Da casa à praça pública: a espetacularização das festas juninas

Introdução

 

Contextualizando a relação entre cultura,

manifestações culturais e espaço urbano na

contemporaneidade

A partir, sobretudo do pós-Segunda Guerra, a industrialização em países periféricos como o Brasil contribuiu substancialmente para a intensificação do processo de urbanização. Enquanto as atividades industriais urbanas se constituíam em forças de atração, o gradativo processo de mecanização agrícola se destacava como força repulsiva determinando assim uma hegemonia da cidade sobre o campo não só quantitativa como qualitativa, consolidando-se desta forma as metrópoles industriais. Em escala proporcionalmente menor, esse fenômeno de urbanização e cooptação pela cidade de atividades e eventos considerados rurais também ocorreu em pequenas e médias cidades, mesmo naquelas de pequeno porte que apresentavam uma incipiente estrutura industrial.

Segundo Canclini (2003) os processos de industrialização e de urbanização, apesar de tardios nos países periféricos, provocaram rupturas importantes que influenciaram a questão cultural. Nesse contexto, progressivamente o espaço urbano foi se tornando não só a principal arena das principais atividades econômicas tradicionais, como também espaço de deflagração de eventos culturais diversos.

Atualmente, tem-se verificado uma valorização das manifestações culturais, como os eventos festivos, que são cada vez mais mercantilizados e espetacularizados não só em grandes centros urbanos como em pequenas e médias cidades. Como lembra Arantes (1998), nunca se falou tanto em cultura e seus derivados como nos dias de hoje, determinando o que essa autora chama de “era da cultura”. O enfoque dos processos urbanos contemporâneos sob o prisma cultural reveste-se de grande relevância na atualidade devido à dimensão espacial dos eventos culturais que criam dinâmicas e formas efêmeras, constituindo assim as cidades-espetáculo.

Nessa mesma linha, Ana Fernandes (2006) enfatiza a chamada culturalização generalizada. Entretanto, essa autora chama a atenção para um paradoxo: se por um lado esse processo promove o afloramento de novas e instigantes realidades, por outro ocorre o empobrecimento de perspectivas mediante as práticas avassaladoras da mercantilização que hegemonizam, instrumentalizam e banalizam a cultura.

Atualmente, nos meios acadêmicos, tem se notado a intensificação de pesquisas e discussões que trazem à tona conceitos e questões acerca da relação cidade e cultura. Em um país como o Brasil, no qual se nota uma grande diversidade de manifestações culturais, muitas das quais no espaço urbano, é de fundamental importância uma leitura crítica do que se convencionou chamar de espetacularização e mercantilização da cultura urbana, que tem contribuído para o redesenho funcional de algumas cidades; dentre estas, aquelas nas quais a dimensão espacial das festas populares constitui tradições reinventadas.

Em uma das suas obras mais relevantes, Milton Santos (1999) destaca o processo de arenização e de espetacularização da atualidade:

[...] A cultura popular deixa de estar cantonada numa geografia

restritiva e encontra um palco multitudinário, graças as grandes

arenas, como enormes estádios e as vastas casas de

espetáculo e de diversão e graças aos efeitos ubiquitários

trazidos por uma aparelhagem tecnotrônica multiplicadora.

(SANTOS , 1999 p. 257)

Entende-se que as manifestações da cultura popular, como as festas, apresentam uma nova dinâmica tanto numa perspectiva espacial (ampliam-se além das escalas local e regional e tendem a se concentrarem na cidade) quanto simbólica, uma vez que há uma adaptação ou recriação desses eventos no espaço urbano. Marilena Chauí (2006) reconhece a importância do lado lúdico da cultura, mas destaca que essa não se deve limitar apenas a ser um entretenimento ou algo mensurável mercadologicamente. Espetacularização, mercantilização, turistificação e culturalização, conceitos trabalhados por importantes autores contemporâneos, são explicitados notadamente em espaços metropolitanos.

No entanto, qual a natureza, dinâmica e impacto desses processos em pequenas cidades do interior da Bahia? Como o lazer festivo e as festas populares se inserem nesse contexto? No presente livro, pretende-se concentrar o foco de análise em uma das mais expressivas facetas do patrimônio cultural brasileiro: as festas populares; especificamente pretende-se analisar as festas de São João nos principais polos juninos do Recôncavo baiano. Introdutoriamente levantam-se alguns questionamentos: quais os sentidos do festejar? Qual a relação entre festas populares e turistificação?

 

As festas populares como estratégia de

turistificação

No passado o papel das festas populares sagradas era o de renovar os vínculos entre o crente e a divindade, enquanto aquelas consideradas profanas tinham o papel de divertir, entreter, ou, em alguns casos, transgredir a ordem social estabelecida, como destacam alguns pesquisadores que serão trabalhados preliminarmente no primeiro capítulo. Na segunda metade do século XX, passou-se a enxergar as festas populares como um vetor turístico.

De acordo com pesquisas de Lúcia Aquino de Queiroz (2002), na cidade de Salvador já se faziam menções à racionalização temporal de algumas festas a partir de uma proposição de um calendário festivo na década de 1960. No entanto, a institucionalização da vocação turística a partir da exploração do patrimônio ambiental e cultural só viria no decênio subsequente. As várias facetas envolvendo a trama festiva, que pode se estender do caráter religioso para um comportamento orgiástico, do familiar ou comunitário à dimensão espetacular e mercantilizada, têm se constituído em objeto de estudos e pesquisas acadêmicas, notadamente de áreas relacionadas às Ciências Sociais e Humanas.

Dentre as várias manifestações festivas do calendário cultural brasileiro, destacam-se as festas juninas, pela sua importância como prática cultural arraigada no imaginário coletivo, notadamente na Região Nordeste do Brasil. Essa prática festiva, antes relacionada à dimensão comunitária e às festas na casa de familiares e amigos, ampliou-se e se tornou mais complexa, envolvendo diversos agentes e espaços. Comemora-se o ciclo junino na casa, na rua, com a família, com amigos, em grupos, em praças públicas ou em arenas festivas privadas. A partir, sobretudo dos anos 1970, esse novo desenho das festas do ciclo junino começou a ser esboçado pela da iniciativa de prefeituras, empresas, comerciantes e de segmentos dos governos dos estados como Bahia, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe, que passaram a investir na espetacularização das festas juninas como estratégia de projeção midiática e turística das cidades.

Consideradas o maior e mais importante evento festivo do interior do Nordeste, tanto pela sua dimensão espacial e seu raio de abrangência, como também pelos seus significados culturais reconstruídos ao longo do tempo, as festas juninas se tornaram efetivamente manifestações espetaculares. Diferentemente dos tradicionais megacarnavais metropolitanos como os de Salvador e de Recife que são mais pontualizados, concentrando-se em algumas importantes capitais brasileiras, as festas juninas apresentam uma dinâmica espacial mais difusa e mobilizam em diferentes intensidades quase que a totalidade dos municípios nordestinos, constituindo-se cada vez mais em uma importante oportunidade para se potencializar o turismo urbano de eventos.

Notadamente a partir da década de 1980, quando ocorre um incremento no turismo no território brasileiro, intensificou-se os processos de espetacularização das festas juninas no espaço urbano de algumas cidades do Nordeste brasileiro. Entretanto, não é apenas o caráter mercadológico que explica a dinâmica territorial, a natureza e o raio de abrangência destas festas juninas urbanas da atualidade; ao longo de uma de uma laboriosa pesquisa buscou-se compreender as especificidades dos festejos juninos urbanos em Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas, situadas no Recôncavo Sul da Bahia, como reinvenções do lazer festivo urbano e como eventos promotores de processos de desterritorialização e reterritorialização, determinando assim o surgimento de polos festivos do ciclo junino no território baiano. Empreendeu-se uma pesquisa acerca da dinâmica espacial do processo de espetacularização e das formas de reinvenção do lazer festivo no clímax do ciclo junino nas três cidades mencionadas anteriormente.

Essas três unidades urbanas foram escolhidas como estudos de caso, considerando-se que existem outras que apresentam festividades dessa natureza que destoam no contexto regional, por causa das especificidades desses eventos festivos que estão associados a determinados elementos e práticas dentro e fora do ciclo junino.

A cidade de Amargosa apresenta uma das tradicionais festas juninas espetacularizadas em espaço privado da Bahia ( “Forró do Piu Piu”) e procura associar a sua festa pública às potencialidades ecológicas e paisagísticas em uma dimensão turística.

A cidade de Cachoeira, além de ser uma das pioneiras na promoção de festas juninas concentradas no espaço urbano no Brasil, apresenta um São João urbano com peculiaridades estéticas e culturais, que os gestores públicos procuram associar ao patrimônio

edificado, à história cultural, ao simbolismo da Feira do Porto 1 e às potencialidades paisagísticas e ambientais.

Por causa da peculiaridade da guerra de espadas, 2 Cruz das Almas apresenta uma festa junina que notabiliza midiaticamente a cidade em âmbito nacional e, ao mesmo tempo, produz uma atmosfera conflitiva, de disputa territorial e de irreverência lúdica no espaço urbano. Por isso foi um dos polos juninos selecionados para um aprofundamento investigativo de cunho acadêmico. O potencial de midiatização associado às leituras culturais justifica, portanto, o recorte espacial desta pesquisa.

Nas últimas décadas, muitas cidades têm procurado investir na construção de uma imagem turística peculiar capaz de alavancar o city marketing. No entanto, como tornar turística uma cidade que não dispõe de atributos naturais, como a Chapada Diamantina, ou arquitetônicos, como Cachoeira, na Bahia, e Ouro Preto, em Minas Gerais? Se não existe uma tradição efetivamente construída pela coletividade sem uma intencionalidade gestionária específica, inventam-se tradições a partir de elementos culturais pré-existentes.

Dessa forma surgiu e cresceu a tradição das festas juninas urbanas concentradas e espetacularizadas na histórica cidade de Cachoeira no início da década de 1970, por iniciativa da Bahiatursa e em Cruz das Almas, onde acontece a quase secular guerra de espadas, bem como Amargosa, conhecida como cidade jardim. Nessas duas últimas cidades, as festas juninas urbanas foram uma iniciativa das prefeituras municipais.

Segundo Johan Huizinga (2005), a sistematização e regulamentação cada vez maior do esporte implicam na perda das características lúdicas mais puras. Considerando-se essa reflexão, pode-se afirmar que o excesso de normatização e racionalização espaço-temporal das festas juninas do presente contribuiu para a perda de importantes elementos da ludicidade ou representam uma forma de reinvenção da ludicidade urbana? Essa e outras questões serão desdobradas analiticamente no transcurso desse livro, a partir da leitura das festas juninas na área urbana de Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas.

 

Contextualização histórica, caracterização do

objeto de pesquisa e problematização

O Recôncavo Sul 3 é uma região econômica do estado da Bahia conhecida internacionalmente pela diversidade e densidade simbólica das suas festividades populares criadas e reinventadas pelo dinamismo sociocultural do povo brasileiro. Trata-se de festividades ligadas a elementos sagrados, míticos, profanos, políticos ou que congregam diferentes vertentes. Existe uma miríade de razões para se festejar: o santo de devoção, a padroeira do lugar, o aniversário da cidade, o carnaval, uma vaquejada, um rodeio. Assim como existe uma diversidade de motivos para se festejar na Bahia, especialmente no Recôncavo baiano, existe também uma diversidade de espaços festivos que foram sendo recriados, abandonados ou revitalizados pelos festeiros.

Segundo Fernando Pedrão (1998), desde o final dos anos 1960, após a quebra do sistema de infraestrutura que dava unidade e ligava o Recôncavo ao mercado de Salvador, o traço dominante dessa região foi a sua falta de dinamismo. Especificamente o Recôncavo Sul enfrentou, nas décadas de 1970 e 1980, a intensificação da crise fumageira que estimulou a pecuarização e a citriculturalização de parte do espaço agrário regional, bem como iniciativas pontuais de se instalar distritos industriais incipientes, atraídos por vantagens fiscais nos anos 1990 em cidades como Cruz das Almas e Santo Antônio de Jesus. Foi nesse contexto que surgiram as proposições de turistificação sazonal a partir das festas juninas.

Dentre as três cidades estudadas, Amargosa pode ser considerada como uma unidade urbana que gozou de um relativo dinamismo urbano e regional que se estendeu até as primeiras décadas do século XX. O núcleo urbano começou a se formar no século XIX. Inicialmente a referida localidade pertencia à vila de Tapera (atual município de Santa Terezinha), a partir de 1855 passou a se chamar Freguesia de Capela de Nossa Senhora do Bom Conselho das Amargosas.

Nesse contexto temporal inicia-se o período próspero do fumo e do café, que contribuíram para elevação daquela Freguesia à categoria de Vila de Nossa Senhora do Bom Conselho das Amargosas, em 1878, e a posterior emancipação política, em 1891, passando a se chamar Amargosa em um período no qual a produção cafeeira já era exportada para a Europa. O papel de Amargosa como importante ponto de conexão ferroviária que articulava as relações econômicas entre Jequié e Nazaré foi muito importante para a sua inserção como um importante centro regional nas primeiras décadas do século XX.

Segundo Santos (1963, p. 10):

Esta cidade […] tinha a função primordial de entreposto e

exercia a sua influência através de todos os municípios vizinhos

cuja economia estava na dependência do café e do fumo.

O rápido desenvolvimento assentado na produção agrícola e sua inserção na então importante malha ferroviária baiana fez com que Amargosa fosse considerada por Santos (1963) uma capital regional na última década do século XIX.

Zorzo (2007) destaca que a construção da ferrovia, cujo ramal se estendia até Amargosa, foi decisiva para o crescimento dessa cidade. O declínio da produção cafeeira no município ocorreu na razão inversa do incremento das pastagens para pecuária extensiva, notadamente a partir dos anos 1950, quando verificou um progressivo processo de concentração fundiária e de esgotamento dos solos.

Após a crise na produção cafeeira, a decadência da fumicultura e a desativação da estrada de ferro Jequié-Nazaré, a cidade de Amargosa entrou em um período de considerável declínio econômico, agravado notadamente após a construção da rodovia BR-101. Deve-se considerar, no entanto, que em Amargosa, estão localizados a 29ª Diretoria Regional de Educação e Cultura (DIREC) e a 29ª Diretoria Regional de Saúde (DIRES), que se constituem em circunscrições que centralizam atividades burocráticas relacionadas a duas modalidades de serviços básicos de grande importância, além de um Hospital, de uma Escola Agrotécnica Federal e mais recentemente, um campus da Universidade Federal do Recôncavo Baiano. Desta forma, a cidade não perdeu totalmente o seu papel de centro sub-regional. No espaço agrário de Amargosa ainda persiste o cultivo de alguns produtos que são resquícios do passado, como o café, que alimenta algumas unidades de torrefação locais, intercaladas por outras modalidades de cultivo, como o cacau e outras atividades econômicas como a pecuária leiteira e de corte. Na cidade, o comércio formal e o informal também são importantes. A feira livre local, que antes acontecia em uma praça cortada pela principal via estruturante urbana, foi transferida para uma área bem maior, onde se construiu um mercado municipal. A feira de Amargosa apresenta um raio de

abrangência sub-regional. 4

Na dimensão do catolicismo oficial romanizado, a cidade de Amargosa, no passado, passou a se constituir em um polo regional a partir da criação da Diocese em 1942. A Diocese de Amargosa estendia sua área de influência até a divisa da Bahia com Minas Gerais, e criou na década de 1940 o tradicional colégio interno Santa Bernadete, notabilizado pela boa qualidade de ensino, que atraía jovens estudantes do vale do Jequiriçá, do Recôncavo Sul e de outras regiões da Bahia e até de outras unidades da federação. O colégio interno foi desativado e a Escola Santa Bernadete foi incorporada à rede estadual de ensino. Em Amargosa também funcionou o seminário diocesano, que era uma preparação preliminar de jovens com vocação para o sacerdócio católico, que complementariam a sua formação religiosa estudando Filosofia e Teologia em outros lugares.

No seu apogeu, Amargosa chegou a manter laços econômicos com alguns países europeus através da conexão intermodal, inicialmente ferroviário até a cidade de Nazaré e posteriormente marítimo através de portos como o de São Roque do Paraguaçu. A influência europeia na cidade pode ser observada não só nas relações comerciais, como através de algumas edificações residenciais e do desenho arquitetônico da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Bom Conselho, inaugurada em 1936, na mesma década que se implantou o jardim da Praça Lourival Monte, que posteriormente viria a notabilizar aquela cidade no território baiano. Nesse período Amargosa era chamada de “pequena São Paulo”. Na década de 1940, no entanto, inicia-se um período de decadência econômica que se intensificaria em decênios subsequentes, provocado por vários fatores, como o declínio da importância do transporte ferroviário, que culminou com a sua desativação e a crise no cultivo cafeeiro provocado, sobretudo, pela exigência de despolpamento do café para exportação pelo Instituto Brasileiro do Café (IBC) e por uma doença chamada de “ferrugem do café”, que atingiu o principal produto agrícola do município. A crise fumageira no Recôncavo, que fechou vários armazéns, foi outro problema enfrentado pelo município em questão. Esses problemas em conjunto determinaram a erradicação dos cafezais de Amargosa, como lembra Lomanto Neto (2007).

Do ponto de vista da hierarquia urbana pretérita, pode-se afirmar que Amargosa foi um ponto nodal, articulador regional de uma modalidade de transporte, o ferroviário, que já teve a sua importância em um outro contexto econômico. O estrangulamento de importantes atividades econômicas associados à extinção da estrada de ferro contribuiu substancialmente para o declínio de Amargosa como centro comercial regional e, na razão inversa da sua marginalização espacial, notou-se um expressivo crescimento de outras cidades, a exemplo de Santo Antônio de Jesus. Trata-se de uma cidade de pequeno porte e de projeção sub-regional cujo desenho urbano apresenta uma configuração determinada pelo relevo acidentado. A área urbana apresenta edificações recentes mescladas com outras mais antigas, com um baixo índice de verticalização. As principais atividades terciárias se concentram no miolo urbano e ao longo de uma via arterial central que conecta a entrada da cidade à Praça Lourival Monte, onde se situa a igreja matriz; nessa via alongada desembocam importantes vias coletoras do sistema viário urbano.

Após a crise das suas principais matrizes econômicas, buscaram-se alternativas de desenvolvimento para Amargosa, como a pecuária extensiva, a industrialização incipiente e o turismo de eventos, como o São João, que atrai anualmente milhares de pessoas. Uma estratégia utilizada pela prefeitura foi buscar fazer uma ponte entre o turismo de eventos, através das festas juninas espetacularizadas em espaço público e em arena privada, e outras modalidades de turismo, como o ecoturismo e o turismo rural.

A cidade de Cachoeira é uma das mais antigas do estado da Bahia. A pequena nucleação urbana se formou as margens do rio Paraguaçu e passou a se chamar Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira. No auge do ciclo açucareiro, sobretudo no século XVIII e XIX, Cachoeira se transformou em um importante entreposto comercial que se conectava a outras importantes regiões econômicas do estado. A partir do fluxo de tropeiros que cortavam o Recôncavo Sul vindo do Sertão para o então importante porto fluvial da cidade em tela e da introdução da atividade fumageira, ocorreu um considerável crescimento populacional. A atividade fumageira trouxe uma nova dinâmica social e espacial para Cachoeira, mesclando-se com atividades produtivas pré-existentes. Segundo Brandão (1998, p. 40):

Não mais a partir da segunda metade deste século, quando a

expansão da rede rodoviária nacional e a integração do

mercado interno terminariam por marginalizar os velhos centros

de produção regional e por deprimir a imponente rede urbana

que envolve a Baía de todos os Santos. A política nacional de

abrir estradas fecharia mais tarde as ferrovias, deixando parado

no mar o “vapor de Cachoeira”.

Um conjunto de fatores concorreu para determinar a decadência regional de Cachoeira. A desativação do porto fluvial determinada, sobretudo pelo assoreamento do baixo curso do rio Paraguaçu e pela falta de investimento nessa modalidade de transporte, limitou as navegações flúvio-marítimas até a entrada da baía de Iguape na altura da cidade de Maragogipe, o que determinou o desaparecimento dos saveiros do porto de Cachoeira.

Outros fatores ligados à dinâmica espacial do sistema de transportes contribuíram para a decadência de Cachoeira foram à opção pelo rodoviarismo na década de 1960, que desprestigiou o sistema ferroviário a partir de então se limitaria ao transporte de cargas, e a construção, no início da década de 1970, da rodovia BR-101, diferentemente da antiga rodovia e ligava o sul da Bahia a Salvador, marginalizou espacialmente a cidade, passando a três quilômetros de distância. Todos esses fatores relacionados à acessibilidade urbana se somaram a outros de natureza socioeconômica, como a crise fumageira fechou vários armazéns no Recôncavo em cidades como Cachoeira, Amargosa e Cruz das Almas.

Para Milton Santos (1998 [1959]), o conjunto Cachoeira-São Félix

desempenhou no Recôncavo baiano5 um papel semelhante àquele de Nazaré do ponto de vista do dinamismo regional. Santos salienta que a consolidação de Feira de Santana, segundo maior cidade da Bahia, como importante entreposto comercial ocorreu concomitante ao declínio de centros urbanos tradicionais como Cachoeira e Santo Amaro. Com o incremento do rodoviarismo que deslancharia nos anos 1960 e o processual abandono das modalidades ferroviária e hidroviária no final dos anos 1950, ocorreu um rearranjo no sistema de transportes do Recôncavo. Segundo este autor:

O Recôncavo, passou, assim, a olhar para dentro,

comunicando-se com Salvador, sobretudo por terra. Enquanto

Cachoeira e Santo Amaro, portos debruçados sobre a água,

viam restringir a sua zona de influência e desciam da posição

de capital regional para a de centro local, Feira de Santana

passava a comandar a maior parte das relações no mesmo

território. (SANTOS , 1998, [1959] p. 85)

Santos destacou, no final dos anos 1950, a crise e a transição da dinâmica espacial da rede urbana do Recôncavo, determinando um rearranjo na hierarquia urbana, com o declínio da polaridade de Nazaré, Cachoeira e Amargosa nas décadas subsequentes e a consolidação de centros sub-regionais como Santo Antônio de Jesus. No entorno regional, os destaques são Feira de Santana e Alagoinhas. Segundo Costa Pinto (1958), o caminhão foi o grande competidor dos saveiros a partir dos anos 1950. Para esse pesquisador, a projeção econômica, social e política de outras localidades situadas em entroncamentos rodoviários foram a contrapartida do declínio de antigos portos e cidades ribeirinhas do Recôncavo, que correspondiam a um determinado padrão tradicional de economia regional.

Pode-se afirmar que o declínio de Cachoeira, a consolidação de Feira de Santana como capital regional na borda do Recôncavo e a emergência de novos centros urbanos dinâmicos no Recôncavo Sul da Bahia como Cruz das Almas e Santo Antônio de Jesus, configuraram uma relativa reversão da polaridade regional. Nesse contexto, a construção da BR-101, a pavimentação da BR-116 e a implantação do ferry boat, conectando a ilha de Itaparica a Salvador, teve um papel importante no redesenho da hierarquia urbana do Recôncavo.

Tombada como monumento nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1971, Cachoeira é a segunda cidade mais importante da Bahia do ponto de vista do conjunto arquitetônico barroco. Parte das suas edificações que estavam em estado precário, foi recuperada pelo programa Monumenta do Governo Federal (Ministério da Cultura) e financiado com verbas contraídas em empréstimo junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Um dos principais objetivos do Programa Monumenta, que atua em Cachoeira desde o ano de 2002, é restaurar e preservar as áreas prioritárias do patrimônio histórico e artístico urbano, bem como estimular a prática da conservação do acervo cultural por parte da população local. Um conceito trabalhado pelo programa Monumenta é o de recuperação sustentável, através do qual executam-se obras de conservação e restauro juntamente com medidas econômicas, institucionais e educativas que estimulem o uso social dos imóveis recuperados, para que, através da sua funcionalidade socioeconômica e cultural, vislumbre-se a sua conservação em caráter permanente.

Teoricamente pretende-se transformar a concepção de “redoma de vidro” atribuída ao patrimônio cultural material tombado, e associar a sua necessidade premente de conservação a uma funcionalidade supostamente sustentável. Busca-se assim fugir da patrimonialização museificante e petrificadora e estimular o uso de edificações históricas de forma racional, para que futuramente os altos investimentos na recuperação sejam pagos com retorno social e econômico através do uso misto dos imóveis.

Recentemente concluiram-se as obras de requalificação da orla fluvial de Cachoeira, que beneficiou de forma direta o espaço festivo do São João. A partir de intervenções urbanísticas e das estratégias de museificação da cidade, os gestores locais pretendem angariar mais elementos para melhorar a competitividade da festa junina urbana. Com os maciços investimentos do Governo Federal na conservação e restauro de imóveis tombados em Cachoeira, um eventual aumento no fluxo turístico agregando valor às edificações no seu conjunto ou individualmente pode ocorrer um processo de gentrificação? O Plano de Desenvolvimento Integrado do Turismo Sustentável da Bahia (PDITS ) – Polo Salvador e entorno, nas suas entrelinhas e de forma discreta, levanta esse questionamento. Acredita-se que o processo de gentrificação não se aplica a Cachoeira pelas especificidades da sua atividade turística que ainda é incipiente, fundamentalmente sazonal, apresentando picos em junho, com um raio de abrangência espacial predominantemente regional (Recôncavo Sul) e do entorno regional (Região Metropolitana e Paraguaçu), e em agosto, com a festa de Nossa Senhora da Boa Morte, quando o perfil dos visitantes varia da escala regional à global.

As principais atividades econômicas terciárias da cidade de Cachoeira estão localizadas no centro, onde predominam edificações históricas seculares. Á medida que se afasta do miolo urbano e do centro histórico, avistam-se edificações mais recentes e unidades residenciais vernaculares. A cidade apresenta ruas estreitas e uma morfologia orientada pela disposição do relevo e pelo rio Paraguaçu.

Nesse contexto, aumenta a importância de eventos culturais como o São João espetacularizado e a festa de Nossa Senhora da Boa Morte. Nesse contexto, aumenta a importância de eventos culturais como o São João espetacularizado e a festa de Nossa Senhora da Boa Morte.

Diferentemente de Amargosa e Cachoeira, que tiveram um passado mais destacável do ponto de vista da centralidade regional, a cidade de Cruz das Almas apresenta um dinamismo urbano relativamente recente. O surgimento da sua nucleação urbana inicial está relacionado ao trânsito de tropeiros no século XIX, que se deslocavam para o então importante porto de Cachoeira. Segundo alguns pesquisadores, o marco inicial da história de Cruz das Almas é o fincamento de uma cruz de madeira onde se situa a atual igreja matriz de Nossa Senhora do Bonsucesso.

O topônimo da cidade, portanto, se deve à tradição do catolicismo popular de se rezar para as almas, notadamente no entorno do referido símbolo sacro, em um local de grande visibilidade para os transeuntes. Segundo o escritor Mário Pinto da Cunha (1983), além da versão religiosa, o topônimo Cruz das Almas também pode ser relacionado ao saudosismo pátrio de alguns portugueses que teriam batizado aquele local fazendo referência à Cruz das Almas lusitana. As duas versões são aceitas como oficiais pelos gestores públicos locais.

O município de Cruz das Almas desmembrou-se de São Félix no ano de 1897, a partir da ação política do senador Temístocles da Rocha Passos e de Manoel Caetano Passos, que pertenciam a uma família que exerceria uma forte influência política no município, que se estenderia até os anos 1970. As atividades agrícolas assentadas no cultivo de culturas como o fumo, a mandioca e posteriormente a laranja, associadas à pecuária extensiva, contribuíram para o crescimento do seu efetivo demográfico e consequentemente da sua área urbana. A instalação da Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia (EA-UFBA) e do Instituto Agronômico do Leste (IAL) na década de 1940 colaborou para que a cidade aos poucos se tornasse conhecida no estado da Bahia.

Do ponto de vista da acessibilidade rodoviária, Cruz das Almas, assim como Santo Antônio de Jesus, foi beneficiada com a construção da rodovia BR-101 no início da década de 1970. O fumo foi atividade econômica de maior destaque do município, seguido da produção de cítricos, notadamente a partir dos anos 1980.

A cidade nos últimos, anos tem apresentado um dinamismo na oferta de cursos universitários e de pós-graduação, tanto na recém implantada Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) como também de pesquisa, na unidade da Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (EMBRAPA).

Apesar de apresentar uma estrutura industrial ainda incipiente, o comércio local tanto formal quanto informal e a oferta de algumas modalidades de serviços inserem Cruz das Almas na estratificação hierárquica do Recôncavo Sul da Bahia como um centro local de projeção sub-regional. Dentre os elementos que concorrem para a manutenção dessa relativa polaridade, destacam-se a realização de eventos de espectro regional das áreas de meio ambiente, educação e saúde; a realização da feira livre semanal e, na dimensão cultural, o viés festivo de caráter sazonal, como será abordado neste livro.

A cidade de Cruz das Almas apresenta uma área urbana plana, entornada por algumas depressões, com um limitado índice de verticalização, enquanto que o crescimento horizontal é expressivo. As principais atividades econômicas terciárias se concentram na área central, notadamente nas proximidades da praça principal.

As cidades de Amargosa e Cachoeira se destacaram no passado como centros regionais dinâmicos no estado da Bahia e apresentam, como ponto em comum, um declínio dessa polaridade, determinado por fatores de natureza econômica e espacial. Diferentemente dessas duas citadas, Cruz das Almas começou a apresentar um dinamismo urbano e sub-regional a partir de meados do século XX.

Entretanto, apesar das diferenças em termos de contexto histórico da projeção urbana, as três cidades apresentaram como ponto em comum a produção e o beneficiamento do fumo, atividade econômica que também declinou no Recôncavo baiano após sucessivas crises. Na atualidade, outra importante atividade econômica e sociocultural é comum a essas três unidades urbanas: a promoção de festas juninas espetacularizadas no espaço urbano.

Na década de 1990, algumas cidades do Recôncavo como Amargosa e Cruz das Almas procuraram se inserir na rota da interiorização do turismo baiano, a partir da exploração racional de manifestações festivas populares como o São João.

A cidade de Cachoeira foi uma das pioneiras no estado da Bahia na promoção de festas juninas concentradas no espaço urbano, iniciando seu ciclo junino a partir de um viés turístico no início da década de 1970, por iniciativa da Bahiatursa, enquanto que as outras cidades citadas anteriormente começaram quase duas décadas depois a organizar eventos da mesma natureza por iniciativa das municipalidades. No presente trabalho, objetiva-se analisar as especificidades da turistificação e da espetacularização das festas juninas no espaço urbano dessas três cidades.

Apesar das festas juninas se constituírem em um evento festivo que atinge praticamente todos os municípios nordestinos, o grau de espetacularidade e a dimensão espacial desses eventos determinou o surgimento de alguns polos festivos.

No presente trabalho, empreende-se uma leitura espacial das festas juninas urbanas especificamente em Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas. Algumas questões que se interpenetram e se complementam norteiam o enfoque analítico da pesquisa que resultou nesse livro: quais são os impactos desses eventos festivos nessas cidades? Como o city marketing e a imagem de “cidade-espetáculo” são explorados politicamente nas cidades de Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas? Como é produzida e vendida a ideia de cidade-espetáculo nas festas juninas? Qual a relação entre estratégias de “museificação” urbana através do chamado city marketing e as festas juninas em Cachoeira? Como se processam territorialmente as novas formas de reinvenção da ludicidade urbana em meio à espetacularização racional e mercadológica do lazer festivo junino na atualidade? Quais as especificidades da reinvenção da prática festiva das festas juninas em espaços públicos e privados? Como as festas juninas urbanas do Recôncavo Sul da Bahia se inserem no planejamento turístico para o estado da Bahia e nos planos diretores de desenvolvimento urbano de cidades como Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas? Como as festas juninas da atualidade engendram novos processos espaciais à dinâmica urbana na contemporaneidade, a exemplo da formação polaridade regional de natureza sazonal?

Inicialmente, parte-se da análise das festas juninas nas casas e no seu entorno residencial no passado e no presente para depois ampliar a abordagem para os festejos em arenas privadas, apesar das dificuldades de se conseguir dados sobre essa modalidade de evento. Analisam-se, em seguida, as festas em praças públicas, onde acontecem os principais eventos, para posteriormente fazerem-se as correlações entre as festas promovidas na dimensão da escala micro (local) para a regional (Recôncavo Sul) e extra-regional. O livro está estruturado em quatro capítulos. No primeiro, consideram-se os sentidos e significados do festejar a partir de contribuições de autores brasileiros e estrangeiros e da leitura de alguns aspectos das festas de São João, e aborda-se a relação entre as festas juninas do passado e do presente a partir da leitura da casa como lugar festivo ressignificado ao longo do tempo.

No segundo capítulo, partindo-se de acepções teóricas sobre o processo de espetacularização aplicado ao fenômeno festivo, analisa-se o processo de reinvenção das festas juninas em um contexto de mercantilização e turistificação dos lugares e das festas populares e o papel da iniciativa privada patrocinando festas juninas espetacularizadas nos três principais polos juninos do Recôncavo baiano. Destaca-se também o surgimento e territorialização das

festas juninas em arenas privadas.6

No terceiro capítulo, ponderam-se as especificidades do processo de espetacularização junina nos espaços públicos de Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas. Inicialmente contextualiza-se historicamente o surgimento das festas juninas nos polos festivos citados para, posteriormente, abordar-se a inserção desses eventos no desenho urbano da cidade, sua dinâmica espacial e composição estética. Destaca-se também o papel das especificidades locais/regionais na consolidação do lugar festivo no ciclo junino, destacando as peculiaridades culturais expressivas como as potencialidades paisagísticas de Amargosa, o patrimônio cultural material e imaterial de Cachoeira e a dinâmica territorial da guerra de espadas na área urbana de Cruz das Almas.

No quarto capítulo, analisa-se o papel das festas de São João na formação de polos festivos do ciclo junino no Recôncavo Sul da Bahia, bem como alguns aspectos atinentes a mobilidade dos festeiros juninos.

Procurou-se lastrear teoricamente a presente pesquisa a partir de autores contemporâneos como Gilles Deleuze, Félix Guattari, Henry Lefebvre, Jean Baudrillard, entre outros pensadores do século XX, da transição do pensamento estruturalista para o pós-estruturalista. Esta pesquisa acadêmica está assentada em concepções conceituais que norteiam questões como espetacularização urbana das festas juninas, marketing cultural urbano, a festa como território, a reinvenção do lazer festivo e as possibilidades de recriação da ludicidade urbana, que se constituem em temáticas emergentes e que merecem uma leitura mais sistematizada como processos urbanos dinâmicos da contemporaneidade.

A relevância desta pesquisa se constitui não só pela carência de estudos sistematizados de cunho acadêmico que contemplem a leitura das festas juninas espetacularizadas a partir da dimensão espacial em cidades de pequeno porte, como também pelo fato de representar uma contribuição ao planejamento das cidades que são palco de eventos festivos dessa natureza, levando-se em conta as especificidades culturais das unidades urbanas pesquisadas.