(Des)encontros trabalho-família: quem fica quando o trabalhador parte
2 - (Des)encontros trabalho-família
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Mas, afinal, quais sentidos assumiriam a vivência desse tempo? Conforme Batista e Codo (2007), o tempo é objetivação/subjetivação que orienta e dirige a vida humana. Nessa perspectiva, a rotina cumpre um papel orientador no dia a dia do indivíduo e pode ser um recurso para se enfrentar os desafios que se presentificam na vida cotidiana. A rotina cumpre a função de poupar energia e direciona esta para outras áreas da vida, quando necessário, como a capacidade do homem de adaptar-se a distintas situações, construir vínculos materiais e simbólicos e enfrentar o desconhecido. Estão inseridos nos procedimentos habituais as ações referentes aos cuidados com o corpo (higiene, nutrição etc.), a leitura, as atividades laborais e as de lazer, os gestos sutis e muitas vezes imperceptíveis, como um beijo de despedida antes de partir rumo ao trabalho, o ato de conferir a caixa de correspondências, entre outros.
Essas sucessões de fatos conhecidos e esperados remetem à noção temporal e à espacial, constituintes do território e da territorialidade, e convergem para a construção de elementos componentes da identidade, tais como a procedência do indivíduo, (seu(s) lugar(es) de origem), seus vínculos afetivos (familiares, companheiros(as), amigos etc.) e o que faz (atividade profissional, ocupação).
Tendo em vista essas considerações, podemos dizer, de forma sintética, que o tempo é uma categoria sociocultural e histórica que acopla a si a noção de espaço, sociabilidades e afetos com vistas a orientar o ser humano. Conforme o período histórico e o contexto referido, haverá transformações profundas na forma de se organizar a rotina e geri-la, bem como os vínculos estabelecidos em termos sociais e subjetivos.
Isso pode ser percebido de forma mais clara ao se retomar os sentidos e percepções da temporalidade humana, construídos historicamente, por exemplo, na era da Revolução Industrial na Inglaterra no século XVIII, época em que a vivência social do tempo foi reconfigurada, haja vista que outras formas de relações e subjetivação estabeleceram-se consoante às mudanças socioeconômicas, culturais e políticas do período referido. Uma parte significativa de indivíduos teve de refazer e reorganizar suas vidas perante as novas condições, principalmente a partir da relação com o trabalho no âmbito fabril, o que os fez abandonar cada vez mais seu passado sócio-histórico para se atirar diante de um futuro desconhecido, incerto e dinâmico que passou a ditar as novas regras cotidianas, instauradas nos gestos, ações, pensamentos e afetos.
Como relatamos, desde os primórdios instauradores da modernidade, a partir da Revolução Francesa, essas transformações têm se tornado perceptíveis. É curioso notar as modificações desse período, denominado como época das revoluções, por aqueles que ainda no século XIX registravam os efeitos de seu presente em transição, como Benjamin (1994a) e Simmel (1998, 2005). Além desses autores, também faremos menção a pensadores do século XX que se desdobraram sobre esse tema, como Blumenberg (1990) – que em sua
obra resgata o historiador suíço Burckhardt11 do século XIX – e Thompson (1998), ambos os autores tecem análises sobre as transformações do trabalho e seus atravessamentos no âmbito social, abrangendo desde fenômeno macro até os costumes e a intimidade.
Resgataremos de modo breve esse período de virada histórica, pois isso nos permite visualizar o delineamento do projeto de modernidade que temos discutido até aqui e também por se tratar de um processo aberto que trouxe com ímpeto modificações sociossubjetivas que continuam a reverberar nos dias de hoje, inclusive no contexto dos barrageiros.
Os supracitados autores, dos campos da história e da filosofia, identificaram profusas reviravoltas que se fazem ainda representativas. Vejamos quais foram essas: transformação da ciência (pretensão científica de uma fria objetividade em detrimento dos conceitos de felicidade e infelicidade, pois os desejos dos povos e dos indivíduos não tinham mais lugar nem credibilidade para o observador distante); paz ilusória e guerras iminentes; formas políticas e suas forças econômicas, dominadoras das nações mais poderosas sobre as subjugadas – modus
operandi 12 do capital que dividiu o mundo; avanços acerca da compreensão e do cuidado do sofrimento humano – lembramos que nesse período viveram Freud e outros importantes estudiosos desse tema, além de pensadores destacáveis que referenciam a ciência até
hoje13 (Gay, 1989).
Um período anunciado há dois séculos e que ainda se faz repleto de incógnitas: “Esse tempo constitui uma peça única em conjunto com a história dos nossos dias, e as suas forças destrutivas e construtivas actuam ainda hoje” (Burckhardt apud Blumenberg, 1990, p.90, grifo do autor)
Podemos perceber na referida temporalidade a impaciência e a pressa advindas das novas formas de locomoção que aproximaram distâncias, superaram velocidades e coligaram lugares, pessoas e culturas jamais vividas. Essa foi a era que deu início à revolução dos meios de transporte a ponto de chegarmos hoje à sociedade não apenas do automóvel, mas também da virtualidade conferida pelas redes. Diante dessas radicalidades, o filósofo alemão viu-se intrigado para compreender o sujeito da História, o “espírito da humanidade, que parece construir para si uma nova habitação” (Blumenberg, 1990, p.89, grifo do autor)
Essa “nova habitação”, deflagrada no projeto da modernidade, ainda persiste em seus efeitos e transições. Mediante essas transformações, uma das mais patentes é a relação com o tempo que figurava como um sentimento dominante de provisoriedade, instabilidade e incerteza, vindo a lançar todos na tempestade histórica irrompida por aquelas revoluções que tinham tanto a capacidade de mover e impulsionar quanto de destruir e naufragar.
Foi nesse âmago social-econômico que o tempo monetarizou-se, incrementando a racionalidade econômica do capitalismo, apontado por Castoriadis (2004). Essa dominação voltou-se para além dos espaços externos e internos. Externo, enquanto um sistema que alcançou abrangência mundial, mas também interior porque não repercutiu apenas no espaço da fábrica, mas na totalidade da sociedade e da vida humana, indo do consumo à educação, da vida política à relacional, do espaço da fábrica à família.
Ao resgatar sua constituição histórico-social, verificaremos que com isso sua minuciosidade fez-se mediante demarcações temporais do que viria a ser compreendido como os traços definidores das etapas do desenvolvimento humano (instaurados nas relações e nas instituições), com o surgimento da concepção de infância, adolescência, idade adulta e terceira idade. Disso decorre o imaginário do tempo como o de ser solteiro e ser casado; tempo de ter e não ter filho(s); tempo para escolher uma profissão e para ingressar no mercado de trabalho, entre outros. São delimitadas fronteiras do tempo, espaço e relações, construídas ideologicamente – especificamente do que convergiria para o dentro e o fora do trabalho. Passa-se a combater o ócio ao mesmo tempo que se instiga o lazer, ao menos enquanto elemento rentável para o mercado.
Nesse jogo extenuante comparecem na linguagem cotidiana as expressões denunciadoras dessa conjuntura: “não perder tempo”, “ganhar tempo”, “correr atrás do tempo [perdido]”, “não esperar o tempo passar”, “tempo é dinheiro”. Há um voltar-se para si no que diz respeito ao uso “produtivo” do tempo, um poder exercido pelo capital que sobrepuja a experiência temporal singular do homem – a partir de uma concepção marxista, Sennett (2008) afirma que o trabalho sem o controle do trabalhador transforma o tempo em produto. Seria a vivência temporal esvaída e esvaziada que, nas palavras de Blumenberg (1990, p.114), significa “[...] dar tudo por tudo para utilizar o tempo que lhe resta e não dar tempo a mais ninguém”.
Assim, vemos como essa moldura temporal do capital, voltada para a produção, toma conta da moldura territorial e existencial que abarca o mundo social e dos afetos, o quadro de vida que Milton Santos (2002) nos ensina. Passam a ser delineados, na monocultura capitalista, sofrimentos, prazeres, morte e vida, condizentes com essa lógica. Podemos verificar isso também na acepção de Blumenberg (1990), quando resgata a fala perplexa de Goethe em sua juventude que denunciava a transformação do mundo em inúmeras exigências “dantes podiam perder-se anos, agora nem um dia” (Blumenberg, 1990, p.32). Da perda de dias, hoje se exaspera por minutos e segundos. Dizem por aí: “não posso perder nem mais um segundo”.
Afinal, que tempo confuso é esse? Quais são os cálculos que operam racionalidades definidoras do que seriam ganhos e perdas? Com quem ficam o crédito e o débito dessa matemática tresloucada, capaz de trazer a vida e a morte tal como Pandora, que em sua bolsa carregava o bem e o mal. Pandora, suscetível de ser amiga e inimiga dos homens, ao dialogar com Brás Cubas (Assis, 1994), afirmava de modo incisivo:
Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que
passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jucundo,
supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o
outro, mas o tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísmo,
não tenho outra lei. Egoísmo, conservação. A onça mata o novilho
porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é
tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha. (Assis,
1994, p.11.)
Poderia ser essa onça o capital? Podemos pensar que sim, se verificarmos mais de perto como essa lógica é operada, quando Enriquez (1999a) demonstra os modos de controle social, principiados pela engrenagem organizacional que move o modo de produção capitalista. Entre as distintas modalidades de controle do social, constata-se que a maioria está assente na opressão (dissimulada ou não) que assume as formas de exploração e repressão. Juntas, elas enunciam o discurso da violência imediata e total, capturando os processos de subjetivação.
Exploração dos indivíduos e dos grupos totalmente submissos às
leis do capitalismo selvagem, que fazem dobrar os corpos e
corações, repressão que se exprime em todos os casos de
questionamento ou mesmo quando uma ameaça dessa ordem é
percebida aos olhos dos dirigentes. (Enriquez, 1999a, p.284, grifo
do autor)
Essa sinalização, realizada por Enriquez (1999b), é visualizável no material narrativo, em que os barrageiros, enquanto trabalhadores-migrantes, com seus familiares, são (in)conformados a essa lógica, e o tempo do trabalho sobrepuja o tempo da vida, em que a distância requerida pela atividade produtiva não permite conjugar a do núcleo familiar e a de sua rede social. Dobrar os corpos e os corações é engendrar um processo de resignação que produz no trabalhador um silenciamento sofrente ao tentar adaptar-se ao tempo-espaço-relação laboral em detrimento de outras vivências.
Isso pode se agravar mediante dois modos de controle destacáveis na atualidade, o controle dos resultados (pela competição econômica) e o controle organizacional (pela máquina burocrática). Estes prevalecem no universo das grandes organizações industriais, administrativas e prestadoras de serviço – remetem ao controle do trabalho e do rendimento que os indivíduos realizam como dever. O controle dos resultados é um dos mais sutis e modernos porque apela à iniciativa e inventividade de cada trabalhador em seu dia a dia.
O importante, para os grupos, organizações ou indivíduos, é o
sucesso nos negócios e na vida, sucesso reconhecido e invejado
pelos outros, indispensável, de qualquer forma, para se manter na
corrida e não se tornar desacreditado pelo sistema. A competição
se estende a todos os domínios: competição entre empresas,
concorrência interna entre departamentos, rivalidade entre os
indivíduos, entre universidades [...]. Todo mundo, pensando ter uma
chance de fazer parte dos vencedores e tendo interiorizado o
modelo da luta, aceita (mais ou menos bem) essa regra que dá à
vida pública e privada seu caráter de espetáculo e teatralidade [...].
(Enriquez, 1999a, p.285, grifo do autor)
Essa exposição se vincula à de Batista e Codo (2007), ao afirmarem que as recentes dinâmicas de inclusão e exclusão instalam-se entre os trabalhadores nos restritos e seletivos espaços de trabalho disponíveis. Os indivíduos têm seus interesses, projetos e sonhos dispersos ou circunscritos aos ideários das organizações. Séculos de luta e militância, para tornar o trabalho mais seguro e pautado em leis de proteção ao trabalhador, esvaíram-se em poucas décadas. O que persiste é a insegurança, a incerteza e a negociação permanente das condições de continuidade no emprego e, por sua vez, o prolongamento dessas consequências sobre o seu entorno social, familiar, afetivo e pessoal.
Tendo isso em vista, podemos avançar e apontar que a demarcação conceitual que faz prosseguir esse argumento é considerar o tempo símbolo social e cultural construído historicamente, o que refrata um processo de aprendizagem instaurado nas relações sociais e nos processos de subjetivação conforme o contexto em cena. Além de gerar experiências temporais distintas, trata-se de um processo civilizador, como afirma Elias (1998) em sua minuciosa análise Sobre o tempo. Nessa obra são explicitadas diferentes conjunturas histórico-sociais que propiciaram diversas relações do ser humano com o tempo, tanto em sua percepção quanto nos distintos dispositivos de medição e significação temporal.
Nesses termos, como experienciamos o tempo no capitalismo neoliberal e quais são os seus efeitos? Para falar a respeito, precisamos delimitar o que Birman (2001, 2006), Boaventura de Sousa Santos (2008) e Sennett (2008) identificam, a partir de diferentes campos de conhecimento: o colapso do longo prazo para ascender ao curto prazo. Isso faz o passado e o futuro serem canibalizados pelo presente, o que
oblitera o passado e apostasia o futuro14. Em função disso, os custos do presente são desmedidos.
Seus efeitos foram expressos na discussão de sintomas que assumem as formas de mal-estar atuais e caracterizam as subjetividades contemporâneas, aspectos cuidadosamente apreciados por Birman (2001, 2006). De modo similar, essas noções também são verificadas no campo social por Sennett (2008) e Boaventura de Sousa Santos (2008), ao encontrar os processos de esvaziamento de sentido do presente, o do passado mostrar-se indisponível (e mesmo desconhecido) e o do futuro ser algo ameaçador e temido.
Complementarmente a isso, Blumenberg (1990), em sua obra Naufrágio com espectador, ao partir de Lucrécio para pensar o naufrágio como metáfora da existência e ao passar por Schopenhauer para apontar o aspecto vinculado à memória, expressa a realidade que buscamos nomear:
Só a dor é que nos seria dada imediatamente, a satisfação e o
prazer poderíamos conhecer só mediatamente, pela recordação do
sofrimento e das privações passadas... A recordação de aflições
ultrapassadas seria precisamente o único meio de gozar os bens
presentes. (Blumenberg, 1990, p.83, grifo do autor)
Diante dessa assertiva, verificamos que o preço do esmorecer da memória e da história (individual e coletiva) não aguarda um futuro breve ou longínquo para estabelecer suas perdas, mas se faz sentir no próprio presente. Este, carregado de dor e de sofrimento que, em vez de ser ponte/substância para outras saídas e criações, encerra-se em si mesmo, inaugurando um ciclo de repetições incessantes e despotencializadoras, como se certificaram Birman (2001, 2006) e Boaventura de Sousa Santos (2008). Não se elabora aquilo que se não puder recordar. Apenas se repete. Freud (1996) já nos advertia sobre isso, tanto em seus estudos do mal-estar na civilização quanto do aparelho psíquico.
Por outros contornos tempo-espaço-relacional
Como se inscreveram no real essas transformações rompantes no tempo, espaço e relação operadas, prioritariamente, pelo trabalho no modo de produção capitalista neoliberal?
Para arguir, começaremos pelo mecanismo do relógio representando o capital, pois ele toma conta do tempo dentro e fora da fábrica, conforme Thompson (1998). Em seguida, traremos o tempo cronometrado como lógica do dinheiro e responsável pela dissolução das relações sociais, pautando-nos em Simmel (1998, 2005) e Milton Santos (2011). Por conseguinte, para conferir um pano de fundo em que duelam essas forças autômatas com as idiorrítmicas, recorreremos a Barthes (2003). Por último, prosseguiremos para as formas de controle social de Enriquez (1999a) a fim de explicitar como está disposto todo esse dispositivo. Nesse percurso, outros autores comparecerão para nos respaldar nessa proposição analítica.
Tal qual o dispositivo de um relógio, vemos um maquinário gigantesco sendo regimentado para a produção da mais-valia. Thompson (1998), historiador inglês de concepção marxista, atenta não apenas às consequências econômicas sobre a classe dos trabalhadores, mas também sobre a experiência e sua constituição histórica que forjam relações imersas em recorrentes conflitos. Nessa perspectiva, contextualiza que a atenção despendida no capitalismo moderno, para controlar o tempo no trabalho – mediante inúmeros artifícios que se sofisticaram conforme o capitalismo avançava no tempo, no espaço e nas relações –, tornou indispensável esse mecanismo de domínio temporal para lograr seu funcionamento. Ele é a força motriz, capaz de sincronizar o universo laboral com as exigências do capital, visto que é a força de trabalho humano (conjugada entre trabalho vivo e trabalho morto) que será distribuída em uma divisão social em escala local e planetária. Para se garantir a produção e o lucro, que não conhecem limites, estabeleceram-se padrões reguladores dos gestos e dos movimentos dos corpos ao talante das máquinas.
Isso gerou profundas transformações nos modos de ordenar a vida, dentro e fora do trabalho, ao coordenar (por que não condenar?) o uso do tempo conforme a lógica do mercador. Nesses termos, o marcador do relógio é um mero recurso do “grande mercador”, que aqui denominaremos de capital.
O que queremos dizer com isso? Que o marcador dos ponteiros do relógio na realidade reflete os prazos, as metas e todo o corpo infindável de exigências de produção. Sendo marcador do grande mercador, está em jogo o valor de troca, a mais-valia produzida pela força de trabalho consoante o mercado. O mercado, como vimos, obedece aos ditames neoliberais, e proliferam inovações e ocultamentos para sofisticar a exploração do labor. Isso se torna claro, quando passamos a associar de modo corrente tempo a dinheiro, o “correto” uso e emprego do tempo e toda a moral a ele associada – nitidamente apreciados por Thompson (1998) em seu texto Tempo, disciplina de trabalho e capitalismo industrial.
O tempo, na precisão dos relógios que adentraram nas fábricas no início da Revolução Industrial, conforme Thompson (1998), mais a lógica do dinheiro, anunciada por Simmel (2005), explicitam o poderio do capital na reorganização temporal, logo, sua abrangência dos registros social e subjetivo passam a ser calculados por meio do relógio que ultrapassa o espaço da fábrica e adentra nos lares e no cotidiano.
Simmel (2005) ilustra esses efeitos sociais, por exemplo, ao demonstrar o tempo de espera e a ocasião de uma viagem perdida. Para ambos, os acontecimentos, essas vivências, além de serem percebidos como perda de tempo irreversível, beiram à insuportabilidade. É o ordenamento tecnicista que invade todas as esferas da vida, efetuado principalmente nas grandes cidades, pautado pelo tempo fixo, cronometrado, regulado e sincronizado. As relações começam a ser pulverizadas: “na exatidão e na precisão de minutos da forma de vida, correm em conjunto rumo a uma formação da mais alta impessoalidade, atuam por outro lado de um modo altamente pessoal” (Simmel, 2005, p.581).
A existência humana encontra-se em suas minúcias amarradas a uma rede de interesses monetários. Estes são os pontos nodais que delinearam relações inscritas nessa lógica de modo a afastar gradativamente círculos familiares e de proximidade que poderiam constituir relações mais duradouras e aprofundadas. Essa afirmativa é analisada em um contexto em que o dinheiro amplia de modo inigualável vínculos entre diferentes homens, comunidades, cidades, estados e países por meio do novo modo de produção e comercialização em larga escala. Modos de produção anteriores ao capitalismo, como o feudalismo, não haviam propiciado uma vivência dessa amplitude (Simmel, 1998).
Não obstante, nessa tessitura social monetarizada, hábil para se aproximar no mesmo instante em que afasta, faz brotar o individualismo de modo mais vigoroso. Apontamento que o autor faz diante da propagação das relações anônimas, distanciadas e desinteressadas do outro. Esses vínculos reproduzem as condições sine qua non do mundo conduzido pelo dinheiro. Quanto a isso, Elias (1994) também partilha essa concepção, ao identificar nas cidades um trânsito de pessoas que perseguem seus próprios interesses e metas e que, mesmo estando próximas, fazem-se plenos desconhecidos.
Percebemos que ao mesmo passo que o dinheiro conferiu liberdade e ampliação do espaço de circulação, para oportunizar novas relações, também impôs restrições aos laços sociais: afrouxamento e cortes em prol do valor dinheiro. O rigor e a austeridade imposta pela lógica econômica afetam a vida em suas distintas expressões e dimensões, em que sua exatidão, seus cálculos e quantificações não produzem “um estilo generoso na condução da vida” (Simmel, 1998, p.14).
Quão atual se faz essa análise de Simmel (1998) ao vivenciarmos um período histórico em que a lógica do dinheiro radicalizou-se em um capitalismo financeirizado? Para estimar isso, basta verificar a leitura do geógrafo Milton Santos (2011), atento em observar os impactos humanos, originários da globalização econômica neoliberal. Sua reflexão concebe o dinheiro em estado puro, instalado em um sistema de perversidade, violência e totalitarismos – que o autor prefere denominar de globalitarismo à globalização. Essa noção impõe um novo ideário de riqueza, prosperidade e equilíbrio macroeconômico. Vemos os países integrantes desse sistema mundializado se reformularem, ao aderirem aos planos político-econômicos internacionais das agências multilaterais, o que resulta dívidas exponenciais.
São ainda o dinheiro e o consumo os grandes reguladores da vida individual e coletiva, como Simmel (1998) denunciava desde o século XIX. Afinal, se ele está “Fundado numa ideologia, esse dinheiro sem medida se torna a medida geral [...]” (Santos, M., 2011, p.56).
Não esqueçamos que estamos sob as marcas da economia do tempo em que o uso de um único relógio impulsiona um mesmo uso do tempo. Como dito, impera um relógio universal cujos ponteiros são movidos pela mais-valia universal no capitalismo financeiro. Suas engrenagens movem as atividades que constituem a vida cotidiana, encerrando existências. A tirania do tempo se faz pela tirania do dinheiro, pois se vivem cada vez mais a monetarização do cotidiano e a presentificação do dinheiro pelo fato de essas se tornarem também valor de troca.
O dinheiro move a economia e a deforma, assim como é capaz de levar seus tentáculos para todos os quadrantes da vida. Quem nos mostra isso, sensivelmente, materializando-se no dia a dia? É Jatobá (2006), na literatura, ao explicitar o cotidiano do operário que volta para casa exaurido do trabalho. Um tempo imposto pelo grande mercador que muitas vezes é esquecido e invisibilizado, quando ultrapassa os portões da fábrica, porém, não deixa de ser denunciável ao se expressar no corpo e nos afetos daquele que foi subjugado a essa lógica:
Não se nota muito, pois é o caminho de volta. Não tem horário a
cumprir. A hora da volta, a hora de se chegar em casa, não
marcada num cartão de ponto. O cansaço do dia tira a vontade de
reclamar. Alguns, dentro do vagão cheio, em grupos, mesmo sem
poderem bulir, encostados à porta, cantam. Modinhas que o rádio e
a televisão toca. Outros ainda conseguem tirar algum sorriso da
boca. Poucos. Heróis, acho. (Jatobá, 2006, p.55).
O dentro e fora do trabalho podem ser entendidos a partir de várias perspectivas em suas considerações, contudo, uma delas é destacável. Segundo Fausto Neto (1982), com o advento do capitalismo mais a intensificação do processo de urbanização, a sociedade passou a ser composta por duas unidades básicas: a fábrica (unidade produtiva) e a casa (unidade doméstica não produtiva).
O capitalismo e a urbanização são os coeficientes que geraram, nas sociedades contemporâneas, a especialização das atividades e da economia em larga escala. Para tanto, os empreendimentos domésticos e os tradicionais modos de trabalhar foram desaparecendo para dar lugar à fábrica, empresa, escritório, comércio etc., os locais por excelência de concentração do trabalho produtivo e vinculado prioritariamente ao gênero masculino. O lar, enquanto unidade reprodutiva, passou a se restringir à esfera doméstica, ao gênero feminino, tornando-se recluso e privatizado. Essa cisão entre unidade produtiva e reprodutiva pôde se manifestar de modo alusivo para dimensionar os (des)encontros trabalho-família dos barrageiros, especialmente por essa categoria profissional reiterar em suas relações esse rompimento, o que trouxe diversos desdobramentos.
Sennett (2008) assinala uma grande transformação, datada do século XVIII, quando casa e trabalho sofrem uma disjunção. Até esse período, a família era o centro físico da economia, produzindo e consumindo o que produzia. Os ofícios eram exercidos no próprio lugar de moradia. A fábrica tornou-se um lugar distante da moradia, o topos do exercício do trabalho. Este último, cada vez mais dividido e especializado.
Nesse período, avistamos a construção das clássicas separações entre o público e o privado; a família recolhida à esfera pessoal e o trabalho, ao espaço produtivo; a divisão social do trabalho e as relações de gênero. Podemos averiguar de modo mais detido a gênese desse processo e suas implicações nos estudos de diferentes autores e áreas de conhecimento como Perrot (1991), Sennett (2008) e Thompson (1998).
Com base nessas discussões, tencionamos instaurar diálogos que permitam situar as charneiras entre o dentro e fora do trabalho, entre o público e privado. Isto é, tendo em vista nossos objetivos norteadores, buscamos compreender os laços que unem e apartam o trabalho e a família, os locais de residência e profissional que, juntos, conformam modos de vida e dizem de um ser humano que não é diviso, mas ideologicamente foi dividido.
Trata-se de avistar os lugares de produção e reprodução. Buscar encontrar as relações de interdependência entre o espaço social e o econômico (o do trabalho e o da família dos barrageiros) para colocar em evidência as eventuais contradições, seus hiatos e ambiguidades. Diante das mudanças das cidades, fruto da migração laboral e das relações contemporâneas de trabalho, pretendemos compreender as trajetórias existenciais que se combinaram entre empresas, profissões, relações familiares e territórios de vida.
Interessante observar que o discurso dominante insinua que o trabalho ocupa apenas um curto período de vida que, geralmente, vigora por oito horas diárias. Todavia, com os diferentes teóricos referenciados, pudemos sinalizar como se deu a constituição desse imaginário, não apenas em virtude das transformações nas modalidades de trabalhar (sejam elas dentro ou fora de casa), mas do que se vive na instância doméstica e produtiva.
Com Dejours (2008), a partir da concepção da Psicodinâmica do Trabalho, ao focar os elementos intersubjetivos e intrassubjetivos que vigoram no contexto singular laboral, vê-se uma contraposição à tradicional afirmativa ao discordar da separação entre dentro-do-trabalho e fora-do-trabalho:
A relação subjetiva com o trabalho leva seus tentáculos para além
do espaço da fábrica ou do escritório, da oficina ou da empresa, e
coloniza profundamente o espaço fora do trabalho [...] ela é
radicalmente contraditada a partir do instante em que nos referimos
à dinâmica dos processos psíquicos e sociais. O funcionamento
psíquico não é divisível. (Dejours, 2008, p.103, grifo do autor)
O autor ainda assinala que a economia familiar é evocada pelo trabalhador, que no trabalho se engaja com o corpo, afeto e pensamento e que na luta contra o sofrimento e as contrariedades a serem enfrentadas no trabalho aciona seu círculo de relações mais íntimas para manter seu funcionamento psíquico.
Ao encontro dessa perspectiva, Lasch (1991) afirma que a família, para a classe trabalhadora, pode ser um importante recurso em sua luta pela sobrevivência. Essa menção também se reporta à discussão realizada por Franco, Druck, Seligmann-Silva (2010) ao exporem a situação do trabalhador precarizado:
O estreitamento do mercado de trabalho e o desmonte das
alternativas institucionais de proteção social alimentam esse
processo. No caso de trabalhadores migrantes que vivem sozinhos,
também faltam geralmente os suportes afetivos, o que favorece a
desestabilização psíquica, especialmente para aqueles que estão
submetidos à discriminação e ao isolamento social nos locais de
trabalho ou na situação de desemprego. Deve ser considerado,
também, o valor – na proteção contra a desestabilização da saúde
mental – dos apoios sociais e afetivos providos pelas famílias e, no
caso brasileiro, muitas vezes pelas comunidades de conterrâneos –
que oferecem casa e auxílio alimentar aos desempregados.
(Franco; Druck; Seligmann-Silva, 2010, p.241, grifo dos autores)
As transformações decorrentes dos desdobramentos da globalização econômica, além de atingirem o mundo laboral, trouxeram consequências também sobre as famílias, como afirma Oliveira (2007). A referida autora menciona que, na atualidade, a ciência e a humanidade têm como desafio lidar com as transformações intensificadas na década de 1990, a começar pela expansão do entendimento do conceito família que deve aprender a integrar a complexidade, suportar a ambiguidade e compreender os conflitos que reverberam os campos socioeconômico e político-ideológico.
A nova ordem mundial mergulhou a organização familiar em outros parâmetros. Temos de investigar e discutir esse cenário, ao integrar outras esferas que interferem e constituem essa organização social, para poder repensar decisões, impasses e possibilidades que envolvam escolhas e ações (individuais e coletivas) referentes à saúde, educação, moradia, bem-estar e qualidade de vida. Ao estudarmos a categoria socioprofissional dos barrageiros, pudemos dar visibilidade a esses processos e identificar generalidades e especificidades que retratam essa acepção.
Em suma, deparamo-nos com a necessidade de integrar um arcabouço investigativo, teórico-conceitual, em que seja reconhecida uma vivência do tempo que não se submeta totalmente à lógica do mercador e à do marcador, mas refrata a experiência humana nas tênues fronteiras do dentro e fora do trabalho em sua constituição e em seus processos de subjetivação. Dito de outro modo, poder explicitar os efeitos do tempo de trabalho que contrapõem o tempo de vida.
Por outros processos de subjetivação
O resultado disso, em um mundo onde ser cliente é mais importante do que ser cidadão, é a acumulação de capital para uma minoria à custa de um endividamento exorbitante para a maioria. Quanto à subjetividade, vê-se a reprodução, um círculo vicioso permeado pelo medo e desamparo. Um alimenta o outro, pois a busca desenfreada do dinheiro é tanto causa como consequência deles (Birman, 2001, 2006).
Um sistema perverso que deflagrou não somente uma guerra econômica, mas, sobretudo, entre os próprios seres humanos, como bem coloca Simmel (2005) ao ilustrar esse cenário:
O decisivo é que a vida citadina metamorfoseou a luta com a
natureza por obtenção de alimento em uma luta entre os homens,
de sorte que o ganho que se disputa não é concedido pela
natureza, mas sim pelos homens. Pois nisso atua não somente a
fonte mencionada da especialização, mas também uma mais
profunda: aquele que oferece precisa tratar de criar necessidades
sempre novas naqueles que corteja. (Simmel, 2005, p.587)
A psicossociologia evidencia esse aspecto na discussão que faz do cenário atual do trabalho. Vinculado à lógica neoliberal e individualizante, não é apenas o trabalhador que está reduzido a si na responsabilização por seu sucesso e fracasso, mas também exposto aos efeitos da compressão espaço-tempo-relação, advindos da exterioridade manifestada em urgências impostas pelas novas formas de gestão e labor. Com o anteparo da tecnologia que a um só tempo libera e escraviza como também gera possibilidades e traz cerceamentos, não são flexibilizadas as relações do trabalhador com os prazos limítrofes para um quantum infindável de atividades, mas são incrementadas à carga de trabalho para além do espaço organizacional.
Trabalha-se cada vez mais para além do escritório e da fábrica. Aprisionado na imediaticidade do real e dos prazos, o curto prazo propaga-se na corrida contra o tempo, exigindo dedicação e qualificação ininterruptas a fim de extrair eficácia máxima e ultrapassar marcas dos prazos e metas a serem batidas antes mesmo de atingidas.
A urgência do “isso era para ontem” é a força propulsora que tem tolhido vidas dentro e fora do trabalho, pois, nessa proposta, “Perder ou ganhar um minuto pode-se refletir em grandes perdas ou ganhos financeiros” (Carreteiro; Barros, 2011, p.218). De fato, nessa conta uma proporção é certa: menos tempo está para mais trabalho. Uma equação impiedosa em que a medida a ser alcançada é a financeira em detrimento de quaisquer outras referências.
Nessa ordem não se extrai apenas a mais-valia, mas realiza-se um rapto da própria vida dos indivíduos submetidos a ela. O comportamento maquinal se instala à custa dos desejos, sonhos e projetos existenciais. Vivências essas que os nossos narradores puderam refletir ao apontar a invasão do dentro do trabalho (espaço das hidrelétricas) sobre o fora do trabalho (o espaço doméstico). Isso se efetivou tanto pelo trabalhador exausto que chegava a casa e não participava de atividades familiares, pois tinha que cumprir os prazos enxutos e sucessivos turnos laborais, quanto o campo de dominação da empresa sobre a casa, escola, família e cenário de moradia.
Nessa perspectiva, a subjetividade torna-se anquilosada em seu movimento, como anunciaram Capitão e Heloani (2003) ao analisar as condições e exigências do mercado de trabalho na atualidade. O amortecimento do sentido da vida se expressa em formas de evitação do sofrimento e nas diversas doenças ocupacionais. Não deixam impunes as marcas do sofrimento, infligidas ao corpo e à subjetividade, ao serem cerceados em seu movimento, criação e indagação.
Nesse ponto, cabe-nos recorrer ao conceito seminal de idiorritmia15, de Barthes (2003, p.21), para dimensionarmos esse debate. Evocada por esse autor, essa terminologia possui origem na apreciação dos modelos religiosos, contudo, é relevante para nós sua releitura por ser um recurso para pensar “a história do nosso mundo”. Olharemos um pouco mais de perto essa reflexão para ponderar a cadência rítmica do grande mercador sobre os processos de subjetivação.
Com a imposição de distintas formas de controle social sobre a vida, fere-se aquilo que pretenda resistir, romper e desviar das normas do capital. Por isso, ao pensarmos a idiorritmia em seu campo semântico, podemos encontrar significados que se condensam e expressam a resistência ante o código imposto.
A idiorritmia possibilita reconhecer um ritmo próprio, atentar para a singularidade e subjetividade humana na vivência têmporo-espacial e relacional. Avista a existência de possibilidades de o sujeito modular a cadência heterorrítmica (imposição de um ritmo por outrem) de maneira a inserir-se em outra posição no código social. Com seu ritmo reavido, o indivíduo pode conjugar seu desejo (tempo de vida) com a estrutura social imposta (tempo de trabalho).
Barthes (2003) situa que idiorritmia seria um pleonasmo se não fosse a transição do significado de ritmo como algo sem fixidez, fluido e modificável para algo que passou posteriormente a ser entendido como fixo, regular e demarcado:
Remete às formas sutis do gênero da vida: os humores, as
configurações não estáveis, as passagens depressivas ou
exaltadas; em suma o exato contrário de uma cadência cortante,
implacável de regularidade. É porque o ritmo tomou um sentido
repressivo (veja-se o ritmo de vida de um cenobita ou de um
falansteriano, que deve agir de maneira regulada de perto pelo
relógio) que foi preciso acrescentar idios. (Barthes, 2003, p.16)
É essa contradição cerrada no termo que nos é interessante explorar. A subjetividade em sua força desejante e transformadora é capaz de interferir na história. Contudo, vive-se uma constituição de vida cerceadora com a lógica do grande mercador, como sinalizado até aqui. Posto isso, é sagaz a expressão de Barthes (2003) da heterorritmia, entendida aqui como uma sutileza do poder econômico hegemônico ao perpassar a idiorritmia (desejos e vontades) e gerar a disritmia. Toda uma manobra de controle é realizada, pois a atividade idiorrítmica é considerada uma marginalidade perigosa, resistente à integração e compactuação com a estrutura dominante.
Simmel (2005) continua a nos incitar a pensar nessa perspectiva com a sua categórica afirmativa do desencontro entre sujeito e trabalho. Sua proposição expressa as consequências da divisão social do trabalho e do desenlace social, operados pelo capital a partir do projeto da modernidade – o que deságua em uma realização exígua e subjugadora da subjetividade:
[...] o indivíduo está cada vez mais incapacitado a se sobrepor à
cultura objetiva. Ele foi rebaixado a uma quantité négligeable, a um
grão de areia em uma organização monstruosa de coisas e
potências, que gradualmente lhe subtraiu todos os progressos,
espiritualidades e valores e os transladou da forma da vida
subjetiva à forma da vida puramente objetiva, talvez de modo
menos consciente do que na prática e nos obscuros sentimentos
que dela se originam. (Simmel, 2005, p.588).
Barthes (2003) afirma que a utopia do viver-junto idiorrítmico não faz parte de uma utopia social, especialmente a marcada pelo cunho neoliberal. Um dos desafios primordiais do viver-junto seria encontrar e regular uma distância crítica, seja para além ou aquém do que produz a crise e gere possibilidades de um conviver que abarque a singularidade, desejos e vontades. Sendo assim, uma precípua distância a operar diante do tempo, do espaço e das relações que ultrapassem o ideário do grande mercador. Posicionados em determinada distância, poderíamos ponderar melhor a realidade e seus efeitos, logo, obter espaços de manobra para garantir a vida em suas expressões singulares.
Isso significa experimentar uma distância que não quebre o afeto e recaia em uma visão egoísta impeditiva do conviver, mas que venha garanti-lo. Seria no pathos das distâncias que poderíamos usufruir da
ternura16. Não um distanciamento da ordem da mesquinharia, higienismo e individualismo que na sociedade de consumo torna os espaços mais amplos um artigo de luxo e uma nova mercadoria a ser consumida. Não. O autor situa-a em uma categoria valorativa, ética e política, habitada pela delicadeza e as necessárias diferenças existenciais:
Delicadeza seria: distância e cuidado, ausência de peso na relação,
e, entretanto, calor intenso dessa relação. O princípio seria: lidar
com o outro, os outros, não manipulá-los, renunciar ativamente às
imagens (de uns, de outros), evitar tudo o que pode alimentar o
imaginário da relação = Utopia propriamente dita, porque forma do
Soberano Bem. (Barthes, 2003, p.260)
Com efeito, o viver-junto está para ser construído nas relações capazes de conjugar singularidades, podendo ser então aprendido, experimentado e vivido. Compor com distintas idiorritmias um ritmo coletivo entre tempo de trabalho e tempo de vida. Avistando isso, poderíamos viver-junto o tempo, o espaço e as relações de outro modo que não o seja da lógica do dinheiro proposta na monocultura temporal do capital. Por consequência, teríamos que redimensionar de modo conjunto, no campo social, o trabalho, tornando-o mais humanizador, bem como instaurar outros processos de subjetivação condizentes a esse intento, inclusive na vivência do trabalhador-migrante que continuamente tem de rearranjar distâncias afetivo-relacionais.
Caleidoscópios familiares
Os olhares das instituições educacionais, de saúde, sociais, culturais, políticas, econômicas, jurídicas e religiosas estão voltados, em distintos ângulos, de modo a penetrar nos poros da instituição familiar. Há um aparato normativo, discursivo e institucional pronto a defendê-la, culpá-la, adestrá-la ou normatizá-la. O peso sobre essa instância, exaustivamente presente em discursos e ações, pode ser visto numa acepção corrente: a família como a “célula mater da sociedade” (Fausto Neto, 1982, p.13).
Verificamos duas concepções sociológicas influentes que buscam explicar a instituição família a partir de dois eixos: 1-a sociologia tradicional, que a defende e a tem como refúgio e ordem social; 2-a sociologia, que a ataca por entendê-la como instituição repressiva e burguesa.
A primeira posição está calcada na função que a família possui para a sociedade, enquanto organizadora e mantenedora. É ela quem vincula o indivíduo ao socius, ao fornecer os papéis e valores sociais, a partir de um sistema sociocultural estabelecido. Desse modo, ela possibilita a inserção do indivíduo na sociedade. A família, nesse prospecto, é um subsistema societário, que garante a reprodução da vida individual e social mediante o processo de socialização e controle. Essa noção propõe o fortalecimento da família para que se possa garantir a manutenção da própria sociedade.
A segunda posição é uma reação contra a anterior. A família é entendida como uma instituição repressiva e burguesa com as finalidades de alienar e subjugar seus membros, especialmente as mulheres, jovens e crianças. Enquanto instituição, sua função seria manter o status quo. Quanto ao termo burguês, entende-se a coadunação que se fez entre família e formação social no modo de produção capitalista com vistas a garantir a propriedade privada e a perpetuação da sociedade de classes. Essa perspectiva advoga uma dissolução dessa instituição enquanto ameaça para a liberdade e autonomia do indivíduo.
Nessas duas posições, a família é reduzida a explicações ideológicas e culturais (de base econômica e social) que a circunscrevem no âmbito privado, tornando-a sem valor para o contexto mais abrangente. De qualquer forma, observamos que ambas as concepções são redutoras e simplistas.
Para ir além e encontrá-la em sua complexidade, devemos nos voltar aos modos de vida delineados na conjugação dos laços familiares com a realidade histórico-social da sociedade atual. Os autores a que recorremos nos abrem possibilidades compreensivas da família para irmos adiante do entendimento desta como unidade produtiva/ reprodutiva e poder avistá-la como recurso, uma rede de relações pessoais e afetivas diversificadas que podem ser acionadas ou não para lidar com questões de sobrevivência e de projeto de vida (em sua abrangência individual e social). Especialmente para explicitar os arranjos promovidos no grupo familiar dos barrageiros, trabalhadores-migrantes que, ao vivenciar distintas realidades de trabalho em territórios diversos, acabam por ter dinamizadas suas relações mediante um deslocamento de papéis, funções e gêneros.
Nessa perspectiva, a família se define fundamentalmente como um conjunto de sociabilidades e singularidades que se organiza, desorganiza e reorganiza, expressando distintos arranjos relacionais. Pode ser acionada ou não, pode ser solidária ou rival, expressar conflitos ou soluções conforme as situações vividas, inclusive as de trabalho. Quanto a isso, serão os nossos narradores, nos capítulos subsequentes, que conferirão vida, ao nos apresentarem seus modos de ser-trabalhar-viver envoltos nos (des)arranjos familiares. Entretanto, antes de chegarmos lá, precisamos falar um pouco mais sobre família.
Recuperando as temporalidades da família na
sociologia das ausências
A família não é algo novo, se considerarmos a dependência do ser humano ao nascer e por ser esse o primeiro grupo a pertencer, o qual se convencionou denominar de família. Contudo, enquanto instituição, da forma como a conhecemos na contemporaneidade, é recente, tanto por sua atual composição quanto por suas funções.
[...] o que entendemos por família (pai, mãe, filhos; esposa, marido,
irmãos) é uma instituição social recentíssima – data do século XV –
e própria da Europa ocidental, não existindo na Antiguidade, nem
nas sociedades africanas, asiáticas e americanas pré-colombianas.
Mostram também que não é um fato natural, mas uma criação
sociocultural, exigida por condições históricas determinadas [...]. Na
Antiguidade, família não era o que é hoje para nós (pai, mãe e
filhos), mas era uma unidade econômica constituída pelos
antepassados e descendentes, pai, mãe, filhos, genros, noras, tios
e sobrinhos, escravos, animais, terras, edificações, plantações,
bens móveis e imóveis – pessoas e coisas eram propriedades do
patriarca (despotes ou pater-familias). (Chaui, 2000, p.315-566)
Identificamos a historicidade em torno dessa instituição, principalmente ao atravessar intensas modificações a partir da modernidade. Todavia, é preciso avançar para conhecer o sujeito social e seus processos de subjetivação em relação a esse grupo. Reclamamos concepções que não venham prescindir as inúmeras composições e possibilidades que a família admite, mas que reconheçam seu caráter diverso e plural, para tanto, algumas releituras devem ser elaboradas sobre essa instituição – como aponta Beck-Gernsheim (2011).
Quanto a isso, há inúmeras publicações17 que este texto não poderia comportar em que a família ora é exaltada (tida como salvadora da sociedade e o recôndito do ser humano), ora é desconjurada (maldita e um entrave à liberdade e à sociedade). São duelos que pendem para o “familismo” ou “individualismo”, para a “instituição sagrada” ou a “instituição maldita”, um refúgio ou uma ameaça à existência, esperança e decepção.
Segundo Machado (2001), há pesquisadores que buscam encontrar o modelo geral e padronizado do que seria a família brasileira e aqueles que persistem em encontrar a diversidade de modelos e composições familiais. Não cabe aqui fazer uma análise exaustiva dessas tradições teóricas, mas assinalaremos algumas referências como pontos norteadores de nossa investigação e como justificativa de nossa escolha conceitual.
O primeiro passo é conceber que, ao investigar a família, deparamo-nos com uma diversidade de bibliografias e campos de saber que lançam olhares diversos e, muitas vezes, antagônicos. Usufruiremos desse sortimento. Com efeito, não partiremos de um consenso de autores e conceitos, mas buscaremos expor nos próximos tópicos os seminais dissensos das produções científicas sobre a família, debates que possibilitem interrogar e vislumbrar sua dinamicidade.
Perante isso, podemos problematizar: o que promove a diversidade, resistências, criações e reinvenções que desafiam a ordem vigente? Ao buscar tanger isso, esperamos encontrar não somente as forças conformadoras e reprodutoras, mas redescobrir o novo e o reinventar que há nessa instituição. Como? Para fomentar a discussão de família em sua historicidade dentro da nossa proposição teórico-metodológica, buscamos o conceito da sociologia das ausências em Boaventura de Sousa Santos (2002, 2004). Ao situar a temporalidade nesse aporte conceitual, podemos nos deparar com questões, fatos e existências que nos escapariam enquanto pesquisadores e atores sociais.
A linearidade temporal que se faz em juízos de valores e em regimes de verdade na ciência e na sociedade produz uma temporalidade e uma
simetria em sentido único18. Uma história que possui uma versão e voz oficial. Ela faz, por exemplo, emergir uma ideia de composição e funcionalidade de família que, se de um lado invisibilizam possibilidades diferentes de famílias, de outro tecem um imaginário do que seria a “boa e adequada”. São as duas faces da mesma moeda da monocultura
temporal linear19.
O que queremos dizer com isso? Nessa linearidade histórica, delimita-se para cada momento uma família, a de “ontem” seria a patriarcal, por exemplo, e a de “hoje”, a nuclear ou recomposta. Nessas redutas demarcações são ignoradas outras possibilidades que se refiram não apenas aos seus novos arranjos e composições, mas à própria perspectiva histórica em que diferentes formas e temporalidades podem coexistir.
Nesses preceitos, podemos tecer uma análise que busque recuperar as múltiplas experiências e modos de existências por meio das constantes reinvenções da família ao longo da História. Ao apreciar a coexistência de tempos que se efetivam na instituição familiar, verificamos que a dimensão “ontem” e “hoje” está presente e é a substância que possibilita delinear um futuro próximo, porém sem o apagamento do passado.
Esse caráter dinâmico reporta à “elasticidade” familiar contemporânea a que Sarti (2010) se refere para compreendê-la em seus laços esgarçados e inovadores que contrapõem um modelo idealizado e naturalizado. Remonta às análises de Beck-Gernsheim (2011) sobre os padrões difusos de relacionamento em que identificar seus contornos está cada vez mais complexo, principalmente a partir do século XXI; tanto para a política e a vida cotidiana quanto para o âmbito científico são inúmeras as questões que indagam o que e quem constituem a família hoje.