Da casa à praça pública: a espetacularização das festas juninas

Festas Juninas: Promotoras de mobilidade espacial e polaridade sazonal

Festas Juninas: Promotoras de

mobilidade espacial e polaridade

sazonal

 

As noções de polaridade e rede pressupõem um protagonismo de um ou mais pontos, determinantes de uma relação hierárquica, assimétrica, estando assentada em um modelo de representação

fundamentalmente arborescente27 que, portanto, contrapõe-se à acepção de Deleuze e Guattari (1995) de rizoma, que também pode ser considerada uma rede, mas, abolindo-se questões como ordem, hierarquia e centro. Os pontos que exercem centralidade em um determinado recorte espacial podem ser chamados polos, denominação adotada neste livro para aquelas cidades que promovem as festas juninas mais importantes no estado da Bahia, não apenas pela sua dimensão espacial, como também pela sua difusão midiática e pela relevância e peculiaridade dos seus eventos. As megafestas juninas promovem tanto a mobilidade espacial, quanto uma modalidade de polaridade sazonal, que pode expressar uma multiterritorialização difusa de diferentes grupos de amigos, familiares ou comunidade.

Considerando-se que existem pontos de conectividade, complementaridade e sobreposições entre os três principais polos juninos do Recôncavo Sul estudados, como se expressa espacialmente a relação mobilidade espacial/polaridade festiva em uma dimensão territorial no ciclo junino? Podem-se aplicar os conceitos de desterritorialização/ reterritorialização como acepções norteadoras para a análise da mobilidade de festeiros que se deslocam para Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas? Estas questões e os seus desdobramentos serão abordados neste capítulo, lastreando-se o enfoque analítico a partir das especificidades das festas juninas nos três polos juninos sob análise, e a partir da dialogicidade teoria/empiria.

 

Dinâmica regional e rivalidades no ciclo junino:

Cachoeira versus Cruz das Almas

Cachoeira e Cruz das Almas são cidades que desde meados do século XX realizam festas populares que extrapolam os limites locais, apresentando, assim, um raio de abrangência regional – Recôncavo Sul – ou esporadicamente extrarregional – no âmbito do território baiano. Na década de 1950, um jornal local de Cruz das Almas já destacava a importância regional do tradicional carnaval nos clubes:

O Cruz das Almas Clube – centro elegante do carnaval

cruzalmense, dará três bailes sensacionais – domingo, segunda

e terça. Segundo estamos informados, muita gente de Salvador

e das cidades circunvizinhas virá divertir-se nos amplos salões

do Cruz das Almas Clube [...]. (NOSSA TERRA,1955)

Esse trecho do jornal destaca uma polaridade festiva pretérita, determinada por uma modalidade de festa carnavalesca fechada. Nessa época, não havia uma preocupação sistematizada com uma eventual concorrência assimétrica com o carnaval de Salvador, porque muitas pessoas da capital baiana se deslocavam para passar o período carnavalesco em cidades do interior, que realizavam essa festa popular, como Cachoeira e Cruz das Almas.

Amargosa, apesar dos altos investimentos nas festas juninas das últimas décadas, ainda mantém o carnaval tradicional. Por outro lado, alguns marcos espaciais da folia momesca dessa cidade, como o Clube Alvorada, foram desativados, enquanto que o principal espaço de bailes carnavalescos de Cachoeira, a Associação Cultural e Desportiva Paraguaçu, foi refuncionalizada e atualmente funciona como Secretaria Municipal de Cultura.

Já o Cruz das Almas Clube, que era considerado, nos anos 1950 e 1960, – ponto culminante da elegância cruzalmense –, segundo manchetes e reportagens do Jornal Nossa Terra, ainda continua funcionando e promovendo eventos festivos diversos.

Apesar de apresentarem uma modalidade de festividade junina diferente daquela organizada pela Bahiatursa em Cachoeira, as festas de São João em Cruz das Almas eram conhecidas regionalmente por causa das espadas, que contribuíam para que aquela unidade urbana destoasse no ciclo junino pela peculiaridade de sua trama festiva, o que alimentava rivalidades e ilações bairristas entre alguns moradores das duas cidades. Diferentemente de Cachoeira e Cruz das Almas, até os anos 1980, Amargosa não se destacava no circuito junino no território baiano, passando a apresentar uma importante projeção de espectro regional e extra-regional a partir do início da década de 1990.

Nas primeiras edições da Feira do Porto, promovidas pela Bahiatursa, o carnaval de Cachoeira já havia sido substituído por micaretas, geralmente concentradas, no mês de abril. Nessa época, Cruz das Almas e Amargosa ainda realizavam um carnaval com mascarados, folguedos populares e bailes fechados. A micareta no final dos anos 1970 tornou-se uma opção para algumas cidades que fugiam da concorrência direta com o carnaval de Salvador, que aumentava seu grau de espetacularidade e projeção midiática. Em uma edição do jornal A Cachoeira (1978), uma manchete destacava a micareta de São Félix: “Micareta de São Félix foi colossal com participação total da Cachoeira e toda zona”.

A expressão zona foi utilizada até os anos 1980 para tipificar um determinado recorte regional ou sub-regional, como nesse caso do raio de abrangência espacial da micareta de São Félix. Parte do Recôncavo Sul da Bahia foi chamado de zona fumageira no auge do fumo como principal atividade econômica. Atualmente, no entanto, a palavra zona é utilizada por órgãos de planejamento, ação e gestão como recorte delimitado institucionalmente, a exemplo da zona Franca de Manaus, criada como área de amortização fiscal nos anos 1960. Esse exemplo destoa completamente daquela noção de zona mencionada pelo jornal A Cachoeira, que não tem um limite espacial preciso. No espaço intraurbano, os órgãos de planejamento e gestão geralmente demarcam zonas utilizando pontos cardeais que congregam uma miríade de bairros. A expressão zona, na atualidade, também pode se referir a um recorte espacial intraurbano no qual se localiza alguns bairros.

A manchete do jornal destaca de forma enfática a forte incidência de foliões da cidade de Cachoeira que, apesar de estar situada ao lado de São Félix, sempre esboçaram embates topofílicos e bairristas nas atividades esportivas, como no futebol, e nas práticas festivas. Era muito comum moradores de um lado da ponte não a atravessarem para participar de festas sagradas ou profanas; todavia, a espetacularidade de determinados eventos, muitas vezes, comprometia a regularidade dessas escaramuças fortuitas.

Mesmo antes da cidade de Cruz das Almas iniciar o seu ciclo de festas juninas concentradas no Parque Sumaúma, já existia uma rivalidade latente entre esta cidade e Cachoeira. A mesma especificidade que cria supostamente a identidade de um lugar ou evento cultural, no caso de Cachoeira e Cruz das Almas, contribuiu para acirrar bairrismos e localismos que eram potencializados durante o período festivo junino. Enquanto algumas pessoas de Cruz das Almas visitavam Cachoeira durante a Feira do Porto como um festeiro vivenciando o tempo/espaço festivo, outros procuravam demarcar seus territórios soltando espadas. Muitos cachoeiranos, notadamente os segmentos midíaticos, não perdiam a chance de criticar a Guerra de Espadas de Cruz das Almas, como comprova o trecho do jornal A Cachoeira (1987):

Festa de licor, forrós e quadrilhas e nos orgulhamos em não

registrar nenhuma briga e morte por queimadura de espadas

como ocorreu infelizmente em Cruz das Almas e Senhor do

Bomfim.

No passado já houve pequenas batalhas de espadas em Cachoeira antes de iniciar o ciclo de festas juninas no circuito oficial. Mesmo depois da turistificação festiva da Feira do Porto, aconteciam pequenas batalhas de espadas em algumas ruas do centro e em áreas periféricas longe do corredor festivo da orla fluvial de Cachoeira.

Até o final dos anos 1980, quando se estabeleceu um pacto de convivialidade e coexistência das espadas com as festas juninas urbanas, mesmo em Cruz das Almas as batalhas esporádicas e a grande guerra na praça principal eram vistas por autoridades e parte da população como um problema de segurança pública. Enquanto que na sua cidade de origem as espadas dividiam espaços e opiniões, em outras unidades urbanas do mesmo recorte regional era comum a condenação dessa prática pirotécnica urbana pelas municipalidades que dirigiam os poderes Executivo e Legislativo e, sobretudo, pelo Judiciário.

A partir da década de 1990, Cachoeira começou a concorrer de forma direta com novos polos festivos regionais como Amargosa e Cruz das Almas. A especificidade do novo cenário concorrencial pós anos 1990 é que os polos festivos importantes situavam-se geograficamente mais próximos: no próprio Recôncavo Sul. Essas cidades passaram a oferecer outras opções para o entretenimento festivo urbano, como as festas de camisa, que se consolidaram como arenas privadas da espetacularização junina.

Cachoeira que já exercera no passado um papel de centralidade regional de forma expressiva e que se destaca atualmente pelo importante patrimônio cultural, eleva-se transitoriamente como polo festivo no ciclo junino, invertendo efemeramente a hierarquia urbana tradicional.

Durante o ano, o fluxo de pessoas ocorre nos sentidos Cachoeira – Feira de Santana e Cachoeira – Salvador, ambos através de vans e ônibus. No entanto, durante o ciclo junino, o sentido desse deslocamento se inverte: no primeiro caso, busca-se o lugar geográfico para comprar bens ou utilizar determinados serviços, enquanto que no segundo o ponto de atração é, prioritariamente, o lugar ciclicamente festivo e seus atributos culturais.

 

Polaridade festiva no ciclo junino no recôncavo

baiano: aspectos da sua dinâmica espacial

As cidades de Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas estão situadas em uma região de grande efervescência festiva durante o período junino e se constituem em polos festivos importantes no território baiano. Essas cidades-espetáculo do Recôncavo Sul da Bahia exercem uma influência festiva no seu entorno imediato e apresentam um raio de abrangência descontínuo no estado da Bahia, espraiando-se em rede através dos meios de comunicação, como rádio, TV e internet.

Na trama dialética do espaço/tempo festivo do ciclo junino do Recôncavo Sul da Bahia, os principais polos de entretenimento sazonal que se situam nos patamares superiores dessa hierarquia festiva, como Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas, destoam regionalmente. Trata-se de competitividade e complementaridade que se mesclam dialogicamente. Um ponto em comum é a busca da manutenção da polaridade festiva. Apesar dos fluxos serem predominantemente itinerantes, o ponto nessa modalidade de festa popular é muito importante, configurando, assim, o arranjo difuso de polos festivos do ciclo junino.

Quando se afirma que as festas juninas do passado eram mais difusas é porque a leitura que se faz desses eventos festivos parte de um recorte espacial em uma dimensão da escala local: a área urbana de um município. Atualmente, ao se observar o mesmo recorte espacial, nota-se que as festas difusas do passado hoje são concentradas em determinados espaços em Cruz das Almas, Jequié, Amargosa ou Senhor do Bomfim.

Ampliando o recorte espacial de análise da escala local – área urbana – para a regional – Recôncavo Sul –, notar-se-á que o arranjo espacial das festas juninas urbanas indica uma configuração multipolarizada, portanto difusa, mas com pontos de maiores níveis de conectividade do que aquela configuração do passado. Os pontos festivos apresentam-se bem mais articulados, tanto do ponto de vista da materialidade (rodovias), quanto da imaterialidade (recursos comunicacionais e informacionais), o que reforça a leitura inicial do pesquisador de que as festas juninas da atualidade apresentam um arranjo espaço-temporal hierarquizado.

Sobre a relação entre rede de cidades e desterritorialização, Deleuze e Guattari (1997a, p. 122) escreveram que:

A cidade é o correlato da estrada. Ela só existe em função de

uma circulação e de circuitos; ela é um ponto assinalável sobre

os circuitos que criam o que ela cria. Ela se define por entradas

e saídas, é preciso que alguma coisa daí entre e daí saia. Ela

impõe uma freqüência. Ela opera uma polarização da matéria,

inerte, vivente ou humana; ela faz com que o phylum, os fluxos

passem aqui ou ali, sobre as linhas horizontais. É um fenômeno

de trans-consistência, é uma rede, porque ela está

fundamentalmente em relação com outras cidades. Ela

representa um limiar de desteritorialização, pois é preciso que o

material seja suficientemente desterritorializado para entrar na

rede, submeter-se a polarização, seguir o circuito de

recodificação urbana e itinerária.

No transcurso das festas de São João, nos principais polos juninos, nota-se um fluxo de visitantes que alternam diferentes intensidades a depender do horário: entre 21 e 23 horas os fluxos de entrada atingem os picos de frequência, enquanto que entre 3 e 5 horas da manhã os fluxos de saída são mais expressivos. É importante ressaltar que nos dias 23 e 24 de junho, auge festivo, aumentam consideravelmente não só os fluxos de pessoas circulando, como também de materiais ligados ao consumo na/da festa como bebidas, além daqueles imateriais viabilizados pela internet.

Dentre as cidades que polarizam o ciclo junino da região Nordeste do Brasil, Campina Grande, na Paraíba, e Caruaru, em Pernambuco, situam-se no topo de uma estratificação hierárquica, como se destacou anteriormente, exercendo uma polaridade que pode ser considerada descontínua no sentido macrorregional. Entretanto, na perspectiva midiática, o raio de influência dessas cidades-espetáculo se espraia com maior regularidade por todo o território nacional, em telejornais, jornais impressos, programas de TV e internet. Essas duas unidades urbanas promovem as maiores festas juninas do país em termos de dimensão espacial e temporal, assentadas no city marketing de “maior São João do mundo” (Campina Grande) e “capital mundial do forró” (Caruaru).

As festas juninas da atualidade no Recôncavo Sul da Bahia se configuram como um arranjo espacial polarizado por Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas, que influenciam no calendário dos principais eventos festivos em espaço público e âmbito regional, desenhando assim, uma rede sazonal e cíclica de cidades-espetáculo. A concorrência assimétrica no clímax junino obriga algumas cidades do entorno imediato a reorganizarem o seu calendário festivo como estratégia para fugir da concorrência direta com os polos juninos citados.

Dentre os polos juninos do território baiano, a cidade de Cruz das Almas é o que apresenta o maior índice de menções na mídia nacional, por causa da peculiaridade da pirotecnia irreverente das espadas, seguido de Cachoeira, cujos gestores procuram relacionar a festa junina concentrada às potencialidades do patrimônio arquitetônico, e às manifestações culturais locais.

Nesse contexto de venda da imagem da cidade a partir das festas populares, Amargosa se destacou no espaço baiano e em outras unidades da federação com a transmissão ao vivo da sua festa junina espetacularizada pela TV Educativa da Bahia, que adota uma política de valorização de diversas manifestações culturais de diferentes regiões do estado.

As imagens e os discursos midíaticos sobre as megafestas juninas realizadas nessas cidades fazem com que uma expressiva massa de foliões alimente o desejo de ampliar seu raio de circularidade da escala local (lugar festivo), subrregional (Vale do Jequiriçá), regional (Recôncavo Sul) ou interregional (no âmbito da regionalização território baiano) para uma dimensão macrorregional – região Nordeste do Brasil.

A fama do lugar festivo midiatizado nas grandes redes de TV e nos meios informacionais, cria, aguça e amplia o desejo de conhecer outros lugares, o que não significa necessariamente uma repulsa ao lugar festivo frequentado e sim um interesse de ampliação imaginária e topológica de seus espaços de lazer e entretenimento festivo.

Apesar das cidades festivas do circuito junino da Bahia competirem entre si, nota-se um esforço de alguns gestores no sentido de buscar parcerias. Em algumas oportunidades, Cruz das Almas e Amargosa esboçaram uma aproximação no sentido de consorciar a composição da grade de programação, diminuindo os custos com as chamadas grandes atrações, que estão cada vez mais elevados. Basicamente dois fatores colaboram para que Cruz das Almas e Amargosa rivalizassem e trabalhassem de forma consorciada no auge das festas de São João: o primeiro está ligado à acessibilidade física, que determina a origem e intensidade do fluxo dos festeiros, pois a área urbana de Amargosa dista cerca de 80 quilômetros da cidade de Cruz das Almas.

Apesar de disputarem os turistas de Salvador, de onde vem o maior fluxo de foliões, cada cidade desenhou no seu entorno sua área de influência cíclica e sazonal; Amargosa exerce uma importante influência que abarca o Vale do Jequiriçá, onde se situam municípios como Laje, Mutuípe, Jequiriçá, além de outros municípios próximos como Varzedo, Santo Antônio de Jesus, Elísio Medrado, São Miguel das Matas, Milagres, entre outros.

É importante destacar no contexto sub-regional (Vale do Jequiriçá) a importância das festas de Mutuípe e Ubaíra, que apresentam eventos festivos importantes, mas em um patamar de centralidade inferior em relação à Amargosa. Já Cruz das Almas desenha sua hinterlandia festiva abarcando municípios como Sapeaçu, Conceição do Almeida, Governador Mangabeira, Muritiba, Cabaceiras do Paraguaçu, São Felipe, entre outros.

O segundo fator que concorre para que Amargosa se aproxime de Cruz das Almas para diminuir o custo das festas é de ordem políticoideológica: as duas cidades são administradas por prefeitos filiados ao Partido dos Trabalhadores em dois quatriênios subsequentes: 2005-2008 e 2009-2012. Depreende-se, dessa forma, que não é a proximidade geográfica que vai determinar as parcerias entre os polos juninos; o que realmente aproxima são fatores de caráter econômico, assentados no entendimento de que a deflagração de uma determinada festa urbana espetacularizada não prejudique a outra, além das proximidades de ordem político-partidárias. Cachoeira não seria uma parceira de Cruz das Almas por causa da proximidade geográfica, que acirra a competitividade urbana, e também porque não existe afinidade político-ideológica entre os seus gestores.

A cidade de Amargosa pode ser considerada próxima e acessível pelos organizadores das festas juninas de Cruz das Almas. Se, por um lado, podem ser consideradas próximas do ponto de vista da conexão viária, essas duas unidades urbanas podem ser consideradas distantes do ponto de vista da competitividade turística como cidades-espetáculo no auge junino, uma vez que apresentam áreas de influência que se aproximam, avizinham-se, configurando, assim, espaços de interface, mas que possuem suas especificidades territoriais. Assim, na dimensão da relação entre Cruz das Almas e Amargosa, o próximo e o distante são duas acepções que devem ser relativizadas. Pode-se afirmar que o circuito junino no Recôncavo Sul da Bahia apresenta linhas de descontinuidade de diferentes intensidades de pessoas, informações, contatos e linhas de continuidade.

Para os promotores das festas juninas espetacularizadas, a participação da grande mídia é considerada essencial. Uma estratégia que já foi utilizada pelas cidades de Amargosa e Cruz das Almas foi lançar a festa em Salvador, em locais importantes que chamem a atenção e, é claro, sob os holofotes midíaticos soteropolitanos, visando assim massificar a imagem da tradição inventada. Concomitantemente, parte-se para a publicidade estática, inserindo-se outdoors em rodovias de grande movimentação, na capital baiana e nas proximidades de outros polos juninos. Outro evento considerado como “alavanca midiática” é o “Arraiá da Capitá”; em 2007, 24 municípios montaram stands neste evento.

Como se salientou anteriormente, a dimensão espetacular das festas juninas nos principais polos da Bahia provocou um rearranjo temporal do calendário festivo do entorno regional. Governador Mangabeira, a cerca de 10 quilômetros de Cachoeira e a 15 de Cruz das Almas, realiza uma grande festa profana nos dias 1 e 2 de julho, que comemora a independência da Bahia, em uma rua que presta uma homenagem à referida data cívica. Essa festa é considerada jocosamente por alguns foliões como a “ressaca do São João de Cruz das Almas”, atraindo pessoas de outros municípios vizinhos.

Cabaceiras do Paraguaçu, a 28 quilômetros de Cachoeira e a 33 de Cruz das Almas, investe nas festas de Santo Antônio, no distrito de Geolândia, e em comemorações do aniversário de sua emancipação política. Como São João Batista é o padroeiro local, realizam-se festas religiosas em louvor ao referido Santo, cuja extensão profana é mais discreta em relação aos polos juninos mais expressivos.

Muritiba, a 3 quilômetros de Cachoeira e a 21 de Cruz das Almas, nos últimos anos tem ampliado a parte profana da festa de São Pedro, que é o padroeiro da cidade, e destaca no seu calendário local principalmente as festas de Senhor do Bomfim, realizadas no mês de fevereiro. A cidade de Sapeaçu, situada a 12 quilômetros de Cruz das Almas e a 37 de Cachoeira, aceitou o desafio de tentar consolidar a tradição junina urbana e realiza anualmente o seu São João em praça pública.

É importante destacar que algumas dessas cidades citadas já tentaram organizar festas juninas urbanas em espaço público; no entanto, o magnetismo festivo dos dois polos juninos de maior expressão praticamente inviabilizou essa iniciativa. As festas juninas espetacularizadas na contemporaneidade determinam, portanto, o rearranjo de fluxo de foliões em uma determinada região, reestruturando sazonalmente a dinâmica do espaço público intraurbano nos principais polos festivos regionais.

Outras cidades do Recôncavo Sul realizam festas juninas mais modestas, como Castro Alves, Conceição do Almeida e Santa Terezinha. Neste quadro de competitividade festiva, a cidade de Maragogipe, a 22 quilômetros de Cachoeira e a 47 de Cruz das Almas, apresenta uma localização geográfica periferizada em relação à rodovia BR-101 e por isso, não disputa foliões juninos de forma direta com nenhuma dessas citadas, oferecendo aos seus visitantes um rico calendário festivo, que inclui as festas juninas, além de um carnaval tradicional com máscaras, fantasias e muita irreverência no mesmo período do carnaval de Salvador. Ou seja, devido às especificidades culturais e geográficas, não existe uma preocupação sistematizada com a sincronização temporal entre a promoção de seu carnaval no mesmo período do megaevento festivo de Salvador, considerado a maior festa de rua do planeta.

Em Maragogipe, preservam-se algumas manifestações culturais que já foram estilizadas na atualidade ou mesmo extintas em outras cidades, por isso as festas populares naquela cidade despertam tanto interesse. Assim como acontece com Cachoeira, as peculiaridades do lugar alimentam o magnetismo festivo daquela cidade.

Na década de 1990, a então prefeita de Amargosa, Iraci Silva, já reclamava da falta de apoio de órgãos de fomento ao turismo na Bahia, como a Bahiatursa, contraditoriamente em um período de forte apelo midiático atinente à turistificação dos lugares no estado. Amargosa buscava, portanto, o seu espaço no circuito turístico junino, no qual Cachoeira e Senhor do Bomfim já estavam consolidadas e Cruz das Almas despontava. Por outro lado, os gestores de cidades como Itiruçu, na região Sudoeste da Bahia, ampliaram sua tradicional Festa de São Pedro, atraindo foliões e turistas de eventos de tradicionais polos juninos como a própria Amargosa, Jaquaquara e Jequié, por exemplo. Entretanto, os chamarizes midíaticos e a es petacularização turística se concentram mais no período de 22 a 24 de junho, o que leva as municipalidades a investir milhões de reais no citado período.

Os principais polos juninos utilizam a projeção midiática através da penetração massificante dos recursos televisivos, para despertarem o fascínio imagético pelo lugar festivo. A inserção de Amargosa em documentário sobre o São João do Nordeste, apresentado por Gilberto Gil, constituiu-se em importante marco para a consolidação do city marketing assentado nas festas juninas, consorciado com a marca de cidade-jardim.

As transmissões ao vivo da festa na Praça do Bosque pela TV Educativa da Bahia também impulsionaram midiaticamente o São João de Amargosa, na medida em que esse canal de TV é conhecido na Bahia e em outras unidades da federação como um forte incentivador e divulgador de manifestações culturais rurais e urbanas do estado. Por isso a cobertura feita ao vivo e com flashes e reportagens foi vista como um reconhecimento da dimensão cultural daquele evento, a despeito da espetacularidade repetitiva verificada no palco principal.

No entorno regional de Amargosa, cidades pequenas como Elísio Medrado, São Miguel das Matas, Varzedo e Santa Terezinha realizam festas juninas no espaço público, mas, com as boas condições de trafegabilidade, muitas pessoas se deslocam para o polo festivo principal, notadamente a partir das 22 horas, quando as principais atrações se exibem nos palcos.

No Vale do Jequiriçá as cidades de Mutuípe e Ubaíra também realizam festas juninas e colocam outdoors em áreas de grande visibilidade pública, como as margens da rodovia BR-101 nas proximidades de Cruz das Almas. Segundo os organizadores das festas juninas de Amargosa, circulam pela cidade cerca de 80 mil turistas de eventos no auge junino, que alugam cerca de mil casas e se deslocam em veículos de passeio, vans e cerca de 200 ônibus, em uma cidade cuja estrutura hoteleira ainda é muito incipiente, por causa do caráter pontual e estanque do afluxo turístico. Evidentemente que para pequenas cidades do entorno sub-regional – Vale do Jequiriçá – de Amargosa, concorrer com esse índice de assimetria é uma tarefa laboriosa.

No circuito junino formado por polos tradicionais como Jequié, Jaguaquara, Amargosa, Cruz das Almas e Cachoeira, nos últimos anos vêm surgindo outros mais recentes. A ampliação espacial do São João de Mutuípe, a 27 quilômetros de Amargosa, pode ser entendida como uma estratégia de captação não só de foliões juninos do município e de seu entorno, como também de cooptação da mobilidade de turistas de eventos flutuantes que obrigatoriamente passam por Amargosa durante o ciclo junino.

Uma cidade que nos últimos anos tem se transformado em um polo junino alternativo é São Gonçalo dos Campos, que se beneficia da localização próxima à rodovia BR-101 e, principalmente, pela não-realização de festas juninas urbanas espetacularizadas em Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia.

Mesmo com a decadência regional, Cachoeira sempre teve um papel de destaque no território baiano, por causa das suas potencialidades culturais materiais e imateriais. Em alguns casos, funde-se a marca da cidade com a toponímia, buscando-se reforçar o lugar festivo, como a cidade de Camaçari, na região metropolitana de Salvador, que promove o Camaforró, ou Senhor do Bomfim, que explorou o bordão Capital do Forró na Bahia e que já colocou como temática de sua festa: “Senhor do Bomfim, um Senhor São João”. Associa-se, assim, a acepção “capital”, que está relacionada à centralidade, a elementos históricos e religiosos do seu topônimo. Assim como Cruz das Almas, Senhor do Bomfim ocupa um papel de centralidade sub-regional por causa das modalidades de bens e serviços que oferece e pela importância de sua feira semanal. Ciclicamente essa centralidade é potencializada pela questão cultural, ao atrair milhares de festeiros no período junino, extrapolando, assim, o alcance espacial delimitado pela rede urbana clássica.

Nesse caso, o papel de centralidade sub-regional, exercido por cidades como Cruz das Almas e Senhor do Bomfim, refere-se à estratificação hierárquica da rede urbana brasileira, segundo a qual, em ordem de importância decrescente, teríamos metrópoles nacionais (Rio de Janeiro e São Paulo), metrópoles regionais (a exemplo de Salvador), centro regionais (como Feira de Santana), centro sub-regionais como as duas cidades citadas neste trabalho, e centros locais. Do ponto de vista das menções aos recortes regionais no quarto capítulo deste livro, aplica-se a expressão macrorregional para Região Nordeste do Brasil, regional para o Recôncavo Sul e sub-regional para o Vale do Jequiriçá, como se destacou anteriormente. Sob a ótica da rede urbana clássica, Amargosa e Cruz das Almas são centros urbanos sub-regionais, todavia, do ponto de vista da dinâmica das festas juninas, são consideradas como polos festivos regionais. Como o presente livro aborda a dinâmica territorial e urbana das festas juninas no estado da Bahia, a análise da mobilidade de fluxos interregionais aplica-se exclusivamente ao âmbito do território baiano.

Apesar de sua importância cultural, muitas pessoas que visitam Cachoeira não valorizam a riqueza de seus folguedos, conhecidos mundialmente, e priorizam as atrações do forró eletrônico do final de noite. Os organizadores das festas juninas conhecem muito bem o potencial do pluralismo cultural urbano da cidade e do município de modo geral. Entretanto, as opções pela promoção de uma festa assentada na priorização dos atributos culturais e um eventual desprestígio das chamadas grandes atrações do forró eletrônico seria um risco político considerável, não pela possibilidade remota de um esvaziamento do São João, mas pelo que essa atitude representaria em termos de decréscimo da massa festiva concentrada nas altas horas da noite. Dessa forma, as comparações com outros polos juninos como São Francisco do Conde, Cruz das Almas e Amargosa, por parte daqueles foliões itinerantes, seria inevitável.

Do ponto vista da valorização da diversidade cultural local seria uma atitude considerada racional e fundamentada, mas, se os objetivos da promoção de festas dessa natureza através de altos investimentos dos poderes públicos locais nos principais polos juninos da Bahia extrapolam em muito a questão de ordem mercadológica e adentram por outras ancoradas na produção da imagem da cidade assentada na espetacularização, concentração e massificação. Evidentemente que a opção por uma festa junina cultural destoaria dessas metas.

A redução no quantitativo de visitantes durante a Feira do Porto, buscando-se priorizar os elementos qualitativos, serviria como álibi para alimentar a retórica político-partidária, arguindo-se um progressivo desaparecimento da festa, que estaria sendo cooptada por outros centros festivos, como Amargosa e Cruz das Almas. A escolha do tipo de festa que será promovida pela cidade depende, portanto, da política cultural do município, que pode estar assentada na turistificação, na espetacularização ou na valorização da diversidade cultural local. Cachoeira, nesse caso, procura contemplar essas três dimensões, priorizando as duas primeiras na sua matriz programática.

As estratégias visando explorar determinadas peculiaridades locais buscando-se produzir uma relativa polaridade sub-regional ou até regional não é uma prática recente. A especificidade a se ressaltar é que, a partir dos anos 1990, procurou-se fundir a imagem de cidades como Amargosa e Cruz das Almas à espetacularização de festas juninas, tanto em espaço público quanto privado. Esta última procurou durante algum tempo consolidar a marca de cidade universitária, por causa da Escola de Agronomia, que na época pertencia à Universidade Federal da Bahia.

De forma geral, quais os fatores que determinam e alimentam a polaridade regional dos três polos festivos analisados neste trabalho? O que essas cidades oferecem que outras unidades urbanas do entorno regional estariam desprovidas? Listam-se a seguir algumas peculiaridades das festas de São João nos três polos juninos mais importantes do Recôncavo Sul:

AMARGOSA:

Imagem síntese veiculada: cidade-jardim;

• Peculiaridade cultural: jardins públicos urbanos;

• Valorização da diversidade cultural sub-regional, regional e

macrorregional;

• Atrações que transitam na mídia nacional;

• O “Forró do Piu Piu” na Fazenda Colibri: uma das mais

famosas festas juninas em arena privada da Bahia;

• Transmissão de TV ao vivo e com flashes pela TV Educativa

da Bahia;

• Cidade cenográfica com teatro amador;

• Ampla praça festiva;

• Parque de diversões anexo ao espaço festivo;

• Fazenda cenográfica;

• Folguedo “Burrinha de Amargosa” como peculiaridade cultural

local.

CACHOEIRA:

Imagens síntese veiculadas: cidade heróica/cidade

patrimônio nacional;

• Peculiaridades culturais: conjunto arquitetônico barroco e

folguedos populares;

• Secular Feira do Porto onde se comercializa produtos

cerâmicos entre outros;

• Atrações que transitam na mídia nacional;

• Conjunto arquitetônico tombado como patrimônio histórico

nacional;

• Patrimônio ambiental e paisagístico;

• Diversidade de manifestações culturais;

• Samba de roda, tombado pela UNESCO, como patrimônio

imaterial da humanidade;

• Tradição de quatro décadas promovendo uma das mais

tradicionais festas juninas concentradas no espaço urbano do

nordeste brasileiro;

• Visibilidade midiática;

• Parque de diversões anexo ao espaço festivo;

• Artesanato e comidas típicas;

• Tradicional feira livre no entorno do mercado municipal.

CRUZ DAS ALMAS:

Imagens síntese veiculadas - cidade planalto/cidade

universitária;

• Peculiaridade cultural: tradicional Guerra de Espadas: prática

cultural de relevante projeção midiática em nível regional e

nacional;

• Atrações musicais que transitam na grande mídia em âmbito

nacional;

• Localização geográfica privilegiada (próximo a rodovia BR

101);

• Dinamismo urbano recente;

• Praça multiuso na entrada da cidade com palco alternativo ••

Cidade cenográfica com simulacro da igreja matriz;

• “Forró do Bosque”: uma das mais famosas festas de arenas

privadas da Bahia;

• Centro urbano de projeção sub-regional;

• Feira livre dinâmica e expressiva em termos de raio de

abrangência e dimensão espacial.

Partindo-se do pressuposto de que em uma rede clássica de cidades as pessoas se deslocam para um determinado centro urbano a procura de um bem ou serviço que não dispõe em sua localidade, pode-se afirmar que, em uma hierarquia festiva, o festeiro se desloca para determinados pontos nodais da trama festiva à procura ou de uma determinada modalidade de entretenimento que não dispõe em suas proximidades ou mesmo mostra-se interessado em se dirigir para um local no qual haja uma matriz programática mais diversa.

Nesse contexto, no qual afloram desejos mediados pela dimensão sociopsicológica do folião em relação ao evento festivo de massa, os meios de comunicação exercem um importante papel na formação de um determinado tipo de consumidor, como lembra Baudrillard (1995; 1973) ao relacionar mídia, desejo e consumismo em algumas de suas obras.

As festas juninas contribuem para que Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas não se limitem a serem consideradas coadjuvantes dentre as dezenas de cidades do interior da Bahia e ciclicamente exerçam uma centralidade regional efêmera ancorada em um evento cultural.

 

Proposições institucionais de turistificação e a

questão da centralidade cultural

Pode-se afirmar que em relação às proposições de turistificação cíclica e perene de Cachoeira, existe um problema que nem a Bahiatursa nem a prefeitura conseguiram solucionar: o caráter pontual e estanque das festividades juninas no calendário local. O desafio para os promotores da turistificação seria o seguinte: como promover um turismo de eventos impulsionado pelo patrimônio imaterial, como as festas populares, e relacioná-lo à museificação arquitetônica da cidade como um continuum temporal, abarcando, assim, outras manifestações culturais importantes, como as Festas de Nossa Senhora da Boa Morte e de Nossa Senhora da Ajuda?

Os gestores públicos de Cachoeira buscam apoio institucional nas Secretarias do Turismo e da Cultura, notadamente na atualidade, lastreados pelo reconhecimento do caráter destoante e peculiar do potencial cultural reconhecido, pelo Plano de Desenvolvimento Integrado do Turismo Sustentável. Essa iniciativa ganhou fôlego novo no ano de 2008, com a campanha para que a cidade de Cachoeira seja tombada como patrimônio histórico da humanidade.

Como já se enfatizou anteriormente, um dos gargalos logísticos do turismo de eventos em cidades como Amargosa, Cruz das Almas e mesmo Cachoeira é a falta de um fluxo contínuo de visitantes. Para solucionar esse problema, as municipalidades buscam alternativas para perenizar o seu papel de centralidade do entretenimento festivo. Nesse contexto, Cachoeira e, em menor grau, Amargosa, se destacam porque os governantes não se limitam a esboçar um perfil de cidade festiva; busca-se uma polaridade cultural de espectro regional. Consta do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Cachoeira como uma das proposições em um eventual cenário preditivo:

Para alavancar o desenvolvimento de Cachoeira é essencial

que esta associe a sua força e cultura ao conceito de

baianidade criando e fortalecendo um posicionamento de

“capital do Recôncavo” da Bahia. (CACHOEIRA. Prefeitura.

Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Cachoeira.

Perfil urbanístico. (CACHOEIRA, 2006, p. 2-3)

A marca Capital do Recôncavo, aplicada a Cachoeira, está assentada em uma estratégia para estimular a visibilidade urbana, com fortes componentes políticos, culturais e mercadológicos, que tem por objetivo consolidar uma inserção regional peculiar. Segundo o PDDU de Cachoeira, para o êxito dessa proposição é necessário que o conceito de Recôncavo seja conjugado à baianidade. A expressão capital traz consigo um forte componente de centralidade política, administrativa, econômica ou cultural, que pode ser aplicado a Salvador, ou festiva, como nos casos de Caruaru, em Pernambuco, que se autointitula capital do forró.

Esta proposição de centralidade cultural refere-se a elementos de natureza histórica e sociocultural, portanto, está relacionada à concepção de Recôncavo Baiano. Como se destacou anteriormente, a expressão Recôncavo Sul refere-se a uma regionalização adotada oficialmente pelo estado da Bahia, durante algumas décadas, assentada em aspectos socioeconômicos, enquanto que Recôncavo baiano refere-se, sobretudo, à dimensão cultural.

No caso específico de Cachoeira, além da polaridade festiva sazonal, vislumbra-se uma projeção regional dotada de uma relativa regularidade temporal assentada nos seus atributos culturais. No Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano projeta-se a afirmação de Cachoeira como polo turístico do estado cerca de 8 a 12 anos após a publicação do referido documento institucional. Por isso, a veiculação midiática da marca de “capital do Recôncavo” nos eventos de elevada visibilidade, como as festas juninas, é de relevante importância para consignação dos objetivos propostos. No dia 25 de junho de 2008, transferiu-se a capital do estado da Bahia para Cachoeira, em um contexto festivo e de celebração cívica. A mudança provisória da capital política e administrativa do estado da Bahia tem um caráter simbólico e histórico-cultural relevante, e, nesse contexto, aproveitou-se para lançar a campanha pelo tombamento de Cachoeira como patrimônio da humanidade. São proposições, projetos e ações que visam racionalizar e consolidar uma centralidade cultural em uma dimensão preditiva.

Segundo o PDITS , no polo turístico Salvador e entorno, no qual se insere a cidade de Cachoeira, 53% dos visitantes são atraídos pelo patrimônio histórico e cultural, enquanto que 23% optam pelo quadro natural e 21% revelam que os principais atrativos são as manifestações culturais. Os outros 3% correspondem a realizações técnicas e científicas contemporâneas (2%) e acontecimentos programados (1%).

A cidade de Cachoeira possui os três atrativos mensurados percentualmente, o que justifica a inserção de proposições no seu Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, atinentes à implantação de um centro de cultura e artes na área urbana, significando assim, a formalização, através da fixidez e da materialidade edificada, dos propósitos de consolidação e ampliação da centralidade cultural, cujo raio de abrangência apresenta um espectro regional, relacionado ao seu entorno imediato e descontínuo (transescalar; transregional).

Seguindo-se a lógica capitalista de turistificação da contemporaneidade, para a consolidação de um cluster turístico em um cenário preditivo, seria imprescindível a associação entre a patrimonialização física e imaterial e a exploração racional das potencialidades naturais, que dinamizariam Cachoeira a ponto de destacá-la no território baiano. Uma análise mais detalhada dessas proposições e da moldura institucional que envolve sua possível implementação revela que não há um conjunto de ações sistematizadas que visem a integrar as múltiplas potencialidades turísticas de Cachoeira com eventos importantes como as festas juninas. Cachoeira inegavelmente já é um polo festivo do ciclo junino consolidado. Entretanto, o projeto de construção de uma polaridade cultural efetiva e duradoura que congregue as várias facetas socioculturais do município ainda é apenas uma proposição institucional.

Segundo o PDITS , a manifestação cultural mais importante de Cachoeira do ponto de vista da sua importância como atrativo efetivo é a festa de Nossa Senhora da Boa Morte. O artesanato local vem em segundo lugar, seguido da festa de Nossa Senhora da Ajuda, e em quarto lugar, aparece o São João urbano. Os gestores públicos de Cachoeira procuram consolidar uma matriz turística integrada para a cidade, a partir da unificação das potencialidades do município. Segundo Fernandes (2006, p. 58):

Lazer e cultura confluem para um processo unificado, onde o

valor do novo, o valor de novidade e o valor da história

comparecem associados e interdependentes e para os quais os

processos culturais e históricos devem ser modificados e

depurados. Dessa forma, assegura-se a sua transformação em

objeto de lazer, fácil e dócil no consumo a ser realizado.

Apesar de priorizar as festas juninas concentradas como evento cultural estruturante do seu calendário festivo e turístico, os gestores públicos de Amargosa e Cruz das Almas, nos últimos anos, têm procurado diversificar o leque de opções culturais. A primeira tem procurado incentivar e divulgar suas potencialidades gastro nômicas, como consta do seu Plano Diretor Urbano, enquanto que a segunda tem procurado “revitalizar” manifestações culturais rurais. Recentemente, criou-se a Associação de Artesãos Cruzalmenses (ASSOCIARTE ) e denominou-se a cidade cenográfica de Praça do Artesanato, onde se comercializa alguns produtos cerâmicos ou outros souvenires locais.

É importante ressaltar que o artesanato e a gastronomia são apontados pelo PDITS como importantes manifestações culturais, mensuradas como relevantes atrativos turísticos no referido documento institucional. No PDDU da cidade de Cruz das Almas não consta uma proposição sistematizada de turistificação a partir dos festejos juninos, todavia, reforça-se a retórica da polaridade festiva e de uma eventual centralidade cultural. Em termos de ação sistematizada em relação à questão cultural, a atual administração, iniciada em 2005, através do Departamento Municipal de Cultura, vem realizando um trabalho de “resgate” de manifestações culturais como samba de roda, samba de enxada, capoeira regional, artesanato, presépio e terno de Reis, que são práticas predominantemente rurais. A expressão resgate, utilizada pela Secretaria de Cultura é um indicativo do caráter residual de muitas dessas práticas culturais.

Os gestores públicos de Cruz das Almas desde os anos 1990 entendem que o São João concentrado no Parque Sumaúma é o evento cultural impulsionador de uma eventual atividade turística local, apesar dessa política cultural não ser unanimidade entre os moradores do município. Do ponto de vista da intervenção física das municipalidades, propõe-se a criação de um Museu do Fumo, uma importante atividade econômica local/regional há muitas décadas, e a construção de um centro de convenções, equipamento público inexistente no Recôncavo Sul da Bahia. Além de explicitar o papel de polaridade regional, a partir da oferta de serviços e de educação no seu Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano fica implícita na retórica institucional, o desejo de consolidação de uma polaridade cultural.

O Museu do Fumo seria instalado na antiga estação ferroviária, uma edificação em estilo modernista, situada na entrada da cidade, em uma área cogitada no PDDU para abrigar a festa junina concentrada em caso de uma eventual transferência do Parque Sumaúma. Enquanto cidades históricas como Cachoeira buscam a polaridade regional na dimensão cultural, através da museificação urbana, Cruz das Almas, cuja malha urbana é relativamente recente, insere-se no contexto do rebatimento espacial na escala local das macro-políticas assentadas na musealização, balizadas pela patrimonialização cultural, a partir da leitura de determinadas especificidades culturais.

A polaridade festiva de Amargosa no período junino é o eixo norteador de um projeto mais amplo de centralidade regional assentada no patrimônio cultural. Constam do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano do referido município dois projetos importantes para a área cultural: a criação do centro de cultura de Amargosa e a criação do Museu do Vale do Jequiriçá.

A patrimonialização e museificação cultural são uma tendência mundial que galga os patamares da rede urbana, atingindo não só grandes centros metropolitanos como também centros sub-regionais e cidades locais. No caso específico de Amargosa, trata-se de uma estratégia de inserção da cidade como um polo cultural, que exerce influência em uma porção territorial do Recôncavo Sul. No PDDU da cidade em tela, realça-se como uma das diretrizes para a política municipal de cultura, a elaboração de diagnóstico cultural regional, subsidiando a construção de uma estratégia de hegemonização de Amargosa no âmbito cultural regional. Uma das ações pontuadas como importantes para a viabilização desse projeto é a valorização e os incentivos aos movimentos culturais locais e regionais. O caráter pontual do turismo e a natureza monolítica dessa atividade econômica é um problema diagnosticado e um desafio a ser transposto para consignação desses objetivos propostos. Consta do PDDU como uma das diretrizes para a política municipal de expansão econômica:

Maximização da grife Amargosa, consolidada no setor de

turismo junino, e aproveitamento da ambiência local e do

patrimônio cultural como ativo de diferencial econômico no

trade turístico, diversificando os produtos locais,

dessazonalizando a atividade turística do município.

(AMARGOSA, 2006, p. 56)

O interesse em consolidar Amargosa como polo cultural vai portanto além do seu papel de centralidade festiva sazonal do período junino e, de acordo com a retórica institucional, vislumbra-se uma perspectiva mais ampla ancorada na sedimentação de um continuum turístico, festivo e cultural. O próprio topônimo regional Vale do Jequiriçá remete à leitura de uma região cultural. Além dos elementos intangíveis da esfera do simbólico, busca-se na materialidade a afirmação cultural da cidade em tela no Recôncavo Sul, com a construção do museu regional e da casa da cultura.

 

Figura 7

Homenagem ao teatro de bonecos no São João de Amargosa

Fonte: (Castro, 2008)

As proposições para consolidação de uma eventual centralidade cultural na escala regional é dimensionada a partir de elementos formalistas, materiais e da exploração racional da tradição inventada do São João espetáculo de Amargosa. Visando a atingir esses objetivos, o São João do ano de 2007 homenageou a cultura do Recôncavo Baiano conforme consta do projeto da festa daquele ano:

Acreditamos na relevância da homenagem ao Recôncavo a

partir do tema “viva a cultura do Recôncavo” pela necessidade

de valorizar a cultura popular regional, que enaltece o povo

brasileiro, suas tradições e costumes, apresentando o São João

como uma festa popular que expressa a arte e a alma de um

povo, sobretudo o nordestino, reverenciando o seu pioneirismo

e a resistência face às venturas e desventuras regionais e pela

sua cultura popular genuinamente local. (AMARGOSA , 2007)

A retórica dos promotores das festas juninas de Amargosa, assentada na regionalidade cultural, transita do recorte sub-regional (Vale do Jequiriçá) à escala nacional (tradições, cultura brasileira) fazendo inferência à dimensão macrorregional (Região Nordeste). Visando viabilizar esse papel de centro cultural regional, convidaram-se outras cidades da Bahia para mostrarem suas manifestações culturais em um contexto atual de forte valorização da cultura como marca, símbolo, grife, mercadoria e elemento propulsor de uma imagem-síntese da cidade.

Especificamente sobre a relação entre patrimônio cultural e a questão de identidade, consta do PDDU de Amargosa:

O fortalecimento da identidade tem que ver com a preservação

do patrimônio. Contudo, há que ter clareza de que patrimônio

não é monumento, não é viver do passado. O patrimônio é

argamassa com qual se constrói a identidade. Patrimônio é

vivo, é vida, é língua, música... Patrimônio físico, é histórico, é

ideológico; é geográfico e ambiental, é território e paisagem; é

artístico, tecnológico; patrimônio é, enfim cultural.

O povo terá encontrado sua identidade cultural quando se sentir

dono desse patrimônio, quando se sentir partícipe de sua

preservação por entender que dela depende a qualidade de

vida de seus descendentes, para não dizer a sobrevivência da Aspectos da dimensão territorial da mobilidade

vida em um país independente, capaz de proporcionar a todos

os seus habitantes a plena realização como ser humano. Diante

dessa questão, ao se propor políticas culturais para cenários

locais ou municipais, não se pode perder de vista que a cultura

é o cenário. É preciso ter presente que a cultura é o motor para

o desenvolvimento, e que o motor da cultura é a criatividade do

povo em movimento. E o papel do estado é colocar combustível

nesse motor, ou seja, propiciar os recursos para o povo

expandir sua criatividade. (AMARGOSA , 2006b, p. 53)

Nota-se no texto do PDDU de Amargosa que se critica a concepção petrificada de patrimônio cultural, no entanto, petrifica-se da mesma forma, na medida que concebem cultura como cenário, engessando, assim, toda sua complexidade e dinamismo. Um questionamento pertinente seria: o que é cultura afinal? Segundo Mitchell (1999), a cultura, no sentido ontológico como é colocada não existe, o que existe é uma ideia, uma concepção de cultura, que pode ser disseminada para atender a diferentes interesses. Se por um lado o patrimônio cultural não é petrificação de práticas do passado, por outro, acredita-se ser desnecessária a busca de uma suposta identidade cultural monolitizada. Qual seria a identidade cultural de Amargosa? Qual seria o eixo norteador ou estruturante de uma identidade cultural urbana? Qual seria o papel das festas juninas espetacularizadas nesse contexto? Esta suposta identidade cultural estaria ligada aos folguedos e manifestações festivas do passado ou à invenção da tradição junina na área urbana no presente, mesclada ao slogan de cidade-jardim? Em primeiro lugar, não existe essa identidade enquanto unidade essencialista e muito menos este distanciamento compartimentado entre passado e presente. As múltiplas identidades do lugar festivo Amargosa, constituem-se em constructos incessantes, em uma trama de dialogicidade entre passado e presente, envolvendo múltiplos agentes, sujeitos sociais, práticas e espaços de atuação, transformação, dinamização e apropriação.

festiva no ciclo junino do recôncavo baiano

Ao andar pelas praças festivas das cidades de Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas, nota-se claramente uma baixa incidência de pessoas idosas. Considerando a importância dos idosos nas festas juninas do passado, questiona-se: por que esta modalidade de festa pouco atrai pessoas da terceira idade? Diferentemente de alguns circuitos de jovens nos quais se faz uma apologia ao novo, ao efêmero, à renovação incessante das práticas sociais, muitos idosos relutam em aceitar o metamorfismo das festas juninas nas últimas décadas, redimensionando o papel da casa e a atmosfera simbólica e folclórica do ciclo junino, no qual se imiscuía elementos míticos, lendas e uma certa ritualização transtemporal. Um outro fator que é questionado é a modalidade musical que estrutura a programação das festas, nas quais o forró eletrônico mesclado com outros ritmos predomina.

Desde os anos 1990, parte da massa festiva da cidade Amargosa é composta por circuitos e galeras de jovens residentes na capital do estado, que integram blocos tradicionais do carnaval de Salvador. Foi nesse contexto que surgiu o “Forró do Piu Piu” no Hotel Fazenda Colibri, cujos participantes aderem à festa pública na Praça do Bosque ao término desse evento. As festas de camisa, inegavelmente, constituem-se em um forte atrativo de foliões soteropolitanos (de Salvador) por serem uma mistura de micareta e carnaval, em meio a uma musicalidade junina diversificada e

mesclada com axé 28 music . Segundo um dos sócios da produtora de eventos Pequena Notável, que promove o “Forró do Piu Piu” em Amargosa, cerca de 80% dos participantes da festa são de Salvador.

Tornou-se lugar comum afirmar-se que o “Forró do Piu Piu” é uma festa de Salvador que acontece em Amargosa, ou seja, essa festa de arena seria a consolidação de um processo de reterritorialização festiva de foliões soteropolitanos; a participação de residentes de Amargosa nesse evento é inexpressiva se comparada à adesão de foliões da capital baiana.

Apesar de também ser “invadida” por turistas de eventos da capital, na cidade de Cachoeira, nota-se um processo de relativa poli-nucleação festiva na área urbana, verificada com a realização de pequenos eventos festivos comunitários em áreas como os bairros Morumbi, Pitanga de Cima e Caquende, que não significam um esboço de contra-espetacularização, mas uma forma de experienciação lúdica da folia junina em uma dimensão afetiva mais horizontal e participativa.

No caso específico de Cruz das Almas, um fator que concorre para a expressiva participação do morador na festa-espetáculo do Parque Sumaúma é o efeito repulsivo da pirotecnia irreverente das espadas que desestimulam pequenas concentrações festivas comunitárias no miolo urbano da cidade e em áreas historicamente territorializadas pelos espadeiros. Em algumas áreas periurbanas e em pequenas nucleações do espaço rural ainda ocorrem festas comunitárias promovidas pela prefeitura ou pelos moradores.

Segundo sondagens da prefeitura municipal, a cidade de Amargosa recebe anualmente milhares de festeiros juninos oriundos de Salvador. Que fatores explicam a elevada incidência de turistas de eventos da capital baiana no São João dessa cidade? Além do fascínio despertado pelo ato de viajar no ciclo junino, deve-se destacar o caráter persuasivo da propaganda. Os organizadores das festas juninas da referida cidade divulgam o seu evento festivo em locais estratégicos. Vendem a imagem da cidade através de uma estetização da paisagem urbana, com destaque para os locais de elevada visibilidade pública, como as praças, emolduradas em um dinamismo cultural, impulsionado pelas festas juninas.

Uma outra modalidade de divulgação do São João é a distribuição de outdoors com a temática da festa, os desenhos e as principais atrações, em Salvador e em locais de elevada visibilidade, como as margens da rodovia BR-101 e em locais próximos da área urbana de cidades como Conceição do Almeida, Governador Mangabeira, Muritiba e Sapeaçu, que fazem parte da área de influência festiva de Cruz das Almas, acirrando assim a competitividade.

O deslocamento de integrantes de grandes blocos de carnaval de Salvador para Amargosa configuraria um processo de desterritorialização, seguido de reterritorialzação cíclica, caracterizando assim uma reversão transitória da polaridade ou apenas confirma o potencial polarizador de Salvador, reproduzindo a configuração macrocefálica da rede urbana convencional que se estende para as práticas festivas? Os recortes temporais nos quais Salvador e Amargosa exercitam a sua polaridade festiva de forma mais intensa são distintos, por isso não se deve absolutizar cartesianamente pontos polarizadores e hinterlândia do lazer festivo.

Apesar das relações assimétricas em todas as atividades econômicas e também, por extensão, na dimensão cultural, as áreas de influência de Amargosa e Cruz das Almas, por exemplo, interpenetram-se e se mesclam. Outro aspecto importante a destacar é que nem toda mobilidade expressa uma desterritorialização; muitas vezes as pessoas se deslocam de um local para outro para uma curta ou mesmo longa estada e carregam consigo todas as práticas, situações e cotidianidade de seu local de origem. Nesse caso ocorreu um deslocamento interpontual sobre o espaço em uma determinada escala geográfica. Muitos outros, no entanto, se deslocam apenas de um local para outro por influência de amigos ou pela fama da cidade e pouco se integram à dinâmica festiva do lugar geográfico na sua dimensão festiva; para esses últimos à mobilidade não determinou uma desterritorialização, que é um conceito que deve ser devidamente relativizado e contextualizado.

Pode-se falar em uma desterritorialização espaço-temporal de uma musicalidade supostamente soteropolitana no período junino? Na verdade, o que ocorre no São João é o “efeito de arraste” provocado pelo fascínio festivo de importantes polos juninos do interior do estado, que pode provocar uma desterritorialização temporária. As pessoas se deslocam e com elas levam seus ritmos musicais. Além disso, é importante salientar que o Recôncavo Sul da Bahia pode ser considerado como uma periferia imediata da capital baiana, tanto do ponto de vista das atividades econômicas, de serviços e do ponto de vista político-administrativo, quanto na perspectiva da difusão de elementos e práticas culturais. Apesar dos avanços informacionais e comunicacionais, regiões distantes da capital, como o Oeste baiano, o Médio São Francisco ou o Extremo Sul da Bahia, estão fora do raio de captação dos sinais de rádio de Salvador, notadamente das FMs (Frequência Modulada), que transmitem músicas baianas.

Os foliões juninos se diferenciam daquelas pessoas que visitam Cachoeira em festas com difusão midiática internacional, como a de Nossa Senhora da Boa Morte em agosto, e daquelas que visitam a cidade ao longo do ano, atraídas pelo seu patrimônio arquitetônico. Inicialmente, é importante ressaltar que o alcance espacial das festas juninas de Cachoeira é predominantemente regional – Recôncavo Sul – e do entorno regional imediato - Região Metropolitana com destaque para Salvador. Evidentemente que o fluxo de turistas de eventos esporadicamente apresenta um caráter difuso e descontínuo no território baiano, por isso pode-se encontrar foliões de regiões mais distantes como Oeste ou Extremo Sul do estado, ou mesmo de outras unidades da federação. Em termos de escala geográfica, pode-se afirmar que a festa da Boa Morte é um evento de escala global, atraindo pessoas de outros países, conforme pesquisa da professora Aureanice de Melo Corrêa (2004), apesar de não apresentar a dimensão espetacular e a força de mobilização espacial das festas juninas. O São João espetáculo apresenta uma dimensão escalar regional e extrarregional (no âmbito da regionalização do território baiano).

Partindo de Salvador, o destino dos turistas de eventos do ciclo junino é difuso. Os destinos prioritários são Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas. Para esta última cidade, no ano de 2007, foram liberadas saídas de ônibus a cada 10 minutos. Considerando-se o fato de que alguns bairros populares de Salvador realizam festas juninas, quais outros fatores explicariam o deslocamento sazonal de milhares de pessoas da capital baiana para cidades do interior, como Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas? Uma eventual resposta para uma questão como essa se complexifica porque abarca elementos de natureza sociológica e subjetiva. Fazendo-se um esforço analítico, podem-se destacar alguns elementos reflexivos. Primeiramente pode-se afirmar que, na dimensão festiva, a prioridade de muitos festeiros juninos não é a proximidade geográfica que configura a concepção de festa comunitária. Vizinhos podem se encontrar em bares, em outras festividades públicas, em festas privadas, aniversários, casamentos, batizados, entre outras. Para muitas pessoas, no entanto, essas modalidades festivas não expressam o mesmo potencial desterritorializante do ciclo junino porque não são lastreadas pela espetacularidade midiática. Além disso, muitos bairros populares de Salvador são habitados por pessoas provenientes de cidades do interior ou que apresentam vínculos afetivos diretos com esses municípios; essas pessoas aproveitam a dimensão festiva do ciclo junino para renovar seus laços afetivos e telúricos.

Entrevistas feitas com alguns moradores de Amargosa revelaram que a festa junina na Praça do Bosque é um evento concentrado e massificado que se constitui em uma importante modalidade de entretenimento para quem visita a cidade. Essas pessoas encaram a festa como um ócio que pode ser um bom negócio e se divertem em outras festas da cidade como o carnaval de rua, ou buscam o lazer em outras localidades, como na faixa litorânea do Recôncavo ou do Baixo Sul da Bahia.

É muito comum alguns moradores de Amargosa se deslocarem para a Ilha de Itaparica – existe uma linha regular de ônibus ligando Amargosa ao terminal náutico-rodoviário de Bom Despacho, na referida ilha – ou para cidades turísticas do litoral baiano como Valença. O tempo de lazer festivo dos turistas é apenas parte do tempo da cotidianidade funcional urbana para vários residentes em Amargosa, Cachoeira ou Cruz das Almas. Segundo Lefebvre:

No cotidiano que prende as pessoas, a cotidianidade se opõe

para elas ao não-cotidiano: “estar em casa” no trabalho para

alguns, nos lazeres para outros. Assim a cotidianidade se

desdobra e uma das suas partes toma o modo de existência do

imaginário. (LEFEBVRE, 1991a, p. 132)

A ideia de conceber Amargosa como polo festivo deve ser relativizada, uma vez que os turistas juninos se deslocam de múltiplos pontos no território baiano, desenhando uma dinâmica de fluxo no sentido inverso daqueles que eventualmente se desterritorializam dessa cidade e podem se reterritorializar em outros pontos de lazer, notadamente na faixa litorânea baiana. A desativação da estrada de ferro Nazaré/Amargosa redimensionou em parte as formas de lazer de alguns moradores de Amargosa. Algumas pessoas embarcavam no trem de passageiros em passeios recreativos para Santo Antônio de Jesus e Nazaré. Atualmente, no entanto, as pessoas se deslocam para a primeira cidade para resolverem questões de ordem burocrática, para estudarem ou fazerem compras no comércio, ou buscam as praias litorâneas, ou seja, as duas unidades urbanas citadas podem ser consideradas espaços de passagem para alguns amargosenses.

Deve-se destacar, no entanto que a prática de flanar pelo comércio informal ou pela feira de Santo Antonio de Jesus pode ser considerada uma forma de entretenimento. No passado, através das viagens de trem, os passageiros tinham a oportunidade de apreciar uma paisagem geográfica pouco modificada pela ação humana, formada por morros, vales e depressões recobertas pela mata atlântica, em um município situado em uma área de interface fitogeográfica. Por isso, saindo de Amargosa o importante não era só o ponto – São Miguel das Matas, Santo Antônio de Jesus ou Nazaré –, mas também o trajeto. Mudanças no perfil do turista/passante, a fluidez rodoviária e a versatilidade dos meios de transporte da atualidade, associadas ao incremento da ação humana no conjunto paisagístico, têm contribuído para a priorização do ponto – praça festiva ou praias insulares de Itaparica – em detrimento do trajeto na atividade turística. Por que não se exercita um estímulo ao não turismo de massa, à não racionalização espaço-temporal dos calendários festivos? Guattari nos convida para redescobrir o verdadeiro nomadismo errante:

Re-singularizar as finalidades da atividade humana, fazê-la

reconquistar o nomadismo existencial tão intenso quanto o dos

índios da América pré-colombiana. Destacar-se de um falso

nomadismo que na realidade nos deixa no mesmo lugar, no

vazio de uma modernidade exangue, para aceder às

verdadeiras errâncias do desejo, às quais as

desterritorializações técnico-científicas, urbanas, estéticas,

maquínicas de todas as formas, nos incitam. (GUATTARI ,

1992, p. 170)

O que determina a mobilidade de foliões de um ponto a outro durante as festas do ciclo junino? As especificidades locais servem como chamarizes turísticos. No entanto, em relação aos foliões do entorno local ou até mesmo regional, o principal fator de atração são os artistas renomados nacionalmente. Dessa forma, os itinerários dessas pessoas são racionais e metrificados, contrapondo-se à proposição de Deleuze e Guattari (1997a) e de Guattari (1992) de exercitar o verdadeiro nomadismo errante, que se assenta na importância do trajeto (espaço liso) e não do ponto (espaço estriado).

Será que em meio a essa trama estriada das festas racionalizadas da contemporaneidade não existem indícios de horizontalização em um plano molecular? Acredita-se que sim, e as manifestações culturais com suas performances estéticas em um plano transtemporal, associadas com as múltiplas formas de percepção, leitura e apropriação do espaço festivo que transitam da subjetividade construída processualmente às acepções coletivas analisadas ao longo deste livro, comprovam isso.

A disputa pela inserção nos patamares superiores da hierarquia festiva do ciclo junino não é uma tentativa dos gestores municipais de “segurar” a população local na cidade durante o clímax das festas de São João. Trata-se de um conjunto de ações visando ou a inserção da cidade no circuito turístico baiano através de um evento estruturante, como no caso de Amargosa e Cruz das Almas, ou a promoção da diversificação das modalidades turísticas locais, como no caso de Cachoeira. Evidentemente que o rebatimento local de uma investida turística exitosa pode se converter em importantes dividendos políticos eleitorais, assentados no marketing urbano e lastreados pela espetacularidade imagética das festas juninas. Fica clara a ideia de que as festas promovidas pelas municipalidades são para os moradores locais ganharem dinheiro e para a prefeitura inserir a cidade nos meios de comunicação, mantendo a cidade em posição privilegiada no circuito junino baiano.

 

Reinvenção das festas juninas comunitárias e em

família

Considerando-se o dinamismo cultural da atualidade, pode-se vislumbrar em um contexto preditivo um revés que determine o protagonismo da microfesta em uma dimensão familiar ou comunitária? As pesquisas empíricas, no transcurso da tese, apontam para uma coexistência entre a macro e a microfesta. As dimensões comunitárias, afetivas e familiares continuam valorizadas no ciclo junino e essa valorização apresenta um arranjo espacial e performático mais difuso, e a sua deflagração pode ser tanto sincrônica em relação à grande festa, como também pode ocorrer em horários diferentes, como no turno vespertino, por exemplo.

Segundo Bauman (2003), a palavra comunidade historicamente está relacionada a lugar confortável, aconchegante, sugerindo assim coisa boa, evocando tudo aquilo de que sentimos falta e de que precisamos para viver seguros e confiantes. Essa noção de comunidade está assentada no entendimento e compartilhamento do tipo “natural” e “tácito”. Entretanto, o próprio Bauman destaca que o processo de modernização do sistema produtivo empreendido pelo capitalismo comprometeu a leitura de “comunidade imaginada”: Deve-se trabalhar a concepção de comunidade assentada na perspectiva da coexistência em uma atmosfera de entendimento e compartilhamento e, ao mesmo tempo, de contradições e conflitos. Parte-se da ideia de que, mesmo diante da mercantilização e formalização do sistema produtivo e da metropolização como fenômenos espaço-temporais da atualidade, as comunidades ainda existem, mas a proximidade não é uma propriedade imprescindível, como já foi dito.

Duas tendências acompanharam o capitalismo moderno ao

longo de sua história, embora sua força e importância tenham

variado no tempo. Uma delas já foi assinalada: um esforço

consistente de substituir o “entendimento natural” da

comunidade de outrora, o ritmo, regulado pela natureza, da

lavoura, e a rotina, regulada pela tradição, da vida do artesão,

por uma outra rotina artificialmente projetada e coercitivamente

imposta e monitorada. (BAUMAN, 2003, p. 36)

Na visão de Bauman, a comunidade ética, imaginada com o avanço e consolidação do capitalismo, foi sendo comprometida, enquanto que as comunidades estéticas, que prescindem de valores mais duradouros, firmavam-se na contemporaneidade, notadamente no que concerne ao entretenimento. Segundo este autor, uma comunidade estética, que é essencialmente efêmera e fugidia, pode se formar em torno de um evento festivo, por exemplo. A análise das concepções de comunidades ligadas à convivialidade, à coexistência, à segurança, ao lar, que diferem daquelas transitórias viabilizadas pelos recursos tecnológicos, complexificam a expressão “festas comunitárias”. Considera-se que as relações comunitárias em pequenas cidades do interior e em bairros populares de grandes cidades, como Salvador, ainda persistem, a despeito da racionalização das relações de trabalho que comprometeu em parte o espontaneísmo nas relações sociais e culturais. Deve-se considerar, no entanto, que, como lembra Peter Burke (2002), uma comunidade não deve ser considerada um grupo homogêneo, livre de conflitos ou de lutas de classes.

Essa heterogeneidade da natureza comunitária contemporânea, apontadas por autores como Bauman (2003) e Burke (2002), evidentemente reflete-se na heterotopia e na polissemia conceitual da expressão festas comunitárias, que podem corresponder a um evento festivo composto por pessoas, que residem em uma determinada localidade ou logradouro, e festas da comunidade, que pode remeter a elementos intangíveis que dispensam a contiguidade físico-espacial, configurando a acepção comunidade estética citada anteriormente.

A medida que a pesquisa foi avançando, alguns conceitos foram ficando pelo caminho. Anteriormente trabalhou-se com a concepção de contra-espetacularização para se referir as pequenas festas familiares ou comunitárias. Entendia-se que a microfesta poderia ser uma “máquina de guerra” no sentido ativo proposto por Deleuze e Guattari (1997a; 1992), que poderiam trabalhar na perspectiva do contraponto a uma lógica totalizante das festas-espetáculo.

A partir da crítica à visão dicotomizada do tempo versus espaço festivo, repensou-se o conceito de contra-espetacularização, que tenderia a conduzir a pesquisa para uma leitura dicotomizada e simplificadora de uma realidade complexa. Os forrós comunitários dirigidos e parcialmente concentrados podem ser considerados como uma modalidade festiva de caráter alternativo e não uma tipologia festiva que possa rivalizar com mega-eventos de arena ou do espaço público. O folião junino pode transitar da festa comunitária para outras modalidades festivas privadas, públicas, familiares, em diferentes cidades, a depender das suas preferências e/ou condições financeiras. O sujeito desprovido de renda evidentemente apresentará um raio de mobilidade mais limitado. No livro A vida cotidiana no mundo moderno, Lefebvre destaca:

De um lado, a degradação do lúdico, o espírito de lerdeza, na

programação do cotidiano, na racionalidade organizadora – e

do outro, a descoberta científica do acaso, do risco, do jogo, da

estratégia, no coração das forças naturais e das atividades

sociais. (LEFEBVRE, 1991a, p. 88)

A visão de Lefebvre nessa passagem, fundamentada na dialética das contradições sociais, não pode ser considerada obsoleta porque é datada. Trata-se de uma leitura de mundo do final dos anos 1960 e início dos anos 1970, que bipolarizava a análise da relação cotidiano versus ludicidade. De certa forma, ainda observamos em parte essa acepção dual na atualidade, mas opta-se neste trabalho pela análise assentada na ideia de uma reinvenção do lazer festivo urbano no período junino em espaços públicos e privados, do que uma degradação sistemática do lúdico. Persistem ainda a racionalização do cotidiano e a letargia das pessoas na massa festiva; entretanto, esse mesmo sujeito massificado nos mega-eventos em praça pública pode ser o protagonista da trama festiva na rua, nos bairros, na sua comunidade, em casa de amigos ou arenas festivas privadas. Mesmo em meio à cenografia e à espetacularização imagética das festas juninas atuais, as pessoas encontram margem de manobra para recriarem seus espaços e suas modalidades de vivência no/do ciclo junino.

Esse lazer festivo é construído, exercitado e renovado de forma incessante, tanto na mobilidade quanto na fixidez efêmera, no entorno de uma mesa de barraca ou de bar. Uma mesa de bar em meio à espetacularidade festiva pode significar o indício de modalidade de uma demarcação territorial. Nesse contexto, a dimensão comunitária é redimensionada ou possivelmente desterritorializada, podendo-se criar mecanismos de reinvenção da ludicidade festiva urbana, mesmo nos cenários das praças festivas.

As prefeituras de Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas procuram estimular as práticas juninas tradicionais como o São João itinerante, as quadrilhas, os grupos de músicos locais e as festas comunitárias, mas nem sempre essas modalidades festivas agradam aos foliões mais jovens. Em Cachoeira, alguns bairros organizam eventos festivos mais discretos e localizados, cujos participantes se dividem entre grupos que serão cooptados pela megafesta na orla fluvial e aqueles que permanecem no seu local de moradia ou eventualmente procuram outras modalidades festivas da mesma natureza na área urbana.

Com a refuncionalização da unidade residencial ocorreu um rearranjo da concepção de festas juninas em família, na medida em que um determinado grupo de parentes e/ou de amigos se desloca para participar de festas juninas em espaço público, e nesse itinerário difuso ou canalizado o grupo se reterritorializa em logradouros públicos, em barracas, em bares, em restaurantes, em pontos turísticos. Como a esfera pública não se limita à dimensão física dos espaços, como destaca Arendt (2000), pode-se dizer que nos casos nos quais familiares e/ou grupos de amigos se apropriam das praças festivas de forma atomizada acontece uma privatização transitória dos espaços públicos.

Entre esses grupos atomizados no espaço festivo, os níveis de interação e sociabilidade são tênues, por isso se afirma que apesar do espaço da festa ser considerado público em termos da sua acessibilidade generalizada, a concepção de espaço público se fragiliza na medida em que se observa que os grupos sentados à mesa ou em pé são nucleados, privados afetivamente.

As festas juninas urbanas da atualidade são espetáculos mais para serem vistos e dançados pelos foliões juninos do que para serem ritualizados. É muito comum encontrar grupos nucleados de pessoas que residem em determinados bairros de Salvador participando das festas juninas de Amargosa, Cachoeira ou Cruz das Almas. Dessa forma, pode-se afirmar que as festas comunitárias foram reinventadas a partir da introdução de outras modalidades de entretenimento, como a intensificação da mobilidade espacial interurbana e intraurbana.

Com a proliferação e popularização dos meios informacionais e comunicacionais nos últimos anos, a concepção de comunidade foi redesenhada e consequentemente reinventou-se também a concepção de “festa em comunidade”, que passou a ocorrer também fora do espaço de experienciação cotidiana de um determinado grupo, configurando-se, assim, em uma desterritorialização festiva de caráter sazonal.

Em relação aos mais jovens, geralmente aplica-se o conceito de “tribos urbanas” para tipificar aquelas nucleações de pessoas reunidas por determinados laços afetivos ou de interesse em comum, que se deslocam pelas ruas da cidade. Entretanto, o antropólogo Guilherme Magnani (2003) prefere utilizar a expressão “circuitos jovens”, uma vez que para esse pesquisador “tribo” seria um recorte etnográfico que pressupõe aliança, interrelação, laços e hierarquia culturalmente mais consistentes. Os grupos de amigos, no momento no qual os grupos musicais se apresentam, dançam circularmente no entorno de uma mesa ou em meio á massa festiva. Nos intervalos, com a mobilidade espacial, esses grupos podem aumentar, diminuir ou se abrir, ampliando-se territorialmente.

Outros elementos transformaram a festa familiar em eventos mais complexos; introduziram-se novos espaços, como a praça pública, a arena privada, além do carro e das rodovias que acessam os polos festivos. Entretanto, mais importante do que os objetos ou elementos materiais é o dinamismo social e comportamental que determina esse redesenho das práticas do festejar, tanto em termos dos seus significados como na perspectiva da sua dimensão espacial.

No ano de 2006, a prefeitura municipal de Cruz das Almas promoveu festas juninas em algumas localidades rurais como Três Bocas e Catete. O papel das prefeituras promovendo ou patrocinando festas comunitárias pode desestimular um esboço de autonomia coletiva no sentido de planejar e organizar suas festividades em uma dimensão mais horizontal? Podem-se considerar as festas juninas nas comunidades rurais de Três Bocas e Catete, como festas populares tuteladas pela gestão pública municipal e a partir daí vislumbrar em uma dimensão prospectiva práticas festivas mais horizontais e assentadas em uma ambiência autonomista? Não existem respostas prontas para questionamentos dessa natureza, notadamente quando essas provocações remetem a um presente que apresenta uma dinamicidade considerável e um futuro incerto, por conta da complexidade do presente. No caso específico das festas comunitárias nas localidades rurais citadas, se a organização, programação e a infraestrutura básica vieram da prefeitura, a ideia de realizar o chamado “arraiá rurá” veio de líderes comunitários dessas localidades.

Por outro lado, deve-se admitir que há uma tradição na política administrativa da esfera pública no Brasil assentada na priorização da ações em macro-escala; as micro-intervenções também são importantes desde que sejam feitas em conjunto, de forma integrada e venham de baixo para cima. A crítica de Debord (1997) à chamada sociedade do espetáculo está assentada fundamentalmente na substituição do vivido pela representação. Existem diferenças, pontos em comum, conflitos, complementaridades, interfaces, entre as diferentes práticas do festejar na atualidade. Por isso, defende-se a ideia da reinvenção de formas e espaços para o entretenimento festivo do ciclo junino, que varia da moldura estética repetitiva da cenarização das praças festivas à complexificação daquilo que se entendem como festas comunitárias ou familiares na contemporaneidade.

Diante do dinamismo do processo reinventivo nas festas juninas no/do espaço urbano atual, pode-se falar em uma recriação da corporeidade no contexto da trama festiva? Pode-se vislumbrar a leitura da cidade festiva contemporânea como espaço banal? Pode-se falar em espaço sazonalmente banal? São questões conceituais importantes. Mesmo em meio ao estriamento institucional e mercadológico das festas juninas, as transformações socioculturais fluem no sentido de apontar para uma perspectiva reinventiva do ato de festejar; entretanto, reconhece-se que essa margem de manobra, na perspectiva horizontal, depara-se com seus limites alicerçados na racionalidade espacial, por sua vez assentada em uma perspectiva gestionária eminentemente vertical. Para esse potencial criativo da dimensão comunitária se transformar em uma “máquina de guerra”, no sentido apontado por Deleuze e Guattari (1997a e 1992), é necessário que haja rupturas de estruturas molares secularmente estriadas. Segundo os referidos autores:

Do ponto de vista da micropolítica, uma sociedade se define por

suas linhas de fuga, que são moleculares. Sempre vaza ou foge

alguma coisa, que escapa às organizações binárias, ao

aparelho de ressonância, à máquina de sobrecodificação:

aquilo que se atribui a uma “evolução dos costumes”, os jovens,

as mulheres, os loucos, etc. (DELEUZE; GUATTARI , 1996, p.

94)

Mesmo considerando-se o papel do estado representado pela esfera municipal, das empresas promotoras de eventos, das grandes cervejarias, como entidades molares que estriam, estratificam, segmentarizam o evento festivo, nos interstícios dessa suposta totalidade podem surgir ações na dimensão micro, cuja temporalidade de deflagração pode ser sincrônica às ações macro.

Como afirma Deleuze e Guattari, uma sociedade se define por linhas de fuga, que podem indicar novos caminhos, situações e contextos na dimensão micro que podem não ser captadas pela leitura macro, totalitária. Nesse contexto dinâmico, pode surgir um festejar reinventado na capilaridade social que implique em um redesenho de fluxos, um curto-circuito nos pontos ou nas acepções centradas; as festas juninas podem ser recriadas em uma dimensão horizontal, tanto em uma perspectiva espacial quanto temporal.

 

Megafestas juninas no espaço urbano: questões

para reflexão

Segundo Huizinga (2005), a sistematização e regulamentação cada vez maior do esporte implicam na perda das características lúdicas mais puras. O excesso de normatização e racionalização espaço-temporal das festas juninas do presente contribuiu para a perda de importantes elementos da ludicidade desses eventos festivos? Como se justifica a busca de um suposto essencialismo das festas juninas no/ do passado diante de um contexto atual, no qual se questiona a fixidez e a imutabilidade da identidade cultural, como destaca Stuart Hall (2005)? É exatamente no contexto da fragmentação, do dinamis mo, da hibridização e da multiplicidade dos enfoques identitários que as festas populares brasileiras, como o São João, são reinventadas, notadamente no espaço urbano.

As acepções sobre o espaço festivo contemporâneo, assentadas em um essencialismo nostálgico e petrificado, não cabem na atualidade, porque não existe esse fracionamento linear do tempo; muitas tradições se mantêm enquanto algumas práticas desaparecem ou são recriadas, o que demonstra a força do dinamismo da sociedade brasileira na produção de suas manifestações festivas.

Qualquer análise acerca da dinâmica espacial das festas juninas no interior da Bahia na atualidade deve partir de uma perspectiva relativista. Tornou-se lugar comum afirmar que essa modalidade de evento foi mercantilizada e se reproduziu em massa e de forma igual do ponto de vista morfológico, estético e espetacular, perdendo assim uma suposta auraticidade, da mesma forma como a obra de arte da leitura de Benjamin (1996) perdera a sua aura com a reprodutibilidade proporcionada pelas novas técnicas.

Para Lefebvre (1991a; 1991b) o conceito de lúdico e de centralidade lúdica estão relacionados à espontaneidade, e estariam relacionados a uma dimensão utópica, que seria o contraponto das festas juninas espetacularizadas e mercantilizadas que são normatizadas, planejadas, estriadas espaço-temporalmente, estando, portanto, relacionado ao lazer e ao entretenimento no sentido em que aponta Arendt (2002). Entretanto, assim como os usuários atualizam as grandes intervenções urbanísticas através de uma miríade de micro-apropriações corporais, os festeiros também atualizam os eventos festivos, inicialmente nos interstícios da espetacularidade e posteriormente de forma mais ampliada, através de grupos atomizados. Dessa forma, pode-se falar na eclosão de uma nova ludicidade, ressignificada e redimensionada pelo novo contexto sociocultural.

Paradoxalmente, em meio à massa festiva vislumbra-se traços de espontaneidade nas práticas dos festeiros, verificada na sua expressão corporal, nas suas performances, que recriam ritmos populares, cooptados pela indústria cultural ou não. Portanto, dialeticamente a festa junina espetacularizada ora se afirma no sentido macro (grandes praças, multidões, arenas, grandes palcos) ora se nega, diluindo-se na microfesta na/da dimensão familiar ou comunitária, que se reterritorializa em espaços considerados públicos no sentido da acessibilidade física, mas que podem ser considerados espaços de apropriação restrita por parte de determinados grupos de amigos ou parentes. Os passantes, ficantes e brincantes abrem perspectivas para dilatação da ludicidade intersticial, que é redesenhada incessantemente no presente, abrindo-se possibilidades para a sua ampliação em uma dimensão preditiva.

O caráter espetacular, a cooptação político-partidária e os ditames mercadológicos que envolvem as grandes festas populares da atualidade fizeram com que esses eventos perdessem seu viés celebrativo, como se afirma de forma recorrente? Acredita-se que se deve revisitar o conceito de celebração festiva. Em primeiro lugar, pode-se afirmar que houve uma clara diminuição de práticas e ritos ligados à dimensão religiosa de muitas festividades, no entanto, para além das celebrações totalizadoras da dimensão do sagrado existem as microcelebrações em família, na dimensão profana, que podem ocorrer em meio à festa junina espetacularizada: comemoram-se aniversários, casamentos, férias, uma vez que no Nordeste brasileiro é muito comum sair de férias no mês de junho para aproveitar as festas de São João.

Concorda-se com Sánchez (2003) que, referindo-se aos espaços metropolitanos, afirma que nas cidades-espetáculo o aspecto contemplativo concebe o mundo como representação e não como atividade e os eventos festivos populares espetacularizados inegavelmente se inserem naquela tipologia proposta por Duvignaud (1983), que apresenta festas de participação e de representação. No entanto, o poder reinventivo das pessoas faz surgir, nos interstícios macroespaciais da espetacularidade, modalidades de práticas que poderão propiciar, em um contexto prospectivo, novos enfoques aos sentidos do festejar.

As festas juninas espetacularizadas no espaço urbano de cidades como Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas podem ser entendidas como mercantilização para uns, promoção, marketing urbano e político, para alguns, e uma nova forma de ludicidade festiva que foi recriada e que continua sendo incessantemente reinventada, para muitos outros.

Nas tramas da folia, no mesmo lugar festivo o território do lazer urbano e o espaço da mercantilização se interpenetram. O desafio que se impõe para o pesquisador seria identificar, na perspectiva micro-espacial, micro-social, os elementos que apontem para a concepção e proposição das “máquinas de guerra” pulsantes com potencial capaz de reinventar o entretenimento festivo do ciclo junino no espaço urbano contemporâneo, que é estriado materialmente e normativamente. Se a capacidade de reinvenção lúdica no sentido apontado por Lefebvre precisa ser resgatada e colocada no centro de uma agenda de pesquisas buscando-se compreender o seu potencial de subversão, como destaca Angelo Serpa (2007b), um desafio que se coloca ao pesquisador é a identificação, análise e contextualização desses processos em manifestações festivas com dimensão territorial e reticular, como as festas juninas.

Afirma-se de forma recorrente que as festas juninas da atualidade se mercantilizaram do ponto de vista econômico e se espetacularizaram, todavia, as ilações analíticas nesse sentido devem ser feitas levando-se em conta as devidas especificidades dos grupos sociais envolvidos.

Em relação às festas juninas de camisa, pode-se afirmar que os altos lucros auferidos pelos empreendedores dessa modalidade festiva e pelas produtoras responsáveis por sua logística denunciam claramente o viés mercadológico. Entretanto, apesar da dimensão espacial e da natureza espetacular, as festas juninas urbanas, patrocinadas pelas municipalidades, representam uma alternativa de sobrevivência para alguns comerciantes formais e informais, a potencialização dos lucros para outros e a projeção da cidade como lugar festivo turistificado sazonalmente pelas prefeituras locais.

Para as mega-empresas que aproveitam o grande potencial de consumo do período junino, como as cervejarias e as empresas de telefonia móveis, que pululam nos outdoors dos pontos de elevada visibilidade, evidentemente que essa modalidade festiva representa um grande negócio. Inegavelmente, a concentração e a espetacularização das festas juninas nos arraiás oficiais comprometeram em parte a espontaneidade de algumas festas comunitárias ou de bairro, disseminadas pela zona urbana e rural, mas essas megafestas contribuíram para o processo reinventivo dos eventos na dimensão micro, que foram dinamizados por processos de desterritorialização, contribuindo, assim, para que se redefinisse a concepção de festa comunitária e festa em família para além da dimensão topológica da casa ou de uma determinada rua. Nesse contexto, os foliões continuam se deslocando a pé na prática do São João itinerante, mas também ocorrem deslocamentos de carro, moto, bicicleta e o forró tradicional ainda se faz presente, mas juntamente com musicalidade eletrônica e a axé music, que são lastreadas midiaticamente.

A festa ainda existe em algumas casas, no terreiro frontal ou em trilhas rurais, no entanto, passou a ocorrer em uma dimensão maior na rua, na praça pública, na arena privada; a sanfona ainda toca, mas, introduziu-se o som mecânico, os carros de som, os minitrios ou até mesmo os monumentais trios elétricos tipicamente baianos, como ocorrera em uma festa privada em Cruz das Almas nos de 2007 e 2008, em uma determinada festa de camisa. Em vez de uma festa apenas rural, deflagra-se um evento festivo de grande dimensão, que também acontece no espaço rural em uma versão segmentarizada – espaços privados – ou aberta – espaço público.

Dessa forma, as acepções maniqueístas assentadas, em uma cooptação mecânica das festas juninas, em uma eventual descaracterização antiauriática ou até mesmo suposta “fagocitose” cultural, constituir-se-iam em simplificações exageradas do dinamismo sociocultural do fenômeno festivo contemporâneo.

O São João urbano do Recôncavo divulga folguedos culturais locais/regionais, reforça vínculos telúricos e topofílicos dos festeiros com o lugar de origem (rua, bairro, localidade), revive rivalidades regionais, inverte momentaneamente a estratificação hierárquica do sistema de cidades da Bahia, na medida em que coopta foliões de uma metrópole como Salvador e de uma cidade média como Feira de Santana, ou seja, as festas juninas promovem práticas e processos sociais, culturais e econômicos que interagem e se interpenetram dialeticamente.

O transcurso da pesquisa de doutoramento que resultou nesse livro revelou que não ocorreu uma erosão ou uma supressão abrupta de festividades juninas de caráter familiar, como se afirma de forma recorrente; o mesmo se aplica a uma possível extinção das relações de vizinhança e da contiguidade física na estruturação dos grupos de festeiros. Tanto os grupos reunidos por laços de parentesco quanto aqueles formados por amigos, redimensionaram espacialmente seus espaços de lazer festivo junino, a partir de uma desterritorialização e de uma itinerância festiva de caráter interurbano, ou seja, o que ocorreu foi um processo de desterritorialização dos muitos foliões, que reinventaram espacialmente e esteticamente o São João no espaço urbano, em polos tradicionais como Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas.

As festas juninas na orla fluvial e nas praças, em Cachoeira, e na Praça do Bosque, em Amargosa, seriam catalisadoras de manifestações folclóricas, estimulando a sua preservação ou se constituiriam em máquinas de captura que cooptariam mercadologicamente essas manifestações folclóricas, turistificando-as e produzindo assim pastiches culturais para serem espetacularizados? Inegavelmente existem os perigos da cooptação turística de eventos culturais, por isso, tornaram-se recorrentes as críticas às megafestas juninas que se constituiriam em rolos compressores da cultura local.

Sabe-se que muitas manifestações culturais da atualidade se transformaram em pastiches folclorizados para turista ver, desaparecendo do cotidiano lúdico comunitário no período de baixo afluxo turístico em algumas localidades; entretanto, deve-se destacar que algumas pessoas perceberam que, através de determinadas manifestações culturais, pode-se auferir renda e, ao mesmo tempo, divertir-se com o exibicionismo de rua. Será que a cooptação de manifestações culturais rurais ou urbanas, residuais ou ativas, constituem-se em uma ação vertical do braço Estado ou Município, que poderá comprometer qualquer esboço auto-gestionário, produzindo assim “arremedos” culturais tutelados? Os gestores públicos de Amargosa destacam que o objetivo do apoio e da revitalização de práticas culturais locais ou do entorno sub-regional é a promoção de condições para que determinados folguedos populares sejam mantidos pelos segmentos comunitários e não vivam, portanto, às expensas do financiamento público sazonal. Será que os integrantes desses grupos desejam efetivamente essa autonomia? São questões para refletir, para que o pesquisador não incorra no equívoco da análise do folguedista como vítima e do Estado como algoz cooptador, sem levar em consideração uma eventual conivência entre ambos.

Deve-se destacar que tanto a revitalização quanto o resgate são acepções problemáticas porque trazem consigo todo um ranço verticalizante, anacrônico e esquizofrênico, na medida em que o surgimento, a consolidação, a ampliação ou mesmo a crise, reinvenção ou mesmo o desaparecimento de determinadas práticas culturais ocorrem em função da dinâmica social e não da ingerência institucional, sob pena de se produzir pastiches culturais descontextualizados.

Quanto ao fato de determinadas manifestações culturais aparecerem imiscuídas na espetacularidade imagética e midiática das festas concentradas, deve-se ressaltar também que a elevada visibilidade de determinados eventos urbanos pode ser considerada como parte do novo lazer festivo cooptada, racionalizada e ao mesmo tempo vivenciada na contemporaneidade.

As festas juninas de Amargosa até os anos 1990 eram organizadas por comissões constituídas por pessoas da sociedade local, posteriormente, no auge da espetacularização, chegaram a ser organizadas por empresas promotoras de eventos de Salvador. Se por um lado divulgou-se mais a festa na grande mídia, por outro, evidenciou-se um verticalismo na promoção desses eventos. Deve-se re tomar essas comissões na atualidade como uma atitude política, na qual se demonstra um esboço de horizontalidade na promoção de um importante evento cultural como o São João? Mesmo que sejam retomadas, as comissões seriam subordinadas às municipalidades, portanto as margens de manobra seriam limitadas.

Um contraponto à espetacularização é a participação, como lembra bem Jacques (2003; 2006). Dessa forma, não é a maior ou menor quantidade de pessoas em uma comissão específica para organização de uma festa que determinará a natureza desse evento e sim a forma como ele é organizado. Não adianta permitir a participação de representantes de diferentes setores da sociedade urbana para organização de um evento, se a metodologia de elaboração do planejamento é meramente consultiva ou essencialmente tecnicista. Independentemente de optar-se por um saudosismo exacerbado ou por uma romantização ou mesmo idealização da sociedade atual, deve-se buscar mecanismos que estimulem a participação, a criticidade, a desconstrução e a proposição dos vários agentes sociais e sujeitos sociais envolvidos com a promoção dos festejos juninos em Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas, em um contexto autonomista. Como levar a frente um projeto auto-gestionário dessa natureza em um contexto de conformismo e de dependência dos poderes públicos locais? Como modificar hábitos historicamente arraigados? Deve-se ter o cuidado para entender que as pessoas se divertem com essas modalidades de festas promovidas na atualidade e teoricamente delegam responsabilidades quando votam em determinadas pessoas em uma democracia representativa.

Uma tendência comum aos três polos juninos estudados neste trabalho é a opção pela valorização do São João na sua dimensão cultural. Buscando justificar a expressão – é em Amargosa que se faz São João de verdade –, a prefeitura local procura incluir elementos culturais tanto na dimensão imaterial (inclusão do folguedo da burrinha e inserindo atrações do forró tradicional), quanto material (cidade e fazendinha cenográficas). Busca-se, assim, evitar o descompasso entre a retórica midiática oficial e a promoção efetiva da festa pública.

Nesse contexto, emoldura-se o evento com uma plasticidade estética que transita da ornamentação estilizada ao embandeirolamento junino tradicional e à prática de acender fogueiras nas ruas mais afastadas do centro onde as casas não foram alugadas. O mesmo se aplica ao São João de Cruz das Almas, que aproveita a Guerra de Espadas, uma projeção de uma prática cultural de muitas décadas, como peculiaridade cultural, além de inserir uma cidade cenográfica com o nome de Praça do Artesanato, com formas espaciais existentes na área urbana, como a Igreja Matriz. Amargosa e Cruz das Almas procuram valorizar a dimensão cultural nas últimas edições de suas festas e se diferenciam de Cachoeira, cuja gênese da festa junina concentrada é atribuída exatamente à importância cultural daquela cidade, reconhecida em âmbito nacional. Busca-se tanto na composição estética quanto na valorização de facetas da dimensão cultural, uma suposta auraticidade festiva e cultural do passado que fortaleceria as tramas do festejar no presente. Nessa dialogicidade espaço-temporal, a festa junina de Cachoeira apresenta um leque mais amplo de práticas e manifestações que transitam transtemporalmente e que passaram por crises supostamente identitárias, transformaram-se e são reinventadas processualmente e na dimensão comunitária.

Nos principais polos juninos do Recôncavo Sul da Bahia, a lógica do discurso assemelha-se à leitura da cidade-pátria abordada por Vainer (2000), através da qual preconiza-se a unicidade na retórica em prol de um eventual desenvolvimento urbano, ou seja, passa-se a ideia de que quem é contra o São João espetáculo é contra a cidade, por isso toda logística promocional do city marketing está assentada na grife junina, que coopta diferentes segmentos.

Em Cachoeira, existem de forma difusa as iniciativas individuais, familiares ou grupais de não adesão à macrofesta turistificada, assim como existem várias pessoas e grupos que participam tanto da pequena festa como também do grande evento festivo.

Nesse contexto, surgem questionamentos, comparações, críticas a uma eventual turistificação exacerbada do ciclo junino, mas não se descortina uma atmosfera conflitiva ou mesmo de embates verbais mais sistematizados. A leitura das peculiaridades e da dinâmica das práticas festivas na capilaridade comunitária, por causa de suas clivagens e complexidade, merece uma outra pesquisa.

Os gestores dos principais polos juninos baianos buscam na espetacularização festiva uma alavanca midiática para a promoção do city marketing. Nesse contexto, a expressão cidade empreendedora se aplicaria melhor do que empresariamento urbano, que se aplica a grandes centros metropolitanos. Já a mercantilização seria uma expressão que pode ser aplicada tanto em pequena escala, com a proliferação de casas sendo alugadas no período junino, quanto em uma perspectiva comercial mais abrangente, como no caso do explícito acirramento da concorrência entre grandes cervejarias.

A expressão alavanca cultural utilizada no PDDU de Cachoeira demonstra o interesse dos gestores públicos locais em assentar o desenvolvimento urbano nas potencialidades multi-identitárias e diversas de seu patrimônio cultural. Essa proposição difere em parte daquela apresentada por Amargosa e Cruz das Almas, que monolitizam o seu marketing urbano, utilizando como elemento catalisador as grandes festas juninas. Aliás, nessas duas últimas cidades, as festas em espaço público e privado coexistem a partir de uma simbiose sincronizada. No caso específico das festas juninas em Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas, a diversidade da matriz programática é um reflexo da própria natureza híbrida e dinâmica dos eventos culturais da atualidade, notadamente no espaço urbano. Entretanto, as modalidades de musicalidades, eivadas de modismos ou de artificialismos efêmeros, com a roupagem mercadológica da indústria cultural, deveriam ser inseridas nos interstícios das manifestações culturais locais/regionais, que deveriam ser as apresentações estruturantes da matriz programática e não o contrário, como ocorre.

No terceiro capítulo afirmou-se que na busca pela especificidade cultural imiscuem-se manifestações culturais ativas ou residuais, tradicionais ou retradicionalizadas no contexto das megafestas juninas, buscando-se “inventar” uma aura e um marco identitário para esses eventos. Pode-se questionar: isso é possível? Do ponto de vista da dinâmica cultural, sabe-se que não; entretanto, no atual contexto de turistificação exacerbada, determinadas iniciativas das municipalidades, quando bem lastreadas midiaticamente, podem produzir peculiaridades culturais “fabricadas”, que passam a ser exibidas de forma intensa pelos meios de comunicação, e acabam se transformando em imagens-marca de determinadas cidades.

Evidentemente que as manifestações festivas, folclóricas, cênicas e as práticas gastronômicas de uma cidade como Cachoeira se transformaram nos últimos anos, sem necessariamente comprometer uma suposta identidade cultural urbana ou esgarçar o patrimônio histórico-cultural, por isso, e expressão hibridização cultural, no sentido apontado por Canclini (2003), poderia ser utilizada, em vez de descaracterização. Além disso, outras expressões como resistência cultural e preservação da identidade, muito frequentes em alguns documentos institucionais, são questionáveis, notadamente quando se aborda questões atinentes aos processos culturais no/do espaço urbano, que apresentam uma dinamicidade expressiva.

Com a espetacularização e massificação das festas juninas no espaço urbano estamos caminhando para um “fordismo cultural”? Como as festas juninas estão ficando cada vez mais parecidas, como esses eventos poderão continuar alimentando um fluxo turístico assentado na busca pela peculiaridade dos lugares? Os organizadores podem reinventar ou retradicionalizar práticas festivas para se produzir uma especificidade, mesmo que residual. Deve-se destacar também o caráter reinventivo do povo brasileiro no sentido de apresentar novas facetas para as práticas e novos significados para festejar no espaço urbano, mesmo considerando-se o poder da força estriadora das empresas, Estado e Prefeituras.

É importante relembrar novamente que inexiste essa correlação de forças dispostas de forma dualista entre Estado e as manifestações culturais e festivas da dimensão comunitária; há um pacto de conveniência entre os promotores das festas juninas, os folguedistas, os foliões, e, nessa atmosfera de cumplicidade, surgem as formas espaciais que expressam, na morfologia estética, o redesenho do festejar: palcos, arquibancadas, canalização de percursos. Como destacam Deleuze e Guattari (1997a), é a máquina social que determina a técnica, não o contrário.

No seu conjunto, os dados de campo revelaram que existem algumas cidades que podem ser consideradas como polos juninos sazonais no território baiano, conectados inter e extra-regionalmente do ponto de vista da circularidade. Apesar das cidades de Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas situarem-se nos patamares inferiores da rede urbana convencional, cuja concepção e organização está assentada em acepções conceituais funcionalistas como centro, polo, hierarquia, na perspectiva festiva a relação entre o centro e a hinterlandia não é mecânica, fazendo com que o primeiro viva às expensas do segundo, conforme proposições espaciais clássicas. A polaridade regional nesse caso específico atua no sentido de desestruturar, redefinir, reinventar o tempo, o espaço, os sentidos do festejar no ciclo junino. A leitura das festas populares espetacularizadas da contemporaneidade e das múltiplas formas de sua difusão em rede é um indicativo da reinvenção da relação local-global e lugar-mundo.

A consolidação de cidades como Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas como polos festivos regionais redimensionou a inserção e a dinâmica regional dessas cidades no Recôncavo Sul da Bahia e reinventou as formas de uso/apropriação do espaço público festivo no auge junino.

Seria possível uma reviravolta radical na concepção do ato de festejar que significasse uma ruptura com modelos e formas assentadas na macrofesta e na passividade do sujeito, para outras norteadas pelo protagonismo do sujeito ativo, questionador e propositor? Uma mudança nesta envergadura seria promovida a partir do colapso de noções como “fracionamento do cotidiano”, tão criticada por Lefebvre (1991a e 1991b), e só seria possível em um contexto de reformas socioeconômicas e transformações culturais profundas.

É importante destacar que além da cooptação e do estriamento das festas juninas pelas municipalidades, da espetacularização e da mercantilização, as festas de São João da contemporaneidade ainda são espaço/tempo do encontro, do reencontro, do congraçamento, da celebração, das possibilidades de novas sociabilidades, que podem ser viabilizadas no espaço íntimo da casa, no espaço funcional da hospedagem ou no espaço coletivo da rua ou mesmo no espaço racionalizado patrimonialmente da arena privada. Em cada praça festiva, destas aqui estudadas, tanto se pode ter uma macrofesta, totalizante e massiva, como também podem ocorrer as pequenas nucleações como unidades festivas difusas.

Quais as tendências possíveis para as festas juninas em uma dimensão prospectiva? Ampliação das festas privadas e diminuição das públicas? Ampliação das públicas e diminuição das privadas? Desaparecimento das festas comunitárias e de bairros concomitante à potencialização do incremento das duas modalidades festivas citadas anteriormente? Uma investida multipontualizada das festas comunitárias provocando um refluxo daquelas espetacularizadas em arenas públicas em privadas? Todos esses questionamentos, remetidos a uma dimensão preditiva, estão assentados em uma perspectiva dualista, segundo a qual uma determinada tipologia festiva se ampliaria às expensas do refluxo de outras. Entretanto, no presente trabalho, mostrou-se que a abordagem fundamentada em uma leitura linear e evolucionista, para se tratar de uma questão de forte densidade e dinamismo social, cultural, econômico e espacial é insuficiente.

A dialogicidade teoria-empiria, exercitada nas três cidades pesquisadas apontam para situações, e não tendências factuais, de coexistência, proximidades, complementaridade, vizinhança, alternâncias, dinamismo fluídico, transformação e inventividade. As várias modalidades festivas juninas continuarão sendo reinventadas na dimensão horizontal e comunitária, como também poderão ser capturadas, cooptadas pelas estruturas estriadas e apresentadas verticalmente e novamente reinventadas e recriadas continuamente.