para realçar dramaticamente o raio de sol dourado vindo pelo buraco. Minha mãe diz que a maioria das pessoas com máquinas comuns de costura não seriam capazes de trabalhar com Blackbone, porque é muito denso, mas seu equipamento pesado de costurar fantasias pode dar conta do recado. Minha mãe está trabalhando em um esboço de tenda elaborado pelo meu pai. Ele também contribuirá com mastros e estacas da serraria.
Exceto por mancar um pouco e por uma cicatriz acima de uma sobrancelha – e pela tendência de sentir cheiro de alcatrão em lugares inesperados – minha saúde voltou ao normal. Dootsie merece muitos agradecimentos. Ela continua escovando meu cabelo e murmurando melodias inventadas para mim. Às vezes ela aparece com uma pequena sacola branca que diz MÉDICA. Ela tira um termômetro de brinquedo e o enfia na minha boca. Escuta meu coração com seu estetoscópio de brinquedo, fecha os olhos, assente e murmura: “Humm...”. Me dá um copo de água e me faz tomar um comprimido (hortelã). Por um tempo, sempre que me via ela tirava meu sapato e meia e fazia massagem no meu pé. Embora gostasse de verdade, tive que dar um fim nisso outro dia quando encontramos com os Pringles na lanchonete Cometa Azul e ela tentou massageá-los lá.
21 de novembro
Amanhã é quinta-feira. Dia de Calendário. Estou pensando o impensável. Pensando em não ir. Porque estou com medo de Perry estar lá. Nunca esperei que uma complicação dessas fosse interferir na minha rotina de solstício.
22 de novembro
Acabei indo. Porque tive uma ideia brilhante. Liguei para Alvina.
Perguntei se ela poderia dormir fora e ir comigo pela manhã.
“Isso vai me tirar da escola?”, disse ela.
“Na verdade não”, disse eu. “Vai ter bastante tempo para chegar na escola depois de o sol nascer.”
“Então não vou”, disse ela com rabugice.
Eu suspirei. “Tudo bem. Pode ficar em casa e passear o dia todo comigo, mas só se sua mãe disser que sim.”
Quando ela voltou ao telefone ela disse: “Minha mãe falou que tudo bem. Disse que será como uma excursão.”
“Além disso, se você estiver comigo você não se meterá em problemas.”
Alvina respondeu: “Ei, como você sabe que ela disse isso?”.
“Eu leio mentes.”
Só me sentia um pouco culpada. A mãe dela estava certa, isso seria bom para Alvina, sem falar em me dar um pouco mais de chance de amaciá-la. Ela não precisava saber que também estaria ajudando a bloquear riscos. Se Perry aparecesse de fato, imaginei que a presença de Alvina impediria que as coisas ficassem muito tensas ou sensíveis.
Na noite anterior, já estava me arrependendo de tudo, e desejando que tivéssemos uma casa maior com um quarto de visitas. Alvina dormiu comigo, mas ela não era de bater na cama e dormir que nem uma pedra como Dootsie. Ela se contorceu e me chutou a noite inteira. Não tive nenhuma pena dela enquanto a arrastava para fora da cama. Praticamente, tive que vesti-la. Se não fosse pelo seu valor anti-Perry, a teria deixado embaixo das cobertas. Foi uma visão e tanto, eu e minha mãe lutando com Alvina e tentando não deixar nós três voarmos escada abaixo. É claro que Alvina quis se aconchegar na varanda com minha mãe, mas a arrastei pela rua Rapps Dam enquanto pequenos flocos de neve se agitavam nas luzes externas.
Perry não estava no calendário. Fiquei aliviada, mas ainda cautelosa. Mirei meu feixe de luz para lá e para cá. Continuei esperando que ele surgisse andando da escuridão, na expectativa de ouvir sua voz. O frio tinha acordado Alvina como não consegui. Quando viu o arco com os marcadores brancos, ela disse: “Legal”. Expliquei o calendário a ela. Disse que era assim que o povo pré-histórico se situava no tempo, no eterno ciclo das estações.
Deixei Alvina puxar a corda. O fluxo de neve havia parado. Nós aguardamos. O céu permaneceu cinza com nuvens altas. O sol, quando nasceu, era só um borrão, mas foi o suficiente. Cavei rapidamente o buraco e Alvina firmou o marcador. Ela socou a terra solta com o punho e enrolou a corda em volta da estaca de croqué. Ficou lá em pé por um tempo, olhando ao longo da nova linha de sol para a nossa estrela a 150 milhões de quilômetros de distância. “Legal”, disse ela.
“Me dê um minutinho”, eu disse. Sentei no chão frio e maciço. Virei-me de costas para o borrão do nascer do sol de modo que estivesse virada para o oeste, para você. Fechei meus olhos e fiz algo sobre o qual vinha pensando: enviei uma mensagem a você. Uma pergunta. Espero que a tenha recebido.
Então, me levantei e nós partimos.
* * *
Mais tarde, levei Alvina à casa de Betty Lou para o almoço. Estava quase tocando a campainha quando Alvina falou: “Não vou entrar aí.”
“Por quê?”, disse eu.
“Porque ela é uma bruxa.”
“Quem disse isso?”
“Todo mundo.”
“Você dá ouvidos a todo mundo? Não me parece você, Senhorita Não Mexa Comigo.”
“Ela não saiu de casa por anos e anos. O rosto dela é todo branco e empoeirado, como giz. Ela nunca abre as janelas. Tem mofo e limo por todo canto. E piolhos. É nojento.”
“Se é tão nojento, como é que você trazia os donuts para ela toda semana?”, falei e toquei a campainha.
A porta se abriu de uma vez. Alvina recuou. Uma mão veio para fora, um dedo torto balançou na nossa direção e uma voz crepitante e assustadora falou com malícia: “Entrem, minhas crianças.”
Eu ri. Alvina gritou e seguiu para a calçada.
Agarrei a bainha de trás de seu casaco e a puxei de volta, arrastando-a para dentro da casa. Coloquei-me atrás dela, passei meus braços ao seu redor e a fiz encarar Betty Lou, que estava magnífica como sempre, num roupão roxo com meias-chinelo vermelho-brilhantes. “Betty Lou”, disse eu, “essa é a...”
Betty Lou interrompeu, “Eu sei quem ela é. A pestinha. Alvina. Meu anjo dos donuts.”
Ela esticou a mão para ela. Alvina guardou as suas nos bolsos. “Alvina!”, ralhei, mas Betty Lou riu alto. “Tudo bem. Eu também não apertaria a mão de alguém com piolhos.”
Fiquei de queixo caído. “Você ouviu?”
“Vi vocês chegando. Estava na porta, ouvindo.” Ela assentiu pensativa. “Muito interessante. Então, Alvina, o que mais dizem a meu respeito?”
Alvina balbuciou: “Nada”.
“Ah, vamos lá, Alvina. Não seja tão medrosa. Se não me contar, sacudirei meu cabelo e meus piolhos voarão todos para cima de você.”
Alvina recuou ficando mais próxima de mim. “Tem um cadáver no andar de cima. Ele dorme com você. É seu marido, que morreu quarenta anos atrás.”
Betty Lou ergueu as sobrancelhas. “Estou impressionada. Pelo visto sou muito mais interessante do que jamais havia percebido.” Ela foi para a cozinha. “Bem, entrem aqui vocês duas. Tenho alguns pães doces de piolhos para vocês.”
Continuei de mãos dadas com Alvina até sentarmos à mesa da cozinha. Betty Lou trouxe um prato que eu nunca tinha visto. “Pães doces caseiros. Delícia.” Ela passou a bandeja em frente ao nariz de Alvina. “E você escolhe: passas ou noz-pecã.”
“Vá em frente, pegue dois”, disse eu.
“Não estou com fome”, disse Alvina.
“Alvina...” peguei a mão dela entre as minhas e girei-a mostrando a cozinha ao redor. “Você vê mofo e limo em algum lugar?”
Betty Lou deu um tapinha na minha mão. “Ah, deixa ela. Se estiver com fome, ela comerá. Nada pior do que ser forçada a comer, especialmente pães doces caseiros. Não é, Alvina?”
Alvina olhou para a bandeja de pães doces. Assentiu. “Na verdade”, disse Betty Lou, “acho que irei aquecê-los no micro-ondas. Pães caseiros quentinhos? Chá de framboesa da Zinger? Que delííícia.” Ela apertou o rosto chocado de Alvina em sua mão e forçou um sotaque caipira: “Querida, não fica mió que isso não.”
Logo o cheiro dos pães doces caseiros tomou a cozinha. Ela fez chá de framboesa da Zinger para ela e para mim. Enquanto repousava a bandeja aquecida de pães sobre a mesa, certificou-se de passá-la perto do nariz de Alvina. Eu estava com risadas paradas na garganta.
“Então”, disse Betty Lou, sentando-se, “pode subir se quiser, para ver o cadáver.”
Alvina deu de ombros. “Deixa pra lá.” Depois, ela olhou diretamente para Betty Lou. “Por que você nunca sai de casa?”
O dedo de Betty Lou disparou no ar. “Ah, a inquisição.”
Ela olhou Alvina de um jeito ardiloso. “Muito bem, Donzela dos Donuts, eis o trato. Você concorda em comer um pão doce e eu te conto as histórias. Contarei tudo que você quiser saber. Me confessarei. Me delatarei.” Ela esticou a mão para ela. “Então, temos um trato?”
Dessa vez, Alvina apertou a mão dela. Enquanto Betty Lou contava a história – “A abominável agorafóbica”, como ela a chamava – inclusive os capítulos sobre seu reinado como flor do Dogwood e coisas que nem eu havia escutado, Alvina limpou a bandeja de pães doces e três xícaras de chá de framboesa.
23 de novembro
Um dia após o outro a voz que começou como um pequeno sussurro se tornou cada vez mais alta, até que essa manhã ela me acordou de meu sono:
ELE NÃO TENTOU ENTRAR EM CONTATO
COM VOCÊ DESDE AQUELE DIA.
JÁ FAZ MAIS DE UMA SEMANA.
QUER SABER?
TALVEZ SEJA MÚTUO.
TALVEZ ELE TAMBÉM NÃO TE AME.
Ela veio como um choque. Eu me senti:
a. Envergonhada (já que levei tanto tempo para perceber isso)
b. Envergonhada, o retorno (por acreditar que eu era a única não apaixonada)
c. Ofendida (como ele pode não me amar?)
d. Aliviada
e. Curiosa (o que vem a seguir?)
24 de novembro
Hoje recebi a ligação pela qual vinha esperando há meses. Era Betty Lou, gritando de alegria:
“Eu tenho um tordo! Em cima do fio do telefone lá atrás! Escute! Segurarei o telefone lá fora!” Ouvi uma janela subindo. Ouvi uma canção de pássaro quase sumindo. “Ouviu?”
“Sim”, respondi.
“Estou tão feliz! Meu próprio tordo! Tenho muito medo de que ele vá embora!”
“Tente colocar uma laranja fatiada do lado de fora”, disse eu. “Ouvi dizer que eles gostam.” Pensei no problema dela. “Basta jogá-la no quintal. Ele a encontrará.”
“Farei isso! Farei isso!” Então uma pausa, um grito. “Não tenho laranjas!”
“Te levarei algumas.”
“Depressa!”
Já adivinhou, querido Leo, do que se tratava a misteriosa equação? Atraí o tordo de uma rua para outra, de um quarteirão ao outro, com laranjas até chegarmos à Ringgold 335, o endereço de Betty Lou. Jamais conte a ela. Quero que ela pense que isso é estritamente entre ela e o tordo.
Dias até o solstício: 27
25 de novembro
Tive uma resposta de Archie ontem. Ele diz para esquecer a história. Não me preocupar em fazer meu solstício conforme a descrição nos livros. Por centenas de anos, cada cultura, país e época conduziu o solstício de seu próprio jeito, por que eu deveria fazer diferente? Todos eles se baseiam no mesmo sol, mesma terra, mesmo amanhecer especial. Trata-se do tempo virando uma esquina. Trata-se de saber que os dias quentes voltarão, que haverá outro plantio, outra colheita. Trata-se de um momento de alegria. Trata-se de pessoas juntas. Ele sublinhou: juntas.
O Suspense de Perry está me afetando. Antes, estava tentando evitá-lo. Agora, estou impaciente. Só quero ter logo o nosso próximo encontro para tirar isso do caminho, de modo a podermos seguir para o que quer que venha depois.
26 de novembro
Então pedalei minha bicicleta pela escola de ensino médio na hora em que os estudantes estavam saindo. Não o vi. (Não sei o que teria feito se o visse.) Fui para o centro da cidade. Verifiquei na loja de Margie. Nada de Perry.
“E você pode dizer tchau para a Neva”, disse Margie. “É o último dia dela.” Neva estava bem ao nosso lado, limpando bandejas de donuts, mas estava tão quieta e melancólica quanto no dia em que a conheci. Margie se esticou e tocou na barriga de Neva. Havia um traço de tristeza em seu sorriso. “Hora do bebê nascer.”
O cabelo clareado e os brincos brilhantes de Neva pareciam zombar de seu humor. Quando eu disse, “Parabéns, Neva”, ela apenas assentiu.
Meu eu, que não sabe a hora de parar, tentou uma pergunta: “Sabe se é menino ou menina?”.
“Menina”, ela murmurou. Difícil acreditar que essa era a pessoa que falava sem parar duas semanas atrás.
“Isso é ótimo”, disse, alegremente. Precisava de um comentário de fuga. Adicionei: “Bem, será um ótimo presente de Ação de Graças”, e segui para a porta.
Do lado de fora, retomei minha busca por Perry. Passeei para cima e para baixo na rua da Ponte. Esbarrei com duas das abelhas. Elas tentaram me arrastar para o Pizza Delícia, mas eu disse que tinha outro lugar para ir. Pedalei por sobre o canal até a casa de Perry. Circundei a Oficina de Reparo de Bicicletas e Cortadores de Grama do Ike. Fiz tudo, menos parar e bater na porta dos fundos. Fui para casa – missão não cumprida...
...E dei de cara com o Perry na minha varanda da frente.
Com Dootsie.
Estacionei a bicicleta. Dootsie pulou nos meus braços.
“Estávamos procurando você”, disse ele. “Sua mãe disse que tinha saído, só não sabia para onde.”
Ele estava corando. Nunca tinha visto isso antes.
“Só passeando”, disse eu. “Exercitando meu tornozelo.”
Senti seus olhos azuis em mim, mas mantive os meus em Dootsie. Ela estava cutucando minha cicatriz da sobrancelha. Alguns dias atrás, tinha levado Alvina à Montanha do Calendário comigo por proteção. Perguntei-me se Perry estava usando Dootsie da mesma forma.
“Então... saindo com meninas de 5 anos, hum?”, disse eu.
Ele riu, encolheu os ombros. Sua eloquência jovial tinha sumido. Ele estava desconfortável.
Dootsie bateu no meu nariz. “Ele gosta de você.”
Bati no nariz dela. “É claro que gosta de mim. E eu gosto dele. É o que os amigos fazem, gostam uns dos outros.”
Ela sacudiu a cabeça. “Não, bobinha. Não estou falando disso. Estou dizendo...” Ela curvou as mãos e sussurrou no meu ouvido... “que ele gosta de você como uma namorada.”
“Ah é?” Estava me perguntando como mudar o rumo dessa conversa quando o caminhão de entrega de leite do meu pai estacionou na entrada da garagem. Ele saiu carregado de mastros e estacas de tenda. Passou desajeitado por nós, entrou na casa e voltou para a varanda em um minuto, me olhando de cara feia.
“Bem, senhorita Hospitalidade, tem duas coisas que você não fez. Você não me apresentou seu amigo”, ele apontou para Perry, “e você não o convidou a entrar e sair do frio.”
“Sou amiga dela também”, Dootsie protestou.
Meu pai a pegou de mim. “Você não precisa de apresentações. Você é famosa.”
Eu apresentei meu pai a Perry e os convidei para a casa. Às vezes, a vida segue seu próprio rumo e arrasta você junto.
Assim que Dootsie tirou seu casaco, ela puxou sua camisa para cima e gritou: “Olha!”.
Meu coração se apertou. Era uma tatuagem. Preta e amarela. Uma abelha. Em sua barriguinha orgulhosamente saliente.
Eu o olhei fixamente. “Sério, Perry, isso é levar para outro nível essa coisa de ficar com gente mais nova.”
Perry era todo inocência afobada. “Ei, ela queria uma. Pedi para ela perguntar à mãe dela. É lavável. Não é nada demais.”
Dootsie enfiou a mão no bolso das calças e pegou uma tatuagem em papel. Ela a empurrou na minha frente. “Pra você!”
“Não, obrigada”, disse eu, ainda olhando para Perry. “Não curto dândis. Nem haréns.”
Estava estampado na cara do Perry: Isso foi uma má ideia.
Ele repetiu debilmente: “Sai na água”.
“Certo”, disse eu, pegando a tatuagem de Dootsie e jogando-a para ele, “mas nem tudo a água leva embora, senhor Delloplane.”
Nem sei ao certo o que queria dizer com aquilo, mas soou bem. E então minha mãe passou deixando um rastro de cheiro de comida pela sala e convidando os dois para se juntarem a nós no jantar, e eu quis gritar Não!, mas em vez disso me peguei dizendo a Dootsie para ligar para a mãe dela e perguntar.
De jantar tivemos espaguete e almôndegas, almôndegas vegetarianas para mim. Dootsie manteve meus pais chorando de tanto de rir.
Meu pai levou Dootsie e Perry para casa. Dootsie insistiu que fossem no caminhão de entrega, não no carro. Enquanto minha mãe e eu limpávamos a mesa de jantar, ela disse: “E aí... o Perry...”
“Mmm.”
“Namorado?”
“Na verdade não.”
“Não?”
“Não. Pensei que pudesse ser. Que pudesse virar. Mas não.”
“Então... o quê?”
“Um amigo. Eu acho. Espero. Assim que eu parar de ficar brava com ele. É um garoto muito legal.”
“E o Leo?”
“O Leo ainda está...” apontei para a janela – “lá.” Bati no meu peito. “Aqui.”
Ela sorriu, me beijou. “Estou feliz que a Dootsie esteja na sua vida.”
“Eu também.”
“A irmãzinha que você nunca teve.”
Eu assenti. Não confiei na minha voz.
27 de novembro
Precisava de uma pausa nessa situação com o Perry. Fui ver o Charlie no cemitério. Ele estava cochilando em sua cadeira. Enquanto me afastava de bicicleta, ouvi: “Ei!”.
“Não queria acordá-lo”, disse eu.
Ele colocou seu aparelho auditivo. Puxou sua garrafa térmica de debaixo da cadeira. Girou sua tampa plástica vermelha que funcionava como copo e me ofereceu. “Chocolate quente.”
“Não, obrigada”, disse eu.
Ele tirou um segundo copo de seu bolso. Isso era novidade.
Ele o ergueu. “Venha.” Aquilo foi uma ordem.
“Tá bem.”
Ele nos serviu um pouco. Puxou um cobertor de debaixo da cadeira. Isso também era novidade. Ele já tinha um sobre as pernas. Não precisava de mais um. Ele o colocou ao lado da cadeira e o desdobrou uma vez. “Sente-se.”
Falamos sobre trivialidades. Em algum ponto da conversa: “Queria ouvir sobre você quando era pequeno. Antes da Grace. Só Charlie”.
Ele piscou para mim. Podia vê-lo fazendo um esforço. Olhou para a lápide. Balançou a cabeça, desistindo de tentar.
“Não existe nada antes da Grace.”
Como se para confirmar, um corvo grande pousou corajosamente sobre uma lápide a apenas algumas covas de distância, crocitou alto e, rudemente, voou embora.
Convidei Charlie a vir para o jantar de Ação de Graças conosco. Iríamos à casa de Betty Lou. Ele disse não, que preferia ficar ali. Disse que sua filha embrulharia um jantar com peru e levaria para ele. Incluiria a especialidade de Grace: caçarola de batata-doce com cobertura de marshmallow. Sorriu, sacudindo a cabeça. “Não será a mesma coisa, contudo. Ela sabia como deixar o marshmallow no ponto. Chamuscá-lo. Marrom, não preto. Só crocante o suficiente.” Fechou os olhos. Estava saboreando-o.
28 de novembro
Eu pedalava pela Rota 113 hoje quando vi Arnold. Ele estava com seu novo rato de estimação. Em uma coleira! Encontravam-se do outro lado da rua. Praticamente bati em um poste de telefone. Parei e olhei. O rato era cinza e branco. O que chamam de rato encapuzado, porque o cinza cobria seu focinho e descia pelos seus ombros. Alguém, provavelmente a mãe do Arnold, tinha montado um pequeno arreio (um colar não funcionaria em um rato) e uma guia de cachorro comum. O rato estava correndo atrás dele. O andar arrastado de Arnold parecia um pouco mais lento do que o habitual. Finalmente, recomecei e me balancei rindo por todo o caminho até a cidade.
Dias até o solstício: 23
29 de novembro
Quinta-feira do Dia de Ação de Graças para mim começa na Montanha do Calendário. Como não estava trabalhando no feriado, meu pai assumiu o dever de sentar na varanda e ficar de olho na Estrela. Para um leiteiro, levantar um pouco antes do nascer do sol deve ser como dormir até tarde.
Eu estava menos ansiosa sobre Perry dessa vez. Realmente, não esperava que ele estivesse lá, e não estava. O céu nublado não dava nem mesmo uma pista do sol, então tive que adivinhar onde firmar o marcador. Recuei para olhar o arco de marcadores brancos. Se o tempo tem que ser medido, esse é o jeito certo de fazer. Senti uma ponta de entusiasmo. Só faltavam mais três.
Como fiz na semana anterior, sentei virada para o oeste e te enviei minha mensagem. Farei isso toda semana a partir de agora.
Betty Lou foi uma anfitriã maravilhosa de Dia de Ação de Graças. Nenhum roupão dessa vez. Ela parecia uma pessoa comum em uma saia e camisa de malha – bem, comum se você não contar o enfeite de peru espetado no cabelo dela. “Eu o visto todo Dia de Ação de Graças desde os 6 anos”, disse ela.
Ela fez todo mundo, inclusive o Canela, sentar na cozinha enquanto andava de um lado para o outro e fazia uma centena de perguntas ao meu pai sobre ser um leiteiro e à minha mãe sobre criação de fantasias. Ela estava tão tagarela e alegre que quando disse, mexendo o molho feito de miúdos, “Sabe, senhor e senhora Caraway, sua filha e Dootsie são a minha tábua de salvação”, quase perdi isso. Minha mãe segurou minha mão e a apertou.
Na mesa de jantar festiva, cartões com nomes impressos nos informaram onde se sentar. Sim, havia um cartão para o Canela e um pequeno pires de casa de bonecas antiga com três oxicocos cristalizados. Para a mãe vegetariana do Canela tinha peru de tofu, para todos os demais peru e purê de batata com queijo e alho. Levamos horas para comer, porque passamos muito tempo rindo. Betty Lou foi de inquisidora a contadora de histórias. Ela recriou cenas hilárias de seus dias de escola, fez graça de sua agorafobia e até satirizou seu único e desastroso casamento com o senhor Nariz de Batata. Em determinado ponto, minha mãe espirrou café pelo nariz ao rir.
Mais tarde, na sala de estar, o clima se acalmou. Betty Lou encantou meus pais com seu conto sobre o cacto cereus de floração noturna (de volta à sala de estar para o inverno, graças ao seu vizinho, o senhor Levanthal) e as horas sob o lugar que compartilhou comigo. Fazia frio na casa porque Betty Lou havia deixado uma janela aberta para “ouvir melhor o meu tordo”. Duas vezes ela ergueu o dedo e sussurrou, “Escutem”, e nós nos sentamos lá sorrindo, de olhos fechados, enquanto o tordo nos entretinha e copos de sidra quente de maçã aqueciam nossas mãos.
Foi o melhor Dia de Ação de Graças que já tive.
3 de dezembro
Penso em você na sua faculdade. Fico imaginando quantos colegas de quarto você tem. Talvez seja do seu interesse saber que sua faculdade fica na mesma latitude da minha cidade na Pensilvânia. É claro, você ainda está bem mais ao oeste de onde estou, mas o clima viaja do oeste para o leste, e é legal saber que a chuva e a neve que caem sobre você, em um dia ou dois cairão sobre mim.
Sentei-me hoje e comecei a escrever a lista de convidados. Fiquei assustada com a quantidade de gente. Perguntei a minha mãe se a tenda poderia ser maior. Ela disse que não, que não havia tempo suficiente para encomendar mais Blackbone.
Coloquei Dootsie e Alvina para trabalhar. Fui a uma loja de artesanato e comprei folhas de espuma amarela e brilhante e um monte de alfinetes de segurança. Então fiz um modelo de sol nascendo em papelão e entreguei tudo para as meninas. A tarefa de Dootsie é contornar os modelos na espuma amarela, para depois Alvina cortar os sóis. Dootsie continua implorando para fazer os cortes, mas Alvina recebeu ordens de não deixá-la perto das tesouras. Alvina continua reclamando do traçado desleixado da Dootsie.
Dias até o solstício: 18
5 de dezembro
Novamente, vi Arnold passeando com seu rato, só que dessa vez fiz algo que surpreendeu até a mim. Desci da minha bicicleta e comecei a caminhar com ele. Eu disse oi. Ele disse oi. Perguntei a ele o nome do rato. Respondeu: “Tom”.
“Belo nome”, falei.
“Está me procurando?”, disse ele.
Foi como se eu ouvisse sua pergunta eterna pela primeira vez. Eu o estava procurando? Estava procurando por ele todo esse tempo e não sabia? E se dissesse sim? Como ele reagiria? Espiei seu rosto cinzento. Os olhos pareciam vazios, sem foco, mas eu sabia que aquilo não era verdade. Eles estavam simplesmente vendo outro lugar, outra época.
“Não tenho certeza, Arnold”, disse eu. “Vou verificar isso e volto a você.”
E então, surpreendendo-me novamente, comecei a conversar. Não havia planejado fazer isso. As palavras simplesmente saíram efusivas. Comecei a falar sobre o Problema de Perry. O beijo. Coisas que não tinha dito a Betty Lou, meus pais e nem mesmo a Archie. Mas logo deixei Perry de lado e fui para você. Nós. Contei sobre o Primeiro Dia, quando Kevin falou “Por que ele?”, e cutuquei seu lóbulo e disse: “Porque é bonitinho”. Repassei cada momento da Primeira Noite, quando saí de casa e você se escondeu atrás do carro, e soltei o Canela para ele te visitar e tivemos a conversa mais doce que tive na minha vida, eu no degrau da frente, você agachado atrás do carro, um sem ver o outro. Mais tarde, na mesma calçada, o Primeiro Beijo. O Beijo Eterno.