Da casa à praça pública: a espetacularização das festas juninas
Dinâmica e especificidades culturais das festas juninas espetacularizadas em espaço público
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Dinâmica e especificidades culturais
das festas juninas espetacularizadas
em espaço público
Neste capítulo, pretende-se dar continuidade à análise da dinâmica e especificidades das festas juninas espetacularizadas, a partir da leitura desses eventos em espaço público, nas cidades de Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas.
Um aspecto relacionado ao contexto de surgimento das megafestas populares do ciclo junino promovidas pelas cidades citadas é a relação entre o evento festivo e a questão cívica municipal ou nacional; as festas juninas concentradas em Cachoeira se iniciam em meio às preparações para as comemorações de um século e meio de independência do Brasil, enquanto que a gênese das festas juninas concentradas em Amargosa ocorreram nas comemorações do centenário. A euforia dos 100 anos de emancipação política de Cruz das Almas (no ano de 1997) foi utilizada pelos gestores daquela época para alavancar midiaticamente os eventos festivos espetacularizados na Praça do Parque Sumaúma.
Nos principais polos juninos do Recôncavo Sul, mesmo aqueles residentes que não fazem das festas juninas um negócio defendem a manutenção do evento, que funciona como um potencializador
topofílico 14 a partir da reinvenção de uma suposta identidade urbana, assentada em uma determinada especificidade local. É muito comum alguns moradores de Cruz das Almas afirmarem que a festa junina daquela cidade é a mais famosa da Bahia porque passa no Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão, reportagens ou imagens da guerra de espadas.
Em 2006, inspirando-se no São João de Campina Grande, considerado pelos seus organizadores o “maior do mundo”, a cidade de Cruz das Almas difundiu de forma enfática nos meios de comunicação o slogan de “o melhor São João do mundo”. Em Amargosa, não só os gestores como alguns moradores defendem a ideia de que aquela cidade promove “o melhor São João do Brasil”.
Em Cachoeira, algumas pessoas afirmam que aquela cidade “inventou o São João urbano e concentrado do Recôncavo” e atualmente promove a festa junina espetacularizada que apresenta a diversidade cultural mais expressiva da Bahia. Toda essa atmosfera de autoelogios é determinada por uma competitividade festiva que estrutura e ao mesmo tempo é estruturada pelos moradores dos principais polos festivos juninos, estando, portanto, diretamente relacionada com a autoestima topofílica dessas pessoas, em um contexto de reengenharia de uma suposta identidade local, determinada pela promoção da megafesta junina. As pessoas gostam de ouvir no rádio, ver na televisão ou nos jornais que a sua cidade está entre aquelas mais procuradas no ciclo junino, notadamente quando a opção do entrevistado vem precedida de elogios à festa e ao lugar sazonalmente festivo.
Nesse cenário de espetacularização das festas juninas, o intenso
fluxo de turistas de eventos extrapola a capacidade de carga15 de cidades que são polos festivos, chegando a dobrar ou mesmo triplicar o seu efetivo populacional. Essa massa festiva é em parte móvel, sobretudo, aqueles que moram no entorno regional e aqueles que optam pelo itinerário junino multiurbano. Por outro lado, existem aqueles que se fixam na cidade durante 2, 3, 4 dias ou até mais, hospedando-se na limitada oferta hoteleira de algumas cidades de pequeno porte. É exatamente a escassez de pousadas e hotéis que determinou o incremento de locação sazonal de imóveis residenciais, que foram credenciados junto aos órgãos públicos municipais para serem disponibilizadas para o aluguel, além de muitas outras que são alugadas informalmente.
A temática estruturante do capítulo que se inicia é a análise da dinâmica territorial das festas juninas, que indica claramente a priorização da categoria conceitual “território” para nortear as abordagens ao longo deste trabalho. Ao se partir de acepções conceituais como territorialização para analisar as festas populares, aborda-se esses eventos tanto como intangíveis, quanto como materializações visíveis demarcando espaços públicos ou privados.
As potencialidades paisagísticas de Amargosa, arquitetônicas e paisagísticas de Cachoeira e a polêmica pirotecnia lúdico-festiva das batalhas de espadas de Cruz das Almas se constituem em potencialidades locais que podem ser conhecidas em uma dimensão escalar regional, extrarregional ou mesmo nacional. Como esses elementos são utilizados na retórica oficial das municipalidades com vistas a incentivar uma atividade turística a partir do São João espetáculo como evento estruturante? Como essas especificidades culturais são dimensionadas midiaticamente para produzir uma imagem-síntese da cidade no contexto do ciclo junino? Quais são as peculiaridades no desenho e na dinâmica das festas juninas espetacularizadas no espaço público de Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas? As respostas para esses questionamentos estimulou o pesquisador a enveredar-se pela leitura das especificidades das festas juninas na área urbana dos principais polos festivos juninos do Recôncavo Sul.
Da tradicional feira do porto à tradição da festa
junina concentrada em Cachoeira
A centenária Feira do Porto emprestou seu nome à festa junina urbana mais famosa e badalada da Bahia nas décadas de 1970 e 1980. Com a desativação do porto de Cachoeira e a expansão dos supermercados em pequenas cidades, que passaram a vender produtos agrícolas, a Feira do Porto não desapareceu totalmente, mas foi redimensionada do ponto de vista espacial e funcional. Se antes o seu papel como evento socioeconômico se equiparava com a sua dimensão sociocultural, na atualidade, no entanto, a feira apresenta uma importância cultural maior que econômica. O dinamismo da Feira do Porto de Cachoeira era e ainda é determinado pelos elementos de natureza festiva como o ciclo junino. No passado, este mercado periódico era mais movimentado quando a dinâmica meteorológica ajudava, trazendo chuvas abundantes no mês de março, quando ocorrem as principais plantações de produtos agrícolas típicos do ciclo junino, como amendoim e milho, além de outros que eram comercializados como aipim, cana-mirim e cítricos.
Outros fatores que aqueciam as vendas era o movimento na estação ferroviária e o transporte fluvial ativo até o final da década de 1960. Comercializam-se artefatos cerâmicos, roupas e miudezas em um espaço festivo, dessa forma depreende-se que o caráter lúdico-festivo imiscui-se na Feira do Porto ao longo de algumas décadas do século XX e continua mesclando-se, configurando assim a especificidade da festa junina de Cachoeira. Por outro lado, existem aquelas pessoas que contestam o dinamismo cultural que transforma a feira e afirmam de forma enfática que o referido mercado periódico extinguiu-se, restando apenas um comércio informal residual como pastiche turistificado de uma dinâmica sociocultural do passado e vivendo às expensas da grife junina e da notabilidade da cidade como patrimônio arquitetônico nacional.
A retirada dos saveiros e a concorrência com outros mercados formais e informais, periódicos ou não, produziram uma outra Feira do Porto em um outro contexto temporal, no qual se verifica a inserção de outros elementos, como o incremento turístico.
A cidade de Cachoeira foi uma das pioneiras na promoção de festas juninas espetacularizadas no espaço urbano. Segundo a revista Viver Bahia, a primeira experiência festiva dessa natureza ocorreu no ano de 1972 por iniciativa da Bahiatursa em um período de recente tombamento da cidade como patrimônio nacional, na administração do prefeito Ariston Mascarenhas.
Desde a primeira edição a festa é realizada na Rua Virgílio Reis que margeia o rio Paraguaçu, aproveitando-se de todo o simbolismo cultural da tradicional Feira do Porto, que apresentava um raio de abrangência regional e onde se comercializavam produtos juninos típicos. O auge da Feira do Porto como mercado periódico de espectro regional ocorreu no período da conexão multimodal do sistema de transportes de Cachoeira, quando havia uma intensa movimentação de transeuntes entre a estação, o ponto de ônibus e o então importante porto fluvial.
Nos anos 1970, quando o rodoviarismo se consolida, as opções hidroviárias e ferroviárias são extintas, a festa junina no porto inicia o seu ciclo com concursos de quadrilhas, de barracas, samba de roda, trança-fita e outros folguedos populares. A Bahiatursa patrocinou e organizou, através de uma equipe técnica, a festa junina de Cachoeira, contribuindo de forma decisiva para a turistificação do evento. A partir de meados da década de 1970 essa autarquia, promotora do turismo na Bahia, começou aos poucos a passar a realização do evento para a prefeitura local.
A Feira do Porto era chamada por algumas pessoas de Feira de São João, em um período no qual esse espaço de circulação de mercadorias e pessoas era consideravelmente potencializado durante o ciclo junino. Nas festas concentradas realizadas na orla fluvial, a parte religiosa, ainda existente até hoje, restringe-se ao tríduo junino, três dias de rezas e cânticos, que é realizado em uma pequena capela improvisada em meio à espetacularidade da festa profana, configurando-se assim como prática devocional residual. Para alguns fiéis, o importante não é a dimensão física do templo e sim o significado simbólico e sagrado da prática religiosa que expressa a fé.
Pode-se afirmar que ao longo dos anos as práticas devocionais ligadas ao sagrado no período junino, do ponto de vista da sua forma espacial de projeção pública, decresceram, ao passo que o nível de espetacularidade apresentou um incremento dinâmico na razão inversa desse refluxo devocional. Segundo depoimentos de alguns moradores de Cachoeira, no passado realizava-se no dia 24 de junho, uma missa para São João Batista na Igreja do Carmo. Posteriormente, esse evento religioso passou a ocorrer na igreja matriz da cidade, para onde foi transferida a imagem sacra de São João Batista.
Em Cachoeira a parte religiosa da festa junina acontecia em uma das principais edificações da zona urbana e no topo da hierarquia dos templos católicos locais. Os elementos sagrados não desapareceram com a espetacularização turística promovida inicialmente pela Bahiatursa e posteriormente pela prefeitura de Cachoeira, mas foram recriados simbólica e espacialmente.
Na propaganda da festa junina de Cachoeira do ano de 1975, divulgada em jornais impressos, a expressão “Feira de São João” ainda era usual. Com o transcurso do tempo, essa expressão foi deixando de ser utilizada na mesma proporção em que declinava a concepção de sacralidade do ciclo junino. Apesar das modificações nos sentidos da Feira do Porto, os gestores públicos locais sempre procuraram amarrar esse evento cultural à promoção turística da festa junina. Deve-se lembrar que a prática de valorização das peculiaridades do lugar é imprescindível com o incremento turístico nos anos 1980 e 1990, uma vez que alimenta o fluxo sazonal de visitantes; como se salientou anteriormente, existe uma camada de turistas que procuram o diferente, a diversidade cultural.
O ciclo junino em Cachoeira é iniciado com festas religiosas em homenagem a Santo Antônio, comemorado de forma difusa nas casas da área urbana e da zona rural. A segunda etapa é o clímax espetacularizado com a festa de São João e a Feira do Porto formando um evento cultural integrado que é fechada com a festa no dia 25 de junho, quando se comemora uma das mais importantes etapas da luta pela independência do Brasil do colonialismo português, por isso essa é a data cívica mais importante da cidade. O ciclo junino se fecha com as festas religiosas em homenagem a São Pedro, realizadas na casa de alguns devotos e com a festa profana no distrito de Santiago do Iguape.
Antes da turistificação, a partir da ação do estado instituindo o São João concentrado no início da década de 1970, a Feira do Porto correspondia a um evento não só de caráter meramente socioeconômico como também lúdico. Tanto moradores de Cachoeira, quanto pessoas de outros municípios e transeuntes utilizavam o espaço da orla do rio Paraguaçu e seu entorno imediato para comprar, conversar, participar de rodas de samba como observador ou mesmo participante; outros flanavam de forma descontraída por entre as barracas, ou seja, não havia uma intencionalidade institucional por parte dos órgãos públicos da esfera estadual ou municipal no sentido de racionalizar espaço-temporalmente o uso da Feira do Porto com fins turísticos.
Para alguns moradores de Cachoeira, a Feira do Porto acabou, ou seja, essas pessoas não veem na atual feira, na qual se vendem produtos cerâmicos, aquela feira cultural dos anos 1950 e 1960, por exemplo, quando a relação desse mercado periódico urbano com as festas de São João era mais orgânica por causa da venda dos produtos juninos. Evidentemente que a turistificação ou a mercantilização de um evento retira alguns aspectos ou práticas que se consideram desnecessárias e adiciona outros elementos que nem sempre são palatáveis para alguns festeiros mais idosos.
A dinâmica cultural da atualidade faz com que muitas transformações se acelerem notadamente no espaço urbano, e formas de se expressar corporalmente, musicalmente, ou formas de produzir a estética da festa são criadas, recriadas ou suprimidas de forma mais rápida do que no passado. Segundo o professor Luiz Cláudio do Nascimento, se no passado a festa junina existia em função da feira, no presente a feira existe em função da festa. Essa ponderação é pertinente e fundamentada na medida em que, com a desativação do porto e o surgimento de novas modalidades de atividades econômicas a feira, como mercado periódico, sofreu um processo de readequação e refuncionalização espaço-temporal. Pode-se afirmar que um evento cultural engoliu outro? Não se partiria dessa perspectiva fatalista e abrupta assentada em uma suposta “fagocitose cultural”. Acredita-se que uma transformação cultural seja determinada por fatores de ordem socioeconômica e de natureza comportamental, que redimensionaram espacial e culturalmente tanto a Feira do Porto como atividade econômica, quanto as festas juninas no porto como um evento cíclico.
Figura 4
A festa e a feira cultural se mesclam no São João de Cachoeira
Fonte: (CASTRO , 2006)
Mesmo antes da turistificação da festa junina, muitas pessoas se deslocavam de Salvador para passar o São João em Cachoeira. Muitos jovens soteropolitanos aproveitavam e se divertiam no período junino, tanto na prática festiva itinerante, quanto soltando balões, o que era permitido nessa época. Essas formas de vivência do ciclo junino diminuíram a sua intensidade e coexistem com outras práticas no período pós turistificação.
Pode-se afirmar que a Bahiatursa, ao tomar a iniciativa de organizar o São João de Cachoeira, formalizou as festas juninas daquele município a partir da racionalização turística? De acordo com as concepções de Deleuze e Guattari (1997a), que consideram o estado como máquina de captura racionalizada e racionalizadora, acredita-se que a partir do início da década de 1970 o São João urbano da Feira do Porto passou a apresentar características do espaço estriado, verificada no uso do espaço público, e por outros fatores, como formação e apropriação pelos sujeitos envolvidos com o evento festivo, controle do tempo, ordenamento programático das exibições dos folguedos populares, priorização do ponto e canalização de percursos.
As festas juninas, concentradas em Cachoeira, deixaram de ser um conjunto de pequenas festividades predominantemente difusas, móveis e espontâneas para se transformar em um evento concentrado, fixo e planejado. Nos seus interstícios também aconteciam as microfestas, a espontaneidade dançante e estética, a priorização da mobilidade lúdica em relação à fixidez do ponto. Não existia, nem existe, essa compartimentação espaço-temporal entre a trama festiva junina acentrada, do espaço liso, e a racionalizada, hierárquica, do espaço estriado.
Após o início das festas juninas concentradas na Rua Virgílio Reis, o São João de casa em casa continuou acontecendo, todavia, a grande festa da orla do rio Paraguaçu redesenhou fluxos interpontuais que tinham uma lógica espacial, antes de 1972, fundamentalmente assentada na natureza difusa dos deslocamentos dos grupos que se interpenetravam. A Feira do Porto era local de passagem obrigatória como espaço cultural e mercado periódico informal. A partir do início dos anos 1970 passou a ser também o principal espaço festivo, ponto de partida e chegada para foliões juninos da cidade e de outras localidades, notadamente de Salvador.
Em algumas edições da Feira pós anos 1970, parte da população de Cachoeira, que não se beneficiava de forma direta com a turistificação da festa, sentia uma sensação de estranhamento durante o período junino, determinado pelo grande afluxo de visitantes e pelo discurso dos meios de comunicação, que enfatizavam o caráter turístico da cidade no referido período, como consta no trecho da matéria publicada no jornal A Cachoeira (1976, p. 1):
Cachoeira tem se constituído na grande atração para os turistas
nas férias juninas. Com o progresso a festa de São João foi
perdendo o seu brilho na capital passando o interior a ser sede
dos festejos. E Cachoeira oferece, sem dúvida alguma, o
melhor São João que cresce de animação a cada ano, graças,
sobretudo, ao apoio que vem recebendo da Bahiatursa. As
agências de turismo do país vendem excursões para a Cidade
Heróica e este ano os preparativos começaram cedo.
Diferentemente do centro sul do Brasil, o período festivo mais importante do ponto de vista da mobilização da população urbana e rural na região Nordeste é o ciclo junino. Até a década de 1980, as férias escolares do mês de junho na Bahia eram de quase um mês. Por esse motivo muitas pessoas residentes em Salvador se deslocavam para casas de parentes no interior do estado, a fim e “passar o São João”, fazendo uso da expressão regional, o que agradava muito tanto as crianças quanto os adolescentes e os próprios adultos que viam as festas juninas definharem como prática lúdica na grande cidade, na razão inversa do crescimento metropolitano da capital baiana.
Parte da população local participava de forma mais ativa do São João urbano de Cachoeira, através dos concursos de fogueira e de decoração, que eram estimulados pela Bahiatursa. Tratava-se claramente de uma estratégia para integrar moradores e seus respectivos lugares de moradia ao circuito festivo junino, cujo espaço estruturante e estruturado era a orla fluvial. A inserção dos bairros na logística daquele evento cultural proporcionaria uma dimensão mais horizontal a um evento concebido, planejado e concretizado a partir de um viés verticalizante.
Assim que a Bahiatursa iniciou as edições das festas juninas concentradas em Cachoeira, uma das preocupações foi a promoção de um evento capaz de valorizar e divulgar o patrimônio cultural material e imaterial daquele município, preservando-se suas especificidades locais, para que aquelas festividades no seu conjunto consolidassem um novo polo turístico que despertasse interesse nos seus visitantes, na medida em que esses pudessem encontrar elementos e práticas do ciclo junino, diferentes daquelas vistas em Salvador, em um espaço urbano que em muito se assemelha ao Pelourinho, sítio histórico mais importante da capital baiana. Cachoeira teria assim o seu espaço no circuito turístico da Bahia, que se desenhava nos anos 1970, não como uma hinterlândia cultural periferizada em relação a Salvador, mas como um espaço turístico complementar à capital do estado e com “vida própria”. Visando à consignação dos seus propósitos, a equipe da Bahiatursa via nas festas juninas o grande evento impulsionador dessas metas.
Na iminência de organizar a quarta edição do evento festivo junino, foi publicada uma matéria em um importante jornal A Cachoeira (1975) na qual se nota preocupação com a preservação de algumas peculiaridades culturais da Feira do Porto:
Durante a feira as barracas só poderão vender produtos juninos
como licores, pamonhas, amendoim, milho cozido e comidas
típicas da região e só poderão executar em suas vitrolas
músicas do ciclo junino, para maior autenticidade das festas.
Também será proibido o uso de atabaques no interior das
barracas e na área da festa porque não se trata de uma festa
de largo, e sim, de uma festa junina, onde o principal elemento
é o forró [...].
Ao se incentivar a venda de produtos juninos típicos da região, buscava-se tanto manter o papel de mercado periódico de espectro regional exercido pela Feira do Porto, quanto consolidar culturalmente a festa junina imiscuída na feira noturna, como um evento de projeção transrregional.
A atitude preservacionista em relação ao forró e supostamente castradora em relação às músicas consideradas de festa de largo, revela o interesse de buscar na autenticidade musical e na peculiaridade dos folguedos populares locais, uma suposta identidade cultural dos festejos juninos de Cachoeira. Assim, impulsionava-se para os patamares superiores do circuito turístico, cultural e festivo baiano a fim de que a cidade não se transformasse em um apêndice cultural de Salvador.
No ano de 1980, a Bahiatursa já explicitava na sua revista oficial de turismo, a preocupação com uma eventual descaracterização da Feira do Porto:
A feira e a festa tem crescido muito nos últimos anos, levando
os organismos estaduais ligados ao turismo à preocupação com
o perigo da sua descaracterização pelo igualamento às demais
festas que integram o famoso ciclo de festas populares da
Bahia, desenvolvido entre os meses de dezembro a março.
(REVISTA VIVER BAHIA, p. 20, 1980)
A mesma entidade governamental responsável pela promoção turística do São João de Cachoeira é aquela que explicita a sua preocupação com uma possível descaracterização desse evento, fortuitamente engendrada pela turistificação exacerbada que comprometeria a peculiaridade festiva das festas juninas. Entretanto, essa postura da Bahiatursa não pode ser considerada por um lado, como paradoxal, na medida em que essa empresa buscava fomentar o turismo em uma cidade tombada pelo Instituto do Patrimônio Artístico Nacional. Racionalmente explorava-se suas potencialidades históricas e arquitetônicas na dimensão do patrimônio tangível, como também as suas manifestações culturais, do ponto de vista de suas respectivas peculiaridades e espontaneidade. Por outro lado, esse órgão estatal inventou a tradição do São João urbano, concentrado-o na orla fluvial de Cachoeira, que ainda é visto por alguns moradores antigos como um evento festivo destoante no calendário cultural local, por causa da sua natureza espetacular e estética.
Ao se alterar a matriz programática da Feira do Porto, ampliando os espaços para músicas não juninas, em detrimento da musicalidade junina tradicional, confirma-se a tese da “carnavalização” ou “micaretização” do São João urbano de Cachoeira no início dos anos 1980? Pode-se afirmar que ao optar pela musicalidade, performances dançantes e estéticas das festas de largo de Salvador, mesclada a folguedos locais como o samba de roda, admite-se a forte influência cantante, brincante e dançante da capital baiana no Recôncavo, mas, no mês de junho a centralidade festiva baiana é polinucleada.
Pelas suas especificidades festivas, os organizadores do São João de Cachoeira sempre se preocuparam em manter ou ampliar a noção de polaridade festiva e cultural, por isso continua atraindo milhares de visitantes de Salvador.
Na década de 1990, o caráter cultural, folclórico e pitoresco das festas juninas de Cachoeira passou progressivamente a ser mesclado com práticas ligadas a festas de largo ou mesmo de carnaval fora de época, como estratégia para proporcionar mais competitividade à festa junina concentrada em meio a um contexto estadual e regional no qual se notava o surgimento de outros polos festivos, a exemplo de Amargosa e Cruz das Almas. Na composição programática das festas juninas nas gestões dos prefeitos pós-1990, imiscuíram entre os folguedos populares e o forró tradicional uma musicalidade híbrida como o axé music, tipicamente baiano, pagode carioca e o forró eletrônico emergente, oriundo de outros estados nordestinos.
A data cívica mais importante de Cachoeira é o dia 25 de junho, quando se comemora a resistência daquela cidade à colonização portuguesa, através da delimitação do território livre do domínio de Portugal, após a Câmara de Cachoeira proclamar D. Pedro I como príncipe regente do Brasil, em 1822. Instalou-se naquela cidade uma junta provisória responsável pela administração da província e em seguida o governo provisório da Bahia. No dia 25 de junho, ocorre o crepúsculo junino em muitos polos festivos importantes que não comemoram o São Pedro (dia 29 de junho). A cidade de Cachoeira promove o gran finale das festas juninas da área urbana, com uma apresentação cívica que corta a cidade na sua área central, até a Praça da Aclamação, onde fica a Câmara de Vereadores, bordejando assim a concentração de foliões no espaço festivo da Avenida Virgílio Reis.
As atividades solenes para homenagear o dia 25 de junho aparecem imiscuídas em meio à dimensão folclórica e turística do São João. No contexto das festividades juninas de Cachoeira, o sentimento topofílico da escala micro se destaca com a valorização do lugar turístico que destoa em relação a outras unidades urbanas regionais.
O sentimento de afeição patriótica na escala nacional fervilha, interpenetra-se, dialetiza e se complementa. A Feira do Porto como segunda festa popular mais importante da cidade, projeta Cachoeira midiaticamente e abre o ciclo junino espetacularizado que, no espaço urbano, é fechada, com o desfile das imagens da Cabocla de São Félix e do Caboclo de Cachoeira, no dia 25 de junho, em um evento que mescla o mítico, o folclórico, o político e os elementos festivos tipicamente juninos, como comprova o trecho do jornal A Cachoeira (1979) de circulação local:
Conheça as mais belas tradições de nossa Pátria. Cachoeira e
seu voto te esperam. Calor humano das fogueiras juninas.
Venha aquecer a alma e o coração no crepitar das fogueiras
cívicas da Cachoeira, nos brasões heróicos e patrióticos da
grande pioneira das lutas da independência nacional.
Os eventos festivos podem expressar comportamentos, posturas, visões de mundo de um povo, como um constructo social incessante e que apresenta uma importante dinamicidade transformativa. Através das práticas festivas, podem-se externar escaramuças político-regionais históricas, como a rivalidade entre Cachoeira e São Félix, que já foi mais contundente no passado, ao ponto de alguns jovens de Cachoeira se recusarem a participar de festas em São Félix ou até a exclusão dessa cidade no seu itinerário junino no São João inter-residencial. Rivalidades bairristas, civismo, religiosidade, práticas míticas e folclóricas se interpenetram nas festas juninas de Cachoeira, que se destacam principalmente pela diversidade cultural das suas manifestações culturais.
Papel das manifestações culturais locais e
regionais na festa junina de Cachoeira
A cidade de Cachoeira se constitui no segundo mais importante conjunto arquitetônico do estado da Bahia, notabilizado pela sua diversidade e potencializado esteticamente pela sua localização geográfica, ou seja, ao patrimônio cultural edificado soma-se o patrimônio natural e paisagístico do entorno. Neste quadro material destaca-se uma miríade de manifestações culturais festivas e religiosas conhecidas internacionalmente como a festa de Nossa Senhora da Boa Morte, de projeção regional, nacional e global e a festa junina urbana na sua orla fluvial. Esses eventos culturais se constituem no espaço-tempo de maior visibilidade para importantes manifestações culturais locais/regionais, como o samba de roda, tombado como patrimônio imaterial brasileiro em 2004, e em 2005 inscrito na relação das obras primas do patrimônio oral e imaterial da humanidade pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (BRASIL, 2006).
Na composição programática do São João de Cachoeira nota-se uma mescla de atrações de inserção na grande mídia com as manifestações culturais locais, sendo que a prioridade é para as primeiras. Alguns folguedos do início dos anos 1970 ainda estão presentes como prática cultural ativa, outros foram incorporados à festa concentrada ao longo do tempo como o samba de roda e o
grupo cultural Esmola Cantada16 17 e o “Segura véia”. Alguns se mantêm como práticas residuais ou como exibições esporádicas, intermitentes, ou mesmo quase extintas, como desafio de violeiros, trança-fita e brincadeiras infantis, como o quebra-pote.
Certas modalidades lúdicas festivas do ciclo junino que ocorreram em Cachoeira nas décadas de 1970 e 1980 foram retomadas e atualizadas por outros polos juninos da atualidade, como as dramatizações satíricas, nas quais se encenam situações pitorescas do cotidiano rural de pequenas cidades fictícias, e a literatura de cordel, que foram adotadas pelos organizadores das festas de Amargosa, nos anos de 2006 e 2007.
As manifestações culturais locais, os grupos de samba, o bumba-meu-boi e os folguedos esmola cantada se apresentam geralmente à tarde ou no início da noite. Apesar do tradicional samba de roda de Cachoeira se apresentar em outras festas populares, o São João pode ser considerado o evento através do qual se atinge o ápice da visibilidade pública e midiática. Todos os folguedos que se apresentam em Cachoeira são ativos, ou seja, fora do ciclo junino se apresentam no próprio local de origem, em outros bairros de Cachoeira, como também em outros municípios da Bahia. No passado já se colocou experimentalmente o samba de roda e outras apresentações locais no chamado “horário nobre” do espetáculo junino que é a partir das 22 horas. Entretanto, os organizadores voltaram atrás alegando perda de competitividade da cidade frente aos polos juninos consolidados, como Cruz das Almas e Amargosa, e emergentes, como São Gonçalo e São Francisco do Conde.
Nota-se claramente que a opção dos promotores das festas juninas de Cachoeira é conciliar o viés cultural das festividades juninas sem abrir mão da competitividade urbana cíclica, assentada na turistificação de eventos e alimentada pelas chamadas grandes atrações do forró eletrônico.
Além da necessidade de valorização dos folguedos populares como práticas culturais locais que deveriam nortear a matriz programática das festas populares de polos juninos como Amargosa e Cachoeira, deve haver um reconhecimento dessas práticas como ressonância cultural de uma determinada comunidade.
Um aspecto marcante no São João de Cachoeira é a relação entre folguedo musical, o seu lugar de origem e as matrizes culturais nas quais se inserem: Samba de Roda Filhos do Caquende; Samba de Roda Filhos de Nagô e Filhas de Yasmim; Samba de Roda Filhos do Varre Estrada (São Félix); Samba de Roda Filhos de Ogum, entre outros. O nome dos grupos de samba de roda representa uma homenagem à toponímia ao local de origem, que corresponde ao espaço onde habita a maioria dos integrantes ou então o local onde foi fundado aquele grupo musical e que, por isso, se constitui em lugar pela sua dimensão histórica, identitária e relacional, conforme proposição de Marc Augé (1994).
Essa leitura do lugar a partir do folguedo é topológica, toponímica, transtemporal e transcendental, estando relacionado à ancestralidade em uma dimensão mítica e étnica, por isso aparecem denominações ligadas aos cultos de matriz afro-brasileira. Mesmo para aqueles moradores de Cachoeira que não frequentam o espaço festivo no período junino, a menção dos nomes das manifestações culturais musicais, dançantes ou cantantes, de determinadas ruas da cidade é motivo de orgulho.
Nesse contexto de valorização toponímica dos folguedos e grupos culturais que se apresentam ou já se apresentaram no São João de Cachoeira, existe também o samba de roda Filhos do Varre Estrada, um bairro situado às margens do rio Paraguaçu, na cidade de São Félix, que, apesar da histórica de rivalidade entre as cidades, publicizou suas performances estéticas em algumas edições da festa junina de Cachoeira.
Os grupos culturais levam, para o público e para a mídia no tempo/espaço festivo do ciclo junino urbano, o topônimo de origem que dá nome ao folguedo, a sua ginga dançante, ou faz menção ao seu bairro em letras de forte conotação telúrica e bairrista, como nos trechos entoados pelo grupo Esmola Cantada:
Da ladeira da cadeia eu cheguei pra vadiar, Pra vadiar, eu cheguei para vadiar, Da ladeira da cadeia eu cheguei pra vadiar, Pra vadiar, eu cheguei para vadiar.
Da ladeira da cadeia eu cheguei pra vadiar,
Pra vadiar, eu cheguei para vadiar,
Da ladeira da cadeia eu cheguei pra vadiar,
Pra vadiar, eu cheguei para vadiar.
Ê beira do rio camarada, quem te ensinou vadiar?
Quem te ensinou? Quem te ensinou vadiar?
Ê beira do rio camarada, quem te ensinou vadiar?
Quem te ensinou? Quem te ensinou vadiar?
Cachoeira, eu moro em Cachoeira,
Eu moro em Cachoeira, na Ladeira da Cadeia.
Cachoeira, eu moro em Cachoeira,
Eu moro em Cachoeira, na Ladeira da Cadeia.
(GRUPO ESMOLA CANTADA)
Evidentemente que as festas juninas concentradas no espaço urbano dos principais polos festivos baianos são engendradas a partir de um dirigismo vertical que se contrapõe à experienciação direta, que seria um antídoto contra o viés espetacularizante da cidade cenografizada da contemporaneidade, como destaca Jacques (2006). No entanto, em meio à espetacularidade das festas juninas, existe o explícito desejo de determinadas manifestações culturais de fazerem apologia ao lugar, não como espaço funcional, mas como elemento cultural multi-identitário.
A expressão vadiar utilizada em rodas de samba do Recôncavo, não está relacionada à ociosidade ou preguiça de um suposto vadio; relaciona-se à ludicidade assentada na mobilidade ora errante ora direcionada do sujeito. Pode-se vadiar no sentido flâneur solitário ou na perspectiva grupal, em rodas de samba entre familiares e amigos, ou em meio à trama estética da espetacularidade das festas juninas de cidades como Cachoeira.
Como revela a música, a conotação interpontual do deslocamento do folguedista/folião, do bairro da Ladeira da Cadeia para o espaço festivo, é um indicativo de que não se trata de um deslocamento totalmente fundamentado em um estado de efêmera desorientação espacial; trata-se de um trajeto que se alterna incessantemente do canalizado e pontualizado, quando se dirige para a festa e daí para o palco ou no seu retorno para casa, ou, por outro lado, parcialmente errante quando ocorre a circularidade pela cidade ou pelo espaço festivo e seu entorno.
A apologia topofílica aparece imiscuída nas letras das músicas e, por isso, depreende-se que muitas pessoas que questionam a matriz programática ou a natureza da musicalidade, apresentada no ápice das festas juninas concentradas, aceitam a cooptação das manifestações culturais de bairro e cantam os seus respectivos recortes espaciais e afetivos de experiência.
A relação dos sambas de roda com as festas juninas não é uma exclusividade de Cachoeira. Mesmo em uma metrópole como Salvador, local de forte escapismo urbano no período junino, alguns bairros mantêm a tradição de imiscuir performances dançantes do samba baiano nas festas de São João, a partir de um viés topofílico, como mostra os trechos das músicas a seguir:
CORTEJO JUNINO EM SALVADOR
Pisei na brasa dessa fogueira
Pisei na cinza desse fogueirão
Vou pro Engenho Velho da Federação
E lá, vou curtir meu São João
No São João, vai ter cortejo e licor
Vai ter canjica, sinhá
Solta o rojão, meu sinhô
Me leva, me leva
Para a casa de dona sinhá
Me leva, me leva
Para curtir o São João em Salvador
Me leva, me leva
Para curtir o São João com meu amor.
(LETRA DE QUEINHO PINTO)
EU VOU SAMBAR POR AÍ
Eu vou sambar o sambar
O samba que vem lá do Ogunjá
A minha fogueira queimando
É noite de São João
A minha sanfona tocando
Lembrando o Rei do Baião
No céu vai subindo o balão
Levando mensagem a São Pedro
E diga que o zumbaê
Na viver melhor que é porradão.
(LETRA DE ZINGO DE OGUM)
Fonte: (FERNANDES, 2007)
Engenho Velho da Federação e Ogunjá são dois bairros populares de Salvador que, a despeito do intenso processo de metropolização da capital baiana, mantêm algumas festas populares ligadas à dimensão da ludicidade não estriada mercadologicamente.
Dentre as facetas das manifestações desses bairros, destacam-se os sambas juninos que fazem uma apologia ao lugar de origem nas letras das músicas e ao papel da casa como referencial simbólico/ afetivo. Não se trata dessa ou daquela unidade residencial apontada como ponto de referência locacional; trata-se da casa de “dona sinhá”, ou seja, da casa de uma pessoa que faz parte do circuito afetivo do festeiro.
Tanto em Cachoeira quanto em Salvador, as localidades onde os folguedos populares são originários se empolgam com a performance estética dos grupos culturais que passam a ser porta-vozes não só de uma relação supostamente identitária no sentido do lócus, do lugar, quanto em um sentido mais abrangente, abarcando elementos multi-identitários ligados à africanidade. Trata-se, portanto, de uma forma de expressar essa tessitura de significados, de sentidos, cantando-se os nomes dos lugares, porque, segundo Giddens (2005), o ato de nomear traz consigo a ideia da diferença em uma perspectiva identitária.
No contexto da relação orgânica entre determinadas manifestações culturais e seus respectivos lugares de surgimento/eclosão, claramente identificadas pela acepção toponímica, nota-se uma tendência à valorização da projeção material da prática cultural.
Em Salvador, recentemente inaugurou-se o Museu do Ritmo em um antigo prédio revitalizado (antigo Mercado do Ouro). No ano de 2007, foi inaugurada a casa do Samba de Roda Filhos do Caquende, em um bairro periférico de mesmo nome em Cachoeira, e já existem projetos para se construir uma Casa do Samba nessa referida cidade, que congregaria todas as modalidades de grupos de sambistas do município.
Trata-se de uma museificação de folguedos populares em uma dimensão local? As municipalidades buscam através das formas espaciais expressarem um caráter de perenidade a alguns folguedos populares, o que pode evidenciar uma estratégia de patrimonialização cultural, exercitada em uma cidade notabilizada pelo seu acervo cultural material e imaterial. Nessa mesma linha de museificação urbana e formalização cultural, insere-se a proposição de construir um centro de cultura em Cachoeira, que traz consigo a ideia de centralidade cultural, na medida em que o interesse pela perenização da polaridade cultural e festiva por parte dos gestores públicos locais é explicitada em documentos oficiais, como o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano. A partir de uma política cultural da mesma natureza, inserem-se as proposições de construção de uma Casa da Cultura de Amargosa e de um Centro de Convenções de Cruz das Almas.
Os organizadores dos diversos folguedos de Cachoeira reinventam o lazer festivo, notadamente nas tardes e início da noite. A partir das 22 horas, no entanto, os grupos de grande projeção midiática canalizam as atenções do público.
No ano de 2007, por exemplo, enquanto que um grupo reduzido de rapazes cantavam sambas tradicionais para acompanhar a performance do bumba-meu-boi do ponto nodal do espetáculo festivo para a rua da Feira, seu local de origem, o grupo “Esmola Cantada” se apresentava, para posteriormente ceder o espaço no palco para as chamadas grandes atrações. No seu trajeto de retorno, o bumba-meu-boi era observado da janela por alguns poucos moradores, o que poderia ser indicativo de uma falta de relação orgânica entre o citado folguedo popular e a sua área de origem/deflagração. Diferentemente da burrinha de Amargosa, o bumba-meu-boi de Cachoeira é um folguedo integrado a sua comunidade de origem.
Segundo seus organizadores, quando o “boi sai” nas festas comunitárias a população local participa ativamente.
Desde as primeiras edições das festas juninas em Cachoeira existe uma política de valorização de facetas da diversidade cultural brasileira, adotada pela Bahiatursa e posteriormente seguida pela prefeitura.
Na década de 1970, existiram inclusive momentos de encontro, de interface entre as manifestações culturais locais/regionais e outras práticas culturais, como a Banda de Pífanos de Caruaru. Entretanto, a questão da inserção das manifestações culturais locais na composição programática das festas juninas de Cachoeira divide opiniões. Alguns grupos culturais questionam a inserção supostamente periferizada na estratificação cronológica desses eventos; a apresentação do samba de roda, reconhecido mundialmente como patrimônio imaterial, ocorre à tarde, em um horário de menor circularidade de turistas e moradores, como já se disse anteriormente, enquanto os participantes de outros folguedos populares, como o bumba-meu-boi, optam pela exibição mais cedo.
Existem ainda aqueles que são indiferentes e desejam apenas fazer parte da festa. É importante ressaltar que a própria natureza das festas juninas de Cachoeira, como um evento espetacularizado, prioriza aquelas atrações musicais de grande profusão midiática para gerar o chamado “efeito de arraste”, ou seja, encher a cidade de visitantes em uma cenarização com jogo de luzes, muitas imagens, massa festiva espremida nas áreas livres de edificação e nas edificações efêmeras. Quanto maior a fama do artista em um plano trans-escalar, maior o seu cachê.
Eventualmente nota-se algumas ilações de alguns turistas de eventos ou mesmo moradores de Cachoeira que argúem, sob uma atmosfera nostálgica, que várias manifestações culturais foram extintas nas festas atuais, nas quais se prioriza o forró eletrônico em detrimento das potencialidades culturais da referida cidade.
Como já salientado, no presente trabalho parte-se da concepção de reinvenção festiva de determinadas práticas culturais, que se modificam no translado histórico da dinâmica social na contemporaneidade, quando os meios de comunicação e informação mesclam, interpenetram e hibridizam as manifestações culturais em uma velocidade bem maior do que no passado.
Especificamente em relação à Cachoeira, pode-se afirmar que os mascarados, as fanfarras, cordões de jovens do carnaval e das micaretas do passado foram recriados e se fazem presentes na extensão profana da festa de Nossa Senhora da Ajuda, em novembro, assim como a venda de utensílios cerâmicos e de roupas estilizadas mantém a Feira do Porto como um evento cultural readaptado aos novos tempos.
O folião de Salvador ou de outras localidades que optou por passar o São João em Cachoeira, atraído pela ginga e estética corporal envolventes do samba de roda, pode ser o mesmo que se envolverá de forma efetiva na ginga dançante da axé music ou do forró eletrônico nas noites juninas da orla fluvial dessa cidade.
Apesar de se reconhecer a dinâmica cultural analisada sob a ótica das coexistências e da diversidade, deve-se destacar que em Cachoeira, diferentemente de Amargosa e Cruz das Almas existem muitas pessoas e alguns segmentos culturais que se contrapõem a esse modelo de festa junina espetacularizada em uma dimensão turística e reivindica a promoção de um evento festivo mais horizontal e espontâneo, na dimensão comunitária, a partir do protagonismo estético das manifestações culturais locais.
Não existem, no entanto, conflitos explícitos, mas apesar de ser a pioneira na promoção de festas juninas concentradas, essa modalidade de evento é vista com ressalva e com um relativo estranhamento por parte da população cachoeirana que valoriza como marca local outras manifestações como a festa de Nossa Senhora da Boa Morte, que acontece no mês de agosto, ou aderem a outra prática brincante: a festa de Nossa Senhora da Ajuda. Esses festeiros locais, no período junino, oscilam o seu raio de circularidade entre a dimensão da unidade residencial e o seu entorno imediato, como ruas adjacentes, valorizando a dimensão comunitária, na mesma noite na qual as chamadas “grandes atrações” se apresentavam para uma massa festiva formada por milhares de pessoas na orla fluvial.
Curiosamente, algumas pessoas de Salvador aderem a essa forma de experienciação do ciclo junino, enquanto que milhares de outras se deslocam para a macrofesta. São questões, embates, contradições das festas juninas de Cachoeira que podem descortinar um redesenho desses eventos em um contexto preditivo e que podem ser aprofundadas em outra pesquisa.
Dos carnavais na praça principal ao São João
espetáculo no Parque Sumaúma em Cruz das
Almas
Até meados da década de 1970, o carnaval de Cruz das Almas era a maior e mais importante festa em espaço público da cidade e apresentava-se como um evento festivo diversificado do ponto de vista cultural; era um dos mais tradicionais do interior da Bahia. Muitas manifestações culturais importantes se apresentavam em
praça pública, como Marujada,18 19 ternos diversos, burrinhas,
zabumbada,20 21 bumba-meu-boi, pranchas, caboclos, afoxés, rodas de samba, festival de violeiros, grupos de mascarados, blocos de índios, batucadas, grupos de dança que assemelhavam as escolas
de samba atuais, desfile do mandú, 22 entre outras manifestações festivas, que coexistiam com algumas práticas, consideradas uma novidade para a referida época, a exemplo dos trios elétricos. A partir de meados da década de 1970, desaparecem as manifestações lúdico/culturais e ficaram apenas os blocos de carnaval no entorno dos trios elétricos.
No final dos anos 1980, com a extinção do carnaval, os trios resistem à reengenharia da prática festiva urbana e aparecem centralizando as práticas festivas nas micaretas (carnavais fora de época) de 1989 e 1990 promovidas pela prefeitura local.
Do ponto de vista das suas manifestações festivas, a cidade de Cruz das Almas passou por expressivas mudanças espaciais e socioculturais nas últimas décadas. Em termos de dinâmica espacial pode-se destacar a invenção da tradição da festa junina concentrada no espaço urbano na Praça do Parque Sumaúma, a extinção dos bailes carnavalescos em clubes tradicionais da cidade e o surgimento de novas casas de shows e de novos espaços para deflagração festiva sazonal, como a fazenda Cabana do Bosque.
Ao iniciar o ciclo de festas juninas espetacularizadas no Parque Sumaúma, no ano de 1989, desaparece do calendário festivo de Cruz das Almas a micareta, que tinha substituído o carnaval de rua e de clubes. Por que será que algumas manifestações festivas se sobrepõem a outras? Os gestores públicos locais arguiam a exiguidade de recursos para manutenção de duas grandes festas em espaço público. Entretanto, outros fatores de natureza macro e micro-escalar devem ser destacados, como a cooptação mercantil das festas populares no período pós-anos 1980. É importante destacar que não são apenas as influências mercadológicas que explicam a falta de coexistência de determinados eventos festivos; existem também fatores de ordem comportamental ligados à construção do sujeito e da sua relação com a coletividade.
Referindo-se à moda, Baudrillard (1973) destacou, nos anos 1970, a importância da morte necessária do objeto como uma estratégia de estímulo ao consumo, alimentando assim a produção no mundo capitalista. O culto à efemeridade, destacado no segundo capítulo, pode ser enfatizado para entender não só os elementos tangíveis do espaço (BAUDRILLARD, 1973), como também os imateriais, o que inclui as festas.
O advento e crescimento de algumas manifestações festivas no espaço intraurbano ocorre a expensas da eliminação de outras? Saindo das ilações dedutivas e partindo para uma análise lastreada na dialogicidade teoria/empiria, pode-se questionar: por que manifestações festivas populares como os ternos de reis, as rodas de samba e as alegorias carnavalescas não persistiram para que, na atualidade, pudessem compartilhar a apropriação dos espaços públicos com as turmas dos mascarados da micareta, o São João de casa em casa e a festa junina concentrada no Parque Sumaúma em Cruz das Almas? A natureza binária da sociedade atual está assentada em aspectos ligados à oposição, anulação, disputa, disjunção; o par dialético velho/novo se conflita territorialmente, tanto no plano da materialidade como da imaterialidade; é como se a eclosão do novo necessariamente significasse o desaparecimento do antigo, do pré-existente. Isso acontece, por exemplo, com alguns projetos de renovação urbana em várias partes do mundo, fundamentados na edificação de novas composições arquitetônicas após a destruição de sítios históricos; ideias assentadas na concepção da tabula rasa.
Por outro lado, algumas manifestações festivas, ao serem reinventadas, deixam de apresentar alguns aspectos, o que leva algumas pessoas a utilizarem expressões como eliminação, descaracterização ou perda da identidade. A festa como patrimônio imaterial do povo também pode sofrer “varreduras” a partir da ação institucional, geralmente associada à natureza mercadológica da indústria cultural, ou alterar-se esteticamente, sendo recriada na dimensão horizontal do espaço banal.
Será que se pode falar em uma eliminação efetiva de uma prática festiva ou a categorização analítica a ser aplicada seria a reinvenção do lazer festivo no espaço urbano? No presente trabalho opta-se pelo segundo viés analítico.
Em breve cronologia acerca da dinâmica espacial das festas de São João em Cruz das Almas, pode-se afirmar que as manifestações juninas apresentavam até o início do século XX uma configuração difusa e predominantemente rural. Havia imensas manchas verdes separando os focos festivos e a nucleação urbana era incipiente. A partir de meados do século XX, apesar da área urbana da cidade ser pouco expressiva no referido período, notava-se um arranjo espacial que revelava maiores zonas de proximidade física entre os pontos das festas, assim como um incremento nos fluxos gerando maior conectividade, esboçando, assim, uma tessitura festiva mais coesa.
No final da década de 1970, na administração do senhor Claudemiro Dias Pamponet (1977 a 1983) houve uma tentativa de direcionamento e ordenamento da festa com a apresentação de grupos musicais na praça em frente ao mercado que é adjacente à praça principal. Como os espadeiros já haviam consolidado a Praça Senador Temístocles Passos como território pirotécnico apropriado, a iniciativa de inventar a tradição da festa junina urbana naquela época não foi exitosa. Além do temor as espadas, um dos fatores que se pode atribuir ao insucesso daquela empreitada foi a falta de um lastro midiático que procurasse reforçar o interesse do folião junino pela festa urbana concentrada nos moldes daquela que a Bahiatursa implantara em Cachoeira no início da década de 1970. Nessa época, a acessibilidade aos meios de comunicação de massa, que hoje tem um papel relevante na re/ engenharia dos hábitos comportamentais ligados ao consumo, como os televisores, por exemplo, era muito limitada, notadamente em unidades urbanas de pequeno porte, como Cruz das Almas.
No passado, o Clube de Campo Laranjeiras, realizou festas juninas no dia 23 de junho, data na qual ocorre a queima das fogueiras. As festas juninas no referido clube foram redimensionadas temporalmente quando começou o São João espetáculo da Praça do Parque Sumaúma. Neste caso específico, por que não houve simultaneidades entre os bailes juninos fechados e as festas juninas concentradas em espaço público? O evento festivo público se sobrepôs ao privado? Não acredita-se nesse processo colocado de forma excessivamente simplificadora no qual se atribui a extinção de uma manifestação festiva ao surgimento de outra. Em vez de um processo de fagocitose festiva, não seria melhor falar em ressignificação ou transformação na forma de fazer a festa? No contexto da crise espacial das festas juninas urbanas nos anos 1970, provocado pelas disputas territoriais com espadeiros, os foliões juninos inventaram a tradição das festas juninas em clubes, e, posteriormente, aderiram à iniciativa da administração pública local de promover a festa junina na Praça do Parque Sumaúma.
A palavra extinção ou fim de uma manifestação festiva deve ser repensada porque as mudanças socioculturais e socioespaciais são processuais e não se configuram, portanto, como eventos abruptos e cartesianamente pontuados e compartimentados. Os bailes juninos passaram por um processo de transformação, determinado por fatores endógenos e exógenos, se desterritorializaram de forma múltipla e diversa, não só como um evento/acontecimento de ordem espacial (transferência dos clubes para as praças ou arenas privadas), como também de ordem imaterial, que abarca a dimensão sociopsicológica. Muda-se não só o espaço material, como também a concepção de lugar festivo por parte dos usuários desse espaço.
Depreende-se, dessa forma, que as festas multipontualizadas das casas e aquelas concentradas no clube se reterritorializaram em eventos festivos reconcentrados em uma dimensão espacial mais ampla nas praças públicas ou em fazendas privadas, como a Cabana do Bosque.
Em 1989, na administração do prefeito Lourival José dos Santos (1989-1992), iniciou-se os ciclos de festas juninas urbanas espetaculares em Cruz das Almas, com a realização da primeira edição do chamado “Arraiá do Laranja”. A temática da festa se deve ao processo de citriculturalização do espaço agrário daquele município no período pós-crise fumageira. Na composição estética do espaço festivo, procurou-se destacar uma suposta nucleação urbana imersa em um mundo rural, prática recorrente nas festividades do ciclo junino na atualidade.
Nessa primeira experiência de festa junina concentrada na Praça do Parque Sumaúma, o evento teve uma dimensão espacial reduzida e ainda muito simples, se comparada à notabilidade da festa da vizinha cidade de Cachoeira.