Com amor, a garota chamada Estrela

Jerry Spinelli · Capítulo 3 de 3 · parte 2/4

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Com amor, a garota chamada Estrela

Parte 3

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

“Leo do Arizona. O cara que não te largou.”

“Ainda não terminei a outra conversa. Quero saber mais razões de você gostar de mim.”

Ele ergueu um dedo de alerta. “Eu... eu disse que você é interessante...”

“Fascinante.”

“...fascinante. Nunca disse que gostava de você.”

Fingi que limpava o suor da testa. “Ufa. Isso é um alívio. Porque também não gosto de você. Não seria desagradável se não concordássemos nisso?”

Ele cuspiu seu chiclete. “Desagradável.”

“Borlock.”

Ele assentiu, sorrindo. “Leo Borlock.” Ele puxou outra goma de mascar. Entregou-me a embalagem. “Leo Borlock, hum?” Ele pareceu mascar tanto o chiclete quanto o nome. Senti uma enxurrada de perguntas sobre você vindo, mas em vez delas, disse: “Ah, sim, o calendário”.

“Hein?”

Uma conversa com Perry Delloplane é tão direta quanto o caminho de uma bola de futebol.

“Seu calendário. Isso é bastante atípico também.”

“Sério?”, disse eu. “Não acha que muitas garotas enterram uma espátula no campo de um fazendeiro toda semana e no final do ano dão corda em um grande relógio de sol artesanal para celebrar o solstício de inverno? Não acha?”

“Nem garotas nem garotos.”

“Então você está impressionado.”

“Mais ou menos.”

“Só mais ou menos?”

“Mais pra mais do que pra menos.”

“E seu planeta imundo tem um solstício? O sol chega a nascer no Mundo Sujo?”

Sua resposta não foi o sorriso e a piada que eu esperava, apenas: “De vez em quando”.

“Bem, sendo assim”, pausei, me arrisquei, “tenho um trato para você. Gostaria de se juntar a essa garota impressionante e fascinante da próxima vez que ela for colocar um marcador de nascer do sol na Montanha do Calendário?”

Ele não hesitou. “Claro.”

Eu me lembrei de esperá-lo naquela manhã de agosto, esperançosa. Lembrei a mim mesma que não o tinha convidado especificamente daquela vez. Não cometeria o mesmo erro agora.

Eu toquei em seu joelho. “Quinta-feira de manhã. Hoje é sexta-feira. Daqui a seis dias. Consegue se lembrar?”

“Consigo contar até seis.”

“Antes do sol nascer.”

“Antes do sol nascer.”

Eu disse a ele onde ficava. Nunca o tinha visto numa bicicleta.

“Consegue chegar lá?”

“Sim.”

“Consegue acordar cedo o suficiente?” Sabia que estava forçando demais, mas não pude me conter. “Tem um despertador?”

“Não preciso de despertadores.”

“Nem eu”, falei. “Moro em uma casa sem relógios.”

“Eu também.”

Eu acreditei nele. Acho que ele seria uma pessoa sem relógio, fosse rico ou pobre. Nós parecíamos ter muitos pontos em comum. De repente, me senti no clima de flertar de novo. “E aí, ficou com ciúmes?”

Dessa vez ele é que estava de guarda baixa. “Hein?”

“Do Leo?”

Ele sorriu. “Sem comentários.”

“Sabe”, disse com um ar metido, “o Leo disse a mesma coisa para mim uma vez, na primeira vez que tive uma conversa real com ele.”

“Sério?”

“Sério. Ele já estava tocado pela estrela, digamos assim. Tinha enviado um cartão de dia dos namorados e torcido a orelha dele no refeitório e, você sabe, simplesmente o dominado com meus charmes. Acho que sabe o que quero dizer.”

“Certo.”

“Certo. Mas ele era tão tímido e tinha pavor total de mim. Ainda não tinha falado uma única palavra comigo. E aí, nessa noite, olhei para fora da janela e o vi caminhando para cima e para baixo na rua em frente à minha casa, tentando se acalmar para tomar uma atitude.”

“E ele tomou?” A expressão e a voz de Perry diziam Não estou realmente interessado, mas eu sabia que aquilo era uma máscara.

“Não. Então eu tomei. Assim que abri a porta da frente, ele se escondeu atrás do nosso carro na entrada da garagem. Nós conversamos, mas nunca nos olhamos. Pelo menos não diretamente. O Canela correu por debaixo do carro e foi até ele. Pelo menos o Canela o viu. Perguntei se achava que eu era bonita.”

“O que ele falou?”

“Essa é uma pergunta tola. Um Sim! retumbante, é claro. Aí perguntei se achava que o Canela era bonito também, e foi então que ele disse: ‘Sem comentários’”.

“Você se lembra de tudo o que as pessoas dizem a você?”

Eu olhei firmemente nos olhos dele. “Tudo o que algumas pessoas dizem para mim.”

Ficamos em silêncio. Simplesmente olhamos um para o outro, sentados de pernas cruzadas na mesa de piquenique. Como nas minhas meditações, não tive consciência do tempo passando, somente a sensação de ar entre nós eletrificado com os olhos.

Quando descemos da mesa, percebi, para minha surpresa, que estava mascando um chiclete. Nós caminhamos pelo parque, e acho que ficamos ambos aliviados de conduzir nosso papo a assuntos seguros, conversinha inútil, qualquer coisa menos nós mesmos.

6 de outubro

Sei que você tem perguntas, Leo. E sei que está ocupado com outras coisas na faculdade. Então as perguntarei por você:

VOCÊ: Você gosta dele?

EU: Sim.

VOCÊ: O ama?

EU: Próxima pergunta.

VOCÊ: Ouvi dizer que ele contou suas sardas.

EU: Contou! Acredita nisso?

VOCÊ: Ele gosta de você, não gosta?

EU: Hum... sim.

VOCÊ: Sim, mas?

EU: Ele é um espírito livre. O apelido dele é Dândi. Ele tem um harém.

VOCÊ: E você o quer inteiro para si.

EU: Eu não disse isso.

VOCÊ: Talvez tenha medo de que se você se aproximar demais dele, ele a abandone.

EU: Talvez.

VOCÊ: Como eu fiz.

EU: Preferia que não colocasse dessa forma.

VOCÊ: Mas foi o que fiz. Eu te larguei. E sinto muito. Me arrependo disso agora.

EU: Ei, chega! Esta é a minha entrevista fantasiosa. Eu é que criarei suas falas.

VOCÊ: Sinto muito.

EU: Falando em sentir, por que não me pergunta se sinto pena dele.

VOCÊ: Você sente pena dele?

EU: “Pena” não soa direito. Talvez “afeto”.

VOCÊ: Você gostaria de consertar a porcaria de mundo dele?

EU: Não posso consertar o mundo dele. Talvez possa consertar ele. Um pouquinho, pelo menos.

VOCÊ: Como?

EU: Ah, não sei. Talvez só de estar por perto. Ele me passou as embalagens de chiclete ontem. Já é um começo.

VOCÊ: Consertar uma pessoa, algumas pessoas poderiam te chamar de intrometida.

EU: Que seja.

VOCÊ: Então, com esse tal de Perry aí, do que estamos falando? De um projeto de recuperação ou do início de um romance?

EU: Vou deixar você decidir.

VOCÊ: Está surpresa de ele não ter tentado te beijar ainda?

EU: Sim.

VOCÊ: Quer que ele te beije?

EU: Sim.

VOCÊ: E quanto a mim?

EU: Sem comentários.

7 de outubro

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8 de outubro

Encontrei Alvina na escola. Fiz a atividade infantil mais básica possível: levei-a ao Pizza Delícia. Rezei para os meninos inimigos dela não aparecerem. Eles não apareceram. Ela teve uma pequena crise porque um cogumelo da minha metade da pizza contaminou sua metade de pepperoni. Fora isso, ela foi inofensivamente desagradável. Seguindo as instruções da senhora Klecko, simplesmente tentei ser eu mesma. Tenho a sensação de que não estou conseguindo influenciá-la.

9 de outubro

Margie tem uma nova ajudante. Uma mulher. Ela faz o que Alvina fazia – varre, ajuda na cozinha, mantém o café saindo. Exceto pelo fato de que ela recebe em dinheiro de verdade, não donuts. O nome dela é Neva. Margie nos apresentou dizendo que sou “sua melhor cliente”.

“Oi”, disse eu. “Nome elegante.”

“Obrigada”, disse ela, e voltou para a cafeteira. Não exatamente sociável. De repente, a mal-humorada da Alvina não parecia tão ruim.

Neva parece estar no fim de seus 30 anos, perto dos 40. Seu cabelo castanho é comprido e encaracolado, e raiado com mechas douradas. Ela usa brincos pendentes e quilos de maquiagem. Pode-se dizer que ela é glamorosa (do pescoço para cima), mas você praticamente não nota porque ela é muito tímida. Ela não fala. Ela não olha para Margie quando Margie fala com ela. Ela não olha para cima quando a porta tine e alguém entra. Ela usa um diamante enorme e espalhafatoso que deve ser falso. Ela usa vestidos largos. Acho que ela precisa, porque está grávida. Bastante.

10 de outubro

Amanhã é quinta-feira. Dia de Montanha do Calendário.

11 de outubro

Ele não apareceu. Não acredito.

Desta vez não fiquei de bobeira esperando por ele. Firmei o marcador e corri de volta para casa. Disse a minha mãe que estava com vontade de dar um passeio. Pedalei até a casa de Betty Lou. O sol só agora estava aparecendo. Eu sabia que ela ainda dormia, mas não me importei. Toquei a campainha até que ela abriu a porta e ficou tão espantada quando me viu que deu um passo para fora da porta. Quando percebeu onde estava, ela tremeu, me puxou para dentro e bateu a porta.

“Estrela, qual o problema?”

Comecei a contar.

“Espere...”, disse ela, e me levou pela mão até a cozinha. Fez café e serviu os donuts. Sentou-se no final da mesa, na minha frente. Então arrastou outra cadeira e a colocou ao seu lado, para mim. Segurou minha mão. Esfregou-a. Estudou meu rosto. “Nunca vi você com tanta raiva. Pensando bem, nunca nem te vi com raiva.”

Ela me estudou um pouco mais. Curvou as mãos sobre minhas orelhas, afastou-as, colocou-as de volta, afastou-as.

“Estou fazendo sinais de fumaça com o vapor saindo das suas orelhas.”

Um ataque de riso escapou antes que pudesse impedir. “Não me faça rir, Betty Lou. Não estou no clima.”

Ela me deu um sorriso. “Eu sei. Às vezes faço graça das coisas na hora errada. Deve ser porque acho que alguém com sorte o suficiente para ter um tordo do lado de fora da janela nunca pode ter um dia ruim.” Ela bateu de leve na minha mão. “Então... me conte.”

Disse a ela sobre o dia na mesa de piquenique e sobre a ausência de Perry hoje.

“Estou tão brava que quase não parei aqui. Quase pedalei o caminho inteiro até a casa dele.”

“Então você está se sentindo largada de mão. Conhece essa expressão? Ela é antiga.”

Eu assenti. “Conheço. Sim. Me sinto largada de mão.”

“Porque ele disse que te encontraria e não foi.”

“Sim.”

“E você não pode acreditar nisso porque no outro dia estava realmente soltando faíscas, por assim dizer.”

“Sim.”

Ela empurrou os donuts para a minha frente. Eu balancei a cabeça.

“Tô sem fome.”

Ela suspirou – “O amor triunfa sobre o apetite” – escolheu um para si e deu uma mordida.

“Não é amor”, falei. “Quer dizer, não sei o que é isso.”

Ela mastigou, pensando. Olhou-me nos olhos com uma intensidade suave. “É mais do que raiva, não é?”

Eu pisquei. “É?”

“Você está confusa.”

“Sim.”

“Desorientada.”

“Sim.”

“Uma das minhas palavras favoritas de todos os tempos: desorientada. Soa exatamente como o que ela significa, não soa?” Ela se levantou, ergueu os braços, olhou para o teto com o olhar mais puro de desorientação que eu já tinha visto, e gritou: “Desorientada!”.

Balancei a cabeça, rindo, apesar do meu estado. “Inacreditável, Betty Lou. Eu entendi.”

Ela se sentou novamente, murmurando, “Desorientada... desorientada...” sob a respiração. Ocorreu-me que Betty Lou às vezes ficava teatral porque, confinada na casa dela, ela era seu melhor entretenimento.

Ela ficou séria outra vez. “É claro que está desorientada. Como não estaria? Ele a procura e se esgueira para seu lado durante sua meditação – que, aliás, foi algo muito impressionante de se fazer – e te envia todos os tipos de sinais românticos – e depois quebra a promessa dele e não aparece no seu encontro na Montanha do Calendário.”

“Parece que esse é o jeito dele”, disse eu. “Ele até tem uma reputação por isso. As garotas de seu harém o chamam de espírito livre.”

Ela assentiu. “Bem, você sabe o que dizem – um espírito livre não tem namoradas permanentes.”

“Não estou pedindo por permanência”, disse eu.

Dessa vez seu olhar foi intenso sem suavidade.

“E pelo que você está pedindo, Garota da Galáxia?”

Boa pergunta.

“Não sei. Alguma coisa. Algo. Em vez de nada.”

“Pera um minuto”, ela balançou seu dedo para mim, “você não está sendo um pouco injusta com ele? Não é nada. É o Perry. Qual o sobrenome dele?”

“Delloplane.”

“É o Perry Delloplane, e o que quer que venha no pacote. É o que é. Talvez você esteja forçando a barra para colocar um nome nisso.”

“Etiquetas”, disse eu.

Ela assentiu. “Exatamente.”

“Disse a ele que odeio etiquetas. Talvez eu estivesse me enganando.”

“Ou talvez esteja meramente desconfortável com a incerteza. Como o resto da raça humana.”

“Então, pelo menos eu tenho companhia.”

Betty Lou riu. “Um monte. E isso significa que está sentando em uma sala de aula com bilhões de colegas, tentando aprender a mesma lição que o restante de nós.”

“Que é?”

“Que é: Como Ficar Confortável com a Incerteza.”

Esperei por mais. Tudo que ela disse foi: “Esquento o seu café?”.

“Não”, disse eu. “E aí, vai me dizer como? Me dar uma dica?”

Ela arregalou os olhos. Seus dedos flutuaram sobre seu peito.

“Como diria a Miss Pig: moi? Estou estupefata de que você pense que eu, uma mera agorafóbica de uma cidade pequena, teria a resposta para uma das grandes questões da vida.” Ela baixou a cabeça sobre os donuts. “Fico lisonjeada.”

“Que bom”, disse eu. “Agora se puder deixar a lisonja para trás, gostaria de uma resposta.”

Ela fez uma pose de ponderação sábia. “Bem, então, acredito que se alguém tem a chave devem ser os budistas.”

“Os budistas.”

“Sim, os budistas. Sabe o que eles dizem. Bem, é claro que eles dizem muitas coisas. Seria uma boa você ler os budistas. Eles vêm do leste, mas têm muito a nos dizer, moradores do oeste da Idade Moderna. Lembro-me de um dia quando tinha cerca de 28...”

“Betty Lou”, pressionei meu dedo nos lábios dela, “Uma resposta, por favor.”

“Ah, sim, a resposta. Viva o presente. Aí está.”

“Viva o presente.”

“Sim. Viva o presente. Não o passado. Não o futuro. Apenas o hoje. Habite seus momentos. Não os alugue para o amanhã. Sabe o que está fazendo quando gasta um momento se perguntando como as coisas serão com o Perry?”

“O que estou fazendo?”

“Está roubando o hoje dela mesma. O hoje está chamando você, tentando obter sua atenção, mas você está presa no amanhã, e o hoje escorre como água por um ralo. Você acorda na manhã seguinte e aquele hoje que você desperdiçou foi embora para sempre. Ele agora é o ontem. Alguns desses momentos poderiam ter coisas maravilhosas guardadas para você, mas agora você nunca saberá.” Ela olhou para mim, sorriu. “Você é uma ouvinte solene e tanto. Se eu fosse professora, gostaria de ter umas trinta de você na minha sala.”

Procurei minha voz. “Você tem... toda razão. Acho que quando medito estou tentando fazer isso, viver o momento, mas no resto do tempo acho que tenho falhado um bocado. Ultimamente, de qualquer maneira.”

Ela riu de novo. “Bem-vinda à Cidade do Fracasso. Somos todos fracassados. Nenhum de nós é bem-sucedido o tempo inteiro.” Ela abriu os braços. “C’est la vie!”

Eu assenti. Olhei para ela. Olhei em volta no aposento. Olhei pela janela. Ouvi o sussurro débil do hoje passando. “Ficar confortável com a incerteza, hum?”

“Abraçar o mistério.”

“Geralmente adoro mistérios. Quando não estou neles.”

“Viva o mistério!”

Nós encostamos nossas xícaras e brindamos três vezes ao mistério.

“Então”, disse ela, “ainda está com raiva?”

Eu me analisei. Comecei a rir.

“O que foi?”, disse ela.

“Sim. Sinto muito”, não conseguia parar de rir, “mas ainda estou com um pouquinho de raiva. Mesmo depois de toda a sabedoria que derramou em mim.” De repente, não tive mais vontade de rir. “O que há de errado comigo?”

O rosto dela era só suavidade e simpatia agora. Ela via algo em mim que eu mesma não queria ver. “Correndo o risco de soar como uma sabe-tudo, acho que tenho a resposta para isso.”

Senti meu lábio tremer. “É?”

Ela segurou minhas mãos. Falou com pouco mais que um sussurro. “Você está se sentindo sozinha. E isso a deixou vulnerável. Não está com toda sua força.”

Eu assenti, meus olhos se enchendo de água. Nós apenas ficamos em silêncio por um tempo, de mãos dadas, segurando mais do que mãos. Por último, ela, disse: “E, na verdade, fico um pouquinho feliz de que ainda esteja com raiva”. Ela me passou um lenço de papel.

Funguei. “Sério?”

“Prefiro você raivosa do que triste.”

“Acha mesmo?”

“Claro. Tristeza pode levar a lugares ruins.”

“Tipo?”

“Tipo... se rebaixar.”

“Não me rebaixo.”

“Se tivesse pedalado sua bicicleta até a casa dele essa manhã, o que teria feito?”

“Não sei.”

“Não teria implorado?”

“Não.”

“Não teria se jogado para cima dele?”

“Não.”

“Nunca se jogue para cima de um homem.”

“Não irei.”

Ela me estudou. Assentiu. “Acredito em você.” Ela esticou o prato de donuts. Dessa vez peguei um. Estiquei-me e a toquei. “Você nunca me abandona, Betty Lou. Sempre sei onde posso encontrá-la.”

Ela balançou a cabeça com um sorriso ferido. “Triste, mas é verdade.” Então o sorriso se curou. “Mas não fique muito confiante, mocinha. Posso te abandonar ainda. Minha fantasia é que um dia você virá à minha casa e tocará a campainha, tocará de novo, e eu nunca abrirei a porta... porque”, ela socou a mesa, “não estarei aqui!”

12 de outubro

VOCÊ: Você a escutou.

EU: Sim.

VOCÊ: Ela disse que você sente a minha falta.

EU: Ela também disse para viver o presente.

VOCÊ: Certo.

EU: E você é passado.

VOCÊ: Ops. Mas, eu, eu nunca te abandonei.

EU: Fez pior. Me deu as costas.

VOCÊ: Ops duplo.

EU: Só quero deixar isso registrado. Já te perdoei.

VOCÊ: Uau! Então, acredita em tudo que ela te disse?

EU: Ah, sim. Mas...

VOCÊ: Mas?

EU: Mas tem uma coisa que eu não disse a Betty Lou. Uma palavra.

VOCÊ: Qual foi?

EU: Beijo.

VOCÊ: Acho que me arrependo de ter perguntado.

EU: Quanto mais ele não me beija, mais eu quero que ele beije.

VOCÊ: Eu estou. Estou oficialmente arrependido de ter perguntado.

EU: Mas nem isso é cem por cento verdade.

VOCÊ: Não?

EU: Quero dizer, meio que quero ele e não quero ao mesmo tempo. Isso faz sentido?

VOCÊ: Para qualquer um além de você, não.

EU: Quero ele, mas estou com medo.

VOCÊ: De quê?

EU: Estou com medo de não ficar mais confusa. Estou com medo de que um beijo responda a pergunta que não sei se quero que seja respondida.

VOCÊ: E qual é?

EU: Acho que você sabe.

13 de outubro

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16 de outubro

Meia vermelha na janela.

Com a permissão de nossas mães, Dootsie e eu matamos aula para ajudar Betty Lou a enfrentar seu dia ruim. Ela já estava bem na hora do almoço, mas estávamos nos divertindo tanto que ficamos até após o jantar.

18 de outubro

Levei o Canela comigo hoje para a Montanha do Calendário. Ele foi no meu bolso. Acho que o levarei comigo toda quinta-feira de manhã. Pelo menos sei como ele se sente a meu respeito.

Conforme descia pela rua Rapps Dam, estava vagamente consciente de algo tentando chamar minha atenção, mas minha cabeça estava voando em outro lugar. Aí, quando cheguei à Rota 113, antes de atravessar, ouvi a mais sutil respiração de um sussurro dizer: Vire-se. Olhei no meu bolso. Canela estava dormindo. Então de novo: Vire-se. Eu me virei e lá estava. Quando prestei atenção na rua, em todo o caminho até minha casa, cada luz da varanda ao longo do caminho estava acesa. Eu provavelmente sabia disso de forma inconsciente, porque minha lanterna não estava ligada. Começando com os Cantellos, vizinho após vizinho deve ter passado a informação adiante durante as quintas-feiras das últimas semanas até, agora, meu caminho inteiro estar incandescente. Senti-me tocada. Fiquei lá em pé na interseção da rua Rapps Dam com a Rota 113 e gritei para o corredor de luzes externas: “Obrigada!”.

20 de outubro

“Serei um waffle!”

Foi assim que acordei. Tinha ficado fora até tarde na noite de ontem em uma peça na cidade, com meus pais. Todo estudante domiciliar tem os sábados de folga, então eu estava dormindo essa manhã. Ou tentando. Porque Dootsie estava montando em minhas costas como um jóquei, balançando meus ombros e berrando: “Serei um waffle! Sua mamãe vai fazer uma fantasia de Halloween para mim!”.

Tentei resmungar. Tentei ser o mais desagradável possível. “Dootsie, vá embora.”

Ela se enfiou embaixo das cobertas comigo. Aconchegou-se junto a mim e sussurrou no meu ouvido: “Serei um waffle.” Agarrou minha cabeça com ambas as mãos e virou meu rosto para ela. Ela manteve um dos meus olhos aberto com seus dedos. “Serei um waffle.”

Desisti. Escorri para fora da cama. Vesti meu roupão. Escapuli pela escada. Desabei na mesa da cozinha enquanto minha mãe ria e me contava como Dootsie tinha vindo cambaleando essa manhã (não diga a nenhum ladrão, mas minha mãe destranca a porta da frente quando se levanta para abrir caminho para as visitas matinais frequentes da Dootsie), dizendo que queria ser um waffle no Halloween e se ela poderia, por favor, fazer uma fantasia de waffle para ela.

Minha mãe sugeriu que poderia fazer uma de garfo para mim. Eu fingiria estar comendo o pequeno waffle. “Sim! Sim! Sim! Por favooooor!” Dootsie implorou, mas acho que deixarei essa passar e me contentarei em levar o waffle por aí, de casa em casa.

No meu estado grogue essa manhã, não queria admitir, mas na verdade me sentia grata pela atenção de Dootsie esses dias, mesmo em seu estado pestinha. Ajudava a me distrair de pensar em você sabe quem. Só o vi uma vez desde o furo na Montanha do Calendário. Foi poucos dias depois. Estava na Margie quando o vi vindo na minha direção com duas de suas abelhas. Levantei-me correndo. “Volto logo”, disse a Neva, a nova ajudante, para ela não limpar a minha mesa. Enquanto me enfiava na cozinha, disse a Margie: “Não estou aqui”.

Ouvi o sino da porta. Ouvi um gritinho ou dois das garotas, mas foi tudo. Minha raiva não estava mais queimando. Ela tinha endurecido como uma casca sobre minha ferida. Estava me protegendo de ser machucada novamente, e não pretendia deixá-lo arrancá-la fora, nem mesmo com um pedido de desculpas. Logo o sino da porta tocou de novo. Quando enfiei a cabeça para fora, eles haviam partido.

21 de outubro

Pensei que deveria fazer algo com Alvina. Nada espetacular. Só um simples passeio pelo parque, deixar as cores estonteantes do outono tentarem persuadi-la, talvez suavizarem seus espinhos sempre eriçados. Estava quase ligando para ela quando o telefone tocou. Era ela. Ela não disse oi. Só começou a gritar:

“Sei o que está fazendo! Sua rata! Sua falsa! Eu te odeio!”

Eu murmurei um “Hein?”.

Ela disse que tinha ouvido os pais conversando sobre a minha função, sobre tomar conta dela. Tentei explicar que não era bem assim, mas ela não estava ouvindo.

“Se chegar perto de mim de novo, vai levar um socão. E, de qualquer maneira, estou feliz. Porque nunca gostei mesmo de você. Só sentia pena por você ser a maior otária. E feia!”

Ela desligou.

22 de outubro

Eu não culpo Alvina, de fato. Se eu pensasse que alguém ficou meu amigo só porque era o trabalho dessa pessoa fazer isso, também ficaria com raiva. Continuo pensando que as palavras certas, as palavras conciliadoras, estão aí fora em algum lugar, só não consigo encontrá-las.

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24 de outubro

Dootsie está fora de controle. Sua professora do primeiro ano chamou a senhora Pringle hoje. Ela disse: “Se eu ouvir sua filha gritar que será um waffle mais uma vez, vou perder o meu almoço de tanto rir”. A senhora Pringle teve de esconder a fantasia de waffle para Dootsie não vesti-la na escola todo dia.

Dootsie não está cem por cento feliz, contudo. Está irritada por não ter nada para ela ganhar. A parada na escola é só isso, uma parada. Não um concurso. Nenhum prêmio para melhor fantasia. Após seu belíssimo primeiro lugar no Blobfest, ela almeja vitórias.

“Eu vou vencer”, disse ela, um dia.

“Não”, disse eu, “você não vai vencer, porque não há vencedores. Você só vai caminhar na parada junto com todo mundo.”

Ela fez um beicinho. “Eu vou perder?”

“Não, também não vai perder. Não haverá vencedores nem perdedores. Somente fantasmas, bruxas e goblins. E um waffle.”

“Um waffle quadrado!”

Minha mãe tinha pedido a ela para escolher: redondo ou quadrado.

“Sim, um waffle quadrado.” Eu a peguei no colo. “E waffles quadrados de toda a parte estarão contando com você para mostrar ao mundo o quão maravilhoso um waffle pode ser.” Beijei seu nariz. “Eles podem contar com você para isso?”

Ela revirou os olhos, considerando a pergunta. Finalmente, deu de ombros e falou um “acho que sim” morno e suspirento.

Quando for levar Dootsie para dar uma volta na noite de Halloween, ficaremos basicamente na vizinhança dela. Começaremos na casa de Betty Lou. E não seremos os únicos visitando aquele endereço. Descobri que a casa de Betty Lou Fern é um dos destinos mais populares de Halloween na cidade. Sua famosa agorafobia atrai adeptos de travessuras ou gostosuras como fantasmas para uma casa assombrada. Eles estremecem assustados ao pisar na varanda de uma casa escura que a moradora não deixa há nove anos. Tremem com a possibilidade de que possam ver um relance do rosto dela. Tocam a campainha. Batem. Esperam. Estremecem. Mas só o que veem é a porta aberta apenas o suficiente para uma mão sair, uma de uma quase senhora, segurando uma tigela de madeira cheia de donuts partidos ao meio.

Respirei profundamente e liguei para Alvina para perguntar se ela queria vir conosco. Ela desligou assim que ouviu a minha voz.

Não ficaria surpresa se déssemos de cara com Perry em nossos passeios. Tenho certeza de que ele não perderia a chance de encher a fronha com comida de graça.

Ah sim, o Canela irá fantasiado de garfo.

1º de novembro

Perdi o Halloween. Perdi a última semana. Olha o que aconteceu:

Era uma quarta-feira quando escrevi para você da última vez. Então, antes de o sol nascer na manhã seguinte, como de costume, segui para a Montanha do Calendário, walkie-talkie em um bolso do casaco, o Canela no outro. Como de costume, disse tchau para minha mãe sentada na varanda. Como de costume, passei de piscina iluminada em piscina iluminada enquanto as luzes das varandas dos nossos vizinhos me escoltavam pela rua Rapps Dam. Quando cheguei ao fim do caminho, como de costume, atravessei a Rota 113.

Foi quando o costume parou.

Vi chamas à minha direita. Mesmo agora não tenho palavras para descrever aquele momento. O fogo. A noite. O silêncio. A solidão. Aquilo não parecia real. Não parecia o agora. A primeira coisa que veio na minha cabeça foi: Lenape! Em seguida, só sei que estava gritando no walkie-talkie: “Mãe! Fogo! Chame os bombeiros!”. Correndo e gritando na direção do pequeno bangalô de estuque: “Fogo! Fogo! Acordem! Acordem!”

Pisei em um buraco. Caí feio. Levantei-me. Canela! Esmagado! Verifiquei. Ele estava bem. Segurei-o na minha mão e corri. “Acordem! Acordem!”. O telhado era um lençol laranja e amarelo de chamas, aquecendo meu rosto, iluminando a noite. A caixa de correio brilhava como o meio-dia. Letras brancas na lateral diziam FOLHA DE LENAPE. A pequena bandeira vermelha da caixa estava abaixada. Os olhos do Canela eram pelotas laranja.

O que um bombeiro faria? Corri para a varanda. “Acordem! Acordem!” Corri de volta para a caixa do correio. Coloquei o Canela dentro dela. Fechei a tampa de metal. Abri de volta, com medo de que ele não tivesse ar suficiente. Apontei para ele. “Fique aí!” De volta à varanda. “Acordem!” Tentei a porta da frente. Trancada. Acima de mim, o telhado em chamas soava com lençóis balançando no vento. O cheiro era ardido, alcatroado. Olhei em volta, freneticamente. Cadeiras. Vime. Peguei uma cadeira, apontei as pernas para a janela da frente e a bati contra o vidro. Ela quicou. Chamas iluminavam o interior da casa. Eu podia ver um relógio de piso. Em algum lugar uma sirene estava tocando. Bati com a cadeira de novo, dessa vez gritando como em um golpe de caratê. A janela se espatifou. Tentei gritar, “Acordem!”, mas estava me afogando em fumaça...

A próxima coisa que tive consciência foi algo sobre meu rosto. Estava olhando para os olhos de um homem. Ele dizia: “Apenas respire normalmente. Estamos te dando oxigênio.” E então o rosto da minha mãe, com um olhar que eu nunca tinha visto. Tentei gritar, “Canela!”, mas minha respiração era fumaça amarga. E, em seguida, as luzes piscando... a maca... a sirene...

Fiquei no hospital por uma semana.

Como a preocupação principal deles era com meus pulmões e eu estava muito grogue para reclamar, foi só mais tarde naquela primeira noite que uma enfermeira apontou e disse: “Veja!”. Meu tornozelo parecia um pomelo, graças ao buraco em que havia pisado. Logo ele estava envolvido em gelo. Depois, enrolado numa compressa de feltro como um donut e elevado sobre os lençóis. Havia cortes nas minhas mãos e no meu rosto por conta dos cacos de vidro voando. E um tubo de oxigênio no meu nariz. E eu estava arquejando. E não conseguia falar.

Mas podia escrever. Rabisquei um bilhete para meus pais, eles estavam esperando na sala de emergência, contando a eles onde havia colocado o Canela. Meu pai saiu e voltou em quinze minutos. Disse que a tampa da caixa de correio continuava aberta, mas que o Canela tinha sumido. Para dizer a verdade, não fiquei surpresa. O único momento em que ele fica parado é quando está comigo. Ele deve ter ficado impaciente, descido da caixa de correio e...

A enfermeira me olhou fixamente. “Pare de chorar”, disse ela, brava. “Você vai melecar os tubos.”

Nos primeiros dois dias, só meus pais podiam me visitar e mais ninguém.

No segundo dia, meus pais finalmente me deram algumas boas notícias. Não havia ninguém na casa pegando fogo. Os proprietários estavam em seu condomínio compartilhado, na Flórida.

Dootsie e a mãe dela vieram na terceira manhã. Dootsie vestia sua fantasia de waffle para me animar e porque eu perderia o Halloween, mas assim que me viu ela desabou em lágrimas. Ainda estava entubada com oxigênio. Ainda não conseguia falar. Ela tentou puxar o tubo, pensou que estava me machucando. Perguntou do Canela. Leu a resposta no meu rosto. A mãe dela a levou embora soluçando. Não existe nada mais triste do que um waffle soluçando.

Uma hora depois, Alvina apareceu. Ela berrou comigo o tempo inteiro. A presença dos meus pais não a intimidou.

“Pensei que você era inteligente. Mas não. Você é burra. É estúpida. Então, não pense que estou com alguma pena de você. É uma boa coisa você não poder falar porque provavelmente diria algo estúpido. Tentou invadir uma casa que estava pegando fogo. Para salvar alguém. E não tinha ninguém em casa! Não dá para ser mais estúpida do que isso. A primeira coisa que dirá para mim quando puder falar é: ‘Eu sou estúpida’. Se não for estúpida demais para entender o que estou dizendo, balance a cabeça.”

Eu assenti.

“Muito bem. Tchau.”

Ela saiu pisando firme.

Acho que não está mais com raiva de mim.

As abelhas apareceram. Trouxeram-me um ursinho rosa de pelúcia para me fazer companhia. Apesar de tudo, acho que gosto delas. Considerando que cada uma tem um terço das ações no mesmo garoto compartilhado, elas parecem se dar surpreendentemente bem. Elas brincam umas com as outras sobre quem é a favorita dele. Dizem que devo me juntar a elas. Dizem que eu daria uma ótima abelha. Tenho certeza de que elas estão brincando (certeza mesmo), mas dei corda. Eu disse: “Vocês não acham que o Mister Dândi pode ter algo a dizer sobre isso?”. Elas disseram: “Ah, não se preocupe, ele já disse algo”.

Pensei: Humm.

No dia seguinte, ele mesmo apareceu. Me trouxe uma cópia da Folha de Lenape, uma história sobre o incêndio e uma imagem minha (uma foto de escola tirada no Arizona) na primeira página. A história me chama de uma “heroica estudante domiciliar”.

Ela diz que o fato de os moradores – os Van Burens – estarem fora no momento “não diminui o valor da jovem menina que colocou sua própria vida em risco para salvar seus vizinhos”.

Eu devolvi o jornal a ele com um sorriso de escárnio. “Como diria a Dootsie, ‘Caquinha’.”

Ele ergueu as sobrancelhas. “Caquinha?”

“Não sou heroína. Só aconteceu de eu ser a única por perto àquela hora da noite.”

Nós discutimos se eu era uma heroína ou não. Ele venceu à revelia, enquanto minha garganta inflamada desistia. Ele estava tocando uma cicatriz no meu rosto, quando minha mãe, que tinha estado fora do quarto, entrou. Apresentei-os. Na presença da minha mãe, ele de repente pareceu tímido. Sua malandragem havia sumido. Nunca o havia visto agir de algum jeito que não fosse corajoso. Deu um tapinha no meu urso de pelúcia e saiu.

Betty Lou ligou todos os dias. Estava se odiando por não ir me ver, mas desde o início mandei que ela não fosse. Não acho que eu deveria ser o motivo de ela enfrentar o medo de sair de casa, especialmente minha condição não sendo crítica. Então nós conversamos e não a deixei desligar o telefone até tê-la convencido mais uma vez a não se sentir culpada.

* * *

Saí do hospital e voltei para casa esta manhã. A primeira coisa que fiz foi tirar todos os seixos da minha carroça feliz. Vazia. Porque o Canela se foi.

Não aguento pensar no que aconteceu a ele. Ele é um rato doméstico. Não sabe sobre gatos e gaviões. Não sabe nem mesmo que existem pessoas no mundo que odeiam ratos. Continuo vendo-o andar até alguém... alguém com sapatos grandes e ódio nos olhos...

Descobri que eles tinham escondido algo de mim. Um dia depois de Dootsie me visitar no hospital, ela desapareceu. Sumiu por horas. A polícia a encontrou perto da casa queimada. Ela estava procurando o Canela.

Eu não tinha dormido bem naquelas primeiras noites. Eles fizeram um exame de sangue e encontraram algumas toxinas da fumaça, então me deram um remédio para isso. Minhas vias respiratórias estavam constringidas, então eles me deram remédio para isso. Desenvolvi um princípio de pneumonia, então lá vai mais remédio. Minha saliva estava cinza, nenhum remédio para isso. Gradualmente, as coisas foram melhorando. Eles tiraram o tubo de oxigênio, cortaram os comprimidos. A comida parou de ter gosto de fumaça. Minha saliva está boa e branca agora.

Então meu corpo está melhorando, mas não os meus sonhos. Vejo o Canela. Às vezes, está vagando por um terreno baldio que se parece com o deserto do Arizona. O Señor Saguaro se inclina para baixo para falar com ele, e abutres de bico vermelho se derramam do ninho da coruja marrom. Às vezes Canela está em uma calçada lotada, desviando de sapatos, olhando para cima, tentando chamar a atenção de alguém. Às vezes não o vejo, só o ouço, a voz dele chamando meu nome repetidamente.

5 de novembro

A repórter da Folha de Lenape veio à minha casa hoje.

Ela ainda está tentando me transformar em uma heroína, quer escrever um perfil. Não fui amigável. Respondi duas ou três perguntas, então apontei para minha garganta e resmunguei: “Não posso falar”.

Ela empurrou seu bloco de anotações para mim. “Você poderia escrever suas respostas.”

Balancei a cabeça. “Não posso escrever.” Peguei minhas muletas, manquei subindo a escada até o meu quarto e fechei a porta. Ouvi o carro dar a partida do lado de fora. Ela provavelmente estava mudando a chamada: BRUXA HEROICA.

Não me importo. Minhas axilas doem das muletas. Minha perna coça sob a tala plástica que preciso usar sempre que não estou dormindo. Ainda não consigo respirar fundo, mas, mesmo que pudesse, isso não ajudaria meu coração. Sinto saudades do Canela. Meu menor amigo. Sinto dor onde nenhuma muleta ou tala pode alcançar.

8 de novembro

Briguei com minha mãe noite passada. (Surpreso?) Quando ela descobriu que eu pretendia ir à Montanha do Calendário essa manhã, ela ficou muito zangada:

“Você não vai a lugar nenhum! Ainda está de muletas! Ainda está ofegante!”

“Não estou ofegante”, disse com calma e maturidade, já que obviamente ela não iria desempenhar o papel de adulta aqui.

Ela enfiou o dedo na minha cara. Suas bochechas estavam vermelhas.

“Não.”

“Sim.”

“Não. Fim da discussão.”

Ela virou de costas para mim e se afastou.

“Bem, tô indo”, disse com calma e maturidade.

Ela parou. Seus ombros endureceram. Ela se virou. Seus olhos brilhavam. Disse uma única palavra – “Susan” –, virou-se e foi embora.

Ela nunca me chama pelo meu primeiro nome a não ser que esteja realmente, realmente mesmo zangada. Naquele ponto, lembrei-me de um momento durante meu segundo dia no hospital. Meus pais estavam no quarto. Meu pai em pé, minha mãe sentada em uma cadeira. Eles me mostravam seus rostos felizes, desafiando aquela velha saliva cinza e as arfadas a me derrubarem. De repente, comecei a tossir tão pesado que derrubei o soro intravenoso pendurado e praticamente cuspi meu tubo de oxigênio. Meu pai correu do quarto gritando: “Enfermeira!”. Uma enfermeira veio e me acalmou. Quando ela saiu e me virei para os meus pais, meu pai estava em pé diretamente na frente da cadeira da minha mãe, então não conseguia vê-la. Ele ainda sorria, me alegrava e apertava minha mão. Após um minuto, moveu-se para o lado, e lá estava o rosto da minha mãe novamente, sorrindo e gracejando. E agora sei claramente o que não sabia na época – meu flerte com o perigo tinha abalado meus pais muito mais do que eles me permitiram ver.

Não obstante...

Lá estava eu, esta manhã, acordada antes de amanhecer, pensando em meu calendário negligenciado, sentindo o tempo correndo para mim agora – 43 dias até o solstício de inverno – e tantas coisas para fazer. Quanto mais pensava sobre isso, mais persuadida de que poderia escapar até a Montanha do Calendário e de volta para minha cama, e que minha mãe jamais precisaria saber. Coloquei minha tala, vesti minhas roupas, procurei minhas muletas... e elas não estavam lá. Não estavam em nenhum lugar do meu quarto. Abri a porta, acendi a luz, espiei o corredor, fui mancando ao banheiro. Em lugar nenhum. E então, a ficha caiu. Fui mancando ao quarto dos meus pais, abri a porta. Elas estavam lá, as muletas, aconchegadas sob as cobertas com a minha mãe. Minha risada a acordou. “Aposto que o papai adorou isso”, disse eu, e subi na cama com ela, as muletas entre nós, e ambas dormimos até o sol nascer.

9 de novembro

O Canela está vivo!

Voltou para casa!

Está sentado no meu ombro enquanto escrevo isso, mordiscando minha orelha.

É um dia de vinte seixos!

Nessa manhã, eu estava no sofá fazendo os exercícios para o tornozelo que haviam me mostrado, quando a campainha tocou. Havia duas pessoas em pé na varanda. Uma era Arnold. A outra, uma mulher que não reconheci. Ela estava vestida elegantemente com um terninho bege e um casaco acolchoado verde-claro, com uma gola de pele cinza. Seus brincos ovais pendentes eram um mosaico de fragmentos multicoloridos. Seu cabelo era loiro com riscos mais escuros. Ela me deu a impressão de ser alguém que é mais velha do que parece. Seu sorriso era deslumbrante e seguro, como se me conhecesse.

“Estrela Caraway”, disse ela.

“Sim?”

Ela me estendeu a mão. Minha mão direita estava ocupada com uma muleta, então a cumprimentei com a esquerda. “Meu nome é Rita Wishart.” Ela se virou de lado e apontou para trás. “E acho que conhece meu filho.”

Eu sorri, assenti. “Conheço. Oi, Arnold.”

Arnold vestia seu habitual casaco de marinheiro e gorro de pompom verde-musgo.

“Oi”, disse ele, sem empolgação.

Era a primeira vez que o ouvia dizer algo diferente de “Está me procurando?”.

Eu os convidei a entrar. Estava frio do lado de fora. O inverno estava a caminho. De pé sorrindo na sala de estar, não podia imaginar por que eles estavam ali. Arnold era corpulento e sombrio, sua mãe pequena e brilhante.

“Bem, só posso demorar um minutinho”, disse Rita Wishart. “Sou semiaposentada, mas ainda trabalho um pouco com corretagem, e tenho uma casa para mostrar essa manhã.” Ela pegou a mão de Arnold e a apertou. “Arnold tem algo a mostrar para você.” Arnold estava olhando fixamente para algum lugar sobre meu ombro. “Arnold.”

Arnold enfiou a mão no bolso do seu casaco, e quando a tirou de volta, segurava o Canela. Ele me viu e pulou para o meu colo. Se pendurou na minha camisa com suas unhas miúdas. Gritei tão alto que Rita Wishart estremeceu. Agarrei-o com ambas as mãos, acariciei-o e murmurei sem nenhuma vergonha como se estivéssemos sozinhos na sala. Ao som da minha voz, minha mãe veio correndo, alarmada. “O que aconteceu?”

Então ela viu o Canela, e comemorou loucamente também.

Eu apresentei todo mundo. Rita nos contou o que havia acontecido: cedo, na manhã do incêndio, Arnold veio caminhando. (Eles moram no alto da Rota 113.) Alguns bombeiros ainda estavam lá, encharcando os restos carbonizados e fumegantes. Arnold parou para observar. Viu o rato cor de canela na caixa de correio, o pegou e o levou com ele durante sua caminhada diurna sem fim. Depois o levou para casa e o manteve em seu quarto. No dia seguinte, sua mãe ficou possessa quando descobriu que tinha um rato na casa, mas rapidamente se acalmou ao ver o quanto ele era limpo e amigável, sem falar na cor bonita. Ela suspeitou que fosse o bicho de estimação de alguém – Arnold tinha simplesmente contado que o tinha encontrado – mas ela não sabia o que fazer sobre o assunto. Colocar cartazes dizendo ENCONTRADO – RATO DE ESTIMAÇÃO?

E, depois, ela leu a matéria sobre mim na Folha de Lenape. Ela pegou o recorte de sua bolsa de mão e nos mostrou. “Você chegou a ver?”, disse ela.

Continuar: parte 3 de 4