Da casa à praça pública: a espetacularização das festas juninas

Notas

 

1 A Feira do Porto é um evento socioeconômico e cultural secular. Nas imediações do antigo porto de Cachoeira, comercializam-se produtos tipicamente regionais, aproveitando-se o fluxo intenso de pessoas circulando pelo sistema de transporte multimodal (hidroviário, ferroviário e terrestre). O período junino era o auge da Feira do Porto na medida em que ocorria um incremento no número de pessoas e uma maior oferta de produtos. Durante o ciclo junino, a feira extrapolava o seu papel de atividade econômica e passava a ser também um evento festivo importante. Aquela Feira como mercado periódico e evento cultural do passado, a partir do início dos anos 1970, se mesclou com a promoção turística das festas juninas por iniciativa da Bahiatursa, e, atualmente, apresenta uma dimensão mais simbólica e cultural do que econômica. Um dos pontos marcantes da Feira do Porto na atualidade é a comercialização de produtos cerâmicos durante o ciclo junino.

2 A espada é um artefato pirotécnico que varia de 10 a 30 centímetros de comprimento, apresentando um diâmetro que pode variar de 3 a 8 centímetros, feito através da mistura de pólvora, enxofre, barro e limalha de ferro prensados em um pedaço de bambu; possui um pequeno orifício em uma das extremidades que impulsiona o artefato de forma errante quando ocorre a combustão, produzindo uma luminosidade e um barulho característicos. Com a queima da pólvora ocorre o deslocamento em alta velocidade no sentido horizontal ou vertical. Todas as espadas são entornadas por um barbante espesso, mas, algumas delas apresentam algumas peculiaridades, como cores brilhantes, ou emitem uma sonoridade diferenciada. Não existe precisamente uma data ou evento específico que explique a origem da Guerra de Espadas na cidade de Cruz das Almas, no entanto, há relatos da utilização dos busca-pés no período junino do início do século XX.

3 Recentemente apresentou-se uma proposição de regionalização para território baiano em 26 territórios de identidades, que está sendo utilizada por órgãos oficiais do governo. Entretanto, no presente livro, adota-se a proposição de regionalização da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), que foi incorporada à pesquisa na sua concepção inicial, no ano de 2004. Segundo a SEI, Recôncavo Sul é uma porção territorial do estado da Bahia, que contorna a Bahia de Todos os Santos, com extensão de 10.015 quilômetros quadrados, situada nas coordenadas geográficas 12º >23’ a 13º 24’ de latitude Sul e 68º 38’ a 40º 10’ de longitude oeste, sendo formada por 33 municípios.

4 Dados de Saint-Clair de Castro Batista (2005) obtidos na Secretaria de Agricultura de Amargosa e em trabalho de campo durante a elaboração da sua monografia de graduação em Geografia na Universidade do Estado da Bahia, Campus V, Santo Antônio de Jesus.

5 Recôncavo Baiano nesse caso é diferente de Recôncavo Sul. Enquanto que Recôncavo Sul refere-se a divisão do estado da Bahia em regiões econômicas, adotado pela SEI, o Recôncavo Baiano, na visão de Costa Pinto (1958), Milton Santos (1959) e Fernando Pedrão (1998) é uma categorização histórico-cultural, socioeconômica e fisiográfica, formada pelos municípios que entornam a Baía de Todos os Santos e aqueles que compõem o Recôncavo Sul.

6 O sentido da palavra arena privada, aplicado ao longo desse trabalho, refere-se a uma modalidade de festas de camisa que ocorrem no período pré-junino e junino, sendo realizadas em fazendas ou áreas periurbanas. Nesses locais, delimita-se fisicamente o espaço festivo, que é separado do entorno por cercas, e monta-se um grande palco. Instalam-se edificações efêmeras e refuncionalizam-se edificações permanentes. No palco principal apresentam-se artistas famosos nacionalmente. Esses eventos do espaço privado surgiram nos anos 1990 e se consolidaram no decênio subsquente.

7 Os evangélicos não acendem fogueira e nem participam de determinadas práticas profanas do ciclo junino.

8 Segundo Deleuze e Guattari (1997a; 1997b; 1992) e Guattari (2005), na perspectiva incorporal, os processos de desterritorialização (abertura, abandono do território) e reterritorialização (recomposição do território) são intercambiáveis, na medida em que um não existe sem o outro. Dessa forma, entende-se que as pessoas desterritorializam e se reterritorializam constantemente, transitando assim por vários territórios. O território, nessa perspectiva, pode ser relativo tanto ao espaço vivido, quanto a um sistema percebido, no qual um sujeito se sente “em casa”, significando assim apropriação. No presente trabalho, acredita-se que em termos do território material acontecem processos semelhantes. Os festeiros juninos da atualidade apresentam uma dinâmica que alterna a fixidez (praça ou arena festiva) a mobilidade inter e intraurbana, configurando assim um arranjo espacial multiterritorializado.

9 O Festival de Verão é um megaevento musical que acontece no Parque de exposições de Salvador, reunindo badalados cantores da axé music e artistas ligados a outras modalidades musicais como o pop rock e o forró eletrônico, além de atrações internacionais. Trata-se de um evento de arena que reúne milhares de pessoas e que nos últimos anos teve transmissão ao vivo dos shows dos grupos musicais mais famosos pela Rede Globo de Televisão.

10 O Fazcultura é um programa de incentivo ao patrocínio cultural do governo da Bahia, com o objetivo de estimular a diversidade cultural no estado. Após aprovação do seu projeto pela comissão gerenciadora do programa, o proponente deverá procurar uma empresa patrocinadora e essa receberá um abatimento no imposto sobre circulação de mercadorias e serviços – ICMS.

11 A lei 8.313/91 permite que projetos aprovados pela Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC) recebam patrocínios e doações de empresas e pessoas, permitindo ao doador ou patrocinador a dedução no imposto de renda correspondente aos valores contribuídos em favor de projetos culturais. A lei Rouanet se constitui, portanto, em um mecanismo de estímulo à cultura através de incentivos fiscais.

12 O folguedo da burrinha ocorre em várias regiões da Bahia e em outros estados nordestinos. Trata-se de um artista que ornamenta com tecidos coloridos um cavalinho de pau, simulando o quadro de uma pessoa cavalgando. O folguedista exibe-se em movimentos dançantes circulares em praças públicas, estradas, zona rural, principalmente em períodos festivos. Segundo a TV Educativa da Bahia, que produziu um dos documentários da Série Bahia Singular e Plural sobre as Burrinhas, esse tipo de folguedo na Bahia apresenta a peculiaridade de acontecer de forma desgarrada de outras manifestações festivas do norte – nordeste brasileiro, como o bumba-meu-boi e os reisados. Na Bahia, as burrinhas se exibem ao som de pandeiros, violões e sanfonas em regiões como o Vale do São Francisco, o Sertão baiano e o Recôncavo. No caso específico de Amargosa, esporadicamente a burrinha já saiu às ruas juntamente com outras figuras míticas da cultura popular, como o bumba-meu-boi e o Jaraguá (folguedo inativo), que é uma ave assemelhando-se a uma ema. A burrinha de Amargosa foi introduzida naquele município por iniciativa do senhor Miguel da Luz Leal, na década de 1950.

13 A primeira edição do “Arraiá da Capitá” aconteceu na década de 1980. Esse evento deixou de ser realizado em alguns anos por causa de questões de ordem política e econômica. No ano de 2006 o “Arraiá da Capitá” voltou a ser realizado no Parque de exposições de Salvador, na Avenida Paralela, em uma megaestrutura de cerca de 70 mil metros quadrados. O evento é uma produção do grupo A Tarde, em parceria com Penteventos e Camarotes Marketing promoções. O “Arraiá da Capitá” pode ser considerado como uma festa de arena, que não utiliza camisas padronizadas.

14 Segundo Yi-Fu-Tuan (1980) o termo topofilia pode ser compreendido como o elo afetivo entre a pessoa e o lugar ou meio ambiente físico. Dessa forma, em uma dimensão topofílica, a concepção de lugar reveste-se de aspectos relacionados tanto à percepção e a afetividade quanto a atitudes e valores envolvidos nas relações com o meio ambiente.

15 Segundo Irving (2002, apud Bonsucesso, 2004), a Organização Mundial do Turismo considera a capacidade de carga como ao número máximo de pessoas que podem visitar um destino turístico ao mesmo tempo, sem causar destruição ao meio físico, econômico e sociocultural. Partindo-se das contribuições da professora Marta Azevedo Irving, Bonsucesso considera a capacidade de carga como sendo o limite da atividade turística, além do qual se produz uma saturação do equipamento turístico, podendo assim comprometer a satisfação dos visitantes.

16 O esmola cantada é um folguedo que surgiu no bairro Ladeira da Cadeia em Cachoeira entre as décadas de 1940 e 1950, com o objetivo de arrecadar fundos para se realizar a festa religiosa em homenagem a Santa Cruz, padroeira daquela comunidade. O grupo solicita os donativos entre os meses de agosto a novembro, abordando os moradores nas suas casas com cânticos religiosos animados com instrumentos tipicamente utilizados no samba de roda, como pandeiro, atabaques, viola e cavaquinho. Ao receber os donativos do morador, os integrantes do grupo substituem a ladainha religiosa pelo samba de roda em agradecimento a colaboração pecuniária recebida. O grupo esmola cantada começou a se apresentar no São João de Cachoeira na década de 1990.

17 O “segura a véia” é uma modalidade de samba de roda adaptada pelo senhor Avelino Ventura dos Santos no ano de 1973 como uma peculiaridade desse importante folguedo do Recôncavo baiano. Através da inserção de uma boneca imitando uma baiana colada ao seu corpo e de uma máscara de um velho, senhor Avelino Ventura, ou um dos seus filhos, dramatizam de forma cômica uma situação na qual uma idosa estilizada samba com um idoso nas costas. Da cintura para cima o corpo da velha é uma boneca, enquanto que os membros inferiores correspondem às pernas do artista. A cabeça do velho é a mesma do artista (com a introdução de uma máscara) e as suas pernas são postiças e ficam balançando lateralmente durante as exibições, o que dá a impressão de que se trata de uma pessoa carregando outra nas costas, provocando o fascínio do público, notadamente das crianças. O “segura véia” foi adaptado para ser uma peculiaridade do samba de roda Filhos do Paraguai, da cidade de Muritiba, criado nos anos 1970.

18 A Marujada é uma manifestação cultural que mostra as façanhas marítimas dos portugueses na época das grandes navegações, através de danças, cânticos e dramatizações, nas quais os participantes se vestem de marujos.

19 O terno no passado era um tipo de bloco carnavalesco no qual um grupo de pessoas se vestia de forma igual para brincar o carnaval. O terno de Reis era um ritual religioso e lúdico, enquanto que os ternos de carnaval eram práticas profanas sem conotação religiosa, a exemplo dos ternos de cão, nos quais as pessoas se pintavam de preto e saíam dançando de forma irreverente pelas ruas da cidade, uma prática ainda existente na festa do Senhor do Bomfim de Muritiba, no Recôncavo baiano. Dentre os ternos de Reis mais tradicionais de Cruz das Almas nas décadas de 1950 e 1960 pode-se citar o terno da senhora Abigail França (conhecida como Dona Dadinha).

20 Grupos de pessoas que se reúnem periodicamente em casas ou em ruas e praças para cantar músicas de forrós tradicionais e dançar ao som das zabumbas. Nas casas esses grupos são recebidos pelos proprietários que os convidam para degustar pratos típicos.

21 As pranchas eram caminhões enfeitados e com grupos musicais. Essa modalidade de carro alegórico se deslocava devagar pela praça da cidade, carregando garotas adolescentes vestidas de princesas, com trajes de época ou mesmo com fantasias carnavalescas. Os carros eram ornamentados, coloridos e criativos. A cada ano optava-se por uma determinada composição estética diferente. Era comum homenagear os elementos da natureza envoltos em seres míticos, como o peixe voador, as fadas, a cigarra gigante, entre outros, no carnaval de Cruz das Almas.

22 O mandú é uma fantasia na qual um homem coloca um adereço circular envolto de tecidos e fitas sobre a cabeça, escondendo o rosto e desfila pelas ruas da cidade ao som de batucadas, músicas tradicionais e cânticos geralmente de matriz afro-brasileira. O nome desta modalidade de expressão festiva se deve ao jeito desengonçado e irreverente dessa fantasia folclórica. Assim como em Minas Gerais a palavra “trem” é utilizada para designar uma coisa que não se sabe o nome, a palavra mandú faz parte do vernáculo baiano para denominar um objeto ou evento considerado estranho, diferente, de difícil categorização.

23 Em uma perspectiva geográfica, a ideia de centralidade está relacionada a um ponto ou local que reúne determinadas modalidades de bens e serviços e que atrai pessoas de outras unidades urbanas, no caso da escala regional, ou de outros bairros ou ruas de uma determinada cidade, no caso da escala local da dimensão urbana.

24 Esse espaço festivo foi demolido e no local construíram-se edificações residenciais.

25 Área fechada, assemelhando-se a um pequeno estádio, destinada à deflagração da guerra de espadas.

26 Segundo o professor Alino Matta Santana (1997) o Centro Educacional Alberto Torres, conhecido como CEAT , é um dos mais tradicionais colégios do Recôncavo Sul da Bahia. Inaugurado em 14 de março de 1948, no passado foi notabilizado no contexto regional pela boa qualidade de ensino. Até 1962, esta unidade de ensino era particular, mas, nesse referido ano passou a ser gerido pela Universidade Federal da Bahia. No ano de 1965, passou a fazer parte da rede estadual de ensino.

27 A expressão arborescente vem de árvore e pressupõe centralidade e hierarquia. A árvore apresenta uma configuração com raiz, tronco, galhos maiores e menores em um arranjo hierarquizado. O rizoma, na concepção de Gilles Deleuze e Félix Guattari (1995), não apresenta um centro, uma origem e nem um modelo hierarquizado.

28 Informação publicada no jornal A Tarde, de Salvador, no dia 15 de junho de 2006.